Rock gótico

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Rock gótico
Origens estilísticas
Contexto cultural Literatura gótica e romântica do século XVIII, surgimento do pós-punk na Inglaterra no final da década de 1970. Uma subcultura se estabeleceu em casas noturnas e clubes, como o batcave club, desde a década de 1980
Instrumentos típicos Guitarra, baixo, bateria (ou drum machine) e teclados
Popularidade Underground
Formas derivadas Horror punk  • Dream pop  • Ethereal wave
Subgêneros
Death rock
Gêneros de fusão
Dark wave  • Gothabilly  • Gothic metal
Outros tópicos
Literatura  • Subcultura  • Shock rock

Rock gótico (por vezes conhecido simplesmente como gótico, música gótica, ou por suas nomenclaturas em inglês: gothic rock e goth rock) é um gênero musical que emergiu do pós-punk no final da década de 1970. Suas raízes estão no culto da sonoridade sombria e melancólica de bandas pós-punk britânicas como Joy Division, Bauhaus, Siouxsie & the Banshees, The Cure, The Damned e The Sisters of Mercy.[1]

De acordo com ambos, Pitchfork[2] e NME,[3] as primeiras bandas pós-punk que adotaram uma abordagem niilista e tons góticos incluem Siouxsie and the Banshees,[2][3] Joy Division,[2][3][4] Bauhaus[2][3] e The Cure.[2][3]

É incerto definir qual foi o primeiro grupo ou trabalho que deu origem ao gênero, é notório que o disco The Scream de Siouxsie and the Banshees lançado em 1978 possui uma faixa intitulada "Switch" que já carregava uma atmosfera melancólica. O aclamado Unknown Pleasures de Joy Division de 1979 também é frequentemente citado.[5] Muitos críticos consideram o lançamento do single, Bela Lugosi's Dead, de Bauhaus, como o marco inicial do rock gótico.[6] O gênero logo ganhou adeptos durante a década de 1980.

O rock gótico se destacou devido a sua sonoridade mais soturna, com acordes menores ou graves, reverbs, arranjos sombrios ou melodias dramáticas e melancólicas, tendo inspirações na literatura gótica aliados a temas como tristeza, existencialismo, niilismo, romantismo sombrio, tragédia, melancolia e morbidez. Estes temas muitas vezes são abordados de forma poética. As sensibilidades do gênero levaram as letras a representarem o mal do século e a idealização romântica da morte e do imaginário sobrenatural. Alguns grupos (como Noctivagus,[7] Inkubus Sukkubus e Nosferatu) podem ainda incluir temas como paganismo e vampirismo em suas letras.

O rock gótico deu origem a uma subcultura mais ampla que inclui clubes, moda e publicações desde a década de 1980.

Contexto histórico e origens[editar | editar código-fonte]

Ao longo dos anos, o termo "gótico" foi usado como adjetivo e classificação de várias expressões artísticas, estéticas e comportamentais. Mas, em sua maioria, estas classificações não possuem nenhuma relação com o significado primitivo da palavra.

O termo "gótico", que originalmente significa apenas relativo a godos ou proveniente deles, foi usado a partir do início da renascença, para designar de forma depreciativa a produção cultural ocorrida entre os séculos XII e XV e posteriormente de toda Idade Média, a qual foi associado o conceito de "idade das trevas", em oposição à nova idade da razão ou da Luz: o iluminismo (XVII e XVIII). Mas nos séculos XVIII e XIX, por exemplo, gótico foi associado ao período medieval e aplicado à literatura. Além disso, o termo goticismo tem origem inglesa, gothicism, e relaciona-se apenas à literatura.[8] Gótico denota à arquitetura gótica, com grandes catedrais góticas.

Quimera na Catedral de Notre-Dame em Île de la Cité. As características da arquitetura gótica, como gárgulas, eram comuns em catedrais nos períodos religiosos e obscuros da idade média, consideradas como representações do grotesco, sombrio e sobrenatural.

O medieval, o melodrama, a melancolia, o obscuro e o sombrio acompanhavam a literatura gótica, que sempre esteve relacionada à criaturas místicas e grotescas como fantasmas, monstros e vampiros, localidades dramáticas, decadentes e remetentes a morte como castelos, ruínas, florestas e cemitérios, contos e simbolismos sombrios como o romance gótico, a névoa e a noite. O escritor americano Edgar Allan Poe foi um dos expoentes deste estilo na literatura. Obras como Frankenstein de Mary Shelley e Drácula de Bram Stoker também são considerados góticos.

Esculturas tumulares podem simbolizar, além da morte, tristeza, lamento ou melancolia, temas líricos comumente encontrados em canções góticas.

No entanto, durante o século XX do pós-guerra, elementos da literatura gótica ressurgem na era do expressionismo alemão da década de 1920, uma nova forma de cinema com temas sombrios de suspense policial e mistério em um ambiente urbano surgiu, personagens bizarros e assustadores, a imagem de artistas pálidos com cabelos negros, uma distorção da imagem devido a uma excessiva dramaticidade, tanto na atuação quanto na maquiagem, na cenografia fantástica de recriação do imaginário humano.

Toda essa forma artística iria ser incorporada no mundo da música durante a década de 1970, nessa década, novas formas de música com teor artístico e experimental dentro do rock estavam em ascensão. O desalento pessimista do movimento punk na Inglaterra era sinal de que há algum tempo, parte dos jovens já não via o mundo de uma forma colorida e otimista, a contracultura precisava expressar essas novas percepções do mundo, ela fez isso de diferentes maneiras e a subcultura gótica foi uma delas. O pós-punk e o rock gótico foram as primeiras diluições do movimento punk inglês no final da década de 1970. Numa época em que a disco music festiva e descompromissada dominava as paradas de sucesso, uma vertente do rock com canções introspectivas e misteriosas, letras que expressavam angústias e uma visão sombria e decadente da sociedade e trágica dos relacionamentos amorosos surgiu no Reino Unido. Bandas como Siouxsie & The Banshees, Joy Division, Bauhaus e The Cure misturavam efeitos eletrônicos, uma repetitiva e onipresente bateria e vocais dramáticos para cantar sua visão pessimista do mundo, inspirados em canções com atmosferas sombrias da década de 60 como "White Rabbit" de Jefferson Airplane, "Paint It, Black" dos Rolling Stones e "The End" dos The Doors, além das sensibilidades do expressionismo gótico.[9][10]

Características e elementos culturais[editar | editar código-fonte]

As principais características do rock gótico surgiram em meados da década de 1970, logo após o auge da cultura punk na Inglaterra, inspiradas no “faça você mesmo” que se mesclaram a uma situação de tédio cultural e decadência social, no niilismo e na chocante agressividade visual e sonora protagonizadas pelo movimento, só que com uma predileção por temas poéticos que misturam obsessão pela morte, decadência, obscuridade e romantismo. Parte das raízes do rock gótico estava também no glam rock de David Bowie e Roxy Music, e no rock alternativo embrionário e experimental de Nova Iorque do final da década de 1960 com o Velvet Underground. O surgimento do pós-punk serviu de inspiração para os grupos que mantinham a estética punk, porém, eram menos panfletários e mais artísticos, contestavam a existência e viam o mundo de uma forma mais negativa e poética do que seus antecessores. Muitos desses grupos caracterizavam uma ênfase na atmosfera sombria em suas músicas, acompanhando reverbs e melodias de guitarra e baixo, vocais muitas vezes cantados em tons dramáticos, graves, barítonos ou ecoantes. Visualmente, roupas pretas, muitas de couro no mesmo estilo sadomasoquista do punk, cabelos pretos e desgrenhados, maquiagens faciais pálidas e de aspecto fúnebre e chocante identificavam os primeiros admiradores do gênero. A despreocupação estética do punk deu lugar a uma nova valorização de estilos e conceitos artísticos, neo-românticos e dramáticos como uma fuga da ausência de conquistas sociais. A ideia era satirizar elementos do expressionismo, dando uma vertente musical teatral aos filmes góticos, bem como a decadência urbana, a marginália e as incertezas sobre o futuro que dominavam a juventude dos anos 70 e 80. Várias culturas "marginais" e movimentos artísticos literários influenciaram o rock gótico, além da literatura gótica, um dos mais importantes foi a tradição literária do romantismo e do mal do século que teve figuras expoentes como Lord Byron, bem como costumes da era Vitoriana, o romance sombrio de Edgar Allan Poe, elementos e símbolos da antiga cultura egípcia, a mitologia cristã, o surrealismo, o drama, citações de histórias de criaturas grotescas, vampiros e fantasmas presentes em obras de escritores como Mary Shelley, Bram Stoker, Gaston Leroux e parte da filosofia de Nietzsche compuseram uma colagem de referências culturais presentes em canções góticas. Clássicos de terror dos tempos do cinema mudo, de The Sorrows of Satan (1926), de D.W. Griffith ao mítico Gabinete do Dr. Caligari (1920) de Robert Wiene, filme cujas imagens trouxeram novos sentidos para uma nova geração de espectadores. O imaginário gótico aliava-se a um som com uma identidade visual, herdando ecos de uma literatura nascida no período romântico. O rock gótico ganhava forma sob uma entusiasmante paleta de referências. Segundo como é descrito a "trilogia sombria" do The Cure, composta pelos álbuns Seventeen Seconds, Faith e Pornography: "soturno, depressivo, asfixiante, hipnótico, decadente, fúnebre, com letras que nos remete à busca infindável por algo que nunca verdadeiramente existiu, a perda da inocência, o ódio pela realidade humana, a uma ilusão da qual não se escapa, a solidão e o desespero". Pornography foi considerado um dos álbuns mais sombrios da década de 1980.[11][12]

Nick Kent revisou um concerto do Siouxsie & The Banshees em julho de 1978, dizendo: “paralelos e comparações podem agora ser desenhados com arquitetos do rock gótico como o Doors e, certamente, Velvet Underground”.[13] O músico Bernard Sumner, integrante das bandas Joy Division e New Order, ao fazer um comentário sobre o filme da era expressionista Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens disse: “A atmosfera é realmente maléfica, mas você se sente à vontade dentro dela”.

História[editar | editar código-fonte]

Raízes e influências[editar | editar código-fonte]

Músicos e artistas da década de 60 e 70 como Alice Cooper abriram caminho para a teatralidade sombria do rock gótico.[14]

Já na década de 1960, a ascensão do rock artístico e o rock psicodélico decadente de bandas como Jefferson Airplane, Velvet Underground, Rolling Stones e principalmente The Doors muitas vezes iam contra a chuva de flores hippie, com composições melancólicas e introvertidas. A canção "The End" dos Doors literalmente significa "O fim", e era descrita como sombria e misteriosa em seu primeiro verso. Algumas bandas dessa época assumiam um tom macabro de encenação com o rock n' roll, inspirados nos filmes de horror e os clássicos de outras épocas - o que mais tarde seria utilizado por bandas de death rock e psychobilly. A diferença para o rock gótico é que a influência vem mais de filmes expressionistas que tinham uma preocupação com a ambientação, o pavor, a atmosfera sufocante. E os filmes genéricos feitos a partir de clássicos (como A filha de Drácula, Jovem Frankenstein, O retorno de Drácula etc.), exibidos em drive-ins, e os filmes B é que estão presentes na cena death. A relação entre as duas coisas é óbvia, esses filmes tinham um caráter irônico, não eram apenas sustos, acabavam por serem divertidos, engraçados mesmo. E o grande forte do death rock é a sua ironia, o humor negro. A estrutura musical dos anos 50 também foi aproveitada.

Nos anos 60 se iniciou uma fase de criação incrivelmente psicodélica no rock, talvez graças ao bem sucedido, disco dos Beatles. O Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band era altamente colorido e experimental, onde foram usadas técnicas que nem eram imaginadas na época para fazerem uma banda de quatro pessoas soar como uma orquestra inteira, instrumentos e sons diferentes, e as faixas foram imendadas umas nas outras. De outro lado bandas como os Rolling Stones mergulhavam em uma atmosfera mais requintada de diabolismo e decadência humana. Their Satanic Majesties Request, dos Stones, tinha uma abordagem sombria e perturbadora; um exemplo é a música Paint It Black do grupo, que possui vários covers de bandas góticas, um clássico melancólico onde Mick Jagger canta querer pintar tudo de preto e vê seu mundo se rendendo a essa cor. Poucas outras bandas da época escaparam da chuva de flores, paz e amor que os hippies evocavam sobre os anos 60, as que conseguiram fizeram de sua missão perturbar a mente de quem quisesse ouvir. Os Stones teriam que competir pelo título de majestade satã se o quisessem só para eles; na metade da década surge o Velvet Underground. Graças ao empurrão de Andy Warhol, rei da pop art, a banda se tornou um grande sucesso. Embora Andy tenha achado que seria uma boa ideia inserir a modelo Nico na banda ela realmente não se integrou muito. O primeiro disco recebeu o nome de Velvet Underground and Nico (cuja famosa capa desenhada por Andy, era uma banana), e após ele a modelo abandonou o grupo e migrou para uma carreira solo, com músicas igualmente melancólicas e sinistras. Andy Warhol acabou também por perder o interesse pela banda, mas a evocação de violência, vicio em sexo e drogas e todo tipo de perdição tinha que continuar, outros membros da banda já assumiam os vocais, mas Lou Reed acabou por tomar a frente. Em 1970 quando deixou a banda para seguir carreira solo ela se deu por extinta. Também o The Doors teve influência na música gótica; Jim Morrison se proclamou o "Rei Lagarto" dizendo que podia fazer o que queria, inclusive era muito cogitada o fato de tocar o que não se pudesse onde diziam que não se devia tocar. Ray Manzarek convenceu seu tímido amigo Jim que suas poesias dariam belas canções, enquanto ele tocava teclados, Robby Krieger guitarra, John Densmore bateria, e Jim ficou nos vocais. Jim Morrison demorou a se soltar, mas a bebida e as luzes da ribalta o fizeram, e em pouco tempo lá estava ele sendo expulso do Whisky a Go Go por tocarem The End, música cuja letra diz "Quero estuprar minha mãe e matar meu pai". Mais tarde, já famosos, participavam ao vivo do Ed Sullivan Show, onde eram vetados em uma parte de Light My Fire; sugeriram que ele não dissesse "menina não poderíamos estar mais chapados", se ao invés poderiam dizer "estar melhores". Mas Morrison não deixou por menos: cantou a letra como era. Sempre no mesmo caminhos em que os hippies espalhavam flores muitas outras bandas trilharam morte, desespero e polêmica até os anos 70.

David Bowie e o glam rock[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Glam rock

Nos anos seguintes, não se sabia mais para onde ir em termos psicodélicos. Foi então que um estilo de temas igualmente polêmicos aos daquelas bandas perturbadoras dos anos 60 e com uma nova e apelativa estética apareceu. Cheio de plataformas altas, maquiagem, brilhos e cílios postiços, o glam rock ganhou o território norte-americano, talvez graças as bonecas de Nova York, o The New York Dolls. A banda fazia um rock simples e básico, que posteriormente seria chamado de proto punk; porém sua estética feminina era o que chamava mais atenção: roupas de mulher, batom e maquiagem borrados em marmanjos de voz grossa e corpo peludo. A diferença entre eles e os personagens de David Bowie eram bem vísiveis. Mas foi assim que o glam ou (kitsch) foi trazido da Inglaterra para os Estados Unidos.

Outra invenção destacada de Bowie se chamava Ziggy Stardust, personagem encarnado pelo músico no disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars. Ziggy era um alienígena andrógino e bissexual, por isso Bowie tingiu os cabelos de ruivo, pôs uma maquiagem exagerada e roupas escalafobéticas com ar feminino e seguiu a turnê desse modo, acompanhado por sua banda The Spiders From Mars. Chegou uma hora que ninguém sabia quem era David Bowie e quem era Ziggy; o autor acabou por se fundir totalmente ao personagem.

Retrato artístico de David Bowie. Ícone do glam rock

Não só Bowie e seu famoso alien foram de fatal importância para a cena dark, mas também o T-Rex, o Velvet Underground, o ex-Stooges Iggy Pop e outros (Waiting for the Man, do Velvet Underground, e Telegram Sam do T-Rex, por exemplo, também receberam cover do Bauhaus). O Álbum Diamond Dogs (1974), de David Bowie possui músicas apocalípticas e sombrias como We are the Dead. O que fez a fama do cantor foi mesmo o glam rock, movimento do qual Bowie virou um ícone, baseado nas já citadas características (androginia, temas obscuros glamurizados, roupas escandalosas etc.). Definitivamente uma ponte muito próxima para o rock gótico, o glam rock surgiu para salvar a psicodelia da defasagem, mas oficialmente acabou em 75; as bandas que ainda faziam uso do experimentalismo, um pouco da estética e temas do glam acabaram por serem intituladas como punk, por isso, talvez, em 78 o termo estivesse entrando em desgaste. Logo convencionou-se re-intitular essas bandas como bandas new wave, e a Europa ocidental tratou de divulgar o termo, já que todas as bandas surgidas na 2ª metade da década de 70 eram new wave ou nueva olla ou nouvelle vague, não importando necessariamente seu estilo musical ou sua origem; depois de um tempo, também se tornou divulgado o termo pós-punk, principalmente na Inglaterra, que seguia o mesmo conceito de rotulação das bandas novas, mas ao invés de usar a expressão new wave, os jornalistas musicais preferiam o post-punk. A seguir, já no início dos anos 80, as bandas com visual e temas mais pops passaram a ser new wave, enquanto que as mais undergrounds eram pós-punk. Ainda então, bandas da subcultura gótica eram classificadas de ambas as formas. Mas posteriormente deixou-se o new wave para bandas com um visual mais colorido (um bom exemplo são os The B-52's) e para as bandas que adotaram uma tendência mais sombria acabaram por serem pejorativamente rotulados de góticos, ou darks, como ficou conhecido no Brasil; o fato é que acabou pegando essas nomenclaturas em todos os casos mencionados. Mesmo esteticamente, o glam preservava um lado noir (sombrio). Algumas bandas como Bauhaus e Specimen que estão entre as que deram origem ao rock gótico, não se diferenciam em quase nada das bandas incluídas no glam rock quanto à sua sonoridade. Da influência de Bowie ainda se pode dizer muito, tanto em música como em outros aspectos da subcultura. É muito provável que góticos usem ankhs só por causa dele.

O símbolo do Ankh. David Bowie usa um exemplar afiado para ferir suas vítimas como um vampiro, no filme The Hunger, de 1983. Elementos como a figura do vampiro, o Ankh e a trilha musical da banda Bauhaus, presente no filme, podem actuar num mesmo contexto. Possivelmente, através deste filme, o Ankh foi inserido na subcultura gótica.

No filme "Fome de Viver", Bowie interpreta um vampiro e usa um exemplar afiadíssimo para ferir a jugular de sua vitimas já que não tinha dentes afiados. Essa imagem também ficou marcada pelo fundo musical de quando ele saí à caça de uma presa com sua companheira ao som de "Bela Lugosi's Dead", da banda Bauhaus. Esta mesma canção surgia nos momentos iniciais de Fome de Viver. As qualidades performativas da banda, focadas aqui nos gestos e rosto do seu vocalista Peter Murphy, servia como uma luva à cena que os mostrava, dentro de uma jaula em plena atuação num clube sob o atento olhar de dois rostos que congeminam algo de sinistro que se sentia à ganhar forma. O Bauhaus traduziu o tom assombrado que aquela sequência exigia, lançado as pistas para um mundo de visões sombrias, por vezes mórbidas que entretanto, ganhara demais seguidores entre outros descendentes das mesmas heranças encontradas entre ecos do glam rock (sobretudo na inspiradora figura de David Bowie) e de mais recentes tendências em marcha no terreno pós-punk.

Algumas bandas não assumiram o termo e ficavam situadas tranquilamente entre esses movimentos, como Siouxsie & the Banshees e The Cure. Por outro lado, bandas com estilo musical claramente gótico buscavam calcar sua imagem com um estilo completamente diferente para evitar rotulações fáceis porém indesejadas. Um bom exemplo é o Fields of the Nephilim e sua aparência empoeirada de gangue criminosa do velho oeste norte-americano.

O rock gótico britânico[editar | editar código-fonte]

Em seu início, no final dos anos 70, enquanto a maioria das bandas punk focava em um estilo mais energético e rebelde, as primeiras bandas góticas britânicas eram mais pessoais e introvertidas, com elementos de movimentos literários como horror gótico, romantismo e niilismo. As primeiras bandas consideradas góticas foram: Siouxsie & the Banshees,[15] Joy Division,[15] The Cure,[15] Bauhaus,[15] etc. Embora, como já foi dito, nem todas aceitem de bom grado o termo.

Siouxsie Sioux em Long Island, Nova York, novembro de 1980

Siouxsie and the Banshees foram considerados um dos precursores do gênero. Seus dois primeiros álbuns foram monocromático, obscuro, com um muitos significados musicais como guitarras afiadas, efeitos carregados e tambores tribais. Seu primeiro álbum The Scream de 1978 com seu grande som cheio de espaço e distância, sua última faixa, “Switch”, já possuía uma atmosfera sombria e misteriosa. O disco foi citado como uma influência pelos músicos do Joy Division.[16] Join Hands de 1979 com sua atmosfera funeral inspirou muitas bandas mais tarde.[17] Siouxsie Sioux tornou-se um ícone com olhos delineados de preto maquiagem, batom e cabelo crespo desafiando a direção da gravidade. “Nightshift”, uma das faixas mais sombrias do álbum Juju, relata a história de um assassino que queria estar mais perto de seus amantes.[18] O grupo foi desde o início um grande sucesso na Inglaterra com canções como “Cities In Dust”, “Hong Kong Garden” e “Dear Prudence”.

Peter Murphy encarnando Drácula, durante um concerto do Bauhaus em 2006.

Bauhaus é considerada uma das bandas pioneiras do gênero. Surgiram em meados de 1978. “Bela Lugosi's Dead” é um épico com nove minutos de duração, seu single foi lançado pelo selo independente Small Wonder. Bela Lugosi foi um ator que ficou marcado pela interpretação do clássico Drácula, de Bram Stoker. Apesar de não ter sido exatamente um sucesso de vendas, a música definiu tudo aquilo que seria o rock gótico (guitarras fálicas distantes do resto dos instrumentos e um vocal que se mistura a todo o resto como que solto no espaço), e se manteve nas paradas independentes da Inglaterra por anos e anos. Como já foi dito, a ausência de cores e o inconformismo vinham da desconfiança no futuro, graças ao período nuclear da guerra fria, da cortina de ferro, e de crise econômica. Como se pode ver realmente, uma situação propicia para obscuridade e não para louros! A voz e os trejeitos de Peter Murphy, onde se via um comportamento meio glam (influências diretas dos primeiros álbuns solo de Iggy Pop, produzidos por seu amigo David Bowie) é uma presença forte e contribuiu para o culto da banda. O primeiro álbum do Bauhaus foi In the Flat Field, mas o segundo, de 81, Mask, revelou uma maior ambição musical dos “pais do rock gótico”. Os elementos eletrônicos misturados à já conhecida fórmula dark gerou um álbum considerado por alguns como ainda melhor que seu predecessor, e que teria dado origem ao que alguns chamam de darkwave. Entre as bandas mais conhecidas, até pelos não aprofundados no cerne gótico, além de Bauhaus, estejam ainda Siouxsie and the Banshees, The Cure e Joy Division.

Robert Smith e sua imagem de marca durante um concerto do The Cure em 2007

Robert Smith liderou a banda inicialmente chamada The Easy Cure antes de se tornar The Cure. Seu estilo é algo um tanto indefinível, mas como já foi citado, nem todas as bandas góticas se definem assim, pós-punk era a definição mais usada (por surgir depois do auge do punk rock). Na verdade o Cure teve várias fases. O primeiro álbum Three Imaginary Boys, de 1979, teve uma turnê de promoção que os levou a serem convidados para serem a banda de suporte de Siouxsie And The Banshees, banda bastante conhecida na cena pós-punk com o vocal feminino de Siouxsie Sioux. Robert Smith fora o guitarrista da banda. Após a edição do primeiro disco em 1979 e da coletânea Boys Don't Cry no início de 1980, o The Cure entra em seu período mais sombrio e obscuro, conhecido pela trilogia Seventeen Seconds, Faith e Pornography. Este período é considerado por uma parte considerável de fãs como a melhor fase da banda, no qual foram produzidas canções melancólicas e incontornáveis da sua carreira como “A Forest”, “Play For Today”, “Primary”, “Other Voices”, “Charlotte Sometimes”, “One Hundred Years”, “The Hanging Garden”, “A Strange Day” entre outras. A animada canção “Boys Don't Cry”, quando foi lançada em 1980 como parte da coletânea de mesmo nome não obteve o sucesso esperado, somente em 1986 quando foi lançada como single, tornou-se um hino da banda. Músicas como “In Between Days”, “Pictures of You” e “Friday I'm in Love” foram outros de seus grandes sucessos. A música dos Cure tem sido categorizada como rock gótico,[19] ainda que Robert Smith tenha dito em 2006 que “é patético que o 'gótico' ainda se cole ao nome The Cure”, considerando o sub-gênero “incrivelmente estúpido e monótono. Verdadeiramente lastimoso”.[20] Ainda assim, Smith afirma que “não somos categorizáveis. Suponho que fossemos pós-punk quando aparecemos, mas na totalidade é impossível. Eu só toco 'música Cure', seja lá o que isso for”.[21]

Ainda sobre este mesmo tema, Robert Smith, uma vez mais questionado sobre o assunto, em 2008, para a NME, respondeu:

Quando fizemos o álbum Faith em 1981, o gótico ainda não tinha sido inventado e éramos uma “raincoat band”. Estávamos a inventar o gótico com esse álbum e o Pornography. Mas nós não o éramos, estávamos apenas a tocar música emocional. Sentia-me um pouco desesperado na altura; a banda no seu todo era um pouco desesperante e pensávamos que ia acabar com o Pornography”.[22]

Andrew Eldritch, frontman e um dos fundadores do Sisters of Mercy.

Expansão musical[editar | editar código-fonte]

Embora originalmente considerado um rótulo para um número pequeno de bandas sombrias do pós-punk, o rock gótico possui hoje um espectro bem maior, se afastando de suas origens no pós-punk e ao longo dos anos abrangendo outros estilos e gêneros musicais, desde grupos mais tradicionais de hard rock e rock and roll, a exemplo de bandas como a americana The Cult e a finlandesa The 69 Eyes,[23] até a música eletrônica.

Com a evolução do gênero, outros estilos musicais foram se integrando mais à subcultura gótica e se fundindo mais a ele, que embora possam às vezes ser abordados de maneira distinta já parecem também coisas inseparáveis uma das outras.

Quando exportado para os americanos, o rock gótico chegou da Inglaterra para se tornar o death rock. Na Inglaterra a Batcave, club centro da disseminação desse estilo, abrigava noites regadas ao som de bandas como o Specimen e o Bauhaus. Nos Estados Unidos o estilo também ganhou várias casas e uma contraparte típica, o Christian Death, bandas como essas podiam se encaixar perfeitamente no rótulo gótico. Enquanto que o death rock, como é conhecido hoje, é povoado de zumbis, humor negro, carnificina, ferimentos, necrofilia e todo tipo de brincadeira com a morte, inspirado em filme de terror de orçamento baixo. Os Misfits (também ligados ao punk rock) foram os primeiros a apresentarem tais temas, outras bandas incluíam Samhain, 45 Grave, Zombina and The Skeletones, Cinema Strange entre outros. (Ver: Death rock).

Um advento que tomou a cena alternativa de 1990 era chamado industrial, esse tipo de música já havia sido muito bem vindo pelo gótico no fim dos anos 80, a paixão pelo sombrio novamente fez a união. Os góticos, como se sabe, podem olhar para o passado com uma nostalgia irônica, (pois a era vitoriana é transformada em um ambiente muito propício e aconchegante para isso, mas como se sabe, as coisas não são bem assim) já o industrial olha para o futuro com um pessimismo baseado no presente. O industrial legitimo era um acontecimento musical que já havia ocorrido vinte anos antes ou menos. Eram trabalhos que colocavam em questão até que ponto existiria musicalidade, na arte de fazer barulho. Os artistas desse movimento podiam usar qualquer coisa que fosse ruidosa, alterada e misturada eletronicamente de forma desincronizada para parecer com nada que fosse entretenimento à cultura popular. Podem ser citados aqui os experimentalistas eletrônicos do Cabaret Voltaire, a cozinha destruidora de Monte Cazazza e os concertos que mais pareciam um ataque à queima roupa do Throbbing Glistle. Dessa forma a música underground dançante feita para animar clubes em meados dos anos 90 recebeu o rótulo de "industrial" também.

diz o vocalista Trent Reznor da banda Nine Inch Nails (banda que propagou o gênero).[carece de fontes?] O gótico preza o feminino, ou o andrógino, a beleza, o sombrio, o poético, o teatral, etc. e a música eletrônica industrial é agressiva, masculina, raivosa, barulhenta, informatizada, científica e etc. Logo se percebe uma união onde os opostos se completam então. Dessa mistura surgiram os cybergoths e rivetheads, ambas as subculturas são centradas em música eletrônica mas também são vulgarmente associadas a subcultura gótica.

Referências

  1. http://blitz.sapo.pt/principal/update/2017-12-03-Vampiros-sombras-e-
  2. a b c d e Abebe, Nitsuh (24 de janeiro de 2007). «Various Artists: A Life Less Lived: The Gothic Box | Album Reviews | Pitchfork» (em inglês). Consultado em 16 de dezembro de 2014 
  3. a b c d e «NME Originals: Goth». NME (em inglês). 2004. Consultado em 16 de dezembro de 2014 
  4. Rambali, Paul (julho de 1983). 1 «A Rare Glimpse into a Private World» Verifique valor |url= (ajuda) (em inglês). The Face. Curtis' death wrapped an already mysterious group in legend. From the press eulogies, you would think Curtis had gone to join Chatterton, Rimbaud and Morrison in the hallowed hall of premature harvests. To a group with several strong gothic characteristics was added a further piece of romance. The rock press had lost its great white hope, but they had lost a friend. It must have made bitter reading. 
  5. Patterson, Spencer (19 de agosto de 2005). «'Unknown Pleasures' shows gloom with a view». LasVegasSun.com (em inglês). Consultado em 2 de agosto de 2019 
  6. Carpenter, Alexander (2012). «The 'Ground Zero' of Goth: Bauhaus, 'Bela Lugosi's Dead' and the Origins of Gothic Rock». Routledge. Popular Music and Society. 35 (1): 25–52. ISSN 1740-1712. doi:10.1080/03007766.2010.537928. (pede subscrição (ajuda)) 
  7. * "Marasmo a Cismar", Bulhosa books & Living (2008),ISBN 978-9-892017-07-5
  8. http://www.spectrumgothic.com.br/gothic.htm
  9. http://www.spectrumgothic.com.br/musica/estilos_musicais/rock_gotico.htm
  10. http://blitz.sapo.pt/principal/update/2017-12-03-Vampiros-sombras-e-rocknroll
  11. https://books.google.com/books?id=3ftHVmAonmoC&lpg=PA71&dq="cure"%20"pornography"&pg=PA72#v=onepage&q="cure"%20"pornography"&f=false
  12. https://www.allmusic.com/album/pornography-mw0000199022
  13. Kent, Nick. «Banshees make the Breakthrough live review - London the Roundhouse 23 July 1978». NME (29 July 1978) 
  14. Distefano, Alex (4 de junho de 2015). «The 10 Best Goth Bands». OC Weekly 
  15. a b c d (em inglês) Nitsuh Abebe.A Life Less Lived Pitchfork.com. 24-07-2007. "Familiar classics from the bands who turned out to be goth's godfathers-- Joy Division, the Cure, Bauhaus, Siouxsie & the Banshees-- but the heart of the thing remains England's 1980s goth heyday, where the urge to dance comes out in grim, grinding, relentless music for the fake undead: Look to the Sisters of Mercy's steamroller Temple of Love"
  16. «Playlist – Peter Hook's "Field recordings». Q magazine. 23 de abril de 2013. Consultado em 10 de janeiro de 2017. Siouxsie and the Banshees were one of our big influences [...] The Banshees first LP was one of my favourite ever records, the way the guitarist and the drummer played was a really unusual way of playing. 
  17. «Siouxsie and the Banshees: The Scream». The Mojo Collection. [S.l.]: Canongate Books. 2007. p. 413. ISBN 184767643X. Consultado em 14 de junho de 2013. The funereal follow-up, Join Hands (1979), inspired a host of gothic impersonators, none of whom matched the banshees' run of singles, [...]" 
  18. Petridis, Alexis (29 de setembro de 2006). «Back in Black». The Guardian. Consultado em 1 de abril de 2017 
  19. Robert Dimery. "The Cure Pornography" de Peter Notari. 1001 Albums You Must Hear Before You Die. ISBN 0789313715
  20. Sandall, Robert. "The Cure: Caught In The Act." Q. May 1989.
  21. «Smith seeks cure for writers' block». Yahoo.com. 6 de dezembro de 2006. Consultado em 28 de março de 2007 
  22. «The Cure's Robert Smith interview - Part Two». NME.com. 29 de outubro de 2008. Consultado em 29 de outubro de 2008 
  23. Kriegs, Masi (2004). «The 69 Eyes – Devils». Sonic Seducer (em alemão). Consultado em 15 de julho de 2012. Arquivado do original em 27 de dezembro de 2013  Parâmetro desconhecido |emitir= ignorado (ajuda)
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Fontes[editar | editar código-fonte]

  • Baddeley, Gavin, Goth Chic
  • Kilpatrick, Nancy, The Goth Bible
  • Hodkinson, Paul, "Goth:Identity, Style and Subculture"
  • Kipper, H.A., "A Happy House in a Black Planet"
  • Site "www.themaozoleum.com" e www.carcasse.com.br
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