Álvaro Cunhal

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Álvaro Cunhal
Álvaro Cunhal
Secretário-geral do Partido Comunista Português, Ministro sem pasta de  Portugal
Vida
Nascimento 10 de Novembro de 1913
Coimbra, Portugal
Morte 13 de junho de 2005 (91 anos)
Lisboa, Portugal
Dados pessoais
Partido Partido Comunista Português,
Profissão Secretário-geral do Partido Comunista Português, deputado, escritor e pintor

Álvaro Barreirinhas Cunhal (Coimbra, 10 de Novembro de 1913Lisboa, 13 de Junho de 2005) foi um político e escritor português, conhecido por ser um resistente ao Estado Novo, e ter dedicado a vida ao ideal comunista e ao seu partido: o Partido Comunista Português.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Juventude[editar | editar código-fonte]

Álvaro Cunhal, comício do PCP/APU no Porto em Setembro de 1980[1]
Álvaro Cunhal e outros dirigentes comunistas no Porto, a 5 de Maio de 1982, presentes no desfile e funeral de dois operários antifascistas mortos a tiro pela Polícia de Choque na véspera do 1º de Maio.[1] [2]
Álvaro Cunhal na República Democrática Alemã a 22 de Outubro de 1982.

Álvaro Cunhal nasceu em Coimbra, na freguesia da Sé Nova, filho de Avelino Henriques da Costa Cunhal, advogado de profissão, republicano e liberal, e de Mercedes Simões Ferreira Barreirinhas Cunhal, católica fervorosa.

Passou a infância em Seia, de onde o pai era natural. O pai retirou-o da escola primária porque não queria que o filho «aprendesse com uma professora primária autoritária e a menina-de-cinco-olhos» [3]

Aos onze anos, mudou-se com a família para Lisboa, onde frequentou o Liceu Camões. Daí seguiu para a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde iniciou a sua actividade revolucionária.

Em 1931, com dezassete anos, filia-se no Partido Comunista Português e integra a Liga dos Amigos da URSS e o Socorro Vermelho Internacional. Em 1934 é eleito representante dos estudantes no Senado da Universidade de Lisboa. Em 1935 chega a secretário-geral da Federação das Juventudes Comunistas. Em 1936, após uma visita à URSS, é cooptado para o Comité Central do PCP. Ao longo da década de 1930, colabrou com vários jornais e revistas como a Seara Nova e o O Diabo, e nas publicações clandestinas do PCP, o Avante e O Militante, com vários artigos de intervenção.

Em 1940, Cunhal é escoltado pela polícia à Faculdade de Direito, onde apresenta a sua tese da licenciatura em Direito, sobre a temática do aborto e a sua despenalização, tema pouco vulgar para a época em questão. A sua tese, apesar do contexto político pouco favorável, foi classificada com dezasseis valores. Do júri fazia parte Marcello Caetano [4] [5]


Oposição ao Estado Novo[editar | editar código-fonte]

Devido aos seus ideais comunistas e à sua assumida e militante oposição ao Estado Novo, esteve preso em 1937, 1940 e 1949-1960, num total de 15 anos, 8 dos quais em completo isolamento sem nunca, incrivelmente, ter perdido a noção do tempo. Mesmo sob violenta tortura, nunca falou. Na prisão, como forma de passar o tempo, dedicou-se à pintura e à escrita. Uma das suas produções mais notáveis aquando da sua prisão, foi a tradução e ilustração da obra Rei Lear, de William Shakespeare[6] .

A 3 de Janeiro de 1960, Cunhal, juntamente com outros camaradas, todos quadros destacados do PCP, protagonizaram a célebre "fuga de Peniche", possível graças a um planeamento muito rigoroso e a uma grande coordenação entre o exterior e o interior da prisão[7]

Em 1962 é enviado pelo PCP para o estrangeiro, primeiro para Moscovo, depois para Paris.

Ocupou o cargo de secretário-geral do Partido Comunista Português, sucedendo a Bento Gonçalves, entre 1961 e 1992, tendo sido substituído por Carlos Carvalhas.

Em 1968 Álvaro Cunhal presidiu à Conferência dos Partidos Comunistas da Europa Ocidental, o que é revelador da influência que já nessa altura detinha no movimento comunista internacional. Neste encontro, mostrou-se um dos mais firmes apoiantes da invasão da então Checoslováquia pelos tanques do Pacto de Varsóvia, ocorrida nesse mesmo ano.

Entretanto, foi condecorado com a Ordem da Revolução de Outubro.

Após o 25 de Abril[editar | editar código-fonte]

Regressou a Portugal cinco dias depois do 25 de Abril de 1974. Nesse mesmo dia, passeou de braço dado com Mário Soares, por Lisboa, como forma de ambos comemorarem o início da Democracia em Portugal, pois mesmo que divergissem ideologicamente, apoiavam um Portugal livre e democrático.

Foi ministro sem pasta no I, II, III e IV governos provisórios e também deputado à Assembleia da República entre 1975 e 1992.

Em 1982, tornou-se membro do Conselho de Estado, abandonando estas funções dez anos depois, quando saiu da liderança do PCP.

Além das suas funções na direcção partidária, foi romancista e pintor, escrevendo sob o pseudónimo de Manuel Tiago, o que só revelou em 1995.

Em 1989 Álvaro Cunhal foi à URSS para ser operado a um aneurisma da aorta, sendo recebido em Moscovo por Mikhail Gorbatchov o qual o agraciou com a Ordem de Lenine.[8] Nos últimos anos da sua vida sofreu de glaucoma, acabando por cegar.

Faleceu em 13 de Junho de 2005, em Lisboa, e no seu funeral (a 15 de Junho), participaram mais de 250.000 pessoas[carece de fontes?]. Por sua vontade, o corpo foi cremado.

Da sua relação com Isaura Maria Moreira, teve uma filha, Ana Maria Moreira Cunhal, nascida a 25 de Dezembro de 1960, a qual casou e tem dois filhos.

Álvaro Cunhal ficou na memória como um comunista que nunca abdicou do seu ideal.

Centenário do seu nascimento[editar | editar código-fonte]

Álvaro Cunhal, retratado por Xesko

No ano de 2013, tem inicio as comemorações dos cem anos de Álvaro Cunhal, através de centenas de iniciativas que percorrem a sua vida política, cultural e artística, bem como exposições em sua homenagem, relembrando a sua importância para a liberdade e a democracia conquistadas em Abril [9] .

Obras[editar | editar código-fonte]

Colectâneas[editar | editar código-fonte]

  • Obras escolhidas. Lisboa, Editorial «Avante!»:
    • Volume I (1935-1947), 2007. ISBN 978-972-550-321-8.
    • Volume II (1947-1964), 2008.
    • Volume III (1964-1966), 2010.
    • Volume IV (1967-1974), 2013
      • Coordenação, prefácio e notas de Francisco Melo.
      • Texto do prefácio do primeiro volume da obra

Intervenção política e ensaio[editar | editar código-fonte]

  • O Aborto: Causas e Soluções (tese apresentada em 1940 para exame no 5.º ano jurídico da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa). Porto: Campo das Letras, 1997.
  • Rumo à Vitória: As Tarefas do Partido na Revolução Democrática e Nacional. Edições Avante!, 1964.
    • As duas primeiras edições da obra são clandestinas.
    • 3.ª ed., Porto: Edições "A Opinião", 1974.
    • 4.ª ed., Lisboa: Edições Avante!, 1979.
  • A Questão Agrária em Portugal. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1968.
    • Reeditado após 1974 como Contribuição Para o Estudo da Questão Agrária. Lisboa: Edições Avante!, 2 vols., 1976.[1]
  • O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista. Lisboa: Edições Avante!
    • As duas primeiras edições, em 1970 e 1971, foram clandestinas.
    • A 3.ª edição foi publicada em 1974.
  • A Revolução Portuguesa: O Passado e o Futuro. Lisboa: Edições Avante!, 1976.
    • A 2.ª edição, de 1994, inclui o artigo A revolução portuguesa 20 anos depois.
  • As Lutas de Classes em Portugal nos Fins da Idade Média. Lisboa: Editorial Estampa, 2.ª edição, revista e aumentada, 1980.
  • O Partido com Paredes de Vidro. Lisboa: Edições Avante!, 1985. [2]
  • Discursos Políticos
    • 22 volumes editados entre 1974 e 1987
  • Acção Revolucionária, Capitulações e Aventura. Lisboa: Edições Avante!, 1994.
  • A Arte, o Artista e a Sociedade, Lisboa: Editorial Caminho, 1996. ISBN 972-21-1068-3.
  • A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril: A Contra-Revolução Confessa-se. Lisboa: Edições Avante!, 1999. [3]

Literatura[editar | editar código-fonte]

Autor de vários romances e novelas, publicados sob o pseudónimo de Manuel Tiago.

  • Até Amanhã, Camaradas. Lisboa: Edições Avante!, 1974
    • Adaptado como série televisiva pela SIC.
  • Cinco Dias, Cinco Noites. Lisboa: Edições Avante!, 1975.
  • A Estrela de Seis Pontas. Lisboa: Edições Avante!, 1994.
  • A Casa de Eulália. Lisboa: Edições Avante!, 1997.
  • Fronteiras. Lisboa: Edições Avante!, 1998.
  • Um Risco na Areia. Lisboa: Edições Avante!, 2000.
  • Sala 3 e Outros Contos. Lisboa: Edições Avante!, 2001.
  • Os Corrécios e Outros Contos. Lisboa: Edições Avante!, 2002.
  • Lutas e vidas: Um Conto. Lisboa: Edições Avante!, 2003.

Artes Plásticas[editar | editar código-fonte]

Traduções[editar | editar código-fonte]

A primeira publicação desta tradução fez parte do volume inicial da colecção Obras de Shakespeare[10] , que também incluía as peças Romeu e Julieta, traduzida por Luís Sousa Rebelo, e Sonho de uma Noite de Verão, traduzida por Maria da Saudade Cortesão.
A tradução foi realizada entre 1953 e 1955, quando Álvaro Cunhal se encontrava detido na cadeia de Lisboa [11] A publicação foi feita como se da autoria de Maria Manuela Serpa[12]


Notas

  1. a b Manifestações e protestos em Portugal
  2. Revista O Militante
  3. Contado por Álvaro Cunhal e relatado no Diário Popular de 10 de Maio de 1991. Cf. Pereira (1999).
  4. Editada em 1997, pela Campo das Letras (Porto), com o título: O Aborto: Causas e Soluções.
  5. PEREIRA, José Pacheco. Álvaro Cunhal: Uma Biografia Política. Vol I: «Daniel» o Jovem Revolucionário (1913-1941). Lisboa: Temas e Debates, 1999. ISBN 972-759-150-7
  6. Ver, infra, Traduções.
  7. PEREIRA, José Pacheco. Álvaro Cunhal: Uma Biografia Política. Vol. II: «Duarte», O Dirigente Clandestino (1941-1949). Lisboa: Temas e Debates, 2001 ISBN 972-759-419-0. Vol. III: O Prisioneiro (1949-1960). Lisboa: Temas e Debates, 2005.
  8. Vidas lusófonas - Álvaro Cunhal
  9. Agência Lusa. Arrancam comemorações do centenário de Álvaro Cunhal Diário de Noticias. Visitado em 31 de Janeiro de 2013.
  10. Editada em Lisboa, pela Tipografia Scarpa.
  11. Revista dos Antigos Alunos da Universidade do Porto|, n.º 18, pg. 34.
  12. «A tradução (e um conjunto de notas anexo) foi passada à família e publicada em 1962 num primeiro tomo das Obras Completas de Shakespeare, edição da Tipografia Scarpa, de Lisboa, sob a direção de Luís de Sousa Rebelo, com o pseudónimo de Maria Manuela Serpa.» diz-nos PEREIRA, José Pacheco. Álvaro Cunhal: Uma Biografia Política: O Prisioneiro (1949-1960), Vol. 3, Lisboa: Temas e Debates, 2005. ISBN:972-759-443-3.

Fontes[editar | editar código-fonte]

Para além das indicadas em notas, o texto baseia-se nas fontes seguidamente enunciadas.

Desde o nascimento até 1960, a obra de José Pacheco Pereira Álvaro Cunhal: Uma Biografia Política, referenciada na bibliografia.

Para a totalidade:

  • Álvaro Cunhal na página do Centro de Investigação Para Tecnologias Interativas da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
  • Álvaro Cunhal na Infopedia.
  • Álvaro Cunhal nas Vidas Lusófonas.

Para as obras publicadas:

  • O catálogo da Biblioteca Nacional de Portugal.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • AVILLEZ, Maria João. Conversas com Álvaro Cunhal e Outras Lembranças. Lisboa: Temas e Debates, 2004. ISBN 972-759-733-5
  • BRITO, Carlos. Sete Fôlegos do Combatente: Memórias. Lisboa: Nelson de Matos, 2010. ISBN 978-989-8236-24-1
  • CARVALHO, Miguel. Álvaro Cunhal, Íntimo e Pessoal: um Dicionário Afectivo. Porto: Campo das Letras, 2006. ISBN 989-625-037-5
  • CASANOVA, José. FILIPE, Dinis. Evocação da Obra de Álvaro Cunhal. Lisboa: Avante, 2006. ISBN 972-550-313-9
  • CUNHA, Adelino. Álvaro Cunhal: Retrato Pessoal e Íntimo: Biografia. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2010. ISBN 978-989-626-256-3
  • FERREIRA, Francisco. Álvaro Cunhal Herói Soviético. Águeda: edição do autor, 1976.
  • NARCISO, Raimundo. Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via. Porto: Ambar, 2007. ISBN 978-972-43-1231-6
  • PAIVA, Maria Valentina (entrevistas); BRINQUETE, José Saraiva (textos). Álvaro Cunhal: Ao Canto do Espelho. Vila Nova de Gaia : Calendário, 2006. ISBN 978-972-8985-08-0
  • PEREIRA, José Pacheco. Álvaro Cunhal: Uma Biografia Política. Lisboa: Temas e Debates:
    • Vol I: «Daniel» o Jovem Revolucionário (1913-1941), 1999. ISBN 972-759-150-7
    • Vol. II: «Duarte», O Dirigente Clandestino (1941-1949), 2001. ISBN 972-759-419-0
    • Vol. III: O Prisioneiro (1949-1960), 2005.
  • PIRES, Catarina. Cinco Conversas com Álvaro Cunhal. Porto, Campo das Letras, 1999. ISBN 972-610-177-8
  • RODRIGUES, Urbano Tavares. A obra literária de Álvaro Cunhal: Manuel Tiago visto por Urbano Tavares Rodrigues. Lisboa, Editorial Caminho, 2005. ISBN 972-21-1737-8
  • RODRIGUES, Urbano Tavares. Balanço Comovido da Ficção de Álvaro Cunhal.
  • RODRIGUES, Urbano Tavares; SANTOS, José da Cruz. É Tempo de Começar a Falar de Álvaro Cunhal. Porto: Asa, 2006. ISBN 972-41-4783-5
  • SILVA, João Ceú e. Uma Longa Viagem com Álvaro Cunhal. Porto: Asa, 2005. ISBN 972-41-4412-7
  • SILVA, João Céu e. Álvaro Cunhal e as Mulheres que Tomaram Partido. Porto: Asa, 2006. ISBN 972-41-4909-9
  • SILVA, Maria Augusta. Álvaro Cunhal: Obra Literária e Pictórica

Ver também[editar | editar código-fonte]

Textos de Álvaro Cunhal disponíveis na Internet[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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