Maria Luísa, Princesa de Lamballe

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Maria Luísa
Princesa de Lamballe
Cônjuge Luís Alexandre de Bourbon
Nome completo
Maria Teresa Luísa de Saboia
Casa Saboia
Pai Luís Vítor de Saboia
Mãe Cristina Henriqueta de Hesse-Rheinfels-Rothenburg
Nascimento 8 de Setembro de 1749
Turim, Itália
Morte 3 de setembro de 1792 (42 anos)
Paris, França
Assinatura
Arms of Maria Luisa of Savoy as Princess of Lamballe.png

Maria Teresa Luísa de Saboia (em italiano, Maria Teresa Luisa di Savoia), mais conhecida como a princesa de Lamballe, nasceu em Turim em 8 de setembro de 1749, no mesmo dia e ano que Yolande de Polastron, duquesa de Polignac, e morreu linchada em Paris, no dia 3 de Setembro de 1792, durante o que se convencionou chamar de "Massacres de Setembro de 1792", em plena Revolução Francesa.

Infância e Educação[editar | editar código-fonte]

Maria Teresa Luisa era filha de Cristina Henriqueta, princesa de de Hesse-Rheinfels-Rothenburg (1717-1778) e Luís Vitor, príncipe de Carignano (1721-1778). Descende de um ramo cadete da família real do Piemonte. Foi criada em Turim, na atual Itália, dentro de um padrão de educação tradicional e exclusiva, longe dos escândalos e complôs da corte. Tem uma infância doce, sábia e piedosa, traços de carater que vão levar um duque com sangue real a escolhê-la como esposa para o príncipe seu filho. O príncipe era um devasso e seu pai espera fazê-lo amadurecer dando-lhe uma esposa virtuosa.

Em Versailles[editar | editar código-fonte]

Maria Luísa (escultura deGeorge S. Stuart).

Maria Luísa desposa Luís Alexandre de Bourbon, príncipe de Lamballe, filho de um dos homens mais ricos da Europa, em 17 de Janeiro de 1767, por procuração, em Turim. Tornou-se assim membro de um ramo ilegítimo da Família Real Francesa por seu casamento, em 1767, com o filho do duque de Penthièvre, que, por sua vez, era filho do Conde de Toulouse e da princesa Maria Teresa de Modena, sendo o conde filho ilegítimo do rei Luís XIV e de Madame de Montespan.

O casal não conhecerá felicidade. Bem depressa o príncipe retoma seus hábitos amorais e abandona sua esposa, que busca refúgio com o sogro. Ela começa a desenvolver acessos de melancolia que a mergulham em crises de desmaios relativamente longos. Em 1768, seu marido morre de uma doença venérea.

A princesa encontra-se viúva e sem filhos com apenas 19 anos. Seu sogro guarda-a perto dele e, juntos, tornam-se muito ativos em diversas obras piedosas e caridosas. No ano seguinte, Louis Philippe d'Orléans, Duque de Orléans e príncipe de sangue, casa-se com a cunhada de Maria Luísa : Mademoiselle de Penthièvre pode ser de um ramo ilegítimo da Casa de França mas é também, depois da morte de seu irmão, a mais rica herdeira do reino.

No mesmo ano, após o período de luto que se seguiu à morte de Maria Leszczynska, esposa do Rei Luís XV de França, o partido dos devotos, sustentado por "Mesdames", como eram conhecidas as filhas do Rei, não conseguindo casar novamente Luís XV com a arquiduquesa da Áustria Maria-Elisabeth, voltam seus olhos para Maria Luísa. Ironia da sorte, assim como no casamento com seu falecido marido, aqui também se tenta associar Maria Luísa a outro homem escravo de seus sentidos. Mas o projeto de casamento naufraga por obra da Condessa du Barry, a nova amante do Rei, que, antes de se tornar oficialmente a favorita, não quer perder seu amante poderoso, que ela segura justamente pelos sentidos.

Em 1770, o delfim Luís-Augusto, futuro Luís XVI, casa-se com a arquiduquesa da Áustria, Maria Antonieta. É o primeiro encontro entre as duas mulheres; Maria Luísa tem vinte e um anos, Maria Antonieta, quase quinze.

A Princesa de Lamballe em 1781, pastel por Élisabeth Vigée Le Brun.

A partir de 1771, a Princesa de Lamballe frequenta mais e mais assiduamente a corte francesa e se aproxima da delfina, que vê nela uma aliada segura e uma amiga sincera. Tornando-se rainha, com a morte de Luís XV em 10 de Maio de 1774, Maria Antonieta continua a frequentar a princesa, mas rumores falsos e venenosos, lançados com o intuito de prejudicar e atiçados por inimigos da rainha, começam a manchar essa amizade. Mesmo assim, a princesa conserva seu carater piedoso e razoável, enquanto a rainha deixa-se levar por suas tendências cada vez mais frívolas.

Em 1775, a rainha oferece a sua amiga o título bem lucrativo de "Superintendente da Casa da Rainha", cuja tarefa consiste em organizar os prazeres de Maria Antonieta. Porém, rapidamente esta se dá conta que sua amiga (e prima) é muito séria para o emprego, não tem o estofo para a função e se entedia. Volta-se então para Yolande de Polastron, duquesa de Polignac, mais fresca e insolente. Se a rainha se descuida da princesa, esta não; porém parece claro que, durante um bom tempo, Madame de Polignac toma o lugar da amiga devotada.

Para ocupar seu tempo, a princesa parte para o campo, retoma suas atividades caridosas e entra para a maçonaria. Em 1781, é nomeada grã-mestra de todas as lojas escocesas regulares de França.

A Revolução[editar | editar código-fonte]

A Princesa de Lamballe durante a Revolução ; pastel atribuído a Danloux.

Em 1789, a Revolução Francesa se agita e a rainha começa a tomar consciência de seus erros. Torna-se mais séria e aproxima-se de novo da antiga amiga. A aproximação é tão real que a rainha solicita que Madame de Polignac deixe Versailles e parta para o estrangeiro, logo após a Tomada da Bastilha.

Em Outubro de 1789, a família real é levada para Paris e a princesa a segue em sua nova residência, o Palácio das Tulherias.

A princesa permanece como um dos últimos sustentáculos da rainha e sua amizade reforça-se ainda mais. Em 1791, a rainha a informa sobre seus planos de fuga para fora da França e a aconselha a seguir-lhe o exemplo. A família real é detida em Varennes, mas a princesa escapa por tomar a rota por Dieppe e Londres, munida de passaporte autêntico. As duas mulheres iniciam então uma abundante troca de correspondência na qual Maria Antonieta reafirma seus sentimentos de afeição pela princesa: "tenho necessidade de vossa terna amizade e a minha é vossa desde que vos vi", escreve-lhe ela em Junho de 1791.

No final do verão de 1791, a Princesa de Lamballe é encarregada por Maria Antonieta de uma missão - da qual ignora-se os motivos - em Aix-la-Chapelle, para onde realmente se dirige. Movida por um pressentimento, dita aí seus últimos desejos, em 15 de Outubro, nomeando o Marquês de Clermont-Gallerande seu executor testamentário. No final de 1791, a rainha suplica que a princesa não retorne a Paris, mas esta última, temendo pela segurança de seus bens, ameaçados por leis em preparação sobre os bens dos emigrados, e também por devotamento, retorna a Paris, retomando suas funções de superintendente no Palácio das Tulherias.

Coisa ignorada pela totalidade de seus biógrafos, a Princesa de Lamballe tinha acesso a fundos secretos do Ministério de Assuntos Estrangeiros e é pouco duvidoso que tenha, em diversas ocasiões, sido encarregada de levar despachos por conta dos soberanos franceses.

Seu passaporte de abril de 1791 lhe fora transmitido pelo Ministro Montmorin, e diz-se que a princesa fora encarregada de encontrar-se com William Pitt, o Novo, primeiro-ministro inglês, que lhe opôs um "direito de não-receber" (constitui termo jurídico que se refere a todo meio que tende a fazer declarar o adversário irrecebível em seu pedido, sem direito de agir). Apesar disso, ela evidentemente não permaneceu passiva durante os meses que precederam sua morte. A imprensa revolucionária divulgou logo uma denúncia lançada contra ela pelo comitê de vigilância da Assembléia Legislativa. Criticavam-lhe ter coordenado ou encorajado as atividades do "Comitê Austríaco", nome dado à célula secreta dirigida por Antoine Omer Talon, Maximilien Radix de Sainte-Foy e Charles-Louis Huguet de Sémonville (conselheiros secretos de Luís XVI) e financiada por fundos da Lista Civil. É possível que Maria Luísa representasse a rainha, que não podia se permitir aparecer diretamente. Este comitê, que dispunha também de um financiamento privado, pesou nas deliberações dos comitês revolucionarios e retardou a votação do decreto de desqualificação da monarquia.

A real existência do que se convencionou chamar "Conciliábulos da Corte" foi comprovada por numerosas peças originais descobertas no "armário de ferro" - cofre extremamente pessoal de Luís XVI. Elas apontam para um grupo de indivíduos - inclusive revolucionários de boa cepa - que teriam recebido dinheiro da Corte e que subitamente se sentiram ameaçados por testemunhas, tais como o Intendente da Lista Civil, Arnault de Laporte e a Princesa de Lamballe.[1] Acredita-se inclusive que um dos motivos que originaram os Massacres de Setembro de 1792 teria sido exatamente a eliminação dessas testemunhas inconvenientes.

O massacre[editar | editar código-fonte]

O Massacre da Princesa de Lamballe.

Em 10 de Agosto de 1792, uma multidão invade as Tulherias e a princesa segue a família real, que se refugia na Assembléia Legislativa. É quando é pronunciada a desqualificação do rei e decidido o seu encarceramento na Prisão do Templo. A Princesa de Lamballe faz parte do cortejo. Porém, dez dias mais tarde, são chamados todos aqueles que não pertencem à família real "stricto sensu". As duas amigas têm que se separar. A princesa é conduzida à Prisão de la Force.

Durante os dias 2 e 3 de Setembro de 1792, uma multidão armada com barras de ferro, lanças e porretes cerca as prisões de Paris. Segundo a reconstituição dos depoimentos da "secção dos Quinze-Vingts", a princesa é retirada de sua célula na manhã de 3 de Setembro,[2] sendo levada perante uma comissão improvisada às pressas pelos membros do comitê de vigilância da Comuna de 10 de Agosto. Em seguida, é instada a "nomear aqueles que recebia à mesa". Exige-se principalmente que testemunhe sobre a real conivência dos reis de França, Luís XVI e Maria Antonieta, com as potências da coalizão criada por governos europeus para sustentar a monarquia francesa e lutar contra a revolução. Ela se recusa e, por esta razão, é levada à morte.

É certa a tentativa de evitar um processo justo, em cujo decurso ela não deixaria de por em questão um certo número de revolucionários subornados pela Corte, como, por exemplo, Dossonville, Stanislas Marie Maillard ou o general Antoine Joseph Santerre, participante dos massacres junto com seu cunhado Etienne-Jean Panis.

Talleyrand, que ainda se encontrava em Paris nesse momento e que deveria embarcar para Londres no dia seguinte ao crime, relatou a Lord Grenville, secretário do "Foreign Office" (Ministério do Exterior inglês), que Madame de Lamballe fora morta na sequência de um equívoco atroz. Segundo ele, ao sair para o pátio da prisão, ela teria passado mal, e os assassinos à espreita, armados com pedaços de pau e lanças, acreditando que ela já teria levado o primeiro golpe, mataram-na com suas armas. Esta versão foi tomada como suficientemente séria e fez parte de um memorando para o ministério inglês, datado de 24 de Setembro de 1792.[3]

Post-mortem[editar | editar código-fonte]

Enquanto sua cabeça era levada na ponta de uma lança até a Torre do Templo, onde estava presa sua amiga Maria Antonieta, seu corpo era levado, vestido e preservado, até o comitê civil da secção dos "Quinze-Vingts". Finalmente, a cabeça foi também levada ao comitê, às 7 horas da noite, a fim de ser "sepultada com o corpo", no Cemitério dos Enfants-Trouvés.[4]

Sua morte originou uma série de testemunhos, largamente divulgados à época e até hoje, tanto entre os revolucionários quanto nos meios monarquistas e contra-revolucionários. Tais testemuhos devem ser considerados com reserva, já que traduzem menos a realidade dos fatos do que uma visão fantasiosa deles. Esses textos, que descrevem, com detalhes macabros, a morte, mutilação e exposição do corpo, abandonado em um canteiro de obras, próximo ao Châtelet até ao amanhecer, "exprimem os receios e lutas que animam os diferentes protagonistas da Revolução".[4]

Do lado revolucionário, foram apresentados os "cadáveres reparadores" das vítimas dos Massacres de Setembro, deixados sobre as ruas, como resposta ao complô fomentado de dentro das prisões e à ameaça externa.

Para Antoine de Baecque, a descrição mórbida da morte e dos ultrajes a que a princesa fora submetida visava "expressar a aniquilação do complô aristocrático". Ele considerava também que se pretendia assim "punir a mulher da Corte, tanto quanto a suposta conspiração feminina e lésbica - ameaçando a proeminência masculina - da Safo do Trianon, vilipendiada pelos cronistas e gazeteiros sob o Antigo Regime".[5]

Já os monarquistas utilizaram as mesmas descrições a seu favor, "alterando seu sentido para mostrar a regressão revolucionária ao estado de barbárie e a monstruosidade da Revolução, em oposição à delicadeza do corpo da vítima".[4]

Referências

  1. Olivier Blanc, Les Espions de la Révolution et de l’Empire, Paris, Perrin, 1995.
  2. Processo-verbal citado por Paul Fassy, La Princesse de Lamballe et la prison de la Force, Paris, 1868.
  3. Olivier Blanc, Portraits de femmes, artistes et modèles à l’époque de Marie-Antoinette, Paris, Carpentier, 2006, p. 204-5.
  4. a b c Antoine de Baecque, Les Dernières heures de la princesse de Lamballe, L’Histoire, n° 217, Janeiro de 1998, p.74-8.
  5. Sobre as relações entre Maria Antonieta e a Princesa de Lamballe e seu suposto lesbianismo, pode-se levantar comentários do pouco confiável Pidansat de Mairobert, contidos nas Mémórias secretas para servir à História da república das letras na França desde 1762 até nossos dias de Bachaumont (1775), ou os panfletos obscenos tais como Furores uterinos de Maria Antonieta ou Vida de Maria Antonieta de Áustria de Charles-Joseph Mayer. Ver Mémoires secrets e Fureurs utérines de Marie-Antoinette, femme de Louis XVI.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Raoul Arnaud, La Princesse de Lamballe, 1749-1792 : d’après des documents inédits, Paris, Perrin, 1911, 397 p.
  • Dr Cabanès, La Princesse de Lamballe intime (d’après les confidences de son médecin). Sa liaison avec Marie-Antoinette. Son rôle secret pendant la Révolution. Nombreux documents inédits, Paris, Albin Michel, 1922, 516 p.
  • Jacques Castelnau, La Princesse de Lamballe, Paris, Hachette, 1956, 223 p.
  • Michel de Decker, La Princesse de Lamballe : mourir pour la reine, Paris, Pygmalion-G. Watelet, 1999, 293 p.
  • Michel de Decker, La Princesse de Lamballe, Paris, Perrin, 1979, 283
  • Antoine de Baecque, Les dernières heures de la Princesse de Lamballe, L'Histoire, n° 217, Janeiro de 1998 : artigo em que o historiador mostra a inexatidão das monstruosidades sofridas pela Princesa.
  • André Du Mesnil Bon de Maricourt, Princesse de Lamballe (1749-1792), Les Contemporains, n° 664, Paris, 5 rue Bayard, 1905, 16 p.
  • Eugène-Louis Guérin, La Princesse de Lamballe et Madame de Polignac, 2 vol., Paris, C. Lachapelle, 1838
  • Évelyne Lever, Marie-Antoinette, Paris, Fayard, 1991, 736 p.
  • Blanche C. Hardy, The Princesse de Lamballe, a biography, Londres, A. Constable, 1908, XVI-317 p.
  • Sir Francis Montefiore, The Princesse de Lamballe : a sketch, Londres, R. Bentley, 1896, 210 p.
  • Adolphe Mathurin de Lescure, La Princesse de Lamballe, Marie-Thérèse-Louise de Savoie-Carignan, sa vie, sa mort (1749-1792), d’après des documents inédits, Paris, Henri Plon, 1864, 480 p.
  • Albert-Émile Sorel, La Princesse de Lamballe, une amie de la reine Marie-Antoinette, Paris, Hachette, 1933, 240 p.
  • Alain Vircondelet, La princesse de Lamballe, Paris, Flammarion, 1995, 273 p.

Iconografia[editar | editar código-fonte]

  • Olivier Blanc, Portraits de femmes, artistes et modèles à l’époque de Marie-Antoinette, Paris, Didier Carpentier éditions, 2006.