Baleia-de-minke

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Baleia-anã

Baleia-anã
Comparação entre os tamanhos de uma baleia-anã e de um mergulhador
Comparação entre os tamanhos de uma baleia-anã e de um mergulhador
Estado de conservação
Status iucn3.1 LC pt.svg
Pouco preocupante
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Subclasse: Eutheria
Ordem: Cetacea
Subordem: Mysticeti
Família: Balaenopteridae
Género: Balaenoptera
Espécie: B. acutorostrata

Nome binomial
Balaenoptera acutorostrata
Lacépède, 1804
Distribuição de B. a. acutorostrata e B. a. scammoni
Distribuição de B. a. acutorostrata e B. a. scammoni
Cetacea range map Antarctic Minke Whale.png
Distribuição de B. bonaerensis
Distribuição da baleia-minke-antártica-anã ou pigmea
Distribuição da baleia-minke-antártica-anã ou pigmea

Balaenoptera acutorostrata (Lacépède, 1804), popularmente conhecida como baleia-anã, baleote[1] , baleia-minke e finbeque (na região dos Açores), é o rorqual de menor porte pertencente à subordem Mysticeti. Sendo membros da família Balaenopteridae,[2] estes mamíferos marinhos caracterizam-se por possuírem barbas em vez de dentes (230-360 barbas por cada lado da maxila superior), uma forma corporal elegante e uma série de pregas (50-70) que se localizam na zona ventral da cabeça.[3]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

Balaenoptera se origina da junção do termo latino ballaena, "baleia"[1] e do termo grego pterón, "asa"[4] . É uma referência a suas longas barbatanas, que lhe permitem dar grandes saltos para fora da água. Acutorostrata é um termo latino que significa "bico afiado" (de acuto, "afiado" e rostro, "bico"[5] . É uma alusão a seu bico comprido e afiado. "Baleote" é o diminutivo irregular de "baleia"[1] . "Minke" era o nome de um baleeiro Norueguês que a confundiu com uma baleia-azul.

Taxonomia[editar | editar código-fonte]

Até aos anos 1990, só uma espécie de baleia-anã era reconhecida com o nome científico de B. acutorostrata. Desde o ano 2000, o comité científico da Comissão Baleeira Internacional reconheceu que a baleia da zona do Oceano Antártico é uma espécie diferente – B. bonaerensis – enquanto que todas as outras baleias-anãs dos hemisférios Norte e Sul são consideradas B. acutorostrata. Este critério foi então adoptado por várias organizações internacionais como a Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção e a Convenção de Bona sobre a Conservação das Espécies Migradoras Pertencentes à Fauna Selvagem.

Esta distinção taxonómica refere que existem diferenças genéticas e morfológicas suficientes para se realizarem subdivisões. Assim, Rice (1998)[6] sugere 3 subespécies: B. a. acutorostrata no Atlântico Norte, B. a. scammoni no Pacífico Norte e a baleia conhecida como pigmea no hemisfério sul como subespécie ainda com nome científico incerto devido à sua posição taxonómica ainda incerta.

Apesar de o Homem realizar uma distinção ao nível biogeográfico das espécies, tal facto não significa que as mesmas fiquem restritas apenas às áreas consideradas. Um caso curioso é o facto de já ter sido observado um exemplar de baleia-anã do Antárctico na zona do Árctico. Como consequência disto, foi descoberto, em janeiro de 2011, um espécime híbrido entre as espécies anãs do Norte Atlântico e Antárctico. Esta descoberta deu-se devido a análises genéticas realizadas a uma captura ocorrida de um espécime por pescarias da Noruega.[7]

Morfologia[editar | editar código-fonte]

Vista aérea da baleia-anã, com as bandas brancas das barbatanas peitorais

Ao nível morfológico, a baleia-anã não apresenta um grande dimorfismo sexual em termos de tamanho corporal, significando isto que as fêmeas são ligeiramente maiores e apresentam tamanhos entre os 8,5 e 8,8 m, contrariamente aos machos que variam entre 7,8 e 8,2 metros. Em média, estes animais apresentam um peso máximo de cerca de 9200 kg.

De uma forma geral, a coloração básica deste cetáceo apresenta-se escura ao nível do dorso e pedúnculo caudal, tendo a zona ventral uma cor mais esbranquiçada. No caso das barbatanas, estas apresentam uma cor escura, com excepção das peitorais que de um modo geral possuem uma banda branca mais ou menos extensa. Funcionando como leme na sua locomoção, as barbatanas peitorais desta baleia são esguias e pontiagudas medindo cerca de 1/8 do tamanho corporal total. A barbatana dorsal é falciforme e quando o animal está à superfície aparece ao mesmo tempo que o ar expelido pelo espiráculo. A barbatana caudal é clara na parte inferior e não costuma surgir quando o animal inicia o seu mergulho.[8] O rostrum da baleia-anã tem um formato típico, pois é bastante achatado e aguçado, daí o seu nome acutorostrata, que, em latim, tem esse mesmo significado. Na cabeça, possui dois espiráculos protegidos numa bifurcação que é posterior a uma crista saliente localizada a meio do rostro. Quando vista de cima, a forma triangular da cabeça de B. acutorostrata é muito evidente, sendo possível verificar-se que a mandíbula se projecta mais para a frente que a maxila.[9]

Distribuição[editar | editar código-fonte]

Esta é uma espécie cosmopolita que ocorre um pouco por todo o Mundo e em quase todas as latitudes (de 65° Sul a 80° Norte) tanto em águas costeiras como oceânicas. Apesar dos seus padrões de migração serem pouco conhecidos quando comparados com outras baleias, são conhecidos locais de alimentação nas regiões Árcticas. No verão, as Baleias anãs podem ser observadas durante a sua alimentação nas águas frias em torno do Canadá, Gronelândia, Islândia e Noruega, assim como nas águas costeiras das Ilhas Britânicas. Durante o inverno, o panorama altera-se um pouco ocorrendo migrações para as latitudes mais baixas onde se reproduzem e dão à luz. Estes pontos são ainda incertos, mas crê-se que existam locais chave em redor das Caraíbas e Estreito de Gibraltar. No que toca a arrojamentos costeiros e avistamentos ocasionais, têm sido vistos alguns exemplares nas costas da Península Ibérica, a Oeste do Saara, Mauritânia e Senegal. No caso dos Açores, os avistamentos são mais raros sendo mesmo inexistentes na Madeira.[10]

Acústica[editar | editar código-fonte]

Emissão sonora de baleia-anã

As baleias-anãs produzem vocalizações que incluem pulsos de baixa frequência, estalos e cliques ultrassónicos. De um modo geral, os chamamentos destas baleias consistem numa rápida sequência (aproximadamente um minuto) de impulsos de frequência curta (intervalo de 30 a 450 Hz), com a duração de 100 a 200 ms cada um.[11] Estas diferenças acústicas podem variar consoante a subespécie e a área geográfica em que se encontram, sendo o seu estudo muito útil para o conhecimento em geral desta espécie.

Alimentação[editar | editar código-fonte]

O processo de alimentação destes mamíferos marinhos é uma consequência do uso de duas técnicas diferentes usadas pelos Mysticeti. As mesmas são classificadas segundo o critério de "engolidores" quando as presas estão presentes em cardumes e o animal limita-se a engolfá-lo de uma só vez; e de "deslizantes", quando é aplicada uma técnica passiva em que o animal vai deslizando à superfície e filtra a água pelas suas barbas.[12] Como em toda a família Balaenopteridae, a baleia-anã ingere uma grande quantidade de água onde se encontram as suas presas, obrigando a uma expansão das suas pregas ventrais até ao umbigo. Assim que o alimento é ingerido, procede-se à expulsão da água engolida através das duas barbas localizadas na zona bocal. Estes indivíduos não se restringem apenas por uma única área. Assim sendo, demonstram comportamentos distintos durante a sua alimentação tanto em zonas costeiras como oceânicas. Deste modo, a sua alimentação é variada e dependente da disponibilidade de plâncton e de diversos peixes. Estudos no Atlântico Norte apontam que no Mar da Noruega e no Mar de Barents a dieta deste mamífero varia consoante a área e a abundância nos diferentes anos, sendo dominada por krill em zonas setentrionais e por arenque e capelim, dependendo da sua abundância na cadeia trófica. Já no Mar do Norte, a sua dieta é praticamente constituída por perciformes e por diversos gadiformes.

Reprodução sexual[editar | editar código-fonte]

Este aspecto encontra-se relativamente desconhecido uma vez que a existência de dados é insuficiente. Desta forma, crê-se que as fêmeas dão à luz anualmente, sendo que as crias nascem no inverno após um período de gestação de 10 meses. A existência de dados acústicos em conjunto com os censos visuais de mães e crias apontam que as áreas de nascimento provavelmente decorrem em águas tropicais, incluindo o Mar das Caraíbas e as águas em redor do Brasil. As crias parecem tornar-se independentes por volta dos 6 meses de idade. O facto de não serem observadas com as mães nas latitudes altas sugere que as fêmeas procedem ao desmame das crias antes de chegarem às áreas de alimentação que procuram no verão. Existem dados que sugerem que as cópulas entre machos e fêmeas decorrem nos meses de inverno, após a maturação sexual que é aos 7 anos de idade.[8]

Comportamento[editar | editar código-fonte]

De uma forma geral, as populações de baleias-anãs são solitárias, formando, por vezes, pequenos grupos de indivíduos. No entanto, é possível observarem-se grandes agregações destes animais durante a sua alimentação. Assim que este comportamento ocorre, torna-se possível verificar uma distinção espacial entre sexos, idade e condição reprodutora, o que dá origem a uma estrutura populacional e social complexa. Um exemplo deste comportamento é o caso de uma das populações de baleias-anãs no Golfo Puget, em Washington, nos Estados Unidos, em que os indivíduos têm áreas preferenciais específicas e adjacentes no habitat, sendo esta situação uma possível manifestação de territorialidade única nos misticetos. O principal predador natural desta baleia, da qual se diz ter uma longevidade de 50 anos, é a orca (Orcinus orca), mas também há tubarõesões que podem atacar indivíduos de menor tamanho e/ou debilitados.

População e estado de conservação[editar | editar código-fonte]

A Comissão Baleeira Internacional (IWC) considera a existência de quatro estoques ao nível do Atlântico Norte: na zona do Nordeste, na zona central, a Oeste da Gronelândia e na costa Este do Canadá e Estados Unidos da América. O número total de indivíduos é aproximadamente 125 mil a 245 mil (com um intervalo de confiança de 95%).

A baleia-anã-comum encontra-se num estado de preocupação menor (LC – Least Concern) segundo a Lista vermelha de espécies ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais, sugerindo que a população está estável.[13]

Caça[editar | editar código-fonte]

A exploração como recurso vivo marinho deu-se principalmente no Atlântico Norte por volta dos anos 1940. Os registos de capturas totais da Baleia Anã como recurso pesqueiro apontam para valores de 140 mil espécimes capturados. Os noruegueses são o povo de eleição no que toca à caça deste recurso na zona Este do Atlântico, uma vez que os dados apresentam valores que rondam os 120 mil indivíduos desde o ano 1948. A tendência destes valores tem vindo a diminuir desde os 50 até aos anos 80, em que os mesmos variaram desde 4 mil capturas por ano às 2 mil capturas por ano, respectivamente. Ocorreu também uma época em que não se capturaram estes mamíferos desde 1984 a 1987. A caça foi retomada em 1993 para níveis mais baixos até aos dias de hoje. No ano de 2006, a quota estipulada sugeria a caça de 1052 indivíduos, ainda que realmente caçados foram 521.[14] A Islândia por sua vez também contribui para a exploração deste mamífero como recurso marinho, fazendo capturas de 4 mil exemplares entre os anos 1941 e 1985. Tal como na Noruega, a caça foi suspensa durante alguns anos assim que surgiu a CBI, ocorrendo o retorno da mesma ainda em 1993. No entanto, existe alguma discrepância de opiniões relativamente à altura em que ocorreu a suspensão desta arte, uma vez que nestes anos se sucedeu a uma caça ligeira com o pressuposto de se dirigir apenas a fim de estudos científicos. Em redor da Gronelândia, procedeu-se a uma caça em pequenos botes baleeiros de 8 mil baleias-anãs na altura dos anos 1960. As capturas limites actuais vam entre os 175 exemplares por ano, sendo este valor proposto pela CBI na ausência do comité científico composto por esta instituição. Tal facto preocupa o comité, uma vez que este valor põe em dúvida a sustentabilidade da população destes animais.[11]

Ameaças[editar | editar código-fonte]

É do senso comum que estes animais são frequentemente capturados de forma acidental em diferentes artes de pesca assim como em redes derivantes no mar. Outro tema que tem vindo a levantar imensas questões nas grandes organizações de protecção animal tem sido a poluição sonora dos oceanos, em que se crê que a mesma provoca problemas na comunicação intraespecífica, ou seja, na sua socialização, assim como efeitos a longo prazo que ainda são desconhecidos. Por outro lado, o desaparecimento do gelo no Árctico assim como o aumento da temperatura podem ter implicações nos hábitos migratórios, sociais e alimentares cujas consequências futuras são incertas.

Acções conservacionistas[editar | editar código-fonte]

A implementação de quotas pesqueiras que proíbem a caça de baleias é, sem dúvida, uma acção conservacionista importante no que diz respeito à gestão da população de baleias-anãs. No entanto, esta medida não se aplica a países como a Noruega, Islândia e Rússia, que continuam a caçar activamente. Também a autorização de caça para fins científicos, como é o caso polémico do Japão e a permissão da mesma do povo indígena da Gronelândia que caça para fins autossustentáveis têm vindo a causar alguma discussão. Existem dois apêndices na regulamentação do comércio desta caça que são declarados pela Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção. Estes apêndices dividem-se em dois, sendo que o primeiro engloba todas as espécies em perigo de extinção autorizando-se o comércio apenas em situações excepcionais; enquanto que no segundo englobam-se as espécies que não estão necessariamente em perigo de extinção em que se obriga a que o seu comércio deva ser controlado. B. acutorostrata está incluída no Apêndice I, com a excepção da população da Gronelândia que está incluída no Apêndice II. Existe um movimento recente que explora estes misticetos com o objectivo de accionar a sensibilização desta espécie: a observação de cetáceos. Um caso caricato é o da Islândia em que a caça) decorre ao mesmo tempo que a observação das baleias, ocorrendo um determinado tipo de turismo que se interessa pelo consumo da carne caçada. No entanto, existem organizações nestes locais cujo objectivo é terminar com o consumo da carne de baleia como fonte de atracção turística. Um bom exemplo disso é a IFAW (International Fund for Animal Welfare), que trabalha em conjunto com as empresas de observação de baleias, cujo lema de autopromoção é Meet us don’t eat us ("Conhece-nos, não nos comas") como medida de conservação destes animais.[15] Recorre-se hoje em dia também a uma forma de educação do público de observação de baleias através de acções de foto identificação, em que são atribuídos nomes aos indivíduos que se presenciam com frequência na área de observação de modo a sensibilizar o turista com os animais que permanecem nas diferentes áreas com os que vão desaparecendo por motivos variados que incluem a migração para outras localidades ou porque foram alvos de caça.[16]

Referências

  1. a b c FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.224
  2. Bannister, J. L. (2002). Baleen whales (Mysticetes). Encyclopaedia of Marine Mammals, 2002. Academic Press, pp. 1189-1192.
  3. Reeves, R. R., Stewart, B. S., Clapham, P. J., Powell, J. A. (2002). Sea Mammals of the World - A Complete Guide to Whales, Dolphins, Seals, Sea Lions and Sea Cows. A&C Black Publishers Ltd, London.
  4. FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.1 413
  5. http://translate.google.com.br/
  6. Rice, D. W. (1998). Marine mammals of the world: systematic and distribution. Society for Marine Mammology (special publication number 4). Allen Press, Inc., Lawrence, KS.
  7. Handwerk, B. (25 de Janeiro de 2011). New Hybrid whale discovered in Arctic. National Geographic Daily News. Consultado em 1 de Dezembro de 2011.
  8. a b Reeves, R. R., Stewart, B. S., Clapham, P. J., Powell, J. A. (2005). National Audubon Society Guide to Marine Mammals of the World. Ed. Omega.
  9. Farinha, N. & Correia, F. (2003). Cetáceos dos Açores. Património Natural Açoriano. Roger Lopes, Mirandela. 180 pp.
  10. International whaling Commission : http://iwcoffice.org/
  11. a b National Oceanic and Atmospheric Administration: http://www.noaa.gov
  12. Hoelzel, A. R., Dorsey, E. M., Stern, S. J. (1989). The foraging specialisations of individual minke whales. Anim. Behav. 38: 786-794.
  13. International Union for Conservation of Nature: http://www.iucn.org/
  14. Amundsen, E. S., BjØrndal, T., Conrad, J. M.(1995). Open Access harvesting of the Northeast Atlantic Minke Whale. Environmental and Resource Economics. Netherlands. 6: 167-185.
  15. International fund for animal welfare: http://www.ifaw.org/us/
  16. http://www.faxa-cetacean.org/Minke-Whale/

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

[1] [2]