Cidade de Deus (filme)

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Cidade de Deus
Pôster promocional
 Brasil
2002 •  cor •  130 min 
Direção Fernando Meirelles
Codireção Kátia Lund
Produção Andrea Barata Ribeiro
Maurício Andrade Ramos
Coprodução Marc Beauchamps
Daniel Filho
Hank Levine
Vincent Maraval
Juliette Renaud
Produção executiva Donald Ranvaud
Walter Salles
Roteiro Bráulio Mantovani
Baseado em Cidade de Deus,
de Paulo Lins
Narração Alexandre Rodrigues
Elenco Alexandre Rodrigues
Leandro Firmino da Hora
Phellipe Haagensen
Douglas Silva
Jonathan Haagensen
Matheus Nachtergaele
Seu Jorge
Alice Braga
Gênero Drama, crime
Música Antonio Pinto
Ed Cortês
Direção de arte Tulé Peak
Direção de fotografia César Charlone
Edição Daniel Rezende
Companhia(s) produtora(s) O2 Filmes
Globo Filmes
Distribuição Brasil Lumière Brasil
Estados Unidos Miramax
Lançamento Brasil 30 de agosto de 2002
Idioma Português
Orçamento R$ 8 200 000
Receita US$ 30 641 770[1]
Site oficial
Página no IMDb (em inglês)

Cidade de Deus é um filme de drama brasileiro de 2002, produzido por O2 Filmes, Globo Filmes e Videofilmes e distribuído por Lumière Brasil. É uma adaptação roteirizada por Bráulio Mantovani a partir do livro de mesmo nome escrito por Paulo Lins. Foi dirigido por Fernando Meirelles, co-dirigido por Kátia Lund e estrelado por Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino, Jonathan Haagensen, Matheus Nachtergaele, Douglas Silva e Seu Jorge.

O filme retrata o crescimento do crime organizado na Cidade de Deus, uma favela que começou a ser construída nos anos 1960, e se tornou um dos lugares mais perigosos do Rio de Janeiro no começo dos anos 1980. Para contar a trajetória deste lugar, o filme narra a vida de diversos personagens e eventos que vão sendo entrelaçados no decorrer da trama, tudo pelo ponto de vista do narrador, Buscapé, um menino que cresceu em um ambiente muito violento, porém, encontra chances de não ser fisgado pela vida do crime.

A adaptação cinematográfica iniciou-se no segundo semestre de 1997, quando Heitor Dhalia presenteou Fernando Meirelles com o livro de Paulo Lins. Dhalia sugeriu a adaptação à Meirelles que tempo depois acata, comprou os direitos e chamou Bráulio Mantovani para escrever o roteiro, que, por sua vez, é concluído em tempo recorde, tendo seu primeiro tratamento no início de 1998. Durante um longo período, Meirelles e a equipe trabalhou com mais de quatrocentos jovens e adultos em uma oficina de atores feita exclusivamente para o filme. As filmagens duraram nove semanas entre junho a agosto de 2001.

Cidade de Deus é considerado um dos filmes brasileiros mais importantes de todos os tempos, sendo enaltecido pela crítica especializada, que, em geral, enfatizou suas qualidades artísticas e estéticas. O longa representa o marco final no período de reflorescimento da produção cinematográfica brasileira, conhecido como "cinema da retomada". Foi lançado no Brasil em 30 de agosto de 2002, acumulando um público total de 3 307 746 espectadores. Mudou o paradigma do cinema brasileiro ao ser o único até agora a receber quatro indicações ao Oscar, nas categorias de melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor edição e melhor fotografia.[2]

Enredo[editar | editar código-fonte]

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Na cena de abertura, galinhas são preparadas para o almoço quando uma escapa e é perseguida por um grupo armado pelas ruas da favela Cidade de Deus. A galinha pára entre a gangue e um jovem chamado Buscapé, que acredita que a gangue quer matá-lo. Buscapé, o narrador, começa a contar a história de sua infância, e o filme volta ao final dos anos 1960.[3] [4]

Nos anos 1960, a favela é um complexo habitacional recém-construído longe do centro do Rio de Janeiro, com pouco acesso à eletricidade e água. Três ladrões amadores conhecido como "Trio Ternura" — Cabeleira, Alicate e Marreco — aterrorizam os negócios locais. Marreco é o irmão de Buscapé. Como Robin Hood, eles dividem parte do dinheiro roubado com os habitantes da favela chamada de Cidade de Deus e, em troca, são protegidos por eles. Vários garotos acompanham e idolatram o trio, e, um deles, chamado de Dadinho, os convence a roubar um motel. A gangue concorda, porém, decidem por não matar ninguém e, achando que Dadinho é pequeno demais para participar, deixam ele como vigia. Insatisfeito, Dadinho dá um tiro de advertência no meio do roubo e procede para satisfazer seu desejo assassinando todos ocupantes no motel. O massacre chama a atenção da polícia, fazendo com que o Trio Ternura deixe a favela. Alicate se junta à igreja, Cabeleira é morto pela polícia ao tentar escapar com sua namorada e Marreco é morto por Dadinho depois de tentar roubar o dinheiro do menino e seu amigo Bené, que estavam se escondendo após os crimes cometidos no motel.[4]

O tempo avança alguns anos. Buscapé se junta a um grupo de jovens que gostam de fumar maconha. Ele desenvolve um interesse em fotografia ao tirar fotos de seus amigos, especialmente de uma garota, Angélica. Ele tenta várias vezes se aproximar dela; porém, todas elas são arruinadas por um grupo de jovens arruaceiros conhecidos como Caixa Baixa. Dadinho muda seu nome para Zé Pequeno e, junto com seu amigo de infância Bené, estabelece um império do tráfico de drogas eliminando toda a sua competição, com a exceção de um traficante chamado Cenoura.[4]

Uma relativa paz chega à Cidade de Deus com Zé Pequeno no comando, que evita chamar a atenção da polícia abordando e matando um dos Caixa Baixa, que estava cometendo crimes na área. Zé planeja matar seu concorrente, Cenoura, porém é impedido por Bené, que é amigo de Cenoura. Eventualmente, junto com Angélica, ele decide deixar sua vida criminal para trás e se mudar para uma fazenda, assim ele faz uma grande festa de despedida. Zé, não conseguindo achar uma garota que quisesse dançar com ele, humilha um homem chamado Mané Galinha. Mais tarde, Bené é morto por um antigo traficante, Neguinho, que estava tentando matar Zé. Bené era o único homem que impedia Zé Pequeno de atacar os negócios de Cenoura. Sua morte deixa Zé em perigo e Cenoura com medo.[4]

Cena em que Zé Pequeno toma a boca de fumo de Neguinho, onde é dita a frase "Meu nome agora é Zé Pequeno", considerada um marco e titulada como uma das mais inesquecíveis do cinema.

Após a morte de Bené, Zé Pequeno estupra a namorada de Mané Galinha e mata seu tio e irmão. Galinha, procurando vingança, se alia a Cenoura. Depois de matar um dos homens de Zé e ferir o próprio, uma guerra entre as duas facções começa envolvendo toda a Cidade de Deus. Ambos os lados recrutam mais e mais "soldados", com Zé fornecendo armas para os Caixa Baixa, com a condição destes lutarem para ele. Com inveja da notoriedade de Galinha, Zé Pequeno faz Buscapé tirar fotos dele e da sua gangue. Sem o conhecimento de Buscapé, uma repórter decide publicar as fotos no jornal. Buscapé, erroneamente achando que Zé Pequeno quer matá-lo, teme por sua vida. Na verdade, Zé fica muito satisfeito com seu ganho de notoriedade.[4]

Voltando ao início de filme, confrontado pela gangue, Buscapé se surpreende quando Zé manda que ele pegue a galinha que fugiu. Enquanto Buscapé se prepara para capturar a ave, Cenoura aparece e um tiroteio começa entre as duas gangues e, mais tarde, a polícia intervém. Mané Galinha é morto por Otto, um menino que havia se infiltrado na gangue para vingar a morte de seu pai, morto por Galinha em um assalto a banco. Zé Pequeno e Cenoura são presos. Zé é revistado e humilhado pelos policiais, porém é solto; com tudo sendo fotografado por Buscapé. Depois da saída dos policiais, os Caixa Baixa cercam Zé e o matam em vingança de seu amigo. Buscapé tira fotos do corpo de Zé e as leva para o jornal.[3] [4]

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Elenco[editar | editar código-fonte]

  • Alexandre Rodrigues interpreta Buscapé / Wilson Rodrigues: É o principal narrador. Um menino calmo, honesto, que tem o sonho de se tornar fotógrafo, e o único personagem que apesar da vivência com a grande violência não consegue ser fisgado pelo mundo do crime e nem morto pela guerra das facções da favela Cidade de Deus.[5] [6]
  • Leandro Firmino interpreta Zé Pequeno: Um traficante de drogas sociopata que tem prazer sádico em matar seus rivais. Quando seu único amigo, Bené é morto, ele sofre grande distúrbios de raiva se tornando ainda mais sem limites. Dadinho é seu apelido quando criança — personagem interpretado por Douglas Silva — ele mudou seu nome para Zé Pequeno, em uma cerimônia de candomblé.[5] [7]
  • Phellipe Haagensen interpreta Bené: Amigo de infância de Zé Pequeno, que cresceu com ele no mundo do crime. Ele é bastante amado por todos na Cidade de Deus por seu modo de tratar cada morador. Interpretado por Michel Gomes quando criança.[5]
  • Matheus Nachtergaele interpreta Sandro Cenoura: Um traficante de drogas amigo de Bené, que detém um ponto de tráfico na Cidade de Deus e rivaliza com Zé Pequeno. Cenoura é um personagem decisivo no início da guerra pelo poder na favela nos anos 1980.[5]
  • Seu Jorge interpreta Mané Galinha: Um homem bonito e carismático. Zé Pequeno estupra sua namorada e massacra vários membros da família de Mané Galinha. Galinha une forças com Sandro Cenoura para retaliar-se contra Pequeno.[8] [9]
  • Jonathan Haagensen interpreta Cabeleira: O irmão mais velho de Bené e líder do Trio Ternura, um grupo de ladrões que partilham os seus lucros com a população da Cidade de Deus.
  • Renato de Souza interpreta Marreco / Renato Rodrigues: Um membro do Trio Ternura e irmão de Buscapé.
  • Alice Braga interpreta Angelica: Uma velha amiga e interesse amoroso de Buscapé, e mais tarde a namorada de Bené, que o motiva a abandonar a vida criminosa.
  • Roberta Rodrigues interpreta Berenice: Namorada de Cabeleira, que é irmão de Bené. Aparece na segunda fase do filme.[5]
  • Daniel Zettel interpreta Tiago: Um viciado em drogas e namorado ruivo de Angélica. Mais tarde rompe o namoro e se torna sócio de Zé Pequeno.[5]

Produção[editar | editar código-fonte]

Desenvolvimento[editar | editar código-fonte]

Fernando Meirelles dirigiu Cidade de Deus em conjunto de Kátia Lund.

Em 1997 estava sendo publicado o livro de Paulo Lins, no qual o longa Cidade de Deus é baseado. O livro foi rapidamente aclamado pela critica especializada, sendo considerado um dos primeiros romances contemporâneos a narrar, com eloquência e qualidade literária, a vida dos moradores da favela de seu próprio ponto de vista.[10] Pouco tempo depois do lançamento nas livrarias, Fernando Meireles ganha de presente o livro de Heitor Dhalia — que na época era redator de agência de publicidade e admirava Meireles por seus trabalhos no meio publicitário e cinematográfico.[11] Dhalia sugeriu a adaptação cinematográfica à Meirelles que de imediato recusa, considerando não ser apto ao projeto por morar em São Paulo. "Sabia pouco sobre a organização da favela e sobre o tráfico e jamais sairia de São Paulo para rodar um longa-metragem no Rio, sobre um assunto tão distante da minha realidade", analisou Meirelles.[12]

As resenhas publicadas sobre o livro eram bastantes positivas — que juntamente com Andrea Barata Ribeiro, sócia na produtora O2 Filmes —, foram responsáveis por estimular Meirelles a mudar de pensamento e resolver ler o romance. Meirelles relatou que ao chegar na página 100 foi obrigado a concordar que havia um argumento interessante. Continuando a leitura, começou a grifar ao acaso as passagens importantes. Quando chegou ao fim, já havia anotado desenho de cenários e os personagens principais.[12] [13]

Depois das anotações, Fernando Meirelles entrou em contato com o autor, Paulo Lins. De imediato, foi informado que outros cineastas e produtores já tinham demonstrado interesse pela obra. Então, Meirelles marcou um encontro com Lins para relatar sua intenção de se desprender da carreira publicitária, que abrangia muitos diretores brasileiros na época, se pudesse adaptar o livro aos cinemas.[11] Sendo este um dos principais motivos julgado por Meirelles que o fez conseguir os direitos de reprodução da obra. "Creio que foi minha disposição sincera de mergulhar no projeto que falou mais alto" disse o diretor. Depois da conversa, houve uma semana sem telefonemas, e então Paulo Lins liga informando que lhe venderia os direitos.[12]

Cquote1.svg Eu acabava de ganhar um projeto que iria transformar minha vida e me fazer descobrir o Rio de Janeiro e parte do Brasil. De quebra, ganhei um novo amigo. Cquote2.svg
Fernando Meirelles [12]

Roteiro[editar | editar código-fonte]

Meirelles, então tinha em suas mãos um livro com mais de 250 personagens e a tarefa de encontrar uma forma cinematográfica para adaptar o material. Ele descartou o caminho que julgava "fácil" que seria escolher apenas uma das tramas do livro e desenvolvê-la. Para seguir o caminho do livro, não poderia desenvolver uma história linear com início, meio e fim, devido os personagens e as situações que se sucediam. Então, desde os primórdios do desenvolvimento do roteiro, acreditava na ideia de somar várias histórias que, justapostas, iriam fazer com que chegasse ao resultado pretendido. Levando em consideração o começo nos anos 60 e chegando aos anos 80, que segundo o diretor enfatizaria um aspecto de saga, mostrando o desenvolvimento do tráfico no Rio de Janeiro.[12] Com esta premissa em sua mente, Meirelles chama Bráulio Mantovani para escrever o roteiro. Mantovani nunca havia trabalhado escrevendo projetos para o cinema, na época era roteirista de uma série da TV Cultura intitulada Oficinas Culturais que tinha Meirelles como consultor de cinema e TV.[14] Em seu primeiro contato com o livro de Lins, Mantovani teve uma reação negativa. "Achei que era muito difícil. Achei, na verdade, que ele [Meirelles] tinha enlouquecido" relata o roteirista em uma entrevista. Ao ler as primeiras 200 páginas do livro, Mantovani achou que adaptação nos moldes estabelecidos por Syd Field em seus livros de conceito roteirísticos seria impossível. Ele tinha chegado a conclusão que Meirelles tinha escolhido mal, no entanto, se afirmou no projeto, após o diretor em reuniões relatar que queria um filme fragmentário, com várias pequenas histórias.[14]

Em 1998, Bráulio Mantovani conseguiu em tempo recorde concluir o primeiro tratamento do roteiro.[14] Em 1999, o Sesc São Paulo realizou uma edição do evento Laboratório de Novas Histórias com uma sessão de apresentação de roteiros no Grande Hotel em Campos do Jordão.[15] O roteiro de Mantovani foi um dos apresentados na oficina, onde foi lido por vários consultores internacionais, entre eles Fernando Solanas — cineasta argentino de Tangos: El exilio de Gardel —, e Alexander Payne — que na época estava lançado seu longa Election no Brasil.[12] Payne foi o que mais demonstrou entusiasmo ao primeiro tratamento de Cidade de Deus, e manteve contato com Mantovani mesmo depois do evento. Este primeiro tratamento ganhou um prêmio internacional do Writers Guild of America Award — sindicato estadunidense dos roteiristas.[16] Para receber o prêmio, Mantovani foi à Los Angeles hospedando-se na casa de Payne,[12] que acompanhou o desenvolvimento do roteiro se permitindo a dar sugestões que foram acatadas por Mantovani ao tratamento final. Payne teve seu nome creditado como colaborador de roteiro nos créditos finais do filme e compareceu à estreia mundial, no Festival de Cannes.[17] Quando finalizado a primeira versão, as tarefas seguintes foram resumidas no processo de enxugamento. Quando chegou ao quarto tratamento, Fernando Meirelles relata que já tinha um roteiro para ser filmado e foi dado o início a pré-produção. Durante um ano foi feito uma série de tratamentos no roteiro, estes com colaboração de todos os envolvidos da equipe.[18]

No livro, Buscapé é baseado em um amigo do autor, um personagem que realmente existiu e que é branco. Ele não possui uma importância central na trama desenvolvida por Paulo Lins, em contrapartida, no momento da escrita do roteiro, Buscapé foi se adaptando e tornando-se notável. Sua casa invadida pela polícia, ele sendo coagido a tirar fotos dos traficantes e estas fotos saindo na primeira página do jornal de grande circulação foram situações criadas pelo roteirista para sobrepor o personagem. Mantovani comenta que "queria que ele fosse menos um observador e mais um participante vulnerável entre os perigos e tentações que lhe cercavam". Esta adaptação buscou inspirações no próprio Paulo Lins para estruturar Buscapé, e consequentemente, tornando o personagem negro.[19] Foi filmado o décimo segundo tratamento, porém, novas modificações aconteceram durante as filmagens e percorrendo até o momento da pós-produção na ilha de edição. "Esse roteiro contou com a contribuição milionária das improvisações dos atores. Foram eles que 'escreveram' a versão final dos diálogos", comentou Mantovani em uma entrevista concedida à Gazeta Digital em julho de 2003.[18] Mantovani considera a adaptação fidelíssima ao livro, com algumas ressalvas à mudanças estratégicas como a fundição de personagens, trocas de elementos de lugar e criação de situações que não existiam. "Mas tudo isso para, eu acho, estar mais próximo do livro" relata o roteirista que julga o livro como poderoso e muito rico e que o filme nunca procurou ser poderoso quanto. O roteirista reiterou que suas ambições para o filme foram modestas, sempre procurando recuperar o ponto de vista exposto por Paulo Lins, que escreveu o livro morando na própria Cidade de Deus, Rio de Janeiro.[14]

Escolha e o trabalho com os atores[editar | editar código-fonte]

Cidade de Deus exigiu a contratação de mais de 60 atores principais, 150 secundários e 2 600 figurantes, a maior parte sendo crianças e adolescentes. Fernando Meirelles relata que dentre os filmes que mais impressionaram ele, a maioria tinha relação com a maneira de interpretação, e isto influenciou ele a trabalhar com atores não-profissionais e montar uma oficina com jovens que morassem nas comunidades do Rio de Janeiro.[5] Meirelles queria que o espectador se relacionasse diretamente com os personagens, sem filtros estabelecidos devido o ator.[20] Para isso, a equipe do filme encontrou duas vertentes que os ajudaria. Em primeira instância, Kátia Lund que já trabalhara em projetos envolvendo favelas no Rio de Janeiro — como Notícias de uma Guerra Particular e videoclipe do grupo Rappa A Minha Alma. A segunda vertente foi refugiada por Guti Fraga, diretor e fundador do Nós do Morro — associação que possui grupo de teatro na favela do Vidigal, zona sul do Rio.[5] [12]

Em 2000, foi montado uma "escola de atores" no prédio cedido pelo centro cultural Fundição Progresso, situado na Lapa.[21] De primeiro momento, uma equipe se dividiu em duplas que percorriam comunidades — como Rocinha, Cantagalo, Chapéu Mangueira, Dona Marta, Vidigal e a própria Cidade de Deus — anunciando que haveria testes para os interessados em participar de uma oficina de atores para o cinema. Numa data previamente marcada voltavam com uma filmadora e entrevistavam centenas de candidatos agendados.[22] Em quarenta dias, duas mil entrevistas foram filmadas, e depois foi iniciado o processo de triagem com quatrocentos jovens até chegar aos duzentos que foram selecionados para as aulas de atuação em uma oficina batizada de "Nós do Morro" em homenagem à associação de Fraga.[5] Na escola montada na Fundição, estes duzentos jovens foram divididos em oito turmas, filtrando a idade e disponibilidade de horários. Todos recebiam lanches e auxilio transportes para as aulas que aconteceram duas vezes por semana.[5] As aulas eram tutoradas por Fraga, e Lund e Meirelles estavam presentes auxiliando.[12] Foi descartado técnicas teatrais ou tradicionais de interpretação durante as aulas e toda a abordagem de interpretação foi baseada na improvisação. Em nenhum momento os adolescentes selecionados para o projeto leu o roteiro ou memorizou diálogos que seriam ditos durante as filmagens.[19] Haviam turmas e elas preparavam e apresentavam cenas. Logo depois, os alunos eram convidados a comentar sobre o que apresentou. A partir destes testes, eram feitas as avaliações por Meireles e Kátia Lund. Desde o início das aulas, eles já começaram a ligar os alunos com qual papel seria o mais adequado. No fim deste processo, já estavam com os papéis principais escolhidos.[21]

Em fevereiro de 2001, após a escolha do elenco principal, Fátima Toledo foi contratada para preparar ponderadamente o elenco. Apesar de sua experiência no ramo, Toledo enfrentou o trabalho como um grande desafio. Ela cita um exemplo de dificuldade na preparação de Leandro Firmino da Hora na interpretação de Zé Pequeno, que não conseguia encontrar o verdadeiro ódio para o personagem.[23] [24] Seu Jorge comentou o momento que foi anexado ao projeto, onde Kátia e Meirelles estavam descrevendo Mané Galinha, Jorge disse que chegou até mesmo a se identificar com seu personagem devido conflitos em sua adolescência.[25] Matheus Nachtergaele foi o primeiro ator a ser cotado, sequer estava em pré-produção quando Meirelles entrou em contato a fim de anexá-lo ao projeto mesmo não sabendo qual personagem vincular a ele. Durante o desenvolvimento de Cidade de Deus, Nachtergaele fez O Auto da Compadecida se tornando bastante conhecido em âmbito nacional. Meirelles não queria atores consagrados em seu filme, e achava que seria difícil formar a "química" com o elenco. Nachtergaele tomou isto como estimulo e falou que "desapareceria no filme". "A não ser minha interpretação", disse ele.[26]

Filmagens[editar | editar código-fonte]

Quando estavam se preparando para os estágios iniciais das filmagens, Fernando Meirelles recebeu uma proposta de Guel Arraes — diretor de núcleo da Rede Globo —, para dirigir um dos episódios da série Brava Gente. De imediato, Meirelles recusa o convite, porém, depois de repensar, aceita com a condição de que pudesse desenvolver na série uma história ligada a uma das fragmentações de pequenas histórias que há no livro e o uso dos jovens de sua oficina de atores. Arraes assentiu e Meirelles e Kátia Lund dirigiram juntos o episódio que serviu como uma espécie de ensaio para Cidade de Deus.[27] Foi filmado na própria comunidade Cidade de Deus e acabou se tornando um curta-metragem apresentado e premiado em Berlim.[28] [29] O curta Palace II resultou em aprendizados que favoreceu a equipe como um laboratório de testes para Cidade de Deus. Em primeira instancia, Meirelles concluiu que não poderia filmar na própria Cidade de Deus. Na época, a comunidade estava em grandes conflitos e dividia em três áreas, cada uma comandada por um traficante diferente. "A gente percebeu que era uma coisa muito instável, nunca estava falando com a pessoa certa" contou Meirelles à Revista Trip que acabou em busca de outras locações.[30] Globo Filmes e Videofilmes se aproximaram do projeto sendo anexadas como co-produtoras do filme.[31]

Cidade de Deus foi a primeira experiência cinematográfica de considerável parte do elenco. César Charlone, o diretor de fotografia, arquitetou seu trabalho levando em consideração a dificuldade das cenas com estes atores não-profissionais. Apesar do processo de preparação de elenco, não foi imposto a eles a assimilação das técnicas de set de filmagem, como marcações, localizações a cada take e luzes. "Pensar em fazer ensaios e em marcar as cenas era uma fantasia" considera o diretor de fotografia que se adaptou com as marcações atingidas sendo modificadas a cada tomada. Charlone compara sua experiência no filme com trabalhos realizados por ele nos anos 1980 quando centrava na produção de documentários, com câmera na mão, tentando interferir o mínimo na realidade e veracidade filmada. As referências que influenciaram nas decisões de fotografia do filme, veio pela paixão de Charlone ao neo-realismo italiano e o cinema novo. Como todas outras áreas, a fotografia de Cidade de Deus também seguiu o esquema de divisão do filme em três fases. Na primeira, a cinematografia seguiu um padrão acadêmico, com takes mais "certinhos" facilitado pelo uso de tripés e com, "travelling" e "enquadrados". A segunda fase procurou seguir o que Fernando Meirelles intitulou de "não-fotografia", "com câmera e luz mostrando sem 'enfeitos', sem se deter a exploração, como se Paulo Lins operasse a câmera na mão" considera Charlone. Já na terceira, levou todo o mecanismo usado na fase anterior ao ápice.[32]

Com um orçamento estimado em 8,2 milhões de reais — dos quais 15% vieram das leis de incentivo e o restante sendo bancado pela própria produtora de Meirelles, a O2 Filmes —,[33] Cidade de Deus foi rodado durante nove semanas entre 19 de junho a 21 de agosto de 2001.[23] Muitos dos figurantes e até mesmo jovens que tinham papéis importantes no longa-metragem não tinham telefone em casa, a produção ficou encarregada de enviar telegramas a todos os envolvidos informando o dia, horário e local de filmagem. Durante todas as semanas, não houve nenhum ator que não compareceu no local agendado.[33] As gravações se deu por três fases, a primeira parte do filme — a Cidade de Deus nos anos 1960 — foi filmada no conjunto habitacional de Nova Sepetiba, Rio de Janeiro. Embora o tráfico já tivesse chegado ao local, não tinha nenhum traficante tomando conta do lugar, o que possibilitou filmar com facilidade.[34] Na segunda fase da produção, ambientada nos anos 1970, foi também realizada em um conjunto habitacional construído na época, a Cidade Alta; já a terceira e última fase foi filmada em estúdios.[34]

Pós-produção[editar | editar código-fonte]

Com o fim das filmagens em agosto de 2001, Cidade de Deus avançou seu estágio de desenvolvimento para a pós-produção, em um processo de montagem liderado por Daniel Rezende que durou cerca de cinco meses. Rezende, assim como o roteirista Bráulio Mantovani, era estreante em longa-metragem, tendo trabalhado editando apenas projetos publicitários. Rezende iniciou o processo de edição ainda em estágio de filmagens. A cada cena filmada, o material bruto era levado ao apartamento de Fernando Meirelles onde foi montado o primeiro maquinário de pós-produção para o filme.[19] Ele respeitou toda a estrutura do roteiro, seguindo cada fragmentações divididas pelos anos 1960, 1970 e 1980, com um estilo de montagem diferente.[35]

Para a primeira fase, nos anos 1960, foi utilizado uma linguagem clássica do cinema. Rezende optou por uma montagem com cortes corretos utilizando raccord, respeitando eixos e privilegiando a ação, com uma continuidade plano a plano.[nota 1] O plano-sequência utilizado enfatiza a situação dramática e o diálogo. Na segunda fase, nos anos 1970, onde a criminalidade já não é a maior fonte de renda dando espaço às drogas e ao tráfico, a técnica de corte raccord não é mais importante. "A liberdade dos cortes causa um certo estranhamento no espectador, preparando-o para um clima bem mais pesado que vai se aproximando" comenta Rezende.[35]

Na terceira fase, nos anos 1980 com a história de Mané Galinha e seu conflito com Zé Pequeno, a montagem não levou em consideração nenhuma regra de edição. Neste trecho, o filme tem uma carga explosiva de ação, e segundo o montador, o uso da liberdade total nesta parte "causa estranhamento, sensações de sufocamento e tensão ao espectador". Rezende exemplifica estas condições de estranhamento com cenas que alguém fala, mas não precisar mexer necessariamente os lábios, uma outra levanta em um take e está totalmente acomodada no próximo. "O estranho é bem vindo" define Rezende. Foi decidido usar estas técnicas, em virtude da decisão de Meirelles e Katia Lund — em fazer o elenco não ler os diálogos definidos pelo roteirista —, da qual possibilitou uma maior liberdade de improvisação visando tornar o filme com uma tonalidade verdadeira. Porém, deixando dificuldades para o montador.[35] [37] De acordo com o músico Ed Côrtes, responsável pela trilha de Cidade de Deus, a última fase do filme, foi usado músicas sombrias, com flautas, batuque do samba bem lento, e alguns efeitos sonoros.[35]

Trilha sonora[editar | editar código-fonte]

Cidade de Deus
Trilha sonora de vários artistas
Lançamento 2002
Gênero(s) Samba, rock/soul e MPB
Idioma(s) Português
Formato(s) CD,
Produção Antonio Pinto e Ed Côrtes

A trilha sonora do filme tem direção musical de Antonio Pinto em conjunto de Ed Côrtes. A trilha foi dividida em duas partes distintas, sendo a primeira embalada por samba-funk instrumental com sete faixas feitas exclusivamente para o filme; a segunda parte possui outras sete faixas com músicas populares dos anos 1960 e 1970, como Cartola, Wilson Simonal e Raul Seixas.[38] [39]

Trilha sonora
N.º Título Intérprete(s) Duração
1. "Meu Nome é Zé"   Antonio Pinto e Ed Cortes 2:30
2. "Vida de Otário"   Antonio Pinto e Ed Cortes 1:24
3. "Funk da Virada"   Antonio Pinto e Ed Cortes 1:36
4. "História da Boca"   Antonio Pinto e Ed Cortes 2:28
5. "Na rua, na chuva, na fazenda (Casinha de Sapê)"   Antonio Pinto e Ed Cortes 3:29
6. "A Transa"   Antonio Pinto e Ed Cortes 2:02
7. "Metamorfose Ambulante"   Raul Seixas 3:47
8. "Nem Vem que não tem"   Wilson Simonal 2:32
9. "Preciso me Encontrar"   Cartola 2:55
10. "Alvorada"   Cartola 2:34
11. "Convite para Vida"   Seu Jorge 2:59
12. "No caminho do bem"   Tim Maia 5:03
13. "Morte de Zé Pequeno"   Antonio Pinto e Ed Cortes 1:08
14. "Batucada (remix)"   DJ Camilo Rocha 7:25

Lançamento[editar | editar código-fonte]

Exibição e bilheteria[editar | editar código-fonte]

Cidade de Deus estreou em maio de 2002 no Festival de Cannes.[40] A aproximação da equipe com a Rede Globo ainda nas filmagens, tornando a Globo Filmes uma das co-produtoras, facilitou o arranjo de distribuição do filme, possibilitando acesso a eficazes canais de divulgação. A emissora uniu forças dando suporte de mídia na campanha de lançamento, com crossmedia, referências em telenovelas, programas e telejornais. As estratégias de lançamento ficaram a cargo de Bruno Wainer — diretor-executivo da Lumière Brasil — e Daniel Filho da Globo Filmes, supervisionadas pela O2 Filmes.[31]

O longa-metragem enfreou um grande período de negociações para a distribuição internacional, porém, os resultados foram satisfatórios, pois Fernando Meirelles já havia entrado em contato com parceiros internacionais — Wild Bunch e Miramax Filmes —, ainda na fase de preparação do elenco em meados de 2000. As questões contratuais foram finalizadas apenas no segundo semestre de 2001, e Wild Bunch assumiu o papel de agente internacional de vendas nos países não explorados pela Miramax.[31] Nos circuitos brasileiros, Cidade de Deus foi distribuído exclusivamente pela Lumière. Wainer, executivo da Lumière, relatou que, desde quando a distribuidora se tornou parceira da Videofilmes comercializando Central do Brasil em 1998, estabeleceu-se um laço de confiança entre as duas companhias. A partir disto, qualquer projeto em que Vídeofilmes estava envolvida, tendia a ser um bom negócio para Lumière.[31] Lumière juntamente com Globo Filmes conseguiu baixar a classificação etária do filme de 18 para 16 anos.[41]

Em 30 de agosto de 2002 o filme foi lançado no Brasil em noventa salas. Porém, na segunda semana já havia 120 cópias em exibição, chegando a 180 cópias na sexta semana nas bilheterias. Na terceira semana em cartaz, com duzentas cópias, Cidade de Deus alcançou a marca de 1 milhão de espectadores nos cinemas brasileiros.[42] Segundo notas de Filme B divulgadas em 2004, o público total foi de 3 307 746 espectadores.[31] Em 3 de janeiro de 2003 o filme foi lançado na Inglaterra, tornando-se a terceira maior abertura de um filme em língua estrangeira no país, atrás apenas de O Tigre e o Dragão e Le fabuleux destin d'Amélie Poulain, arrecadando R$ 1,4 milhão de reais.[43] [44] Em janeiro de 2003, Cidade de Deus foi lançado nos cinemas norte-americanos, e obteve também uma grande recepção positiva.[45] Durante janeiro o filme foi lançado em outros países da Europa, como na Espanha em noventa cinemas, e França, em 150 salas.[46]

Análise da crítica[editar | editar código-fonte]

Cidade de Deus foi amplamente considerado como um dos melhores filmes de 2002 pela imprensa brasileira e norte-americana; recebendo aclamação universal pela crítica especializada e elogios favoráveis. No site Rotten Tomatoes, o filme tem uma aprovação de noventa por cento, chegando ao consenso de "Um olhar chocante e perturbador, mas sempre atraente para a vida nas favelas do Rio de Janeiro".[47] No Metacritic, recebeu 79 por cento de aprovação, baseado em 33 opiniões, e classificado como "geralmente favorável" pela nota e análise do público.[48] O critico José Couto do jornal Folha de S.Paulo relatou que "Cidade de Deus é um filme de vigor espantoso e de extrema competência narrativa. Seus grandes trunfos são o roteiro engenhosamente construído e a consistência da mise-en-scène".[49]

O crítico brasileiro Érico Borgo do site especializado Omelete escreve em sua resenha que sente-se orgulhoso ao assistir uma obra de origem nacional "que solta aos olhos do mundo todo". Borgo elogia principalmente a direção de Meirelles e relata que "em certas passagens, é tão pop e inovadora quanto os melhores exemplares hollywoodianos".[50] A recepção britânica foi bastante positiva, The Guardian, um dos grandes jornais do país, classificou Cidade de Deus como "o primeiro grande filme do ano". "Não caminhe para o cinema, corra", disse Peter Bradshaw em sua resenha. A revista Sight and Sound, do instituto British Film publicou uma reprodução do crítico brasileiro Ismail Xavier de três páginas, com outras ótimas resenhas do critico Paul Julian Smith.[44] Vicent Maraval, executivo da distribuidora Wild Bunch julgou que esta grande recepção na Inglaterra dará "um grande empurrão" para as estreias em outros países.[43] Em outras resenhas, Fernando Meirelles é comparado aos cineastas estadunidenses Quentin Tarantino e Martin Scorsese, este último sendo pelo jornal britânico The Independent. Meirelles foi questionado pela Folha de S.Paulo sobre estas comparações e reage com risadas. "Fico mais lisonjeado pelo Scorsese, mas acho um exagero sem sentido. Minha cultura cinematográfica não chega nem na canela desses dois", diz ele.[43]

Stephen Holden do The New York Times elogia particularmente a sequência da festa de despedida de Bené (Phellipe Haagensen), no final da história, "como uma das partes mais espetaculares do filme".[51] Em Los Angeles Times, o crítico Kenneth Turan em sua resenha define o filme como "uma potente e inesperada mistura de autenticidade e luxo visual" e "uma peça vigorosa de realismo social que está inegavelmente amparada em algo verdadeiro". Turan enaltece particularmente a montagem de Daniel Rezende como "eletrizante".[52] Cidade de Deus não chegou a ter cópias dubladas nos cinemas, sendo exibido apenas legendado. Sobre as legendas, o crítico Mike Clark do USA Today diz que "mesmo fãs de filmes de ação avessos a ler legendas deveriam dar uma chance a este filme".[53]

Home video[editar | editar código-fonte]

Cidade de Deus foi lançado em VHS e DVD no Brasil em 17 de junho de 2003 apenas para locação pela distribuidora Imagem Filmes.[54] [55] Em formato comercial, chegou as lojas em setembro de 2003 com comentários em áudio do montador Daniel Rezende, do roteirista Bráulio Mantovani e do diretor Fernando Meirelles, e com quase uma hora de extras, incluindo filmagens feitas durante as oficinas de atores e cenas do filme removidas na edição.[56] Em outubro do mesmo ano o filme foi lançado em edição especial para colecionadores, em um box com DVD duplo; um continha o filme, outro continha, além dos extras presentes no primeiro DVD, cenas extras, lista de prêmios, galeria de cartazes, Cidade de Deus Remix, charge animada e trailers.[57] [58]

Em 14 de outubro de 2009 o filme foi lançado na França em formato Blu-ray pela Warner Bros. Pictures France em conjunto da M6 Vídeo. Em território francês o disco do filme estava disponível para venda apenas para região B,[nota 2] e ainda continha extras que foram remasterizado para alta definição.[59] Até dezembro de 2011, Cidade de Deus já havia sido lançado neste formato em países como Canadá, Holanda, Reino Unido e Estados Unidos.[60] Imagem Filmes, a detentora brasileira dos direitos de distribuição em home-video não se manifestou abertamente sobre o lançamento em alta definição.[61]

Estrutura narrativa[editar | editar código-fonte]

Cidade de Deus apresenta uma história não-linear estruturada em torno de fragmentos divididos em três décadas onde o filme é ambientado. Apesar do livro de Paulo Lins conter também uma narrativa não totalmente linear, Fernando Meirelles encontrou problemas com o grande leque de histórias e personagens. "Se você fica cortando de um para o outro o tempo todo, o personagem nunca esquenta. Tivemos que abandonar alguns pelo caminho e mais tarde voltar para recuperá-los, colocando-os de volta no filme. São idas e vindas que ajudam o espectador a acompanhar e se envolver com a trama" conta Meirelles à Revista Trópico. Segundo o diretor, esta técnica foi adotada ao filme com a intenção diametralmente oposta da de Quentin Tarantino em Pulp Fiction. Tarantino, segundo Meirelles, inverte o rolo dos filmes procurando um resultado de "confusão estimulante" ao espectador, criando uma espécie de jogo com a audiência. Já Cidade de Deus, o diretor julga a não-linearização como um modo de explicar o filme, sendo didático.[16]

O filme é desenvolvido em três fases, cada uma com características distintas sendo consideradas por Meirelles como "se fossem três filmes diferentes". Dando uma sensação de transformação e evolução do crime ao espectador.[62] A primeira fase se passa nos anos 1960, e têm como transição para segunda fase nos anos 1960 com a morte de Cabeleira (Jonathan Haagensen) que marca o fim do Trio Ternura; o desenvolvimento da segunda fase tem seu fim com a decisão de Mané Galinha (Seu Jorge) enfrentar Zé Pequeno (Leandro Firmino), onde se inicia a terceira e última fase no longa, que se passa nos anos 1970. Toda esta cronologia é narrada e explicada por Buscapé (Alexandre Rodrigues) que compõe a hierarquia da história, com outros personagens importantes, sendo o central da história, Zé Pequeno.[63]

Temas e análises[editar | editar código-fonte]

"Eu acreditava que conhecia o apartheid social que existe no Brasil até ler o livro. Percebi que nós, da classe média, não somos capazes de enxergar o que está na nossa cara. Estado, leis, cidadania, polícia, educação, perspectiva e futuro são temáticas abstratas, mera fumaça quando vistos do outro lado do abismo. Cidade de Deus não fala apenas de uma questão brasileira e sim de uma questão global. De sociedades que se desenvolvem na periferia do mundo civilizado. Da riqueza opulenta do primeiro mundo, que não consegue mais enxergar o terceiro ou quarto mundo, do outro lado ou no fundo do abismo".

— Fernando Meirelles [64]

Cidade de Deus aborda temas com referências no cotidiano e na contradição social brasileira, sobretudo, na problematização da favela como um lugar de extrema violência, motivada pelos pontos de venda de drogas e a sucessão de líderes do tráfico.[65] [66] O filme tem seu andamento desencadeado por decisões dos personagens que são dividas em partes e não seguem uma ordem cronológica. Estes determinantes são apresentados no filme pelos ritos de passagem estabelecidos para os personagens com participações importantes na trama,[66] sempre usando técnicas e estéticas da televisão e da publicidade.[67]

Estes ritos que definem fases e evoluções de personagens foram bastante utilizado em Cidade de Deus. Um desses casos acontece com Mané Galinha no desenvolvimento de uma sequência de cenas que termina em um assalto ao banco, onde a morte de um inocente passa ser "exceção à regra". Contudo, a morte de um destes inocentes desencadeia na queda de Galinha. Outra cena onde é explorado esta técnica é quando Marreco e Alicate estão escondidos da polícia em cima de um arvore. A câmera é usada de forma a passar toda agonia e inquietação do Alicate (Jefechander Suplino) que está em transe e decide abandonar a vida do crime.[66]

Crime e o tráfico de drogas[editar | editar código-fonte]

O tráfico de drogas é usado na trama do filme como o principal causador da grande guerra entre Sandro Cenoura e Zé Pequeno na terceira e última parte do filme, situada nos anos 1980. As drogas logo vêm acompanhas pelo cenário criminal, que é explorado na primeira e segunda parte do filme com os personagens do Trio Ternura — Cabeleira, Alicate e Marreco. A violência em conjunto do tráfico de drogas e o crime é a consciência da trama e são os fatores que desperta os importantes personagens e desencadeia uma das principais temáticas.[66]

"No pé ou na mão": Cena considerada por site especializado no meio cinematográfico como a mais violenta da história.

Os incidentes criminais são aviados pelas crianças que cresceram nesta vida e são vertentes importantes no enredo. O longa se permite explicar os mecanismos de trabalho desde a fabricação ao mercado do narcotráfico nas comunidades, que é realizado por jovens e adolescentes. Eles podem servir em funções que a obra intitula por "avião", "soltador de pipa", "vapor" ou "menino dos recados" — este último desempenhado por Filé com Fritas (Darlan Cunha).[68] Ao levar um recado de Zé Pequeno para seu rival, Sandro Cenoura, Filé é repreendido por Mané Galinha, que o lembra que é apenas uma criança e este no momento responde: "Que criança? Eu fumo, eu cheiro, já matei, já roubei, sou sujeito homem".[69]

Nestes crimes, também opera com condutas antissociais os garotos do grupo "Caixa Baixa", que praticam assaltos dentro e fora da favela Cidade de Deus. Os membros desta gangue adolescente chama a atenção de Zé Pequeno que não gostava de roubos na favela onde ele é o dono. Para resolver este impasse, Pequeno chama Filé com Fritas para caçar os garotos da gangue no intuito de "dar uma lição".[68] Este fato desfecha em outro rito de passagem quando o personagem Filé com Fritas é obrigado por Pequeno a escolher e matar um dos meninos do Caixa Baixa.[66]

Este momento resulta em uma cena impactante considerada a mais violenta do cinema, descrita pelo site especializado Pop Crunch como a mais difícil de ser assistida.[70] [71] A cena, cujo objeto ocorrente é a reação de uma criança ao levar um tiro no pé, foi enaltecida pela crítica por seu alto realismo com uma criança exposta a uma situação-limite.[72] O interprete da criança com o pé perfurado por uma bala da arma do personagem Filé com Fritas é Felipe Paulino da Silva, que tinha 7 anos e realmente chorou nas filmagens. "O Felipinho confundiu ficção com realidade", disse, em uma entrevista coletiva, o diretor Fernando Meirelles.[72]

Legado e influência[editar | editar código-fonte]

Cidade de Deus fez história e se tornou um dos filmes brasileiros mais importantes de todos os tempos.[73] Desde seu lançamento, até então o filme continua sendo citado em matérias e listas sobre melhores filmes em categorias como melhores filmes de drama, melhores filmes de ação e melhores filmes estrangeiros da década em sites e revistas especializadas e de renome no mundo cinematográfico.[74] [75] [76] Cidade de Deus foi se tornando um dos mais significativos de sua era, sendo altamente enaltecido por seus diálogos que deixaram marcas e ainda são reproduzidos. Como na cena em que Zé Pequeno toma a boca de fumo de Neguinho, onde é dita a frase "Meu nome agora é Zé Pequeno", considerada um marco e titulada como uma das mais inesquecíveis do cinema.[77] [78] Francisco Russo, crítico do AdoroCinema, relata que o filme merece todos estes títulos "pelas qualidades artísticas e estéticas ou pela repercussão que alcançou" e pelo fato de ser até agora o único longa-metragem brasileiro indicado em quatro categorias do Óscar.[79] Cidade de Deus por sua importância, foi o marco final do período conhecido como "a retomada do cinema brasileiro".[80]

A graphic novel Coringa tem quadro inspirado em Cidade de Deus na edição de 2008.

Em 2 de março de 2005 foi lançado o livro City of God in Several Voices - Brazilian Social Cinema as Action[nota 3] escrito por Else Vieira, que ministrava estudos brasileiros na Universidade de Londres. O lançamento contou com a presença de Fernando Meirelles e três integrantes do elenco que estava no Reino Unido apresentando métodos usados durante as filmagens.[81] O livro em língua inglesa de Else aborda discussões sobre a situação social do filme, o processo de produção de sua gênese ao lançamento e as polêmicas que seguiram a sua realização, como a discussão que Meirelles seguiu uma estética estrangeira.[82] A ida do elenco ao país foi organizada e patrocinada pela Universidade de Londres e pela organização não-governamental ABC Trust, que realiza trabalhos assistenciais no Brasil. Após Londres, os atores realizaram oficinas em Liverpool e em Coimbra, em Portugal.[81]

O filme de Meirelles foi usado como inspiração e em caráter de homenagem em grandes projetos no Brasil e no mundo. Em outubro de 2008 foi lançada a graphic novel Coringa desenhada por Lee Bermejo e roteirizada por Brian Azzarello. Um quadro da página 118 da história em quadrinho foi noticiado pela impressa internacional como "referência clara" à cena de Zé Pequeno — ainda então Dadinho — cometendo seus pequenos crimes.[83] Bermejo desenhou outros quadros da revista buscando inspirações como em The Dark Knight e no cantor Iggy Pop, líder do grupo punk The Stooges.[84] No Brasil, o longa foi homenageado em um episódio especial da série animada Turma da Mônica. No episódio ocorrente Chico Bento aparece contracenando com Zé Pequeno em uma paródia da cena de abertura de Cidade de Deus onde a equipe de Pequeno corre atrás de uma galinha.[85]

Tekkon Kinkreet, anime japonês de 2006 dirigido por Michael Arias se inspira abertamente nas estruturas narrativas de Cidade de Deus. Arias em entrevista concedida à revista Otaku USA especializada em mangás e animes, diz:

Cidade de Deus foi uma enorme influência. Pedi à equipe para assisti-lo porque é uma experiência muito densa, com muita informação, e achei que era muito relevante para o que eu pretendia alcançar com Tekkon. [A obra] não gasta muito tempo com explicações e também acontece em um mundo bastante fechado, uma favela. E muitos de seus personagens são crianças, então achei que seria uma referência muito boa. É um filme fantástico.[86]

Apesar da tematização da favela no cinema brasileiro não ser uma novidade, Cidade de Deus influenciou a estrutura estética de filmes que começaram a receber o rótulo de "favela movie" pela crítica especializada e jornalistas.[7] Esta atribuição a filmes que seguem esta mesma temática entrou em grande uso, sendo considerado atualmente um novo gênero cinematográfico, que centraliza ou aborda em algumas passagens de roteio a favela como ambientação, sendo veemente acompanhado por violência explicita e o tráfico de drogas.[87] [88] [89]

No Internet Movie Database, Cidade de Deus é classificado como o vigésimo primeiro filme melhor avaliado de todos os tempos.[90] Em maio de 2005, foi escolhido como um dos 100 melhores filmes de todos os tempos pela revista estadunidense Time em uma lista que não coloca os filmes em ordem.[91] [92] Em 2008, a revista britânica Empire escolheu o longa como um dos melhores filmes de todos os tempos, atingindo a posição 177º,[93] e em 2010, a Empire reformulou a lista, colocando-o como o sétimo melhor filme do cinema mundial, elogiando a narrativa e interpretação do elenco e, no mesmo ano, recebeu a sexta colocação como melhor filme de ação pelo The Guardian.[94] [95]

Documentário[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Cidade de Deus - 10 Anos Depois

Em 2012 foi exibido em festivais — como Festival do Rio, Festival Internacional de Miami, Festival de Havana entre outros — o documentário Cidade de Deus - 10 Anos Depois dirigido por Cavi Borges, que tem o objetivo de apresentar todo o impacto nacional e internacional que o filme causou, contando ainda com as transformações vividas por boa parte do elenco.[96] O documentário evidencia a importância de Cidade de Deus e sua influência na vida dos atores que na época eram não-profissionais que participaram do projeto. Alice Braga conseguiu notoriedade após participar do filme mesmo não estando em um papel recorrente na trama. Alice relata no documentário que "a hora do beijo virou um frame do filme que ajudou muito para mim, pois foi o frame que foi pro pôster dos Estados Unidos".[97]

Cidade de Deus - 10 Anos Depois ficou pronto em 2012, no entanto, levou exatos três anos para ser vinculado comercialmente nos cinemas brasileiros. Embora a demora para exibição em circuito cause estranheza, o filme obteve grande interesse e apreço por parte do público fã de Cidade de Deus.[98] Borges recebeu grandes críticas negativas sobre a falta de participação de membros da produção do longa Cidade de Deus, sobretudo, a ausência de maiores esclarecimentos de Fernando Meirelles e Kátia Lund sobre o valor pago aos atores — assunto que foi colocado no documentário em perspectiva com a estreia em Cannes, as quatro indicações ao Oscar e a repercussão em torno da obra.[79]

Turismo no Rio de Janeiro[editar | editar código-fonte]

Cidade de Deus como o filme Tropa de Elite, centra sua trama em uma comunidade do Rio de Janeiro onde envolve extrema violência e caos devido o grande tráfico de drogas na região. Com a ampla repercussão internacional de ambos os filmes, muito se repercutiu por críticos e jornalistas que isto influenciaria na construção e difusão de uma imagem generalizada das favelas utilizadas como ambientação nos filmes.[99] A preocupação levando em conta uma possível dedução no fluxo turístico internacional do Rio de Janeiro foi acatada, devido a taxa de criminalidade ser de fato muito altas.[100]

No entanto, o sucesso de Cidade de Deus e outras obras do gênero favela movie geraram ao contrário do esperado, quebrando paradigmas e estabelecendo um novo parâmetro de turismo no Rio de Janeiro, o reality tour nas favelas.[101] A influência do filme de Meirelles nesta nova modalidade é constatada por agentes de turismo que afirma ter crescido o fluxo consideravelmente desde 2002 com a repercussão do longa. O conjunto habitacional que inspira o filme fica longe da privilegiada zona sul da cidade, tornando a Rocinha como um dos pontos mais visitados pelos fãs.[101]

Prêmios e indicações[editar | editar código-fonte]

O sucesso de Cidade de Deus junto a crítica também refletiu-se nos prêmios recebidos pelo filme. O longa não conseguiu uma nomeação ao Óscar no ano em que foi lançado, pois não tinha entrado em circuito internacional, sendo lançado na Europa e Estados Unidos apenas em janeiro de 2003. Bruno Wainer — executivo da distribuidora Lumière —, lamentou que o longa não foi nomeado dentre os cinco indicados para o Oscar de melhor filme estrangeiro no ano de lançamento nos cinemas brasileiros. Para ele, se houvesse a indicação naquele momento, o filme superaria a marca de quatro milhões de espectadores.[31] [102] [103] Em janeiro de 2004, o longa foi indicado a quatro categorias na Academia — melhor direção, melhor roteiro adaptado, melhor edição e melhor fotografia.[104] O filme também obteve indicações em massa no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, vencendo nas categorias melhor filme, melhor diretor (Fernando Meirelles), melhor roteiro adaptado (Bráulio Mantovani), melhor fotografia (Cesár Charlone), melhor som e melhor edição (Daniel Rezende).[105]

Categoria Complemento Resultado
Melhor Diretor Fernando Meirelles Indicado
Melhor Roteiro Adaptado Bráulio Mantovani
Melhor Edição Daniel Rezende
Melhor Fotografia Cesár Charlone
Categoria Complemento Resultado
Melhor Filme Globo Filmes / Videofilmes / O2 Filmes Vencido
Melhor Diretor Fernando Meirelles
Melhor Roteiro Adaptado Bráulio Mantovani
Melhor Fotografia César Charlone
Melhor Som Guilherme Ayrosa, Paulo Ricardo Nunes
Alessandro Laroca Alejandro Quevedo
Carlos Honc, Roland Thai, Rudy Pi e Adam Sawelson
Melhor montagem Daniel Rezende
Melhor Ator Leandro Firmino da Hora Indicado
Melhor Atriz Roberta Rodrigues
Melhor Ator Coadjuvante Douglas Silva e Jonathan Haagensen
Melhor Atriz Coadjuvante Alice Braga e Graziella Moretto
Melhor Figurino Bia Salgado e Inês Salgado
Melhor Maquiagem Anna Van Steen
Melhor Trilha Sonora Antonio Pinto e Ed Côrtes
Melhor Direção de Arte Tulé Peake

Notas

  1. Raccord denomina-se uma construção de ligação formal entre dois planos sucessivos. É também o que reforça a ideia de continuidade representativa, provocando um efeito de ligação.[36]
  2. Blu-ray travado para região B, são discos que reproduzem apenas em players fabricados na Europa, Oriente Médio, África, Oceania e Guiana Francesa.
  3. "City of God in Several Voices – Brazilian Social Cinema as Action" tem a tradução livre para "Cidade de Deus em várias vozes: o cinema social brasileiro em ação".

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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]