UHF (banda)

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UHF
António Manuel Ribeiro (vocalista e guitarrista) num concerto dos UHF em 2009.
Informação geral
Origem Almada
País  Portugal
Gênero(s) Pós-punk, rock, hard rock
Período em atividade 1978 - presente
Editora(s) Metro-Som
EMI - VC
Rádio Triunfo - Orfeu
Edisom
BMG
AM.RA Discos
Road Records
Farol Música
Vidisco
Influência(s) The Doors, José Afonso
Página oficial www.uhfrock.com
Integrantes António Manuel Ribeiro
António Côrte-Real
Cebola
Ivan Cristiano
Nuno Oliveira
Ex-integrantes Américo Manuel, Carlos Peres, Zé Carvalho, José Matos, Zé da Cadela, Manuel Hippo, Renato Gomes, Rui Beat Velez, Pedro Faro, Xana Sin, Rui Rodrigues, Nuno Espírito Santo, Toninho, Rui Dias, Fernando Pinho, Renato Júnior, Rui Padinha, Fernando Deleare, Luís Espírito Santo, Nuno Duarte, Marco Costa Cesário, David Rossi, Jorge Manuel Costa, Fernando Rodrigues

UHF é uma banda portuguesa de rock formada em Almada em 1978.[1] São os principais responsáveis pelo surgimento do chamado boom do rock português no início da década de 1980,[2] movimento de renovação musical que despertou a sociedade para o rock cantado em português.[3] São uma das bandas nacionais mais prestigiadas e o grupo rock mais antigo em atividade.[4] A formação inicial era composta por António Manuel Ribeiro (vocal e guitarra), Carlos Peres (baixo e vocal de apoio), Renato Gomes (guitarra) e Américo Manuel (bateria).[5] Atualmente a banda é formada por António M. Ribeiro (vocal e guitarra), António Côrte-Real (guitarra), Luís Simões «Cebola» (baixo e vocal de apoio), Ivan Cristiano (bateria, percussão e vocal de apoio) e Nuno Oliveira (teclas, sintetizador e guitarra).

Resultante do pós punk no final da década de 1970, a sonoridade da banda incorpora o rock direto e espontâneo de características urbanas, produzindo também um som mais acústico e hard rock com alguma influência dos Doors.[6] [7] Foram um dos grupos mais bem sucedidos comercialmente no início da década de 1980 tendo vendido mais de cem mil discos em Portugal, premiando o single "Cavalos de Corrida" (1980), canção génese do rock português, e o aclamado álbum À Flor da Pele (1981) que ocupou a primeira posição do top nacional de vendas durante várias semanas. Ganham o prestigiado prémio da Casa da Imprensa na categoria de «Revelação 1981».[8] Conseguem superar-se à crise do rock português no final da década de 1980,[9] introduzindo influências do rock alternativo em seu estilo musical com o álbum Noites Negras de Azul (1988), cujos textos refletem estórias pessoais de António M. Ribeiro.[10] A experimentação foi também utilizada no álbum Comédia Humana (1991), integrando o estilo pop rock com canções mais comerciais.[11] Os UHF recuperaram os fãs e os elogios da crítica musical logo após os lançamentos de Santa Loucura (1993) e 69 Stereo (1996), que estabeleceu uma sonoridade rock mais convencional para a banda.[12] [13] Nos primeiros 28 anos, os UHF percorreram 700 mil quilómetros, venderam mais de um milhão e meio de discos e receberam onze discos de prata, sete de ouro e três de platina.[14] Em 2009 totalizavam a fantástica cifra de 1 500 concertos em Portugal e no mundo. Lançaram 15 álbuns de estúdio e estão representados em cerca de 80 compilações de vários artistas.[8]

Atentos à realidade política e social do país, os UHF são o rosto do rock de intervenção em Portugal.[15] Com alguma influência de José Afonso,[16] assumem uma posição ativa em relação a temas sensíveis na vida das pessoas, caso dos textos das canções: "Sarajevo", "Porquê (português)" ou "Vernáculo (para um homem comum)" que se tornou um manifesto político, contabilizando mais de cem mil visualizações em vídeos disponíveis na internet.[17] Em 2013 a digressão "UHF 35 anos - A Minha Geração" foi das mais bem sucedidas, marcada com palavras de ordem contra a desordem governativa do país. A posição de independência assumida desde o início, incomodando certos lobies da indústria fonográfica, provocou uma menor exposição mediática nos UHF, alvo de uma imprensa com falta de honestidade. [18] [19]

A formação dos UHF foi sofrendo constantes alterações ao longo dos anos. António M. Ribeiro, líder e compositor maioritário das canções, é o único membro fundador residente. Além de cantor e músico, é também escritor e autor regular de várias crónicas para rádios e jornais.[20] Lançou os livros de poesia "Se o Amor Fosse Azul que Faríamos Nós da Noite?" e "O Momento a Seguir" de 2003 e 2006, respetivamente. Sobre a banda que lidera lançou "Todas as Faces de Um Rosto" em 2002 e a antologia "Cavalos de Corrida-A poética dos UHF" em 2005. É também autor do livro em prosa "Por Detrás do Pano-35 histórias contadas na rádio & outras confissões", lançado em 2015 com o objetivo de corrigir a história da música rock em Portugal.[21] Tornou-se num dos melhores poetas-rock, sendo o fundador deste movimento em Portugal.[22] Apesar das edições a solo dos singles "É Hoje-Agora" (1987) e "Somos Nós Quem Vai Ganhar" (2003) e dos álbuns Pálidos Olhos Azuis (1992) e Sierra Maestra (2000), António M. Ribeiro nunca deixou de trabalhar diretamente com antigos e atuais músicos dos UHF.[23] Participam regularmente em concertos de solidariedade social [24] [25] e de apoio a causas filantrópicas,[26] incluindo a Assistência Médica Internacional,[27] Associação Abraço e Instituto Português de Oncologia.[28]

História[editar | editar código-fonte]

Formação e primeiros anos (1977–1979)[editar | editar código-fonte]

Em 1977 enquanto o punk rock conquistava Inglaterra e os Estados Unidos, Portugal ainda procurava ajustar-se à liberdade recém conquistada. O rock era visto pelos jovens como um movimento de contracultura, uma fuga aos princípios ditatoriais do regime salazarista. O rock era sinónimo de liberdade, uma linguagem musical sem ligação ao passado.[29] Os UHF foram dos primeiros a saciar uma imensa sede de rock nessa nova realidade social e política.[30] António M. Ribeiro (voz e guitarra), Carlos Peres (baixo), Alfredo Antunes (bateria) e um guitarrista brasileiro formam em 1977 na Costa da Caparica em Almada os Purple Legion, banda de covers que atuava no circuito de bailes.[31] Circuito, esse, que dominava o panorama musical da época pois o rock não era divulgado.[30] No final de 1977 Américo Manuel (bateria) junta-se a Carlos Peres e a António M. Ribeiro e iniciam as composições de autor. Alteram o nome da banda para À Flor Da Pele e depois, já com Renato Gomes (guitarra), para UHF. [32]

Cquote1.svg "À Flor Da Pele" era um nome demasiado grande, psicadélico e desprovido do sentido dos tempos imediatos que se viviam na música (...) De regresso a casa, quando o cabo da televisão a preto e branco voltou a falhar e eu fui dar o toque mágico, parei na fracção de segundo que faz nascer a ideia quando fixei as duas entradas na traseira do aparelho: VHF e UHF. Cquote2.svg
O líder dos UHF explica a origem do nome da banda. [33]

As dificuldades daquela época eram tremendas: não havia salas, não existia um circuito de espetáculos onde os grupos se pudessem mostrar, o país estava a acordar de uma enorme apatia social asfixiado por anos de isolamento. Os media reproduziam algum yé yé e quase de uma forma dominante o nacional cançonetismo. Portugal não conseguia evoluir, também, culturalmente. [34]

"Éramos vulgarmente corridos de uma sala emprestada por boa vontade ao fim de meia dúzia de ensaios por fazermos barulho, porque os cabelos eram compridos, falávamos alto e ríamos muito (...) Não tínhamos um adufe ou uma viola burguesa para encantar as elites (...) E esse era um perigoso desvio ideológico, maltratando as conjecturas do borrão dos cigarros, uma afronta à cultura popular obrigacionista."

— António M. Ribeiro descreve as dificuldades para arranjar uma sala de ensaios. [35]

No início do mês de Novembro de 1978 os UHF dão o primeiro concerto no Bar É, nos Capuchos em Lisboa, fazendo a primeira parte dos Faíscas. Neste concerto de estreia a voz principal ainda era ocupada por Vitor Macaco, que pouco tempo esteve na banda. António M. Ribeiro fazia de segundo guitarrista e coros.[36] Entretanto conheceram o radialista António Sérgio que achou a banda «interessante». No dia 18 de Novembro de 1978 realizam o seu segundo concerto, fazendo a primeira parte dos Aqui d’el-Rock na discoteca Brown's em Lisboa. Os músicos dos UHF viviam em Almada e as suas deslocações à capital estavam limitadas aos horários do transporte que fazia a travessia do rio Tejo. Para não perderem o último transporte de regresso a casa, a rápida saída depois do concerto era palavra de ordem, ficando conhecidos como: "Os gajos de Almada que chegam, tocam e desaparecem". [37]

No dia 3 de Junho de 1979 fazem a estreia em grandes eventos. Participam no "Festival Antinuclear-Pelo Sol" no Parque Eduardo VII em Lisboa juntamente com Rão Kyao, Pedro Barroso, Vitorino, Fausto, Trovante, Minas & Armadilhas, entre outros, naquele que seria o décimo primeiro concerto da banda. O repertório continha os temas: "Tempo Quente", "Os Putos Vieram Divertir-se", "Geraldine", "Voo 004/17 Venezuela", "Jorge Morreu", "Caçada" e "Aquela Maria".[38] A 6 e 7 de Agosto a banda apresenta-se em palco com mais um guitarrista, Alfredo Pereira, que deixara os Aqui d’el-Rock em busca de um projeto mais consistente, mas a sua passagem seria breve. Este concerto em Vila Viçosa contou ainda com os Minas & Armadilhas e com os promissores Xutos & Pontapés, ainda sem projeção mediática, que só conseguiriam o primeiro registo fonográfico em 1982. [39] [40]

Celebram na primavera de 1979 o primeiro contrato discográfico com a Metro-Som, uma pequena editora de Lisboa. Gravam o EP Jorge Morreu (1979)[41] que só viria a ser editado em Outubro, sem sucesso comercial. Os UHF assinaram contrato com uma editora que não promovia as suas bandas na rádio nem na imprensa e isso não interessava. O rock cantado em português dava os primeiros passos e precisava de ser divulgado. Descontente com a editora, o líder da banda contacta a multinacional PolyGram, mas o rumo desta editora na altura não passava pelo rock nacional.[42] Em 1979 os UHF já percorriam Portugal de norte a sul. A sua reputação consolida-se em múltiplos concertos, primeiro na Grande Lisboa e depois ao longo do país. Era a banda nacional escolhida, pelos grandes empresários do espetáculo, para fazer a primeira parte de bandas de renome internacional, caso dos Dr. Feelgood com dois concertos consecutivos a 18 e 19 de Setembro no Dramático de Cascais [32] e do rei da new wave, Elvis Costello com os Attractions, nos dias 15 no Porto e 17 e 18 de Dezembro no Pavilhão de Os Belenenses.[43] Os UHF adquirem junto da imprensa o estatuto de «banda ao vivo», mas passavam despercebidos aos responsáveis das grandes editoras pois estes não saíam dos escritórios para ver ao vivo o que se passava nos palcos.[44] A linguagem escrita do rock em português direto e espontâneo chega pela primeira vez a todos os lugares de Portugal. Os UHF faziam a radiografia real da vida de muitos jovens urbanos falando da marginalidade, das drogas duras, da prostituição, dos fluxos imigratórios e do trabalho árduo na Lisnave. Corporizam a vivência do «estar à margem» e alguma ortodoxia rock inspirada nos Doors. [7] [45]

Sucesso nacional e o boom do rock português (1980–1982)[editar | editar código-fonte]

No início de 1980, Xutos & Pontapés, GNR, IODO, Heróis do Mar, Street Kids, António Variações, entre outros, são lançados na primeira parte dos concertos dos UHF.[46] Com o desaparecimento dos Aqui d’el-Rock, Minas & Armadilhas e dos Faíscas (depois Corpo Diplomático) são os UHF que dirigem o motor do rock português.

"Fomos os primeiros a gravar um disco, “Jorge Morreu” em 1979. E a encetar uma digressão nacional a sério, fora dos bailaricos tradicionais. Mas o slogan (pai do rock português) pertence ao Rui, foi inventado pela editora Valentim de Carvalho e fica-lhe muito bem..."

— António M. Ribeiro resignado ao estatuto que lhe pertence. [16]
Primeiro logotipo da banda em 1980

Após uma primeira tentativa falhada em Janeiro de 1980, a banda assina contrato de cinco anos com a grande editora EMI-Valentim de Carvalho no início da primavera. A experiência adquirida na «estrada» revelou-se determinante. Gravam em Junho a canção "Cavalos de Corrida" mas ficou guardada durante três meses.[47] Nesta altura Américo Manuel já não ocupava a bateria, sendo substituído por Zé Carvalho. Participam no programa de rádio ao vivo Febre de Sábado de Manhã,[48] um dos principais percursores da divulgação do rock cantado em português, onde apresentam pela primeira e única vez ao vivo a maqueta "Cavalos de Corrida" em playback. [49] Os músicos que despontavam com o rock nacional encontraram também no programa Rock Em Stock da Rádio Comercial o trampolim para o reconhecimento do seu trabalho. A canção "Cavalos de Corrida" foi o primeiro grande êxito de audiência do programa, provocando de imediato o aparecimento de uma série de bandas.[50] Só faltava um catalizador para que o rock cantado em português entrasse nas editoras e nas rádios. Com a greve dos músicos sindicalizados, que afetou o próprio Festival da Canção em 1980, as editoras abrem as portas aos grupos de rock e, em parceria com a rádio, rebenta o inevitável boom da nova música nacional.[51] A sintonia pelo fenómeno que despontava era total, pois os músicos tinham a mesma idade dos radialistas, dos jornalistas e dos editores. Todos falavam da mesma maneira.[52] Quando Rui Veloso em 1980 lança o seu álbum de estreia com o sucesso "Chico Fininho", já os UHF tinham percorrido praticamente todas as estradas de Portugal num roteiro intenso de concertos. A canção "Cavalos de Corrida" andava a ser tocada pelo país antes de chegar aos estúdios de gravação.[6] Antes de 1980 não há qualquer registo tanto de estrada como fonográfico de Rui Veloso. [40]

Os UHF aproveitam a participação nos concertos de bandas de renome internacional para mostrar que o rock também se pode cantar com sucesso em português. No dia 7 de Junho de 1980 fazem a primeira parte dos Uriah Heep na Praça de Touros de Cascais [53] [54] e a 10 de Junho o semanário Rock Week [55] publica na capa uma foto com o título desafiante: "UHF-O Canal Maldito". Na entrevista, conduzida pelo jornalista António Duarte,[56] António Manuel Ribeiro revela a linha ideológica da banda:

Cquote1.svg Basicamente, consideramo-nos o grupo português de rock mais politizado, assumindo até às últimas consequências o cariz polémico e rebelde da música rock, no sentido das palavras, na expressão cénica, na subversão do ritmo. Situamo-nos no espírito da nova esquerda europeia e as nossas preocupações para a defesa deste pequeno mundo baseiam-se na ecologia, a ciência do futuro. Cquote2.svg
António M. Ribeiro em declarações à Rock Week.[57]

Nesta primeira entrevista de exposição nacional é notório a maturidade da banda e do seu líder, contrariando os discursos banais dos restantes grupos na época. O cognome "Canal Maldito", criado nesta entrevista, passou a acompanhar o trajeto da banda até aos dias de hoje. Em 2004 foi criado um blogue de debate musical e mais recentemente, em 2014, Nuno Calado produziu e realizou o documentário "UHF Canal Maldito-35 anos" para a RTP. [58] [59] No dia 16 de Agosto de 1980, participam no 1º Festival Rock de Cascais com The Skids, The Tourists, Original Mirrors e 999.[60] Fazem a primeira parte dos três concertos dos Ramones no nosso país nos dias 22, no Porto, e 23 e 24 de Setembro no Pavilhão Dramático de Cascais.[5] [61] São uma das influências dos UHF no início da sua atividade, por apresentarem um punk americano quente e direto em relação à trapalhada britânica. [62]

Em Outubro é então lançado o explosivo single "Cavalos de Corrida" (1980) [63] e atinge em poucos dias o primeiro lugar do top nacional.[64] Torna-se o primeiro single de rock português a atingir um galardão, no caso disco de prata, pelos 15 mil exemplares vendidos.[65] Este tema e "Chico Fininho" de Rui Veloso marcaram o início do boom do rock português.[66] Tocam ainda com os UFO em Coimbra e Lisboa a 13 e 14 de Dezembro, respetivamente.[67] Em 1980 os UHF realizam o registo imbatível de 81 concertos.[68] Com a entrada em cena da geração do boom do rock, os músicos e compositores deixam de praticar uma atividade marginal complementar de um emprego. Os UHF são dos primeiros a assumir-se como profissionais do rock em Portugal. [69]

Cquote1.svg De repente todos queriam ser como nós, a locomotiva de Almada (...) Enquanto o produtor Carlos Gomes e o Valentim de Carvalho procuravam trazer Rui Veloso para espectáculo como um todo coerente capaz de reproduzir o disco gravado, os UHF somavam palcos e conquistavam namoradas por este país fora. Sexo, drogas & rock and roll. Também (...) Não se trata de avaliar o ADN da paternidade, trata-se de reconhecer o grito firme e continuado que mexe com tudo, a diferença entre quem era e quem queria ser. Rui Veloso não esteve na génese do rock português, deram-lhe um cognome é certo, mas a locomotiva já ia em andamento quando o "pai" nasceu. [40] Cquote2.svg
O grito firme de António M. Ribeiro pela verdade do rock português.

Antes de iniciarem a gravação do primeiro álbum, os UHF são abordados por representantes de editoras estrangeiras para optarem pela língua inglesa. A Stiff Records, pretendendo dar continuidade às novas tendências musicais da new wave, apresenta a proposta mais convincente abrindo as portas dos seus estúdios na capital inglesa: "Vocês são bons, isto é novo, mas ninguém vos percebe". O receio de trocar o sucesso que despontava internamente pela desconhecida e exigente plateia inglesa viria a pesar na decisão.[70] Gravam um disco com versões em inglês dos seus êxitos, mas não chegou a ser editado. A banda recusou abandonar a língua materna. [71]

Em 1981 editam pela EMI-Valentim de Carvalho o aclamado álbum À Flor da Pele, [72] obtendo de imediato grande sucesso com as faixas "Rua do Carmo", "Geraldine", "Modelo Fotográfico" e "Rapaz Caleidoscópio". Os primeiros 12 500 exemplares incluíam o single extra com os temas "Quem irá beber comigo? (Desfigurado)" e "Noite Dentro" no lado B. [73] A canção "Rua do Carmo" foi o primeiro tema a ser conhecido deste álbum e a sua apresentação ao público feita com uma atuação na montra de uma loja do Chiado,[65] com a rádio em direto e a televisão a recolher imagens que o Telejornal exibiria nessa noite. Nunca antes em Portugal se tinha visto nada assim.[34] Este single passa mais de 30 semanas no top nacional e o álbum é premiado com o galardão disco de ouro pelos 30 mil exemplares vendidos. [5] [65]

Um dos temas mais marcantes do rock português. Canção pujante de forte sonoridade rock, presta homenagem à rua do Carmo em Lisboa e celebra todo um conjunto de vida no Chiado. [74]

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Logotipo clássico apresentado em 1981

O álbum À Flor da Pele (1981) é considerado a "Bíblia do rock português". Uma referência para todas as bandas rock. [31]

Em 1980 "Cavalos de Corrida" e "Chico Fininho" de Rui Veloso abriram as portas de um novo movimento em Portugal intitulado «rock português», mas seria em 1981 com "Rua do Carmo" e "Chiclete" dos Táxi a confirmação que algo mudara na música portuguesa, com novos músicos, autores, público identificado e indústria rock estabelecida. O fenómeno «rock português» é o movimento de renovação musical mais importante do pós 25 de Abril. [75] No dia 19 de Abril de 1981 participam no segundo aniversário do programa de rádio Rock Em Stock, no Pavilhão do Restelo, juntamente com os Street Kids, NZZN, GNR, Jafumega, Roxigénio e Arte & Oficio. Neste ano tocam ainda com Téléphone e Dexys Midnight Runners.[76] No ano louco de 1981 António M. Ribeiro torna-se «estrela rock» nacional. Vida veloz, acidentes de viação em busca do próximo concerto, cabelos compridos, rebeldia, frontalidade, independência e os caminhos solitários, eram semelhanças que o aproximavam a um ícone mundial. Numa das múltiplas entrevistas que o cantor dava, António Macedo, jornalista do semanário Se7e, questionou: "Como te sentes na pele do Jim Morrison português?" [77] Sem nunca ter admitido tal pretensão, o líder dos UHF passou a simpatizar com a analogia.[6] No final do ano ganham o prestigiado prémio da Casa da Imprensa na categoria de «Revelação 1981». Nesse ano vendem mais de cem mil discos e realizam 134 concertos, registo imbatível em Portugal. [78] [8]

Em Fevereiro de 1982 sai o segundo álbum intitulado Estou de Passagem, [79] em formato mini LP e que rapidamente atinge o galardão disco de prata. A banda experimenta uma nova sonoridade, mais leve e com presença do sintetizador. É um disco com mensagem. Os temas são filosóficos e outros marcadamente políticos, caso de "Notícias de El Salvador" focando a devastadora Guerra Civil neste país. A canção é interpretada pelo baixista Carlos Peres.[80] Na digressão atuam no dia 3 de Março no Cine Jardim no Funchal, tornando-se o primeiro grupo de rock a visitar a ilha da Madeira.[81] Descontentes com a pouca atenção que a EMI-VC dava ao protagonismo conquistado, os UHF quebram o contrato de cinco anos e mudam-se para a Rádio Triunfo, numa transferência que cobriu as manchetes dos jornais na época, a primeira em Portugal a envolver uma grande editora. [82]

Tensão na nova editora e primeiro álbum ao vivo (1982–1985)[editar | editar código-fonte]

No final de 1982 os UHF tinham um sistema empresarial envolvente que englobava escritório, relações públicas, equipas técnicas de logística e gestão de sistemas de luz e som que permitia à banda uma autonomia ímpar no panorama do espetáculo em Portugal.[83] As bandas que faziam a primeira parte dos concertos dos UHF tinham pela primeira vez direito a um som profissional,[84] caso dos Xutos & Pontapés que referem agradecimentos aos UHF no seu primeiro álbum 78-82. [85] Entre 1980 e 1982 o rock cantado em português dominou as audiências dos programas de rádio no nosso país. As rádios davam um vital contributo pedagógico de auto estima à sociedade portuguesa. Tanto a Rádio Comercial como a Renascença divulgavam a nova música portuguesa na quase totalidade das suas emissões. [86]

A decisão da mudança de editora não fora tomada por unanimidade e as interrogações instalavam-se. Em Outubro é editado o LP Persona Non Grata (1982),[87] escrito ao longo desse verão quente e agitado dos UHF. O tema "Um Mau rapaz" reflete, a partir do título, o clima psicológico que envolvia o grupo pela mudança de editora e pela fotografia da capa do álbum, em que António M. Ribeiro aparece isolado alimentando a especulação de ser uma foto promocional para uma futura carreira a solo. Partem em digressão incluindo França e Alemanha com a amiúde instabilidade no seio da banda.[5] [88] O álbum obtém sucesso nas fabulosas baladas "Dança de Canibais" e "Quebra-me". Neste ano totalizam 86 concertos.[89]

Na primavera de 1983 lançam Ares e Bares de Fronteira [90] e a primeira edição esgota rapidamente.[5] O álbum reflete as sombras do Estado da Nação, a austeridade que Portugal vivia com a entrada do Fundo Monetário Internacional. Tudo ficou mais caro, o custo de vida agravou-se e a nova editora discográfica tornou-se um paraíso perdido. Apesar da crise nacional, conseguem realizar 72 concertos. As canções refletem também uma fase negativa na vida de António M. Ribeiro. No decorrer da digressão, Carlos Peres, baixista e fundador, abandona o grupo dando o último concerto em 29 de Outubro na Praça Humberto Delgado no Porto.[91] Era o fim de uma era, a quebra do quarteto maravilha. Entra para o seu lugar José Matos.[92] Os UHF voltam a apostar no segundo guitarrista nos concertos ao vivo à semelhança do que fizeram em 1979. Convidam Francis, que entretanto deixara os Xutos & Pontapés, mas estaria pouco tempo na banda.[93]

Em 1984 lançam o single de inéditos "Puseste o Diabo em Mim" [94] com o tema "De Um Homem Só" no lado B, este, uma canção autobiográfica do líder dos UHF que aborda o início das confusões internas na banda. No início da primavera o baterista Zé Carvalho sofre um acidente de viação e é substituído temporariamente por Luís Espírito Santo. Após terminada a convalescença viria a deixar definitivamente os UHF em Setembro desse ano,[95] entrando para o seu lugar Zé da Cadela.[96]

No mês de Maio de 1985 é editado o álbum No Jogo da Noite - Ao Vivo em Almada,[97] gravado ao vivo nas noites de 23, 24 e 25 de Novembro de 1984 no Centro Cultural do Alfeite em Almada. É lançado apenas com o intuito de concluir as obrigações contratuais entre a banda e a Rádio Triunfo. Descontentes com a editora, os UHF recusam entregar mais canções originais e propõe no último ano de contrato a gravação de um disco ao vivo.[98] Contém três inéditos tocados ao vivo: "Três Peixes", "No Jogo da Noite" e "Tu Queres".[99] Entram para a banda dois elementos provenientes dos Go Graal Blues Band: o baixista Fernando Delaere e o baterista Manuel Mergulhão «Hippo» que substituí Zé da Cadela. Trata-se do primeiro disco de rock gravado ao vivo em Portugal.[100] Este mantém-se atualmente como o vinil mais raro e caro do mercado de usados.[101] Com a edição deste álbum os UHF cumprem o contrato de três anos com a Rádio Triunfo, que viria a decretar falência pouco tempo depois. Todo o espólio desta editora foi adquirido pela Movieplay que se tem recusado, desde então, a reeditar os álbuns que os UHF gravaram entre 1982 e 1985, bem como a impedir a introdução dessas canções em coletâneas ou em álbuns ao vivo da banda. [5]

Novo ciclo, retrospeção e sucesso renovado (1986–1990)[editar | editar código-fonte]

Iniciam em 1986 uma digressão com alguma instabilidade, consequência da crise do pós boom do rock português. O guitarrista Renato Gomes é o último elemento da formação inicial a deixar o grupo.[5] Em 1987 os UHF estão sem editora e António M. Ribeiro tem a sua primeira experiência a solo com a edição do single "É Hoje - Agora". [102] Trata-se de um hino de esperança que o vocalista aceitou escrever, a convite do presidente do Partido Socialista Português para a campanha das eleições legislativas de 1987. Uma canção que exaltasse as pessoas por um ideal.[103] Apesar de ser um trabalho a solo tem a participação de músicos ligados aos UHF e que o líder aproveita para renovar a banda, dando início a um novo ciclo. A Fernando Delaere (baixo) junta-se Rui Beat Velez (bateria) e Rui Rodrigues (guitarra) que substitui Renato Gomes. Na última quinzena deste ano os UHF regressam à Alemanha para uma série de concertos. [5]

Celebram contrato com a Edisom e lançam em Junho o auto produzido Noites Negras de Azul (1988).[104] Conseguem contornar a crise do rock português, introduzindo na sua sonoridade alguma influência da ala cinzenta do rock alternativo de Manchester. Trata-se do álbum mais negro dos UHF, marcado pela ressaca do sucesso vivido por António M. Ribeiro no boom do rock português no início dos anos 80. O próprio álbum é uma retrospeção de estórias pessoais do autor - as conquistas, desamores e falhanços - notado com mais clareza nas canções "Nove Anos", "Quero Estoirar", "Na Tua Cama", "Sonhos na Estrada de Sintra" e "Íntimo (regresso do inferno)". [10]

Balada rock com sonoridade acústica e um dos maiores sucessos da banda. A canção revela uma estória pessoal de António M. Ribeiro. [105]

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Logotipo renovado em 1988

Durante as gravações o baixista Fernando Delaere e o baterista Rui Beat Velez são substituídos, respetivamente, por Xana Sin e Luís Espírito Santo. Renato Gomes é convidado a participar no tema "Sonhos na Estrada de Sintra", brindando os fãs com sublimes solos de guitarra.[5] A canção "Na Tua Cama" é estreada a 20 de Abril de 1988 no velho Estádio da Luz perante 120 mil pessoas numa atuação durante o intervalo de um jogo da Taça dos Clubes Campeões Europeus. Pela primeira vez, um artista lançava uma nova canção fora do espaço radiofónico ou televisivo privilegiando uma plateia de futebol. Este single ocupa o primeiro lugar de vendas durante várias semanas e o álbum atinge o número quatro no top nacional, sendo galardoado com disco de ouro.[106] Para digressão os UHF convidam Rui Beat Velez, passando o palco a ser ocupado em simultâneo com dois bateristas.[107] No mês de Novembro lançam o mini LP Em Lugares Incertos (1988),[108] onde se nota a experimentação da caixa de ritmos.[109] No decorrer da digressão os UHF realizam, em Janeiro de 1989, um concerto no mítico clube Rock Rendez-Vous que seria o último grande espetáculo com a sala esgotada, antes do seu encerramento definitivo. Este concerto foi transmitido em direto pela estação de rádio RFM. [110]

Em 1989 é editado o máxi single "Hesitar" contendo dois inéditos: o tema homónimo e "Está Mentira à Solta". Ainda uma versão elétrica do tema "(Fogo) Tanto Me Atrais", originalmente editado no álbum Em Lugares Incertos (1988). O registo discográfico incluí também uma entrevista ao líder carismático dos UHF.[111] Pedro de Faro substituí Xana Sin no baixo elétrico [112] e Renato Júnior é convidado a tocar saxofone no tema "Hesitar". [113]

Em Junho de 1990 sai para o mercado o mini LP Este Filme - Amélia Recruta, [114] cujos direitos de venda a banda quis oferecer à Associação dos Deficientes das Forças Armadas e que gentilmente foi recusado; "Heranças que o Império tece", nas palavras do líder da banda. O tema "Amélia Recruta" é uma critica ao serviço militar obrigatório, de dimensão colonial, que teimava permanecer em Portugal e tinha apanhado novamente os músicos dos UHF. Mais um tema tocante na vida das pessoas.[115] O baixista Xana Sin regressa à banda e sai Pedro Faro. Renato Júnior (teclas e sax) torna-se membro integrante.[116] Em Outubro lançam o duplo álbum ao vivo Julho 13 (1990)[117] que tinha sido gravado na noite de 13 de Julho no Salão de Festas da Incrível Almadense.[118] O disco atinge o galardão disco de prata e encerra o contrato com a BMG. Por insistência da editora o concerto reuniu em palco, pela primeira vez depois da separação, os ex membros Carlos Peres, Renato Gomes e Zé Carvalho que marcaram a fase comercial mais lucrativa da banda. Tocaram os emblemáticos temas "Cavalos de Corrida", "Concerto", "Rapaz Caleidoscópio" e "Geraldine". [119]

Com a lei da rádio aprovada em 1988, as rádios nacionais responsáveis pelo fenómeno «rock português», numa comunhão de auto estima sem precedentes na sociedade portuguesa, perdem a autonomia dos programas de autor e instala-se a obrigatoriedade das playlists salvaguardando os interesses económicos das grandes emissoras. As rádios independentes (livres ou piratas) que se tinham tornado excessivas, são proibidas de emitir.[120] O público afasta-se do rock nacional provocando um retrocesso na evolução, com as novas gerações a procurem a música estrangeira e o emergente estilo brejeiro que passou a dominar as audiências na rádio. Tudo se torna mais difícil incluindo a promoção e divulgação dos novos discos. Apenas um número reduzido de bandas consegui resistir à crise do rock português: GNR, Rui Veloso, Xutos & Pontapés e os UHF, são nomes a reter na história. [9] [50]

Conflitos na Europa, hiato e retorno ao rock clássico (1991–1996)[editar | editar código-fonte]

Em 1991 assinam contrato com a multinacional BMG e lançam Comédia Humana,[121] obtendo sucesso nos temas "Brincar No Fogo" e "De Segunda Até Sexta". Trata-se do trabalho dos UHF com sonoridade mais próxima do estilo pop rock e o primeiro com edição em CD. É um disco trovadoresco com a escrita a revelar o olhar e a tomada de consciência existencial, quando uma guerra lá longe no deserto é um acontecimento diário.[122] O tema "Comédia Humana" faz uma abordagem à primeira guerra do Golfo em 1990, relatando a barbaridade entre os homens: "A primeira vez que uma ação militar não é fixa pela foto mas por sequência de imagens de combate em direto pela TV", no olhar crítico de António M. Ribeiro.[122] O guitarrista Toninho e o baixista Nuno Filipe são os novos elementos da banda. No decorrer da digressão participam no dia 31 de Julho no concerto de Joe Cocker e Simple Minds no Estádio José Alvalade em Lisboa. A atuação dos UHF apenas durou cerca de trinta minutos, sendo forçados a sair do palco por imposição dos agentes estrangeiros alheios à organização. Para memória futura fica o registo do mau som e a falta de profissionalismo da empresa responsável pelo festival.[123]

Os UHF realizam concertos especiais nos Coliseus de Lisboa e Porto, respetivamente a 6 e 8 de Fevereiro de 1992, sendo o de Lisboa gravado pela RTP.[5] Estes concertos, com base no álbum Comédia Humana (1991), tiveram as participações especiais de Jorge Palma, Zé Pedro e Lena d'Água.[124] É lançado o CD single "UHF-Ao Vivo no Coliseu de Lisboa",[125] em edição pirata e limitado a 15 exemplares, com os temas "Estou de Passagem" e "Frágil" em dueto com Jorge Palma. Ainda em 1992 António M. Ribeiro, depois da primeira experiência a solo em 1987, edita com o selo da BMG o primeiro álbum em nome próprio intitulado Pálidos Olhos Azuis (1992),[126] obtendo sucesso no tema "Velhos Tamborins". Aborrecido com o grupo, António M. Ribeiro dispensa os músicos, faz uma curta pausa na banda (hiato) e encontra refúgio neste projeto. Tem a colaboração de antigos membros e outras participações que o líder aproveita para renovar os UHF.[127] A edição deste trabalho em CD apresenta dois temas extra: "Hi John" dedicado ao músico John Lennon, uma das suas referências musicais, e "Velhos Tamborins" em versão longa. [128]

No mês de Maio sai para o mercado o eclético álbum Santa Loucura (1993) [129] em formatos CD e duplo LP. Um trabalho maturado de que resultou uma panóplia de canções e vários sucessos, com destaque para a canção popular "Menina Estás à Janela" recriada próximo do estilo punk rock. Trata-se da primeira versão de canções de outros artistas editada pelos UHF. A sonoridade de Santa Loucura marca o retorno ao rock convencional da banda.

Canção popular recriada pelos UHF com sonoridade próxima do punk rock. Tornou-se num dos maiores sucessos da banda. [5]

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O tema "Sarajevo", outro sucesso que varreu o país, é uma canção de intervenção social que retrata a barbaridade da guerra que renascia na Europa, consequência da luta pela independência das repúblicas que formavam a Federação da Jugoslávia.[130] A banda sofre nova alteração, saem Toninho (guitarra) e Luís Espírito Santo (bateria) entrando, respetivamente, Rui Dias e Fernando Pinho. O baixista Fernando Delaere regressa aos UHF para o lugar de Nuno Filipe. É um álbum bem recebido pelo público mas com fraco volume de vendas, devido à má gestão promocional da editora. O vídeo de promoção televisiva do tema "Menina Estás à Janela" foi atribuído à compilação de vários artistas Número 1, [131] que alcançou o primeiro lugar do top de vendas e aí se manteve por várias semanas, em vez de promover o próprio álbum dos UHF. As vendas do álbum Santa Loucura não refletiam os múltiplos concertos realizados no ano de 1993 e a banda estava em polvorosa com os responsáveis da BMG. O disco atinge apenas o galardão disco de prata.[12] No dia 11 de Setembro atuam no Estádio José Alvalade juntamente com Billy Idol e Bon Jovi, perante uma plateia de 50 mil pessoas.[132] Segue-se a edição do EP 4 Rave Songs (1993)[133] contendo quatro músicas do álbum Santa Loucura (1993) de aproximação sonora ao estilo musical rave, em grande expansão por toda a Europa na década de 90. Foram trabalhadas duas novas misturas com sonoridade eletrónica: "Aqui Planeta Terra" e "Esperar Aqui Por Ti". Colocado à venda exclusivamente nas lojas Bimotor com edição limitada. [5]

Em 1994, na comemoração do vigésimo aniversário da Revolução dos Cravos, são convidados a participarem na compilação Filhos da Madrugada [134] de homenagem a José Afonso com o tema "A Morte Saiu à Rua". Trata-se da primeira versão dos UHF das canções de José Afonso. No dia 30 de Junho é realizado um concerto no Estádio José Alvalade com a participação dos UHF [135] e das restantes bandas presentes nesta compilação, integrado na programação de "Lisboa 94-Capital Europeia da Cultura".[136] Neste mesmo ano, o programa Idade da Inocência da Rádio Comercial convida António M. Ribeiro, Miguel Ângelo, Viviane e José Cid a gravarem inéditos de Natal. [5]

É lançada a compilação de Natal Espanta Espíritos [137] pela editora Dínamo em 1995, que reúne alguns duetos entre cantores portugueses de diferentes sensibilidades musicais. O tema de maior destaque é "Podia Ser Natal", da autoria do líder dos UHF e interpretado em dueto com Miguel Ângelo.[138] Trata-se de um poema de António M. Ribeiro publicado em Dezembro de 1994 no Jornal Público, a convite do jornalista Luís Maio, e que depois foi musicado e gravado para esta compilação de inéditos de Natal.[139] Neste ano os UHF comemoram 15 anos de carreira e lançam a primeira coletânea intitulada Cheio (1995),[140] com algumas músicas regravadas em ambiente acústico no Convento dos Capuchos em Almada. O single de apresentação é uma nova versão do clássico "Cavalos de Corrida".[141] Contém cinco inéditos entre eles "Quero um Whisky", "Por ti e Por Nós Dois" e "Toca-me".[5] A coletânea é reeditada no ano seguinte com o nome Cheio (o melhor de), contendo mais cinco temas inéditos.[142] Nesta altura os UHF não tinham guitarrista definido.[143] Numa ação de campanha da luta contra a SIDA, em parceria com a Associação Abraço, os UHF recuperam três temas desta coletânea e lançam o EP Toca-me (1995),[144] abraçando mais uma vez a causa filantropica. É colocado nos escaparates um volume do "Talento Club Mania Show" da autoria de Carlos Caseiro dedicado à banda de Almada.[5] Ainda em 1995, a BMG recupera os dois últimos álbuns de estúdio Comédia Humana (1991) e Santa Loucura (1993) e lança Back 2 Back (1995), uma box set constituída por dois CDs. [141]

Em 1996 a editora EMI-VC edita a coletânea Cavalos de Corrida – Projecto Caravela [145] com os maiores sucessos da banda entre 1980 e 1982 que marcaram o boom do rock português. Participam com o inédito "Sábado (nos teus braços)" na compilação Algarve,[146] em formato picture disc da Virgin Megastore de Lisboa e editado pela BMG em Outubro.[147] Com o patrocínio da Swatch, a compilação é limitada a 666 exemplares contendo ainda as participações dos Delfins, Santos & Pecadores e Pólo Norte.[148] De regresso aos originais, lançam em Novembro o álbum 69 Stereo (1996),[149] que consolida a sonoridade rock convencional dos UHF.[13] Rui Padinha é o novo guitarrista da banda. A canção "O Povo do Mundo" é um manifesto contra o racismo, xenofobia, intolerância religiosa e a «universal estupidez consciente» que tardam em desaparecer da sociedade.[150] É editado em single a faixa "Foge Comigo Maria",[151] uma sonoridade Lou Reed ligth, o tema de maior sucesso.[13] A banda convida Né Ladeiras a participar na faixa "Amor Perdi". O álbum é considerado um dos melhores discos de 1996 para o Jornal Público.[5] Também neste ano é lançada a coletânea Sarajevo-Bósnia 1996 [141] em formato K7 e MMC com tiragem de 600 exemplares. Foi expressamente produzido para o contingente militar português que integrava a Missão de Paz na Bósnia numa oferta simbólica dos UHF. Três anos depois, em 1999, a banda é convidada a realizar um concerto de Natal na capital Sarajevo e que foi impedido pelo forte nevão que se fez sentir naquela zona.[130]

Independência, novo hiato e formação consolidada (1997–2003)[editar | editar código-fonte]

Saturado com as obrigações contratuais e atento às más experiências vividas no passado, António M. Ribeiro cria no final de 1997 a editora AM.RA Discos de forma a ter controlo sobre a sua obra, tornando os UHF independentes. Apenas passarão a negociar a distribuição com outras editoras.[1] [152]

Cquote1.svg A independência em Portugal paga-se, porque a independência é um acto de inteligência e neste país não podemos ser inteligentes. Cquote2.svg
António M. Ribeiro (Setúbal na Rede) [153]

Em 1998, celebram 20 anos de carreira e lançam o CD Rock É! Dançando Na Noite, [154] marcando a estreia da nova editora. Obtém o êxito "Quando (dentro de ti)", uma canção positiva que fala da força que existe esquecida nas pessoas. A banda é totalmente renovada com músicos mais jovens que António M. Ribeiro. Entram David Rossi (baixo), Marco Costa Cesário (bateria), Jorge Manuel Costa (piano e saxofone) e António Côrte-Real (guitarra), filho do líder da banda. Todos participam como compositores dos temas.[155] No mês de Agosto deste ano, os UHF participam com o inédito "Laura In" na compilação ProMúsica 19, uma edição da revista com o mesmo nome.[156] [147]

No dia 25 de Junho de 1999 o grupo assinala o vigésimo aniversário do lançamento do primeiro disco com um concerto na Praça Sony do Parque das Nações em Lisboa.[147] O espetáculo teve a edição programada da coletânea em duplo CD Eternamente (1999),[157] que reúne os principais sucessos da banda com algumas músicas a terem uma nova roupagem. Tornou-se disco de prata só à conta das pré vendas para as lojas e posteriormente disco de ouro.[147] Neste álbum podemos encontrar, por exemplo, a nova versão do clássico "Jorge Morreu", três inéditos e a versão disco do tema "Angie" dos Rolling Stones.[158] Das canções editadas entre 1982 e 1985 não foi possível integrar os cinco temas que tinham sido escolhidas, pois a editora Movieplay que detém o espólio da extinta Rádio Triunfo, mais uma vez, não o permitiu.[5] A 18 de Agosto é editado o EP Sou Benfica (1999)[159] de homenagem ao Sport Lisboa e Benfica. O convite surgiu da claque do clube e foi aceite pelo líder dos UHF. O disco contém dois inéditos e três versões desses temas. A canção "Sou Benfica" é uma prenda que António M. Ribeiro quis dar ao pai no seu último ano de vida.[160] Tornou-se o novo hino da modernidade do clube da Luz, uma canção positiva que não hostiliza os opositores nem promove a guerra no futebol. [161]

Depois de um período conturbado na sua vida pessoal, António M. Ribeiro faz nova pausa na banda (hiato) e dedica-se à composição do segundo álbum a solo. Com o selo da Road Records lança em Julho o CD Sierra Maestra (2000).[162] Trata-se de um trabalho de profunda reflexão, um disco muito sereno não só na música como nos textos, uma acalmia do autor enquanto ser espiritual.[163] São nove novas canções partilhadas por 14 convidados, entre os quais, Renato Gomes ex membro e co-fundador dos UHF, Alexandre Manaia que pertenceu aos GNR e aos Bandemónio de Pedro Abrunhosa e alguns músicos integrantes dos UHF. [164]

Em 2001 a AM.RA Discos edita À Beira do Tejo,[165] coletânea produzida exclusivamente para exportação não estando disponível no circuito comercial em Portugal. Recupera canções dos dois últimos álbuns da banda: Rock É! Dançando Na Noite (1998) e Eternamente (1999). Neste ano os UHF apresentam a formação mais sólida: António M. Ribeiro (voz e guitarra), António Côrte-Real (guitarra), Fernando Rodrigues (baixo) e Ivan Cristiano (bateria) que permanecerão juntos até 2012. [32] O mês de Junho de 2002 é assinalado pelo lançamento de "Todas as Faces de um Rosto", a primeira aventura literária do poeta rock e líder dos UHF. Neste livro verificamos a interligação com as notas de viagem, a poesia e as canções escolhidas.[166]

O ano de 2003 é marcado por várias edições:

"Somos Nós Quem Vai Ganhar" (2003) [167] é um CD single a solo de António M. Ribeiro com participação dos músicos dos UHF. Trata-se de um convite da Federação Portuguesa de Futebol dirigido ao líder da banda para compor o hino da seleção nacional de Sub-17, que viria a vencer o campeonato da Europa de 2003, realizado entre 7 e 17 de Maio nos distritos de Viseu e Vila Real.[168] É a única seleção nacional em todos os escalões a sagrar-se campeã europeia numa organização portuguesa.[169] [170]

Harley Jack (2003) [171] é um EP dedicado aos adeptos das concentrações de motards e aos seus rituais de união e amizade.[32] Contém os inéditos "Harley Jack", "Caloira Bonita" e "Faz de Conta é Um País". Recupera ainda três temas. Com edição limitada, foi distribuído apenas em concentrações de motards e no site oficial da banda. [172]

Balada rock interpretada em dueto com a cantora de jazz Orlanda Guilande.[173] O tema pertence ao enredo da ópera rock dos UHF. Para o líder da banda: "Uma das mais belas canções de amor que escrevi, um milagre de produção em estúdio". [174]

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Sou Benfica - As Canções da Águia (2003) [175] é a primeira coletânea dos UHF dedicada ao Sport Lisboa e Benfica. Das onze faixas que compõem o álbum destaca-se o hino "Sou Benfica" de 1999 e o inédito "Uma Luz de Paixão", uma canção emotiva, no adeus ao antigo Estádio e acolhimento à nova casa do clube.[176] De referir que os UHF foram a última banda a realizar um concerto no antigo estádio antes de se proceder à demolição.[160] O álbum viria a atingir a 23ª posição na tabela de vendas em 2005 sendo galardoado com disco de ouro,[177] consequência do título de campeão nacional conquistado pelo Benfica nesse ano.[178]

La Pop End Rock (2003),[173] duplo álbum de originais que celebra os 25 anos de carreira dos UHF. Trata-se da primeira ópera rock autobiográfica feita em Portugal. Para António M. Ribeiro: "É uma obra ficcionada sobre a carreira oficial e a vida não documentada dos UHF, enquanto banda, e das personagens que pelo grupo passaram ao longo dos encores de uma vida".[179] Um trabalho grandioso e maturado produzido para representação de ópera rock. [180] Obtém sucesso nos temas "A lágrima Caiu" e em "Os Putos Vieram Divertir-se", canção que homenageia a determinação da banda em afirmar-se no panorama musical e faz uma dedicatória especial à fiel legião de fãs. A foto na capa do disco, uma criança, ilustra o lado naïf do início da banda.[180] Os UHF regressam à editora EMI vinte anos depois, para a gravação deste álbum.[181] Em Outubro deste ano é colocado nos escaparates o primeiro livro de poesia de António M. Ribeiro: "Se o amor fosse azul que faríamos nós da noite?", com edição da Garrido Editores.[182]

Retorno ao sucesso, arquivo histórico e os trinta anos (2004–2009)[editar | editar código-fonte]

Muito acarinhados na ilha da Madeira, os UHF recebem uma proposta do Município de Porto Moniz para um trabalho que homenageasse os seus imigrantes e analtecesse o concelho. Gravam o EP Voltei a Porto Moniz (2004),[183] com três inéditos, dois temas recuperados e uma faixa interativa.[184] Destaque para o tema homónimo, uma declamação musicada num fascinante texto poético.[185] Com exclusividade da Câmara Municipal desta cidade, a edição não foi distribuída no circuito comercial. Também neste ano é lançado o EP Podia Ser Natal (2004),[186] que recupera o tema homónimo originalmente editado em 1995. Com um novo arranjo, a canção foi apresentada no programa recreativo da SIC "As Mais Belas Canções de Natal" de 2004 e que os UHF decidiram editar em CD. Limitado a 500 exemplares, a banda entregou à Fundação AMI um euro por cada disco vendido felicitando as nobres causas apoiadas por esta instituição, em mais uma ação de filantropia dos UHF.[27] [187] Contém os inéditos "Quarto 603" de 1999 e "Um Homem à Porta do Céu" de 2001, abrindo-se assim pela primeira vez as portas do arquivo histórico da banda.[188]

De regresso aos originais, lançam a 14 de Março o álbum Há Rock no Cais (2005),[189] onde o amor, a relação com o Tejo, Lisboa e Almada, a crítica social e a guerra voltam a servir a escrita para uma sonoridade forte que revive as origens.[190] O tema de maior sucesso é "Matas-me Com o Teu Olhar", em versão eléctrica e outra acústica com a participação de um quarteto de cordas da Orquestra Metropolitana de Lisboa.[191] A canção faz parte da banda sonora da telenovela Ninguém Como Tu,[192] exibida neste ano pela estação de televisão TVI. Em Novembro António M. Ribeiro lança o seu terceiro livro "Cavalos de Corrida-A poética dos UHF", uma antologia de todos os poemas que a banda UHF e o próprio autor a solo gravaram entre 1979 e 2005. Editado pela SeteCaminhos.[193] No ano seguinte é reeditado Há Rock no Cais (2006) em duplo CD e limitado a mil exemplares,[194] de promoção aos concertos nos Coliseus de Lisboa e Porto a 23 de Setembro e 6 de Outubro, respetivamente, sendo o de Lisboa gravado para futura edição em DVD.[195] O CD extra contém sete temas, entre os quais a versão ao vivo "Matas-me Com o Teu Olhar", o inédito "Deputado da Nação" e dois videoclips. O tema "Estou-me nas Tintas (primeiro os meus)" faz parte da banda sonora da telenovela Fala-me de Amor.[196] A editora EMI lança no mercado a coletânea UHF-Grandes Êxitos-EMI Gold (2006) [197] recuperando os maiores sucessos da banda e do rock português entre 1980 e 1982. O ano de 2006 é ainda marcado pelo lançamento do quarto livro de António M. Ribeiro. Neste segundo livro de poemas inéditos, intitulado "O Momento a Seguir", verificamos a projeção de uma escrita do autor há muito reconhecida nas suas canções de combate social. Uma edição da SeteCaminhos. [198]

Os UHF dão seguimento à edição de canções guardadas no seu arquivo histórico e lançam a 16 de Abril de 2007 a coletânea Canções Prometidas - Raridades Vol.1, [199] contendo sete inéditos e versões nunca editadas.[200] Teve uma primeira edição exclusiva para o clube de fãs, limitado a 400 exemplares numerados.[201] A 24 de Novembro a banda saúda os fãs com a nova coletânea Canções Prometidas - Raridades Vol.2 (2007),[202] contendo seis inéditos e a versão do tema "Grândola, Vila Morena" de José Afonso, com as participações de Samuel, Manuel Freire, José Jorge Letria e Vitorino.[203]

No dia 28 de Março de 2008 iniciam as comemorações do trigésimo aniversário com um espetáculo no anfiteatro da Aula Magna.[83] O concerto teve as participações especiais de outros músicos que têm colaborado com os UHF em vários álbuns, designadamente Jorge Manuel Costa (piano e saxofone), Nuno Flores (violino) e António Eustáquio (guitarra portuguesa).[204] Os momentos altos do concerto foram protagonizados pelos também convidados Renato Gomes no clássico "Cavalos de Corrida", e pelo maestro António Vitorino de Almeida que brindou o público com rasgos de improviso ao piano no tema "Sarajevo".[205] Este espetáculo marcou a arranque da digressão "30 anos ligados à corrente".[206] No decorrer da digressão é lançado no dia 5 de Maio a coletânea UHF - Os Anos Valentim de Carvalho (2008),[207] que reúne a totalidade das músicas gravadas para esta editora entre 1980 e 1982. Incluí os álbuns À Flor da Pele (1981) e Estou de Passagem (1982), os singles "Cavalos de Corrida" (1980) e "Quem Irá Beber Comigo? (Desfigurado)" (1981) bem como uma versão inédita de "Cavalos de Corrida" de 1982 regravada em 24 pistas.[208] A edição surge acompanhada por um depoimento de António M. Ribeiro recolhido pelo jornalista Rui Miguel Abreu.[209] O encerramento da digressão ocorreu na Academia Almadense, num concerto realizado a 20 de Dezembro com as participações especiais de Carlos Peres e novamente de Renato Gomes.[210] Ainda em 2008, são reeditados em CD os álbuns Noites Negras de Azul [211] e Em Lugares Incertos,[212] ambos de 1988, celebrando os vinte anos do lançamento. No final deste ano, o teclista Nuno Oliveira torna-se membro integrante. [213]

A 23 de Março de 2009 é editado o álbum Absolutamente Ao Vivo, [214] que celebra os 30 anos da gravação do primeiro disco da banda de Almada. Este trabalho é a reprodução fiel de tudo o que aconteceu no palco do Coliseu de Lisboa, num concerto realizado a 23 de Setembro de 2006 sem qualquer retoque em estúdio.[215] O álbum atinge a 14ª posição na tabela de vendas.[216] Para além do formato em duplo CD, a banda presenteia os fãs com a edição do primeiro álbum de vídeo,[217] que na sua primeira edição veio acompanhado pelo single extra "O Tempo é Meu Amigo" (2009),[218] um inédito que integra a banda sonora da telenovela Deixa Que Te Leve.[219] No mês de Julho a prestigiada compilação de rock norte americana da Quickstar Productions convida os UHF a participarem na edição Rock4Life International - Vol.11 de 2009, com o tema "Alguém (que há de chegar)".[220] Os UHF tornam-se a primeira banda portuguesa a participar nesta compilação internacional, de apoio a causas filantrópicas.[221] Meses mais tarde são novamente convidados pela Quickstar Productions a participarem na nova compilação com o tema "Matas-me Com o Teu Olhar".[222] No dia 10 de Agosto lançam o álbum Eu Sou Benfica (2009),[223] segunda coletânea dedicada ao clube da Luz, pelo título de campeão nacional conquistado em 2009.[224] Tem a participação de artistas afetos ao clube, a convite dos UHF.[225] Em Setembro a AM.RA Discos edita a coletânea temática Caloira Bonita 2009, [226] preparada especialmente para a digressão das recepções ao caloiro de 2009 com temas de referência para o mundo universitário. Na noite de 19 de Setembro realizam um concerto na mítica rua do Carmo, recordando uma das canções mais familiares da memória pública.[227] O espetáculo contou com a presença do primeiro guitarrista dos UHF, Renato Gomes, e da Tuna Universitária do Instituto Superior Técnico.[228] São condecorados com a «Medalha de Mérito da Cidade» pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa.[8] Ainda nesta ano a canção "Porque Será Que Amo", do segundo álbum a solo de António M. Ribeiro, é escolhida para integrar a banda sonora de Meu Amor,[229] primeira telenovela portuguesa premiada com Emmy. [230]

No fim do ano de 2009 os UHF totalizavam a fantástica cifra de 1 500 concertos em Portugal e no mundo, vendendo perto de um milhão e meio de discos ao longo da carreira. Estão representados em cerca de 80 compilações de vários artistas.[8]

Canções de combate social e quinto álbum ao vivo (2010–presente)[editar | editar código-fonte]

Depois da edição de várias coletâneas, os UHF regressam aos originais com o álbum Porquê? (2010), lançado a 4 de Outubro pela AM.RA Discos.[231] É o trabalho mais politizado da banda, seguindo a linha ideológica da intervenção, há muito reconhecida nos UHF, agora com canções de combate social. Para o mentor da banda: "Trata-se de um CD em que, entre o amor e a canção política, o rock intervém".[232] O tema "Porquê (Português)" é uma sátira à medíocre classe política responsável pelo critico estado da nação. [233]

Cquote1.svg O porquê fica mesmo como a grande pergunta. Depois de todas as discussões possíveis - económicas, financeiras, sociais, partidárias e não partidárias - há sempre uma pergunta que fica: Porquê? (...) O melhor da nação são os portugueses: os portugueses não são números, não são pedras, não são estradas. São pessoas. Cquote2.svg
Alerta à classe política de António M. Ribeiro.[18]

Iniciam a digressão "Porquê em Portugal", percorrendo o país de norte a sul com canções inquietas de alerta social.[234] A faixa "Portugal (somos nós)" é uma canção extremamente positiva, a puxar pelas pessoas, um apelo à consciência nacional. Os políticos medíocres estão de passagem e não afetarão a identidade nobre da nação portuguesa.[18] As canções "Vejam Bem" de José Afonso e "O Vento Mudou" de Eduardo Nascimento, são as duas versões incluídas no álbum. O tema "Porquê Só Ela" integra a banda sonora da telenovela Espírito Indomável.[235] O álbum atinge a 19ª posição na tabela nacional de vendas em 2010.[236] No mesmo ano é emitido pelos CTT uma edição especial de selos de correio sobre a história do rock em Portugal, [237] da qual faz parte o selo com a capa do álbum À Flor da Pele de 1981. [238] [239]

"Passo a passo, vamos fazendo aquilo que queremos. E muitas vezes essa independência incomodou. Mas a independência incomoda em Portugal (...) Nós gostamos e precisamos das editoras - se bem que hoje temos a nossa e trabalhamos mais com distribuidoras - mas nunca abdicamos da escolha do rumo. Pagamos com a nossa independência alguma exposição menor."

— António M. Ribeiro fala à TVI 24 do íngreme percurso dos UHF para a independência. [18]

Dado a grande procura que teve a primeira edição, o álbum Porquê? é reeditado em 2011,[240] contendo o inédito "Fingir, Não Sei Fingir", três versões acústicas e recupera "O Tempo é Meu Amigo", tema do single que acompanhou a primeira edição do DVD Absolutamente Ao Vivo em 2009.[241] [242] Mais uma vez as canções dos UHF são selecionadas para integrar bandas sonoras de séries de ficção, desta vez o clássico "Rua do Carmo" de 1981 na telenovela Anjo Meu.[243] A editora Tugaland em parceria com o Diário de Notícias retoma o projeto, iniciado em 2008, da coleção em 15 volumes que conta a história das melhores bandas do pop e rock português, desenhadas pelos mais prestigiados ilustradores portugueses e acompanhado por uma coletânea com os temas mais marcantes.[244] A edição dedicada aos UHF, BD Pop Rock Português - UHF (2011),[245] é lançada 20 de Maio em formato BD+CD com argumento e ilustração de Pedro Brito,[246] e reúne canções gravadas desde 1998. No dia 23 de Julho sai para o mercado outra coletânea: UHF - Bandas Míticas Vol. 04 (2011).[247] Trata-se de uma coleção do jornal Correio da Manhã sobre vinte bandas que marcaram os últimos 50 anos da história da música portuguesa. A coleção é composta por uma coletânea com os temas mais emblemáticos, livro com fotos, depoimentos inéditos, discografia e árvore genealógica.[248] O quarto volume é dedicado aos UHF e reúne as canções mais marcantes do boom do rock português, com textos da autoria de David Ferreira.[249] Este ano é ainda assinalado pela edição do CD single de intervenção social "Por Portugal Eu Dou" (2011). Nas palavras do poeta rock: "É uma tomada de posição ativa a favor da coesão e da identidade cívica da nação". Uma mensagem positiva de união dos cidadãos em prol da nação portuguesa.[250] Este single foi oferecido na compra do bilhete para assistir ao concerto de gravação do álbum ao vivo nos dias 26 e 27 de Novembro na cidade de Fafe. [251]

É então lançado o quarto álbum ao vivo Ao Norte - unplugged (2012),[252] em duplo CD, gravado em formato acústico.[253] Para o líder da banda: "É uma celebração ao Norte e a todos os fãs anónimos que entraram e continuam a entrar para a grande família que o tempo e as canções ofereceram ao grupo".[254] O single de apresentação é o clássico "Cavalos de Corrida", tocado ao piano, sendo um enorme sucesso.[255] O álbum atinge a 21ª posição na tabela de vendas.[256] En Novembro é editada a coletânea Canções Prometidas - Raridades Vol.3 (2012) [257] limitada a mil exemplares e que marca o início dos festejos dos 35 anos de carreira dos UHF. Contém cinco inéditos, versões nunca antes editadas e duas músicas gravadas ao vivo.[258]

Os UHF entram em 2013 com a fantástica cifra de 1 600 concertos.[259] A 25 de Junho celebram o trigésimo quinto aniversário com o lançamento do álbum A Minha Geração (2013),[260] e iniciam a digressão "UHF 35 anos-A Minha Geração".[261] De destacar a intervenção social no tema homónimo e em "Vernáculo (para um homem comum)", com grande impacto na sociedade portuguesa, são fortes críticas a vários aspetos políticos e sociais com especial relevo para a falta de ética e seriedade dos governantes portugueses e de toda a classe política.[262] O tema "Vernáculo" contabilizou mais de cem mil visualizações em vídeos disponíveis na internet.[17] Segundo o autor da canção: "Há anónimos que me travam o passo na rua para elogiar a coragem dos UHF. Banida da rádio, é como um rio silencioso que engorda o caudal imparavelmente". Trata-se de um poema de António M. Ribeiro publicado no livro "O Momento a Seguir" em 2006. [19]

Envolvente declamação musicada dos UHF. A canção tornou-se um manifesto político.[262] Recorre a adjetivos «agressivos» mas inseridos num contexto de linguagem: "A confissão de um homem comum (...) aquilo que se diz na rua e que os políticos não ouvem", segundo o autor. [263]

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Cquote1.svg É um disco de um cidadão inquieto, de um compositor e de um escritor de canções atento ao país e ao momento que vivemos. Um disco de alguém que está muito cansado por todas as promessas que têm sido feitas ao longo dos tempos e por este declínio constante. Portugal parece um barco a afundar que nunca mais se afunda. Cquote2.svg
António M. Ribeiro descreve o álbum.[264]

Extremamente desiludido com a classe política e com a passividade dos cidadãos, os UHF ponderaram terminar a carreira em 2013. Lamentam não estarem acompanhados por outras bandas na denúncia social.[19] Este trabalho marca o regresso ao formato vinil, vinte anos depois da última edição. O LP apresenta nova imagem na capa,[265] uma pintura de António M. Ribeiro, simbolizando os verdes anos vividos pela geração de 1970 que acreditava que o mundo lhes pertencia.[266] Fernando Rodrigues, baixista desde 2001, deixa os UHF no decorrer das gravações sendo substituído por Luís Simões «Cebola». A Minha Geração (2013) atinge a 14ª posição na tabela nacional de vendas.[267] Em Novembro os UHF assinalam os 35 anos do primeiro concerto com a versão rock da canção "Amores de Estudante", oferecida aos fãs através da descarga digital gratuita no facebook da banda. Este tema foi composto em 1937 por Aureliano da Fonseca (letra) e Paulo Pombo (música) no estilo tango-canção e, desde então, passou a fazer parte do reportório das Tunas Académicas.[268] Nos dias 7 e 18 de Dezembro realizam concertos especiais no Centro Cultural de Belém e na Casa da Música para futura edição discográfica.[269] Estes dois espetáculos marcaram o encerramento da digressão "UHF 35 Anos – A Minha Geração".[270] A 8 de Dezembro de 2013 a RTP, com produção da Stopline Films, estreia a série Os Filhos do Rock que recorda a década de 1980 e o surgimento do movimento rock cantado em português.[271] Os UHF são uma das bandas retratadas ao longo dos 26 episódios.[272] Trata-se de uma série de ficção que, embora assente em alguns factos verídicos, subverteu a verdade sobre os principais responsáveis pelo surgimento do boom do rock português, ao atribuir a Rui Veloso a paternidade e não aos UHF. [85]

No dia 6 de Janeiro de 2014 é apresentado em estreia absoluta na Rádio Renascença o inédito "Nação Benfica", no dia em que o mundo se despediu de Eusébio. O tema só deveria ser revelado no final da época futebolística, mas António M. Ribeiro quis homenagear Eusébio neste dia de pesar.[273] Com imagens e fotografias trabalhadas pela Rádio Renascença o vídeo propaga-se pela internet com inúmeras visualizações.[274] A canção viria a ser editada no mercado meses mais tarde. A Warner Music relança no mercado a coleção "Grandes Êxitos" composta por quinze artistas consagrados da música portuguesa. Depois do sucesso das 125 mil unidades vendidas, a coleção volta ao mercado com um novo conceito gráfico e moderno.[275] A edição dedicada à banda de António M. Ribeiro, intitulada Grandes Êxitos-UHF (2014), é lançada em CD no dia 20 de Janeiro e reúne os temas mais marcantes do chamado boom do rock português entre 1980 e 1982.[276] No dia 5 de Maio os UHF entram no mercado digital com duas edições exclusivas da Meo Music: "Era de Noite e Levaram" (2014),[277] versão rock de uma canção de José Afonso. Apresentada ao vivo no dia 17 de Abril no auditório da Antena 1 na celebração dos 40 anos da Revolução dos Cravos, a versão é agora lançada no mercado. Com música de José Afonso e letra de Luís de Andrade este tema de 1969 transmite a emoção de um tempo que partiu, a noite arbitrária do fascismo. "Para dizer aos mais novos que o 25 de Abril não foi assim há tanto tempo, apesar do tempo que passou, maior que a sua idade. Por que cada feriado nacional tem uma história", nas palavras pedagógicas de António M. Ribeiro.[278] No mesmo dia é lançado o EP Benfica (2014),[279] que recupera o inédito "Nação Benfica", apresentado na Rádio Renascença na homenagem a Eusébio, no dia do seu falecimento.[273] Mais uma canção positiva dos UHF que não hostiliza os opositores nem promove a guerra no desporto. Para este EP digital são ainda recuperados os temas "Águias de Fogo" de 1999 e "Uma Luz de Paixão" de 2003. [280] [281]

Na continuação da homenagem ao mestre José Afonso, lançam no dia 2 de Agosto o single digital "Os Vampiros" (2014) [282] e é a quinta versão rock dos UHF das canções deste poeta de intervenção. Trata-se de um tema editado em 1963 no álbum Baladas de Coimbra II de José Afonso, uma poderosa chamada de atenção para que nos recordemos que seremos sempre capazes de vencer os «vampiros» de hoje, os governantes que nos exauriram com austeridade ilegítima e forçada, e que ficam impunes às ilegalidades praticadas. É uma canção intemporal.[283] A distribuidora discográfica Valentim de Carvalho lança a coleção "Essencial" constituída pelos mais consagrados artistas que gravaram para esta editora durante a parceria com a multinacional EMI. A coletânea dedicada à banda de Almada, UHF-Essencial (2014),[284] retrata os primeiros e os mais rentáveis anos da carreira dos UHF reunindo as mais emblemáticas canções que marcaram o boom do rock português entre 1980 e 1982. Os UHF representam a afirmação pública duma geração que provou a viabilidade do rock cantado em português.[285] No dia 24 de Novembro é lançado o quinto álbum ao vivo intitulado Duas Noites em Dezembro (2014).[286] Trata-se do registo dos concertos realizados no Centro Cultural de Belém e na Casa da Música, respetivamente, a 7 e 18 de Dezembro de 2013 que marcaram o encerramento da digressão comemorativa dos 35 anos dos UHF.[287] O duplo CD comporta 28 temas com algumas canções emblemáticas que não eram tocadas ao vivo há trinta anos.[288] Destaque para o empenho patriótico de António M. Ribeiro na interpretação de "Sonhos na Estrada de Sintra" em versão dramática,[289] canção que serviu de amostra do álbum. [290]

O primeiro livro em prosa de António M. Ribeiro, "Por Detrás do Pano-35 histórias contadas na rádio & outras confissões", é lançado no mês de Novembro de 2014 pela Chiado Editora.[40] Na origem deste trabalho estão as 35 histórias que o músico escreveu para a Antena 1, de Novembro a Dezembro de 2013, durante as comemorações do trigésimo quinto aniversário da banda.[291] A principal razão deste livro foi a necessidade de corrigir a história da música rock em Portugal: "As histórias foram mal contadas e passaram a ser verdade", segundo o autor.[85]

A 27 de Fevereiro de 2015 sai para os escaparates o álbum Uma História Secreta dos UHF (2015),[292] com selo da AM.RA Discos e exclusividade de distribuição da revista Blitz. Esta coletânea dá seguimento às raridades editadas pela banda. São dez pérolas do arquivo histórico dos UHF onde se incluí quatro maquetas do início da carreira, três temas registados ao vivo e recupera a versão "Os Vampiros" de José Afonso, que tinha sido editada em 2014 em single digital. Contém ainda os inéditos "Amores de Estudante" de 2013 e "Um MMS Teu" de 2015.[293] Fundadores do movimento de renovação musical chamado rock português, os UHF atingem em 2015 o notável número de 300 canções editadas e iniciam a digressão "UHF-300 canções". [294]


Membros[editar | editar código-fonte]

Integrantes[editar | editar código-fonte]

Ex-integrantes[editar | editar código-fonte]

  • Américo Manuel — bateria (1978–1979) [213]
  • Carlos Peres — baixo e vocal de apoio (1978–1983) [213]
  • José Matos — baixo (1983–1984) [213]
  • Fernando Deleare — baixo (1984–1986, 1987, 1993–1997) [213]
  • Zé Carvalho — bateria (1979–1984) [213]
  • Zé da Cadela — bateria (1984) [213]
  • Manuel Hippo — bateria (1984–1985) [213]
  • Renato Gomes — guitarra solo (1978–1986) [213]
  • Rui Beat Velez — bateria (1986–1987) [213]
  • Xana Sin — baixo e vocal de apoio (1987–1988) [213]
  • Pedro Faro — baixo (1989–1990) [213]
  • Rui Rodrigues — guitarra solo (1986–1990) [213]
  • Toninho — guitarra solo (1990–1992) [213]
  • Nuno Espírito Santo — baixo (1991–1992) [213]
  • Rui Dias — guitarra solo (1992–1994) [213]
  • Luís Espírito Santo — bateria (1987–1992, 1995–1997) [213]
  • Fernando Pinho — bateria (1993–1995) [213]
  • Renato Júnior — teclas e saxofone (1989–1995) [213]
  • Rui Padinha — guitarra solo (1996–1997) [213]
  • Nuno Duarte — baixo (1997–1998) [213]
  • Marco Costa Cesário — bateria (1997–1999) [213]
  • David Rossi — baixo e vocal de apoio (1998–2000) [213]
  • Jorge Manuel Costa — teclas e saxofone (1996–2002) [213]
  • Fernando Rodrigues — baixo e vocal de apoio (2000–2008, 2008–2013) [213]

Convidados[editar | editar código-fonte]

  • Alfredo Pereira — guitarra (1979) [213]
  • Francis — guitarra (1983) [213]
  • José Neves — guitarra (1983) [213]
  • Luís Espírito Santo — bateria (1984) [213]
  • Rui Beat Velez — 2ª bateria (1989) [213]
  • Gil — teclas (1987) [213]
  • Rui Rodrigues — guitarra solo (1994-1995) [213]
  • Alexandre Manaia — teclas (2002) [213]
  • Mário Lopes — teclas (2002-2003) [213]


Linha do tempo[editar | editar código-fonte]


Características musicais[editar | editar código-fonte]

Estilo e instrumentação[editar | editar código-fonte]

A música dos UHF é categorizada como rock direto e espontâneo de características urbanas, produzindo também uma sonoridade acústica e hard rock. [7] Corporizam a vivência do «estar à margem», o grito de revolta dos jovens e as desigualdades socais.[6] Os UHF refletem a nação portuguesa, esta sociedade, ora vogando pelo romantismo ora tomando posição em causas comuns. [32]

O som inicial dos UHF assenta nas raízes do punk rock, [294] temas simples, curtos e diretos podendo ser ouvido em "Caçada" do EP Jorge Morreu (1979),[62] evoluindo para o pós-punk do final da década de 70, com "Cavalos de Corrida" (1980) e À Flor da Pele (1981).[295] Com produção de Luís Filipe Barros e Nuno Rodrigues,[72] as canções de À Flor da Pele são marcadas por fortes guitarras, rock puro e duro, com alguma proximidade ao new wave em certos temas e um fascínio crescente da banda com a cultura urbana, pessoas e lugares.[296] Com o álbum Estou de Passagem (1982) o grupo afasta-se ligeiramente do pós-punk experimentando uma sonoridade mais leve com presença do sintetizador,[297] retomando o som pesado das guitarras em Persona Non Grata (1982). Este, o álbum mais ferozmente rock, consequência da instabilidade, dúvidas e confusões internas que se instalaram no seio da banda pela mudança de editora.[298] Os temas de Ares e Bares de Fronteira (1983) refletem as sombras do Estado da nação com a entrada do Fundo Monetário Internacional, bem como uma fase negativa na vida pessoal do líder dos UHF. Um álbum que seduz o romantismo, obscuro e melancólico, marcado pelo sintetizador.[91] Já em Noites Negras de Azul (1988), com a banda renovada, António M. Ribeiro faz uma retrospeção de estórias pessoais, as conquistas e os falhanços traduzidos por pujantes guitarras elétricas. Um disco sombrio com alguma influência da ala cinzenta do rock alternativo de Manchester.[10] No místico Em Lugares Incertos (1988) incluem a caixa de ritmos e uma doutrina acústica que não se confunde com quebra de energia.[109] Após a fase inicial, os UHF deixam de procurar referências musicais [16] e continuam a reinventar-se em cada disco:

Cquote1.svg Há outros campos da música, porque ao fim deste tempo, gostamos de ir a outros horizontes, a outros continentes musicais. É dessa riqueza que se faz também a nossa maturidade. Ao fim deste tempo todo, não podemos ser máquinas de debitar o mesmo tipo de canções, o mesmo formato. Mas somos sempre um grupo rock. Cquote2.svg
António M. Ribeiro à Ensino Magazine. [299]

Conseguem no máxi "Heditar" (1989) a sonoridade de uma valsa desenfreada com aproximação ao pop rock dos anos 50 e guitarras rasgadas nos outros temas,[109] enquanto Comédia Humana (1991) experimenta o pop rock com canções mais comerciais[121] e Santa Loucura (1993) já uma textura variada de sonoridades. Para o jornalista e crítico musical Fernando Magalhães, o álbum 69 Stereo (1996) "é rock and roll de barba rija, com cara de mau e a piscar o olho aos anos 70, desta estereofonia na posição 69, uma das produções, com assinatura de António M. Ribeiro, mais sofisticadas de sempre dos UHF".[13]

No final da década de 90 a independência total da banda é concretizada com Rock É! Dançando Na Noite (1998) a marcar a estreia da editora do líder dos UHF. É um disco de guitarras, canções curtas direccionadas para os palcos, que é a forma de vida do grupo, refletindo uma variedade temática com participação de todos os músicos.[153] La Pop End Rock (2003) é um regresso ao som do quarteto, voz, duas guitarras em carga e a bateria marcadamente a doer. Uma ópera rock mergulhada num puzzle de canções que revelam a história da carreira dos UHF.[179] No álbum Há Rock no Cais (2005) a banda apresenta um som mais cru e despojado, mas mais coeso: "Voltámos à simplicidade das guitarras, bateria e voz", revela o vocalista à Média Capital,[190] evoluindo em Porquê? (2010) para incluir o rock de intervenção, tornando-se mais agressivo e versátil. Um trabalho claramente politizado, um alerta sobre a atualidade mas também um disco de canções de amor.[18] Com influência de João Martins na produção,[232] o álbum Porquê? veste uma sonoridade solta próxima das atuações ao vivo. Um trabalho de união e harmonia no grupo: "Aprendemos a pôr os egos de lado" descreve o baterista Ivan, enquanto o baixista Fernando acrescenta: "Estamos muito mais coesos" e António Corte-Real (guitarra) revela: "a cumplicidade permite uma maior participação de todos na construção das canções".[300] Na década de 2010, há uma maior tendência da banda em incluir canções de combate social no repertório, uma vertente que os UHF assumem cada vez com mais convicção, notado também no álbum A Minha Geração (2013).[17] Um disco maduro que "observa à volta e reduz certos tipos sociais a estrofes cantadas, seguindo o exemplo que o mestre Gil Vicente nos legou", na análise do líder da banda. Um álbum verrinoso e irónico com uma sonoridade rock vintage trabalhada com máquinas de reverberação de fita em vez das modernas máquinas digitais.[301] [302]

Cquote1.svg Nós olhamos para os UHF, e digamos que temos uma música muito urbana, muito elétrica, muito pesada, muito citadina. Cquote2.svg
António M. Ribeiro à My Way (2015) [303]

António M. Ribeiro é conhecido por utilizar Spoken word nas canções e poesias improvisadas enquanto a banda toca ao vivo,[62] mostrando uma tendência notável para a lírica social e política, um valor grandioso nas suas composições. Autor maioritário do repertório da banda, é um vocalista icónico e carismático de timbre vocal único no universo rock. Gosta de enfrentar o sistema e os poderosos denunciando os podres da sociedade. [304]

Letras e temas[editar | editar código-fonte]

O conteúdo lírico da banda é muitas vezes trabalhado com textos autobiográficos e temas de intervenção social. Canções como "Notícias de El Salvador", "Comédia Humana" e "Sarajevo" foram motivadas por acontecimentos atuais do tempo. O primeiro foi escrito sobre a devastadora Guerra Civil de El Salvador que dizimou parte da população,[305] enquanto o segundo faz uma abordagem ao primeiro conflito no Golfo, relatando a barbaridade entre os homens na guerra.[122] "Sarajevo" dá continuidade ao capitalismo bélico, desta vez, na luta pela independência das repúblicas que formavam a Federação da Jugoslávia. O tema é apresentado nos concertos ao vivo como uma canção contra todas as guerras.[130] Temas recorrentes da sociedade como a violência policial e as drogas duras inspiraram as canções "Caçada" e "Jorge Morreu", [62] respetivamente, evoluindo em "Rumo ao Céu (não dói nada)" para retratar o sucesso artístico no ardil fascínio da droga.[306] As interrogações e o existencialismo encontram nas letras de "Ébrios (pela vida)" [307] e na enigmática "Suave Dança do Vento" [308] a serenidade de Jim Morrison, tornando-se mais filosófico no tema "Estou de Passagem".[80]

As canções "Persona Non Grata", "Um Mau Rapaz" e "De Um Homem Só" foram inspiradas nas turbulências e conflitos internos na banda de que resultou o fim de um ciclo.[88] Tempo de retrospeção para o líder dos UHF - conquistas, falhanços e revolta - temas que são centrais no álbum Noites Negras de Azul (1988),[10] para depois enfrentar as interrogações no corredor dos palcos com "A Última Prova".[309] Na continuidade do trilho existencialista, os limites da lucidez são experimentados na envolvente faixa "Do Céu ao Inferno".[310] Em declarações ao Correio da Manhã, os UHF partilham a felicidade ao criar uma canção: "É o prazer da descoberta que nos move. Seja ao vivo ou em estúdio; o chegar aqui com uma canção e vê-la crescer. É fantástico".[311] A forte ligação a Lisboa é vincada nos temas "Rua do Carmo", "Noites lisboetas" e "Apetece namorar contigo em Lisboa", atualizados numa nova sensação urbana de viver, mais crítica e mais livre. [312]

Cquote1.svg Quando finalmente concretizamos que a nossa vida passa pela escrita, pela composição, descobrimos que tudo é um acto natural, que não deve ser empurrado à força (...) Não gosto de forçar a escrita de uma canção, ela vem ter comigo quando chega o tempo certo. Posso estar semanas ou meses sem escrever nada e depois saem dez ou vinte de seguida. Cquote2.svg
António M. Ribeiro à Sapo Música[16]

António M. Ribeiro é um repórter da atualidade sociológica, relatando temas variados da vida das pessoas. A árdua rotina laboral ("Cavalos de Corrida"),[313] a pedofilia e prostituição ("Geraldine" e "Aquela Maria"),[314] [62] os inóspidos lares de rua ("Lisboa Hotel") [315] e a universal estupidez consciente do racismo, xenofobia e intolerância religiosa ("O Povo do Mundo"),[316] são alguns exemplos no vastíssimo repertório. A banda tem usado as digressões, tais como "Porquê em Portugal" [317] e "UHF 35 anos - A Minha Geração", para demonstrar descontentamento pela governação política, com maior ênfase nos temas "Porquê (português)" e "Vernáculo (para um homem comum)",[269] para depois indicar soluções - "Portugal (somos nós)" e "Por Portugal Eu Dou" - canções que apontam rumos e apelam à consciência nacional. É uma banda claramente conotada de rock de intervenção, de natureza política, facilmente reconhecido pelos seus fãs. [18] [250]

Influências[editar | editar código-fonte]

A sonoridade dos UHF expressou-se inicialmente no punk com alguma influência dos Ramones.[62] No início da carreira, o líder da banda descrevia alguns dos seus gostos musicais: "A minha primeira ligação à música britânica foi através dos Rolling Stones. Com o rádio de pilhas debaixo da almofada ia ouvindo aquelas vozes mágicas da rádio e descobrindo música. Por cá, seguia a carreira do Filipe Mendes, do Quarteto 1111, do Pop Five Music Incorporated. Os Chinchilas eram uma banda fantástica".[30] A influência de José Afonso e do Quarteto 1111, associado à vontade do vocalista em falar com as pessoas, foram determinantes na escolha da língua portuguesa para as canções.[295] Durante o seu crescimento musical, António M. Ribeiro, acompanhou o folk rock dos Fairport Convention, Bob Dylan e Neil Young, permitindo-lhe contar histórias do folk em união com a violenta explosão do punk.[62] O líder dos UHF revela grande admiração pela poesia punk de Patti Smith [304] e pela simplicidade musical de Lou Reed,[7] uma das suas grandes referências, como refere à TVI 24: "É uma referência da minha geração, é um mito como o John Lennon, que me ajudou a ser músico".[318] Por outro lado, a paixão confessa pelos Doors, no início da sua carreira, associada à vida desenfreada, acidentes de viação, cabelos compridos, rebeldia, frontalidade, independência e aos caminhos solitários, eram atributos que lhe davam o direito de ser conhecido como Jim Morrison português. [6] [215]

Cquote1.svg Se cruzar os Doors com o José Afonso der alguma ideia, comecei por aí. O Peres estava no punk, o Renato nos Genesis. Depois deu aquela mistura explosiva dos "Cavalos de Corrida". Cquote2.svg
António M. Ribeiro à Sapo Música.[16]

A partir de 1982 António M. Ribeiro assume a produção executiva dos trabalhos da banda [319] e reforça a intervenção na sociedade com influência da poesia dos cantautores, nomeadamente de José Afonso.[17] Esclarece à Ensino Magazine: "Estar no rock é uma atitude, é uma forma de afrontar a realidade e até de a revelar". [299]


Discografia[editar | editar código-fonte]

Álbuns de estúdio[editar | editar código-fonte]

António Manuel Ribeiro a solo


Referências

  1. a b Artigos de apoio-UHF Infopédia Porto Editora. Visitado em 29 de outubro de 2014.
  2. Almada-Sons da Cidade Musica Portuguesa-Anos 80. Visitado em 29 de outubro de 2014.
  3. Os UHF foram uma revolução na música portuguesa Disco Digital (17 de dezembro de 2008). Visitado em 11 de outubro de 2014.
  4. UHF nas festas de elevação a vila Correio da Manhã (8 de abril de 2008). Visitado em 8 de abril de 2015.
  5. a b c d e f g h i j k l m n o p q UHF-Biografia Música Portuguesa-Anos 80. Visitado em 12 de outubro de 2014.
  6. a b c d e O Rock em Portugal 1980-1989 ANM-A Nossa Música. Visitado em 12 de outubro de 2014.
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  8. a b c d e Proposta 804-2009 Gabinete do Presidente-Câmara Municipal de Lisboa (31 de julho de 2009). Visitado em 8 de abril de 2015.
  9. a b Dulce Furtado (15 de novembro de 1999). Os pioneiros do rock português Jornal Público. Visitado em 8 de julho de 2015.
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  11. António Manuel Ribeiro. Por Detrás do Pano: 35 histórias contadas na rádio & outras confissões (em Português). Susana Engel ed. [S.l.]: Chiado Editora, 2014. pp.101 p. 1 vol. ISBN 978-989-51-2692-7
  12. a b António Manuel Ribeiro. Por Detrás do Pano: 35 histórias contadas na rádio & outras confissões (em Português). Susana Engel ed. [S.l.]: Chiado Editora, 2014. pp.315 p. 1 vol. ISBN 978-989-51-2692-7
  13. a b c d Luís Jerónimo (11 de dezembro de 1996). Escritos de Fernando Magalhães-1997 (Pág.11) Google Livros. Visitado em 16 de julho de 2015.
  14. UHF apresentam-se em Setembro e Outubro nos Coliseus de Lisboa e Porto RTP Notícias (12 de setembro de 2006). Visitado em 20 de agosto de 2015.
  15. Alfredo Vieira. (Dezembro 2010). "Os UHF e a poesia de António Manuel Ribeiro". Folha Literária & Letras (1): p.8. Visitado em 19 de agosto de 2015.
  16. a b c d e Ágata Ricca (30 de junho de 2010). UHF em entrevista Sapo Música-Palco Principal. Visitado em 9 de dezembro de 2014.
  17. a b c d Filhos da Flor de Abril comemora 40 anos de Abril e 35 de UHF Setúbal Na Rede. Visitado em 8 de abril de 2015.
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Ligações externas[editar | editar código-fonte]