UHF (banda)

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UHF
Os UHF durante um concerto em 2012.
Informação geral
Origem Costa de Caparica, Almada
País  Portugal
Gênero(s) Pós-punk, rock, hard rock
Período em atividade 1978–presente
Editora(s) Metro-SomEMIVCRádio TriunfoEdisomBMGFarol MúsicaVidiscoAM.RA Discos
Afiliação(ões) A JunçãoBallaPedro e Os LobosCorvosUnião das Tribos
Influência(s) The DoorsJosé Afonso
Integrantes António Manuel Ribeiro
António Côrte-Real
Luís 'Cebola' Simões
Fernando Rodrigues
Ivan Cristiano
Ex-integrantes Américo Manuel, Carlos Peres, Zé Carvalho, José Matos, Manuel 'Hippo', Renato Gomes, Rui 'Beat' Velez, Pedro Faro, Xana Sin, Rui Rodrigues, Nuno Espírito Santo, Toninho, Rui Dias, Renato Júnior, Fernando Pinho, Rui Padinha, Fernando Deleare, Luís Espírito Santo, Nuno Duarte, Marco Cesário, David Rossi, Jorge Manuel Costa, Nuno Oliveira
Página oficial www.uhfrock.com

UHF é uma banda portuguesa de rock formada na Costa de Caparica, em Almada, em 1978. São os fundadores do movimento de renovação musical denominado rock português e os responsáveis pelo surgimento do boom do rock em Portugal em 1980. São uma das bandas nacionais mais prestigiadas e a mais antiga em atividade. A formação inicial era composta por António Manuel Ribeiro (vocal e guitarra), Renato Gomes (guitarra), Carlos Peres (baixo) e Américo Manuel (bateria). Atualmente são formados por António Manuel Ribeiro (vocal e guitarra), António Côrte-Real (guitarra), Luís 'Cebola' Simões (baixo), Fernando Rodrigues (teclas e guitarra) e Ivan Cristiano (bateria e percussão).

Resultante do pós punk, no final dos anos setenta, a sonoridade da banda incorpora o rock direto e espontâneo de características urbanas, produzindo também um som mais acústico e hard rock com alguma influência dos Doors. Foram um dos grupos mais bem sucedidos comercialmente no início da década de 1980, tendo vendido mais de 100 mil discos premiando o single "Cavalos de Corrida" (1980) – canção génese do rock português – e o álbum À Flor da Pele (1981), que ocuparam as primeiras posições da tabela de vendas durante várias semanas. Conseguiram contornar a crise do rock português, nos meados dos anos 80, introduzindo influências do rock alternativo no álbum Noites Negras de Azul (1988). A experimentação foi também utilizada no álbum Comédia Humana (1991) com o estilo pop rock e canções mais comerciais, para depois recuperarem os elogios da crítica musical com os lançamentos de Santa Loucura (1993) e 69 Stereo (1996), discos que voltaram a estabelecer a sonoridade rock convencional. Atentos à realidade política e social do país, os UHF são o rosto do rock de intervenção em Portugal. Com alguma influência de José Afonso, assumem uma posição ativa em relação a temas sensíveis na vida das pessoas, como é o caso das canções "Sarajevo", "Porquê (português)" ou "Vernáculo (para um homem comum)" que se tornou um manifesto antipolítico. Em 2013, a bem sucedida digressão "UHF 35 anos – A Minha Geração" foi marcada com palavras de ordem contra a desordem governativa do país. A intrépida atitude independente, assumida desde o início de carreira, promoveu uma menor exposição mediática na banda.

A formação dos UHF foi sofrendo constantes alterações ao longo dos anos. António Manuel Ribeiro, compositor maioritário das canções, é o único membro fundador residente. Além de cantor e músico é também escritor e autor regular de várias crónicas para rádios e jornais. Lançou dois livros de poesia, dois sobre a banda que lidera, incluindo uma antologia, e um livro em prosa que corrige a história do rock português a partir de 1974. Fundou o movimento de poesia-rock em Portugal tornando-se num dos melhores criativos. Lançou quatro discos a solo, sem se afastar totalmente da banda, convidando para esses trabalhos músicos antigos e atuais dos UHF, entre outros.

Em julho de 2017, atingiram a fantástica cifra de 1 700 concertos em Portugal e no mundo, venderam mais de 1,5 milhão de discos – entre álbuns, extended plays, singles e cassetes – e lançaram quinze álbuns de estúdio. Estão representados em mais de 100 compilações com outros artistas incluindo nos Estados Unidos e Brasil. Receberam onze discos de prata, sete de ouro, três de platina e vários prémios e condecorações. Até ao ano de 2015 totalizaram 240 participações em concertos de beneficência social e de apoio a causas filantrópicas incluindo, por exemplo, a Associação Abraço, Instituto Português de Oncologia e a Assistência Médica Internacional.

História[editar | editar código-fonte]

Formação e primeiros anos (1977–1979)[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Jorge Morreu
Almada, terra natal dos membros fundadores dos UHF.

Em 1976, enquanto o punk rock cativava Inglaterra e os Estados Unidos, Portugal procurava ajustar-se à liberdade recém conquistada com a revolução de Abril. O rock era visto pelos jovens como um movimento de contracultura, uma fuga aos princípios ditatoriais do regime salazarista. O rock era sinónimo de liberdade, uma linguagem musical sem ligação ao passado.[1] Os UHF foram dos primeiros a saciar uma imensa sede de rock nessa nova realidade social e política. António Manuel Ribeiro (voz e guitarra), Carlos Peres (baixo), Alfredo Antunes (bateria) e um guitarrista brasileiro formaram em 1976, em Almada, uma banda de covers chamada Purple Legion que atuava no circuito de bailes, que era o panorama musical da época pois o rock que se fazia no mundo era pouco divulgado na imprensa e na rádio. No final de 1977, o baterista Américo Manuel juntou-se a Carlos Peres e a António M. Ribeiro e deram inicio às composições de autor. Alteraram o nome da banda para À Flor da Pele e depois, já com Renato Gomes na guitarra, para UHF.[2][3] O processo de evolução do nome da banda foi explicado pelo vocalista:

As dificuldades daquela época eram tremendas, pois não havia salas nem existia um circuito de espetáculos onde os grupos se pudessem mostrar. O país estava a acordar de uma enorme apatia social asfixiado por anos de isolamento. Os media reproduziam algum yé yé, a canção ligeira, o fado, o nacional cançonetismo e depois de 1974 predominou a canção de intervenção política, como recordou Tozé Brito, antigo representante da PolyGram portuguesa: "Depois da revolução, quem não estivesse na área da canção política não tinha para onde ir". O rock era encarado como brincadeira para rapazes em tempo de liceu, que rapidamente se diluía com a chamada para a incorporação na tropa. Portugal não conseguia evoluir, também, culturalmente.[5][6]

"Éramos vulgarmente corridos de uma sala emprestada por boa vontade ao fim de meia dúzia de ensaios por fazermos barulho, porque os cabelos eram compridos, falávamos alto e ríamos muito (...) Não tínhamos um adufe ou uma viola burguesa para encantar as elites (...) E esse era um perigoso desvio ideológico, maltratando as conjecturas do borrão dos cigarros, uma afronta à cultura popular obrigacionista."

– Os UHF falam da dificuldade para arranjar uma sala de ensaios, em 1978.[7]

No início de novembro de 1978, realizaram o primeiro concerto no Bar É, em Lisboa, fazendo a primeira parte dos Faíscas. Nesse concerto convidaram Vitor 'Macaco' – um operário da Lisnave com pinta para dar espetáculo – para assumir a vocalização, mas estaria pouco tempo na banda. António M. Ribeiro ocupava apenas a guitarra rítmica e coros e só depois viria a assumir o papel de vocalista. Na plateia, o mediático radialista António Sérgio, espetador atento, confessava-se entusiasta do som underground dos UHF. O segundo concerto aconteceu na discoteca Brown's, em Lisboa, no dia 18 de novembro de 1978, na primeira parte dos Aqui d’el-Rock. Esta é a data oficial de aniversário considerada pelos UHF porque foi o primeiro concerto com António M. Ribeiro na voz principal. Foi uma atuação pragmática, como recordou mais tarde: "Não sei se foi da timidez ou da falta de ensaio de som, mas tocámos tão alto e tão rápido e berrei tanto que abafámos as palmas logo com uma nova canção". Os músicos viviam em Almada e as suas deslocações à capital estavam limitadas aos horários do transporte que fazia a travessia do rio Tejo. Para não perderem o último cacilheiro no regresso a casa, impunha-se a rápida saída depois dos concertos, ficando conhecidos como "Os gajos de Almada que chegam, tocam e desaparecem".[8]

No dia 3 de junho de 1979 fizeram a estreia em grandes eventos, naquele que foi o décimo primeiro concerto da banda, com a participação no "Festival Antinuclear – Pelo Sol", realizado no Parque Eduardo VII, onde tocaram outros nomes como Rão Kyao, Pedro Barroso, Vitorino, Fausto, Trovante, Minas & Armadilhas, entre outros,[9] A 6 e 7 de agosto os UHF tocaram em Vila Viçosa com mais um guitarrista, Alfredo Pereira, que deixara os Aqui d’el-Rock em busca de um projeto mais consistente, mas a sua passagem foi breve. Participaram também os Minas & Armadilhas – que causaram uma afronta às convicções locais – e os promissores Xutos & Pontapés (ex-Beijinhos e Parabéns), ainda sem projeção mediática pois só conseguiriam o primeiro registo fonográfico em 1982.[10]

Na primavera de 1979 foram convidados a gravar pela pequena editora Metro-Som, à semelhança do que acontecera com os Aqui d’el-Rock. Mesmo sem contrato assinado lançaram, em outubro desse ano, o extended play Jorge Morreu (1979),[11] um disco de intervenção social composto por três faixas que não obteve sucesso comercial. A editora não promovia as suas bandas na rádio nem na imprensa. O rock cantado em português ainda gatinhava mas precisava de ser divulgado. Descontentes com a situação, contactaram a multinacional PolyGram mas o rumo da editora, na altura, ainda não passava pelo rock nacional.[12] Em 1979 já percorriam Portugal de norte a sul, conseguindo o inédito feito de uma digressão nacional completa. A reputação consolidou-se em múltiplos concertos, primeiro na grande Lisboa e depois ao longo do país.[13] Foram uma das poucas bandas escolhidas para fazer a primeira parte de artistas de renome internacional, caso dos Dr. Feelgood com dois concertos consecutivos a 18 e 19 de setembro no Dramático de Cascais,[3] e do rei da new wave, Elvis Costello, com os Attractions, nos dias 15 no pavilhão Infante de Sagres, no Porto, e 17 e 18 de dezembro no pavilhão de Os Belenenses, em Lisboa.[14] Os UHF adquiriram junto da imprensa o estatuto de 'banda ao vivo', mas passavam despercebidos aos responsáveis das grandes editoras, pois estes não saíam dos escritórios para ver novas bandas ao vivo. A linguagem escrita do rock em português, direta e espontânea, chegava pela primeira vez a todos os lugares de Portugal. Os músicos atrevidos de Almada começavam a fazer a radiografia real da vida dos jovens urbanos, falando dos fluxos migratórios, marginalidade, prostituição, drogas duras e do trabalho árduo na Lisnave. Corporizavam a vivência do 'estar à margem' e alguma ortodoxia rock inspirada nos Doors e em Lou Reed.[15]

O sucesso e o boom do rock português (1980–1982)[editar | editar código-fonte]

No início de 1980, Xutos & Pontapés, GNR, Heróis do Mar, IODO, Street Kids, António Variações, entre outros, foram lançados na primeira parte dos concertos dos UHF.[16] Com o desaparecimento dos Aqui d’el-Rock, Minas & Armadilhas e dos Faíscas (depois Corpo Diplomático), foram os UHF que passaram a dirigir o motor do rock nacional. Foram cognominados de 'Locomotiva de Almada' e impulsionaram o nascimento de novas bandas.[17]

Primeiro grande sucesso do rock português. Uma “pedrada no charco” na língua inglesa. A canção fala da vida brutal das pessoas de todos os dias.[18][19]

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Primeiro logotipo da banda, em 1980.

Após uma primeira tentativa falhada com a editora EMIValentim de Carvalho, em janeiro de 1980, a banda voltou pouco meses depois a apresentar a mesma maqueta do tema "Cavalos de Corrida", entrando também na disputa a editora Vadeca; "Comigo este single vai vender no mínimo 50 mil", foram as palavras certeiras (como se confirmou mais tarde) do diretor da Vadeca, Ilídio Viana. Desconfiados do que ouviam, os UHF decidiram optar pela EMI e celebraram contrato de cinco anos, no início da primavera.[20] Gravaram em junho a canção "Cavalos de Corrida", mas para espanto do grupo ficou arquivada durante três meses. Américo Manuel retirou-se, cedendo o lugar de baterista a Zé Carvalho. Participaram no programa de rádio ao vivo Febre de Sábado de Manhã,[21] um dos principais percursores da divulgação do rock cantado em português, em que apresentaram em playback, na primeira e única vez ao vivo, a maqueta "Cavalos de Corrida".[22] Os novos músicos que despontavam com o rock nacional encontraram também no programa Rock Em Stock, da Rádio Comercial, o trampolim para o reconhecimento do seu trabalho. A canção "Cavalos de Corrida" foi o primeiro grande êxito de audiência do programa.[23] Os rapazes de Almada detinham a primazia dos espetáculos de rock em Portugal e aproveitaram a participação nos concertos de bandas de renome internacional para mostrar que o rock também podia ser cantado em português. No dia 7 de junho de 1980, fizeram a primeira parte dos Uriah Heep na Praça de Touros de Cascais,[24] e a 10 de junho o semanário Rock Week publicou na capa uma foto com o título desafiante: UHF – O Canal Maldito. Na entrevista, conduzida pelo jornalista António Rolo Duarte, António M. Ribeiro revelava a linha ideológica da banda:

Na primeira entrevista de exposição mediática foi notória a maturidade da banda e do seu líder, opondo-se aos discursos vulgares da maioria dos músicos da época. O cognome 'Canal Maldito' ficou e tornou-se uma constante no trajeto da banda. Em 2004 foi criado um blogue de debate musical e mais recentemente, em 2013, Nuno Calado produziu e realizou o documentário UHF Canal Maldito – 35 anos para o canal RTP.[26] No dia 16 de agosto de 1980, participaram no "1º Festival Rock de Cascais" com os Skids, Tourists, Original Mirrors e 999.[27] Fizeram a primeira parte dos três concertos dos Ramones no nosso país nos dias 22, no pavilhão Infante de Sagres no Porto, e 23 e 24 de setembro no pavilhão Dramático de Cascais.[28] Os rapazes de Forest Hills apresentavam um punk americano quente e direto, que contrariava a trapalhada britânica, e tornaram-se uma das referências dos UHF.[29]

Em outubro foi lançado finalmente o single "Cavalos de Corrida" (1980),[30] tema que já era amplamente conhecido em todo o país. Atingiu em poucos dias o primeiro lugar do top nacional mantendo-se por várias semanas.[31] Só faltava um catalisador para que o rock cantado em português entrasse nas editoras e na antena da rádio. Assim aconteceu com a greve dos músicos sindicalizados que afetou também o Festival RTP da Canção em 1980. As editoras para evitarem o prejuízo abriram as portas aos grupos de rock e, em parceria com a rádio, rebentou o inevitável boom da nova música nacional.[5] A sintonia pelo fenómeno que despontava era total, pois os músicos tinham a mesma idade dos radialistas, jornalistas e dos editores. Todos falavam da mesma maneira.[32] Portugal vivia numa democracia consolidada do pós '25 de Abril' e as pessoas começaram a ter mais dinheiro para comprar instrumentos como para comprar discos, havia uma abertura que não tinha havido antes mesmo em relação àquilo que vinha de fora. Tudo se gravava desde que soasse a rock e em português. A edição constante de singles foi um dos emblemas do boom do rock, proporcionando vendas retumbantes que facilmente atingiam os discos de ouro nos tops nacionais. Poucas foram as bandas que chegaram a editar álbuns.[33] Quando Rui Veloso lançou o seu álbum de estreia, em 1980, com o sucesso "Chico Fininho" já os UHF tinham percorrido praticamente todas as estradas de Portugal num roteiro intenso de concertos. A canção "Cavalos de Corrida" andava a ser tocada pelo país antes de chegar aos estúdios de gravação. Ao contrário dos UHF, Rui Veloso não tem qualquer registo tanto de estrada como fonográfico antes de 1980,[15][34] como relembrou António M. Ribeiro em entrevista à Sapo Magazine:

As canções "Cavalos de Corrida" e "Chico Fininho" foram as responsáveis pelo início do boom e com elas o rock começou a falar de nós, das nossas coisas, das pessoas com que nos cruzávamos todos os dias.[33] Em 1980 os UHF realizaram o registo imbatível de 81 concertos, incluindo a participação com os UFO em Coimbra e Lisboa, a 13 e 14 de dezembro, respetivamente.[35] Com a entrada em cena da geração do boom, os músicos e compositores deixaram de praticar uma atividade marginal complementar de um emprego. A banda de Almada foi das primeiras a assumir-se como profissional do rock em Portugal.[36] Antes de iniciarem a gravação do primeiro álbum, os UHF foram seduzidos por representantes de editoras estrangeiras a optarem pela língua inglesa. A Stiff Records, pretendendo dar continuidade às novas tendências musicais da new wave, apresentou a proposta mais convincente, abrindo as portas dos estúdios na capital britânica: "Vocês são bons, isto é novo, mas ninguém vos percebe", afirmou o enviado inglês. No entanto, o receio de trocar o sucesso que despontava internamente pela desconhecida e exigente plateia inglesa veio a pesar na decisão.[37] Gravaram um disco com versões em inglês dos seus êxitos que não chegou a ser editado. A banda recusou abandonar a língua materna.[38]

Em junho de 1981 lançaram o primeiro álbum de estúdio À Flor da Pele,[39] obtendo sucesso nas faixas "Rua do Carmo", "Modelo Fotográfico", "Geraldine" e "Ébrios (pela vida)". O tema "Rapaz Caleidoscópio" tornou-se o hino da geração rebelde de 1980 e uma canção de culto.[40] Os primeiros 12 500 exemplares do álbum incluíam um single extra com os temas "Quem irá beber comigo? (Desfigurado)" e "Noite Dentro".[41] A canção "Rua do Carmo" foi o primeiro tema do disco a ser conhecido e a sua apresentação ao público feita com uma atuação na montra de uma loja do Chiado, com a rádio em direto e a televisão a recolher imagens que o Telejornal exibiria nessa noite. Nunca antes em Portugal se tinha visto nada assim.[6] O single ultrapassou as trinta semanas de permanência no top de preferências da rádio e o álbum foi premiado com disco de ouro com vendas avultadas.[28]

Tema notável do rock português. Canção pujante e intensa, presta homenagem à rua do Carmo em Lisboa e celebra todo um conjunto de vida no Chiado.[42]

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Logotipo clássico divulgado em 1981.

Em 1980 "Cavalos de Corrida" e "Chico Fininho", de Rui Veloso, abriram as portas de um novo movimento em Portugal intitulado rock português, mas seria em 1981 com "Rua do Carmo" e "Chiclete", dos Táxi, a confirmação que algo mudara na música portuguesa, com novos músicos, autores, público identificado e indústria rock estabelecida. O fenómeno rock português é o movimento de renovação musical mais importante do pós '25 de Abril'.[43] No dia 19 de abril, participaram no segundo aniversário do programa de rádio Rock Em Stock no Pavilhão do Restelo juntamente com os Street Kids, NZZN, Jafumega, Roxigénio, GNR e Arte & Ofício. Nesse ano tocaram ainda com os Téléphone e Dexys Midnight Runners.[44] No louco ano de 1981 António M. Ribeiro tornou-se 'estrela rock'. Vida veloz, acidentes de viação em busca do próximo concerto, cabelos compridos, rebeldia, frontalidade, independência e os caminhos solitários, eram semelhanças que o aproximavam a um ícone mundial. Numa das múltiplas entrevistas que o cantor dava, António Macedo, jornalista do semanário Se7e, questionou: "Como te sentes na pele do Jim Morrison português?" Sem nunca ter admitido tal pretensão, o líder dos UHF passou a simpatizar com a analogia.[45] Com mais de cem mil discos vendidos e inúmeros concertos, essa proeza despertou nos NZZN, Xutos & Pontapés, IODO e nos Opinião Pública a vontade de associarem-se aos UHF para formarem a agência de espetáculos GRR (Grupo Rock Reunidos) no sentido de serem defendidos de alguns pouco escrupulosos empresários musicais. Essas bandas preenchiam as primeiras partes nos concertos dos UHF e ganhavam maior visibilidade, levando os Opinião Pública a convidaram António M. Ribeiro para produzir o álbum de estreia, como forma de agradecimento.[46]

Em fevereiro de 1982 lançaram o álbum Estou de Passagem,[47] no formato mini LP, que rapidamente conquistou o disco de prata. Foi experimentada uma sonoridade mais leve com a presença do sintetizador. É um disco com mensagem com temas filosóficos e outros marcadamente políticos, como é o caso do tema título e de "Notícias de El Salvador". O primeiro é o testemunho na fronteira esotérica da vida onde tudo é precário e silencioso,[48] enquanto o segundo fala da guerra civil que devastou esse país entre 1980 e 1982. A canção é interpretada pelo baixista Carlos Peres.[49] Descontentes com a pouca atenção que a Valentim de Carvalho dava ao protagonismo conquistado, os UHF decidiram quebrar o contrato de cinco anos e mudaram-se para a Rádio Triunfo, numa transferência que cobriu as manchetes dos jornais na época, a primeira em Portugal a envolver uma grande editora.[50]

Desconforto na nova editora e primeiríssimo álbum ao vivo (1982–1985)[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Persona Non Grata e Ao Vivo em Almada

No início de 1982, os UHF tinham um sistema empresarial envolvente que englobava escritório, relações públicas, equipas técnicas de logística e gestão de sistemas de luz e som, que permitia à banda uma autonomia ímpar no panorama do espetáculo em Portugal. Quem fazia a primeira parte dos concertos do grupo tinha pela primeira vez direito a um som profissional,[51] como lembrou o vocalista: "Por exemplo, no encarte do álbum 78/82 dos Xutos & Pontapés estão lá agradecimentos aos UHF", referindo-se aos aspetos técnicos que na altura só a banda tinha no país e que emprestava.[52] Os UHF representavam a afirmação pública de uma geração que provou a viabilidade do rock cantado na língua de Camões. Entre 1980 e 1982 o movimento rock português dominou as audiências dos programas de rádio no nosso país, proporcionando um inédito e vital contributo pedagógico de auto estima à sociedade. Tanto a Rádio Comercial como a Renascença divulgavam a nova música portuguesa na quase totalidade das suas emissões.[53]

A precipitada decisão da mudança de editora, que apesar de submetida a votação não fora tomada por unanimidade, causou desconforto na banda. Em outubro lançaram Persona Non Grata (1982),[54] o terceiro álbum e o mais ferozmente rock, escrito ao longo desse verão quente e agitado. O tema "Um Mau rapaz" reflete, a partir do título, o clima psicológico que envolvia o grupo, não só pela troca da editora mas também pela fotografia na capa do disco, em que António M. Ribeiro aparece isolado alimentando a especulação de ser uma foto promocional para uma futura carreira a solo; Suspeita que nunca se confirmou.[55] Com o sucesso alcançado nos primeiros álbuns partiram em digressão, incluíndo França e Alemanha, no ano em que totalizaram 86 concertos.[28][56] No final de 1982, a maioria das bandas resultantes do boom perderam-se pelo caminho, fosse por ingenuidade, falta de solidez nos projetos, escolha voluntária ou desencanto. Da explosão dos loucos anos 80 resultou a inevitável implosão. Apesar das claras dificuldades musicais e sociais da época, António Manuel Ribeiro, compositor e mentor da banda, conseguiu dar continuidade ao projeto sólido dos UHF.[57]

"Ao longo de três anos na Rádio Triunfo editamos três álbuns e quatro singles. Esse repertório permanece esgotado, sem edição em disco compacto ou venda digital. Tentámos tudo para ver esses discos reeditados. É um prejuízo incalculável em termos artísticos e financeiros, uma lacuna na carreira dos UHF por vezes utilizada para suscitar um vazio criativo que não existiu".

– Os UHF falam do desconforto causado pelos equívocos da indústria musical.[58]

Na primavera de 1983, foi editado o quarto álbum Ares e Bares de Fronteira [59] e a primeira edição esgotou rapidamente. É um disco sombrio com destaque para a canção de intervenção política "De Carrocel". As letras refletem, por um lado, uma fase negativa na vida pessoal de António M. Ribeiro e, por outro, as sombras do estado da nação, a austeridade que Portugal vivia com a nova entrada do Fundo Monetário Internacional em 1983. Tudo ficou mais caro, o custo de vida agravou-se e a nova editora tornou-se um paraíso perdido. Apesar da crise económica que o país atravessava conseguiram realizar 72 concertos. No decorrer da digressão, Carlos Peres, baixista e cofundador, abandonou o grupo dando o último concerto no dia 29 de outubro no Porto.[51] Era o fim de uma era, a quebra do quarteto maravilha para desalento de António M. Ribeiro. O lugar foi preenchido por José Matos.[60] Os UHF voltaram a apostar no segundo guitarrista nos concertos ao vivo, à semelhança do que fizeram em 1979 com Alfredo Pereira. Convidaram Francis, que tinha deixado os Xutos & Pontapés, mas estaria pouco tempo na banda.[61]

Em 1984 foi colocado no mercado o single "Puseste o Diabo em Mim".[62] O tema homónimo fala da imaginação à solta do platonismo por uma professora, enquanto "De Um Homem Só", que preenche o lado B, é uma canção autobiográfica, um desabafo sentido do vocalista sobre o começo das confusões internas no grupo.[63] No início da primavera, o baterista Zé Carvalho sofreu um grave acidente de viação e foi substituído temporariamente por Luís Espírito Santo. Após a convalescença acabou por deixar os UHF por incapacidade física, entrando para o seu lugar o veterano Zé da Cadela.[64]

Em maio de 1985, foi editado o álbum Ao Vivo em Almada - No Jogo da Noite,[65] gravado ao vivo nas noites de 23, 24 e 25 de novembro de 1984 no Centro Cultural do Alfeite, em Almada. Foi lançado com o intuito de concluir as obrigações contratuais entre a banda e a Rádio Triunfo. Descontentes com a editora, os UHF recusaram entregar canções para novos álbuns e propuseram no último ano do contrato a gravação de um disco ao vivo com o brinde de três inéditos: "No Jogo da Noite", "Três Peixes" e "Tu Queres".[66] O grupo sofreu nova alteração com a entrada do baixista Fernando Delaere e do baterista Manuel 'Hippo' – provenientes dos Go Graal Blues Band – que substituíram, respetivamente, José Matos e Zé da Cadela. Meses depois António M. Ribeiro, farto da banda e das constantes discussões, afastou-se e resolveu dar aos parceiros um mês para encontrarem outro vocalista. No entanto, as audições – que chegaram a incluir o ex membro Carlos Peres, entre outros – não correram bem e a banda pediu a reaproximação, como recordou o afamado vocalista: "Foi um tempo triste, em que chegava de carro sozinho com a minha namorada aos concertos por esse país fora".[67] Assim aconteceu no dia 28 de setembro na primeira parte do concerto de Peter Hammill no Terreiro do Paço, em Lisboa, e no primeiro dia de outubro, na Guarda, num concerto em que também participou Fafá de Belém.[24] No final de 1985, os UHF recusaram renovar o contrato com a Rádio Triunfo. A editora decretou falência pouco tempo depois e todo o espólio foi adquirido pela Movieplay que se recusa, desde então, a reeditar o material que a banda gravou entre 1982 e 85 e a impedir a utilização dessas canções em coletâneas ou em álbuns ao vivo.[68] Ao Vivo em Almada – No Jogo da Noite, sendo uma edição limitada e com pouca probabilidade de reedição, acabou por tornar-se um disco raro e um dos mais caros do mercado de usados em Portugal.[58]

Retrospeção, novo ciclo e renovação do sucesso (1986–1990)[editar | editar código-fonte]

Os meandros do rock português começaram a melhorar em 1986, mas os UHF vivam uma crise profunda que originou uma digressão com alguma instabilidade. O guitarrista Renato Gomes foi o último elemento da formação inicial a deixar o grupo, saturado de tanta estrada num país tão pequeno. Em 1987 os UHF estavam sem editora e António M. Ribeiro aventurou-se a solo, de forma discreta, aproveitando assim para renovar a banda e iniciar um novo ciclo. A Fernando Delaere (baixo) juntaram-se o baterista Rui 'Beat' Velez e o guitarrista Rui Rodrigues que substituíram, respetivamente, Manuel 'Hippo' e Renato Gomes. Na última quinzena desse ano regressaram à Alemanha para alguns concertos junto da comunidade portuguesa.[28]

A 20 de abril de 1988 foi estreado o tema "Na Tua Cama", no velho Estádio da Luz, perante 120 mil pessoas, numa atuação durante o intervalo de um jogo da Taça dos Clubes Campeões Europeus. O lançamento do single, fora do espaço da rádio e da televisão, foi uma inovação na música portuguesa. Em junho foi lançado o quinto álbum de estúdio Noites Negras de Azul (1988),[69] auto produzido por António M. Ribeiro, e que foi uma aposta do A&R António Manuel Rolo Duarte que acreditou no grupo depois de ouvir a maqueta "Na Tua Cama". Celebraram contrato de três anos com a Edisom.[70] O single ocupou o primeiro lugar de preferências da rádio, por um largo período, e o álbum teve entrada direta para o top de vendas onde permaneceu durante semanas.[71] É um trabalho com forte sonoridade, e o disco mais 'negro' dos UHF, marcado pela ressaca do sucesso vivido por António M. Ribeiro no boom do rock português no início da década de oitenta. O próprio álbum é uma retrospeção de histórias pessoais do autor – conquistas, falhanços e revolta – notado com mais clareza nas canções "Nove Anos", "Quero Estoirar", "Na Tua Cama" e "Íntimo (regresso do inferno)". Conseguiram contornar a crise do rock nacional introduzindo algumas influências musicais da ala cinzenta do rock alternativo de Manchester, cativando assim novos fãs.[72]

Balada rock com sonoridade acústica e um dos maiores sucessos da banda. A canção revela uma história pessoal de António Manuel Ribeiro.[73]

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Logotipo da banda renovado em 1988.

Durante as gravações o baixista Fernando Delaere e o baterista Rui 'Beat' Velez foram substituídos, respetivamente, por Xana Sin e por Luís Espírito Santo. O tema "Sonhos na Estrada de Sintra" contou com a participação especial de Renato Gomes na guitarra elétrica com sublimes solos. Tornou-se a segunda canção tribal dos UHF, depois de "Rapaz Caleidoscópio.[74] Para a digressão convidaram Rui 'Beat' Velez e o palco passou a ser ocupado com dois bateristas em simultâneo.[75] No dia 9 de julho, participaram no “1º Festival Rock do Benfica” juntamente com os Saxon, Bonnie Tyler, The Wailers e Bryan Adams.[24] Em novembro lançaram o místico Em Lugares Incertos (1988),[76] o sexto álbum de estúdio no formato mini LP, onde se nota a experimentação da caixa de ritmos. No decorrer da digressão realizaram o 13º concerto no mítico clube Rock Rendez-Vous, em janeiro de 1989, naquele que foi o último grande espetáculo com a sala esgotada antes do seu encerramento definitivo. O concerto foi transmitido em direto pela estação de rádio RFM.[77]

Em junho de 1989, os UHF editaram um maxi single com os inéditos "Hesitar" e "Está Mentira à Solta" e ainda uma versão elétrica do tema "(Fogo) Tanto me Atrais". O registo incluí também uma entrevista ao líder da banda.[78] Pedro de Faro, ex-A Junção, substituiu Xana Sin no baixo elétrico e Renato Júnior foi convidado a tocar saxofone no tema "Hesitar".[28] Em junho de 1990 foi lançado no mercado o sétimo álbum Este Filme - Amélia Recruta,[79] cujos direitos de venda a banda quis oferecer à Associação dos Deficientes das Forças Armadas e que gentilmente foi declinado; "Heranças que o Império tece" comentou o vocalista, não surpreendido com a recusa.[80] O tema "Amélia Recruta" é uma critica ao Serviço Militar Obrigatório, de dimensão colonial, que teimava permanecer em Portugal e tinha apanhado novamente os músicos dos UHF.[81] O baixista Xana Sin regressou à banda e saiu Pedro Faro, e o teclista Renato Júnior tornou-se membro integrante. Em outubro lançaram o segundo álbum ao vivo, Julho 13 (1990),[82] gravado na noite de 13 de julho no Salão de Festas da Incrível Almadense. Por insistência da editora o concerto reuniu em palco, pela primeira vez depois da separação, os ex membros Carlos Peres, Renato Gomes e Zé Carvalho que marcaram a fase comercial mais lucrativa. Tocaram os emblemáticos temas "Cavalos de Corrida", "Concerto", "Rapaz Caleidoscópio" e "Geraldine". O álbum foi galardoado com disco de prata e marcou o final do contrato com a Edisom.[83]

Com a lei da rádio aprovada em 1988, as rádios nacionais, uma das responsáveis pelo fenómeno rock português, perderam a autonomia dos programas de autor, por imposição das playlists e dos interesses económicos das grandes emissoras. As rádios independentes (livres ou piratas), que se tinham tornado excessivas, foram impedidas de emitir.[84] O público afastou-se da música nacional. Tudo se tornou mais difícil, incluindo a promoção e divulgação dos novos discos. Apenas um número reduzido de bandas conseguiu resistir à crise da rádio e do rock português: GNR, Rui Veloso, Xutos & Pontapés e os UHF, são nomes perpetuados na história.[23] Na década de oitenta existiram sérios problemas de toxicodependência no seio dos UHF, e de muitas outras bandas portuguesas, mas apenas os UHF falam abertamente dele: "Se o faço, tocando em situações melindrosas, é para mostrar aos mais novos que a arte e a alegria estão na guitarra e nunca na seringa, no pó ou noutra treta qualquer," são as palavras de preocupação de António M. Ribeiro dirigidas aos novos músicos.[85]

Ensaio sobre o pop, hiato e retorno ao rock clássico (1991–1996)[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Comédia Humana, Santa Loucura e 69 Stereo

Na década de 1990 passaram a integrar o catálogo da BMG. No dia 31 de julho de 1991, participaram no festival no Estádio José Alvalade que juntou Joe Cocker e Simple Minds. A atuação dos UHF apenas durou trinta minutos, pois foram forçados a sair do palco pelos agentes estrangeiros que impuseram uma estranha lei de submissão à organização portuguesa. Ficou o registo do mau som e da falta de liderança dos responsáveis pelo festival.[86]

"O que me chocou foi ver aquela brutalidade humana, vizinhos inimigos dos próprios vizinhos e campos de concentração; Daí a analogia que faço com Hitler na letra. Falo do erro dos europeus ao juntarem aquelas nações a régua e esquadro, quando canto 'Jugoslávia bonita, filha da Europa, fronteiras malditas que o ódio devora'."

– Uma guerra pela televisão narrada no tema "Sarajevo".[87]

A estreia na nova editora aconteceu com o lançamento do oitavo álbum de estúdio Comédia Humana (1991),[88] obtendo sucesso nos temas "Brincar No Fogo" e "De Segunda até Sexta". É o trabalho da banda com sonoridade mais próxima do estilo pop rock, experimentando temas mais comerciais e o primeiro com edição em disco compacto. Um disco trovadoresco, com a escrita a revelar o olhar e a tomada de consciência existencial quando uma guerra lá longe no deserto é um acontecimento diário. A canção "Comédia Humana" faz uma abordagem à primeira guerra do Golfo, em 1990, narrando a barbaridade entre homens e militares obedientes no teatro das operações e ao vivo na televisão: "A primeira vez que uma ação militar não é fixa pela foto, mas por sequência de imagens de combate em direto pela TV", no olhar crítico de António M. Ribeiro.[89] O guitarrista Toninho e o baixista Nuno Filipe protagonizaram nova mexida. Na digressão atuaram no Coliseu de Lisboa e no Porto, respetivamente, a 7 e 8 de fevereiro de 1992, sendo o de Lisboa gravado pelo canal RTP. Contou com as participações especiais de Jorge Palma, Zé Pedro e Lena d'Água.[90] Foi lançado o single "Ao Vivo no Coliseu dos Recreios – 7 de Fevereiro 1992",[91] um bootleg em formato vinil limitado a quinze exemplares, com os temas "Estou de Passagem" e "Frágil", este, em dueto com Jorge Palma. Aborrecido com o comportamento do grupo, o líder e fundador dispensou os músicos, fez uma curta pausa na banda (hiato) e retomou o seu projeto a solo com o lançamento do primeiro álbum, aproveitando novamente para renovar os UHF.[92] Com nova formação, lançaram em maio o nono álbum de estúdio Santa Loucura (1993),[93] que assinalou a última edição no formato vinil. É um trabalho eclético, maturado, de que resultou uma panóplia de canções e vários sucessos com maior destaque para a versão de "Menina Estás à Janela". A sonoridade do álbum Santa Loucura marca também o retorno da banda ao rock clássico.

Canção popular recriada pelos UHF com sonoridade próxima do punk rock. Tornou-se um dos maiores sucessos da banda.[28]

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O tema "Sarajevo", outro sucesso que varreu o país, é uma canção de intervenção social que retrata a barbaridade de uma outra guerra que renascia na Europa. Transmitida em direto pela televisão, o conflito revelava a luta pela independência das repúblicas que formavam a Federação Jugoslava.[87] O grupo sofreu nova alteração com as saídas de Toninho (guitarra) e Luís Espírito Santo (bateria) entrando, respetivamente, Rui Dias e Fernando Pinho. O baixista Fernando Delaere regressou aos UHF para o lugar de Nuno Filipe. Foi um álbum bem recebido pelo público mas com fraco volume de vendas, devido à má gestão promocional da editora, uma vez que o vídeo de promoção televisiva do tema "Menina Estás à Janela", fora atribuído à compilação de vários artistas Número 1,[94] que alcançou o primeiro lugar do top de vendas e aí se manteve por várias semanas, em vez de promover o próprio álbum dos UHF. As vendas de Santa Loucura não refletiam os múltiplos concertos realizados no ano de 1993 e a banda estava em polvorosa com os responsáveis da BMG. O disco conquistou apenas o galardão de prata.[95] A 11 de setembro atuaram no Estádio José Alvalade na primeira parte de Billy Idol e Bon Jovi, perante uma plateia de 50 mil pessoas. Tocaram somente seis temas para trinta minutos de frenesim português que atingiu a apoteose na canção "Menina Estás à Janela", entoada em coro e que fechou o alinhamento.[96] Segue-se na discografia a edição do extended play temático 4 Rave Songs (1993) [97] de abordagem musical ao movimento rave que conquistava a Europa nos anos noventa. Foram recuperados quatro temas do álbum Santa Loucura, sendo duas novas misturas com sonoridade eletrónica: "Aqui Planeta Terra" e "Esperar Aqui Por Ti". Colocado à venda exclusivamente nas lojas Bimotor com edição limitada.[28]

Em 1995 lançaram a primeira coletânea Cheio (O melhor de),[98] com os temas regravados em ambiente acústico no Convento dos Capuchos, em Almada. O single de apresentação foram novas versões dos clássicos "Cavalos de Corrida" e "Rua do Carmo" [99] e o álbum contemplou cinco inéditos com destaque para Toca-me, lançado posteriormente no formato extended play.[100] O single "Por ti e Por Nós Dois" foi associado, em parceria com a Associação Abraço, à campanha da luta contra a SIDA.[101] São canções de forte carga social que a banda entregou mais uma vez à causa filantrópica. Na altura os UHF não tinham guitarrista definido e Renato Gomes foi convidado a participar em alguns temas. A coletânea foi reeditada no ano seguinte com nova capa e cinco inéditos no disco extra. Meses depois foi colocado nos escaparates um volume do "Talento Club Mania Show", da autoria de Carlos Caseiro, dedicado à banda de Almada.[28] Ainda em 1995 a BMG recuperou os dois últimos álbuns de estúdio Comédia Humana e Santa Loucura, de 1991 e 1993, respetivamente, e lançou Back 2 Back (1995) uma mini box set com tiragem limitada constituída por dois discos compactos.[102]

No início de 1996 a Valentim de Carvalho editou a coletânea Cavalos de Corrida - Coleção Caravela,[103] contendo os sucessos da banda que marcaram o rock português. No mês de março foi lançada a coletânea Sarajevo - Bósnia 1996,[104] no formato cassete, com tiragem de 600 exemplares. Trata-se de uma oferta simbólica produzida para o contingente militar português que integrava a missão de paz na Bósnia. Três anos depois, em 1999, a banda foi convidada a realizar um concerto de Natal na capital Sarajevo mas foi impedida pelo forte nevão que se fazia sentir naquela zona.[87] Em outubro a Virgin Megastore comemorou a abertura da loja em Lisboa com o lançamento, em parceria com a BMG e a Swatch, de uma caixa que incluía o relógio "Algarve" e um picture disc, intitulado Virgin Megastore (Algarve), com o formato de um mostrador de relógio contendo quatro bandas nacionais da editora. Os UHF participaram com o inédito "Sábado (nos teus braços)", tema que faz ma incursão pelo blues com letra em português.[105] De volta aos originais lançaram em novembro o décimo álbum de estúdio 69 Stereo (1996),[106] que consolidou o rock convencional na sonoridade dos UHF. Rui Padinha tornou-se o novo guitarrista. Destaque para a canção de intevenção "O Povo do Mundo", um manifesto contra a 'universal estupidez consciente' do racismo, xenofobia e intolerância religiosa que tardam em desaparecer da sociedade,[107] e para o tema "Foge Comigo Maria", de acústica Lou Reed ligth, tornando-se o maior sucesso do disco.[108] A banda convidou Né Ladeiras para participar na faixa "Amor Perdi". O álbum foi considerado um dos melhores trabalhos discográficos de 1996 para o jornal Público.[28]

Independência, novo hiato e consolidação da formação (1997–2003)[editar | editar código-fonte]

Saturado das obrigações contratuais, e atento às más experiências vividas no passado, António M. Ribeiro criou, no final de 1997, a editora AM.RA Discos de forma a ter controlo sobre a sua obra tornando os UHF independentes. Decidiram negociar apenas a distribuição com outras editoras.[109] Com essa decisão os UHF acabaram por perder alguma exposição mediática. O líder da banda aponta o dedo a uma imprensa "que não gosta de falar de nós e para quem as pessoas que têm sucesso e vivem de cabeça erguida são um alvo a abater. É uma imprensa que faz apostas que saem furadas e que depois tem falta de honestidade para assumir o erro", desabafa.[110] E recordou o fragoso percurso para a emancipação da banda:

Em 1998 celebraram vinte anos de carreira com a edição de Rock É! Dançando Na Noite,[112] que assinalou a estreia da nova editora. "Quando (dentro de ti)" foi o tema de maior sucesso, uma canção positiva que fala da força que existe esquecida nas pessoas. A banda foi totalmente renovada com músicos mais jovens que António M. Ribeiro, o que proporcionou uma atitude musical mais coerente no plano de trabalho. Entraram David Rossi (baixo), Marco Cesário (bateria), Jorge Manuel Costa (teclas) e António Côrte-Real, guitarrista e filho do líder da banda. Todos colaboraram como compositores dos temas.[111] Em agosto participaram com o inédito "Laura In" na compilação Promúsica 19, numa edição da revista com o mesmo nome.[113]

"Passo a passo, vamos fazendo aquilo que queremos. E muitas vezes essa independência incomodou. Mas a independência incomoda em Portugal. Nós gostamos e precisamos das editoras – se bem que hoje temos a nossa e trabalhamos mais com distribuidoras – mas nunca abdicamos da escolha do rumo. Pagamos com a nossa independência alguma exposição menor."

– Ribeiro refere uma das causas da quebra de mediatismo nos UHF.[114]

No dia 25 de junho de 1999, o grupo assinalou o vigésimo aniversário da gravação do primeiro disco com um concerto na Praça Sony no Parque das Nações, em Lisboa, integrado nas comemorações do 'Dia Mundial de Luta Contra a Droga'. Teve as participações de Carlos Moisés e Nuno Flores, dos Quinta do Bill, de um grupo sinfónico composto por 14 elementos e ainda dos cofundadores Renato Gomes e Carlos Peres. O espetáculo teve a edição programada da coletânea Eternamente (1999),[115] que reúne os principais sucessos com algumas músicas a terem uma nova roupagem. Tornou-se disco de prata só à conta das pré vendas para as lojas.[113] O álbum contempla, entre outros, a nova versão do clássico "Jorge Morreu", três inéditos e a versão disco do tema "Angie" dos Rolling Stones.[116] Das canções editadas entre 1982 e 1985 não foi possível integrar cinco que tinham sido escolhidas pois a editora Movieplay, que detém o espólio da extinta Rádio Triunfo, mais uma vez, não autorizou.[28] A 18 de agosto foi editado o extended play temático Sou Benfica (1999),[117] de homenagem ao Sport Lisboa e Benfica. O convite para criar uma canção partiu da claque oficial do clube e foi aceite pelo líder da banda. O disco contém dois inéditos e três versões dessas faixas. O tema homónimo foi uma prenda que António M. Ribeiro quis dar ao pai no seu último ano de vida.[29] Tornou-se o novo hino da modernidade do clube da Luz; Uma canção positiva, que não hostiliza os opositores nem promove a guerra no futebol.[118] Após um período conturbado na vida pessoal, António M. Ribeiro fez nova pausa na banda (hiato) e dedicou-se, em 2000, à composição do segundo álbum a solo que contou com a participação de Renato Gomes e de alguns músicos integrantes, entre outros convidados, com o intuito de dar nova vida aos UHF. Em 2001 lançaram À Beira do Tejo,[119] uma coletânea produzida exclusivamente para exportação não estando disponível no mercado português. Foi nesse ano que Ribeiro conseguiu reunir a formação que viria a tornar-se a mais consistente e duradoura – António Côrte-Real (guitarra), Fernando Rodrigues (baixo) e Ivan Cristiano (bateria) – com notável empatia, profissionalismo e espírito de equipa.[3]

Balada do enredo da ópera rock. "Uma das mais belas canções de amor que escrevi, um milagre de produção em estúdio", segundo António Manuel Ribeiro.[120]

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No dia 6 de abril de 2003, uma centena de artistas nacionais desfilaram, em tom de reivindicação, pelo incumprimento das quotas de transmissão de música portuguesa nas rádios. As cidades de Lisboa, Santa Maria da Feira, Coimbra e Beja, na qual atuaram os UHF, associaram-se a esse movimento e realizaram o Mega Concerto 100% Música Portuguesa que decorreu em simultâneo nas quatro localidades, entre as 14 e as 24 horas.[121] Em março lançaram Harley Jack (2003),[122] um extended play dedicado aos adeptos das concentrações de motards e aos seus rituais de união e amizade. "Quando estou dentro do arraial das concentrações sinto-me parte de um clube, de uma aldeia gaulesa em festa", recorda o vocalista, adepto confesso desses festivais. Contém os inéditos "Harley Jack", "Caloira Bonita" e "Faz de Conta é um País". Com edição limitada o disco tornou-se outra preciosidade para colecionadores. Um tributo dos UHF aos amantes das duas rodas, com Easy Rider na memória.[123] Seguiu-se a edição de Sou Benfica - As Canções da Águia (2003),[124] a primeira coletânea dedicada ao Sport Lisboa e Benfica. Contém o inédito "Uma Luz de Paixão", composto de rajada por António M. Ribeiro na tarde que antecedeu o último dia de vida do antigo estádio e, no dia 22 de março, deram um concerto antes da demolição perante uma multidão emocionada.[125] O álbum atingiu a 23ª posição na tabela de vendas.[126] Os 25 anos de carreira foram celebrados com o lançamento do 12º álbum de estúdio La Pop End Rock (2003),[127] uma ópera rock autobiográfica com edição da AM.RA Discos e da EMI. Trata-se de um trabalho grandioso e maturado produzido para representação cénica com orquestra, coreografia e intérpretes para as personagens. O disco encontrou nos temas "A lágrima Caiu" e "Os Putos Vieram Divertir-se" os maiores sucessos. O primeiro é uma canção de amor interpretada em dueto com a cantora Orlanda Guilande, enquanto o segundo enaltece a determinação do grupo em afirmar-se no meio musical e faz uma homenagem à fiel legião de fãs. A foto na capa do disco – uma criança – ilustra o lado naïf do início da banda.[128]

Retorno ao sucesso, raridades e a comemoração dos trinta anos (2004–2009)[editar | editar código-fonte]

Acarinhados na ilha da Madeira, os UHF foram convidados pelo município de Porto Moniz a realizar um trabalho que homenageasse os imigrantes e enaltecesse o concelho.[129] Gravaram Voltei a Porto Moniz (2004),[130] um extended play com três inéditos, duas recuperações e uma faixa interativa. A declamação musicada "Porto Moniz" é envolta de uma fascinante poesia. A edição não foi distribuída no circuito comercial, ficando apenas disponível no município e no site oficial da banda. Em novembro foi lançado uma nova versão de Podia Ser Natal (2004),[131] no formato extended play, que recuperou o tema homónimo editado originalmente na compilação de vários artistas Espanta Espíritos (1995). A edição limitada a 500 exemplares entregou à Fundação AMI um euro por cada disco vendido – sendo os 500 euros entregues na totalidade em antecipação ao resultado das vendas – numa ação de filantropia dos UHF felicitando as nobres causas apoiadas por essa instituição.[132] O disco contém ainda os inéditos "Quarto 603" e "Um Homem à Porta do Céu", de 1999 e 2001, respetivamente. Começou assim a abrir-se as portas do arquivo histórico da banda.[133]

A 14 de março lançaram o 13º álbum de estúdio Há Rock no Cais (2005),[134] um trabalho em que o amor, a relação com o Tejo, Lisboa e Almada, a crítica social e a guerra, voltaram a servir a escrita para uma sonoridade forte que revive as origens. O tema de maior sucesso foi "Matas-me com o Teu Olhar", em versão elétrica e outra acústica com a participação de um quarteto de cordas da Orquestra Metropolitana de Lisboa.[135] A canção foi incluída na banda sonora da telenovela Ninguém como Tu.[136] Em setembro de 2006 foi reeditado Há Rock no Cais, em duplo disco compacto e limitado a mil exemplares, que serviu para promover os concertos nos Coliseus de Lisboa e Porto realizados a 23 de setembro e 6 de outubro, respetivamente, sendo o de Lisboa gravado para futura edição em álbum de vídeo. A reedição foi acrescida com um disco extra com sete temas, entre os quais, a versão ao vivo de "Matas-me com o Teu Olhar", o inédito "Deputado da Nação" interpretado pelo baixista Fernando Rodrigues, e dois videoclips.[137] "Estou-me nas Tintas (primeiro os meus)" foi a faixa selecionada para a banda sonora da telenovela Fala-me de Amor.[138] No final do ano, a EMI lançou no mercado a coletânea UHF - Grandes Êxitos EMI Gold (2006), mantendo vivo na memória os maiores sucessos da banda entre 1980 e 1982.[139]

António Manuel Ribeiro com a banda, em 2009.

A 16 de abril de 2007 deram seguimento à edição das canções guardadas no seu arquivo histórico e lançaram a coletânea Canções Prometidas - Raridades Vol.I (2007),[140] contendo sete inéditos e versões nunca antes editadas. Teve uma edição limitada de 400 exemplares numerados, exclusiva para o clube de fãs, contemplando uma faixa extra. O segundo volume, Canções Prometidas - Raridades Vol.II (2007),[141] saiu a 24 de novembro e condensa seis inéditos e novas versões incluíndo "Grândola, Vila Morena", de José Afonso, com as participações de Samuel, Manuel Freire, José Jorge Letria e Vitorino.[142] No dia 28 de março de 2008, iniciaram as comemorações do trigésimo aniversário com um espetáculo na Aula Magna, em Lisboa, com as participações de Jorge Manuel Costa (piano e saxofone), Nuno Flores (violino), António Eustáquio (guitarra portuguesa) e de outros músicos que tocaram com a banda.[143] Os momentos mais altos foram protagonizados por Renato Gomes, no clássico "Cavalos de Corrida", e pelo maestro António Vitorino de Almeida que brindou o público com rasgos de improviso ao piano no tema "Sarajevo".[144] A 5 de maio de 2008 foi lançada, na série Tempo do Vinil, a coletânea UHF – Os Anos Valentim de Carvalho (2008),[145] que reúne a totalidade das músicas gravadas para a Valentim de Carvalho, ou seja, os álbuns À Flor da Pele (1981) e Estou de Passagem (1982) e os singles "Cavalos de Corrida" (1980), "Quem Irá Beber Comigo? (Desfigurado)" (1981) e "Rua do Carmo" (1981) que contém o inédito "(Vivo) Na Fronteira" no lado B. A edição veio acompanhada por um depoimento de António M. Ribeiro recolhido pelo jornalista Rui Miguel Abreu.[146] Ainda em 2008 foram reeditados, pela primeira vez em disco compacto, os álbuns Noites Negras de Azul e Em Lugares Incertos, ambos de 1988, celebrando os vinte anos do lançamento. No final do ano o teclista Nuno Oliveira tornou-se membro integrante.[147]

"Chamamos 'Absolutamente ao vivo' por que, quer o CD quer o DVD, não têm maquilhagem sonora de estúdio. Não houve rectificação, retoque ou regravação de qualquer tema tocado no Coliseu. Por isso mesmo é que acabamos por retirar quatro canções que não estavam bem. O resto está tudo lá e isto inclui as virtudes dos músicos e até alguns defeitos."

– O terceiro álbum ao vivo explicado pelos UHF.[148]

A 23 de março de 2009, os UHF revelaram o registo do concerto no Coliseu de Lisboa em 2006, inserido na digressão "Há Rock no Cais". Foi editado nos formatos duplo disco compacto e álbum de vídeo com o nome Absolutamente Ao Vivo e,[149] como o título confere, é a reprodução fiel de tudo o que aconteceu no palco. A primeira tiragem do álbum de vídeo veio acompanhada pelo single "O Tempo é Meu Amigo" (2009),[150] um inédito que integrou a banda sonora da telenovela Deixa que Te Leve.[151] Absolutamente ao Vivo (2009) atingiu a 14ª posição na tabela de vendas.[152] No mês de julho a prestigiada compilação de rock norte americana da Quickstar Productions convidou os UHF a participarem na edição Rock4Life International - Vol.11 (2009), com o tema "Alguém (que há de chegar)", tornando-se a primeira banda portuguesa a colaborar nessa compilação internacional que se concentra no apoio a causas filantrópicas.[153] Meses depois foram novamente convidados a participarem na nova compilação com o tema "Matas-me Com o Teu Olhar".[154] No dia 10 de agosto lançaram Eu Sou Benfica (2009),[155] segunda coletânea dedicada a esse emblema, com participação de artistas de diversas áreas afetos ao clube. Em setembro a AM.RA Discos editou a coletânea temática Caloira Bonita 2009,[156] preparada especialmente para a digressão das receções ao caloiro, com temas de referência para o mundo universitário. Na noite de 19 de setembro realizaram um concerto na mítica rua do Carmo, recordando uma das canções mais familiares da memória pública. O espetáculo contou com a presença do primeiro guitarrista dos UHF, Renato Gomes, e da Tuna Universitária do Instituto Superior Técnico. Nessa noite a banda foi condecorada pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa.[157]

Rock de intervenção e quinto álbum ao vivo (2010–2014)[editar | editar código-fonte]

Após o lançamento várias coletâneas, os UHF regressaram aos originais com a edição do 14º álbum de estúdio Porquê? (2010).[158] É o trabalho mais politizado da banda com proeminência da canção de combate social, como sumarizou o autor: "Trata-se de um disco em que, entre o amor e a canção política, o rock intervém", seguindo a linha ideológica da intervenção há muito reconhecida nos UHF.[159] Destaque para "Cai o Carmo e a Trindade" e "Porquê (Português)", canções que responsabilizam a medíocre classe política pelo critico estado da nação. Assertivo, o vocalista comentou:

Os temas "Vejam Bem" e "O Vento Mudou", originalmente interpretados por José Afonso e Eduardo Nascimento, respetivamente, são as versões incluídas no álbum, e "Porquê Só Ela" integrou a banda sonora da telenovela Espírito Indomável.[160] É um disco positivo, sem queixumes nem lamentações, toca nos assuntos, foca algumas situações muito concretas e acaba com uma canção extremamente positiva, a puxar pelas pessoas: "Portugal (somos nós)". O álbum entrou diretamente para a 19ª posição na tabela de vendas.[161] Em outubro iniciaram a digressão "Porquê em Portugal", percorrendo o país de norte a sul, com canções inquietas de alerta social que apontam rumos e apelam à consciência nacional.[162] Foi emitido pelos Correios de Portugal uma edição especial de filatelia sobre a história do rock em Portugal, da qual faz parte o selo com a capa do álbum À Flor da Pele (1981).[163]

"Eu não me dissocio do país, destas questões sociais que vêm de fora e que se instalam cá dentro e ficam como uma doença. Neste disco, há lá uma série de acusações sobre coisas muito concretas, por exemplo, sobre a Justiça na canção "Cai o Carmo e a Trindade". E a canção título, que tem um vídeo a correr no YouTube, é “o porquê este naufrágio constante?” Termos o D.Sebastião instalado todos os dias é uma coisa que me incomoda."

— António Manuel Ribeiro na apresentação do novo álbum.[164]

O álbum Porquê? foi reeditado em 2011 [165] acrescido de cinco temas extra: um inédito ("Fingir, Não Sei Fingir"), três versões acústicas ("Rua do Carmo", "O Vento Mudou" e "Nove Anos") e a recuperação de "O Tempo é Meu Amigo" editado em single em 2009. O clássico "Rua do Carmo", de 1981, foi o sétimo tema colhido aos UHF para integrar bandas sonoras, dessa vez, na telenovela Anjo Meu, em 2011.[166] A Tugaland e o Diário de Notícias retomaram o projeto, iniciado em 2008, da coleção com a história das melhores bandas do pop e do rock português desenhadas pelos mais prestigiados ilustradores portugueses e acompanhado por uma coletânea com os temas mais marcantes.[167] A edição dedicada à banda de Almada, BD Pop Rock Português - UHF (2011),[168] foi lançada no dia 20 de maio com canções gravadas apenas pela AM.RA Discos, ou seja, a partir de 1998. O argumento e a ilustração do livro são da responsabilidade de Pedro Brito.[169] Em 23 de julho foi colocado nos escaparates a coletânea UHF - Bandas Míticas Vol. 04 (2011),[170] uma coleção associada ao jornal Correio da Manhã sobre vinte bandas que marcaram os últimos 50 anos da história da música portuguesa.[171] No final do ano foi lançado o single "Por Portugal Eu Dou" (2011), "uma tomada de posição ativa a favor da coesão e da identidade cívica da nação", que foi oferecido a quem comprou bilhete para os concertos de gravação do álbum ao vivo realizados em Fafe nos dias 26 e 27 de novembro.[164]

Em abril de 2012 foi lançado o quarto álbum ao vivo, intitulado Ao Norte Unplugged (2012),[172] gravado em formato acústico no Teatro Cinema de Fafe. O disco homenageia os fãs residentes no norte do país, como referiu o mentor da banda: "É uma celebração ao norte e a todos os fãs anónimos que entraram e continuam a entrar para a grande família que o tempo e as canções ofereceram ao grupo".[173] O single de apresentação foi o clássico "Cavalos de Corrida", tocado ao piano, que obteve grande sucesso contribuindo para a chegada do álbum à 21ª posição na tabela de vendas.[174] Em novembro os UHF iniciaram os festejos dos 35 anos de carreira com a edição da coletânea Canções Prometidas - Raridades Vol.III (2012),[175] limitada a mil exemplares, que deu continuidade à revelação das canções guardadas no arquivo histórico da banda. Contém cinco inéditos, versões nunca antes editadas e dois temas gravados ao vivo.[176]

Em 2013 celebraram o trigésimo quinto aniversário, no dia 25 de junho, com o lançamento do 15º álbum de estúdio A Minha Geração (2013),[177] classificado pelo grupo como “um disco adulto, prenhe de rock and roll, balanceado entre Lisboa e a Califórnia, Los Angeles”. Destaque para os textos de intervenção social no tema homónimo e em "Vernáculo (para um homem comum)", com grande impacto na sociedade portuguesa, são fortes críticas a vários aspetos políticos e sociais com especial relevo para a falta de ética e seriedade dos governantes portugueses e de toda a classe política.[178]

Envolvente declamação musicada. Um manifesto antipolítico que espelha o pensamento da população portuguesa.[178]

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O tema "Vernáculo (para um homem comum)", de dez minutos de duração, foi o maior sucesso do álbum totalizando mais de 100 mil visualizações em vídeos disponíveis na internet.[179] Trata-se de um poema de intervenção, da autoria de António M. Ribeiro, editado em livro em 2006. Um texto direto e assertivo, ao mesmo tempo delicado, com adjetivos provocantes mas inseridos num contexto de linguagem: "A confissão de um homem comum. No fundo, é aquilo que se diz na rua e que os políticos não ouvem", descreve o autor, para depois constatar, "Há anónimos que me travam o passo na rua para elogiar a coragem dos UHF. Banida da rádio, é como um rio silencioso que engorda o caudal imparavelmente".[178] O baixista Fernando Rodrigues deixou o grupo no decorrer das gravações e foi substituído por Luís 'Cebola' Simões, músico em atividade paralela com os Dr. Estranhoamor. A edição marcou o regresso ao formato vinil vinte anos após a última edição. O disco apresenta nova imagem na capa – uma pintura de António M. Ribeiro – simbolizando os verdes anos vividos pela sua geração, que acreditava que o mundo lhes sorria e pertencia, como se constata no poema da canção título: "A minha geração/ acreditou em promessas/ engrossou o procissão/ foi indo na conversa."[180] O álbum entrou diretamente para a 14ª posição na tabela de vendas.[181] Um trabalho sério, como explicou o compositor:

No decorrer da digressão "UHF 35 anos – A Minha Geração", os membros da banda mostraram-se extremamente desiludidos com a classe política e com a passividade dos cidadãos. Ponderaram terminar a carreira em 2013,[110] lamentando não estarem acompanhados por outras bandas e artistas na denúncia social e política.[179] Em novembro os UHF comemoraram os 35 anos da realização do primeiro concerto e fizeram uma versão rock da canção "Amores de Estudante" (2013), oferecida aos fãs por descarga digital.[183] Nos dias 7 e 18 de dezembro realizaram concertos especiais, respetivamente, no Centro Cultural de Belém e na Casa da Música, para futura edição discográfica. Esses espetáculos marcaram o encerramento da digressão.[184]

"É um disco que reúne a força mística da palavra com a energia possante do rock, revelando uns UHF humildes, verdadeiros e modernos, com uma linguagem viril e atualizada através de canções que continuam com a mesma intensidade de sempre, quer lírica quer musical."

– O quinto álbum ao vivo descrito pela crítica musical.[185]

A 8 de dezembro de 2013 a estação de televisão RTP estreou a série Os Filhos do Rock, que recorda o início da década de 1980 e o surgimento do movimento rock cantado em português. Os UHF são uma das bandas retratadas ao longo dos 26 episódios.[186] Trata-se de uma série de ficção que, embora assente em alguns factos verídicos, subverteu a verdade sobre os principais responsáveis pelo surgimento do boom do rock em Portugal ao atribuir, erradamente, a Rui Veloso e aos Xutos & Pontapés a paternidade desse movimento em prejuízo dos UHF.[52]

No dia 6 de janeiro de 2014 foi apresentado em estreia absoluta na Rádio Renascença o inédito "Nação Benfica", no dia em que o mundo se despediu do futebolista Eusébio. O tema só deveria ser revelado no final do campeonato, mas António M. Ribeiro quis homenagear Eusébio nesse dia de pesar. O vídeo propagou-se pela internet com muitas visualizações.[187] A canção seria editada no extended play Nação Benfica,[188] a 5 de maio de 2014, juntamente com o single "Era de Noite e Levaram",[189] momento que assinalou a estreia dos UHF no mercado digital. O último tema é uma versão rock de uma canção de José Afonso que fora apresentada ao vivo no auditório da Antena 1 na celebração dos 40 anos da Revolução de Abril,[190] Também em janeiro, a Warner Music relançou a coletânea Grandes Êxitos - UHF (2014).[191] Na continuação da homenagem a José Afonso lançaram no formato digital, no dia 2 de agosto, a sua versão de "Os Vampiros" (2014),[192] tema que é uma poderosa chamada de atenção para que nos recordemos que seremos sempre capazes de vencer os 'vampiros' de hoje, os governantes, que nos exauriram com austeridade ilegítima e forçada e que ficam impunes à corrupção e ilegalidades praticadas. Uma canção amargamente intemporal.[193] Meses depois a Valentim de Carvalho lançou a coleção "Essencial", que reúne os mais consagrados artistas que gravaram para essa editora durante a parceria com a multinacional EMI. A coletânea dedicada à banda de Almada, UHF - Essencial (2014),[194] retrata os primeiros e os mais lucrativos anos da carreira. No dia 24 de novembro foi lançado o quinto álbum ao vivo, Duas Noites em Dezembro (2014),[195] que condensa o registo dos concertos no Centro Cultural de Belém e na Casa da Música, respetivamente, a 7 e 18 de dezembro de 2013, no encerramento da digressão comemorativa dos 35 anos. O duplo disco comporta 28 temas com destaque para algumas canções emblemáticas que não eram tocadas ao vivo há trinta anos. Nota maior para o empenho patriótico de António M. Ribeiro na interpretação do tema "Sonhos na Estrada de Sintra", em versão dramática, canção que serviu de amostra do álbum.[196]

Revisão da história do boom e as 300 canções (2015–presente)[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: O Melhor de 300 Canções

A 29 de janeiro de 2015, António M. Ribeiro publicou em livro as 35 histórias que escreveu para a Antena 1, no final de 2013, aquando das comemorações dos 35 anos da banda. Trata-se de um convite às pessoas para conhecerem a verdadeira, e parcialmente escondida, história do início do rock português.

"O aparecimento do rock português é como está aqui factualmente apresentado: com datas, locais, acontecimentos, lançamentos discográficos. Está tudo no livro exposto de forma matemática (...) As histórias foram mal contadas e passaram a ser verdade."

– Reparo histórico de António Manuel Ribeiro.[52]

É um testemunho histórico, também para os jovens do pós 25 de Abril, de conhecerem parte da memória do país através de algumas canções dos UHF.[197] A pedrada na língua inglesa chegou com os UHF, em 1979, e as águas revoltaram-se. Repentinamente muitas bandas quiseram ser como os rapazes de Almada: cantar rock em português. "É este o tempo de unir as pontas da história, esquivar as falsas encruzilhadas e chamar as coisas pelo nome sem pruridos ou abrangências contranatura: não sou um gajo porreiro, sou um tipo sério e sincero, como diz a canção", afirmou António M. Ribeiro, num comunicado divulgado pela Chiado Editora.[17] Um dos catalisadores para a edição do livro foi a série Os Filhos do Rock transmitida pela RTP, em 2013, que pôs nos primórdios desse género musical no país Rui Veloso na figura do pai do rock português, a partir de uma campanha de marketing da época da editora Valentim de Carvalho. António M. Ribeiro, enquanto consultor da série, fez atempadamente reparos à produção por ser abalroado diariamente por fãs que clamavam pela verdade histórica das personagens. O livro, é pois, um documento histórico que corrige e atribui aos UHF o título de fundadores do movimento musical chamado rock português, bem como o substancial papel da banda na criação da indústria rock no nosso país.[52]

A 27 de fevereiro de 2015 saiu com a revista Blitz o disco Uma História Secreta dos UHF,[198] com dez pérolas do arquivo histórico da banda, onde se incluí quatro maquetas do início da carreira, três temas registados ao vivo e recupera as versões "Amores de Estudante", de Aureliano da Fonseca e Paulo Pombo de Carvalho, e "Os Vampiros" de José Afonso, ambas editadas no formato digital em 2013 e 2014, respetivamente. Contém ainda o inédito "Um MMS Teu".[144] Os UHF suplantaram, no início de 2015, as trezentas canções editadas e deram início à digressão intitulada "UHF – 300 Canções".[199] A 30 de outubro foi lançada a coletânea O Melhor de 300 Canções (2015) [200] e apresentada com um mini concerto no fórum da Fnac de Almada. O duplo disco celebra o trigésimo sétimo aniversário da banda, que se assinala no mês de novembro, e são também 37 as faixas que compõem esse trabalho.[201]

"Tudo se conjugou para este ano conseguirmos fazer a nossa coletânea global, onde estão reunidos os nossos maiores sucessos (...) Às vezes penso e parece que foi ontem. Nos últimos tempos temos feito muitas entrevistas e há coisas que nos vêm à memória e que me fazem rir. Olho para trás e sorrio"

– O líder da banda na apresentação da coletânea global.[202]

No primeiro disco, 'O Rock', estão reunidos 20 singles com os maiores sucessos, ao passo que no segundo, intitulado 'E o Roll', acrescenta 16 êxitos e o inédito "Soube Sempre que Eras Tu". Trata-se da primeira coletânea global do grupo, sem sombras editoriais, em que são reveladas regravações de clássicos, temas ao vivo, canções nunca editadas digitalmente e recupera a versão de "Era de Noite e Levaram" (2014) para o formato físico. O tema de apresentação foi o single-vídeo "Puseste o Diabo em Mim" com uma nova roupagem e filmagens que envolvem uma descida vertiginosa de skate.[201] O álbum alcançou diretamente a 7ª posição na tabela nacional de vendas, na qual permaneceu uma semana, para depois descer ao 27º lugar no decorrer da segunda semana.[203] Em dezembro de 2015, Fernando Rodrigues regressou aos UHF para substituir Nuno Oliveira nas teclas.[204] No decorrer da digressão estrearam, no dia 30 de julho de 2016, mais um acontecimento marcante na sua longa carreira com um concerto no Grande Auditório do Centro de Artes e Espectáculos (CAE), na Figueira da Foz. O momento, intitulado "UHF Sinfónico", juntou no mesmo palco os elementos da banda e 140 músicos da Orquestra Nacional de Jovens, sob a direção do maestro Cristiano Silva, no encerramento da nona edição desse prestigiado festival. Com grande impacto na comunicação social, tanto pela qualidade artística como pela originalidade do evento no nosso país, o concerto foi recriado no primeiro dia do mês de outubro, do mesmo ano, no Forum Luisa Todi, em Setúbal, no âmbito das comemorações do dia mundial da música.[205] Inauguraram nos dias 2 e 3 de dezembro, respetivamente, no Hard Club, Porto, e Centro Cultural Olga Cadaval em Sintra, um novo conceito de espetáculo ao vivo com dois concertos temáticos designados por “Noites à Flor da Pele”, em que foram revisitados À Flor da Pele (1981) e Noites Negras de Azul (1988), dois discos marcantes na música portuguesa. Para celebrar o momento lançaram o extended play Tudo o que É Nosso (2016),[206] contendo três inéditos e uma versão rádio do tema título.[207]

Em 24 de abril de 2017 foi divulgado, em estreia na Antena 1, o tema "Traz Outro Amigo Também" como primeira amostra do novo álbum da banda. É mais uma versão do notável legado de José Afonso apresentada na comemoração dos 43 anos da Revolução de Abril.[208] No dia 4 de julho os UHF participaram como convidados na primeira parte do concerto dos lendários Deep Purple, no Meo Arena, em Lisboa.[209] A 25 de agosto saiu com a revista Blitz a coletânea Almada '79,[210] que revela as primeiras maquetas do rock português, registadas em 1979, e ainda os temas "Caçada", gravado no Convento dos Capuchos em 1995, e "Jorge Morreu" captado ao vivo no Centro Cultural de Belém em 2013.[211]

Membros[editar | editar código-fonte]

Membros atuais [147]

Características musicais[editar | editar código-fonte]

Estilo e instrumentação[editar | editar código-fonte]

A música dos UHF é categorizada como rock direto e espontâneo de características urbanas, produzindo também uma sonoridade acústica e hard rock. No início da carreira corporizavam a vivência do 'estar à margem', o grito de revolta dos jovens e as desigualdades socais, evoluindo depois para a intervenção social na denúncia da justiça e da classe política, por um lado, e por outro na defesa da qualidade de vida dos cidadãos. Os UHF refletem a nação portuguesa, esta sociedade, ora vogando pelo romantismo ora tomando posição em causas comuns.[34][178]

O som inicial dos UHF assentava nas raízes do punk rock. Temas simples, curtos e diretos, podendo ser ouvido em "Caçada" no disco de estreia Jorge Morreu (1979),[29] progredindo para o pós punk com o single "Cavalos de Corrida" (1980) e o álbum À Flor da Pele (1981). Com produção de Luís Filipe Barros e Nuno Rodrigues, as canções de À Flor da Pele são marcadas pela sonoridade de fortes guitarras, rock puro e duro, com alguma proximidade ao new wave em certos temas e um fascínio crescente da banda com a cultura urbana, pessoas e lugares.[212] No álbum Estou de Passagem (1982) o grupo afastou-se ligeiramente do pós punk para experimentar uma sonoridade mais leve com presença do sintetizador,[49] retomando de seguida o som pesado das guitarras em Persona Non Grata (1982). Este, o álbum mais ferozmente rock, consequência da instabilidade, dúvidas e confusões internas que se instalaram no seio da banda devido à precipitada decisão da mudança de editora.[213] Os temas de Ares e Bares de Fronteira (1983) ecoam as sombras do estado da nação com a entrada em Portugal do Fundo Monetário Internacional, bem como uma fase negativa na vida pessoal do líder dos UHF. Um álbum que seduz o romantismo, obscuro e melancólico com forte influência do sintetizador.[51] Em Noites Negras de Azul (1988), com a banda renovada, António M. Ribeiro faz uma retrospeção de histórias pessoais embelezadas por pujantes guitarras elétricas. Um disco 'negro' que reflete tempos difíceis.[72] No místico Em Lugares Incertos (1988) os músicos incluem a experimentação da caixa de ritmos e uma doutrina acústica que não se confunde com quebra de energia.[214] Ultrapassada a fase inicial os elementos da banda deixaram de procurar referências musicais. Com estatuto consolidado, sonoridade própria e determinação, continuaram a reinventar-se em cada disco, como referiu o vocalista:

No máxi "Hesitar" (1989) conseguiram transmitir a sonoridade de uma valsa desenfreada com aproximação ao pop rock dos anos 50, enquanto que em Comédia Humana (1991) experimentaram também o pop com canções mais comerciais e em Santa Loucura (1993) optaram por uma textura variada de sonoridades.[216] Na análise do jornalista e crítico musical Fernando Magalhães, o álbum 69 Stereo (1996) "é rock and roll de barba rija, com cara de mau e a piscar o olho aos anos 70, desta estereofonia na posição 69, uma das produções, com assinatura de António Manuel Ribeiro, mais sofisticadas de sempre dos UHF".[108] Concretizaram a independência total do grupo com a criação da editora própria que se estreou com a edição, em 1998, do álbum Rock É! Dançando Na Noite. No disco realce para o som das guitarras e para as canções curtas direcionadas para os palcos – que é a forma de vida do grupo – refletindo uma variedade temática com participação de todos os músicos.[111]

La Pop End Rock (2003) é uma ópera rock mergulhada num puzzle de canções que revela a história da carreira do grupo. Marca o regresso ao som do quarteto com voz, duas guitarras em carga e uma bateria "marcadamente a doer".[217] Já no álbum Há Rock no Cais (2005) apresentam um som cru e despojado mas mais coeso: "Voltámos à simplicidade das guitarras, bateria e voz", revelou o vocalista.[218] Porquê? (2010) é um profundo trabalho de evolução com uma sonoridade solta, próxima das atuações ao vivo, expondo o rock de intervenção de uma forma mais direta. É um disco provocante e versátil, claramente politizado, um alerta sobre a atualidade mas também um álbum de canções de amor.[114] Foi gravado em Vendas Novas com o produtor João Martins, num ambiente calmo e isolado, tornando-se um trabalho de união e harmonia no grupo, como descreveu o baterista Ivan: "Aprendemos a pôr os egos de lado", enquanto o baixista Fernando afirmou que "estamos muito mais coesos" e António Côrte-Real, guitarrista, reforçou que "a cumplicidade permite uma maior participação de todos na construção das canções".[219] No início da década de 2010, houve uma maior tendência em incluir no repertório canções de combate social, uma vertente que os UHF assumem cada vez com mais convicção, tornando-se notório também no álbum A Minha Geração (2013).[179] É um disco maduro, que na análise social do líder da banda: "observa à volta e reduz certos tipos sociais a estrofes cantadas, seguindo o exemplo que o mestre Gil Vicente nos legou". Um álbum verrinoso e irónico, transportando uma sonoridade rock vintage trabalhada com máquinas de reverberação de fita em vez das modernas máquinas digitais.[220] Os membros da banda definem a musicalidade praticada:

Letras e temas[editar | editar código-fonte]

O conteúdo lírico da banda é muitas vezes trabalhado com textos autobiográficos e de intervenção social. Canções como "Notícias de El Salvador", "Comédia Humana" e "Sarajevo" foram motivadas por acontecimentos atuais do tempo. O primeiro foi escrito sobre a devastadora guerra civil de El Salvador que dizimou parte da população,[222] enquanto o segundo faz uma abordagem ao primeiro conflito no Golfo, relatando a barbaridade entre os homens na guerra.[223] "Sarajevo" dá continuidade ao capitalismo bélico, dessa vez, na luta pela independência das repúblicas que formavam a Federação Jugoslava. É apresentado ao vivo como uma canção contra todas as guerras.[87] Outros temas da sociedade são abordados, como a violência policial ("Caçada"), as drogas duras ("Jorge Morreu") ou o retrato do sucesso artístico no ardil fascínio da droga ("Rumo ao Céu").[29][224] As interrogações e o existencialismo encontraram nas letras de "Ébrios (pela vida)" e na enigmática "Suave Dança do Vento" a serenidade de Jim Morrison,[225] tornando-se mais filosófico no tema "Estou de Passagem".[226]

As canções "Um Mau Rapaz", "Persona Non Grata" e "Corpo Eléctrico" formam uma trilogia e foram inspiradas nas turbulências e conflitos internos ocorridos na banda, em 1982.[227] Dessas contrariedades acabou por acontecer o desmembramento da formação inicial, a quebra do quarteto maravilha, abordado no tema "De um Homem Só" que faz o balanço desse período.[55] Tempo de retrospeção para o resistente dos UHF – conquistas, falhanços e revolta – tópicos que são centrais nas canções de Noites Negras de Azul (1988).[72] O músico recorda também o mendaz comportamento de certos agentes do espetáculo, confidenciado no texto "De um Artista",[228] para depois enfrentar as próprias interrogações com "A Última Prova" no caminhar pelo corredor dos palcos.[229] Após estabelecida uma vida imparável, veloz e atribulada, testemunhada na faixa "(Vivo) Na Fronteira",[230] os limites da lucidez foram várias vezes ultrapassados e referidos em temas como "Rumo ao Céu (não dói nada)" ou no envolvente "Do Céu ao Inferno".[231] A forte ligação a Lisboa é vincada nos textos de "Rua do Carmo", "Noites Lisboetas" e "Apetece Namorar Contigo em Lisboa", atualizados numa nova sensação urbana de viver, mais crítica e mais livre.[232] O repertório da banda é também preenchido pelas incontornáveis canções de amor. Temas como "Anjo Feiticeiro", "Eu Sei Recomeçar", "Devo Eu", "Na Tua Cama" e "Juro que Tentei" foram embelezados pela inspiração de musas ligadas ao autor,[233] enquanto que a canção tribal "Sonhos na Estrada de Sintra" propõe uma viajem deslumbrante pela dimensão cósmica do amor.[234] "Matas-me com o Teu Olhar" demonstra o poder da poesia – tanta certeza ancestral numa só frase – a plenitude, a paz e a cumplicidade reencontrada.[235] Em declarações à imprensa os UHF abrem o estúdio e partilham o sentimento de felicidade ao criar uma canção: "É o prazer da descoberta que nos move. Seja ao vivo ou em estúdio, o chegar aqui com uma canção e vê-la crescer. É fantástico",[219] descreve o vocalista, para depois revelar as técnicas da sua escrita:

O líder dos UHF é um repórter da atualidade que se propõe a narrar os mais variados temas da vida das pessoas. A árdua rotina laboral de todos os dias ("Cavalos de Corrida"),[19] a pedofilia e prostituição ("Geraldine" e "Aquela Maria"),[236] os inóspidos lares de rua ("Lisboa Hotel"),[237] a valorização do primado da vida e da ética ("Esta Dança Não Me Interessa" ou "Aqui Planeta Terra"),[238] a teimosa permanência do serviço militar obrigatório ("Amélia Recruta"),[239] o débil e vergonhoso papel da Justiça na luta contra a corrupção ("Cai o Carmo e a Trindade") [164] e a universal estupidez consciente do racismo, xenofobia e intolerância religiosa ("O Povo do Mundo"),[240] são alguns exemplos do vastíssimo repertório. A comunicação entre o palco e o público, iniciada em 1982 com o místico tema "Concerto", tornou-se uma prática recorrente nas atuações ao vivo denotando, já nessa altura, uma tendência progressiva para a canção política.[241] A banda usou as digressões "Porquê em Portugal" e "UHF 35 anos – A Minha Geração" para dar voz ao descontentamento da população na crítica pela (des) governação política, ganhando maior ênfase com os temas "Porquê (português)" e "Vernáculo (para um homem comum)", para depois indicar soluções – "Portugal (somos nós)" e "Por Portugal Eu Dou" – canções que apontam rumos e apelam à consciência nacional. É uma banda claramente conotada de rock de intervenção, de natureza política, facilmente reconhecido pelos seus fãs.[164]

Influências[editar | editar código-fonte]

A poesia de José Afonso inspirou os UHF.

A sonoridade dos UHF expressou-se inicialmente no punk com alguma influência dos Ramones.[29] O vocalista fala dos seus primeiros gostos musicais: "A minha primeira ligação à música britânica foi através dos Rolling Stones. Com o rádio de pilhas debaixo da almofada ia ouvindo aquelas vozes mágicas e descobrindo música." No que se fazia no seu país referiu: "Seguia a carreira do Filipe Mendes, do Quarteto 1111 e do Pop Five Music Incorporated. Os Chinchilas eram uma banda fantástica", concluíu.[2]

The Doors, uma das principais referências do vocalista dos UHF.

A influência do Quarteto 1111, no início dos anos 70, e o percurso poético de José Afonso, foram determinantes para a atribuição do português na escrita das canções, reforçado com a necessidade do vocalista em comunicar com o público.[242] O seu crescimento musical foi também acompanhado pelo folk rock dos Fairport Convention, Bob Dylan e Neil Young, permitindo-lhe contar histórias do folk em união com a violenta explosão do punk.[29] O líder dos UHF revela admiração pela poesia punk de Patti Smith [243] e pela simplicidade musical de Lou Reed, uma das influências, como salientou: "É uma referência da minha geração, é um mito como o John Lennon, que me ajudou a ser músico".[244] Por outro lado, a paixão confessa pelos Doors, associada à vida desenfreada no início da carreira, eram atributos que davam a António M. Ribeiro o direito de ser conhecido como Jim Morrison português.[34] Foi na adolescência que os Doors bateram à porta de Ribeiro com "Light My Fire". Descobriu depois "Hello, I Love You" e caiu definitivamente vidrado pelo som psicadélico do grupo com "Touch Me". Os UHF rapidamente criaram uma sonoridade própria e os Doors ficaram como uma referência entre muitas que os músicos sempre têm.[245] No entanto, o talento de José Afonso continua presente no repertório da banda, como afirmou Ribeiro: "Quando anuncio em palco uma canção do José Afonso afirmo que um homem não morre, parte, e a obra que nos deixou prolonga a sua existência entre nós. É isso que queremos levar aos mais novos, canções de outro tempo que não têm data certa. Pertencem-nos."[246] Os UHF resumem numa frase as principais influências:

A partir de 1982, António M. Ribeiro assumiu a produção executiva da maioria dos trabalhos discográficos da banda. Recuperou a arte da poesia de intervenção iniciada pelos cantautores e atualizou-a numa nova linguagem musical, como esclareceu à imprensa: "Estar no rock é uma atitude, é uma forma de afrontar a realidade e até de a revelar".[215]

Discografia[editar | editar código-fonte]

Ver também: Discografia de UHF
Álbuns de estúdio

Reconhecimento[editar | editar código-fonte]

Falar dos UHF implica recuar ao final da década de setenta para assistir ao nascimento do movimento de renovação musical, denominado rock português, por vezes com um tom de intervenção social e político.[247] Desde então, a banda alcançou marcas consideráveis, vários prémios e condecorações.

"Os UHF complementavam o ramalhete de forma perfeita. O Rui Veloso era o singer-songwriter puro, os GNR a banda mais arty e os UHF o grupo de rua, de garagem, com uma energia muito forte."

– Comentário de Francisco Vasconcelos, A&R da Valentim de Carvalho, em 1980.[2]

Nos primeiros 28 anos os UHF percorreram 700 mil quilómetros, venderam mais de 1,5 milhão de discos e receberam onze discos de prata, sete de ouro e três de platina.[248] Em junho de 2017 totalizaram 1 700 concertos.[249] Outros reconhecimentos merecem destaque; Foram o primeiro grupo nacional de rock a realizar uma digressão por todo o país, em 1979,[13] e dispondo de uma apreciável experiência de palco foram selecionados para atuarem na primeira parte dos concertos de alguns artistas de renome internacional.[28] Em outubro de 1980, o single "Cavalos de Corrida" foi o primeiro a conquistar um galardão – disco de prata – pela venda de 30 mil exemplares,[31] contemplado pelo singular apontamento de 81 concertos. À Flor da Pele foi aclamado pela crítica como um pilar do rock português e assinalou o início da idade dourada desse movimento.[250][251] Chegou ao primeiro lugar na tabela nacional, em 1981, e vendeu mais de 30 mil unidades arrecadando o disco de ouro.[252] A banda recebeu o prestigiado "Prémio da Imprensa", na categoria "Melhor agrupamento rock", pela proeza alcançada com a venda de mais de 100 mil discos e a realização de 134 concertos num só ano, registo que foi imbatível em Portugal em 1981.[253][56] O álbum é considerado a 'Bíblia do rock português' e é uma referência para novas bandas.[254] Em 2009, a revista Blitz atribuiu a À Flor da Pele a décima sexta posição na sua lista dos "40 melhores álbuns dos anos 80 em Portugal".[255] Em 1982, Estou de Passagem ultrapassou as 30 mil cópias e levou a prata.[252] Na digressão atuaram no Cine Jardim no Funchal, tornando-se o primeiro grupo de rock a visitar a ilha da Madeira.[256] Outra marca de pioneirismo foi a edição de Ao Vivo em Almada – No Jogo da Noite (1985), o primeiro disco português do universo rock gravado ao vivo.[257]

"António Manuel Ribeiro nunca abdica do profissionalismo (...) Sabe o que é preciso juntar para que as pessoas saibam ouvir o 'Grândola Vila Morena' com os ouvidos de hoje: é um homem lúcido, resistente e cuja qualidade poética tem vindo a melhorar de disco para disco."

– Declarações de José Jorge Letria, presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, em 2015.[258]

"Na Tua Cama" foi uma inovação na música nacional, segundo a imprensa na época: "Pela primeira vez, um artista lançava uma nova canção fora do espaço radiofónico ou televisivo privilegiando uma plateia de futebol"; um golpe de asa em marketing musical.[70] O álbum Noites Negras de Azul teve entrada direta para o quarto lugar no top de vendas, em 1988, e atingiu o galardão de prata que nunca foi entregue ao grupo. Foram igualmente premiados com prata, por vendas superiores a dez mil unidades, os álbuns Julho 13 e Santa Loucura, de 1990 e 1993, respetivamente.[95] Em 1996, o jornal Público considerou 69 Stereo o melhor disco do ano.[28] A coletânea Eternamente (1999) alcançou a prata durante as pré vendas para as lojas, para depois conquistar o galardão de ouro.[113] Em 2003, a coletânea temática Sou Benfica – As Canções da Águia atingiu a 23ª posição na tabela de vendas.[126] O duplo disco Absolutamente ao Vivo chegou ao 14ª lugar, em 2009,[152] e a 19 de setembro do mesmo ano, após a realização de um concerto na mítica rua do Carmo, os UHF foram congratulados com a "Medalha de Mérito da Cidade" pela dedicação a Lisboa através de algumas canções.[157] Os álbuns de cariz interventivo Porquê? (2010) e A Minha Geração (2013) atingiram, respetivamente, a 19ª e 21ª posições no top oficial.[161][181] Em 2012 o disco ao vivo Ao Norte Unplugged chegou à 21ª posição,[174] e em 2015 a coletânea global O Melhor de 300 Canções entrou diretamente para o 7º lugar.[203] No mês da comemoração dos 35 anos do lançamento do single "Cavalos de Corrida", a Sociedade Portuguesa de Autores atribuiu a “Medalha de Honra da SPA” a António M. Ribeiro pelos 37 anos de carreira ininterrupta, e aos restantes elementos, numa cerimónia realizada no dia 29 de outubro de 2015 no auditório Maestro Frederico de Freitas, em Lisboa.[259]

António M. Ribeiro é conhecido por utilizar técnicas de Spoken word nas canções e poesias improvisadas enquanto a banda continua a tocar, mostrando uma tendência notável para a lírica social e política, um valor grandioso nas suas composições.[29] Criou em Portugal o movimento de poesia-rock, tornando-se num dos melhores autores.[252] Autor da maioria do repertório da banda, é um vocalista icónico, carismático e de timbre vocal único no universo rock. Enfrenta o sistema e os poderosos procurando denunciar os podres da nossa sociedade. É um resistente e um vencedor de várias guerras. Não existe rocker em Portugal que tenha conseguido sobreviver a tantos conflitos, lutas, críticas e mudanças sem abdicar do seu projeto.[260] Renato Gomes, primeiro guitarrista dos UHF, foi eleito pela revista Blitz, em 2015, como um dos 30 melhores guitarristas portugueses de todos os tempos.[261]

Referências

  1. Ana Cláudia Pimenta Martins (2014). «Rock in Portugal» (PDF). Universidade do Minho: p.14. Consultado em 1 de outubro de 2015 
  2. a b c Rui Miguel Abreu (20 de março de 2016). «UHF 1978-1981: Os verdes anos de uma banda histórica do rock português». Blitz. Consultado em 4 de abril de 2017 
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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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  • Rebelo, Rolando (2014). Aqui, Xutos & Pontapés. Rua Cidade de Córdova nº 2, 2610-038 Alfragide: Oficina Livro-Leya. 231 páginas. ISBN 978-989-741-203-5 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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