Brasil e as armas de destruição em massa

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Nas décadas de 1970 e 1980, durante o regime militar, o Brasil teve um programa secreto com o objetivo de desenvolver armas nucleares.[1] [2] [3] [4] [5] [6] [7] O programa foi desmantelado em 1990, 5 anos após o fim do regime militar e o Brasil foi considerado livre de armas de destruição em massa.[8]

O Brasil é um dos vários países que têm renegado o direito a ter armas nucleares, sob os termos do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares,[9] mas que possuem muitas das principais tecnologias necessárias para produzir esse tipo de arma.[7] [10] [11] [12] [13]

Programa nuclear[editar | editar código-fonte]

Na década de 1950, o presidente Getúlio Vargas incentivou o desenvolvimento da capacidade nuclear nacional e independente.[2] Durante os anos 1970 e 1980, o Brasil e a Argentina embarcaram em uma competição nuclear.[1] Através da transferência de tecnologia da Alemanha Ocidental, que não exigia salvaguardas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o Brasil seguiu com um programa de armas nucleares conhecida como o Programa Paralelo,[2] com instalações de enriquecimento de urânio (incluindo pequenas usinas de centrifugação, uma capacidade limitada de reprocessamento e um programa de mísseis).[1] Em 1987, o presidente José Sarney anunciou que o Brasil tinha urânio enriquecido a 20%.[2]

Em 1990, o presidente Fernando Collor de Mello simbolicamente fechou o local de teste de Cachimbo (Campo de Provas Brigadeiro Velloso), no Pará, e expôs o plano secreto militar para desenvolver uma arma nuclear.[1] O Congresso Nacional do Brasil abriu um inquérito sobre o programa paralelo.[2] Congressistas visitaram inúmeras instalações, incluindo o Instituto de Estudos Avançados (IEAv), em São José dos Campos, São Paulo.[2] Eles também entrevistaram os principais intervenientes no programa nuclear, como o ex-presidente João Figueiredo e o General do Exército aposentado Danilo Venturini, ex-chefe de Gabinete de Segurança Institucional‎ (GSI) sob o governo de Figueiredo.[2] A investigação do Congresso expôs contas bancárias secretas, de codinome "Delta", que foram geridos pela Comissão Nacional de Energia Nuclear e utilizadas para o financiamento do programa nuclear.[2] O relatório do Congresso revelou que o IEAv tinha projetado dois dispositivos de bomba atômica, uma com um rendimento de vinte a trinta mil toneladas e um segundo rendimento de doze mil toneladas.[2] O mesmo relatório revelou que o regime militar no Brasil secretamente importou oito toneladas de urânio do Iraque em 1981.[2]

O ex-presidente Lula visitando o Projeto do Laboratório de Geração Núcleo-Elétrica (LABGENE), no Centro Experimental Aramar, local da fabricação dos geradores de vapor.[14]

Em 1991, Brasil e a Argentina renunciaram à sua rivalidade nuclear.[1] Em 13 de dezembro de 1991, foi assinado o Acordo Quadripartite, na sede da AIEA, criando a Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares e a AIEA permitiu as salvaguardas totais das intalações nucleares da Argentina e do Brasil.[1]

O Brasil inaugurou oficialmente a Fábrica de Combustível Nuclear de Resende em maio de 2006.[15] O desenvolvimento da tecnologia de enriquecimento e as instalações brasileiras em si, envolveram discussões substanciais com a AIEA e os seus países constituintes. A disputa chegou ao ponto se os inspetores da AIEA seriam autorizados a inspecionar as máquinas brasileiras pessoalmente. As autoridades brasileiras, no início, não permitiram a inspecção dos salões de centrífugas, argumentando que isso iria revelar segredos tecnológicos (provavelmente relacionadas com a utilização de um rolamento magnético no lugar de um rolamento mecânico, mais comum).[16]

As autoridades brasileiras declararam que, como o Brasil não faz parte do "eixo do mal", a pressão para o pleno acesso à fiscalização, mesmo em universidades, poderia ser interpretada como uma tentativa de descobrir segredos industriais.[17] O governo também alegou que sua tecnologia nuclear é melhor do que a dos Estados Unidos e da França, principalmente porque o eixo da centrífuga de enriquecimento de urânio não é mecânico, mas eletromagnético. Eventualmente, depois de extensas negociações, foi alcançado um acordo que, embora não diretamente inspecionasse as centrífugas, a AIEA poderia inspecionar a composição do gás que entra e sai da centrífuga. Em seguida, o então Secretário de Estado dos Estados Unidos, Colin Powell, afirmou em 2004 que ele tinha certeza que o Brasil não tinha planos de desenvolver armas nucleares.[18]

Capacidade tecnológica[editar | editar código-fonte]

Programa Nuclear Brasileiro
Angra1.jpg
Vista do Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto. À frente, na primeira cúpula, vê-se a usina de Angra 2. Ao fundo, o silo de Angra 1.
Usinas
Angra 1 · Angra 2 · Angra 3
Localização
Angra dos Reis · Praia de Itaorna
Histórico
Almirante Álvaro Alberto · Programa nuclear brasileiro
Acordos
Acordo Brasil-Alemanha · Acordo Brasil-França
Administração
Eletrobrás Termonuclear S.A. · Eletrobrás · Indústrias Nucleares do Brasil
Correlatos
Brasil e as armas de destruição em massa · Fábrica de Combustível Nuclear de Resende · Submarino nuclear brasileiro · Centro Experimental Aramar · Usina nuclear · Lixo atômico · Reator nuclear · Lista de usinas nucleares

O Brasil provavelmente mantém a capacidade tecnológica e o conhecimento para produzir e lançar uma arma nuclear.[7] [11] Os peritos do Laboratório Nacional de Los Alamos concluíram que, tendo em conta as suas anteriores atividades nucleares, o Brasil está em condições de produzir armas nucleares dentro de um ano, sendo que o Reino Unido desenvolve armas dentro de três anos. Mas ainda possui uma diferença,o Brasil ainda não possui armas nucleares, ao contrário do Reino Unido que já possui essas armas e é um dos cincos países oficiais de armas nucleares.[carece de fontes?] Se o Brasil decidir produzir uma arma nuclear, as centrífugas da Fábrica de Combustível Nuclear de Resende, no Rio de Janeiro, podem ser reconfiguradas para produzir urânio altamente enriquecido para armas nucleares. Mesmo uma pequena usina de enriquecimento, como a de Resende, poderia produzir várias armas nucleares por ano, mas apenas se o Brasil estiver disposto a fazê-lo abertamente.[10] [16] [19]

Instalações[editar | editar código-fonte]

Campo de Provas Brigadeiro Velloso[editar | editar código-fonte]

O local de testes de Cachimbo, oficialmente nomeado Campo de Provas Brigadeiro Velloso, está localizado no estado do Pará e abrange 45.000 quilômetros quadrados, uma área maior do que os Países Baixos. É dentro desta área militar, que um buraco de aproximadamente 320 metros de profundidade, na Serra do Cachimbo, foi o local para testes nucleares explosivos. O eixo ganhou conhecimento público desde 1986 e teria sido abandonado em setembro de 1990, quando o presidente Fernando Collor de Mello usou uma pequena pá para simbolicamente selar o buraco.[20]

Centro Experimental Aramar[editar | editar código-fonte]

O Centro Experimental Aramar, localizado em Iperó, no estado de São Paulo, foi inaugurado em 1988 como a primeira usina apenas para enriquecimento de urânio no Brasil. A instalação é controlada pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e pela Marinha do Brasil. Além do enriquecimento por centrifugação, a instalação também hospeda um Laboratório de Enriquecimento Isotópico e várias pequenas Pequenas Centrais Nucleares (PCNs). Os laboratórios de enriquecimento estão sob o controle de salvaguardas nacionais e inspeções nacionais são efectuadas pela Divisão de Salvaguardas da CNEN.[21]

Centro Tecnológico do Exército[editar | editar código-fonte]

O Centro Tecnológico do Exército, localizado em Guaratiba, no estado do Rio de Janeiro, é o local da instalação de reator produtor de plutônio, conhecido como "Projeto Atlântico", gerido pelo Instituto de Projetos Especiais (IPE) do Exército Brasileiro. Os relatórios indicam que o reator de gás-grafite seria capaz de produzir plutônio para bombas atômicas.[22]

Comando-Geral de Tecnologia Aeroespacial[editar | editar código-fonte]

O Comando-Geral de Tecnologia Aeroespacial (CTA) é um centro de pesquisa localizado em São José dos Campos, no estado de São Paulo, onde a pesquisa nuclear também é realizada.[23]

Fábrica de Combustível Nuclear de Resende[editar | editar código-fonte]

A Fábrica de Combustível Nuclear de Resende (FCN) é uma instalação de enriquecimento de urânio em Resende, no estado do Rio de Janeiro. A fábrica é gerida pela Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e pela Marinha do Brasil. Atualmente a fábrica produz urânio altamente enriquecido suficiente para 26-31 ogivas do tipo implosão.[24] [25]

Legislação e convenções[editar | editar código-fonte]

A Constituição brasileira de 1988, no artigo 21, diz que "toda atividade nuclear em território nacional somente será admitida para fins pacíficos e mediante aprovação do Congresso Nacional".[26]

Brasil aderiu ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear em 18 de setembro de 1998, ratificou o Protocolo de Genebra, em 28 de agosto de 1970, a Convenção sobre Armas Biológicas, em 27 de fevereiro de 1973 e a Convenção sobre Armas Químicas, em 13 de março de 1996. O Brasil também assinou o Tratado de Tlatelolco, em 1967, fazendo do Brasil uma zona livre de armas de destruição em massa.

O Brasil também é um participante ativo na Agência Internacional de Energia Atômica e do Grupo de Fornecedores Nucleares, as agências multinacionais preocupadas com a redução da proliferação nuclear, controlando a exportação e a re-transferência de materiais que podem ser aplicadas para o desenvolvimento de armas nucleares.

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Referências

  1. a b c d e f Brazil: Nuclear Inventory Reachingcriticalwill.org. Acessado em 06/10/2010.
  2. a b c d e f g h i j Brazil: Nuclear Weapons Programs Globalsecurity.org. Acessado em 06/10/2010.
  3. Brazil, IAEA Reach Inspection Agreement Arms Control Association. Acessado em 06/10/2010.
  4. Tracking Nuclear Proliferation - Brazil PBS NewsHour. Acessado em 06/10/2010.
  5. States Formerly Possessing or Pursuing Nuclear Weapons: Brazil The Nuclear Weapon Archive. Acessado em 06/10/2010.
  6. Country Profiles Global Security Institute. Acessado em 06/10/2010.
  7. a b c Countries and issues of nuclear strategic concern: Brazil SIPRI. Acessado em 06/10/2010.
  8. Life without the bomb BBC. Acessado em 06/10/2010.
  9. Albright, Lampreia hail Brazil's accession to NPT Federation of American Scientists. Acessado em 06/10/2010.
  10. a b Brazil’s Nuclear Puzzle Wisconsin Project on Nuclear Arms Control. Acessado em 06/10/2010.
  11. a b Brazil's Nuclear Ambitions The American Thinker. Retrieved on 2010-10-06.
  12. Brazil and the Bomb German Council on Foreign Relations. Acessado em 06/10/2010.
  13. Not-Quite-Nuclear Nations Newsweek. Acessado em 06/10/2010.
  14. Defesanet - Presidente Lula garante prioridade ao programa nuclear da Marinha. Acessado em 2 de Novembro de 2010.
  15. BBC News: Brazil joins world's nuclear club BBC News. Retrieved on 2010-10-06.
  16. a b How Brazil Spun the Atom Institute of Electrical and Electronics Engineers. Acessado em 06/10/2010.
  17. Urânio: Brasil não é contra a inspeção internacional, mas contra aumento da inspeção que pode apropriar-se da tecnologia desenvolvida pelo país Jornal da Ciência. Acessado em 06/10/2010.
  18. BBC News: US sure of Brazil nuclear plans BBC News. Acessado em 06/10/2010.
  19. Weapons of Mass Destruction (WMD): Resende Nuclear Fuel Factory (FCN) Globalsecurity.org. Acessado em 06/10/2010.
  20. WMD Facilities: Cachimbo Globalsecurity.org. Acessado em 06/10/2010.
  21. WMD Facilities: Aramar Experimental Center, Iperó Globalsecurity.org. Acessado em 06/10/2010.
  22. WMD Facilities: Guaratiba Globalsecurity.org. Acessado em 06/10/2010..
  23. WMD Facilities: São José dos Campos Globalsecurity.org. Acessado em 06/10/2010.
  24. WMD Facilities: Resende Nuclear Fuel Factory (FCN) Globalsecurity.org. Retrieved on 2010-10-06.
  25. INB Activities on the Nuclear Fuel Cycle Americas Nuclear Energy Symposiums. Acessado em 06/10/2010.
  26. Constitution of Brazil: Article 21; XXIII; a V-Brazil. Acessado em 06/10/2010.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Sites oficiais

Sites científicos