Uananas

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Mulheres uananas pescando no rio Timbó, 1933.
Uanana: dança das máscaras, 1933.

Os Uananas ou Wanana (Guananas, na Colômbia; Cotiria, na autodenominação) são um grupo indígena que habita o Noroeste do estado brasileiro do Amazonas, mais precisamente a Área Indígena Alto Rio Negro, Médio Rio Negro I e Yauareté I - onde hoje se situa o município de São Gabriel da Cachoeira, na fronteira com a Colômbia,[1] país que também possui populações desta etnia.

Dentre os povos vizinhos dos uanana estão os baníuas,[2] tariana, tucanos e baré.[1]

Denominações[editar | editar código-fonte]

Em português são chamados uananas ou uananos, wanâna; em espanhol são os guanamas ou guanamos; os tucanos os chamam de de ocoticana, os cubeos de ocodisua e os tarianas de panumapa; já entre si eles se chamam cotiria, cótedia ou cótiria.[3]

Histórico[editar | editar código-fonte]

Os uananas foram deslocados de seu habitat original no alto Querari pelos cubeuas; há alguns séculos ocupam com suas malocas áreas em Iutica e em Caruru, uma cachoeira às margens do rio Uaupés.[4]

A presença portuguesa teve início em 1730, quando soldados foram enviados à região com o fim de definir as fronteiras; até 1750 escravizaram ali cerca de vinte mil indígenas e até 1800 estabeleceram uma base militar na foz do Uaupés no rio Negro com incursões para a captura de nativos para trabalho na roça e para assegurar as fronteiras e, em 1782 e no ano seguinte muitos deles fugiram daqueles assentamentos.[3]

Com apoio governamental na segunda metade do século XIX frades franciscanos estabeleceram uma missão em Taracuá e em Ipanoré, onde passaram a ridicularizar os pajés, expuseram às mulheres as flautas sagradas e outras ações que fizeram os nativos se revoltarem em 1888 e os expulsarem, retomando as antigas moradas.[3]

Também os comerciantes infligiam aos nativos a escravidão por dívidas, levavam suas mulheres e filhos como pagamentos; em 1914 Pio X designou os salesianos para a região, após o fracasso dos franciscanos, e eles se estabeleceram em 1929, a cerca de 60 km do território uanana, estabelecendo internatos e sendo intolerantes com a cultura e a língua dos povos locais - em ações que só findaram quando, em 1987, o governo cortou-lhes as verbas; no começo do século XX o cultivo da borracha proporcionou algum rendimento aos habitantes.[3]

O território indígena do Alto Rio Negro foi demarcado em 1996.[3]

População[editar | editar código-fonte]

No Brasil este povo contaria com cerca de 500 indivíduos, morando em aldeias com 30 a 160 habitantes e separadas entre si entre 3 a 24 km, em dez assentamentos; já na Colômbia a população seria o triplo da brasileira, o que daria um total de 1500 a 1600 uananas.[3]

Cultura e costumes[editar | editar código-fonte]

Os Uananas realizam a dança chamada Acangatara, coletiva, em que os homens e cunhãs enlaçados, todos juntos formam uma serpentina humana que gira ritmadamente.[5]

Para eles as mulheres são seres inferiores, e devem trabalhar, mesmo em adiantado estado de gravidez.[4]

Hoje estima-se que 5% da população seja alfabetizada em seu próprio idioma e de 25 a 50% em português.[3] A língua que falam é o tucano oriental, com variantes dialetais entre os que moram rio acima dos de rio abaixo.[3] Com o advento das estradas e o comércio as tradições e costumes estão sendo perdidos.[3]

Lenda dos Taria[editar | editar código-fonte]

Fruto do trabalho de pesquisa do conde italiano Ermanno Stradelli, no final do século XIX, tem-se o relato da lenda dos Taria, um povo que travara guerra contra os Arara, que eram aliados do Uananas; estes, procurando vingar-se, atacaram a aldeia do chefe Bopé que, para se proteger, erguera paliçadas e acabaram dizimando a todos os guerreiros uananas, menos um; este, refugiando-se na mata, havia criado uma anta e, voltando para casa, caiu de fome - mas a seu pedido a anta passou a lhe trazer beijus; as mulheres, preocupadas com a demora dos maridos, viram o animal e resolveram segui-lo até encontrarem o guerreiro remanescente, que lhes contou o ocorrido.[6]

As mulheres uananas então resolveram se vingar dos Taria e seu chefe Bopé; as mulheres de outras tribos se uniram a elas, e levaram seus maridos - mas havia espiões entre eles, e o chefe inimigo as esperou com armadilhas; novamente foram dizimados e os poucos sobreviventes refugiaram-se nas matas.[6]

Choques com a cultura branca[editar | editar código-fonte]

Já no começo do século XX eram relatados casos de comerciantes, sobretudo colombianos, que introduziam e comercializavam aguardente entre os uanana; interesses entre brasileiros e colombianos poderiam se unir para a exploração dos índios e relatórios instavam para a adoção de medidas protetivas.[7]

Em 2013 a Polícia Federal deflagrou a Operação Cunhatã, com o fim de coibir a exploração sexual infantil de meninas indígenas de várias etnias em São Gabriel da Cacheoeira, dentre as quais meninas uanana - uma situação que vinha sendo denunciada por entidades católicas desde 1984 por uma missionária italiana, que teve de ser retirada do lugar para sua proteção.[1]

Referências

  1. a b c Folhapress (22 de maio de 2013). «PF prende nove acusados de explorar sexualmente meninas índias no Amazonas». Gazeta do Povo. Consultado em 26 de março de 2016 
  2. Audrin Moura de Figueiredo (2010). «O índio como metáfora». História, Historiadores, Historiografia. Consultado em 26 de março de 2016 
  3. a b c d e f g h i David J. Phillips (2014). «Wanano - Kotiria». Índios do Brasil. Consultado em 26 de março de 2016 
  4. a b José de Lima Figueiredo, Cândido Mariano da Silva Rondon (1939). Índios do Brasil (coleção Brasiliana). [S.l.]: Companhia Editoria Nacional. p. 348 
  5. Mário de Andrade (1989). Dicionário musical brasileiro. [S.l.]: Ministério da Cultura. p. Página 7 
  6. a b Oswaldo M. Ravagnani (1993). «Lenda dos Taria (tradução)». Perspectivas: Revista de Ciências. Consultado em 26 de março de 2016 
  7. Fernando Sergio Dumas dos Santos (Dezembro 2007). «O povo das águas pretas: o caboclo amazônico do rio Negro». Hist. cienc. saúde - Manguinhos vol.14. Consultado em 26 de março de 2016