Programa Shuttle-Mir

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Insígnia oficial do programa conjunto Mir-Shuttle.

Programa Shuttle-Mir ou Programa Mir-Shuttle (em inglês: Shuttle-Mir Program ou International Space Station Phase One; em russo: Программа Мир — Шаттл) foi um programa espacial conjunto entre a Rússia e os Estados Unidos que teve o objetivo de realizar missões do ônibus espacial à estação orbital russa Mir e transportar cosmonautas russos nos ônibus espaciais e astronautas norte-americanos nas naves Soyuz, para participarem de temporadas de longa duração em órbita terrestre.

O Programa, também chamado por vezes de 'Fase Um', pretendia permitir aos Estados Unidos aprender com os russos sobre vôos de longa duração e aumentar o espírito de cooperação entre as agências espaciais das duas superpotências, a NASA e a Roscosmos. Ele prepararia o caminho para a 'Fase Dois', especificamente, a futura construção da Estação Espacial Internacional (ISS).[1]

Anunciado em 1993 e com sua primeira missão realizada em 1994, o Programa teve a duração de quatro anos, até 1998, início da construção da ISS. Nele foram realizados onze missões dos ônibus espaciais, um vôo conjunto com uma nave Soyuz e cerca de mil dias passados no espaço por astronautas norte-americanos na Mir. Em seus quatro anos de existência, muitos primeiros foram conquistados no espaço pelas duas nações, entre eles o primeiro astronauta a fazer 'caminhadas espaciais' em trajes russos e o primeiro norte-americano a subir ao espaço numa nave Soyuz.[1]

Houve, entretanto, alguns percalços, causados particularmente pela segurança na estação Mir após um incêndio e uma colisão a bordo, por problemas financeiros no programa espacial russo e receio dos astronautas com relação a atitudes dos administradores do Programa. De qualquer maneira, uma grande quantidade de conhecimento científico, de experiência para a construção de estações e de conhecimento para trabalhar conjuntamente no espaço em objetivos futuros foi assimilado durante as operações combinadas, permitindo que a construção da ISS fosse realizada de maneira bem mais tranquila e eficiente do que se imaginava anteriormente.

O Programa[editar | editar código-fonte]

Em junho de 1992, os presidentes George H. W. Bush e Boris Yeltsin concordaram em juntar esforços na exploração espacial, assinando um "Acordo entre os Estados Unidos da América e a Federação Russa pela cooperação e uso do espaço exterior para propósitos pacíficos". Este acordo criava um breve programa espacial conjunto, durante o qual um astronauta norte-americano ficaria a bordo da estação russa Mir e dois cosmonautas russos voariam nos ônibus espaciais. Em setembro de 1993, porém, o vice-presidente do então governo Clinton, Al Gore, e o primeiro-ministro da Rússia, Viktor Chernomyrdin, anunciaram planos para a construção conjunta de uma nova estação espacial, que viria a ser chamada de Estação Espacial Internacional. Eles também concordaram que, como preparação para este novo projeto, nos anos seguintes os Estados Unidos se envolveriam a fundo no programa Mir, sob o nome de código 'Fase Um', sendo a construção em si da ISS a 'Fase Dois'.[1]

Durante o andamento do Programa, onze missões do ônibus espacial voaram até a Mir, fazendo trocas de participantes das tripulações permanentes, transportando um novo módulo de acoplamento e um novo conjunto de painéis solares, além de realizarem diversas experiências científicas a bordo da estação. Durante os anos do Programa, dois novos módulos foram também conectados à estrutura, sendo usados pelos norte-americanos como aposentos para seus astronautas e como laboratórios para implementar a qualidade e alcance das pesquisas. Estas missões permitiram à NASA e à Roscosmos aprender como trabalhar como parceiros no espaço e como minimizar os riscos para a construção de uma estação espacial em órbita. Além destes avanços científicos, o Programa serviu como um artifício político para o governo norte-americano, criando um canal diplomático para que a NASA pudesse dispor fundos para o combalido programa espacial russo. Isto permitiu que o governo russo mantivesse a Mir em operação, além de seu programa espacial como um todo, assegurando que a Rússia continuasse – e continua – com sua política amigável em relação aos Estados Unidos.[2] [3]

Os sete astronautas norte-americanos que participaram de estadias na estação russa Mir.

Além dos vôos propriamente ditos dos ônibus espaciais até a Mir, os Estados Unidos também tiveram sete 'acessórios' a bordo da estação, sete vôos de longa duração feitos por astronautas norte-americanos. Os sete astronautas que tomaram parte nas missões foram Norman Thagard, Shannon Lucid, John Blaha, Jerry Linenger, Michael Foale, David Wolf e Andrew Thomas, cada um deles indo em turnos à Cidade das Estrelas, perto de Moscou, para fazer o treinamento em vários aspectos operacionais da Mir e das naves Soyuz, usadas para o transporte de ida e volta à estação.[4]

Os astronautas também receberam treinamento para as caminhadas espaciais realizadas fora da nave e aulas de russo, a serem usados em suas próprias missões na comunicação com os cosmonautas a bordo da estação e com o controle de terra. Durante suas missões, eles realizaram diversos experimentos, entre eles o crescimento de cristais e de cabelos, e tiraram centenas de fotografias da Terra. Também ajudaram nos reparos e na manutenção da estação, enfrentando diversos incidentes como incêndios, queda de eletricidade, colisões, rotações incontroláveis e vazamentos tóxicos.[5]

Mir[editar | editar código-fonte]

A Mir vista da Discovery em junho de 1998, na última missão do Programa Shuttle-Mir, STS-91.

A Mir foi a primeira estação orbital modular - montada a partir da conexão de módulos - do mundo, construída entre 1986 e 1996. Foi também a primeira estação habitada de pesquisa, consistente e de longa duração da Humanidade, em atividade por quase dez anos. O objetivo de sua construção era proporcionar um grande e habitado laboratório de pesquisas no espaço e, contando com colaborações diferentes, incluindo a 'Fase Um' do Programa Shuttle-Mir, tornou-se internacionalmente acessível a cosmonautas e astronautas de dezenas de países. A estação existiu até o dia 21 de março de 2001, quando foi deliberadamente retirada de órbita e caiu na Terra, sendo volatilizada durante a reentrada na atmosfera.

A estação foi baseada na Salyut, uma série de sete pequenas estações espaciais lançadas ao espaço pela União Soviética a partir de 1971, e mantida em funcionamento por expedições das naves tripuladas Soyuz e de naves-cargueiro Progress. Os ônibus espaciais norte-americanos visitantes da estação, usavam um engate para acoplagem semelhante ao construído pelos soviéticos para o Buran, o ônibus espacial russo que nunca foi ao espaço, montado num suporte de aço originalmente construído para a estação espacial Freedom, projeto da NASA nunca concretizado e transformado no projeto da ISS.[6]

Com o ônibus espacial acoplado à Mir, os aumentos temporários de espaço para trabalho, tarefas individuais e descanso, transformavam o complexo no que era a maior espaçonave já existente na história da era espacial, com uma massa combinada de 250 toneladas métricas.[7]

Ônibus espacial[editar | editar código-fonte]

O conjunto lançador do ônibus espacial visto de cima, na plataforma de lançamento

O ônibus espacial (space shuttle) da NASA, oficialmente chamado de Sistema de Transporte Espacial (Space Transportation System - STS) é o atual veículo lançador de missões tripuladas do governo dos Estados Unidos. Um total de cinco deles foi construído – Columbia, Challenger, Atlantis, Discovery e Endeavour – e os três últimos continuam em atividade.

A nave em si, chamada de Orbitador, é lançada verticalmente, normalmente transportando entre cinco e sete astronautas – e planejada para transportar onze em caso de emergência – e cerca de 22 toneladas de carga, numa órbita terrestre baixa. Quando a missão se encerra, ele aciona seus próprios retrofoguetes de manobra para deixar a órbita e reentrar na atmosfera. Durante a descida e pouso, ele atua como um planador, e faz uma aterrisagem sem motores ligados.[8]

O ônibus espacial foi a primeira espaçonave desenhada para uma reutilização parcial. Ele transporta grandes volumes de carga para várias órbitas e durante os programas Shuttle-Mir e ISS, providenciou a rotatividade de várias tripulações habitantes das estações e transportou vários tipos de suprimentos, módulos estruturais e peças de equipamentos para as estações. Cada um deles foi planejado para uma vida útil operacional de dez anos ou cem missões ao espaço.[8]

Durante a 'Fase Um' do Programa, a Mir foi visitada por três destas naves - Atlantis, Endeavour e Discovery - com a Atlantis voando sete missões consecutivas até ela entre 1995 e 1997. A Columbia, a mais antiga e pesada da frota, destruída em 2003, não era capaz de operações na inclinação orbital padrão da Mir (51.6º) e não era equipada com o cilindro pressurizado que permite a passagem de pessoas e objetos entre a estação e a nave, possibilitando a acoplagem.[9] [10] [11]

Cronologia[editar | editar código-fonte]

A nova cooperação começa (1994)[editar | editar código-fonte]

O início do Programa Shuttle-Mir: a STS-60 Discovery é lançada ao encontro da Mir.

A 'Fase Um' começa finalmente em 3 de fevereiro de 1994, com o lançamento de Cabo Kennedy da nave Discovery, missão STS-60, 18ª missão espacial da nave e primeira ao encontro da Mir. A missão de oito dias de duração teve pela primeira vez a presença de um russo a bordo de um ônibus espacial, o cosmonauta Sergei Krikalev, e marcou o início de uma nova era espacial entre os dois países, 37 anos após o início da corrida espacial.[12]

Como parte de um tratado internacional, a missão foi o segundo vôo do módulo pressurizado habitacional Spacehab e levou como carga principal o Wake Shield Facility, criado para gerar novos filmes semicondutores para eletrônica avançada, colocado na ponta do braço robótico da nave durante o percurso da missão.

Durante a viagem, os astronautas também levaram a cabo várias experiências no Spacehab, colocado no enorme compartimento de carga da nave e participaram de um áudio e vídeo bidirecional ao vivo entre eles e os cosmonautas a bordo da Mir, Valeri Polyakov, Viktor Afanasyev e Yuri Usachev.[9] [13] [14]

Os Estados Unidos chegam à Mir (1995)[editar | editar código-fonte]

O ano de 1995 começou com o lançamento em fevereiro da STS-63, a segunda missão do Programa e o primeiro vôo de um ônibus espacial com uma mulher como piloto, a astronauta Eileen Collins, levando a bordo o cosmonauta Vladimir Titov. Nesta missão de oito dias, a nave Discovery realizou o primeiro encontro entre o ônibus e a estação, a um distância mínima de onze metros, e Collins fez um vôo em volta da Mir. Concebida como um ensaio para a primeira acoplagem real entre as duas naves, que seria feita pela STS-71, foram testadas várias técnicas e equipamentos que seriam usados nas missões de acoplagem seguintes.[15] [16]

Módulo russo de acoplagem instalado na área de carga da Atlantis, em posição para conexão com a Mir.

Cerca de um mês após a missão da Discovery, em 14 de março pela primeira vez um norte-americano foi ao espaço numa nave russa, com o lançamento de Baikonur, da Soyuz TM-21 com o astronauta Norman Thagard fazendo parte da tripulação. Com ele subiram os cosmonautas Vladimir Dezhurov e Gennady Strekalov que fizeram parte da Mir-18, passando 115 dias na estação, na primeira tripulação permanente binacional.[4] Durante a expedição, o módulo científico Spektr - que serviu de espaço de trabalho e descanso para os norte-americanos - foi lançado também de Baikonur num foguete Proton e acoplou-se à estação levando 1500 libras de material de pesquisa dos Estados Unidos e outras nações. A tripulação voltou à Terra em 7 de julho na nave Atlantis, a missão STS-71 que foi a primeira de um ônibus espacial a realizar uma acoplagem com a estação russa.[17]

Lançada em 27 de junho, o principal objetivo da STS-71 era fazer a primeira acoplagem de um ônibus espacial com a Mir, o primeiro encontro físico entre uma nave norte-americana e uma russa desde o projeto Apollo-Soyuz, ocorrido em 1975.[18]

Após a acoplagem em 29 de junho, a Atlantis deixou na estação os cosmonautas Anatoly Solovyev e Nikolai Budarin, e as tripulações realizaram investigações científicas conjuntas no módulo Spacelab, fizeram um recarregamento de suprimentos técnicos e recolheram os três tripulantes anteriores da estação para trazê-los de volta à Terra.[19]

O último vôo do ônibus espacial em 1995 foi a missão STS-74, mais um vôo da Atlantis, lançado em 12 de novembro, e que instalou um novo módulo de acoplagem na Mir, de fabricação russa, junto com um novo par de painéis solares e novos hardwares com tecnologia de ponta para a estação.[20]

O Módulo de Acoplagem da Mir foi desenhado para proporcionar um maior espaço de aproximação para os ônibus espaciais, prevenindo colisões com os painéis solares da estação durante a manobra de aproximação para acoplagem. Durante a missão, cerca de mil libras de água foram transferidas para a Mir e amostras de científicas de urina, sangue e saliva foram levadas para a Atlantis e retornadas à Terra.[21] [22]

Priroda, incêndio e colisão (1996-1997)[editar | editar código-fonte]

A Atlantis acoplada à Mir durante a missão STS-81: são visíveis o compartimento da tripulação, o nariz e parte da área de carga.

Em 1996, começou a participação efetiva dos Estados Unidos nas tripulações permanentes da Mir, com o lançamento em março da STS-76 Atlantis, que levava a astronauta Shannon Lucid à órbita.[23]

Lucid tornou-se a primeira mulher norte-americana a viver numa estação espacial e, após uma extensão de seis semanas no seu tempo inicial previsto de estadia, causado por problemas no foguete da missão do ônibus espacial que ia buscá-la, seus 188 dias no espaço foram um recorde de permanência espacial de qualquer astronauta norte-americano. Durante sua permanência a bordo, o módulo Priroda foi instalado na estação, e Lucid o usou, junto com o Spektr, para realizar cerca de 28 experiências científicas e como alojamento.[24]

A temporada no espaço de Lucid terminou com a chegada da missão STS-79, novamente com a Atlantis, em setembro, a primeira missão do ônibus espacial a transportar um Spacehab duplo. Além disso, mais de 4 mil libras de suprimentos foram transferidos, incluindo água gerada pelas células combustível da Atlantis e experimentos com semicondutores, estudo da cartilagem e outros estudos biológicos foram realizados; cerca de 2 mil libras de amostras de experiências foram transferidas de volta da Mir para a Atlantis, fazendo com que o total de 6 mil libras de transferência de carga fosse a maior até aquele momento no espaço.[25]

Este quarto encontro viu o astronauta John Blaha ser transferido para a Mir assumindo seu lugar como astronauta-residente, com sua estadia servindo para a implementação de várias melhorias nas operações da estação, incluindo comunicações de rádio amador. Durante seu turno a bordo da Mir, aconteceram duas 'caminhadas espaciais' para remover conectores de potência de um painel solar com doze anos de fabricação e reconectá-los em painéis mais modernos e eficientes entregues recentemente. No total, Blaha passou quatro meses com os cosmonautas russos da Mir fazendo pesquisas em biologia, mecânica dos fluidos e ciência dos materiais, antes de retornar à Terra em janeiro de 1997.[26]

O ano de 1997 tornou-se um ano interessante para o programa, começando pela primeira missão do ano, a STS-81 da Atlantis, que fez a troca de Blaha por Jerry Linenger, após 118 dias deste na estação. No curso desta missão, a Atlantis entregou suprimentos na Mir e trouxe de volta as primeira plantas a cumprir um ciclo inteiro de vida no espaço, pés de trigo plantados por Shannon Lucid. A tripulação da STS-81 também testou um novo sistema de estabilização e isolamento de vibrações do ônibus espacial, a ser instalado no módulo Zvezda da Estação Espacial Internacional. Após a separação das duas naves, a Atlantis fez um último vôo em volta da Mir, deixando nela o astronauta Linenger, para a que seria a mais acidentada missão do programa até aquele momento.[27]

Durante sua permanência a bordo, Linenger tornou-se o primeiro astronauta americano a fazer uma caminhada espacial partindo de uma nave não-americana usando um macacão espacial de fabricação russa, realizando o primeiro teste do Orlan junto com o cosmonauta Vasili Tsibliyev. Todos os três integrantes desta tripulação realizaram um vôo em volta da estação na nave Soyuz acoplada, primeiro desacoplando de uma das pontas de atracação e então voando manualmente e acoplando num local diferente. Isto fez dele o primeiro astronauta da NASA a desacoplar de uma estação espacial a partir de duas naves diferentes, a Soyuz e o ônibus espacial.

Um painel queimado na Mir após o incêndio a bordo.

A estadia entretanto não correu tranquilamente, com Linenger, Tsiblyiev e Aleksandr Lazutkin, o outro cosmonauta, enfrentando diversas dificuldades a bordo, incluindo o maior incêndio já ocorrido numa nave orbital - causado por um aparelho reserva gerador de oxigênio - falhas em vários sistemas eletrônicos a bordo, uma quase colisão com uma nave-cargueira de suprimentos Progress aportando na estação durante um teste de acoplagem manual a longa distância e uma perda total de força elétrica o que resultou numa lenta e incontrolável 'queda' pelo espaço.[4] [28]

Em maio, Linenger foi substituído pelo anglo-americano Michael Foale, que chegou na missão STS-84 junto com a especialista de missão russa Yelena Kondakova. A tripulação transferiu cerca de 250 itens entre as duas espaçonaves, entre água, amostras de experiências, suprimentos e novos equipamentos. Um dos primeiros itens transferidos foi uma nova unidade geradora de oxigênio, especialmente importante depois do incêndio ocorrido em fevereiro. Ademais, após o desacoplamento em 21 de maio, a tripulação parou a Atlantis três vezes no espaço para coletar dados de um sensor europeu criado para futuros encontros do Veículo de Transferência Automatizado da Agência Espacial Européia (ESA) com a ISS.

A estadia de Foale correu normalmente até 25 de junho, quando, durante um segundo teste do sistema manual de acoplagem das naves-cargueiro não-tripuladas Progress com a Mir, uma delas colidiu com os painéis solares do módulo Spektr e bateu na proteção externa do módulo, fazendo um buraco em sua estrutura e causando uma despressurização na estação inteira, a primeira despressurização em órbita na história dos vôos espaciais.[4] [28]

Foram necessárias rápidas medidas de emergência da tripulação, cortando os cabos que ligavam a estrutura principal ao módulo e fechando a escotilha do Spektr, para impedir que eles abandonassem a Mir na nave salva-vidas Soyuz. Seus rápidos esforços conseguiram restabelecer a pressão do ar dentro da estação, apesar do interior do Spektre, com dezenas de experimentos de Foale nele, ter se transformado num vácuo. Felizmente, comida, a água e outros suprimentos vitais para os astronautas estavam estocados em outros módulos.

Detalhe do painel solar da Mir danificado, após a colisão da nave não-tripulada Progress M-34 com a estação.

Num esforço para restaurar alguma força e sistemas pedidos após a batida, o novo comandante da Mir, Anatoly Solovyev, e o engenheiro de vôo Pavel Vinogradov, empreenderam uma operação de salvamento arriscada dias depois, entrando no módulo vazio com roupas espaciais e inspecionando as condições do hardware e dos cabos através de uma escotilha especial que ligava o módulo ao resto da estação. Após esta primeira investigação, Foale e Solovyev passaram seis horas fora da estação inspecionando os danos da estrutura externa do Spektr.[5]

Depois destes desastres, o Congresso dos Estados Unidos e a NASA consideraram fazer com que o país abandonasse o programa, preocupados com a segurança dos astronautas,[29] mas o administrador da agência espacial, Daniel Goldin, decidiu continuar na expedição, enviando um novo vôo, o STS-86, que levou até a Mir um novo astronauta norte-americano, David Wolf.[30]

A missão STS-86 foi a sétima do programa e a última de 1997. Durante a estadia da Atlantis, os tripulantes Vladimir Titov e Scott Parazynski realizaram as primeiras atividades extraveiculares conjuntas ente astronautas e cosmonautas, e a primeira em que um russo usou um traje espacial norte-americano. Durante a ‘caminhada espacial’ de cinco horas, a dupla instalou um painel solar no módulo de acoplagem, para uma futura tentativa de conserto dos danos no Spektr. A missão trouxe Foale de volta à Terra junto com várias amostras de experimentos e deixou Wolf na estação para uma permanência de 128 dias. Wolf havia sido previamente designado para tomar parte na última missão do programa, mas acabou sendo enviado nesta missão no lugar da astronauta Wendy Lawrence, que tornou-se inelegível para voar devido a mudanças nas exigências russas após a colisão ocorrida entre a Progress e a Mir. Estas novas exigências estabeleciam que todas as tripulações da Mir deveriam ser treinadas a estarem prontas para atividades extra-veiculares de emergência, mas não houve tempo para que um traje espacial russo – o usado na Mir – pudesse ser feito nas medidas dela a tempo do lançamento.[31]

O encerramento da ‘Fase Um’ (1998)[editar | editar código-fonte]

A Discovery pousa ao final da missão STS-91, encerrando o Programa Shuttle-Mir

O ano final do programa começou com o lançamento da Endeavour STS-89, que transportou até a Mir o cosmonauta Salizhan Sharipov e fez a troca entre David Wolf e Andrew Thomas, o astronauta escalado para ser o último tripulante norte-americano do programa.[32]

Esta última missão foi considerada a mais tranquila de toda a 'Fase Um' e nela Andrews realizou 27 pesquisas científicas na área da tecnologia avançada. Esta última estadia estabeleceu novas marcas espaciais para os americanos, que acumularam um total de 815 dias consecutivos no espaço desde a subida de Shannon Lucid em março de 1996, e um total geral de 907 dias, acrescentando-se a permanência pioneira de Norman Thagard, de ocupação norte-americana da Mir.[33]

Thomas finalmente voltou à Terra com o último dos vôos do Programa, a STS-91 da Discovery, em junho de 1998, trazendo as últimas experiências de longa duração feitas a bordo da Mir. Quando as escotilhas foram fechadas para o desacoplamento e as naves se separaram em 8 de junho, a última parte das operações conjuntas do programa Shuttle-Mir foram concluídas e a 'Fase Um' do Programa da Estação Espacial Internacional chegou ao fim.[34] [35]

Fases 'Dois' e 'Três': ISS (1998–2016)[editar | editar código-fonte]

O legado da Mir: os módulos-núcleo da ISS, 'Fase Dois' do Programa da Estação Espacial Internacional.

Com a aterrissagem da Discovery ao fim da missão STS-91, em 12 de junho de 1998, a 'Fase Um' do Programa chegou ao fim. Porém, as técnicas aprendidas e o equipamento desenvolvido durante os quatro anos dela, continuariam a ajudar no desenvolvimento da exploração espacial com o início da 'Fase Dois', em 20 de novembro de 1998. Naquele dia, os russos lançaram de Baikonur o módulo Zarya, o primeiro componente da ISS. Este primeiro módulo forneceu eletricidade, capacidade de estocagem de material, propulsão, e serviu como guia para a ISS durante os estágios iniciais de sua montagem, atuando como uma base funcional para a estação.[36]

Em fevereiro de 2008, a ISS consistia de oito módulos pressurizados interligados, três grandes painéis solares e uma larga estrutura principal, sendo a maior nave espacial já construída na história. A chegada do módulo-laboratório Destiny, em 2001, marcou o fim da 'Fase Dois' e o início da 'Fase Três', a montagem final, ainda em desenvolvimento.[37] A estação completa se constituirá de cinco laboratórios, com mais de mil metros cúbicos de volume pressurizado e uma massa de 400 mil quilogramas, e terá a tripulação permanente de seis membros, com quase duas vezes o tamanho das espaçonaves combinadas Shuttle-Mir.[38]

Estas fases foram planejadas para incrementar a cooperação internacional no espaço e as pesquisas científicas em gravidade zero, particularmente em relação a vôos espaciais de longa duração. Os resultados destas pesquisas serão de grande ajuda e proporcionarão informação considerável para as futuras missões de longa duração à Lua e a Marte.[39]

Em 23 de março de 2001, a Mir foi propositalmente retirada da órbita e trazida de volta à Terra, onde desintegrou-se na reentrada sobre o Oceano Pacífico, como previsto. Com isso, desde então, a Estação Espacial Internacional é a única estação orbital em volta do planeta. O legado da Mir está na ISS, trazendo para a atual fase do programa a colaboração de cinco agências espaciais diferentes e permitindo a elas que se preparem para seus próximos passos em direção ao espaço, à Lua, a Marte e além, no futuro.[39]

Controvérsias[editar | editar código-fonte]

Segurança e retorno científico[editar | editar código-fonte]

Durante seu decorrer, o programa recebeu muitas críticas com relação ao envelhecimento e defasagem tecnológica da Mir, principalmente depois do incêndio em seu interior e da colisão com a nave de suprimentos Progress em 1997.

O incêndio, causado por um equipamento reserva de geração de oxigênio, queimou entre noventa segundos e quatorze minutos de acordo com fontes diversas, e produziu grande quantidade de fumaça tóxica que encheram o interior da estação por cerca de quarenta e cinco minutos. Isto forçou a tripulação a usar respiradores, o que também provocou preocupações porque algumas das máscaras de oxigênio usadas pelos tripulantes a princípio, também apresentaram defeito. Outro motivo de alarme foi que os extintores de incêndio fixados nas paredes internas dos módulos não podiam ser removidos do lugar.[4] Além disso, o incêndio ocorreu quando as tripulações estavam sendo trocadas, havendo seis homens dentro da estação ao invés dos habituais três, com a fumaça e as chamas impedindo o acesso a uma das naves salva-vidas Soyuz. Se a evacuação fosse necessária, apenas metade dos homens poderia ter escapado. Um acidente similar havia ocorrido numa expedição anterior, mas este, porém, durou apenas alguns segundos.[5]

O astronauta Jerry Linenger usando uma máscara de oxigênio logo após o incêndio.

A colisão e a quase-colisão ocorridas em diferentes etapas do Programa apresentaram novos questionamentos sobre a segurança. As duas foram causadas por falhas no mesmo equipamento, o sistema manual de acoplagem, que encontrava-se em testes na ocasião. Estes testes foram feitos para avaliar o desempenho da acoplagem em longa-distância, de maneira a possibilitar aos russos, em dificuldades financeiras para manter seu programa espacial na época, remover o caro sistema Kurs de acoplagem automática das naves Progress. A imprensa, na época, usou estes acidentes com tecnologia não-testada como mostra das dificuldades de Mir.[4]

Os acidentes também provocaram o aumento das críticas com relação à confiança na estação. Projetada para durar cinco anos, a Mir chegou a operar por quinze anos. Durante o curso da 'Fase Um', a estação estava mostrando seu envelhecimento: quebras rotineiras de computadores, perda de energia, quedas da órbita programada e buracos nas tubulações eram motivos constantes de preocupação das tripulações. O suprimento de ar também veio a causar expectativas, devido ao mau funcionamento do sistema gerador de oxigênio da nave. Estas problemas causavam uma desconfiança geral das tripulações com o sistema de oxigenação da nave, causador do incêndio de 1997 e que continuou a ser um problema a bordo da ISS, que usa o mesmo sistema com parte do equipamento de suporte à vida da estação.

Outro ponto de controvérsia do programa foi a escala de seu retorno científico, principalmente após a perda do módulo Spektr. Astronautas, diretores do programa e a mídia em geral, acreditavam que os benefícios eram suplantados pelos riscos associados a eles, principalmente considerando o fato de que a maioria das experiências norte-americanas estavam no módulo destruído. Assim, uma grande quantidade de pesquisa estava inacessível, reduzindo de maneira considerável a possibilidade de adquirir conhecimento de ponta na estação, tornado o programa obsoleto.[40]

As questões de segurança fizeram com que a NASA reconsiderasse o futuro do programa, e quando finalmente decidiu levá-lo adiante, acabou sendo alvo de grandes críticas da imprensa pela decisão.[41]

Atitudes[editar | editar código-fonte]

As atitudes tanto da direção da NASA quanto da Roscosmos durante a 'Fase Um' preocuparam os astronautas e cosmonautas. Por causa da situação financeira da Rússia, muitos dos integrantes dos controles de missão achavam que a continuação do programa estava sendo visto como mais importante que a as vidas dos envolvidos neles, de uma maneira diferente ao estilo normal dos norte-americanos conduzirem suas próprias missões. Cosmonautas viam seus planos de missões do dia sendo feitos em cima da hora, acoplagens que deveriam ser feitas pelos pilotos dos ônibus espaciais sendo feitas de maneira automática e cosmonautas tendo seus salários suspensos após a volta para a Terra, caso tivessem cometido algum erro durante a missão.

Os norte-americanos já haviam descoberto, desde o tempo das missões Skylab, que esta não era a maneira mais produtiva de trabalhar. Os russos, entretanto, não conseguiam cobrir os custos nem fechar os orçamentos e muitos sentiam que parte importante do tempo dedicado ao trabalho era perdida por causa destes fatos.[41]

Além disso, o astronauta Linegen sentiu que após os acidentes de 1997, as autoridades russas tentaram encobrir os fatos, minimizando-os, num esforço para diminuir sua importância, temerosos de que os americanos pudessem desistir da parceria espacial. Grande parte deste encobrimento vinha do fato de que parecia que os russos não consideravam exatamente que os astronautas da NASA fossem exatamente parceiros, mas 'convidados' na Mir. A NASA não soube dos acidentes por várias horas depois deles terem ocorrido e foi assim mantida à margem das decisões no caso. Ela viriam a se envolver mais profundamente apenas quando a culpa tentava ser colocada exclusivamente nos ombros do cosmonauta Vasili Tsibliyev, comandante daquela missão, pela agência espacial russa, que recuou das acusações devido às pressões da colega norte-americana.[5]

Contudo, a NASA também não saiu sem manchas da 'Fase Um'. Em vários momentos do programa, executivos, técnicos e funcionários viram-se limitados em termos de recursos e força de trabalho, principalmente quando a 'Fase Dois' começou a ser ativada. Uma área importante de desgastes foi a do diretor de operações de tripulações de vôo, George Abbey, que designava os integrantes das missões. Ele era desprezado por muitos astronautas na agência devido a seus métodos de seleção - muitos foram impedidos de voar por terem em algum momento o aborrecido de alguma maneira. Os astronautas achavam que ele impediu diversos deles de voarem nas posições para as quais estavam melhor preparados e que o programa, como um todo, sofreu por causa disso.[42]

Finanças[editar | editar código-fonte]

Outra área de grande controvérsia com relação ao Programa foi a situação financeira da agência espacial russa e do próprio programa espacial do país. Desde o desmembramento da União Soviética alguns anos antes, a economia russa foi lentamente entrando em colapso, com os recursos destinados ao programa espacial sendo reduzidos em até 80%.

Antes e depois da 'Fase Um', boa parte dos recursos da Roscosmos veio através de vôos de astronautas europeus e de outros continentes, mediante acordo financeiro com seus países, com uma das emissoras de televisão do Japão pagando 9,5 milhões dólares para ter um de seus repórteres treinado na Rússia e participando de um vôo à Mir.[4]

No começo da 'Fase Um', a situação ficou tão delicada que cosmonautas tiveram suas missões alongadas para que lançamentos pudessem ser retardados por causa de seus altos custos, os seis vôos anuais das naves não-tripuladas de suprimentos Progress foram reduzidos a três e foi aventada a possibilidade de que a própria Mir pudesse ser vendida por 500 milhões dólares.[4]

Críticos clamavam que a única coisa que mantinha o programa espacial russo vivo era o contrato de 325 milhões dólares com a NASA e que só os ônibus espaciais estavam mantendo a Mir em órbita. Astronautas dos Estados Unidos treinando na Cidade das Estrelas certamente tiveram esta impressão, com a NASA tendo que pagar somas consideráveis por manuais de treinamento e equipamento.[5] O problema se tornou mais grave quando um programa de televisão da rede ABC denunciou que havia grandes possibilidades de que parte dos fundos americanos estivessem sendo desviados por dirigentes russos, para construir novas casas para cosmonautas na área de Moscou ou em outros lugares onde houvesse projetos de construção feitos pela Máfia Russa. O então administrador da NASA, Daniel Goldin, foi convidado a ir ao programa defender as construções e recusou-se a comentar o caso, mas um oficial do departamento de relações externas da agência espacial foi citado como autor da declaração: 'O que os russos fazem com o dinheiro deles não é nosso problema'.[43]

Missões[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c Dismukes, Kim (4 de abril de 2004). Shuttle-Mir History/Background/How "Phase 1" Started NASA.
  2. Dismukes, Kim (4 de abril de 2004). Shuttle-Mir History/Welcome/Goals NASA.
  3. "[1]".
  4. a b c d e f g h Burrough, Bryan. Dragonfly: NASA and the Crisis Aboard Mir. London, UK: Fourth Estate Ltd., 7 de janeiro de 1998. ISBN 1-84115-087-8.
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Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]