Ariranha

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Ariranha no Parque do Leste, em Caracas, na Venezuela

Ariranha no Parque do Leste, em Caracas, na Venezuela
Estado de conservação
Status iucn3.1 EN pt.svg
Em perigo (IUCN 3.1) [1]
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Carnivora
Família: Mustelidae
Subfamília: Lutrinae
Género: Pteronura
Gray, 1837
Espécie: P. brasiliensis
Nome binomial
Pteronura brasiliensis
(Gmelin, 1788)
Distribuição geográfica
Giant Otter area.png

A ariranha (Pteronura brasiliensis), também conhecida como onça-d'água[2], lontra-gigante e lobo-do-rio, é um mamífero mustelídeo, característico do Pantanal e da bacia do Rio Amazonas, na América do Sul.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

"Ariranha" provém do termo tupi-guarani ari'raña que significa "onça d'água".[2] No espanhol são usados ocasionalmente "lobo do rio" (lobo de río) e cachorro d'água (perro de agua), e podem ter sido mais comuns nos relatos de exploradores espanhóis nos séculos XIX e início do XX.[3] Todos os três nomes são usados com variações regionais, junto com lontra-gigante (em português) e nutria-gigante (em espanhol). No povo Achuar são conhecidas como wankanim[4], e entre os Sanumá como hadami.[5][6]. O nome do gênero "Pteronura" deriva do grego antigo pteron/πτερον (pena ou asa) e ura/ουρά (cauda)[7], em referência a sua distinta cauda parecida com uma asa.[8]

Taxonomia[editar | editar código-fonte]

As lontras formam a subfamília Lutrinae dentro da família dos mustelídeos e a ariranha é a única espécie do gênero Pteronura. Duas subespécies são reconhecidas pelo canônico Mammal Species of the World, P. b. brasiliensis e P. b. paraguensis. Descrição incorreta da espécie levou a vários sinônimos (a última subespécie é frequentemente chamada P. b. paranensis na literatura).[9] P. b. brasiliensis ocorre na porção norte da distribuição da ariranha, incluindo o rio Amazonas e os sistemas fluviais das Guianas. Ao sul, P. b. paraguensis teve ocorrência sugerida no Paraguai, Uruguai, sul do Brasil e norte da Argentina,[10] embora possa estar extinta nos últimos três locais. A IUCN considera a presença na Argentina e Uruguai incerta.[1] Na Argentina, uma investigação mostrou remanescentes populacionais escassamente distribuídos. [11] P. b. paraguensis é supostamente menor e mais sociável, com dentição e morfologia craniana diferentes. Carter e Rosas, entretanto, rejeitaram a divisão subespecífica em 1997, observando que a classificação só foi validada uma vez, em 1968, e o espécime-tipo de P. b. paraguensis era muito similar a P. b. brasiliensis[12] Biólogo Nicole Duplaix chama a divisão de "valor duvidoso".[13]

Um gênero extinto, Satherium, acredita-se ser o ancestral da espécie, tendo migrado do Novo Mundo durante o Plioceno ou início do Pleistoceno.[8] A ariranha divide o continente sul-americano com três dos quatro membros do gênero 'Lontra: a lontra-neotropical, a Lontra provocax e a Lontra felina.[14] Parece ter evoluído de forma independente de Lontra na América do Sul, apesar da sobreposição. A Lutrogale perspicillata da Ásia pode ser seu parente mais próximo: comportamento, vocalizações e morfologia craniana similares foram observadas.[8] Ambas espécies também apresentam forte laço entre casais e empenho em criar os filhotes.[15]

Características[editar | editar código-fonte]

A ariranha é a maior espécie da subfamília Lutrinae (as lontras) e pode chegar a medir cerca de 1,80 metros de comprimento, dos quais 65 compõem a cauda. Os machos são geralmente mais pesados que as fêmeas e pesam até 26 kg. A ariranha tem olhos relativamente grandes, orelhas pequenas e arredondadas, patas curtas e espessas e cauda comprida e achatada. Os dedos das patas estão unidos por membranas interdigitais que facilitam a natação. A pelagem é espessa, com textura aveludada e cor escura, excepto na zona da garganta onde apresentam uma mancha branca.

É uma espécie em perigo e a principal ameaça à sua sobrevivência é o desmatamento e destruição do seu habitat. A poluição dos rios, principalmente junto de explorações mineiras, causam vítimas entre as lontras que se alimentam de peixe contaminado por metais, que se acumulam nos peixes e, mais intensamente ainda, nas ariranhas, que estão no topo da cadeia alimentar. Entre os metais, o que mais frequentemente contamina animais é o mercúrio, usado na extração de ouro. Há também algumas perdas devidas à caça furtiva por causa da pele, caça esta que foi mais intensa no passado.

Características[editar | editar código-fonte]

A ariranha é claramente distinguível das demais lontras pelas características morfológicas e comportamentais. Ela é o maior membro da família Mustelidae em comprimento, sendo a lontra-marinha a maior em peso. Os machos possuem de 1,5 a 1,8 metros de comprimento e as fêmeas, de 1,5 a 1,7 metros. O peso varia de 32 a 45,3 quilogramas para machos e de 22 a 26 kg para fêmeas.

Alimentação[editar | editar código-fonte]

A ariranha vive e caça em grupos que podem chegar aos dez indivíduos e alimenta-se de peixes, principalmente de caracídeos como a piranha e a traíra. Ingere-os sempre com a cabeça fora d'água, frequentemente nadando pitorescamente para trás. Em condições de escassez, os grupos caçam pequenos jacarés e cobras, que podem inclusive ser pequenas sucuris. No seu habitat, as ariranhas adultas são predadores de topo da cadeia alimentar.

Distribuição[editar | editar código-fonte]

Uma ariranha selvagem no Parque Estadual do Cantão

Originalmente, a espécie ocorria em quase todos os rios tropicais e subtropicais da América do Sul. Atualmente, encontra-se extinta em 80% de sua distribuição original. Populações remanescentes ocorrem em áreas isoladas, principalmente no Brasil, no Peru e nas Guianas. No Brasil, os principais santuários conhecidos da ariranha são os rios Negro e Aquidauana, no Pantanal e o médio Rio Araguaia, em especial o Parque Estadual do Cantão, com seus 843 lagos.

Reprodução e ciclo de vida[editar | editar código-fonte]

Apenas a fêmea dominante do grupo se reproduz. A gestação dura 65-70 dias. No início da estação seca, a fêmea dá à luz a uma ninhada de um a cinco filhotes, que ficam na toca durante os primeiros três meses de vida. No Parque Estadual do Cantão, os filhotes emergem da toca nos meses de outubro e novembro, que são o auge da seca, quando os lagos estão mais rasos e os peixes estão mais concentrados. Todo o grupo ajuda a cuidar dos filhotes e a capturar peixes para alimenta-los enquanto não aprendem a caçar por si próprios.

As ariranhas permanecem no grupo em que nasceram pelo menos até atingir a maturidade sexual, entre os dois e os três anos de vida. Eventualmente deixam o grupo e saem em busca de um par para acasalar e formar seu próprio grupo. Em cativeiro, as ariranhas vivem até 17 anos. Os primeiros sucessos reprodutivos em cativeiro foram produzidos pela Fundação Zoológico de Brasília, onde os animais desfrutam de um ótimo recinto.

Ataques a humanos[editar | editar código-fonte]

Ataques registrados de ariranhas são raros. Porém, em 1977, um ataque resultou na morte do sargento Silvio Delmar Hollenbach no Jardim Zoológico de Brasília. O sargento atirou-se no recinto das ariranhas objetivando salvar um garoto que lá caíra e, apesar de ter concluído seu objetivo, acabou morrendo dias depois, em virtude de uma infecção generalizada causada pelas inúmeras mordidas. Ressalta-se, no entanto, que a vítima entrou no recinto dos animais, os quais se sentiram encurralados e, sem possibilidade de fuga, atacaram. Na natureza, as ariranhas selvagens não demonstram agressividade a seres humanos e, frequentemente, se aproximam de embarcações por curiosidade, sem nenhum incidente registrado de ataques.

Referências

  1. a b Duplaix, N., Waldemarin, H.F., Groenedijk, J., Munis, M., Valesco, M. & Botello, J.C. (2008). Pteronura brasiliensis (em Inglês). IUCN . Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN de . Página visitada em 21 de setembro de 2015.
  2. a b FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.163
  3. Duplaix 1980, p. 547
  4. Descola, Philippe (1994). In the Society of Nature: A Native Ecology in Amazonia Cambridge University Press [S.l.] pp. 280–282. ISBN 0-521-41103-3. 
  5. Ramos, Alcida Rita (1995). Sanuma Memories: Yanomami Ethnography in Times of Crisis University of Wisconsin Press [S.l.] p. 219. ISBN 0-299-14654-5. 
  6. (1981–1982) "sem título". Antrapológica 55–58 p. 107. Sociedad de Ciencias Naturales La Salle (Fundación La Salle de Ciencias Naturales).
  7. Liddell, Henry George e Robert Scott (1980). A Greek-English Lexicon (Abridged Edition) (Reino Unido: Oxford University Press). ISBN 0-19-910207-4. 
  8. a b c Koepfli, K.-P. (Dezembro de 1998). "Phylogenetic relationships of otters (Carnivora: Mustelidae) based on mitochondrial cytochrome b sequences". Journal of Zoology 246 (4): 401–416. DOI:10.1111/j.1469-7998.1998.tb00172.x.
  9. Wozencraft, W.C. (2005). Wilson, D.E.; Reeder, D.M. (eds.), : . Mammal Species of the World 3 ed. (Baltimore: Johns Hopkins University Press). p. 605. ISBN 978-0-8018-8221-0. OCLC 62265494. 
  10. «Pteronura brasiliensis (giant otter)». Carnivores. Food and agricultural organization of the United Nations. Arquivado desde o original em November 27, 2007. Consultado em 21 de setembro de 2015. 
  11. Chehebar, C.. (Fevereiro de 1991). "Searching for the Giant Otter in Northeastern Argentina". IUCN Otter Specialist Group 6 (1).
  12. Carter & Rosas 1998, p. 4
  13. Duplaix 1980, p. 511
  14. Foster-Turley, Pat; Macdonald, Sheila; Mason, Chris (eds.). (1990). "Otters: An Action Plan for their Conservation". IUCN/SSC Otter Specialist Group: Sections 2 and 12.
  15. Duplaix 1980, p. 614

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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