Nagorno-Karabakh

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Nagorno-Karabakh / Alto Karabakh
Լեռնային Ղարաբաղ (armênio)
Localização do Nagorno-Karabakh na região do Cáucaso
Localização do Nagorno-Karabakh na região do Cáucaso
Área
 - Total 11 000 km²
População (2013)
 - Total 158 000
    • Densidade 14,4/km2 
Fuso horário AZT (UTC+4)
 - Horário de verão AZT (UTC+5)

Nagorno-Karabakh, Alto Karabakh, Alto Carabaque[1] [2] ou Karabakh Montanhoso[3] (em armênio: Լեռնային Ղարաբաղ; azeri: Dağlıq Qarabağ) é uma região cercada de terra na Transcaucásia (sul do Cáucaso), situada entre o Karabakh (ou Baixo Karabakh) e a província de Siunique (Zangezur), ao longo de todas as montanhas do chamado Pequeno Cáucaso. A região é, em sua maior parte, montanhosa e coberta por florestas, e tem uma área de 8.223 quilômetros quadrados.

A região faz parte, de jure, do Azerbaijão, porém é governada de facto pela República do Nagorno-Karabakh, que não tem reconhecimento internacional. Desde o fim da Guerra do Nagorno-Karabakh, em 1994, representantes dos governos da Armênia e do Azerbaijão vêm mantendo negociações de paz, mediadas pelo Grupo de Minsk, acerca do status em disputa da região.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

Mamkan, rainha de Khachen e princesa de Baghk. Baixo-relevo, Mosteiro de Gandzasar, século XIII.

Нагорный (Nagornii) é uma palavra russa que significa "montanhoso". A palavra não é usada nem no armênio nem no azeri, porém foi utilizada como nome oficial da região durante o domínio da União Soviética, motivo pelo qual também passou a ser utilizado por estes idiomas. Os nomes mais comuns, no entanto, costumam traduzir o significado literal do russo Нагорный Карабах (transl. Nagorniy Karabah):

  • Armênio: Լեռնային Ղարաբաղ, transl. Lernayin Gharabagh
  • Azeri: Dağlıq Qarabağ ("Karabakh montanhoso") ou Yuxarı Qarabağ ("alto Karabakh")

Diversos outros idiomas também optam por traduzir o significado da expressão; em português, por exemplo, o território também é chamado de Karabakh Montanhoso ou Alto Karabakh, a exemplo do francês Haut-Karabakh.

A palavra Karabakh é tida em geral como turcomana e persa, e significa literalmente "jardim" negro".[4] [5] O nome aparece pela primeira vez em fontes georgianas e persas dos séculos XIII e XIV.[5] Karabagh é uma grafia alternativa do nome, que também se refere a um tipo de tapete produzido originalmente na região.[6] Em português também se usam as grafias Karabaque e Carabaque, entre outras.

Uma teoria alternativa sugere uma origem turco-armênia, referindo-se ao "Grande Baghk" (em armênio: Մեծ Բաղք), uma possível referência a Ktish-Baghk (posteriormente Dizak), um dos principados de Artsach sob o domínio da dinastia Aranshahik, que ocupou o trono do Reino de Siunique entre os séculos XI e XIII, e se intitulava o "Reino de Baghk" [7] .

A região também é conhecida pelos armênios que vivem na região como Artsach (em armênio: Արցախ), referindo-se à décima província do antigo Reino da Armênia. Nas inscrições urartianas dos séculos IX e VII a.C. o nome Urtekhini é usado para designar a região.[8] Fontes da Grécia Antiga chamam a região de Orkhistene.[9]

História[editar | editar código-fonte]

História antiga[editar | editar código-fonte]

O Mosteiro de Amaras, em Nagorno-Karabakh, foi fundado no século IV por São Gregório, o Iluminista. No século V, Mesrob Mashtots, inventor do alfabeto armênio, fundou em Amaras a primeira escola a usar a sua escrita.[10]

O Nagorno-Karabakh se situa em terras ocupadas inicialmente por povos conhecidos pelos arqueólogos modernos como a cultura Kura-Araxes, que viviam entre os rios Kura e Araxes. A população original da região consistia de diversas tribos, autóctones e migratórias.[11] De acordo com o estudioso americano Robert H. Hewsen, estas tribos primitivas "certamente não tinham origem armênia", e "embora certos povos iranianos possam ter se estabelecido ali durante o longo período do domínio persa e medo, a maior parte dos nativos não era indo-europeu.[11] Estes povos, segundo Hewsen, foram conquistados pelo Reino da Armênia no século II a.C..[11]

No entanto, com base nas informações fornecidas pelo historiador armênio Moisés de Corene, do século V, outros autores ocidentais afirmaram - e, posteriormente, o próprio Hewsen - que estes povos podem ter sido conquistados pelo Reino da Armênia até mesmo antes, no século IV a.C..[12]

No todo, desde cerca de 180 a.C. e até o século IV d.C. - antes de voltar a fazer parte novamente do Reino da Armênia, em 855 - o território do Nagorno-Karabakh continuou a fazer parte do reino armênio unido na forma da província de Artsach.[13] [14]

Depois da partição da Armênia entre o Império Bizantino e a Pérsia, em 387 d.C., o reino de Artsach passou a fazer parte da Albânia Caucásica, que, por sua vez, situava-se sob forte influência religiosa e cultural armênia.[15] [16] [17] [18] [19] Alguns historiadores armênios, como Moisés de Corene e Movses Kaghankatvatsi, ligaram o nome armênio da região do Reino de Aghvank - Աղվանից Թագավորություն, Albânia Caucásica - à alcunha dada ao lendário soberano local, Aran (em armênio Աղու, transl. Aghu - "bondoso" ou "gentil"). Nos relatos de Kaghankatvatsi, Aran é designado para governar Aghvank por Vagharshak, rei da Armênia.[20]

Uma descrição extensa de Artsach e de seus 12 condados faz parte do atlas geográfico armênio do século VII chamado Ashkharatsuyts (Geografia), compilado pelo acadêmico Anania de Chirac.[21]

A partir de um registro militar armênio do século V (em armênio: Զորանամակ, Zoranamak), sabe-se que, no início da Idade Média, Artsach devia fornecer ao exército armênio pelo menos mil soldados.[22]

Os armênios habitam a região do Karabakh desde os tempos romanos; Estrabão relata que, por volta dos séculos II ou I a.C., toda a população da Grande Armênia - incluindo Artsach e Uti — falavam o armênio,[23] [24] embora isto não queira necessariamente dizer que a população era formada por armênios.[25] Em seus relatos, Estrabão descreve Artsach como uma província da Armênia "... que fornece a maior parte de sua cavalaria."[26] Tigranes, o Grande, rei da Armênia de 95 a.C. a 55 a.C., fundou em Artsach uma das quatro cidades que receberam o nome de Tigranakert em sua homenagem.[27] As ruínas da antiga Tigranakert, localizadas a cerca de 50 quilômetros ao nordeste de Stepanakert, estão sendo estudados atualmente por um grupo de estudiosos internacionais.

O mosteiro de Gandzasar, cuja construção foi terminada em 1238, foi encomendado pela Dinastia de Khachen.

No início da Idade Média os elementos não-armênios da população albanesa do Alto Karabakh já tinham sido misturados completamente à população armênia, e deixaram de formar grupos identificáveis;[28] [29] com a única possível exceção dos udis, que viveram longe de Artsach ou Uti - centros onde a cultura e civilização armênia floresceram no Nagorno-Karabakh medieval. No século V a primeira escola armênia foi aberta no território do atual Nagorno-Karabakha, no Mosteiro de Amaras, graças aos esforços de São Mesrob Mashtots, o inventor do alfabeto armênio.[30] São Mesrob teve um papel de destaque na difusão do Evangelho nas duas cidades; quatro capítulos da História... de Movses Kaghankatvatsi descrevem em detalhe a missão de São Mesrob, referindo-se a ele como "iluminador", "evangelista" e "santo".[31] Mashtots fez, no total, três viagens diferentes a Artsach e Uti, alcançando territórios pagãos aos pés do Grande Cáucaso.[32]

Foi neste período que o principal historiador armênio, Moisés de Corene, confirmou que o rio Kura formava "a fronteira da fala armênia."[33] O linguista e gramático armênio do século VII, Stephanos Syunetsi registrou que os armênios de Artsach tinham seu próprio dialeto, e encorajava seus leitores a aprendê-lo.[34] No mesmo século o poeta armênio Davtak Kertogh escreveu a sua "Elegia sobre a Morte do Grão-Príncipe Juansher", onde cada passagem começa por uma letra do alfabeto armênio.[35] [36] A única história abrangente do Reino de Aghvank foi escrita em armênio, pelo historiador Movses Kaghankatvatsi.[37] [38]

Nos séculos VII e VIII a região foi dominada por governadores indicados pelo Califado. Em 821 o príncipe armênio Sahl Smbatian iniciou uma revolta em Artsach, e fundou a Casa de Khachen, dinastia que governou Artsach como um principado até o início do século XIX.[39] O nome Khachen originou-se da palavra armênia khach, que significa "cruz".[40] . Por volta de 1000 a Casa de Khachen proclamou o Reino de Artsach, com João Senecherib como seu primeiro soberano.[41] Inicialmente Dizak, no sul de Artsach, também formou um reino dominado pela antiga Casa de Aranshahik, descendente dos primeiros reis da Albânia caucásica. Em 1261, depois da filha do último rei de Dizak se casar com o rei de Artsach, os dois reinos se fundiram num só,[39] e Artsach passou a existir na forma de principado.

No século XV o território do Karabakh integrou os Estados governados pelas confederações tribais de Kara Koyunlu e Ak Koyunlu. O senhor feudal turcomano Jahan Shah (1437-1467) indicou príncipes locais para o governo do Alto Karabakh, fazendo surgir uma liderança local armênia que consistia de cinco dinastias nobres lideradas por príncipes locais que tinham o título de meliks.[39] Estas dinastias representavam os ramos da antiga Casa de Khachen, e eram os descendentes dos reis medievais de Artsach; suas terras eram conhecidas como o País de Khamsa (cinco, em árabe). O Império Russo reconheceu a soberania dos cinco príncipes nestes seus domínios através de uma carta oficial do imperador Paulo I datada de 2 de junho de 1799.[42]

Five principalities of karabakh.png

No início do século XVI, depois da queda do Ak Koyunlu, o controle da região passou para a dinastia safávida, que criou o Karabakh Beylerbeylik. Apesar destas conquistas, a população do Alto Karabakh permaneceu armênia em sua maior parte.[43] Inicialmente sob o controle do Canato de Ganja, parte do Império Safávida, os príncipes armênios locais receberam um amplo grau de autonomia, do Império Safávida, sobre o território atual do Nagorno-Karabakh e terras adjacentes.

Os meliks armênios mantiveram controle total sobre a região até a metade do século XVIII.[43] No início do século, Nader Xá, da Pérsia, retirou Karabakh do controle dos khans de Ganja, como punição pelo seu apoio aos safávidas, colocando o território sob seu controle direto.[44] [45] Simultaneamente, os meliks armênios receberam a autoridade suprema sobre os principados armênios vizinhos e os canatos muçulmanos no Cáucaso, em troca pelas vitórias dos meliks sobre os turcos otomanos na década de 1720.[46] No meio do século XVIII, à medida que os conflitos internos entre os meliks levaram ao seu enfraquecimento,[43] o Canato de Karabakh foi formado.[47]

O Karabakh se tornou um protetorado da Rússia imperial através do tratado de Kurekchay, assinado entre Ibrahim Khalil Khan, do Karabakh, e o general Pavel Lisounenko Medvedev (em nome do czar Alexandre I), em 1805, pelo qual o monarca russo reconhecia Khalil Khan e seus descendentes como únicos soberanos hereditários da região.[48] [49] [50] Seu novo status foi confirmado sob os termos do tratado de Gulistã (1823), pelo qual a Pérsia cedeu formalmente o Karabakh ao Império Russo,[51] [52] [53] [54] antes que o resto da Transcaucásia fosse incorporado ao Império, em 1828, pelo tratado de Turkmenchay.

Em 1822 o Canato do Karabakh foi dissolvido, e a área passou a fazer parte da guberniya de Elisabethpol, dentro do Império Russo. Com a transferência do canato para a Rússia, diversas famílias muçulmanas migraram para a Pérsia, enquanto muitos armênios foram estimulados pelo governo russo a migrar da Pérsia para o Karabakh.[55]

Era soviética[editar | editar código-fonte]

Cidade de Stepanakert, edifícios construídos no período soviético.
Red kurdistan 1930.png
Nagorno Karabakh03.png

O atual conflito pelo Nagorno-Karabakh tem suas raízes nas decisões tomadas por Josef Stalin e o Bureau do Cáucaso (Kavburo) durante a sovietização da Transcaucásia; o órgão estava sob o controle do próprio Stalin, Comissário de Nacionalidades (Narkomnats) em exercício na União Soviética do início da década de 1920. Após a Revolução Russa de 1917, o Karabakh se tornou parte da República Democrática Federativa Transcaucásica, porém logo foi desmembrada em Estados separados armênios, azeris e georgianos. Nos próximos dois anos (1918-1920) uma série de pequenas guerras entre a Armênia o Azerbaijão foram travadas, envolvendo diferentes regiões, incluindo o Karabakh. Em julho de 1918 a Primeira Assembleia Armênia do Nagorno-Karabakh declarou a autonomia da região, e criou um Conselho Nacional e estabeleceu um governo local.[56] Como consequência, tropas otomanas entraram no Karabakh e enfrentaram a resistência armada dos armênios.

Após a derrota do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial, tropas britânicas ocuparam o Karabakh.[43] O comando britânico confirmou provisoriamente Khosrov bey Sultanov, indicado pelo governo azeri, como governador-geral de Karabakh e Zangezur, aguardando uma decisão final da Conferência de Paz de Paris,[57] numa decisão que sofreu oposição ferrenha dos armênios do Karabakh. Em fevereiro de 1920 o Conselho Nacional do Karabakh concordou preliminarmente à jurisdicação azeri, enquanto os armênios da região continuaram a manter a guerrilha, sem aceitar o acordo.[43] [56] O acordo acabou sendo anulado pela Nona Assembleia Karabagh, que declarou a união com a Armênia em abril.[43] [56] [58]

Em abril de 1920, enquanto o exército azeri estava preso no Karabakh lutando contra as forças locais armênias, o próprio Azerbaijão foi tomado pelos bolcheviques;[43] na sequência, as áreas disputadas de Karabakh, Zangezur e Nakhchivan passaram para o controle dos armênios. Durante julho e agosto, no entanto, o Exército Vermelho passou a ocupar estas regiões. Em 10 de agosto do mesmo ano a Armênia assinou um acordo preliminar com os bolcheviques, que concordava com uma ocupação temporária bolchevique das áreas até que um acordo final fosse atingido.[59] No ano seguinte a Armênia e a Geórgia também foram tomadas pelos bolcheviques que, para conseguir o apoio público, prometeram passar o Karabakh para a Armênia, juntamente com Nakhchivan e Zangezur. A União Soviética, no entanto, também tinha planos a respeito da Turquia, na esperança que ela acabasse se desenvolvendo ao longo das linhas comunistas; forçada a satisfazer os turcos, os soviéticos concordaram com uma divisão na qual o Zangezur permanecia sob o domínio armênio, enquanto Karabakh e Nakhchivan passaram para o controle do Azerbaijão.[60] Como resultado, estabeleceu-se o Oblast Autônomo do Nagorno-Karabakh, dentro da RSS Azeri, em 7 de julho de 1923.

Com a União Soviética mantendo um firme controle na região, o conflito arrefeceu por diversas décadas. Somente com o início da dissolução da URSS, no fim da década de 1980 e início da década seguinte, é que a questão do Nagorno-Karabakh voltou à tona. A população de maioria armênia acusou o governo da República Socialista Soviética Azeri de conduzir uma "azerificação" forçada da região, e, com apoio ideológico e material da República Socialista Soviética Armênia, começou um movimento para assimilar o óblast autônomo.

Guerra e independência[editar | editar código-fonte]

Um T-72 armênio restaurado, retirado de circulação enquanto atacava posições azeris em Askeran, serve como um memorial de guerra na periferia de Stepanakert.

Em 22 de fevereiro de 1988 ocorreu o primeiro confronto direto do conflito, quando um grande grupo de azeris marchou de Agdam contra a população armênia de Askeran, "espalhando a destruição no caminho". O confronto entre os azeris e a polícia nos arredores de Askeran acabou se transformando nos enfrentamentos de Askeran, que deixaram dois azeris mortos, um deles supostamente morto por um policial azeri, bem como um saldo de 50 armênios e um número desconhecido de azeris feridos.[61] [62] Grandes quantidades de refugiados abandonaram a Armênia e o Azerbaijão à medida que se iniciou a violência contra as populações minoritárias em cada um dos dois países.[63] No outono de 1989 o conflito entre as etnias se intensificou dentro e ao redor do Nagorno-Karabakh, levando a União Soviética a conceder as autoridades azeris maior poder para controlar a região. Em 29 de novembro do mesmo ano o governo direto soviético no Nagorno-Karabakh foi encerrado, e a região retornou oficialmente à administração azeri.[64] A política soviética, no entanto, teve o efeito contrário ao esperado quando, depois de uma sessão conjunta do Soviete Supremo Armênio e do Conselho Nacional, o órgão legislativo do Nagorno-Karabakh proclamou a unificação da região com a Armênia.

Placa que diz "Artsach livre lhe dá as boas-vindas", na principal estrada que leva a Stepanakert.

Em 10 de dezembro de 1991, num referendo boicotado pelos azeris locais,[62] os armênios do Nagorno-Karabakh aprovaram a criação de um Estado independente. Uma proposta soviética que previa um aumento de autonomia para a região dentro do Azerbaijão não satisfez nenhum dos lados, e uma guerra total acabou irrompendo entre o Azerbaijão e o Nagorno-Karabakh, apoiado pela Armênia.[65] [66] [67] [68] .

A disputa pelo Nagorno-Karabakh se intensificou depois que tanto a Armênia quanto o Azerbaijão conseguiram independência da União Soviética, em 1991. No vácuo de poder pós-soviético, as ações militares entre os dois países foram influenciados fortemente pelas forças armadas russas. As tropas de ambos os países empregaram um grande número de mercenários da Ucrânia e da Rússia,[69] e até mil mujahidin afegães participaram no combate pelo lado azeri, juntamente com chechenos.[62] Muitos dos sobreviventes do lado azeri refugiaram-se nos doze campos de emergência montados em outras partes do Azerbaijão para lidar com o número crescente de pessoas desalojadas devido ao conflito.[70] .

Fronteiras finais do conflito, depois que o cessar-fogo de 1994 foi assinado. As forças armênias do Nagorno-Karabakh controlam atualmente 9% do território do Azerbaijão fora do Oblast Autônomo de Nagorno Karabakh,[62] e tropas azeris controlam Shahumian e as partes orientais de Martakert e Martuni.

No fim de 1993 o conflito já havia provocado milhares de vítimas, e criado centenas de milhares de refugiados em ambos os lados. Em maio de 1994 os armênios dominavam cerca de 14% do território do Azerbaijão; a esta altura o governo deste país decidiu, pela primeira vez no conflito, reconhecer o Nagorno-Karabakh como uma terceira força envolvida no conflito, e iniciar negociações diretas com as autoridades carabaques.[43] Como resultado destes esforços, um cessar-fogo não-oficial foi estabelecido em 12 de maio daquele ano, com negociações comandadas pelos russos.

Continuação da violência (1994 - atualidade)[editar | editar código-fonte]

Apesar do cessar-fogo, as baixas provocadas por conflitos armados entre soldados armênios e azeris continuaram.[71] Em agosto de 2008 os Estados Unidos, França e Rússia (membros do Grupo de Minsk) começaram a tentar negociar um fim ao conflito, propondo um referendo sobre o status da região, que culminou com a viagem do presidente azeri, Ilham Aliyev, e do seu equivalente armênio, Serj Sarkisian, até Moscou, para negociações de paz mediadas pelo presidente russo Dmitri Medvedev em 2 de novembro de 2008. A rodada de negociações terminou com um acordo, assinado pelos três presidentes, que estabeleceu novas discussões para um acordo político do problema do Nagorno-Karabakh.

Geografia[editar | editar código-fonte]

Vista das montanhas cobertas por florestas do Nagorno-Karabakh.

O Nagorno-Karabakh tem uma área total de 4.400 quilômetros quadrados, e é um enclave totalmente cercado pelo Azerbaijão; seu ponto mais próximo à Armênia situa-se ao longo do chamado corredor de Lachin, com aproximadamente quatro quilômetros de largura.[72] Em 1989, o território tinha uma população de 192.000 habitantes;[73] era formada, então, por 76% de armênios e 23% azeris, com minorias de russos e curdos.[73] A capital do Nagorno-Karabakh é Stepanakert, conhecida no Azerbaijão como Xankəndi (Khankendi). Sua outra principal cidade, que hoje em dia se encontra parcialmente em ruínas, é Shushi (conhecida no Azerbaijão como as Shusha).

A vila de Vank vista do mosteiro de Gandzasar.

O território do Nagorno-Karabakh lembra o formato de um grão de feijão; apresenta altas cadeias montanhosas ao longo de suas fronteiras a norte, oeste e sul, enquanto a "curva" do feijão em si é um vale relativamente plano, com as duas pontas do feijão, as províncias de Martakert e Martuni, também situadas em planícies. Outros vales também podem ser encontrados em torno do reservatório de Sarsang, Hadrut, e ao sul. A maior parte do Nagorno-Karabakh é coberta por florestas, especialmente suas montanhas.[74]

O território do atual Nagorno-Karabakh forma parte da região histórica do Karabakh, que se situa entre os rios Kura e Araxes e a atual fronteira Armênia-Azerbaijão. Em tempos antigos e medievais, esta região mais ampla consistia das províncias históricas de Artsach e Uti, que alternou, politicamente, entre os reinos da Armênia e da Albânia caucásica. A partir dos séculos XIII e XIV, a área recebeu o nome de Karabakh; sua porção oriental, correspondente a Uti, se encontra numa região mais baixa e plana, e tradicionalmente foi chamada de Baixo Karabakh, enquanto a parte ocidental e montanhosa, correspondente a Artsach, foi chamada de Karabakh Alto ou Montanhoso, Nagorno-Karabakh.

Demografia[editar | editar código-fonte]

Números concretos sobre a situação demográfica do Nagorno-Karabakh aparecem desde o século XVIII. O arquimandrita Minas Tigranian, depois de ter completado sua missão secreta à Armênia persa sob ordens do czar russo Pedro, o Grande, declarou, num relatório datado de 14 de março de 1717, que o patriarca do mosteiro de Gandzasar tinha, sob sua autoridade, 900 aldeias armênias do Nagorno-Karabakh.[75]

Ao discutir Karabakh e Shusha, no mesmo século, o diplomata e historiador russo S. M. Bronevskiy (em russo: С. М. Броневский) indicou, em suas Notas Históricas, que o Karabakh - que, segundo ele, "localiza-se na Grande Armênia" - tinha de 30 a 40 mil armênios portando armas em 1796.[76]

Um estudo preparado pelas autoridades imperiais russas em 1823, muitos anos antes da migração de 1828 de armênios da Pérsia para a recém-fundada Província da Armênia, mostra que todos os armênios do Karabakh viviam aglomerados nas partes mais altas da região, ou seja, no território dos cinco principados tradicionais armênios do Nagorno-Karabakh, e formavam uma maioria demográfica absoluta naquelas terras. O estudo, com mais de 260 páginas, registrou que o distrito de Khachen tinha doze vilas armênias e nenhuma "tártara" (muçulmana); Jalapert (Jraberd) tinha oito vilas armênias e nenhuma tártara; Dizak tinha catorze armênias e apenas uma vila tártara; o Gulistã tinha doze vilas armênias e cinco tártaras; e Varanda tinha 23 vilas armênias e apenas uma tártara.[77] [78]

Na altura do colapso da União Soviética, em 1989, o Oblast Autônomo do Nagorno-Karabakh apresentava uma população de 145.593 armênios (76.4%), 42.871 azeris (22.4%),[69] e diversos milhares de curdos, russos, gregos e assírios. A maior parte dos azeris e curdos fugiram da região durante os anos de combates mais ferozes (de 1992 a 93). O principal idioma falado no Nagorno-Karabakh é o armênio; os armênios do Karabakh. no entanto, falam um dialeto da língua que é consideravelmente diferente do que é falado na Armênia, na medida em que apresenta em seu léxico verdadeiras camadas de palavras russas, turcas e persas.[62]

Em 2001 95% da população da região seria composto por armênios, com o restante incluindo assírios, gregos e curdos.[79] Em março de 2007 o governo local anunciou que sua população havia atingido os 138.000 habitantes; a taxa anual de natalidade foi registrada a 2.200-2.300 por ano, um aumento dos cerca de 1.500 registrados em 1999. Até 2000 o saldo migratório era negativo.[80] Na primeira metade do ano foram registrados 1.010 nascimentos e 659 mortes, com um saldo migratório de 27.[81]

A maior parte da população armênia do Karabakh é cristã, e pertence à Igreja Apostólica Armênia. Certas denominações cristãs ortodoxas e evangélicas também existem, e entre as outras religiões existentes no território está o judaísmo.[79]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Correia, Paulo. (Outono de 2008). "Geografia do Cáucaso". A Folha — Boletim da língua portuguesa nas instituições europeias (n.º 28): 11-13. Sítio web da Direcção-Geral da Tradução da Comissão Europeia no portal da União Europeia. ISSN 1830-780-9. Visitado em 7 de outubro de 2012.
  2. Rocha, Carlos (21 de outubro de 2013). Aportuguesamento de vários topónimos estrangeiros Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Visitado em 21 de outubro de 2013.
  3. As formas Carabaque ou Karabaque também são utilizadas.
  4. Regions and territories: Nagorno-Karabakh. BBC News. 3 de outubro de 2007 (visitado em 21 de novembro de 2007).
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  7. Hewsen, Robert H., Armenia: a Historical Atlas. University of Chicago Press, 2001, pp. 119-120.
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  9. Estrabão (ed. H.C. Hamilton, Esq., W. Falconer, M.A.) Geografia. The Perseus Digital Library. 11.14.4. (em inglês; visitado em 21 de novembro de 2007).
  10. Viviano, Frank. "The Rebirth of Armenia", revista National Geographic, março de 2004
  11. a b c Hewsen, Robert H. "Ethno-History and the Armenian Influence upon the Caucasian Albanians," in: Samuelian, Thomas J. (Hg.), Classical Armenian Culture. Influences and Creativity, Chicago: 1982, 27-40.
  12. Hewsen, Robert H. Armenia: a Historical Atlas. Chicago: University of Chicago Press, 2001, p. 32-33, mapa 19 (mostra o território do atual Nagorno-Karabakh como parte do Reino da Armênia dos orontidas.
  13. Hewsen, Robert. "Ethno-History and the Armenian Influence upon the Caucasian Albanians," in: Samuelian, Thomas J. (Hg.), Classical Armenian Culture. Influences and Creativity, Chicago: 1982, 27-40.
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  19. V. Minorsky. History of Shirvan and Darband
  20. Kalankatuatsi, Movses. História da Terra de Aluank (History of the Land of Aluank, traduzido do antigo armênio por Sh. V. Smbatian. Ierevan: Matenadaran (Instituto de Manuscritos Antigos), 1984
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  65. Human Rights Watch. Playing the "Communal Card". Communal Violence and Human Rights. No início de 1992 um combate em grande escala irrompeu entre os armênios do Nagorno-Karabakh e as autoridades azeris. ("By early 1992 full-scale fighting broke out between Nagorno-Karabakh Armenians and Azerbaijani authorities.") / As forças armênias do Karabakh - frequentemente com o apoio de forças da República da Armênia - realizaram operações em grande escala... ("...Karabakh Armenian forces -often with the support of forces from the Republic of Armenia- conducted large-scale operations...") / Porque 1993 testemunhou incansáveis ofensivas armênias do Karabakh contra as províncias azeris em torno do Nagorno-Karabakh... ("Because 1993 witnessed unrelenting Karabakh Armenian offensives against the Azerbaijani provinces surrounding Nagorno-Karabakh...") / Desde o fim de 1993, o conflito também ficou claramente internacionalizado: além do Azerbaijão e das forças armênias do Karabakh, tropas da Repúblic da Armênia participam pelo lado do Karabakh nas lutas dentro do Azerbaijão e do Nagorno-Karabakh. ("Since late 1993, the conflict has also clearly become internationalized: in addition to Azerbaijani and Karabakh Armenian forces, troops from the Republic of Armenia participate on the Karabakh side in fighting inside Azerbaijan and in Nagorno-Karabakh.")
  66. Human Rights Watch. The former Soviet Union. Human Rights Developments. Em 1992 o conflito ficou muito mais letal à medida que ambos os lados - o Exército Nacional Azeri e milícias independentes que lutavam do seu lado, além de armênios e mercenários lutando pelo Exército Popular de Liberação do Artsach - começaram... ("In 1992 the conflict grew far more lethal as both sides -the Azerbaijani National Army and free-lance militias fighting along with it, and ethnic Armenians and mercenaries fighting in the Popular Liberation Army of Artsakh- began...")
  67. United States Institute of Peace. Nagorno-Karabakh Searching for a Solution. Foreword. As forças armadas do Nagorno-Karabakh não apenas fortificaram a sua região, mas também ocuparam uma ampla faixa do território azeri que o circunda, nas esperanças de ligar o enclave à Armênia. ("Nagorno-Karabakh’s armed forces have not only fortified their region, but have also occupied a large swath of surrounding Azeri territory in the hopes of linking the enclave to Armenia.")
  68. United States Institute of Peace. Sovereignty after Empire. Self-Determination Movements in the Former Soviet Union. Hopes and Disappointments: Case Studies. Enquanto isso, o conflito pelo Nagorno-Karabakh gradualmente se transformou numa guerra em grande escala entre irregulares azeris e do Karabakh, com os últimos recebendo apoio da Armênia. ("Meanwhile, the conflict over Nagorno-Karabakh was gradually transforming into a full-scale war between Azeri and Karabakh irregulars, the latter receiving support from Armenia.") / A vantagem objetiva do Azerbaijão em termos de potencial humano e econômico foi, até agora, ofuscada pelas habilidades superiores de combate e de disciplina das forças armadas do Nagorno-Karabakh. Após uma série de ofensivas, retiradas e contra-ofensivas, o Nagorno-Karabakh atualmente controla uma porção considerável do próprio Azerbaijão (...), incluindo o corredor de Lachin. ("Azerbaijan's objective advantage in terms of human and economic potential has so far been offset by the superior fighting skills and discipline of Nagorno-Karabakh's forces. After a series of offensives, retreats, and counteroffensives, Nagorno-Karabakh now controls a sizable portion of Azerbaijan proper (...), including the Lachin corridor.")
  69. a b Human Rights Watch. "Seven Years of Conflict in Nagorno-Karabakh". December 1994, p. xiii, ISBN 1-56432-142-8, citing: Natsional'nyi Sostav Naseleniya SSSR, po dannym Vsesoyuznyi Perepisi Naseleniya 1989 g., Moskva, "Finansy i Statistika"
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  77. "Descrição da província do Karabakh preparada em 1823 de acordo com as ordens do governador da Geórgia Yermolov, pelo conselheiro-estatal Mogilevsky, e pelo coronel Yermolov II." ("Opisaniye Karabakhskoy provincii sostavlennoye v 1823 g po rasporyazheniyu glavnoupravlyayushego v Gruzii Yermolova deystvitelnim statskim sovetnikom Mogilevskim i polkovnikom Yermolovim 2-m" in Russian), Tbilisi, 1866.
  78. Bournoutian, George A. A History of Qarabagh: An Annotated Translation of Mirza Jamal Javanshir Qarabaghi's Tarikh-E Qarabagh. Costa Mesa, CA: Mazda Publishers, 1994, pág. 18
  79. a b Composição étnica da região, dados oficiais do governo (em inglês)
  80. Regnum News Agency. Nagorno Karabakh prime minister: We need to have at least 300,000 population. Regnum. 9 de março de 2007. Visitado em 9-3-2007.
  81. Евразийская панорама (em russo)

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Pontos de vista neutros
Perspectiva armênia
Perspectiva azeri