Anarquismo no Brasil

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O Anarquismo foi uma contribuição influente para as políticas sociais da República Velha. Durante a época da imigração europeia dos trabalhadores no fim do século XIX e começo do século XX, ideias anarquistas começaram a se espalhar, particularmente entre os países trabalhistas. Junto com os trabalhadores imigrantes, muitos italianos, espanhóis, portugueses e alemães politicamente exilados chegaram. Vários deles com ideias anarquistas ou anarcossindicalistas.

Alguns vieram como um tipo de empreendedores políticos, incluindo Giovanni Rossi, que fundou uma colônia anarquista em 1890, chamada de Colônia Cecília, na cidade de Palmeira, estado do Paraná. O experimentou durou apenas alguns anos, mas chegou a ter 200 participantes, na maioria imigrantes italianos com experiência em trabalho urbano que tinham dificuldades em aprender o trabalho rural.[1]

Movimento dos trabalhadores anarcossindicalistas, jornais e escolas[editar | editar código-fonte]

O anarcossindicalismo era a ideologia dominante que sustentava o movimento trabalhador brasileiro no começo do século XX. Sindicatos e federações sindicais foram criados, pressionando principalmente para jornadas de trabalho mais curtas, melhores condições de trabalho e salários maiores. Várias greves, como a do porto de Santos e dos trabalhadores ferroviários foram inspiradas por simpatizantes anarquistas. Em 1906 aconteceu o primeiro Congresso Operário Brasileiro, e a partir de então as celebrações do Dia Internacional dos Trabalhadores, com proeminentes anarquistas discursando, começaram a atrair grandes multidões. O segundo Congresso Operário Brasileiro em 1913 foi inicialmente concebido para ser um congresso anarquista pan-americano, mas apenas dois argentinos apareceram.[2] . A agitação dos trabalhadores eventualmente culminou na Greve Geral de 1917, maior em São Paulo e Rio de Janeiro, mas que ecoou por todo o país.[3]

Junto com as federações sindicais, jornais anarquistas diários e semanais também foram emitidos. Adicionalmente, centros de educação, teatros e escolas primárias foram fundadas. No século XIX alguns desses jornais eram em italiano e poucos em espanhol e alemão, mas na virada do século a maioria era em português. A Plebe foi um importante jornal, mas existiam muitos mais, emitidos em praticamente qualquer capital de estado do Brasil.[4]

Os centros educacionais, escolas e teatros fundados por anarquistas ajudaram a chamar atenção para o problema do analfabetismo no Brasil. Esse foi um ponto tomado por vários outros grupos na sociedade, como movimentos sociais cristãos, inspirados pela Doutrina Social da Igreja e por vários políticos visando a contenção da questão social ou apoio popular.[5]

Repressão, fragmentação e declínio[editar | editar código-fonte]

A Voz do Trabalhador, periódico anarquista publicado no Rio de Janeiro

Anarquistas, anarcossindicalistas e socialistas de vários tipos eram geralmente muito menos fragmentados no Brasil do que, por exemplo, na Itália. Entretanto, os muitos panfletos e artigos nos jornais anarquistas mostravam que havia debates acirrados sobre ideologias e estratégias entre os adeptos de diferentes escolas. A maioria dos socialistas rejeitavam fortemente a posição do socialismo cristão nas greves e sindicatos, por volta de 1900. Um debate contínuo, especialmente da necessidade e o perigo de uma organização central, entre anarquistas, libertários sociais e sindicalistas preencheram os jornais trabalhistas.

Em 1922, alguns militantes que foram ativos em círculos anarquistas fundaram o Partido Comunista Brasileiro (PCB), influenciados pelo sucesso da Revolução Russa de 1917 e pelo sentimento de falha em apelo e unidade das federações de trabalhadores sindicalistas. Dentre eles, Astrojildo Pereira, Cristiano Cordeiro e João da Costa Pimenta.[6] . Outros, como José Oiticica e Edgard Leuenroth continuaram leais aos princípios anarquistas. O partido não foi reconhecido como comunista pelo Comintern, entretanto, foi acusado de ser uma confusão doutrinária, ainda mantendo muita influência anarcossindicalista.

A repressão do movimento anarquista e dos movimentos trabalhistas em geral foi muito severa. A repressão violenta da polícia nas greves causaram muitas perdas.[7] . Em conjunto, jornais, escritórios de uniões e até escolas infantis foram queimadas. Além disso, agitadores anarquistas eram regularmente presos e, se não fossem brasileiros, eram exilados.[8] . Sob o governo de Artur Bernardes existiram campos de concentração e tortura, sendo Clevelândia o mais famoso, em Oiapoque, na fronteira com a Guiana Francesa.[9]

Enquanto alguns argumentam que o movimento anarquista já teria perdido contra o comunista por volta de 1920, outro, como Edgar Rodrigues, apoiam que o movimento anarquista continuou crescendo durante toda década de 1920 até a repressão de Bernardes. Em qualquer caso, o movimento populista militar conhecido como tenentismo ganhou. A repressão pelo regime de Getúlio Vargas, junto com a introdução das estruturas sindicais guiadas pelo Estado inspiradas em Benito Mussolini em 1930, deu a sentença de morte do movimento anarquista brasileiro.[10]

Alguns traços do anarquismo permaneceram. O Centro de Estudos Anarquistas no Rio de Janeiro liderado pelo professor José Oiticica, que teve de passar à clandestinidade após o golpe militar de 1964. Em 1970 um pequeno jornal anarquista existiu na Bahia, chamado "O Inimigo do Rei". Porém o movimento nunca ganhou de volta a força que tinha no início do século XX.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. FELICI, Isabelle. "A verdadeira história da Colônia Cecília de Giovanni Rossi." Cadernos AEL 5.8/9 (2010).
  2. RODRIGUES, Edgar. Alvorada operária: os congressos operários no Brasil. Mundo Livre, 1979.
  3. LOPREATO, Christina da Silva Roquette. O espírito da revolta: a greve geral anarquista de 1917. Annablume, 2000, ISBN:9788574191355.
  4. DA SILVA, Rodrigo Rosa. Imprimindo a resistência: a imprensa anarquista e a repressão política em São Paulo (1930-1945). 2005.
  5. DE OLIVEIRA GOMES, M. A., & BORDIN, M. R. Educação e movimento operário no Brasil: a organização dos trabalhadores durante a república velha.
  6. CHILCOTE, R. H. (1982). O Partido Comunista Brasileiro: conflito e integração. Graal.
  7. TOLEDO, Edilene. A trajetória anarquista no Brasil da Primeira República. In: FERREIRA, Jorge & REIS FILHO, Daniel Aarão. A formação das tradições (1889-1945): as esquerdas no Brasil. Vol. I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
  8. DO CARMO, Paulo Sergio. A ideologia do trabalho. Moderna, 1992.
  9. ROMANI, Carlo. Clevelandia, Oiapoque-aqui começa o Brasil!: transitos e confinamentos na fronteira com a Guiana Francesa (1900-1927). 2003.
  10. FAORO, Raymundo (2001). Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]