Estado Novo (Brasil)

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Estado Novo é o nome do regime político brasileiro fundado por Getúlio Vargas em 10 de novembro de 1937, que durou até 29 de outubro de 1945, que é caracterizado pela centralização do poder, nacionalismo, anticomunismo e por seu autoritarismo.

O golpe de estado de 1937[editar | editar código-fonte]

Em 30 de setembro de 1937, quando se aguardavam as eleições presidenciais marcadas para janeiro de 1938, a serem disputadas por José Américo de Almeida (situacionista) e Armando de Sales Oliveira (oposicionista), foi denunciado, pelo governo de Getúlio, a existência de um suposto plano comunista para tomada do poder.[1] Este plano ficou conhecido como Plano Cohen, e depois se descobriu ter sido forjado por um adepto do integralismo, o capitão Olímpio Mourão Filho, o mesmo que daria início ao Golpe Militar de 1964.

Há várias versões e dúvidas sobre o Plano Cohen: Os integralistas negam ainda hoje participação deles no golpe de estado do Estado Novo, atribuindo ao general Góis Monteiro a transformação de um relatório feito pelo capitão Mourão em um documento oficial: O dito "Plano Cohen".

Com a comoção popular causada pelo Plano Cohen, com a instabilidade política gerada pela Intentona Comunista, com o receio de novas revoluções comunistas e com as seguidas vezes em que foi decretado estado de sítio no Brasil, foi sem resistência que Getúlio Vargas deu um golpe de estado e instaurou uma ditadura na quarta-feira de 10 de novembro de 1937, através de um pronunciamento transmitido por rádio a todo o País.

No preâmbulo da Constituição de 1937, é explicada a razão da implantação do Estado Novo:[1]

O Presidente da República dos Estados do Brasil

  • Atendendo às legitimas aspirações do povo brasileiro à paz política e social, profundamente perturbada por conhecidos fatores de desordem, resultantes da crescente agravação dos dissídios partidários, que uma notória propaganda demagógica procura desnaturar em luta de classes, e do extremamento de conflitos ideológicos tendentes, pelo seu desenvolvimento natural, resolver-se em termos de violência, colocando a Nação sob a funesta iminência da guerra civil;
  • Atendendo ao estado de apreensão criado no País pela infiltração comunista, que se torna dia a dia mais extensa e mais profunda, exigindo remédios, de caráter radical e permanente;
  • Atendendo a que, sob as instituições anteriores, não dispunha, o Estado de meios normais de preservação e de defesa da paz, da segurança e do bem-estar do povo;
  • Com o apoio das forças armadas e cedendo às inspirações da opinião nacional, umas e outras justificadamente apreensivas diante dos perigos que ameaçam a nossa unidade e da rapidez com que se vem processando a decomposição das nossas instituições civis e políticas;
  • Resolve assegurar à Nação a sua unidade, o respeito à sua honra e à sua independência, e ao povo brasileiro, sob um regime de paz política e social, as condições necessárias à sua segurança, ao seu bem-estar e à sua prosperidade, decretando a seguinte Constituição, que se cumprirá desde hoje em todo o país.

O último grande obstáculo que Getúlio Vargas enfrentou para dar o golpe de estado foi o bem armado e imprevisível interventor no Rio Grande do Sul, Flores da Cunha, mas este não resistiu ao cerco de Getúlio e se refugiou no Uruguai, antes do golpe do Estado Novo (1937).[2]

Políticos da época, como o almirante Ernâni do Amaral Peixoto, que acompanhou de perto a implantação do Estado Novo e era genro de Getúlio, acreditavam que a implantação do Estado Novo não era obra particular de Getúlio, e viria, de uma forma ou de outra, porque, como mostra o preâmbulo da Constituição de 1937, transcrito acima, os militares não aceitavam a subversão reinante, no Brasil, naquela época. Afirmou Amaral Peixoto:

O Estado Novo viria com Getúlio, sem Getúlio ou contra Getúlio!
 
Almirante Ernâni do Amaral Peixoto.

A consolidação do poder de Getúlio[editar | editar código-fonte]

O único protesto armado contra a instalação do Estado Novo ocorreu em 11 de maio de 1938. Os integralistas, insatisfeitos com o fechamento da AIB (Ação Integralista Brasileira), invadiram o Palácio Guanabara, numa tentativa de deposição de Getúlio Vargas.

Esse episódio ficou conhecido como Levante Integralista e levou Getúlio a criar uma guarda pessoal, apelidada depois de "Guarda Negra".

Várias medidas se fizeram necessárias para Getúlio efetuar com facilidade o golpe de estado e se fortalecer no poder:

  1. Nomeação de interventores de estrita confiança para governarem os estados e que fossem bem relacionados em seus estados, sendo que, aos interventores, foi dada, por Getúlio, ampla autonomia administrativa.[3]
  2. Eliminação dos tenentes de 1930 como força política relevante e acima da hierarquia militar
  3. Disciplina e profissionalização das forças armadas
  4. Censura aos meios de comunicação realizada pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), o qual também fazia ampla propaganda a favor do Estado Novo.
  5. Desarmamento das polícias estaduais, que passaram a ter somente armas leves, especialmente a neutralização do bem armado interventor no Rio Grande do Sul Flores da Cunha que se exilou no Uruguai ainda antes de 10 de novembro de 1937.
  6. A renúncia, em 29 de dezembro de 1936, de Armando de Sales Oliveira, para poder se candidatar às eleições presidenciais marcadas para 1938 enfraqueceu muito a oposição a Getúlio Vargas, pois estando no governo de São Paulo, Armando Sales poderia opor resistência armada a um eventual golpe de estado.

A implantação do Estado Novo e sua política[editar | editar código-fonte]

Esse regime político recebeu o nome de Estado Novo, (nome inspirado na ditadura de António de Oliveira Salazar em Portugal), e durou até 29 de outubro de 1945, quando Getúlio foi deposto pelas Forças Armadas.[3]

Getúlio Vargas determinou o fechamento do Congresso Nacional e extinção dos partidos políticos.[1] Ele outorgou uma nova constituição, que lhe conferia o controle total do poder executivo e lhe permitia nomear interventores nos estados, aos quais, Getúlio deu ampla autonomia na tomada de decisões, e previa um novo Legislativo, porém nunca se realizaram eleições no Estado Novo.

Esta Constituição de 1937 tinha o apelido de "Polaca", (denominação usada para mostrar que a Constituição Brasileira de 1937 foi amplamente influenciada pela Constituição autoritária da Polônia), e, tinha depreciativamente, o mesmo apelido de uma zona de baixo meretrício no Rio de Janeiro). Na prática a Constituição de 1937 não vigorou, pois, Getúlio governou durante todo o Estado Novo através de decreto-lei e nunca convocou o plebiscito previsto na "Polaca".

A Constituição de 1937 substituiu a Constituição de 1934 que Getúlio não gostava e assim se expressou sobre ela, no 10º aniversário da revolução de 1930, em discurso de 11 de novembro de 1940:

Carmen Miranda foi içada a simbolo da Política de boa vizinhança entre os EUA e o Brasil. Uma das mais populares e carismáticas artistas brasileiras, Carmen chegou a ser associada a uma artista da América Latina. Acabou sendo o símbolo maior da cooperação cultural no continente americano através da musica e do cinema.[4]

[[Ficheiro:Adhemar de Barros e Edda Ciano Mussolini - 1939.jpg|thumb|250px|Edda Mussolini, filha de Benito Mussolini, é recebida por Ademar de Barros durante a sua visita à São Paulo, em1939. De princípio, o Estado Novo nutria uma simpatia com o nazi-fascismo.

Uma constitucionalização apressada, fora de tempo, apresentada como panaceia de todos os males, traduziu-se numa organização política feita ao sabor de influências pessoais e partidarismo faccioso, divorciada das realidades existentes. Repetia os erros da Constituição de 1891 e agravava-os com dispositivos de pura invenção jurídica, alguns retrógrados e outros acenando a ideologias exóticas.[1] Os acontecimentos incumbiram-se de atestar-lhe a precoce inadaptação!
 
Getúlio Vargas[5] .

Na versão de Francisco Campos que redigiu a "Polaca", esse foi o erro de Getúlio no Estado Novo: não ter instalado o Poder Legislativo, nem ter se legitimado pelo voto em plebiscito.

Como Francisco Campos afirmou que começara a redigir a nova constituição em 1936, suspeita-se que a decisão de dar um golpe de estado foi tomada logo depois da Intentona Comunista em novembro de 1935.[2]

O Estado Novo promovia grandes manifestações patrióticas, cívicas e nacionalistas e eram incentivados, pelo Departamento de Imprensa e Propaganda, os apelos patrióticos na imprensa e nos livros didáticos.

O Poder Judiciário não sofreu interferências significativas no Estado Novo, exceto nos casos de crimes políticos. Um poder judiciário relativamente independente é raro acontecer em regimes políticos fortes, também chamados de autoritários, como o Estado Novo.

O líder comunista Luís Carlos Prestes permaneceu preso durante todo o Estado Novo. Monteiro Lobato foi preso por ter enviado uma carta a Getúlio criticando a sua política em relação ao petróleo brasileiro. Monteiro Lobato queria que o governo explorasse esse recurso natural para o desenvolvimento do País.


Luís Carlos Prestes, devido a sua relação com o Comintern, durante o seu discurso no Estádio de São Januário, na cidade do Rio de Janeiro, em 1945, defendeu a continuação do governo de Getúlio Vargas pelos progressos alcançados durante sua gestão.

O Estado Novo, por sua vez, pouco podia atuar na questão do petróleo, pois era dependente dos investimentos em pesquisa das companhias estrangeiras de petróleo. Sendo essas pesquisas de alto risco e custo, e sendo, para as multinacionais, mais lucrativo manter sua hegemonia no ramo petrolífero. As empresas estrangeiras sustentavam que não existia petróleo no Brasil. Diante desta situação Getúlio Vargas decidiu criar, durante o Estado Novo, o Conselho Nacional do Petróleo (CNP) [6] [7] e, mais tarde, no seu governo constitucional de 1951-1954, criou a Petrobras, no ano de 1953.

Durante o Estado Novo foram presos tanto militantes da ANL (comunistas marxistas, durante a intentona comunista) quanto membros da AIB (nacionalistas, durante a "levante integralista" de 1938), assim como intelectuais vinculados a uma destas duas agremiações políticas como Graciliano Ramos, o Barão de Itararé e muitos outros intelectuais, seja por comunismo ou por simpatias pelo Fascismo, ou quem defendia a prospecção de petróleo no Brasil, como Monteiro Lobato, preso em 1941.[6]

Segundo acusações da oposição, muitos foram mantidos em cárcere ilegal, por vários meses e até anos, sem processo judicial nem acusação formal. Alguns nem sequer eram oposicionistas, mas foram vítimas de denúncias odiosas. O livro Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos é um duro relato do autor sobre suas experiências vividas no período em que ficou preso em Ilha Grande[desambiguação necessária], sob acusação de ligação com o partido comunista (PCB).

A imprensa foi censurada. O diário matutino O Estado de S. Paulo, de oposição ao PRP[desambiguação necessária], e que, apesar do nome, havia apoiado a Revolução de 1930, foi tomado à família Mesquita, pelo interventor paulista Ademar Pereira de Barros. O proprietário do jornal, Júlio de Mesquita Filho, exilou-se na Argentina, e até hoje o jornal O Estado de S. Paulo não conta os anos sob intervenção getulista em sua história oficial. O diário foi devolvido aos Mesquita em 1945.

Também foi iniciada a campanha de nacionalização para integrar os imigrantes e sua cultura a realidade nacional, diminuindo sua influência e buscando sua integração à população brasileira.

Filosofia e política sócio-cultural do Estado Novo[editar | editar código-fonte]

Algumas características do Estado Novo se parecem com o castilhismo do qual Getúlio era adepto. O castilhismo tinha três princípios básicos, que foram valorizados pelo Estado Novo:[1]

  • Escolha dos governantes baseado na sua pureza moral e não na sua representatividade popular.
  • Na política devem ser eliminadas as disputas político partidárias e valorizar só a virtude.
  • O governante deve regenerar a sociedade, e o Estado comandar a transformação e modernização da sociedade.

O Estado Novo, pelo contrário, buscou-se, pela primeira vez na história do Brasil, uma identidade nacional. O conceito de "antropofagia cultural" manifestado pela Semana de Arte Moderna, em São Paulo no ano de 1922, foi ampliado durante o Estado Novo através do SPHAN, planejado por Mário de Andrade e tendo como colaboradores intelectuais do porte de Carlos Drummond de Andrade, Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e Cândido Portinari.[3] Cunharam eles, pela primeira vez, a identidade racial brasileira como sendo a mistura das três raças, de três culturas, gerando uma cultura única, moderna e brasileira.

O Brasil, durante o Estado Novo, abrigou muitos judeus perseguidos pelos regimes nazi-fascista europeus, tendo o cônsul do Brasil na Alemanha (1938-1942) João Guimarães Rosa sido homenageado postumamente pelo governo de Israel na década de 1980.[2]

O Brasil foi a única nação sul-americana fundadora da Liga das Nações (1918) e da ONU (1945), mantendo-se assim, sua tradicional política externa favorável a soluções negociadas de conflitos.

A modernização do Estado, das leis e das instituições[editar | editar código-fonte]

Entre 1937 e 1945, duração do Estado Novo, Getúlio Vargas deu continuidade à reestruturação do estado e profissionalização do serviço público, criando o Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Foram abolidos os impostos nas fronteiras interestaduais, já em 1931, e foi modernizado e ampliado o imposto de renda. Criado o Código de Minas e a Lei de Falências.

Orientou-se cada vez mais para a intervenção estatal na economia e para o nacionalismo econômico, e provocou um forte impulso à industrialização.

Adotou a centralização administrativa como marca para criar uma burocracia estatal ampliada e profissionalizada, até então inexistente. Um exemplo disto, é que o número de leis, decretos e decretos-lei baixados por Getúlio Vargas é muito maior que o número de todos os diplomas legais baixados na República Velha.

Em 1944, surge a Fundação Getúlio Vargas com o objetivo inicial era preparar pessoal qualificado para a administração pública e privada brasileira.

O Exército Brasileiro foi finalmente disciplinado deixando de ocorrer rebeliões e indisciplinas tão comuns até então.

Foram criados, nesse período, O Ministério da Aeronáutica e o Conselho Nacional do Petróleo (CNP) que depois daria origem à Petrobras em 1953.

Foram criadas ainda a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a Companhia Vale do Rio Doce, a Companhia Hidrelétrica do São Francisco e a Fábrica Nacional de Motores (FNM), inicialmente destinada a produzir motores de aviões, dentre outros.

Foi criada uma nova moeda nacional, o cruzeiro, idealizado quando Getúlio fora ministro da Fazenda. Em 1943, foi feita uma reforma ortográfica, simplificando a grafia da língua portuguesa.

Foi construída e entregue a estrada Rio-Bahia, a primeira ligação rodoviária entre o centro-sul e o nordeste do Brasil. Foi feito o saneamento da baixada fluminense.

Decretou o Código Penal e o Código de Processo Penal Brasileiro e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), todos até hoje em vigor.

Getúlio Vargas criou a carteira de trabalho, a Justiça do Trabalho, o salário mínimo, a estabilidade do emprego depois de dez anos de serviço (revogada em 1966), substituída pelo Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), e o descanso semanal remunerado.

Regulamentou o trabalho dos menores de idade, da mulher e o trabalho noturno. Fixou a jornada de trabalho em oito horas diárias de serviço e ampliou o direito à aposentadoria a todos os trabalhadores urbanos.

Durante o Estado Novo, deu-se a rápida e eficiente colonização e povoamento do Norte do Paraná por empresas privadas de colonização, e da região de Dourados. Foram criadas colônias militares nas fronteiras do Brasil.

Em 1943, foram criados territórios federais nas fronteiras, para o desenvolvimento do interior do Brasil, ainda praticamente despovoado.

Criaram-se então os territórios federais do Amapá, do Rio Branco, hoje Roraima, do Guaporé, hoje Rondônia, de Ponta Porã e do Iguaçu. Estes dois últimos não prosperaram, sendo reintegrados aos estados de origem (respectivamente, Mato Grosso - hoje Mato Grosso do Sul e Paraná).

Segunda Guerra Mundial e declínio[editar | editar código-fonte]

Segunda Guerra[editar | editar código-fonte]

[[Imagem:Vargas-com-Roosevelt.jpg|thumb|right|250px|Getúlio Vargas (centro) e Roosevelt (à direita) - ambos de chapéu panamá - durante a Conferência de Natal. Janeiro de 1943. Agência Brasil.]]

Com o início da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939, Getúlio Vargas e os militares mantiveram um posicionamento neutro até 1941. Enquanto a opinião pública se dividia: havia simpatia pelos países do Eixo Itália-Alemanha-Japão entre boa parte dos imigrantes daqueles países e integralistas, por outro lado a maioria dos afro-descendentes e os comunistas (principalmente após a invasão da Rússia soviética em junho de 1941),[1] que por sua vez tinham grande poder de mobilização e influência na imprensa, simpatizavam com os aliados. Durante este período Getúlio chegou a escrever em seu diário:

Parece-me que os americanos querem nos arrastar à guerra, sem que isso seja de utilidade, nem para nós, nem para eles!
 
Getúlio Vargas[8] .


No mês de janeiro de 1942, durante a conferência pan-americana no Rio de Janeiro, a maioria dos países do continente decidiu por condenar os ataques japoneses aos Estados Unidos em 7 de dezembro de 1941, e romper relações diplomáticas com os países do Eixo: Alemanha, Itália e Japão, em 21 de janeiro de 1942.

Os EUA tinham planos para se necessário invadir a região Nordeste do Brasil, caso o Brasil não cedesse à utilização de bases aero-navais no norte do país, cessão esta que na prática tornaria a neutralidade do país letra morta.[9] [10] Mas a execução de tal plano não se fez necessária, até porque, com ou sem o conhecimento de Vargas, os militares brasileiros desde 1934 já previam na ocorrência de novo conflito mundial, um "alinhamento cauteloso" aos EUA.[11] Também, o previsto bloqueio imposto pela marinha britânica à Alemanha e Itália, inviabilizou qualquer tipo de intercâmbio maior com estes países.

Assim, após muita negociação, Brasil e Estados Unidos acabaram assinando um acordo pelo qual o governo norte-americano se comprometeu a financiar a construção de uma grande usina siderúrgica brasileira - Companhia Siderúrgica Nacional - em Volta Redonda, estado do Rio de Janeiro, em troca da permissão para a instalação de bases militares e aeroportos nas regiões norte, nordeste e em Fernando de Noronha. Logo após, a marinha alemã foi autorizada por Berlim a estender a guerra submarina aos navios mercantes de bandeira brasileira, no que foi seguida pela marinha italiana, pondo fim de fato à neutralidade brasileira. No entanto, somente após 7 meses destes ataques e pressão popular para uma reação, foi que em 22 de agosto Getúlio declarou guerra à Alemanha nazista e à Itália fascista.[3]

Os aliados precisavam muito de borracha, pois a partir da ocupação japonesa do sudeste asiático já não podiam contar mais com vital suprimento da mesma vinda daquela região. Assim, houve no Brasil uma grande migração de nordestinos para a Amazônia para extrair o látex da borracha, que foram carinhosamente apelidados de "soldados da borracha", mobilização esta que revitalizou a economia da região naqueles anos, que se encontrava estagnada desde o fim do 1º ciclo da borracha décadas antes.

Em 28 de janeiro de 1943, Vargas e Franklin Delano Roosevelt (presidente dos Estados Unidos) participaram da Conferência de Natal, onde ocorreram os primeiros acordos que resultaram na criação da FEB em agosto, um ano após a declaração de guerra. Devido a esta demora e hesitação do governo em mobilizar os efetivos para participar concretamente da luta,[12] à medida que os aliados iam avançando em todas as frentes, dizia-se à em referência a isto, relembrando a praticamente simbólica participação brasileira no conflito mundial anterior que seria "mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil ir de fato à guerra na Europa", antes que a mesma terminasse.[2]

No entanto, "A cobra fumou", os pracinhas, como ficaram conhecidos os membros da Força Expedicionária Brasileira, que em 1945 perfizeram 25 mil homens, de um total inicialmente estimado, (em fins de 1942), em 200.000, finalmente foram enviados a partir de julho de 1944, para combater na Itália, onde lutaram de setembro do mesmo ano ao fim do conflito na Europa, que se deu em 8 de maio de 1945.[2]

O declínio e o fim do Estado Novo[editar | editar código-fonte]

Entre os pracinhas da FEB, havia oito estudantes de Direito da Universidade de São Paulo, participantes de manifestações pacíficas de oposição a Getúlio, como a Passeata do Silêncio, em que desfilaram com mordaças negras para simbolizar a falta de liberdade de expressão. "Fomos convocados por castigo — como se pudesse ser um castigo servir ao Brasil!", escreveu um desses estudantes, Geraldo Vidigal, no livro O Aprendiz de Liberdade — do Centro XI de Agosto à Segunda Guerra Mundial.[1] A função desses estudantes na guerra: desarmar minas terrestres antes que os tanques passassem.

O próprio Getúlio, no Diário, em 27 de janeiro de 1942, já demonstrava reservas quanto ao futuro do Estado Novo afirmando que:

Devo confessar que me invade uma tristeza. Grande parte desses elementos que aplaudem esta atitude (romper relações diplomáticas com a Alemanha), alguns poucos que até me caluniam, são os adversários do regime que fundei (o Estado Novo), e chego a duvidar que possa consolidá-lo para passar tranquilamente o governo ao meu substituto.
 
Getúlio Vargas.

Em 1943 ocorre o primeiro protesto organizado contra o Estado Novo, em Minas Gerais, chamado Manifesto dos Mineiros, redigido e assinado por advogados mineiros, muitos dos quais se tornariam influentes juristas e importantes próceres políticos da UDN, como José de Magalhães Pinto.

Um ferrenho opositor do Estado Novo, foi o escritor Monteiro Lobato que chegou a ser preso e acusava Getúlio de não deixar os brasileiros procurarem petróleo livremente.

Com a aproximação do término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, as pressões em prol da redemocratização ficam mais fortes.

A entrevista, em 22 de fevereiro de 1945, de José Américo de Almeida a Carlos Lacerda, publicada no Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, marca o fim da censura à imprensa no Estado Novo e simbolizou o enfraquecimento e queda do Estado Novo.

Apesar de algumas medidas tomadas como a definição, em 28 de maio de 1945, de uma data para as eleições presidenciais (2 de dezembro), a anistia a Luís Carlos Prestes e outros presos políticos, a liberdade de organização partidária, e o compromisso de fazer eleger uma nova Assembleia Constituinte, a pressão para que Getúlio renunciasse continuava forte.[3]

Surge, então, liderado pelo empresário Hugo Borghi, um movimento de apoio a Getúlio, que recebeu a alcunha de "Queremismo" com os lemas: "Queremos Getúlio" e "Constituinte com Getúlio", que visava a que Getúlio continuasse no poder até a promulgação de uma nova constituição, mas isto não ocorreu.

Getúlio Vargas foi deposto em 29 de outubro de 1945, por um movimento militar liderado por generais que compunham seu próprio ministério e que pôs fim ao Estado Novo. Renunciou formalmente ao cargo de presidente da república, no qual se mantivera desde 1930, quando assumiu o governo do Brasil como chefe do Governo Provisório da Revolução de 1930, o qual durou até 1934, de 1934 a 1937 como presidente eleito pelo Congresso Nacional,[3] e de 1937 até 1945, como chefe do Estado Novo, o qual foi implantado após o período de instabilidade política gerada pela Intentona Comunista e pelo Plano Cohen.[2]

O estopim para a ação militar foi a nomeação de um irmão de Getúlio, Benjamim Vargas para chefe da polícia do Rio de Janeiro.

Getúlio foi substituído pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, porque na Constituição de 1937 não existia a figura do vice-presidente. E este presidente interino, José Linhares, ficou três meses no cargo até passar o poder ao presidente eleito em 2 de dezembro de 1945, Eurico Gaspar Dutra.

Uma valiosa para a vitória eleitoral de Eurico Dutra veio de Hugo Borghi, que distribuiu milhares de panfletos acusando o candidato Eduardo Gomes de ter dito:

Não preciso dos votos dos marmiteiros.

Referências

  1. a b c d e f g Ana Paula Corti (28 de setembro de 2005). Estado Novo (1937-1945): A ditadura de Getúlio Vargas (em português) UOL - Educação. Página visitada em 10 de novembro de 2012.
  2. a b c d e f Rainer Sousa. Era Vargas – Estado Novo (em português) R7. Brasil Escola. Página visitada em 10 de novembro de 2012.
  3. a b c d e f Estado Novo no Brasil (em português) Porto Editora. Infopádia. Página visitada em 10 de novembro de 2012.
  4. Maria Celina Soares D'Araujo, O Estado Novo, pág.39
  5. VARGAS, Getúlio, A nova política do Brasil, Volume 8, José Olympio Editora, 1940,
  6. a b MONTEIRO LOBATO, José Bento Renato. O escândalo do petróleo. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1ª EDIÇÃO, 1936.
  7. MONTEIRO LOBATO, José Bento Renato. Carta ao Presidente Getúlio Vargas. São Paulo: São Paulo, 20 de janeiro de 1935
  8. VARGAS GETULIO, Diário, volume II, página 451, Siciliano, FGV, 1997
  9. ISTOÉ - EUA planejavam tomar o País caso Getúlio não entrasse na guerra contra os nazistas] Istoe.com.br. Página visitada em 17 de Novembro de 2010.
  10. DW-World O Pentágono quis invadir o Brasil. Página visitada em 17 de Novembro de 2010.
  11. Frank McCann; "Soldados da Pátria: História do exército brasileiro, 1889-1937" Cia das Letras 2007 ISBN 8535910840 Págs 445 a 448
  12. Fernando Morais; "Chatô, rei do Brasil" Cia das Letras, 1994 Páginas 431 a 434

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Ver artigo principal Bibliografia sobre Getúlio Vargas.
  • BERTONHA, João Fábio, O Fascismo e os Imigrantes Italianos no Brasil, Porto Alegre, EdiPUC, RS.
  • DALMÁZ, Mateus. A Imagem do Terceiro Reich na Revista do Globo (1933-1945), Porto Alegre:, EdiPUC, RS.
  • GARCIA, Nelson Jahr, Estado Novo - Ideologia e propaganda política, São Paulo, Loyola, 1982.
  • HENRIQUES, Affonso, Vargas e o Estado Novo, Sp, 1964.
  • LOBATO, José Bento Monteiro, O escândalo de petróleo, Ed. Brasiliense, 1956.
  • SILVA, Hélio, 1937 - Todos os Golpes Se Parecem , Editora Civilização Brasileira, 1970.
  • VARGAS, Getúlio Dorneles, A nova política do Brasil, José Olympio Editora, 1939.

Ver também Bibliografia no artigo Getúlio Vargas.

Ver também[editar | editar código-fonte]