Platão

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Platão
Πλάτων
Busto de Platão
Cópia em mármore do busto de Platão feito por Silanião, ca. 370
Nome completo Πλάτων
Nascimento 428/427 a.C.
Atenas, Grécia Antiga
Morte 348/347 a.C.
Atenas
Influências
Influenciados
Escola/tradição Platonismo
Principais interesses Retórica, Arte, Literatura, Epistemologia, Justiça, Virtude, Política, Educação, Militarismo, Filosofia

Platão (em grego antigo: Πλάτων, transl. Plátōn, "amplo",[1] Atenas,[nota 1] 428/427[nota 2] – Atenas, 348/347 a.C.) foi um filósofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga, autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia em Atenas, a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental. Juntamente com seu mentor, Sócrates, e seu pupilo, Aristóteles, Platão ajudou a construir os alicerces da filosofia natural, da ciência e da filosofia ocidental.[10] Acredita-se que seu nome verdadeiro tenha sido Arístocles[11] .

Vida[editar | editar código-fonte]

Origem[editar | editar código-fonte]

A mãe de Platão era Perictíone, cuja família gabava-se de um relacionamento com o famoso ateniense legislador e poeta lírico Sólon[12] . Perictíone era irmã de Cármides e sobrinha de Crítias, ambas as figuras proeminentes na época da Tirania dos Trinta, a breve oligarquia que se seguiu sobre o colapso de Atenas no final da Guerra do Peloponeso (404–403 a.C).[13] Além do próprio Platão, Aristão e Perictíone tiveram outros três filhos, estes foram Adimanto e Glaucão, e uma filha Potone, a mãe de Espeusipo (então o sobrinho e sucessor de Platão como chefe de sua Academia filosófica).[13] De acordo com A República, Adimanto e Glaucão eram mais velhos que Platão.[14] No entanto, em Memorabilia, Xenofonte apresenta Glaucão como sendo mais novo que Platão.[15]

Aristão[16] parece ter morrido na infância de Platão, embora a data exata de sua morte seja desconhecida[17] . Perictíone então casou-se com Perilampes, irmão de sua mãe[18] que tinha servido muitas vezes como embaixador para a corte persa e era um amigo de Péricles, líder da facção democrática em Atenas.[19]

Em contraste com a sua reticência sobre si mesmo, Platão muitas vezes introduziu seus ilustres parentes em seus diálogos, ou a eles referenciou com alguma precisão: Cármides tem um diálogo com o seu nome; Crítias fala tanto em Cármides quanto em Protágoras e Adimanto e Glaucão têm trechos importantes em A República.[20] Estas e outras referências sugerem uma quantidade considerável de orgulho da família e nos permitem reconstruir a árvore genealógica de Platão. De acordo com Burnet, "a cena de abertura de Cármides é uma glorificação de toda [família] ligação... os diálogos de Platão não são apenas um memorial para Sócrates, mas também sobre os dias mais felizes de sua própria família."[21] .

Infância e juventude[editar | editar código-fonte]

Platão nasceu em Atenas[22] , provavelmente em 427-428 a.C.[23] ,( no sétimo dia do mês Thargêliốn[24] ), cerca de um ano após a morte do estadista Péricles[23] , e morreu em 348 a.C.[23] (no primeiro ano da 108a Olimpíada[25] ).

A data tradicional do nascimento de Platão (428/427) é baseada em uma interpretação dúbia de Diógenes Laércio que diz "Quando Sócrates foi embora, Platão se juntou a Crátilo e Hermógenes, que filosofou a maneira de Parmênides. Então, aos vinte e oito anos, Hermodoro diz, Platão foi para Euclides em Megara."[26] .Em sua Sétima Carta, Platão observa que a sua idade coincidiu com a tomada do poder pelos Trinta Tiranos, comentando: "Mas um jovem com idade inferior a vinte seria motivo de chacota se tentasse entrar na arena política". Assim, a data de nascimento de Platão seria 424/423[26] .

De acordo com Diógenes Laércio, o filósofo foi nomeado Aristócles como seu avô, mas seu treinador de luta, Aristão de Argos, o apelidou de Platon, que significa "grande", por conta de sua figura robusta.[27] De acordo com as fontes mencionadas por Diógenes (todos datam do período alexandrino), Platão derivou seu nome a partir da "amplitude" (platytês) de sua eloquencia, ou então, porque possuía a fronte (platýs) larga.[28] Estudiosos recentes têm argumentado que a lenda sobre seu nome ser Aristocles originou-se no período helenístico.[29] Platão era um nome comum, dos quais 31 casos são conhecidos apenas em Atenas.[30] A juventude de Platão transcorre em meio a agitações políticas e a desordens devido à Guerra do Peloponeso, a instabilidade política reina na cidade de Atenas que é tomada pela Oligarquia dos Quatrocentos e assim submete-se ao governo dos Trinta Tiranos.[31]

Apuleio nos informa que Espeusipo elogiou a rapidez mental e a modéstia de Platão como os "primeiros frutos de sua juventude infundidos com muito trabalho e amor ao estudo".[32] Platão deve ter sido instruído em gramática, música e ginástica pelos professores mais ilustres do seu tempo.[33] Dicearco foi mais longe a ponto de dizer que Platão lutou nos jogos de Jogos Ístmicos.[34] Platão também tinha frequentado cursos de filosofia, antes de conhecer Sócrates, primeiro ele se familiarizou com Crátilo (um discípulo de Heráclito, um proeminente filósofo grego pré-socrático) e as doutrinas de Heráclito.[35]

Afastamento da política e primeira viagem[editar | editar código-fonte]

A execução de Sócrates em 399 abalou Platão profundamente, ele avaliou essa ação do Estado como uma depravação moral e evidência de um sistema político defeituoso.
Platão e Sócrates, representação medieval

Após o término da guerra em Atenas, cerca de 404, auxiliado pelo reinado espartano vitorioso, o terror da Tirania dos Trinta começou, o que incluía parentes de Platão: o primo e o irmão de sua mãe, Crítias e Cármides, participaram do governo,[31] ele foi convidado a participar da vida política, mas recusou porque considerou o então regime criminoso.[36] Mas, a situação política após a restauração da democracia ateniense em 403 também o desagradou, um ponto de viragem na vida de Platão foi a execução de Sócrates em 399, que o abalou profundamente, ele avaliou a ação do Estado contra seu professor, como uma expressão de depravação moral e evidência de um defeito fundamental no sistema político. Ele viu em Atenas a possibilidade e a necessidade de uma maior participação filosófica na vida política e tornou-se um crítico agudo. Essas experiências levaram-no a aprovar a demanda por um estado governado por filósofos.[37]

Depois de 399, Platão foi para Megara com alguns outros socráticos, como hóspedes de Euclides (provavelmente para evitar possíveis perseguições que lhe poderiam sobrevir pelo fato de ter feito parte do círculo socrático). Diógenes Laércio conta "foi a Cirene, juntar-se a Teodoro, o matemático, depois à Itália, com os pitagóricos Filolau e Eurito. E daí para o Egito, avistar-se com os profetas, ele tinha decidido encontrar-se também com os magos, mas a guerras da Ásia o fez renunciar a isso", [38] é posto em dúvida se Platão foi mesmo ao Egito, há evidências de que a estadia foi inventada no Egito, para aproximar Platão à tradição de sabedoria egípcia.[39] [40]

Primeira viagem à Sicília[editar | editar código-fonte]

Por volta de 388 Platão empreendeu sua primeira viagem para a Sicília.[41] Em Taranto, Platão conheceu os pitagóricos, e o mais proeminentes e politicamente bem sucedido entre eles o estadista Arquitas que o hospedou e protegeu, a mais famosa fonte da história do resgate de Platão por Arquitas está na Sétima Carta, onde Platão descreve seu envolvimento nos incidentes de seu amigo Dion de Siracusa e Dionísio I, o tirano de Siracusa,[42] Platão esperava influenciar o tirano sobre o ideal do rei-filósofo (exposto em Górgias, anterior à sua viagem), mas logo entrou em conflito com o tirano e sua corte, mesmo assim cultivou grande amizade com Díon[43] , parente do tirano, a quem pensou que este pudesse ser um discípulo capaz de se tornar um rei-filósofo.[44] Dionísio I se irritou tanto com Platão a ponto de vendê-lo como escravo[nota 3] a um embaixador espartano de Egina, felizmente tendo sido resgatado por Anicérides de Cirene, que estava em Egina[45] , ou ainda, o navio em retornava foi capturado por espartanos o que o fez se mantido como um escravo.[46]

Este relatos sobre a primeira estadia em Siracusa são em grande parte controversos, os historiadores tradicionais consideram os detalhes do encontro entre Platão e o tirano e posterior ruptura com ceticismo.[47] [48] Em todo caso, Platão teve contato com Dionísio e o resultado foi desfavorável para o filósofo já que sua sinceridade parece ter irritado o governante.[49]

Fundação da escola e ensino[editar | editar código-fonte]

A Academia de Platão em Atenas
Mosaico em Pompéia, ca. séc. I

Depois de sua primeira viagem à Sicília, por volta de 388 a.C, aos 40 anos, decepcionado com o luxo e os costumes da corte de Dionísio I de Siracusa e de lá é expulso, Platão compra um ginásio perto de Colona, a nordeste de Atenas, nas vizinhanças de um bosque de oliveiras em homenagem ao heroi Academo. Ele amplia a propriedade e constrói alojamentos para os estudantes.[50]

Os membros da Academia não eram estudantes no sentido moderno da palavra, aos jovens, juntavam-se também anciãos; provavelmente todos deviam contribuir para o financiamento das despesas; ademais, o objetivo último da Academia era o saber pelo seu valor ético-político.[51]

Durante duas décadas, Platão assumiu suas funções na Academia e escreveu, nesse período, os diálogos chamados "da maturidade": Fédon, Fedro, Banquete, Menexêno, Eutidemo, Crátilo; começou também a redação de República.[52]

Segunda viagem à Sicília[editar | editar código-fonte]

Em 366/367, com a morte de Dionísio e encorajado por Dion, Platão transmite a direção da Academia a Eudóxio e retorna à Sicília. [52] O velho Dionísio morrera em 367, logo após ter sabido que sua peça O resgate de Heitor, tinha recebido o primeiro prêmio no festival das Lenaias em Atenas. Seu filho Dionísio II sucedeu-lhe o trono e Dion era seu conselheiro. Dion teve trabalho em convencer Platão a voltar para Siracusa, ele insistiu com argumentos como a paixão do jovem tirano pela filosofia e educação e que a morte do velho tirano poderia ser o "destino divino" necessário para que enfim se realizasse a felicidade de um povo livre sob boas leis. Platão por fim, embarcou em 366, para sua segunda viagem à Sicília.[53]

No início a influência de Platão sobre Dionísio II teve algum progresso, mas pouco durou, o jovem era um pouco rude e não possuía o vigor mental para aguentar um prolongado tratamento educacional, além de ser, pessoalmente desagradável. Invejoso da influência de Dion e de sua amizade com Platão, o obrigou a se exiliar, Platão então regressou a Atenas.[23]

Terceira viagem à Sicília[editar | editar código-fonte]

Em 361 a.C, Platão viaja novamente para Siracusa com seus alunos Espeusipo e Xenócrates em um navio enviado por Dionísio II,[54] numa tentativa final de pôr ordem as coisas. Passou quase um ano tentando elaborar algumas medidas práticas para unir os gregos da Sicília em face do perigo cartaginês. No final, a má vontade da facção conservadora provou ser um obstáculo insuperável.[55] Platão conseguiu partir para Atenas em 360, não sem antes correr algum perigo de vida. Em seguida, Dion recuperou sua posição à força, mas apesar de advertências de Platão, mostrou-se um governante imprudente e acabou assassinado. Ainda assim, Platão incitou os seguidores de Dion a prosseguirem com a antiga política, mas os seus conselhos não foram ouvidos. O destino final da Sicília foi ser conquistada pelos estrangeiros, como Platão previra.[23]

Platão escreveu sobre a morte de seu amigo comparando-o a um navegante que antecipa corretamente uma tempestade mas subestima sua força de destruição: "que eram perversos os homens que o puseram por terra, ele sabia, mas não a extensão de sua ignorância, de sua depravação e avidez"[56] [23]

Velhice e morte[editar | editar código-fonte]

Ao regressar em 360, Platão voltou a ensinar e escrever na Academia permanecendo como um autor ativo até o fim da vida[23] em 348/347 a.C. aos oitenta anos de idade;[31] conta-se que fora sepultado no terreno da Academia, para dentro do muro de demarcação da propriedade, [57] ou ainda no jardim da Academia.[58] Com sua morte a academia passou a ser dirigida por Espeusipo forte simpatizante do aspecto matemático da filosofia de Platão.[23]

Obra[editar | editar código-fonte]

Parte de P.Oxy. LII 3679, com trecho da República, de Platão.

Houve um período na Idade Média em que quase todas as suas obras eram desconhecidas, mas, antes disso e depois da redescoberta de seus textos (Petrarca no século XIV tinha um manuscrito de Platão), ele foi lido e tomado como ponto de referência.[59]

Tradição e autenticidade[editar | editar código-fonte]

Todas as obras de Platão que eram conhecidos na antiguidade foram preservadas, com exceção da palestra sobre o bem, a partir do qual houve um pós-escrito de Aristóteles, se encontra perdida. Há também obras que foram distribuídas sob o nome de Platão, mas possivelmente ou definitivamente não são genuínas, elas também pertencem ao Corpus Platonicum (o conjunto das obras tradicionalmente atribuída a Platão), apesar de sua falsidade ser reconhecida mesmo nos tempos antigos. Um total de 47 obras são reconhecidas por terem sido escritas por Platão ou para o qual ele tomado como o autor.[60]

O Corpus platonicum é constituído de diálogos (incluindo Crítias de final inacabado), a Apologia de Sócrates, uma coleção de 13 cartas[59] e uma coleção de definições, o Horoi. Fora do corpus há uma coleção de dieresis, mais duas cartas, 32 epigramas e um fragmento de poema (7 hexâmetros) que com exceção de uma parte desses poemas, não são obras de Platão.[61]

É importante notar que na Antiguidade, vários diálogos considerados como falsamente atribuídos a Platão eram considerados genuínos, e alguns desses fazem parte do Canon de Trásilo, um filósofo e astrólogo alexandrino que serviu na corte de Tibério. Trásilo organizou os Diálogos de modo sistemático em nove grupos, chamados de Tetralogias,[62] , cujos escritos foram aceitos como de Platão.[63] Segundo Diógenes Laércio(III, 61), se encontravam na nona tetralogia "uma carta a Aristodemo [de fato a Aristodoro]" (X), duas a Arquitas (IX, XII), quatro a Dionísio II (I, II, III, IV), uma a Hérmias, Erastos e Coriscos (VI), uma a Leodamas (XI), uma a Dion (IV), uma a Perdicas (V) e duas aos parentes de Dion (VII, VIII)". [64] Trásilo criou a seguinte organização:[65]

  1. Eutífron
  2. Apologia
  3. Críton
  4. Fédon
  1. Crátilo
  2. Teeteto
  3. Sofista
  4. Político
  1. Parmênides
  2. Filebo
  3. O Banquete
  4. Fedro
  1. Alcibíades I
  2. Alcibíades II
  3. Hiparco
  4. Amantes Rivais
  1. Teages
  2. Cármides
  3. Laques
  4. Lísis
  1. Eutidemo
  2. Protágoras
  3. Górgias
  4. Mênon
  1. Hípias menor
  2. Hípias maior
  3. Íon
  4. Menexêno
  1. Clitofon
  2. A República
  3. Timeu
  4. Crítias
  1. Minos
  2. Leis
  3. Epínomis
  4. Epístolas

Forma literária[editar | editar código-fonte]

Com exceção de Epístolas e Apologia todas as outras obras não foram escritas em forma de poemas didáticos ou tratados - como eram escritos a maioria dos escritos filosóficos, - mas em forma de diálogos, a Apologia contém passagens ocasionais de diálogos, onde há um personagem principal, Sócrates e diferentes interlocutores em debates filosóficos separados por inserções e discursos indiretos, digressões ou passagens mitológicas. Além disso, outros alunos de Sócrates como Xenofonte, Ésquines, Antístenes, Euclides de Megara e Fédon de Elis têm obras escritas na forma de diálogo socrático (Σωκρατικοὶ λόγοι Sokratikoì logoi).[66]

Platão foi certamente o representante desse gênero literário muito superior a todos os outros e, mesmo, o único representante, pois comenta neles se pode reconhecer a natureza autêntica do filosofar socrático que nos outros escritores degenerou em maneirismos.[39] ; assim, o diálogo, em Platão é muito mais que um gênero literário, é sua forma de fazer filosofia.[67] Nem todos os trabalhos no Corpus de Platão são diálogos. A Apologia parece ser o relatória da defesa de Sócrates e seu julgamento e Menêxeno é um pronunciamento para funeral. As treze cartas são ditas serem de Platão mas a maioria são rejeitadas pelos pesquisadores modernos como sendo ilegítimas. A Sétima Carta ou Carta VII é uma das mais importantes cuja disputa permanece por dois motivos: (a) oferece detalhes biográficos de Platão e (b) coloca afirmações filosóficas sem paralelos em outros diálogos. Provavelmente a Sétima Carta é uma obra ilegítima e portanto não é uma fonte confiável para a biografia e filosofia de Platão.[48]

Cronologia[editar | editar código-fonte]

A questão da cronologia ainda continua a gerar opiniões conflitantes. Análises estilométricas[68] dos diálogos demonstram que eles podem ser agrupados em três categorias definidas como obras do período Inicial, Médio e Tardio, embora exista este consenso comum, não há nenhum consenso sobre a ordem que as obras devem figurar em seus respectivos grupos. Outro método usado para determinar a ordem cronológica dos diálogos se baseia na conexão entre os vários trabalhos. Os estudiosos têm usado a evidência de pontos de vista filosóficos similares nos diálogos para sugerir uma ordem cronológica interna. As referências textuais dentro dos diálogos também ajudam a construir uma cronologia, ainda há pouquíssimos casos de um diálogo se referir a outro. Finalmente, a cronologia pode ser determinada a partir do testemunho de fontes antigas.[69]

Filosofia[editar | editar código-fonte]

Platão, em detalhe da Escola de Atenas, de Rafael Sanzio (c. 1510). Satanza della Segnatura. Palácio Apostólico, Vaticano.

Para Reale, os três grandes pontos focais da filosofia de Platão são a Teoria das Idéias, dos Princípios e do Demiurgo. A obra Fédon engloba todo o quadro da metafísica platônica e enfatiza essas três teorias, mas Platão advertiu os leitores de sua obra sobre a dificuldade existente em compreê-las.[70]

Teoria das Ideias[editar | editar código-fonte]

A Teoria das Ideias ou Teoria das Formas afirma que formas (ou ideias) abstratas não-materiais (mas substanciais e imutáveis) é que possuem o tipo mais alto e mais fundamental da realidade e não o mundo material mutável conhecido por nós através da sensação.[71] Em uma analogia de Reale, as coisas que captamos com os "olhos do corpo" são formas físicas, as coisas que captamos com os "olhos da alma" são as formas não-físicas;[72] o ver da inteligência capta formas inteligíveis que são as essências puras. As Ideias são as essências eternas do bem, do belo etc. Para Platão há uma conexão metafísica entre a visão do olho da alma e o objeto em razão do qual tal visão não existe.[73] Este "mais real do que o que vemos habitualmente" é descrito em sua Alegoria da caverna.[74]

Epistemologia[editar | editar código-fonte]

Muitos têm interpretado que Platão afirma — e mesmo foi o primeiro a escrever — que conhecimento é crença verdadeira justificada, uma visão influente que informou o desenvolvimentos futuro da epistemologia.[75] Esta interpretação é parcialmente baseada na uma leitura do Teeteto no qual Platão argumenta que o conhecimento se distingue da mera crença verdadeira porque o conhecedor deve ter uma "conta" do objeto de sua ou sua crença verdadeira (Teeteto 201C-d). E essa teoria pode novamente ser visto no Mênon, onde é sugerido que a crença verdadeira pode ser aumentada para o nível de conhecimento, se está ligada a uma conta quanto à questão do "por que" o objeto da verdadeira crença é assim definido (Mênon 97d-98a).[76] Muitos anos depois, Edmund Gettier demonstraria os problemas das crenças verdadeiras justificadas no contexto do conhecimento.[77] [78]

Dialética[editar | editar código-fonte]

A dialética de Platão não é um método simples e linear, mas um conjunto de procedimentos, conhecimentos e comportamentos desenvolvidos sempre em relação a determinados problemas ou "conteúdos" filosóficos.[79] O papel de dialética no pensamento de Platão é contestada, mas existem duas interpretações principais, um tipo de raciocínio e um método de intuição.[80] Simon Blackburn adota o primeiro, dizendo que a dialética de Platão é "o processo de extrair a verdade por meio de perguntas destinadas a abrir o que já é implicitamente conhecida, ou de expor as contradições e confusões de posição de um oponente".[81] Uma interpretação semelhante foi colocada por Louis Hartz, que sugere que os elementos da dialética são emprestados a partir de Hegel.[82] De acordo com este ponto de vista, os argumentos contrários melhoraram a partir uns dos outros, e a opinião predominante é formada pela síntese de muitas idéias conflitantes ao longo do tempo. Cada nova idéia expõe uma falha no modelo aceito, e a substância epistemológica do debate se aproxima continuamente da verdade. Hartz é de uma interpretação teleológica no núcleo, em que os filósofos acabarão por esgotar o corpo de conhecimento disponível e, assim, alcançar o "fim da história". Karl Popper, por outro lado, afirma que a dialética é a arte da intuição para "visualizar os originais divinos, as formas ou idéias, de desvendar o grande mistério por trás do comum mundo das aparências do cotidiano do homem."[83]

Ética e justiça[editar | editar código-fonte]

Na República, Platão define a justiça como a vontade de um cidadão de exercer sua profissão e atingir seu nível pré-determinado e não interferir em outros assuntos,[84] Para que a justiça tenha alguma validade, ela terá que ser uma virtude e, portando, contribuidora de modo constitutivo para a boa vida de quem é justo.[85]

Na filosofia de Platão, é possível visualizar duas modalidades de justiça: uma, absoluta, e outra, relativa. A absoluta, ou divina, é a justiça perfeita que se reserva às almas no pós-morte e tem o caráter de recompensar o bem com o bem e o mal com o mal. A justiça relativa é a justiça humana que espelha-se nos princípios da alma e tenta dela se aproximar.[86] Platão situa a justiça humana como uma virtude indispensável à vida em comunidade, é ela que propicia a convivência harmônica e cooperativa entre os seres humanos em coletividade.[87]

Conceitos[editar | editar código-fonte]

Anima mundi[editar | editar código-fonte]

Considerada por Platão como o princípio do cosmos e fonte de todas as almas individuais, [88] o termo é um conceito cosmológico de uma alma compartilhada ou força regente do universo pela qual o pensamento divino pode se manisfestar em leis que afetam a matéria. O termo foi criado por Platão pela primeira vez na obra República[89] ou ainda na obra Timeu.[90]

Demiurgo[editar | editar código-fonte]

O uso filosófico e o substantivo próprio derivam do diálogo Timeu,[91] a causa do universo[92] , de acordo com a exigência de que tudo que sofre transformação ou geração (genesis) sofre-a em virtude de uma causa.[93] A meta perseguida pelo demiurgo platônico é o bem do universo que ele tenta construir[94] . Este bem é recorrentemente descrito em termos de ordem,[95] Platão descreve o demiurgo como uma figura neutra (não-dualista), indiferente ao bem ou ao mal, [39]

A escola platônica e legado[editar | editar código-fonte]

Apesar de sua popularidade ter flutuado ao longo dos anos, as obras de Platão nunca ficaram sem leitores, desde o tempo em que foram escritas.[96] O pensamento de Platão é muitas vezes comparado com a de seu aluno mais famoso, Aristóteles, cuja reputação, durante a Idade Média ocidental tão completamente eclipsada a de Platão que os filósofos escolásticos referiam-se a Aristóteles como "o Filósofo". No entanto, no Império Bizantino, o estudo de Platão continuou.

Os filósofos escolásticos medievais não tinham acesso à maioria das obras de Platão, nem o conhecimento de grego necessário para lê-los. Os escritos originais de Platão estavam essencialmente perdidos para a civilização ocidental, até que foram trazidos de Constantinopla no século de sua queda, por Gemisto Pletão. Acredita-se que Platão passou uma cópia dos diálogos platônicos para Cosme de Médici em 1438/39 durante o Conselho de Ferrara,[97] quando foi chamado para unificar as Igrejas grega e latina e então foi transferido para Florença onde fez uma palestra sobre a relação e as diferenças de Platão e Aristóteles, Pletão teria assim influenciado Cosme com seu entusiasmo.[98]

Durante a era pré-islâmico, estudiosos persas e árabes traduziram muito de Platão para o árabe e escreveu comentários e interpretações sobre Platão, Aristóteles e obras de outros filósofos Platonistas (ver Al-Farabi, Avicena, Averróis, Hunayn ibn Ishaq). Muitos desses comentários sobre Platão foram traduzidos do árabe para o latim e, como tal, influenciou filósofos escolásticos medievais.[99]

Filósofos ocidentais notáveis ​​continuaram a recorrer a obra de Platão desde aquela época. A influência de Platão tem sido especialmente forte em matemática e ciências. Ele ajudou a fazer a distinção entre a matemática pura e a matemática aplicada, ampliando o fosso entre a "aritmética", agora chamada de teoria dos números e "logística", agora chamada de aritmética. Ele considerou logística como apropriado para homens de negócios enquanto os homens de guerra "devem aprender a arte de números ou ele não vai saber como reunir suas tropas", e a aritmética era apropriada para os filósofos "porque precisa emergir do mar de mudanças e lançar mão do verdadeiro ser".[100]

Segundo Stephen Körner, o platonismo é tendêcia natural do matemático[101] , o que pode ser confirmado por nomes destacados de matemáticos que e reconhecem platônicos como Gottlob Frege, Bertrand Russel, A. N. Whitehead, Heinrich Scholz, Kurt Gödel, Alonzo Church, Georg Cantor etc. Partindo de [[Galileu, existe uma extensa tradição do platonismo fisicalista que vai até Werner Heisenberg, Roger Penrose, Frank Tipler, Stephen Hawking e muitos outros.[102]

O austríaco Kurt Gödel, responsável por alguns dos mais importantes resultados da Lógica Matemática do século XX, por exemplo, foi um platonista da velha escola, como Platão, Gödel acreditava na existência independente de formas matemáticas que ele identificou aos conceitos matemáticos, como os de conjuntos, número real etc.[103]

Leo Strauss é considerado por alguns como o principal pensador envolvido na recuperação do pensamento platônico em sua forma mais política e menos metafísica. Profundamente influenciado por Nietzsche e Heidegger, Strauss, no entanto rejeita a condenação de Platão e olha para seus diálogos como uma solução para o que todos os três pensadores reconhecem como "a crise do Ocidente".[104]

Hobbes considerou Platão como o melhor filósofo da Antiguidade clássica, pela razão de sua filosofia ter como como ponto de partida ideias, enquanto que Aristóteles partia de palavras. Para Hobbes, Platão estaria apto a elaborar uma filososia política por evitar conclusões falaciosas acerca do "o que é", "o que foi", "o que deveria ser".[105] [106]

Allan Kardec, no livro O Evangelho segundo o Espiritismo, explica porque Sócrates e Platão são precursores da idéia cristã e do espiritismo.[107]

No século XX, os metafísicos René Guénon e Frithjof Schuon, francês o primeiro e suíço-alemão o segundo, foram dois influentes autores que re-elaboraram e atualizaram em linguagem contemporânea o pensamento universal e perene de Platão, por eles visto como um eminente representante da Filosofia Perene. Nos livros de ambos, como em A Crise do Mundo Moderno e O Reino da Quantidade, de Guénon, e A Unidade Transcendente das Religiões[108] , Forma e Substância nas Religões[109] e O Homem no Universo, de Schuon, as ideias de Platão são expostas e discutidas em profundidade.

Notas

  1. Diógenes Laércio menciona que Platão "nasceu, segundo alguns escritores, em Egina, na casa de Fidíades, filho de Tales". Diógenes menciona como uma de suas fontes a História Universal de Favorino. De acordo com Favorino, Aristão, pai de Platão, e sua família, foram enviados por Atenas para fixarem-se como clerúquios (colonos mantendo sua cidadania ateniense) na ilha de Egina, de onde foram expulsos pelos espartanos após Platão nascer lá.[2] Nails indica, no entanto, que não há registro de qualquer expulsão de atenienses de Aegina por parte dos espartanos entre 431 e 411 a.C.[3] Por outro lado, no Tratado de Nicias, Egina foi silenciosamente deixada sob o controle de Atenas, e não foi até o verão de 411 a.C. que os espartanos invadiram a ilha. Egina é considerada como o local de nascimento de Platão também segunda a Suda.[4]
  2. O gramático Apolodoro argumenta, nas suas Crônicas, que Platão nasceu no primeiro ano da 88ª Olimpíada (427 a.C.), no sétimo dia do mês de Targélion; de acordo com esta tradição, o deus Apolo teria nascido neste dia.[5] De acordo com outro biógrafo seu, Neantes, Platão teria 84 anos de idade ao morrer.[5] De acordo com a versão de Neantes, Platão era seis anos mais novo que Isócrates, e teria portanto nascido no segundo ano da 87ª Olimpíada, ano da morte de Péricles (429 a.C.).[6] De acordo com a Suda, Platão teria nascido em Egina, na 88ª Olimpíada, em meio à fase preliminar da Guerra do Peloponeso, e teria vivido 82 anos.[4] Para o estudioso inglês do século XVI, sir Thomas Browne, Platão teria nascido de fato na 88ª Olimpíada;[7] o célebre platonista do Renascimento celebrava o nascimento de Platão no dia 7 de novembro.[8] Já para o filólogo alemão Ulrich von Wilamowitz-Moellendorff, Platão teria nascido quando Diótimos era arconte epônimo, mais especificamente entre 29 de julho de 428 a.C. e 24 de julho de 427 a.C.[9] O filólogo grego acredita que o filósofo teria nascido em 26 ou 27 de maio de 427 a.C., enquanto o filósofo britânico Jonathan Barnes estipula 428 a.C. como o ano de nascimento de Platão.[10] Já a filósofa americana Debra Nails alega que Platão teria nascido em 424/423 a.C.[8]
  3. Ou fora forçado a desembarcar em Egina que se encontrava em Guerra com Atenas e Platão tenha sido detido como escravo

Referências

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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Em português

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Em inglês
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Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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