Modernidade

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A modernidade costuma ser entendida como um ideário ou visão de mundo relacionada ao projeto empreendido a partir da transição teórica operada por Descartes, com a ruptura com a tradição herdada - o pensamento medieval dominado pela Escolástica - e o estabelecimento da autonomia da razão, o que teve enormes repercussões sobre a filosofia, a cultura e as sociedades ocidentais.[1]

O projeto moderno consolida-se com a Revolução Industrial e normalmente relacionado com o desenvolvimento do capitalismo.

A modernidade transita, em seu fechamento e esgotamento, para a pós-modernidade. Muitos teóricos trataram dessa transição e tentaram sondar para ver além dos limites da transição para tentar captar que outro mundo estava surgindo. A pós-modernidade como um outro mundo relativamente à modernidade também é um tema filosófico da mais alta importância. Pós-modernidade carece de definição, nos parece, em sí mesma, só fazendo sentido se, em conexão com a modernidade, ou sua extensão, ou sua ruptura.

O termo era desconhecido para Nietzsche, porém, uma vez que a pós-modernidade se forma em oposição à modernidade, pode-se dizer que foi Nietzsche, em termos abrangentes, quem iniciou o movimento de fustigação dos ideais modernos. Com ele começa a era da paixão moderna. Os seus defensores ou os seus detratores, via de regra, se posicionavam frente à aceitação ou à recusa da modernidade. Porém, Nietzsche já não estava presente quando efetivamente começam as mais profundas transformações de época, da cultura aos artefatos tecnológicos, da política a guerra e ao terrorismo, da arte clássica a anti-arte ou a arte pela arte, do local ao global, da objetividade ao ficcional e ao virtual, do bioquímico ao tecido genético.

A modernidade como movimento estético[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Arte moderna

Na primeira metade do século XX, vários movimentos de vanguarda na arte e na cultura ocidental constituem o que se costuma chamar modernismo.

Da mesma forma, nos anos 1960-1970, o movimento estético que ostensivamente passou a negar os preceitos do modernismo, sobretudo na arquitetura, foram chamados pós-modernos.

Esgotamento da modernidade[editar | editar código-fonte]

Para Bauman (1999 e 2004), o que mudou foi a "modernidade sólida", que cessa de existir, e, em seu lugar, surge a "modernidade líquida". A primeira seria justamente a que tem início com as transformações clássicas e o advento de um conjunto estável de valores e modos de vida cultural e político. Na modernidade líquida, tudo é volátil, as relações humanas não são mais tangíveis e a vida em conjunto, familiar, de casais, de grupos de amigos, de afinidades políticas e assim por diante, perde consistência e estabilidade.[2] Essa reflexão de Bauman já está de algum modo presente em Marx quando, conforme observa Berman (1982), ele aponta para a ação do éter das revoluções modernas que desmancha tudo o que é sólido. A diferença é que Bauman já trabalha no campo minado da pós-modernidade que dificilmente permite que se façam planos para modos estáveis de sociedades futuros.

Para Norbert Elias, o nazi-fascismo é o próprio paradigma da modernidade, consequência do esgotamento deste modelo associado ao triunfo de forças ideológicas pré-capitalistas.[3]

Marx ainda acreditava que o comunismo fosse o congelamento de um modo de vida social integrado e harmônico. Mas, como pergunta Berman, por que cargas de água o comunismo não seria corroído pelo éter do suspiro modernista?

Para o sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, não há, a rigor, modernidade que não seja alimentada e oxigenada pela tradição. Sem tradição, sem a raiz e o regional, a modernidade não é nada.

Projeto de emancipação da modernidade[editar | editar código-fonte]

O projeto da modernidade teve um enorme aprofundamento através dos estudiosos da chamada Escola de Frankfurt. Pensadores como Adorno e Horkheimer, integrantes da primeira geração frankurtiana, construíram teorias que traziam a concepção de esgotamento e passagem moderna para o período de pós-modernidade. Esse ideal, formulado entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, foi fomentado por uma série de acontecimentos históricos, como a Primeira Guerra Mundial, que basilaram a ruptura do projeto moderno e estimularam análises sobre o que poderia substituí-lo. Entretanto, Jürgen Habermas, membro da Escola de Frankfurt e teórico da segunda geração, contesta essa visão pessimista e concebe uma teoria que busca emancipar a modernidade e consequentemente evoluí-la.

Inicialmente, Habermas busca identificar equívocos e apontar críticas com relação ao conceito de Razão, postulado e orientado pelos pensadores iluministas. Segundo a sua linha de pensamento, a Razão estaria sendo interpretada de uma forma incompleta, partindo de um único princípio, denominado por ele como Razão instrumental. Esse conceito, entendido por Habermas como a razão empregada pelo mundo sistêmico, rege duas das principais esferas de valor: sistema capitalista e Estado moderno, contribuindo para que haja uma determinada perda de sentido e de liberdade na sociedade e, consequentemente, ao esgotamento do princípio da modernidade.

Buscando uma tentativa de reerguimento do projeto moderno, Habermas institui dois conceitos que buscam uma neutralidade na perspectiva racional e impeça a colonização por parte do sistema. O Mundo da vida e a Razão comunicativa aparecem como instrumentos que possibilitam a comunicação entre os indivíduos que compõem as esferas de valor, criando elos que permitam o compartilhamento de conhecimentos e intensa troca. A partir dessa vertente, elos como as artes, as universidades e a prática do direto, dialogam com as esferas regidas pelo mundo sistêmico levando a uma emancipação da modernidade e a sua consequente evolução.

Assim, a proposta habermasiana consiste em que haja uma determinada democracia entre os indivíduos sociais, estimulando a participação na tomada de decisões e promovendo a deliberação que resultaria em uma expansão moderna.

Referências

  1. MAYOS, Gonçal. O problema sujeito-objeto em Descartes, perspectiva da Modernidade, traduzido por Mariá Brochado e Natália Freitas Miranda. Originalmente publicado como "El problema sujeto-objeto en Descartes, prisma de la modernidad". Pensamiento - Revista de investigación e información filosófica, Madrid, n. 195, V. 49, pp. 371-390, jul.-sep. 1993.
  2. Preocupa o teu próximo como a ti mesmo Notas críticas a modernidade e holocausto, de Zygmunt Bauman
  3. A interpretação do nazismo, na visão de Norbert Elias

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Modernos – um mapeamento de alguns topoi]”, Cultura- Revista de História e Teoria das Ideias, nº29- 2012/2ªsérie, pp.179-200

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