Santa Sofia

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Basílica de Santa Sofia (Hagia Sophia)
Hagia Sophia
Hagia Sophia
Local Istambul
País  Turquia
Coordenadas
Religião Igreja Ortodoxa (360–1204 e 1261–1453)
Igreja Católica (1204–1261)
Islamismo (1453–1931)
Museu secular (1931–atual)
Ano de consagração 25 de dezembro de 537
Arquiteto Isidoro de Mileto e Antêmio de Trales
Estilo arquitetónico Bizantino
Início da construção 532
Fim da construção 537


Interior de Santa Sofia.

A Basílica de Santa Sofia, também conhecida como Hagia Sophia (em grego: Άγια Σοφία; transl.: Agia Sophia, que significa "Sagrada Sabedoria"; em turco: Ayasofya) é um imponente edifício construído entre 532 e 537 pelo Império Bizantino para ser a catedral de Constantinopla (atualmente Istambul, na Turquia). Da data em que foi dedicada em 360 até 1453, ela serviu nesta função, com exceção do período entre 1204 e 1261, quando ela foi convertida para uma catedral católica romana durante o Patriarcado Latino de Constantinopla que se seguiu ao saque da capital imperial pela Quarta Cruzada. O edifício foi uma mesquita entre 29 de maio de 1453 e 1931, quando foi secularizada. Ela reabriu como um museu em 1 de fevereiro de 1935.[1]

A igreja foi dedicada ao Logos, a segunda pessoa da Santíssima Trindade,[2] com a festa de dedicação tendo sido realizada em 25 de dezembro, a data em que se comemora o Nascimento de Jesus, a encarnação do Logos em Cristo.[2] Embora ela seja chamada de "Santa Sofia" (como se tivesse sido dedicada em homenagem a Santa Sofia), sophia é a transliteração fonética em latim da palavra grega para "sabedoria" — o nome completo da igreja em grego é Ναός τῆς Ἁγίας τοῦ Θεοῦ Σοφίας, "Igreja da Santa Sabedoria de Deus".[3] [4]

Famosa principalmente por sua enorme cúpula (ou domo), ela é considerada a epítome da arquitetura bizantina[5] e é tida como tendo "mudado a história da arquitetura".[6] Ela foi a maior catedral do mundo por quase mil anos, até que a Catedral de Sevilha fosse completada em 1520. O edifício atual foi construído originalmente como uma igreja entre 532 e 537 por ordem do imperador bizantino Justiniano I e foi a terceira igreja de Santa Sofia a ocupar o local, as duas anteriores tendo sido destruídas em revoltas civis. Ela foi projetada pelos cientistas gregos Isidoro de Mileto, um médico, e Antêmio de Trales, um matemático.[7]

A igreja continha uma grande coleção de relíquias e tinha, entre outras coisas, uma iconóstase de 15 metros de altura em prata. Ela era a sede do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla e o ponto central da Igreja Ortodoxa por quase mil anos. Foi ali que o Cardeal Humberto, em 1054, excomungou o patriarca Miguel I Cerulário, iniciando o Grande Cisma do Oriente, que perdura até hoje.

Em 1453, Constantinopla foi conquistada pelo Império Otomano sob o sultão Mehmed II, que subsequentemente ordenou que o edifício fosse convertido numa mesquita.[8] Os sinos, o altar, a iconóstase e os vasos sagrados foram removidos e diversos mosaicos foram cobertos por emplastro. Diversas características islâmicas — como o mihrab, o minbar e os quatro minaretes — foram adicionados durante esse período. Ela permaneceu como mesquita até 1931, quando Kemal Atatürk ordenou que ela fosse secularizada. Ela permaneceu fechada ao público por quatro anos e reabriu em 1935 já como um museu da recém-criada República da Turquia. Não obstante, os mosaicos coloridos remanesceram emplastrados na maior parte, e o edifício deteriorou-se. Uma missão da UNESCO em 1993 notou queda do emplastro, revestimentos de mármore sujos, janelas quebradas, pinturas decorativas danificadas pela umidade e falta de manutenção na ligação da telhadura. Desde então a limpeza, a telhadura e a restauração têm sido empreendidas. Os excepcionais mosaicos do assoalho e da parede que estavam cimentados desde 1453 agora são escavados gradualmente.

Por quase 500 anos, a principal mesquita de Istambul, Santa Sofia serviu como modelo para diversas mesquitas otomanas, principalmente a chamada Mesquita Azul, que fica em frente a Santa Sofia, a Mesquita Şehzade, a Mesquita Süleymaniye, a Mesquita de Rüstem Pasha e a Mesquita de Kılıç Ali Paşa.

História[editar | editar código-fonte]

Primeira igreja[editar | editar código-fonte]

A primeira igreja era conhecida como Μεγάλη Ἐκκλησία(em grego: Megálē Ekklēsíā — "A Grande Igreja"; em latim: Magna Ecclesia)[9] por causa de sua grande dimensão quando comparada com outras igrejas contemporâneas em Constantinopla.[2] Escrevendo em 440 d.C., Sócrates de Constantinopla afirmou que a igreja foi construída por Constâncio II, que já trabalhava nela em 346.[10] Inaugurada em 15 de fevereiro de 360 pelo bispo ariano Eudóxio de Antioquia,[10] ela foi construída próxima da região onde o palácio imperial estava sendo construído. A igreja chamada Hagia Irene ("Santa Paz") foi completada antes e serviu como catedral até que Santa Sofia estivesse completada. As duas foram as principais igrejas do Império Bizantino.

Uma tradição, cuja origem não é mais antiga que o século VII ou VIII, relata que o edifício fora construído por Constantino.[10] O historiador Zonaras reconcilia as duas opiniões, escrevendo que Constâncio havia restaurado o edifício consagrado por Eusébio de Nicomédia após ele ter desabado.[10] Como Eusébio fora bispo de Constantinopla entre 339 e 341 e Constantino morrera em 337, é possível que a primeira igreja tenha sido mesmo erigida por este.[10]

O edifício foi construído como uma basílica latina colunada, com galerias e um teto de madeira. Ela tinha ainda um átrio.

O patriarca de Constantinopla João Crisóstomo entrou em conflito com a imperatriz Élia Eudóxia, esposa do imperador Arcádio, e foi enviado para o exílio em 404 (veja Controvérsia de João Crisóstomo). Na rebelião que se seguiu, esta primeira igreja foi quase que completamente incendiada e nada resta dela atualmente.[10]

Segunda igreja[editar | editar código-fonte]

A segunda igreja foi encomendada por Teodósio II, que a inaugurou em 10 de outubro de 415. A basílica com teto de madeira foi construída pelo arquiteto Rufino. Um incêndio iniciado durante a Revolta de Nika destruiu completamente a segunda Santa Sofia em 13-14 de janeiro de 532.

Diversos blocos de mármore da segunda igreja ainda existem. Num deles está um alto-relevo mostrando 12 cordeiros representando os doze apóstolos. Originalmente parte de uma entrada monumental, eles agora estão preservados nas escavações ao lado da entrada do museu. Estes fragmentos foram descobertos em 1935 abaixo do pátio ocidental por A. M. Schneider, que não pôde continuar com as escavações por medo de comprometer a integridade da Basílica de Santa Sofia.

Terceira igreja (estrutura atual)[editar | editar código-fonte]

Mosaico de João Batista.

Em 23 de fevereiro de 532, apenas alguns dias depois da destruição da segunda basílica, o imperador Justiniano I decidiu construir uma terceira — e completamente diferente — basílica, maior e muito mais majestosa que as suas antecessoras.

Justiniano escolheu o médico Isidoro de Mileto e o matemático Antêmio de Trales como arquitetos, mas Antêmio morreu ainda no primeiro ano da empreitada. A construção foi descrita na obra "Sobre Edifícios" (em grego: Peri ktismatōn; em latim: De aedificiis) do historiador bizantino Procópio. O imperador mandou buscar materiais de construção de todo o império — colunas helênicas retiradas do Templo de Ártemis, em Éfeso (uma das Sete Maravilhas do Mundo), grandes blocos de pórfiro de pedreiras no Egito, mármores verdes da Tessália, pedras negras do Bósforo e amarelos da Síria. Mais de dez mil pessoas foram empregadas na construção. Esta nova igreja foi, ainda na época, reconhecida como um grande feito de engenharia e arquitetura. O imperador, juntamente com o patriarca Eutíquio de Constantinopla, inauguraram a nova basílica em 27 de dezembro de 537 com pompa e circunstância. Contudo, os mosaicos internos só foram completados sob o reinado de Justino II (r. 565–578).

Santa Sofia se tornou então a sede do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla e o local preferido para realização de cerimônias oficiais do Império Bizantino, como coroações.

Terremotos em agosto de 553 e em 14 de dezembro de 557 racharam o domo prinicipal e o semidomo oriental, sendo que o primeiro veio a desabar completamente no terremoto seguinte, em 7 de maio de 558,[11] destruindo o ambão, o altar e o cibório. O colapso foi causado principalmente pelo peso da estrutura, grande demais, e pela enorme carga de cisalhamento do domo, que era plano demais. Estes problemas levaram à deformação das colunas que sustentavam o domo.[12] O imperador ordenou que a igreja fosse imediatamente restaurada e confiou a tarefa a Isidoro, o Moço, sobrinho de Isidoro de Mileto, que se utilizou de materiais mais leves e elevou o domo "por volta de 6,5 metros"[12] — dando ao edifício a sua altura interior atual de 55,6 metros.[13] Além disso, Isidoro trocou o tipo de domo, erigindo uma abóbada em cruzaria como pendículos com diâmetro entre 32,7 e 33,5 metros.[12] Esta reconstrução foi completada no ano de 562 e o poeta bizantino Paulo Silenciário compôs um longo poema (ainda existente), conhecido como Ekphrasis, onde ele a comparou a um "campo de mármore", tantas as cores utilizadas.[14] A reabertura foi presidida novamente pelo patriarca Eutíquio de Constantinopla no dia 23 de dezembro de 562. A riqueza e o nível artístico da basílica teria levado Justiniano a dizer Νενίκηκά σε Σολομών ("Salomão, eu te superei!").

Em 726, o imperador Leão III, o Isáurio emitiu uma série de éditos contra a veneração de imagens, ordenando que o exército destruísse todos os ícones — iniciando o conturbado período conhecido como Iconoclasma. Na época, todas as pinturas e estátuas religiosas foram removidas de Santa Sofia. Após um breve período de paz sob a imperatriz Irene (r. 797–802), os iconoclastas voltaram sob a liderança do imperador Teófilo, que mandou colocar uma grande porta de folha dupla em bronze com o seu monograma na entrada sul da igreja.

A basílica foi danificada, primeiro num grande incêndio em 859 e, novamente, num terremoto em 8 de janeiro de 869, que causou o colapso de um semidomo. O imperador Basílio I, o Macedônio ordenou que a igreja fosse restaurada mais uma vez.

Após o grande terremoto de 25 de outubro de 989, que arruinou o grande domo, o imperador Basílio II Bulgaróctone pediu ao arquiteto armênio Tirídates, criador das grandes igrejas de Ani e Argina, que restaurasse o domo.[15] Seu trabalho maior foi no arco ocidental e numa parte do domo e a extensão dos danos requereram seis anos de trabalho. A igreja foi reaberta em 13 de maio de 994. Além dos reparos, Basílio II também renovou a decoração da basílica. Nos pendículos, ele mandou pintar quatro enormes querubins, no domo, uma representação de Cristo, e na abside, a Virgem e o Menino entre os apóstolos Pedro e Paulo.[16] Nos grandes arcos laterais foram pintados os profetas e os doutores da Igreja.[16]

Em seu livro De caerimoniis aulae Byzantinae ("Livro das Cerimônias"), o imperador Constantino VII (r. 913–919) escreveu um relato detalhado das cerimônias realizadas em Santa Sofia pelo imperador e pelo patriarca.

O historiador bizantino Nicetas Coniates descreveu a captura de Constantinopla durante a Quarta Cruzada, quando a basílica foi saqueada e profanada pelos cristãos latinos. Muitas das mais famosas relíquias da igreja — como a pedra do túmulo de Jesus, o leite da Virgem Maria, o sudário de Jesus e diversos ossos de vários santos — foram enviados para igrejas no ocidente e hoje estão preservados em vários museus. Durante o Império Latino (1204–1261), a cidade foi ocupada e a basílica se transformou numa catedral da Igreja Católica Romana. Balduíno I foi coroado imperador em 16 de maio de 1204 em Santa Sofia, numa cerimônia muito parecida com o ritual bizantino.

Após a recaptura da cidade em 1261 pelos bizantinos, a igreja estava já num estado deplorável. Em 1317, o imperador Andrônico II Paleólogo ordenou que quatro novos contrafortes (em grego: Πυραμὶδας"Piramídas") fossem construídos nas partes norte e leste da igreja, financiando-os com a herança de sua recém-falecida esposa, Irene.[17] Novas rachaduras apareceram no domo após o terremoto de outubro de 1344 e diversas partes do edifício desabaram em 19 de maio de 1346. Por isso, a igreja permaneceu fechada até 1354, quando novos reparos foram realizados pelos arquitetos Astras e Peralta.

Mesquita (1453–1935)[editar | editar código-fonte]

Em 1453, o sultão Mehmed iniciou o cerco de Constantinopla, tendo entre seus objetivos converter a cidade ao islamismo.[18] O sultão prometeu às suas tropas três dias de saques sem limites se a cidade caísse, após o qual ele iria tomar para si a cidade e tudo o que ela continha.[19] [20] Santa Sofia não foi poupada da pilhagem, tornando-se, ao invés disso, o seu ponto focal, por conter, na visão de seus saqueadores, os maiores tesouros da cidade.[21]

Logo após as defesas da cidade terem sido rompidas, os saqueadores conseguiram chegar até Santa Sofia e derrubaram as suas portas.[22] Durante todo o certo, fiéis participaram de missas e orações na igreja, que se tornou um refúgio para os que eram incapazes de ajudar na defesa da cidade.[23] [24] Aprisionados na igreja, fiéis e refugiados se tornaram nada mais do que saque para serem divididos entre os invasores. O edifício foi dessecrado e saqueado, seus ocupantes, assassinados ou escravizados.[21] Os velhos e enfermos foram mortos e o resto foi acorrentado imediatamente.[22] Os padres continuaram a realizar os rituais até que foram interrompidos pelos invasores.[22] Quando o sultão e sua corte entraram na igreja, eles insistiram que ela fosse transformada imediatamente numa mesquita. Um dos ulamas então subiu no púlpito e recitou a Shahada.[17] [25]

Como dito, imediatamente após a conquista de Constantinopla, Mehmed II converteu Santa Sofia na mesquita de Aya Sofia.[8] [17] [26] [27] Como foi descrito por diversos visitantes ocidentais (como o nobre cordobês Pero Tafur[28] e o florentino Cristóforo Buondelmonti[29] ), a igreja estava num estado muito deteriorado, com várias de suas portas soltas. O sultão ordenou que ela fosse limpa e convertida, comparecendo à primeira oração da sexta-feira, 1 de junho de 1453.[27] Aya Sofya se tornou a primeira mesquita imperial de Istambul.[30] Para o seu waqf foi designada a maioria das casas da cidade, assim como o local onde ficaria o futuro Palácio Topkapi.[17] Através de decretos imperiais em 1526 (926H) e 1547 (954H), lojas e partes do Grande Baazar e de outros mercados foram também incluídos.[17]

Antes de 1481, um pequeno minarete foi erigido no canto sudoeste do edifício.[17] Posteriormente, o sultão seguinte, Bayezid II (1481–1512), construiu um outro minarete no canto nordeste.[17] Um deles desabou por causa do terremoto de 1509[17] e, por volta do século XVI, eles foram ambos trocados por dois minaretes em cantos diagonalmente opostos do edifício.[17]

No século XVI, o sultão Suleimão, o Magnífico (1520–1566) trouxe como espólio de sua conquista da Hungria, dois candelabros colossais. Eles foram colocados em ambos os lados do mihrab. Durante o reinado de Selim II (1566–1577), o edifício começou a dar sinais de fadiga e foi extensivamente reforçado com suportes estruturais adicionais no lado exterior pelo grande arquiteto otomano Mimar Sinan.[31] Além de reforçar a estrutura bizantina histórica, Sinan construiu dois grandes minaretes adicionais no lado ocidental do edifício, o loge original do sultão e a türbe (Mausoléu) de Selim II a sudeste do edifício entre 1576 e 1577. Para fazê-lo, ele fez demolir, um ano antes, partes do patriarcado na parte sul da igreja.[17] Além disso, o crescente dourado foi montado no topo da cúpula[17] e uma "zona de respeito" de aproximadamente 24 metros de comprimento foi determinada à volta da igreja, o que obrigou a demolição de todas as casas que ali estavam.[17] Posteriormente, ali foram erigidas 43 tumbas de príncipes otomanos.[17] Em 1594, Mimar (arquiteto da corte) Davud Ağa construiu a türbe de Murad III (1574–1595), onde sultão e sua valide, Safiye Sultan foram posteriormente enterrados.[17] O mausoléu octogonal do filho deles, Mehmed III (1595–1603) e sua valide foi construído ali perto em 1608 pelo arquiteto real Dalgiç Mehmet Aĝa.[32] O filho dele, Mustafá I (1617–1618; 1622–1623) converteu o antigo batistério em sua türbe.[32]

Adições posteriores foram a galeria do sultão, um mimbar decorado de mármore, uma plataforma para os sermões e loggia para um muezzin. Murad III também trouxe de Pérgamo duas enormes urnas de alabastro, atualmente colocadas em ambos os lados da nave.

Em 1717, sob o sultão Ahmed III (1703–1730), o emplastro, em ruínas, do interior foi renovado, contribuindo indiretamente para a preservação de muitos mosaicos que, de outra forma, teriam sido destruídos pelos trabalhadores da mesquita.[32] Na época, era costume entre eles venderem pedras de mosaicos — que se acreditava serem talismãs — aos visitantes.[32] O sultão Mahmud I ordenou a restauração do edifício em 1739 e adicionou um madraçal (uma escola corânica, atualmente a biblioteca do museu), um imaret (uma cozinha para os pobres) e uma biblioteca, além de, em 1740, uma Şadirvan (uma fonte para abluções rituais). Em paralelo, o sultão construiu uma nova galeria e um novo mihrab.

A mais famosa restauração de Aya Sofya foi ordenada pelo sultão Abdülmecid e completada por oitocentos trabalhadores entre 1847 e 1849, sob a supervisão dos irmãos suíço-italianos, os arquitetos Gaspare e Giuseppe Fossati. Os irmãos consolidaram a cúpula e os arcos, reforçaram as colunas e revisaram a decoração do interior e do exterior do edifício. Os mosaicos da galeria superior foram limpos. Os antigos candelabros foram substituídos por novos, suspensos. Discos gigantescos (ou medalhões) foram pendurados nas colunas e inscritos com os nomes de Alá, do profeta Maomé, dos quatro primeiros califas, Abu Bakr, Umar, Uthman e Ali, e de dois dos netos de Maomé: Hassan e Hussain, pelo calígrafo Kazasker İzzed Effendi (1801–1877). Em 1850, os Fossati construíram uma nova galeria para o sultão em estilo neobizantino, ligando-a ao pavilhão imperial atrás da mesquita. Fora de Aya Sofya, uma torre com um relógio e um novo madraçal foram construídos. Os minaretes foram alterados para que tivessem todos a mesma altura. Quando a restauração terminou, a mesquita foi reaberta com uma pomposa cerimônia em 13 de julho de 1849.

Arquitetura[editar | editar código-fonte]

Interior de Santa Sofia, com o mosaico da Virgem e o Menino ao fundo.

Santa Sofia é um dos grandes exemplos ainda existentes da arquitetura bizantina.[5] Seu interior, decorado com pilares de mármore e mosaicos é de grande valor artístico. O próprio imperador Justiniano supervisionou a finalização da maior catedral já construída na época. Ela foi a maior conquista arquitetônica da antiguidade tardia e sua influência se espalhou pelo mundo ortodoxo, católico e islâmico. As maiores colunas são de granito, com entre 19 e 20 metros de altura e pelo menos 1,5 metros de diâmetro, tendo a maior mais de 70 toneladas. Por ordens do imperador, oito colunas coríntias foram desmontadas em Baalbek, no Líbano, e enviadas para Constantinopla para a construção de Santa Sofia.[33]

O vasto interior tem uma estrutura complexa. A nave é coberta por um domo central que, no seu ponto mais alto, está a 55,6 metros do chão e repousa sobre uma arcada com 40 janelas arqueadas. Restaurações em sua estrutura o deixaram com uma forma algo elíptica, com o diâmetro variando entre 31,24 e 30,86 metros.

Tanto no lado da entrada ocidental e quanto no lado oriental, litúrgico, há aberturas em forma de arco ampliadas por semi-domos de diâmetro idêntico ao domo central, suportados por êxedras em forma de semidomos: uma hierarquia de elementos encimados por domos construídos de forma a criar um vasto interior de forma oblonga culminando no domo central, com uma abertura de 76,2 metros no total.[5]

As superfícies interiores são cobertas com mármores policromáticos, verdes e brancos com pórfiro púrpura, além dos mosaicos dourados.

O exterior, revestido de estuque, foi pintado de amarelo e vermelho nas restaurações do século XIX por ordem dos Fossati, os arquitetos.

Mosaicos[editar | editar código-fonte]

Interior de Santa Sofia, mostrando dois dos quatro medalhões instalados pelos Fossati no século XIX.

A igreja foi ricamente decorada com mosaicos ao longo dos séculos. Eles geralmente representam a Virgem Maria, Jesus, santos ou imperadores e imperatrizes. Outras partes foram decoradas num estilo puramente decorativo, com padrões geométricos.

Durante o Saque de Constantinopla (1204), os cruzados latinos vandalizaram itens valiosos em todas as estruturas bizantinas mais importantes da cidade, incluindo os mosaicos dourados de Santa Sofia. Muitos destes itens foram enviados para Veneza, cujo Doge, Enrico Dandolo, fora o organizador da invasão e do saque.

Após a conversão do edifício para uma mesquita, em 1453, muitos dos mosaicos foram cobertos com emplastro por conta da proibição islâmioca às imagens. Este processo não se completou de uma vez e existem reportes do século XVII em que viajantes notam que ainda era possível ver imagens cristãs na antiga igreja. Em 1847–1849, o edifício foi restaurado por dois irmãos suíço-italianos, Gaspare e Giuseppe Fossati, e o sultão Abdülmecid permitiu que eles documentassem quaisquer mosaicos que eles descobrissem no processo. Este trabalho não incluia restaurá-los e, após preservar os detalhes sobre a imagem, os Fossati pintavam sobre eles novamente. Este trabalhou incluiu cobrir as até então descobertas faces dos dois mosaicos de serafins localizados no centro do edifício. Atualmente, a igreja tem quatro dessas imagens, sendo duas delas restaurações à tinta criadas pelos Fossati para substituir as duas que eles não conseguiram encontrar vestígios. Em outros casos, os Fossati recriaram os padrões de mosaicos danificados com tinta, por vezes redesenhando-os no processo. Os registros dos Fossati são as fontes principais para diversos mosaicos que se acredita terem sido totalmente ou parcialmente destruídos no terremoto de 1894, incluindo o grande mosaico do Cristo Pantocrator no domo, um mosaico que estaria sobre uma local não identificado chamado de "Porta dos Pobres", uma grande imagem de uma cruz cravejada de jóias e um grande número de imagens de santos, anjos, patriarcas e padres da Igreja. A maior parte das imagens perdidas estavam localizadas nos dos tímpanos do edifício. Os Fossati também acrescentaram um minbar (púlpito) e os quatro grandes medalhões nas paredes da nave com os nomes de Maomé e dos primeiros califas do Islã.[34]

Minaretes[editar | editar código-fonte]

Um dos minaretes, o no sudoeste, foi construído com tijolos vermelhos, enquanto que os outros três, com calcário branco e arenito. Entre estes, o mais estreito, a nordeste, foi erigido pelo sultão Bayezid II, enquanto que os outros dois maiores no lado oeste, pelo sultão Selim II, com o projeto do famoso arquiteto otomano Sinan.[17]

Referências

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  2. a b c Janin (1953), p. 471.
  3. McKenzie, Steven L.. The Hebrew Bible Today: An Introduction to Critical Issues. Louisville, KY: Westminster John Knox Press, 1998. p. 149. ISBN 0-6642-5652-X
  4. Binns, John. An Introduction to the Christian Orthodox Churches. Cambridge: Cambridge University Press, 2002. p. 57. ISBN 0-5216-6738-0
  5. a b c Buildings Across Time. [S.l.]: McGraw-Hill Higher Education, 2009. ISBN 9780073053042
  6. Center of Ottoman Power New York Times (22 August 1993). Visitado em 4 de junho de 2009.
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  9. Alessandro E. FONI, George PAPAGIANNAKIS, Nadia MAGNENAT-THALMANN. Virtual Hagia Sophia: Restitution, Visualization and Virtual Life Simulation. Visitado em 3 de julho de 2007.
  10. a b c d e f Janin (1953), p. 472.
  11. Janin, Raymond. Constantinople Byzantine (em French). Paris: Institut Français d'Etudes Byzantines, 1950. p. 41.
  12. a b c Müller-Wiener (1977), p. 86.
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  14. Wikisource-logo.svg "Byzantine Literature" na edição de 1913 da Catholic Encyclopedia (em inglês)., uma publicação agora em domínio público.
  15. Maranci, Christina. "The Architect Trdat: Building Practices and Cross-Cultural Exchange in Byzantium and Armenia". Journal of the Society of Architectural Historians, Vol. 62, No. 3, September 2003, pp. 294–305.
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  19. Runciman, Steven. The Fall of Constantinople, 1453. Cambridge: Cambridge University Press, 1965. p. 145. ISBN 0-5213-9832-0
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  22. a b c Runciman. The Fall of Constantinople, p. 147.
  23. Runciman. The Fall of Constantinople, pp. 133–134.
  24. Nicol, Donald M. The Last Centuries of Byzantium 1261–1453. Cambridge: Cambridge University Press, 1972, p. 389.
  25. Runciman. The Fall of Constantinople, p. 149.
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  28. Tafur, Pero. Travels and Adventures, 1435–1439. London: G. Routledge, 1926. 138–148 pp.
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  32. a b c d Müller-Wiener (1977), p. 93.
  33. ____ Baalbek keeps its secrets
  34. Mango, Cyril (1972). The mosaics of St. Sophia at Istanbul: The church fathers in the north Tympanum. Dumbarton Oaks Center for Byzantine Studies. ASIN B0007CAVA0.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Mainstone, Rowland J. (1997). Hagia Sophia: Architecture, Structure, and Liturgy of Justinian's Great Church (reprint edition). W W Norton & Co Inc. ISBN 0-500-27945-4.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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