Efeminação

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Efeminação é um termo usado para descrever um padrão de comportamento social que é definido pela presença de características associadas ao estereótipo do gênero feminino em uma pessoa do gênero masculino.[1] A efeminação concentra uma série de características de comportamento social em que se adota o comportamento, o estilo, os papéis de gênero e os maneirismos socialmente atribuídos aos gênero feminino.[2]

Percepção social[editar | editar código-fonte]

Dentro da percepção social, a efeminação se traduz como o objeto ou pessoa que é feminino na expectativa de ser masculino, normalmente utilizado com um carácter misógino para classificar os homens dentro dos parâmetros da masculinidade convencional.[3] Dentro dos parâmetros da feminilidade na relação com uma identidade masculina, tradicionalmente, tendem a relacionar diferentes características como sobrerefinamiento, a delicadeza, a gentileza e a compaixão (características relacionadas convencionalmente com a natureza feminina). A percepção social frequentemente relaciona a orientação sexual homossexual e a identidade transgênero com o efeminado de uma pessoa, assumindo errônemente que a efeminação É um atributo exclusivo de homens homossexuais (especialmente aqueles que se identificam como passivos) e os transgêneros que se identificam como femininos; comparando a efeminação no LGBT com o comportamento tradicional em algumas pessoas de orientação sexual heterossexual e identidade cisgênero.[4][5]

Agência e efeminação no Discurso Sobre a Servidão Voluntária de La Boétie[editar | editar código-fonte]

O termo efeminação usado no “Discurso Sobre a Servidão Voluntária” de Étienne de La Boétie soa controverso no contexto da sociedade atual, entretanto, se for analisado sem prejulgamentos, possibilita a compreensão da conjuntura das mulheres da época pela lógica da servidão voluntária exposta pelo autor. Ao empregar a palavra “efeminação”, La Boétie intencionava dizer que é próprio das mulheres renunciarem sua liberdade e agência por segurança, comodidade e frivolidades. A imagem que tinha em mente era a dos costumes de seu tempo, no qual as mulheres ficavam sob a responsabilidades de figuras masculinas (pai, marido, filho etc), que as proviam e protegiam em troca de sua servidão voluntária nos assuntos da casa e da família. Contudo, é possível contrapor as exposições do discurso com a condição feminina, e ponderar como se dá a “efeminação” das mulheres sobre esse viés.

Como nasce a servidão voluntária[editar | editar código-fonte]

Ser livre e desejar a liberdade faz parte da natureza do homem; a servidão é antinatural, e o equipara à animália, aos animais domesticados.[6] Mas assim como é natural ao homem querer ser livre, manter os hábitos que lhe são ensinados também é.[7] Tais hábitos são moldados pelos costumes e a educação, que não estão enraizados na essência da natureza do homem– como essência entende-se seu estado puro e não alterado –, todavia se fazem naturais. A liberdade é da essência da natureza humana, enquanto os hábitos se tornam naturais; por fim, o costume e a educação acabam tendo mais poder sob o homem do que sua natureza pura.[8]

Partindo desses princípios, o primeiro motivo que leva os homens a servirem voluntariamente é terem nascido na servidão e se habituado a ela.[9] O hábito não permite que o homem perceba a própria condição, já que ela é assimilada como seu estado natural. [10]A não percepção da servidão é o que a torna voluntária[11], pois a partir do momento que o homem realiza sua condição não é mais possível que sirva voluntariamente, uma vez que é de sua natureza ser livre, e era o hábito que o impedia de perceber que não o era. Ao se perceber servo, o homem não o é mais de forma voluntária, mesmo que continue a servir.[12]

La Boétie faz a seguinte pergunta retórica: “que mais é preciso para possuir a liberdade do que simplesmente desejá-la”?[13] A natureza do homem o fará desejar a liberdade a partir do momento que perceber não a possuir, por isso que ao homem que se percebe servo não será mais possível servir voluntariamente. No entanto, ao desejar a liberdade esse homem já a possuirá, porque o desejo é um ato de vontade, é um agir da vontade – é uma autoafirmação enquanto criatura agente, e só se pode ser agente enquanto criatura livre. Outrem não exerce agência por alguém sem com isso tornar esse alguém um objeto de sua ação; para ser agente é necessário ser dono do agir, dono de si, isto é, livre. Então a agência implica na liberdade, e a liberdade implica na agência; ambas se afirmam uma na outra, portanto, para possuir a liberdade só é preciso deseja-la, em razão de ser ela a própria afirmação do desejo – da agência da vontade.[14]

A objetificação[editar | editar código-fonte]

Tendo essas considerações em mente, a condição da servidão voluntária é objetificante, pois nela se é objeto da agência do tirano; seu agir está sujeito ao tirano e o homem não percebe que não é dono de si.[15] Servir voluntariamente requer objetificação, uma vez que é servir sem agência. O homem precisa se perceber como objeto para que sua agência emerja, ele se liberta da servidão voluntária ao realizar que os desejos – o agir da vontade – de outrem não lhe pertencem.

Mas se só é necessário desejar a liberdade para possuí-la, por que os homens não a desejam? Isto é, por que continuam a servir voluntariamente sem perceber que não são livres? La Boétie diz que, além do hábito, quando sob a tirania, os homens se tornam covardes e efeminados.[16] Tais homens trocam facilmente sua liberdade por segurança, comodidade e frivolidades. Um exemplo citado é o dos lídios: Ciro havia conquistado Sardes, a capital da Lídia, e aprisionado seu rei, Creso; os habitantes de Sardes se revoltaram, mas Ciro não desejava enviar tropas ou saquear a cidade, então criou tavernas, bordéis e jogos públicos e decretou que os cidadãos os frequentassem. O povo, entretido com seus jogos, não se revoltou mais, e não foi necessária qualquer outra intervenção na cidade. Os lídios não se importavam mais em não serem donos de si porque sua vontade, absorvida pelo entretenimento, estava capturada na vontade do tirano, não os permitindo assim notar que aqueles desejos não lhe pertenciam. Essa passagem é uma ilustração da troca da liberdade por frivolidades, da efeminação de um povo.[17]

A servidão voluntária das mulheres também nasce do hábito, dos costumes. Sua condição lhes é tida como de ordem natural, porque foi naturalizada pelos costumes, e a elas se torna hábito pela educação. Não conhecem situação diferente, logo, não se percebem sujeitas, e na sujeição se tornam covardes e “efeminadas”. Porém, enquanto a efeminação é condenada no homem, ela é esperada como algo natural na mulher – o que parece óbvio, levando em conta o que a própria palavra significa, no entanto, a questão são as características específicas que estão previstas nessa efeminação. Até que ponto essas características são inerentemente pertencentes ao feminino ou resultado da “efeminação” das mulheres pela educação baseada nos costumes?

O caso específico das mulheres[editar | editar código-fonte]

Tal conceito de efeminação prevê uma objetificação natural da mulher, sua servidão voluntária é naturalizada. Como um objeto, sua vontade está sempre dentro da vontade do outro, e isso será esperado tanto de si quanto do outro, o que dificulta ainda mais a percepção da objetificação, e, consequentemente, do desejo pela liberdade. Os bens pelos quais os homens trocam a liberdade citados por La Boétie a princípio parecem vantagens, mas são formas de afirmação da agência sob o objeto, e no exemplo das mulheres isso pode ser melhor observado. Quando sua liberdade é trocada por segurança, o outro se afirma como protetor; quando trocada por comodidade, o outro se afirma como provedor; e mesmo quando trocada por frivolidades, é o outro que se afirma através dos mimos, presentes e atitudes que provocam satisfação. Nessa condição objetificada, a mulher, não podendo se afirmar por si só, colocará em figuras masculinas, agentes, suas expectativas em relação a si mesma, criando uma relação de dependência, sua servidão voluntária.

E isso nos faz chegar no ponto em que La Boétie declara que sem a liberdade também se perde a energia em todo o resto, o coração fica mole e não se é capaz de grandes ações. Afirma ainda sobre os que não possuem a liberdade: “E não sentem arder no coração o fogo da liberdade que faz desprezar o perigo e dá ganas de comprar com a morte, ao lado dos companheiros, a honra da glória”.[18] A diferença daqueles cujas ações advém de sua vontade e daqueles cujas ações se fazem pela vontade do outro é verificada na intensidade das ações. Essa intensidade justifica o desejo pela liberdade, e deixa evidente a não naturalidade do estado de servidão voluntária. Ser livre e desejar a liberdade fazem parte da natureza humana porque a liberdade permite um estado mais pleno de realização da própria vida.

Referências

  1. «Effeminate»  Definición en Merriam-Webster Dictionary; consultado 23 de julio de 2012
  2. Sherry Marie Velasco (2006). Male delivery: reproduction, effeminacy, and pregnant men in early modern Spain (em inglês). [S.l.]: Vanderbilt University Press. ISBN 0826515150 
  3. Michael S. Kimmel; Amy Aronson (2003). Men and Masculinities: A Social, Cultural, and Historical Encyclopedia. ABC-CLIO. p. 247. ISBN 978-1-57607-774-0.
  4. «Why Can't You Just Butch Up? Gay Men, Effeminacy, and Our War with Ourselves»  Artículo por Brent Hartinger en AfterElton; consultado 23 de julio de 2012
  5. Men and Masculinitie (em inglês). [S.l.]: ABC-CLIO. ISBN 1576077748 
  6. Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, Página 6, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004.
  7. Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, Página 15, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004.
  8. Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, Página 13, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004.
  9. Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, Página 15-16, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004.
  10. Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, Página 12, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004.
  11. Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, Página 10 e 12, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004.
  12. Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, Página 10, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004.
  13. Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, Página 6, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004.
  14. Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, Página 7, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004.
  15. Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, Página 7, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004.
  16. Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, Página 17, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004.
  17. Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, Página 19, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004.
  18. Etienne de La Boétie, Discurso Sobre a Servidão Voluntária, Página 18, Tradução para o Português: Cultura Brasil, LCC – verão de 2004.