Hijra

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Disambig grey.svg Nota: Se procura a migração de Maomé de Meca para Medina, em 622, veja Hégira.
Hijra de Goa, Índia em 1994.

Hijra é uma comunidade religiosa hinduísta que impõe a emasculação como forma de agradar a deusa Bahuchara Mata. Meninos vitimados por abuso sexual são conduzidos pelas próprias famílias aos líderes da seita e então são castrados em rituais místicos.[1][2] A partir daí, são obrigados a vestir-se e portar-se como mulheres. Segundo a tradição religiosa hindú, os hijras tem grande facilidade para "abençoar ou amaldiçoar", o que torna esta comunidade temida e respeitada naquela sociedade. [3]

Em 2014, a suprema corte de justiça do país definiu os hijras como pertencentes a um "terceiro gênero", tornando a situação indiana única na história da antropologia. [4]

Castração[editar | editar código-fonte]

Rituais[editar | editar código-fonte]

Entre os indianos da cidade de Varanasi, ao norte da Índia, há rituais de castração onde os homens castrados se vestem como mulher e são aceitos culturalmente, a exemplo de hijras e jankhas. Muitos homens são castrados por sacerdotisas para servirem de escravos a elas, ou para terem relações com elas, já que as mesmas devem permanecer virgens por toda vida. Nesses rituais de castração, as sacerdotisas usam uma adaga para remover o pênis e os testículos, com o devido cuidado para mantê-los vivos. Depois de castrados, esses eunucos são vestidos de mulher e marcados para servir fielmente àquela que os castrou.

Para a seita, a castração tanto masculina como feminina deve ser praticada por mulheres especializadas e treinadas para tal. Algumas mulheres são treinadas nas artes da sedução para poderem se aproximar dos homens ou das mulheres que devem castrar. A traição também pode resultar na castração da parte infiel, as vezes a mulher traída poderá castrar totalmente ou parcialmente seu namorado ou marido traidor. Os homens castrados podem se juntar aos Hijras ou ficar com suas famílias, mas, na maioria das vezes, vestem-se de mulher. [5][6]

Exploração sexual de viciados em ópio[editar | editar código-fonte]

No entanto, apesar dos líderes da seita afirmar que a castração representa a vontade própria de cada indivíduo, diversos estudos apontam como causas reais para tal mutilação crimes como coação, sequestro e ameaças contra indivíduos socialmente vulneráveis, como andarilhos e usuários de drogas. [7] Segundo a ONG Sahara Group, instituição que trabalha com reabilitação social, estes crimes são cometidos por uma organização criminosa que atua na exploração sexual de homens e meninos no submundo da sociedade indiana. De acordo com Arun Kumar, secretário geral da instituição, "...Gurus eunucos e seus agentes pagos pegam esses jovens sequestrados viciados em ópio e depois os iniciam na prostituição. Eventualmente, eles são castrados em uma operação sangrenta e arriscada." Indira, secretário geral da Hijra Kalyan Sabha afirma: "...Esses gurus tornaram-se milionários, fazendo de seres humanos mercadoria.." [8]

Violação dos direitos humanos de crianças[editar | editar código-fonte]

A comunidade religiosa também é formada por meninos vitimados por abuso sexual que são conduzidos pelos próprios pais para castração. Outros meninos, no entanto, são tomados por sequestro ainda recém-nascidos e então são castrados pelos líderes da seita.[9] A Organização das Nações Unidas considera tal prática como uma grave violação dos direitos humanos. Para o assessor sênior do Fundo de População da ONU, Unfpa, Elizeu Chaves, tal mutilação busca satisfazer apenas o interesse de terceiros e representa um verdadeiro crime contra os direitos humanos: "... Trata-se, na verdade, de uma violação de direitos humanos sem nenhum tipo de benefício a saúde...” [10][11][12]

A influência da seita na política indiana[editar | editar código-fonte]

Os indivíduos da comunidade não exerciam o direito eleitoral devido orientação de seus líderes que os aconselhavam a não se definir como homens ou como mulheres. Porém em 2009, o tribunal eleitoral indiano, após diversos protestos e mobilizações da comunidade, decidiu agregar uma nova possibilidade de "gênero" em documentos oficiais. A este denominou "outros". Estes individuos então foram autorizados por seus líderes a se denominar como "outros" e puderam exercer o direito eleitoral em todo o país. [13]

Um hijra chamado Shabnam Mausi fez história por se tornar o primeiro hijra a ser eleito para a Assembleia Legislativa do estado de Madhya Pradesh na legislatura de 1998 a 2003. Atualmente vários hijras ganharam destaque em Madhya Pradesh. Cinco deles, incluindo Shabnam, batizados como paanch Pandavas, foram eleitos para vários cargos públicos. Kamla Jaan tornou-se prefeito de Katni, enquanto Meenabai tornou-se presidente da câmara do município de Sehora, a mais antiga entidade cívica do país.[14][15]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Isabell Zipfel: Hijras, the third sex. eBook with 34 Images. Amazon, ASIN B009ETN58C

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. «Será que alguém ouve as orações dos eunucos do Paquistão?». Público. Consultado em 24 de novembro de 2017 
  2. «Violência sexual contra crianças é comum na Índia, diz ONG». Jornal Extra. Consultado em 24 de novembro de 2017 
  3. «The hijras' blessing». BBC. Consultado em 24 de novembro de 2017 
  4. «Na Índia, Justiça reconhece existência de um terceiro gênero». Revista Exame. Consultado em 24 de novembro de 2017 
  5. Cohen L. The pleasures of castration: the postoperative status of Hijras, Jankhas and academics. In: Abramsom PR, Pinkerton SD, editors. Sexual nature, sexual culture. Chicago: The University of Chicago Press; 1995. p.276-304.
  6. Alexandre Saadeh (2004). "Transtorno de identidade sexual: um estudo psicopatológico de transexualismo masculino e feminino" (PDF). Acessado em 22h59min de 16 de Outubro de 2007 (UTC).
  7. «The Truth About How Hijras Are Made In India - Because They're Not Always Born That Way». India Times. Consultado em 24 de novembro de 2017 
  8. «Eunuchs not always born but made». India Times. Consultado em 24 de novembro de 2017 
  9. «Eunucos pedem título de eleitor na Índia». Folha de S.Paulo. Consultado em 24 de novembro de 2017 
  10. «A mutilação genital é uma violação dos direitos humanos». ONU. Consultado em 24 de novembro de 2017 
  11. «Cerca de 68 milhões de meninas e mulheres sofrerão mutilação genital até 2030, diz Fundo de População da ONU». ONU. Consultado em 24 de novembro de 2017 
  12. «ONU identifica crimes contra a humanidade cometidos por militares no Sudão do Sul». ONU. Consultado em 24 de novembro de 2017 
  13. «El 'tercer sexo' indio ya puede votar y ser votado». El Mundo. Consultado em 24 de novembro de 2017 
  14. www.telegraph.co.uk
  15. BBC Brasil