Escravidão nos Estados Unidos

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Animação dos territórios e estados dos Estados Unidos que proibiam e permitiam a escravidão, 1789–1861.

A história da escravidão (ou escravatura) nos Estados Unidos inicia-se no século XVII, quando práticas escravistas similares às utilizadas pelos espanhóis e portugueses em colônias na América Latina, e termina em 1863, com a Proclamação de Emancipação de Abraham Lincoln, realizada durante a Guerra Civil Americana. O tráfico de africanos que foi dirigido aos Estados Unidos durou 240 anos e recebeu o total de 389 mil cativos. A abundância ou escassez de novos escravos produziu formas de tratamento e de vida diferentes da do Brasil, que repunha a mão de obra com a importação, as condições de nutrição eram piores que nos Estados Unidos, e a taxa de mortalidade entre os escravos mais alta. “Desde o início do século XIX, a mão de obra escrava nos Estados Unidos cresceu, fundamentalmente, pela reprodução natural”, afirma o professor de história Sidney Chalhoub, da Universidade de Campinas, autor do livro A força da escravidão – Ilegalidade e costume no Brasil oitocentista (Companhia das Letras, 2012). Nos Estados Unidos, as condições materiais de existência do escravo eram melhores que no Brasil.

Nos EUA, até a véspera da Guerra da Secessão, 90% dos negros ainda eram escravos. “A liberdade nunca foi fácil no Brasil, mas nos EUA era quase impossível”, diz Chalhoub.

Assim como no Brasil o trabalho árduo, os castigos físicos violentos e as torturas também existiam.


De acordo com os dados feitos no Arquivo Nacional da Inglaterra, entre 1519 e 1867, os navios negreiros ingleses entregaram parte dos escravos nos Estados Unidos que receberam cerca de 11% desses negros como mercadorias, o maior comércio de escravos na América do Norte estava no porto de Boston. Os primeiros chegaram aos Estados Unidos em 1619 na colônia de Jamestown, na Virgínia, trazidos por piratas holandeses que os roubaram de uma embarcação espanhola que levava os homens e mulheres escravizados para a atual Colômbia.

No início da escravidão, se o negro se convertesse ao Protestantismo, poderia ficar livre depois de alguns anos e, por isso, muitos se converteram por interesse.

Em 1621 chega aos Estados Unidos outro carregamento de negros, desta vez liderados por comerciantes portugueses.

Em 1640, uma corte na Virgínia condenou à "escravidão eterna" um negro que tentou fugir do seu senhor de terras.

Os historiadores apontam que o auge da chegada de escravizados nos portos norte-americanos acontece em dois períodos: entre 1700 e 1760 e entre 1800 e 1860 (após independência dos Estados Unidos, em 1776, documento que declara que todo ser humano nasce igual e com os mesmos direitos – mas o homem que escreveu esta frase tinha 250 escravos em sua fazenda baseada no plantation de algodão e laranja).

Em 1654 uma outra corte coloca uma punição severa a um escravo que tentou fugir para um "maron" na Geórgia, como eram chamados quilombos nos Estados Unidos da América. O homem, John Casor, foi condenado a 250 chibatadas nas costas e nas pernas. Depois de alguns anos ele acabou sendo liberto porque um vizinho comprou sua liberdade depois de testemunhar uma série de violências contra Casor.

Como os africanos não eram protestantes e nem europeus, eles eram considerados estrangeiros, até mesmo os filhos dos escravos nascidos nos Estados Unidos, e, portanto, contavam com leis ainda mais severas. A situação era pior entre os filhos de brancos e mulheres escravizadas, pois não eram considerados nem africanos escravizados, nem americanos por direito. Até 1662, os filhos de escravizados nasciam livres até que a situação mudou em favor dos senhores de terras: eles impunham a reprodução entre as mulheres e homens escravizados, para que estes tivessem filhos para que o senhores tivessem mais trabalhadores escravizados. Se a criança fosse filha de um pai europeu, ela ficaria com a mãe até os quinze anos e depois seria liberta e viveria à própria sorte.

Em 1705 as leis coloniais consideraram as práticas religiosas dos índios americanos e dos africanos práticas satânicas e, portanto, totalmente ilegais. Assim, a conversão forçada tornou-se prática comum entre os escravos e os índios.

Durante o período das Treze Colônias, e depois da independência dos Estados Unidos, a pratica da escravidão foi comum. Nas colônias do norte os negros eram comuns como empregados domésticos, artesãos, trabalhadores braçais urbanos. Nas colônias do sul a escravidão era mais comum, mais árdua e mais agressiva; os homens e mulheres trabalhavam 17 horas por dia, (nos grandes plantations de algodão, laranja, arroz, tabaco e banana) sendo frequentes os castigos e torturas.

De acordo com os historiadores, no período que a escravidão foi aceita e legalizada nos Estados Unidos, pelo menos 1,6 milhão de homens e mulheres chegaram àquele território para trabalharem compulsoriamente, e a taxa de mortalidade era altíssima por conta das agressões e péssimas condições de vida.

Apesar de o tráfico negreiro ter sido proibido nas terras norte-americanas em 1815, o contrabando continuou até pelo menos 1860 porque era um mercado extremamente lucrativo.

Por fim, em 1865 o governo federal norte-americano aboliu todos os escravos do território, pondo fim, no papel, à escravidão.

Entretanto libertar, do nada, pessoas marginalizadas, pessoas despreparadas para o mercado de trabalho, geralmente analfabetas, extremamente pobres fez com que até hoje a diferença social entre negros e brancos seja enorme.

Guerra Civil Americana[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Guerra Civil Americana
"Patrulhadores de escravos", compostos majoritariamente de brancos pobres, tinham a autoridade de parar, revistar, torturar e até matar escravos que violassem os códigos do escravo americano. Acima, caricatura nortista dos patrulhadores capturando um escravo fugitivo, em um almanaque abolicionista.
Peter, um escravo de Baton Rouge, Louisiana, em 1863. As cicatrizes são resultado das chibatadas de seu capataz, que foi afastado logo após o fato. Foram necessários dois meses para se recuperar do açoitamento.

A questão da escravidão na Guerra Civil Americana é um ponto controverso na historiografia, uma vez que não há análise alguma medida "definitiva" sobre a relação entre a Guerra Civil Americana e a escravidão nos Estados Unidos. Assim, qualquer posição tomada para a resolução desta questão pode, em maior ou menor grau, encontrar apoio em alguma bibliografia, documento importantes.

Na origem da guerra tem-se, grosseiro modo, a escravidão e dois modelos econômicos opostos. O norte em expansão econômica graças à industrialização, à proteção ao mercado interno e à mão de obra livre e assalariada, e o sul numa economia baseada na plantação e no escravismo. As diferenças entre os estados do norte e do sul, ao contrário da dicotomização feita por alguns estudiosos, não são tão acentuadas, como diz Lewis C. Gray:

"Gray considera o sistema de plantation indissoluvelmente ligado ao desenvolvimento internacional do capitalismo. Ressalta a necessidade para a plantation de largo emprego de capital, sua forte tendência à especialização numa única cultura e sua comercialização, e afirma que estes fatores foram parecidos com a revolução industrial".[1]

O caráter capitalista da plantation escravista do sul, análogo aos estados do norte, era em certa medida uma contradição interna ao sistema. Uma economia escravista tende a inibir o desenvolvimento econômico de uma sociedade capitalista, tal como apontado por Max Weber em seu livro The Theory of Social and Economic Organization. Além disso, o retorno dos lucros de volta à produção, presente no norte industrializado, não ocorria da mesma forma nos estados do sul, que tinha uma acentuada tendência a um consumo intenso. Assim, norte e sul diferem-se na medida em que o primeiro possui um progresso econômico qualitativo (retorno dos lucros à produção), e o sul, por sua vez, ao dirigir seus lucros em escravos e terras, possui um progresso econômico quantitativo, levando em consideração a baixa produtividade da mão de obra escrava. Esse fato se deve à mentalidade escravista do proprietário sulista, que investia em escravos pois "dava prestígio e segurança econômica e social numa sociedade dominada pelos plantadores".[2] Os consequentes saltos qualitativos na produção nortista levou os proprietários sulistas a uma aguda disputa com os proprietários do norte. Se for aceita a condição capitalista para os estados do sul, assim como para os estados do norte, tem-se então uma sociedade capitalista que impediu o desenvolvimento do próprio capitalismo, fato que historicamente tende a revoltas, guerras e revoluções, ainda mais considerando que o sul apresentava problemas de produção de produtos para o consumo interno. Talvez possa ser possível aqui inferir que escravidão engendrou uma estagnação econômica nos estados do sul, que por sua vez entraram em conflito com o norte cada vez mais produtivo, gerando assim a guerra civil estadunidense. A relação entre brancos proprietários de escravos e brancos não proprietários também foi um fator que provavelmente gerou disputas pela hegemonia num país possuidor de uma nítida linha divisória entre o norte industrializado e abolicionista, e os estados do sul dos Estados Unidos – latifundiários, aristocratas e escravagistas, pois o uso de mão de obra escrava impedia o emprego de brancos e desestimulava a imigração de europeus para o sul aristocrático.

Relatos do escravo Frederick Douglass mostram que algumas plantações não forçavam seus escravos a trabalharem no Natal. O motivo não era altruísta, essa folga era concedida para liberar tensão entre os trabalhadores, para que eles continuassem sendo explorados por mais um ano. Não era uma prática comum a todos os donos de escravos, mas pelos relatos, não era algo tão raro também.[3]

Apesar de o tráfico de escravos ser proibido em 1815, o contrabando continuou até o ano de 1860, enquanto que no norte crescia a campanha pela abolição. O Compromisso do Missouri, de 1820, autoriza a escravidão apenas abaixo do paralelo 36º. O apoio que ainda poderia existir no Norte a favor da escravidão esvaiu-se com o livro A Cabana do Pai Tomás (em português, do original em, inglês "Uncle Tom's Cabin"), de Harriet Elizabeth Stowe, uma ardente abolicionista que o publicou em 1852. No final de 1860, o estado da Carolina do Sul já havia se declarado fora da União, fato este que culminou na formação dos Estados Confederados da América. Poucos meses após a eleição de Abraham Lincoln (1809-1865), um republicano contrário à escravidão, a confederação, de cunho separatista, já aglomerava 11 estados (Virgínia, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Geórgia, Flórida, Alabama, Mississippi, Louisiana, Arkansas, Texas e Tennessee).

Assim, a guerra civil se deflagra e deixa um saldo de centenas de milhares de mortos e uma legião de negros marginalizados. Nenhum programa governamental é previsto para sua integração profissional e econômica. O Sul permanece militarmente, mas isso acontece até 1877, favorecendo o surgimento de outras novas religiões como uma que se chama Os cavaleiros da Camélia Branca, essa perseguia os negros violentamente e defendia a segregação racial.

Todas essas diferenças elencadas, não só nos aspectos produtivos, mas também em diferenças de mentalidades, tal como observadas por Tocqueville, estão diretamente ligadas à questão da escravidão. O orgulho pela plantation sulista, a posse de escravos, os problemas produtivos — tudo remete à escravidão, fator que pretendeu-se colocar como força matriz da Guerra Civil.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. GENOVESE, Eugene. A Economia Política da Escravidão. RJ: Pallas, 1976. pp. 20-21.
  2. GENOVESE, Eugene. A Economia Política da Escravidão. RJ: Pallas, 1976. p. 25.
  3. http://www.gutenberg.org/files/23/23-h/23-h.htm

Ligações externas[editar | editar código-fonte]