Tabajaras (Ceará)

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Tabajaras
Ceará.png
Mapa indicando a presença indígena contemporânea no Ceará. Fontes: FUNAI e FUNASA.
População total

2 982

Regiões com população significativa
Municípios de Crateús, Poranga, Quiterianópolis, Monsenhor Tabosa e Tamboril, na serra da Ibiapaba, no estado do Ceará, no Brasil
Línguas
língua tupi, língua portuguesa
Religiões

Os tabajaras, também conhecidos como tobajaras, são um povo indígena brasileiro que habita o oeste do estado do Ceará, na região da serra de Ibiapaba,[1] nos municípios de:

O etnônimo tabajara[editar | editar código-fonte]

O etnônimo "tabajara" (termo derivado do tupi antigo tobaîara, "inimigo")[2] é uma das muitas armadilhas que a historiografia colonial deixou como herança para a etnologia brasileira. Registrado em diversos lugares e períodos diferentes, a correlação entre o nome e um grupo específico é muito tênue e pode trazer mais problemas do que soluções. Talvez o termo seja muito mais uma adscrição classificatória, utilizada em contextos delimitados, do que um grupo substantivamente definido. Inclusive, esta parece ser a direção corrente na literatura antropológica atual.

Segundo Fausto (1992, p. 384, 385 e 391), o termo "Tobajara" era uma categoria classificatória dos povos tupis que servia para estes denominarem aqueles grupos com os quais podiam estabelecer relações de reciprocidade ou de guerra alternadamente, advindo, daí, a sua dupla tradução como "cunhado" e "inimigo".

Tentamos, neste ponto, desnaturalizar as ideias a respeito de uma suposta unidade e diferenciação indígena em grupos bem delimitados e segmentados, que estaria representada em seus etnônimos. Pois, "longe de ser uma profunda expressão da unidade de um grupo, um etnônimo resulta (geralmente) de um acidente histórico, que frequentemente é conceitualizado como um ato falho, associado a um jogo de palavras e com efeito de chiste" (Oliveira, 1999, p. 172. Parênteses nossos). Ainda mais nos casos dos encontros e desencontros coloniais, nos quais os jogos de interesses e as guerras provocavam constantes mudanças sociais, com grupos se fragmentando, se reunindo e mudando de lado. Por isso, nesta análise histórica, opta-se por tratar do etnônimo tabajara e não da etnia Tabajara, evitando reificar eventos e menções que talvez tenham existido apenas no momento da escrita colonial e que não correspondiam às divisões correntes entre os indígenas.

De acordo com Silva (2003), os termos Potiguara, Tabajaras e Caetés, que aparecem nas crônicas coloniais de Pernambuco, têm mais a ver com posições assumidas pelos grupos indígenas na relação com os colonos portugueses do que com divisões estanques entre os grupos, podendo, estes, mudar de nome de acordo com as mudanças nas alianças políticasː

Esta variedade de denominações é comum na literatura histórica e antropológica, onde, a depender das fontes, os grupos aparecem grafados de diversas maneiras e até com dois ou três nomes diferentes. Assim, muitos autores utilizarão o termo Tupinambá para designar o conjunto de povos de língua tupi (esta, também chamada de "tupinambá antigo", cf. Rodrigues, 1986) que vivia no litoral entre Cananeia/SP e o Ceará, tendo, daí, migrado para a Serra de Ibiapaba, o Maranhão, o Pará e a ilha Tupinambarana, no rio Amazonas.

Ao descrever as migrações dos Tupinambás, Caeté e Potiguar do litoral de Pernambuco e da Bahia para o Maranhão, Fernandes (1989) argumenta que, ao fugirem dos portugueses que ocupavam estas regiões, estes grupos se aliaram e, no trajeto percorrido a partir de 1570-72, ocuparam diversas áreas do interior e litoralː

Em virtude disso, os grupos que se fixaram na serra da Ibiapaba ficaram conhecidos nos registros históricos como Tabajara. Nesta região, viviam, ainda, inúmeros grupos tapuias, tais comoː Tacarijú, Quitaiaiú, Ocongá, Caratiú, Reriiú (Areriú), Acriú, Anacé, Aconguassu (Acoanssu), que eram, de certa forma, subordinados aos Tabajaras. Ainda no século XVII, após as Invasões Holandesas, centenas de índios Potiguaras da Paraíba e Pernambuco, convertidos ao calvinismo, buscaram refúgio na Ibiapaba, até então, uma área livre do controle português.

No século XVIII, quando os padres jesuítas conseguem, finalmente, instalar uma missão]] na serra da Ibiapaba, esta vai ser composta por uma variedade de etnias indígenas, muitas vezes citadas na documentação como Tabajara (Cf. Barros, 2001). Essa população aldeada vai sendo incorporada ao projeto colonial paulatinamente, destacando-se a sua utilização como mão de obra agrícola e fornecimento de tropas para combater índios rebeldes e invasões estrangeiras. A associação entre o etnônimo Tabajara e as populações nativas da serra da Ibiapaba vai se costurando nesse processo, de modo que, nos séculos seguintes, serão tratados em muitos textos quase como sinônimos. Com a elevação das "aldeias missionárias" à categoria de "vilas de índios" a partir de 1759, registra-se, na capitania do Ceará, uma grande dispersão dos índios aldeados, em virtude das novas condições de trabalho, ditadas pelos diretores civis, que substituíam os padres (Porto Alegre, 1992, p. 203-208). Na Ibiapaba, as aldeias missionárias constituirão as vilas de Viçosa, São Benedito e Ibiapina, que serão registradas como lugares habitados por índios até o século seguinte (Porto Alegre, 1992; 2004).

A dispersão da população aldeada tenderá a se acentuar ao longo do século XIX com os inúmeros conflitos sociais do Primeiro Império, quando registra-se a deserção de 60 casais da Vila Viçosa para participar da Balaiada no Maranhão. Durante o Segundo Império, as aplicações da Lei de Terras e a extinção dos antigos aldeamentos irão provocar a invisibilização completa da população indígena na província do Ceará. É neste momento que são referidas as últimas notícias com relação ao etnônimo Tabajara e/ou aos índios da serra da Ibiapaba, precisamente em notícias de viajantes e expedições científicas (cf. Porto Alegre, 2003).

São esses processos que irão acelerar a dispersão da população indígena em pequenos grupos familiares em busca de alternativas de sobrevivência em terras devolutas ou sob a proteção de algum proprietário. Essa busca se dará especialmente nas zonas fronteiriças e ainda não ocupadas, como a região sul da Ibiapaba (Crateús), trocada no final do século XIX, pelo Piauí em favor de uma saída para mar, representada pelo porto de Parnaíba, até então pertencente ao Ceará.

Os tabajaras hoje[editar | editar código-fonte]

Os Tabajaras possuem uma história de sucessivas migrações, devido a constantes conflitos de terras. Os Tabajaras que vivem em Crateús são provenientes das serras vizinhas, principalmente a serra da Ibiapaba, e tiveram que migrar para a periferia da cidade, foragidos da opressão exercida pelos fazendeiros que invadiram suas terras. Dividem-se em sete comunidades. Recentemente, um grupo de quinze famílias dos Lira migrou para a cidade de Quiterianópolis, onde encontraram melhores condições para viver de acordo com seus costumes indígenas. Ficaram conhecidos como os Tabajaras de Fidélis. Nesta mesma cidade, encontram-se mais três comunidades Tabajaras: Vila Nova, Croatá e Vila Alegre, todas na área rural.

Em fevereiro de 2004, os Tabajaras de Crateús conseguiram, através de sua luta, retomar cerca de 6 000 hectares de suas terras que ficam na serra da Ibiapaba. O local é chamado de Nazário e, lá, estão residindo cerca de 10 famílias, entre Tabajara e Kalabaça, enquanto aguardam a delimitação e demarcação da terra.

Em Monsenhor Tabosa, se encontra a comunidade Tabajara de Olho d'Água de Canutos, a 4 quilômetros desta cidade. São 13 famílias residindo na região. Em 1973, a família Canuto, liderada por José Canuto, comprou 74 hectares de terras onde antes viviam como moradores. Organizam-se através da Associação Unidos Venceremos do Povo Tabajara de Olho d'Água de Canutos, que se reúne no salão comunitário da Escola Indígena da comunidade. Em Tamboril, existe a comunidade Tabajara em Grota Verde, a 35 quilômetros da cidade. São 25 famílias que se organizam através de uma associação sob a liderança de Agno Tabajara. Atualmente, sofrem constantes ameaças por parte de fazendeiros, fato que tem limitado suas ações políticas.

Os tabajaras de Poranga residem na Aldeia Imburana, que fica próxima à cidade e também na Aldeia Cajueiro, distante 38 quilômetros de Imburana. Esta aldeia, de 4 400 hectares, foi fruto de uma retomada, sendo, hoje, habitada por 9 famílias, entre Tabajara e Kalabaça, e, igualmente, aguardam a regularização da terra indígena.

Entre suas instituições, existem o Conselho Indígena dos Povos Tabajara e Kalabaça de Poranga - CIPO, importante instrumento de organização e luta; a Associação de Mulheres Indígenas Tabajara e Kalabaça (AMITK) e a Escola Diferenciada Indígena de Poranga.

População e localização atual[editar | editar código-fonte]

De acordo com o distrito sanitário especial indígena do Ceará (órgão da Fundação Nacional de Saúde), os Tabajara no Ceará compõem uma população de 2 982 pessoas, assim distribuídas:

Etnia indígenas mais populosas no Leste-Nordeste.

Tabajaras famosos[editar | editar código-fonte]

A dupla Índios Tabajaras, formada pelos irmãos tabajaras Antenor (Mussaperê, "terceiro" em língua tupi, por ser o terceiro filho) e Natalício (Herundy, "quarto" em língua tupi, por ser o quarto filho) Moreira Lima, fez sucesso nacional e internacional entre 1942 e 1980, tocando obras de música clássica no violão.[3]

Referências

  1. FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 1 637.
  2. NAVARRO, E. A. Dicionário de Tupi Antigoː a Língua Indígena Clássica do Brasil. São Paulo. Global. 2013. p. 598.
  3. Revivendo músicas. Disponível em http://revivendomusicas.com.br/biografias_detalhes.asp?id=126. Acesso em 12 de junho de 2016.

Fontes[editar | editar código-fonte]

  • DANTAS, Beatriz Gois et. Alli. Os Povos Indígenas no Nordeste Brasileiro: Um Esboço Histórico. In, CUNHA, Manuela Carneiro da. (org.) História dos índios no Brasil, 2ª ed., São Paulo: Cia. Das Letras/ Secretaria Municipal de Cultura/FAPESP, 1998, pp. 431– 456.
  • OLIVEIRA, João Pacheco de (org.) Uma etnologia dos 'índios misturados': situação colonial, territorialização e fluxos culturais. In, OLIVEIRA, João Pacheco de (org.). A viagem da volta: etnicidade, política e reelaboração cultural no Nordeste indígena. Rio de Janeiro: Contracapa. 1999. pp. 11–41.
  • PORTO ALEGRE, Maria Sylvia; MARIZ, Marlene da Silva; DANTAS, Beatriz Gois (Orgs.). Documentos para a história indígena no nordeste: Ceará, Rio Grande do Norte e Sergipe. São Paulo : USP-NHII/FAPESP, 1994. 269 p.
  • PORTO ALEGRE, Maria Sylvia. Aldeias indígenas e povoamento no Nordeste no final do século XVIII: aspectos demográficos da 'cultura do contato'. (Trabalho apresentado no GT "História Indígena e do Indigenismo", no XVI Encontro Anual da ANPOCS, Caxambú-MG, 1992).
  • Comissão das borboletas. Fortaleza: Museu do Ceará/SEC. 2003.
  • SILVA, Robson Cândido da. Relatório de levantamento preliminar das terras a verificar no estado do Ceará. FUNAI: Brasília. Digitado. Setembro de 2004.

Ver também[editar | editar código-fonte]


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