Etanol como combustível no Brasil
O Brasil é o segundo maior produtor de etanol do mundo, o maior exportador mundial, e é considerado o líder internacional em matéria de biocombustíveis e a primeira economia em ter atingido um uso sustentável dos biocombustíveis.[1][2][3] Juntamente, o Brasil e os Estados Unidos lideram a produção do etanol, e foram responsáveis em 2008 por 89% da produção mundial [4] e quase 90% do etanol combustível.[5] Em 2008 a produção brasileira foi de 24,5 bilhões de litros,[6] equivalente ao 37,3% da produção mundial de etanol.[5] A indústria brasileira de etanol tem 30 anos de história e o país usa como insumo agrícola a cana de açucar, alem disso, por regulamentação do Governo Federal, toda a gasolina comercializada no país é misturada com 25% de etanol, e desde Julho de 2009 circulam no país mais de 8 milhões de veículos, automóveis e veículos comerciais leves,[7] que podem rodar com 100% de etanol ou qualquer outra combinação de etanol e gasolina, e são chamados popularmente de carros "flex".
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[editar] História
Os primeiros usos práticos do etanol deram-se entre o final dos anos 1920 e início dos anos 1930. Mas somente nos anos 1970, com a crise do petróleo, que o Brasil passou a usar maciçamente o etanol como combustível. Na segunda metade da década de 1980 por diversos motivos ocorreu uma forte retração no consumo de álcool combustível. Atualmente uma combinação de fatores como a preocupação com o meio ambiente e a esperada futura escassez de combustíveis fósseis levaram a um interesse renovado pelo etanol.
[editar] As primeiras experiências de extração do alcool
A primeira experiência de uso do etanol como combustível no Brasil aconteceu no ano de 1927. A USGA (Usina Serra Grande Alagoas) foi a primeira do país a produzir etanol combustível no final dos anos 1920.[8] No início da década seguinte com a queda nos preços do petróleo, este empreendimento não teve condições de prosseguir.
Durante a revolução constitucionalista, João Bottene[9] desenvolveu um combustível a base de álcool e óleo de mamona para auxiliar os revolucionários. Anteriormente ele já adaptara veículos para utilizarem etanol. Mais tarde fabricou uma locomotiva movida a álcool e adaptou um avião para funcionar com este combustível.[10]
Apesar destas experiências bem sucedidas com o etanol, o uso deste como combustível acabou por ser posto de lado. Tanto que, durante a II guerra mundial o Brasil optou pelo gasogênio como alternativa à gasolina para os automóveis.
[editar] Anos 1970: a crise do petróleo e o Pró-álcool
A partir da crise do petróleo, na década de 1970, o Governo brasileiro, numa atitude isolada internacionalmente, criou o programa Pró-álcool, e o etanol novamente recebeu as atenções como biocombustível de extrema utilidade.
Enquanto o governo promovia estudos econômicos para a sua produção em grande escala, oferecendo tecnologia e até mesmo subsídios às usinas produtoras de açúcar e álcool, as indústrias automobilísticas instaladas no Brasil na época - Volkswagen, Fiat, Ford e General Motors - adaptavam seus motores para receber o álcool combustível. Daí, surgiriam duas versões no mercado: motor a álcool e a gasolina.
O primeiro carro a álcool lançado foi o Fiat 147 em 1978. Daí até 1986, o carro a álcool ganhou o gosto popular dos brasileiros, sendo que a quase totalidade dos veículos saídos das montadoras brasileiras naquele ano utilizava esse combustível.
[editar] A "crise do álcool"
A partir de então, o consumo de álcool apresentou queda gradual. Os motivos passam pela alta no preço internacional do açúcar, o que desestimulou a fabricação de álcool. Com o produto escasseando no mercado, o Governo brasileiro iniciou a importação de etanol dos Estados Unidos, em 1991, ao tempo que ia retirando, progressivamente, os subsídios à produção, promovendo a quase extinção do Pró-Álcool.
A queda no uso desse biocombustível também se deveu, ao longo da década de 1990, a problemas técnicos nos motores a álcool, incapazes de um bom desempenho nos períodos frios, principalmente.
Durante a década, com altas inesperadas no preço do petróleo, o álcool seria misturado à gasolina, numa taxa em torno de vinte por cento, como forma de amenizar o preço da gasolina ao consumidor.
[editar] O álcool hoje
No início do século XXI, na certeza de escassez e de crescente elevação no preço dos combustíveis fósseis, priorizam-se novamente os investimentos na produção de etanol por um lado e, por outro, um amplo investimento na pesquisa e criação de novos biocombustiveis. Diante de uma situação nacional antiga e inconstante, justamente causada pelas altas e baixas do petróleo, as grandes montadoras brasileiras aprofundaram-se em pesquisas e, dessa forma, lançaram uma tecnologia revolucionária: os carros dotados de motor bicombustível, fabricados tanto para o uso de gasolina quanto de álcool. De 2002 a 2011 não houve quedas na produção do etanol no centro-sul do Brasil.[11]
[editar] Características do mercado brasileiro
A indústria automobilística brasileira desenvolveu veículos que funcionan com flexibilidade no tipo de combustível, que são conhecidos na lingua inglesa como "full flexible-fuel vehicles" (FFFVs), ou simplesmente "flex", no Brasil, pela sua capacidade do motor funcionar com qualquer proporção na mistura de gasolina e álcool. Disponíveis no mercado desde 2003, os veículos flex resultaram em sucesso comercial,[12] e já em Agosto de 2008, a frota de automóveis e veículos comercias leves tipo "flex" tinha atingido a marca de 6,2 milhões de veículos, representando 23% da frota automotriz do Brasil.[7] O sucesso dos veículos "flex", conjuntamente com a obrigatoriedade ao nível nacional de usar de 20 a 25% do álcool misturado com gasolina convencional (E20-E25), permitiu ao etanol combustível superar o consumo de gasolina em Abril de 2008.[2][2][13][14] O consumo do álcool representou quase 18% da matriz de combustíveis veiculares em 2006 (a matriz inclui os veículos que utilizam óleo diesel).[15][16] No Brasil, o refino do etanol é controlado pela Cosan/Shell, São Martinho, Bunge e Braskem.
[editar] Comparação entre a produção de etanol nos Estados Unidos e Brasil
| Comparação das principais caraterísticas da indústria do etanol nos Estados Unidos e Brasil |
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|---|---|---|---|
| Característica | Unidades/comentário | ||
| Matéria prima (insumo agrícola) | Cana de açúcar | Milho | |
| Matéria prima (química) | Glicose (Monossacarideo) | Amido | |
| Produção total de etanol (2008) [6] | 6,472 | 9,000 | Milhões de galões líquidos EUA |
| Total terras aráveis [17] | 355 | 270(1) | Milhões hectares. |
| Área total plantada do cultivo para produzir etanol[17][18] | 3,6 (1%) | 10 (3,7%) | Milhões hectares (% total arável) em 2006 |
| Productividade per hectare plantada[1][17][18][19] | 6,800-8,000 | 3,800-4,000 | Litros de etanol per hectare produzidos. |
| Balanço energético (produtividade energética)[3][18] | 8,3 a 10,2 vezes | 1,3-1,6 vezes | Relação da energía gastada na produção/energia obtida do etanol |
| Redução das emissões de gases de efeito estufa [5][18][20] | 86-90%(2) | 10-30%(2) | % de emissões evitadas ao substituir gasolina por álcool, sem mudanças nos usos dos solos |
| Tempo para restituir o carbono pelo uso de terras novas[21] | 17 anos(3) | 93 anos(3) | Cenários com mudanças no uso do solo por Fargione et al.[22] |
| Frota de veículos flex (autos e comercias leves)[7][23] | 8,2 milhões | 8,0 milhões | Somente automóveis e camionetes. Brasil em Julho de 2009 (frota usa E25 a E100) e E.U.A no início de 2009 (usa somente E85). |
| Postos de gasolina com venda de etanol no país[1][2] | 33.070 (100%) | 1.963 (1%) | % do total de postos em cada país. Em Dezembro 2007 para Brasil e Março 2009 para E.U.A.[24] |
| Participação do etanol no mercado de gasolina[13][14][25] | 50%(4) | 4% | % do consumo total em base volumétrica. Brasil até Abril 2008 e ano 2006 para E.U.A. |
| Custo de produção (USD/galão) [1] | 0,83 | 1,14 | 2006/2007 para o Brasil (22¢/litro), 2004 para E.U.A (35¢/litro) |
| Subsídio agrícola (em USD) [2][17] | 0 | 0,45/glão | E.U.A. desde 01 de Janeiro 2009. No Brasil a produção do etanol já não tem subsídios. |
| Tarifas de importação (em USD) [1][3] | 0 | 0,54/galão | Até 30 de Abril 2008, o Brasil não importa etanol, E.U.A. importa, a maioria do Brasil |
| Notas: (1) Somente E.U.A. contíguo (excluindo Alasca) (2) Presume que não tem mudanças no uso do solo.[20] (3) Presume mundanças nos usos do solo na lavoura de cana de açúcar no cerrado brasileiro e do milho na pradaria central americana.[22] (4) Quando inclusos os veículos de motor diesel, o uso do etanol no setor viário foi perto de 18% em 2006.[15][16] | |||
Referências
- ↑ a b c d e Daniel Budny and Paulo Sotero, editor (2007-04). Brazil Institute Special Report: The Global Dynamics of Biofuels (em inglés). Brazil Institute of the Woodrow Wilson Center. Página visitada em 2008-05-03.
- ↑ a b c d e Jay Inslee e Bracken Hendricks. Apollo's Fire. [S.l.]: Island Press, Washington, D.C., 2007. ISBN 978-1-59726-175-3 Ver o capítulo 6. Homegrown Energy (Energía cultivada en casa).
- ↑ a b c Larry Rother (2006-04-10). With Big Boost From Sugar Cane, Brazil Is Satisfying Its Fuel Needs (em inglés). The New York Times. Página visitada em 2008-04-28.
- ↑ Marcela Sanchez (2007-02-23). Latin America -- the 'Persian Gulf' of Biofuels? (em inglés). The Washington Post. Página visitada em 2008-05-03.
- ↑ a b c Biofuels: The Promise and the Risks, in World Development Report 2008 (em inglés) pp. pp. 70-71. The Worl Bank (2008). Página visitada em 2008-05-04.
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- ↑ a b c Veículos flex somam 6 milhões e alcançam 23% da frota (em portugués). Folha Online (2008-08-04). Página visitada em 2008-08-09.
- ↑ USGA: EM 1927, O PRIMEIRO GRANDE EMPREENDIMENTO BRASILEIRO EM ÁLCOOL COMBUSTÍVEL (em portugués) (Junho de 2000). Página visitada em 20 de Outubro de 2008.
- ↑ João Bottene: o criador do motor a álcool para carro e avião (em portugués) (20 de Outubro de 2008). Página visitada em 20 de Outubro de 2008.
- ↑ João Bottene: o criador do motor a álcool para carro e avião (2) (em portugués) (20 de Outubro de 2008). Página visitada em 20 de Outubro de 2008.
- ↑ Oferta de etanol cai pela primeira vez desde 2002. Brasil Econômico (14 de julho de 2011). Página visitada em 14 de julho de 2011.
- ↑ William Lemos (2007-11-12). Brazil's flex-fuel car production rises, boosting ethanol consumption to record highs (em inglés). ICIS chemical business. Página visitada em 2008-05-03.
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- ↑ a b Gazeta Mercantil (2008). ANP estima que consumo de álcool supere gasolina. Agropecuária Brasil. Página visitada em 2008-08-09.
- ↑ a b 2007 Balanço Energético Nacional: Sumário Executivo (em portugués). Ministério de Minas e Energia do Brasil. Página visitada em 2008-05-10. Tabla 2. El reporte está basado en datos de 2006
- ↑ a b D. Sean Shurtleff (2008-05-07). Brazil's energy plan examined (em inglês). The Washington Times. Página visitada em 2008-05-10.
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- ↑ Energy Information Administration (August 2007). Renewable Energy Consumption and Electricity Preliminary 2006 Statistics: Ethanol (em inglês). EIA. Página visitada em 2008-08-09.
[editar] Ver também
- Energia renovável no Brasil
- Misturas comuns do álcool combustível
- Ônibus movido a etanol
- Veículo flex
- Centro de Tecnologia Canavieira
- Usina Termelétrica de Juiz de Fora
[editar] Ligações externas
- Etanol "come a paisagem" do cerrado, diz jornal "Washington Post" (em português)
- [Etanol é ameaça ao cerrado, afirma relatório da ONU] (em português)
- Ele é o falso vilão, Revista Veja (em português)