Lêdo Ivo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
NoFonti.svg
Este artigo ou se(c)ção cita uma ou mais fontes fiáveis e independentes, mas ela(s) não cobre(m) todo o texto (desde janeiro de 2013).
Por favor, melhore este artigo providenciando mais fontes fiáveis e independentes e inserindo-as em notas de rodapé ou no corpo do texto, conforme o livro de estilo.
Encontre fontes: Googlenotícias, livros, acadêmicoScirusBing. Veja como referenciar e citar as fontes.
Lêdo Ivo Academia Brasileira de Letras
Nascimento 18 de fevereiro de 1924
Maceió, Alagoas
Morte 23 de dezembro de 2012 (88 anos)
Sevilha, Espanha
Nacionalidade  Brasileiro
Ocupação Jornalista, poeta, romancista, contista, cronista e ensaísta

Lêdo Ivo[1] (Maceió, 18 de fevereiro de 1924  — Sevilha, 23 de dezembro de 2012) foi um jornalista, poeta, romancista, contista, cronista e ensaísta brasileiro.

Seu primeiro livro foi As Imaginações. Fez jornalismo e tradução. Da sua vasta obra, destacam-se títulos como Ninho de Cobras, A Noite Misteriosa, As Alianças, Ode ao Crepúsculo, A Ética da Aventura ou Confissões de um Poeta.

Era membro da Academia Brasileira de Letras, eleito em 13 de novembro de 1986 para a cadeira 10, sucedendo a Orígenes Lessa.

Discurso de posse[editar | editar código-fonte]

Lêdo Ivo foi eleito em 13 de novembro de 1986, na sucessão de Orígenes Lessa e recebido em 7 de abril de 1987 pelo acadêmico Dom Marcos Barbosa. Eis o 1º parágrafo de seu discurso de posse[2] , já como membro da Academia Brasileira de Letras:

"Numa tarde de outono, um homem caminha pelas ruas de Londres. O frio e o vento o obrigam a encolher-se no seu sobretudo. Sozinho e desconhecido na metrópole que Verlaine comparou à Babilônia, esse homem é um exilado, expulso de sua pátria por um caudilho taciturno. E enquanto ele marcha entre as folhas que caem, em seu espírito flui a interminável reflexão sobre o seu país que, no outro lado do oceano, vive as turbulências do dissídio e do desencontro.
Esta é a imagem que me ocorre de Rui Barbosa, o fundador da Cadeira nº 10: a do exilado."

Morte[editar | editar código-fonte]

Morreu aos 88 anos de idade, após um mal súbito, quando viajava ao exterior[3] .

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Conjunto da obra de Lêdo Ivo[4]

Poesia[editar | editar código-fonte]

  • As imaginações. Rio de Janeiro: Pongetti, 1944;
  • Ode e elegia. Rio de Janeiro: Pongetti, 1945;
  • Acontecimento do soneto. Barcelona: O Livro Inconsútil, 1948;
  • Ode ao crepúsculo. Rio de Janeiro: Pongetti, 1948;
  • Cântico. Ilustrações de Emeric Marcier. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1949;
  • Linguagem: (1949-19041). Rio de Janeiro, J. Olympio, 1951;
  • Ode equatorial. Com xilogravuras de Anísio Medeiros. Niterói: Hipocampo, 1951;
  • Acontecimento do soneto. Incluindo Ode à noite. Introdução de Campos de Figueiredo. 2. ed. Rio de Janeiro: Orfeu, 1951;
  • Um brasileiro em Paris e O rei da Europa. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1955;
  • Magias. Rio de Janeiro: Agir, 1960;
  • Uma lira dos vinte anos (contendo: As imaginações, Ode e elegia, Acontecimento do soneto, Ode ao crepúsculo, A jaula e Ode à noite). Rio de Janeiro: Liv. São José, 1962;
  • Estação central. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1964;
  • Rio, a cidade e os dias: crônicas e histórias. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1965;
  • Finisterra. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1972;
  • O sinal semafórico (contendo: de As imaginações à Estação central). Rio de Janeiro: J. Olympio, 1974;
  • O soldado raso. Recife: Edições Pirata, 1980;
  • A noite misteriosa. Rio de Janeiro: Record, 1982;
  • Calabar. Rio de Janeiro: Record, 1985;
  • Mar Oceano. Rio de Janeiro: Record, 1987;
  • Crepúsculo civil. Rio de Janeiro: Topbooks, 1990;
  • Curral de peixe. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995;
  • Noturno romano. Com gravuras de João Athanasio. Teresópolis: Impressões do Brasil, 1997;
  • O rumor da noite. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2000;
  • Plenilúnio. Rio de Janeiro: Topbooks, 2004;
  • Réquiem, Rio de Janeiro: A Contracapa, 2008.
  • Poesia Completa - 1940-2004. Rio de Janeiro: Topbooks, 2004;
  • Réquiem. Com pinturas de Gonçalo Ivo e desenho de Gianguido Bonfanti. Rio de Janeiro: editora Contra Capa, 2008.


Antologias[editar | editar código-fonte]

  • Antologia Poética. Rio de Janeiro: Ed. Leitura, 1965.
  • O Flautim. Rio de Janeiro: Editora Bloch, 1966.
  • 50 Poemas Escolhidos pelo Autor. Rio de Janeiro: MEC, 1966.
  • Central Poética. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1976.
  • Os Melhores Poemas de Lêdo Ivo. São Paulo: Ed. Global, 1983. (2.a edição, 1990).
  • 10 Contos Escolhidos. Brasília: Ed. Horizonte, 1986.
  • Cem Sonetos de Amor. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1987.
  • Antologia Poética. Organização de Walmir Ayala; introdução de Antonio Carlos Vilaça. Rio de Janeiro: Ediouro, 1991.
  • Os Melhores Contos de Lêdo Ivo. São Paulo: Global Editora, 1995.
  • Um Domingo Perdido (contos). São Paulo: Global Editora, 1988.
  • Poesia Viva. Recife: Editora Guararapes, 2000.
  • Melhores Crônicas de Lêdo Ivo. Prefácio e notas de Gilberto Mendonça Teles. São Paulo: Global Editora, 2004.
  • 50 Poemas Escolhidos pelo Autor. Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2004.
  • Cem Poemas de Amor. São Paulo: Escrituras Editora, 2005.
  • O vento do mar. Rio de Janeiro: Contracapa/ABL, 2010.


Romance[editar | editar código-fonte]

  • As alianças (Prêmio da Fundação Graça Aranha). Rio de Janeiro: Agir, 1947; 2.a ed., Rio, Editora Record, 1982; 3.a ed., Coleção Aché dos Imortais da Literatura Brasileira. São Paulo: Editora Parma, 1991; 4ª edição, Belo Horizonte: Editora Leitura, 2007.
  • O caminho sem aventura. São Paulo: Instituto Progresso Editorial, 1948; 2.a ed. revista (com xilogravuras de Newton Cavalcanti), Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1958; 3.a ed., Rio de Janeiro: Editora Record, 1983.
  • O sobrinho do general. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964; 2.a ed., Editora Record, 1981.
  • Ninho de cobras (V Prêmio Walmap). Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1973; 2.a ed., Editora Record, 1980; 3.a ed. Editora Topbooks, 1997; 4ª ed. Maceió: Editora Catavento.
  • A morte do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Record, 1984; 2.a ed., São Paulo: Círculo do Livro, 1990; 3ª Edição, Belo Horizonte: Editora Leitura, 2007.

Conto[editar | editar código-fonte]

  • Use a passagem subterrânea. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1961;
  • O flautim. Rio de Janeiro: Bloch, 1966;
  • 10 [dez] contos escolhidos. Brasília: Horizonte, 1986;
  • Os melhores contos de Lêdo Ivo. São Paulo: Global, 1995;
  • Um domingo perdido. São Paulo: Global, 1998.


Crônica[editar | editar código-fonte]

  • A cidade e os dias. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1957;
  • O navio adormecido no bosque. São Paulo: Duas Cidades, 1971;
  • As melhores crônicas de Lêdo Ivo. Prefácio e notas de Gilberto Mendonça Teles. São Paulo: Global, 2004.<b

Ensaio[editar | editar código-fonte]

  • Lição de Mário de Andrade. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1951;
  • O preto no branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira. Rio de Janeiro: Liv. São José, 1955;
  • Raimundo Correia: poesia (apresentação, seleção e notas). Rio de Janeiro: Agir, 1958;
  • Paraísos de papel. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1961;
  • Ladrão de flor. Capa de Ziraldo Rio de Janeiro: Elos, 1963;
  • O universo poético de Raul Pompéia. Em apêndice: Canções sem metro, e Textos esparsos [de Raul Pompéia]. Rio de Janeiro: Liv. São José, 1963;
  • Poesia observada. (Ensaios sobre a criação poética, contendo: Lição de Mário de Andrade, O preto no branco, Paraísos de papel e as seções inéditas Emblemas e Convivências). Rio de Janeiro: Orfeu, 1967;
  • Modernismo e modernidade. Nota de Franklin de Oliveira. Rio de Janeiro: Liv. São José, 1972;
  • Teoria e celebração. São Paulo: Duas Cidades, 1976;
  • Alagoas. Rio de Janeiro: Bloch, 1976;
  • A ética da aventura. Rio de Janeiro: F. Alves, 1982;
  • A república da desilusão. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995;
  • O Ajudante de mentiroso. Rio de Janeiro:Educam/ABL, 2009.
  • João do Rio. Rio de Janeiro: ABL, 2009.

Autobiografia[editar | editar código-fonte]

  • Confissões de um poeta. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1979;
  • O aluno relapso. São Paulo: Massao Ohno, 1991.


Literatura infanto-juvenil[editar | editar código-fonte]

  • O canário azul. São Paulo: Scipione, 1990;
  • O menino da noite. São Paulo: Companhia. Scipione, 1995;
  • O rato da sacristia. São Paulo: Global, 2000;
  • A história da Tartaruga. São Paulo: Global, 2009.

Edição conjunta[editar | editar código-fonte]

  • O Navio Adormecido no Bosque (reunindo A Cidade e os Dias e Ladrão de Flor). São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1971.


Traduções[editar | editar código-fonte]

Traduções de títulos internacionais feitas por Lêdo Ivo

  • AUSTEN, Jane. A Abadia de Northanger. Rio de Janeiro: Editora Pan-Americana, 1944. Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves, 1982.
  • MAUPASSANT, Guy de. Nosso Coração. São Paulo: Livraria Martins, 1953.
  • RIMBAUD, Jean-Artur. Uma Temporada no Inferno (Une Saison en enfer) e Iluminações (Illuminations) (tradução, introdução e notas). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1957. Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves, 2004.
  • DOSTOIEVSKI, Fiodor M. O Adolescente. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1960.
  • GOES, Albrecht. O Holocausto. Rio de Janeiro: Agir, 1960.


Sobre Lêdo Ivo[editar | editar código-fonte]

Conjunto de obras que falam sobre Lêdo Ivo

NÓBREGA, Luiza. Quero Ser o que Passa: a poesia de Lêdo Ivo. Rio de Janeiro: Contra Capa/Imprensa Oficial de Alagoas, 2011.

  • RENNÓ, Elizabeth. A Aventura Poética de Lêdo Ivo. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1989. (Coleção Afrânio Peixoto, vol. 11.)
  • SANT’ANA, Moacir Medeiros de. Lêdo Ivo de Corpo Inteiro. Maceió: Secretaria de Cultura do Estado de Alagoas, 1995.
  • NUNES, Cassiano. Multiplicidade de Lêdo Ivo. Penedo: AL. Fundação Casa de Penedo, 1995.
  • ALMEIDA, Leda. Labirinto de Águas. Imagens literárias e biográficas de Lêdo Ivo. Maceió: Edições Catavento, 2002.
  • FRIAS, Rubens Eduardo Ferreira. A Raposa sem as Uvas. Uma leitura de Ninho de cobras de Lêdo Ivo. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2004. (Coleção Austregésilo de Athayde, vol. 17.)
  • BRASIL, Assis. A Trajetória Poética de Lêdo Ivo. Rio de Janeiro: Topbooks, 2006.
  • FERNANDES, Ronaldo Costa. Considerações sobre um poeta: Lêdo Ivo. Rio de Janeiro: separata da Revista Brasileira da Academia Brasileira de Letras, 2008.
  • MICCOLIS, Leila. Passagem de Calabar. Rio de Janeiro: Topbooks, 2009.
  • SILVA, Márcio Ferreira da Silva. A cidade desfigurada: uma análise do romance "Ninho de cobras", de Lêdo Ivo. Maceió: Catavento, 2002.
  • SILVA, Márcio Ferreira da Silva. Um olhar cultural sobre o espaço em "Ninho de cobras", de Lêdo Ivo. In: Cultura, contextos, contemporaneidades. Salvado; Seminário Abralic Norte/Nordesde-UFAL, 29 e 30 de novembro de 1999.
  • SILVA, Márcio Ferreira da Silva. A geografia literária de Lêdo Ivo. Tese de Doutorado. 140p. Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística. Maceió: PPGLL/Universidade Federal de Alagoas-UFAL, 2007.
  • SILVA, Márcio Ferreira da. Espaços negativos na poesia de Lêdo Ivo. Caderno de Resumo do I JOEEL-JORNADA DE ESTUDOS SOBRE O ESPAÇO LITERÁRIO, Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Campus Uberaba, vol. 1, nº 1, 2013. ISSN 2319-0272.
  • SILVA, Márcio Ferreira da. Romance e negatividade grávida na ficção de Lêdo Ivo. Revista Graciliano Ramos. Maceió: Imprensa Oficial Graciliano Ramos, nº 07, nov./dez. 2010.
  • SILVA, Márcio Ferreira da Silva. Cidade e representação urbana em Lêdo Ivo. Revista Falares. Maceió: Grafpel/Universidade Estadual de Alagoas-UNEAL, 2011.
  • SILVA, Márcio Ferreira da. A cidade elegíaca de Lêdo Ivo. Revista Leitura. Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística-PPGLL/UFAL. Número temático: Literatura e urbanidade, nº 37 e 38, 2010

Condecorações[editar | editar código-fonte]

  • Ordem do Mérito dos Palmares, no grau de Grã-Cruz
  • Ordem do Mérito Militar, no grau de Oficial
  • Ordem do Rio Branco, no grau de Comendador
  • Medalha Manuel Bandeira
  • Cidadão honorário de Penedo, Alagoas
  • Grande Benemérito do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro
  • Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Alagoas
  • Pertence ao PEN Clube Internacional, sediado em Paris


Manifesto[editar | editar código-fonte]

Durante a reunião da Academia Brasileira de Letras em 4 de agosto de 2011, Lêdo Ivo leu aos colegas um libelo, um manifesto contra a inquietação na plateia promovida por seu desafeto, o também imortal Eduardo Portella[5] durante um discurso que fez dias antes, numa conferência em homenagem a Gonçalves de Magalhães. Eis o discurso na íntegra[6] :


Sr. Presidente,
Senhoras Acadêmicas,
Senhores Acadêmicos,


Nesta Academia, como em todas as corporações que se regem pelas normas da civilização, da boa educação, da polidez e da conviviabilidade, o silêncio do auditório, durante a fala de um dos seus integrantes, é um princípio pétreo.
Esse princípio, Sr. Presidente, foi vulnerado quinta-feira última, quando eu estava falando sobre Gonçalves de Magalhães.
Durante 25 minutos, este auditório ouviu, ininterruptamente, ganidos, gemidos, vagidos, coaxos, grasnidos, uivos, ladridos, miados, pipilos e arrulhos intoleráveis, senão obscenos, de um macilento boquirroto ostensivamente deliberado a tisnar e perturbar a minha exposição.
Momentos antes, Sr. Presidente, V. Exa. exarava o seu zelo por esta Casa versando sobre a quilometragem exorbitante de um dos táxis que servem aos acadêmicos do plenário e que, em seu alto juízo, golpeava as burras fartas desta Academia, a mais rica do mundo.
Esse zelo, que é louvável, ou extremamente louvável, se cingiu na sessão de quinta-feira última, a um inquietante item monetário, e não voltou a florescer quando um dos mais antigos integrantes desta Casa discorria sobre Gonçalves de Magalhães.
Entendo que era dever inarredável de V. Exa. impor então ao auditório o silêncio de praxe, exercendo plenamente a sua Presidência. Esse entendimento, aliás, não é só meu -mas ainda o de outros companheiros que, finda a sessão, e ao longo da semana, estranharam a omissão, leniência ou tolerância de V. Exa.
Houve até companheiros que me externaram a opinião de que eu deveria ter suspendido a minha palestra, já que ela fluía num ambiente toldado pela enxurrada de grasnidos a que já aludi. E não posso nem devo esconder que outros confrades, apreciadores das soluções surpreendentes ou belicosas que quebram a monotonia da vida e das instituições, me interpelaram, surpresos, desejosos de saber onde estava a minha alagoanidade, que não se manifestara.
A todos esses companheiros fiéis à tradição de urbanidade e conviviabilidade desta Academia, onde estou há 25 anos, expliquei o ter lido o meu texto até o fim.
Deus, em sua infinita generosidade, assegurou-me, aos 87 anos, o timbre de voz de minha juventude. Não pertenço à raça dos velhos trôpegos que, com voz de falsete, emitem arrulhos indecorosos em ocasiões em que a decência reclama o ritual do silêncio. Mas a razão decisiva que me levou a não suspender a minha palestra é outra. Além de ter mantido em mim a voz de minha juventude, Deus me aquinhoou com o sentimento da misericórdia -que é a compaixão suscitada pela miséria alheia - e da piedade, que é dó e comiseração.
Confesso, Sr. Presidente, que me confrange o coração assistir ao penoso espetáculo dos que, alcançada a velhice, ostentam em seu trajeto os sinais indeléveis e quase póstumos da decadência física, mental e moral aceleradas, e mesmo amparados por bengalas astutas rastejam nos salões, corredores e auditórios tão lastimosamente, com os olhos mortiços fixados no chão, como se temessem resvalar em uma cova aberta.
Há velhos que não sabem envelhecer e, desprovidos da alegria e do amor à vida, e do emblema do convívio, destilam ódio, inveja e despeito, porejam calúnias e intrigas, bebem o fel do ostracismo e da obscuridade.
Há velhos que procuram enganar-se a si mesmos, pintando os cabelos, embora as florejantes e fartas cabeleiras antigas já tenham sido devastadas pela sabedoria ou impiedade dos tempo, que as converte em insidiosas relíquias capilares.
Esses velhos enganosos e enganados, o padre Manuel Bernardes os estampilha de "tintureiros de si mesmo".
No episódio em pauta, o uso imoderado dessa tintura, ou pintura, para esconder o inescondível e disfarçar o indisfarçável, casa-se com a boquirrotice provocadora.
Mas, tintureiro de si mesmo e boquirroto, esse personagem bizarro merece e reclama, de nossa parte, não um ato agressivo ou belicoso, ou alagoano, mas a muda expressão dessa piedade e dessa misericórdia que devem habitar sempre os nossos corações.
Encerro esta palesta com um verso de Lucrécio:
"É doce envelhecer de alma honesta".
Deus guarde V. Exa., Senhor Presidente, e os demais integrantes desta Casa.
Tenho dito


Precedido por
Orígenes Lessa
Lorbeerkranz.png ABL - quinto acadêmico da cadeira 10
1986—2012
Sucedido por
Rosiska Darcy de Oliveira


Outros projetos Wikimedia também contêm material sobre este tema:
Wikiquote Citações no Wikiquote

Referências

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Wikiquote
O Wikiquote possui citações de ou sobre: Lêdo Ivo


Ícone de esboço Este artigo sobre uma pessoa é um esboço. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-o.