Roberto Marinho

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Roberto Marinho Academia Brasileira de Letras
Marinho nos antigos estúdios do Jornal Nacional
Nascimento Roberto Pisani Marinho
3 de dezembro de 1904
Rio de Janeiro
Morte 6 de agosto de 2003 (98 anos)
Rio de Janeiro
Nacionalidade  Brasileiro
Fortuna Aumento US$ 6.4 Bilhões (2000)[1] [2]
Cônjuge Stella Marinho
Ruth Albuquerque
Lily Marinho
Filho(s) Roberto Irineu Marinho
João Roberto Marinho
José Roberto Marinho
Ocupação Empresário, jornalista
Prêmios Prêmio Maria Moors Cabot (1957)
Religião Catolicismo

Roberto Pisani Marinho (Rio de Janeiro, 3 de dezembro de 1904 — Rio de Janeiro, 6 de agosto de 2003) foi um jornalista e empresário brasileiro. Proprietário das Organizações Globo de 1925 a 2003, foi um dos homens mais poderosos e influentes do país no século XX.[3] [4] Seu empreendedorismo levou à constituição de um dos maiores império de comunicação do planeta e o fez figurar diversas vezes entre os homens mais ricos do mundo.[nota 1] Com sua família atrelada ao jornalismo, herdou ainda jovem o jornal O Globo, fundado pelo pai Irineu Marinho, em 1925.[7] Começou a formar o conglomerado de veículos de comunicação, mais tarde chamado de Organizações Globo, com a inauguração da Rádio Globo em 1944, e a primeira concessão pública de TV no Rio de Janeiro, a TV Globo, em 1957.[7]

Conservador na política, liberal na economia, Marinho fazia com que seus veículos de comunicação sempre tomassem posição política alinhada com seu pensamento e harmonizada com seus interesses.[8] Aproximou-se inicialmente do regime de Getúlio Vargas durante o Estado Novo, inaugurando um convívio com todos os presidentes da República pelo anos seguintes que o transformaria no grande interlocutor dos principais políticos brasileiros do século XX.[3] Nos anos seguintes, passou a apoiar a UDN, opondo-se aos governos de Vargas e Juscelino Kubitschek, e com a renúncia de Jânio Quadros, presidente que teve o apoio irrestrito de Marinho, fez oposição ferrenha contra João Goulart e apoiou o Golpe Militar de 1964.[7] [3] Com seu apoio a ditadura militar brasileira, Roberto Marinho pôde expandir ainda mais seu conglomerado durante o regime autoritário com a inauguração da TV Globo em 1965[nota 2] , que se tornou o principal canal de televisão do Brasil e uma das maiores do mundo.[9] , e a ampliação do Sistema Globo de Rádio nos anos seguintes.[7] [3] Embora tenha ignorado inicialmente o movimento popular de Diretas-Já, apoiou mais tarde Tancredo Neves e José Sarney na Nova República.[7] Na eleição presidencial de 1989, Marinho apoiou Fernando Collor de Mello.

Fã de esportes, praticou automobilismo, hipismo e caça submarina ao longo da vida. Também ligado às artes, foi um grande colecionador de obras, tendo patrocinado algumas exposições com seu grande acervo.[10] Publicou seu único livro, "Uma Trajetória Liberal", em 1992, e em 1993, candidatou-se e foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras. O magnata dedicou-se ainda a Fundação Roberto Marinho, organização de apoio a iniciativas educacionais criada por ele em 1977.

Vida pessoal[editar | editar código-fonte]

Filho do jornalista Irineu Marinho Coelho de Barros e Francisca Pisani Barros, Roberto Pisani Marinho nasceu no dia 3 de dezembro de 1904, no bairro carioca de São Cristóvão[7] , e teve cinco irmãos: Heloísa, Ricardo, Hilda, Helena (falecida com 1 ano de idade) e Rogério.[11] Fez seus estudos primários em escolas públicas, depois estudou na Escola Profissional Sousa Aguiar e nos Colégios Anglo-Brasileiro, Paula Freitas e Aldridge, onde concluiu o ensino secundário em 1922.[4] [10] Ainda muito jovem, participou do movimento tenentista, mais especificamente da primeira revolta, a dos 18 do Forte de Copacabana, ocorrida em 1922, porém foi um dos primeiros a sair do local.[carece de fontes?] Católico, se posicionava contra a teologia da libertação o que rendeu a ele intensos debates com seu colega Dom Helder Câmara[carece de fontes?].

Em 1933 disputou sua primeira prova automobilística com o carro Voisin, na corrida do Quilômetro Lançado, na estrada de Petrópolis. No final da década de 1930, começou a participar de provas hípicas, iniciou sua coleção de obras de arte e comprou a casa do Cosme Velho, onde viveu até o fim da vida.[10]

Conquistou sua primeira vitória hípica montando o cavalo Arisco, no Clube Hípico Fluminense em 1940 e, no ano seguinte, venceu a prova Páreo de Amadores, no Hipódromo da Gávea, com o cavalo uruguaio Plumazo. Conheceu Cândido Portinari em 1942, de quem se tornou amigo, e comprou do artista os quadros "Floresta" e "Circo". Em 1945, obteve o recorde brasileiro de salto com o cavalo Joá, na prova Clóvis Camargo, no Quitandinha, em Petrópolis.[10]

Casou-se com Stella Goulart Marinho em 1946. No ano seguinte, nasceu Roberto Irineu Marinho, primeiro dos quatro filhos do casal, seguido por Paulo Roberto Marinho, João Roberto Marinho e José Roberto Marinho, respectivamente nascidos em 1950, 1952 e 1955. Foi nomeado em delegado do Brasil na comissão dedicada aos direitos humanos da VII Assembleia Geral da ONU, em 1952. Começou a praticar caça submarina em 1956, mergulhando regularmente até os 80 anos.[10]

Em 1970 perdeu o filho Paulo Roberto em um acidente de carro na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro e se separou de Stella. Em 1974, sofreu acidente hípico e fraturou três costelas, mas quatro meses depois, venceu a prova General Lindolpho Ferraz, na Sociedade Hípica Brasileira, com o cavalo Tupã.[10] Em 1977, criou a Fundação Roberto Marinho, organização que apoia iniciativas educacionais, e passou a se dedicar formulação dos programas educativos Telecurso 1o Grau e Telecurso 2o Grau. Em 1979 casou-se com Ruth de Albuquerque Marinho.[3]

Em 1980 conquistou a prova Cinco Tríplices-General Mário Vital Guadalupe Montezuma, no Centro Hípico de Exército, com o cavalo Laborioso.[10] Em 1983 recebeu o prêmio Emmy de Personalidade Mundial da Televisão, nos Estados Unidos.[3] Em 1985 organizou a exposição Seis Décadas de Arte Moderna na coleção Roberto Marinho, no Paço Imperial, Rio de Janeiro, levada depois a Buenos Aires em 1987 e a Lisboa em 1989. Separou-se de Ruth de Albuquerque Marinho no final daquela década.[10]

Seu último casamento, o terceiro, foi com Lily de Carvalho Marinho, em 1991. No ano seguinte, lançou em parceira com Francisco Pinto Balsemão a Sociedade Independente de Comunicação e publicou seu único livro: Uma trajetória liberal, 1992.[12] Candidatou-se a ocupar a cadeira 39 da Academia Brasileira de Letras em 1993, na sucessão de Otto Lara Resende, tendo sido eleito em 22 de julho daquele ano.[nota 3]

Organizou em 1994 a exposição Arte Moderna Brasileira - Uma seleção da Coleção Roberto Marinho, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, que depois foi para Brasília e Curitiba.[10] Em 6 de agosto de 2003, aos 98 anos, Roberto morreu na UTI do Hospital Samaritano por causa de um edema pulmonar. Foi sepultado no Cemitério de São João Batista no Rio de Janeiro.[13]

Carreira jornalística e empresarial[editar | editar código-fonte]

Início[editar | editar código-fonte]

Em 1925 abandonou os estudos para seguir os passos do pai jornalista e trabalhar com ele no jornal "O Globo", fundado em 29 de julho daquele ano, onde começou como repórter e secretário particular de Irineu.[4] Em menos de um mês após o lançamento do jornal, contudo, Irineu faleceu vítima de um ataque cardíaco, e Roberto Marinho tornou-se o principal herdeiro do jornal.[11] No entanto, recusou-se a assumir a direção do diário carioca e o deixou sob responsabilidade de Euclydes de Matos, amigo de seu pai, enquanto continuava seu aprendizado nas funções de repórter, copidesque e redator-chefe, adquirindo completo domínio sobre o fazer jornalístico.[3] Com a morte de Eurycles de Mattos em 5 de maio de 1931, Roberto Marinho assumiu a direção de "O Globo", aos 26 anos de idade, colocando em prática um estilo empresarial ousado, que resultou na construção de um império de comunicação que cresceu ininterruptamente.[14]

A expansão das Organizações Globo nas ondas do rádio[editar | editar código-fonte]

No Golpe de 1930, "O Globo" apoiou o governo instituído por Getulio Vargas e a Revolução Constitucionalista em 1932, sempre adotando uma posição política e editorial cautelosa, que fez do combate ao comunismo uma de suas marcas.[4] [14] Embora seu jornal tenha feito restrições ao golpe que gerou o Estado Novo, Marinho manteve uma relação próxima com Getúlio Vargas, per­correndo os mais altos escalões do poder e utilizando seu jornal para defender as ações do governo ditatorial e se beneficiaram po­lítica e economicamente, além de ter participado do Conselho Na­cional de Imprensa, então ligado do Departamento de Imprensa e Propaganda, órgão estatal responsável pela censura a jornais que funcionou entre 1940 e 1945.[nota 4] No início da Segunda Guerra Mundial, Marinho manifestava-se contrário à posição de neutralidade adotada pelo governo brasileiro e se mostrava alinhado com os aliados.[4] Depois do Brasil se alinhar às forças aliadas, Marinho concedeu ampla cobertura à atuação da Força Expedicionária Brasileira, lançando ainda o tabloide "O Globo Expedicionário".[3]

Em 2 de dezembro de 1944 Marinho deu um passo na expansão do seu conglomerado de mídia[nota 5] ao comprar a Rádio Transmissora, da RCA Victor, e transformá-la na Rádio Globo do Rio de Janeiro, sua primeira emissora de radiodifusão.[nota 6] Com o final da guerra e a crise política do Estado Novo getulista, Marinho tomou posição a favor da redemocratização do Brasil e apoiou pessoalmente o brigadeiro Eduardo Gomes, candidato da União Democrática Nacional, nas eleições presidenciais de 1945, embora tenha mantido seu jornal numa posição de neutralidade durante a campanha presidencial[3] , uma vez que Roberto Marinho havia mantido boas relações com Vargas e com Eurico Gaspar Dutra.[nota 7] Apesar da derrota do seu candidato predileto, Marinho colocou seu jornal a serviço do Governo Dutra, apoiando suas ações no Palácio do Catete.[15] [3]

Na eleição de 1950, Marinho apoiou novamente Eduardo Campos, da UDN, mas Getulio Vargas foi o vencedor do pleito. Inicialmente, as Organizações Globo adotaram um tom crítico moderado ao novo governo Vargas, mas passou a lhe fazer forte oposição a partir de 1953. O jornal "O Globo" fez campanha contra a criação da Petrobras[4] e a Rádio Globo tornou-se porta-voz de ferrenhos opositores ao presidente, entre os quais Carlos Lacerda, que quase que diariamente usava os microfones da emissora de Marinho para atacar o governo.[18] O tom inflamado de Lacerda contra Vargas levou Roberto Marinho a se preocupar com as transmissões que estavam desagradando muito ao governo.[nota 8] Após o desfecho trágico do governo Vargas em 1954[nota 9] , Juscelino Kubitschek, eleito presidente de 1955, recebeu oposição moderada de Marinho, que acabou beneficiado com sua primeira concessão pública para um canal de TV, a TV Globo Rio de Janeiro.[4]

Na eleição seguinte em 1960, Roberto Marinho apoiou Jânio Quadros, que acabou vencedor, mas discordava da política externa independente janista e se decepcionou com a sua renúncia em pouco menos de sete meses de governo.[4] Inicialmente tolerante com o sucessor João Goulart, Marinho logo passou a conspirar para derrubar o novo presidente, colocando seus veículos à disposição da oposição e apoiando o movimento militar que culminou no Golpe Militar de 1964.[4] [4] [19]

Fundação da Rede Globo e a hegemonia televisiva[editar | editar código-fonte]

Com empenho pessoal e firme de Roberto Marinho[4] , as Organizações Globo não apenas apoiaram o golpe de Estado contra Jango, como também deram seu total apoio aos governos militares que se estabeleceram ao longo da ditadura militar brasileira.[nota 10] Em 1965, preocupado que a restauração de eleições diretas para sua sucessão em 1966 pudesse favorecer políticos da oposição, Roberto Marinho participou de um grupo formado pelo então general Ernesto Geisel (chefe da Casa Militar), o general Golbery do Couto e Silva (chefe do Serviço Nacional de Informações) e Luis Vianna (chefe da Casa Civil), que tentava convencer o ditador Castelo Branco a prorrogar ou renovar seu mandato presidencial pós-1966.[21]

Foi sob o regime militar que Roberto Marinho deu um salto decisivo na transformação do conglomerado de Marinho no maior grupo midiático do país, quando o empresário, aos 60 anos, deu início das transmissões do Canal 4 do Rio, a TV Globo, em 26 de abril de 1965.[4] No ano seguinte, ele adquiriu uma nova concessão, o Canal 5 de São Paulo, a TV Paulista, e começou a formar a Rede Globo de Televisão. Como na época não possuía o capital necessário para o novo empreendimento, Roberto Marinho se uniu ao grupo norte-americano Time-Life, para quem deu 49% de participação acordo com o grupo Time-Life representou uma injeção do equivalente hoje a US$ 25 milhões e mais assessoria técnica e comercial avançadas, que mais tarde seria transformada no chamado "Padrão Globo de Qualidade".[22] Embora o artigo 160 da Constituição brasileira de 1946 vetasse a participação acionária de estrangeiros em empresas de comunicação do país e um relatório de uma Comissão Parlamentar de Inquérito criada para investigar o acordo concluiu que a Constituição fora de fato desrespeitada, tanto o procurador-geral da República, em 1967, quanto o presidente Costa e Silva, em 1968, avalizaram a operação como legal.[4] Com o declínio das concorrentes Tupi e Excelsior e a colaboração com a ditadura militar, a Rede Globo ganhou rapidamente projeção nacional[nota 11] e se tornou líder de audiência.[nota 12] Além da força da emissora de Televisão e de ter "O Globo" entre os jornais mais vendidos do Rio e a Rádio Globo líder de audiência carioca, Roberto Marinho diversificou suas atividades empresarias com fazendas de gado, centros comerciais e uma das maiores coleções de arte na América do Sul.[5]

O apoio de Marinho ao regime militar prosseguiu ao longo da década de 1970.[nota 13]

Marinho foi criticado no documentário britânico, Beyond Citizen Kane (Muito Além do Cidadão Kane), por seu poder e papel na fundação da Rede Globo e vínculos com a ditadura militar no período. A Globo foi à Justiça para impedir a liberação e exibição do filme no Brasil, mas que se tornou viral na internet após a virada do século 21.[26] Em 2009, a Rede Record comprou o documentário e passou a divulgar trechos do mesmo na emissora.[27]

Redemocratização e consolidação do poder de Marinho[editar | editar código-fonte]

O procedimento tendencioso do conteúdo editorial dos veículos de Roberto Marinho percorreu o processo de transição democrática, quando o empresário tornou-se grande desafeto de Leonel Brizola.[nota 14]

Com o ocaso da ditadura militar e a derrota do movimento pelas Diretas-Já[nota 15] , Marinho passou a apoiar a candidatura moderada de Tancredo Neves contra Paulo Maluf, candidato do governo militar.[nota 16]

Roberto Marinho manteve sua influência no governo herdado por José Sarney, tendo conseguido mais quatro concessões públicas de TV e até mesmo indicado os ministros Leônidas Pires Gonçalves (Exército) e Antonio Carlos Magalhães (Comunicações)[4] e influído na escolha de titulares da área econômica, como Maílson da Nóbrega.[nota 17]

Na eleição presidencial de 1989, Marinho apoiou Fernando Collor de Mello e as Organizações Globo apoiaram ostensivamente o candidato do PRN.[nota 18] Marinho apoiou o presidente Collor até agosto de 1992, quando a campanha pela destituição do chefe de governo já tinha sido encampada por grande parte da sociedade brasileira.[4] [25] Em 1994 e 1998, Roberto Marinho apoiou a candidatura de Fernando Henrique Cardoso.[4]

Durante a década de 1990, Roberto Marinho passou a cuidar pessoalmente de sua sucessão nas Organizações Globo, tratando de dividir com os filhos as responsabilidades na direção mesmo que continuasse no comando do conglomerado[8] . Mas em 1998, já com a saúde debilitada, o magnata dividiu com seus filhos o poder das Organizações Globo e participava cada vez menos das atividades de suas empresa.[7]

Notas

  1. A Revista Forbes, em 1987, definia Roberto Marinho como o mais influente empresário de televisão, considerado o homem mais poderoso do Brasil, "tendo desempenhado um papel dominante na comunicação", citando que a a rede de TV de Marinho "comanda 80% dos telespectadores do Brasil e é a quarta maior do mundo, sendo superada apenas pelo três grandes dos EUA."[5] Em 2002, a mesma Forbes estimava que o patrimônio do magnata havia caído de US$ 6,4 bilhões para US$ 1 bilhão.[6]
  2. Nesse período, Roberto Marinho enfrentou uma série de acusações durante o processo de implantação da rede televisiva, em virtude de denúncias sobre a participação excessiva de capital estrangeiro no veículo de comunicação por meio de um acordo supostamente ilegal com a norte-americana Time-Life, o que levou à instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito.[3]
  3. Foi recebido pelo acadêmico Josué Montello em 19 de outubro de 1993.
  4. Ao lado do empresário Assis Chateaubriand, Roberto Marinho foi um dos proprietários de jornais mais beneficiados por subvenções estatais por meio de empréstimos e anúncios publicitários durante o Estado Novo. Chateaubriand e Marinho receberam inúmeros fa­vores do governo por meio de empréstimos da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil - instituições de finan­ciamento fundamentais para o desenvolvimento de seus empreendimentos jornalís­ticos -, fazendo com que ambos mantivessem certa fidelidade aos projetos de Vargas, inclusive participando ativamente das ati­vidades do DIP. À medida que as relações entre governo e empre­sas jornalísticas iam se intensificando, estas últimas passaram a obter benefícios governamentais e, dessa forma, seus jornais conquistaram posições elevadas no campo da comunica­ção brasileira, uma vez que passaram a concentrar poderes e dispor de maior capacidade de barganha com o governo federal do que seus concorrentes, além de se imporem como forças importantes dentro na esfera jor­nalística e até mesmo do política. Logo, mesmo ocorrendo en­campação e censura de diversos órgãos da imprensa durante o Es­tado Novo, existiram mais proximidades e acordos entre os homens do governo e os da imprensa do que conflitos.[15]
  5. Além das beneses da primeira era Vargas (1930-1945), o crescimento financeiro do grupo de Marinho foi também impulsionado pela edição de gibis e histórias em quadrinhos norte-americanos e de empreendimentos imobiliários durante as décadas de 1930 e 1940, que lhe permitiu comprar transmissores para montar sua primeira rádio.[4]
  6. Quando da solenidade de inauguração da emissora de rádio e já demonstrando uma visão estratégica de mercado e procurando diversificar ainda mais seus empreendimentos, Roberto Marinho enfatizou que "esta não é só uma estação de rádio que estamos lançando. É uma nova forma que "O Globo" encontrou de servir ao país"[16] [17] .
  7. Dutra e Marinho mantinham uma boa amizade desde o Estado Novo, quando o Ministério da Guerra Dutra contribuiu com a circulação de "O Globo Expedicionário", de Marinho, nos campos de batalha dos expedicionários brasileiros.[15]
  8. A repercussão da irradiação dos comentários de Carlos Lacerda na Rádio Globo era grande, e o jornalista não poupava a figura do presidente Vargas e dos membros do governo, fazendo afirmações sempre em tom acusatório. Embora estivesse preocupado do ponto de vista empresarial com uma reação de Vargas, Marinho defendia publicamente a Rádio Globo através do jornal "O Globo" quando o governo federal ameaçou até cassar a concessão da estação de rádio: "(...)a polícia e o próprio governo deveriam meditar na repercussão que teria neste momento qualquer medida coercitiva que fosse tomada contra uma estação de rádio, sobretudo contra aquela onde está se debatendo um grande escândalo público, objeto de uma comissão parlamentar de inquérito."[18]
  9. O agravamento da crise política em agosto de 1954 levou à intensificação dos ataques de Lacerda ao governo e Getulio Vargas se suicidou, que gerou revolta de populares que atacaram tudo o que simbolizasse a oposição ao presidente Vargas, entre os quais o jornal "O Globo" e a "Rádio Globo", cujos carros foram atacados, alguns incendiados. Houve ameaça de invasão da sede das Organizações Globo, contida pela polícia, e como conseqüência a Rádio Globo ficou algumas horas fora do ar e o jornal O Globo (que era vespertino na época) foi impedido de circular no dia.[18]
  10. "O apoio ao Movimento de 64 ocorreu antes, durante e por muito tempo depois da deposição de Jango; em segundo lugar, não se trata de posição equivocada “da redação”, mas de posicionamento político firmemente defendido por seu proprietário, diretor e redator chefe, Roberto Marinho, como comprovam as edições da época"[20]
  11. A TV Globo conquistou os cariocas no verão de 1966, quando interrompeu sua programação para fazer com exclusividade a cobertura ao vivo das enchentes que deixaram dezenas de mortos e feridos na capital fluminense. A idéia da cobertura ao vivo foi do executivo Walter Clark, responsável por implantar o famoso "Padrão Globo de Qualidade".[4] [23] .
  12. Em 1969, uma casualidade mudou os rumos da TV Globo, quando um incêndio destruiu a sede da emissora em São Paulo. Com os estúdios devastados, a cidade teve de assistir à programação do Rio de Janeiro, mas a audiência na cidade não caiu. O que era estratégia de emergência virou a grande vantagem da Globo, que se tornou a primeira emissora nacional do país, e uma rede que alcançasse o terrirório nacional era tudo o que os militares queriam.[24]
  13. Em 1972, o então presidente Emílio Garrastazu Médici chegou a afirmar: "Sinto-me feliz todas as noites quando assisto ao noticiário. Porque, no noticiário da TV Globo, o mundo está um caos, mas o Brasil está em paz."[25] Mesmo com o fim da censura prévia, em 1976, o noticiário continuou alinhado aos militares[24] .
  14. No episódio conhecido como Caso Proconsult, a Globo ficou identificada na tentativa de se impedir a vitória de Leonel Brizola nas eleições para governador de 1982[3] [4] Em 15 de março de 1994 o apresentador Cid Moreira teve que ler, no Jornal Nacional, um texto que Brizola havia ganhado na Justiça Brasileira como um direito de resposta. "Tudo na Globo é tendencioso e manipulado", teve de afirmar o locutor[24] .
  15. Inicialmente, a Rede Globo ignorou completamente as manifestações populares em favor de eleições diretas em 1985 para presidente da República, passando a cobrir com mais intensidade a campanha somente a partir do Comício da Candelária, quando o movimento já tinha se consolidado e eram grandes as pressões e as hostilidades contra a emissora de Marinho[4] .
  16. Em editorial publicado pelo jornal O Globo em 7 de outubro de 1984, Roberto Marinho escreveu: "Participamos da Revolução de 1964 identificados com os anseios nacionais de preservação das instituições democráticas, ameaçadas pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada."[28]
  17. Antes de assumir o Ministério da Fazenda em 1988, o economista Maílson da Nóbrega conversou por duas horas com Roberto Marinho. "Era como se eu estivesse sendo sabatinado", contou Maílson para a revista Playboy. Dez minutos após a conversa, o Jornal da Globo deu o "furo" de que ele era o novo ministro da pasta econômica de Sarney.[24] [29] .
  18. Um episódio marcante na campanha eleitoral foi o último debate televisivo entre Collor e Lula no segundo turno, transmitido ao vivo pela Rede Globo, que foi bastante disputado entre os dois candidatos. No entanto, no Jornal Nacional, o último antes da votação que definiria o novo presidente brasileiro, a emissora apresentou uma edição do debate francamente favorável a Collor. A parcialidade da Globo conseguiu influenciar boa parte dos eleitores que ainda estavam indecisos às vésperas dessa disputada eleição.[4] [25]

Referências

  1. http://veja.abril.com.br/060302/p_094.html
  2. http://correiodobrasil.com.br/morte-de-roberto-marinho-e-destaque-na-imprensa-internacional/23882/
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  13. Folha de S.Paulo (06 de agosto de 2003). Roberto Marinho morre aos 98 anos no Rio (em português). Folha de S.Paulo. Página visitada em 06 de abril de 2014.
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  15. a b c Ricardo da Silva, Heber. (2009). "Jornais liberais e o campo político durante a transição democrática" (em português): 240 pp.. São Paulo: Editora UNESP. ISSN 978-85-7983-012-9.
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  17. Sérgio, Mattos. História da Televisão Brasileira: Uma visão Econômica, Social e Política (em Português). 1 ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2002. 248 p. ISBN 8532627498
  18. a b c Ana, Baum. Conspirações sonoras: a rádio Globo e a crise do governo Vargas (1953-1954). In: Vargas, Agosto de 54 - A História Contada Pelas Ondas do Rádio. (em Português). 1 ed. Rio de Janeiro: Editora Garamond, 2004. 237 p. ISBN 85-7617-031-0
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  20. Lino Bocchini (04 de setembro de 2013). Clube Militar critica editorial “mea culpa” de O Globo (em português). Carta Capital. Página visitada em 06 de abril de 2014.
  21. Helena Sthephanowitz (05 de abril de 2014). Nos EUA, a confirmação da mão de Roberto Marinho nos bastidores da ditadura (em português). RBA. Página visitada em 06 de abril de 2014.
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  27. Após 16 anos, Record compra documentário "Muito Além do Cidadão Kane" (22 de maio de 2014).
  28. Editorial do jornal O Globo, assinado por Roberto Marinho em 7 de outubro de 1984.
  29. Alex Solnik (24 de novembro de 2010). Ex-Ministro mostra o poder de Roberto Marinho no governo Sarney (em português). Revista Brasileiros. Página visitada em 06 de abril de 2014.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]


Precedido por
Irineu Marinho
Presidente das Organizações Globo
1925 — 2003
Sucedido por
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Precedido por
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1993 — 2003
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