Eleição presidencial no Brasil em 1994

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3 de outubro de 1994
(Turno único)
Fhc-color.jpg Luís Inácio Lula da Silva 03102008.jpg Eneas33010.jpg
Candidato Fernando Henrique Cardoso Luiz Inácio Lula da Silva Enéas Ferreira Carneiro
Partido PSDB PT PRONA
Natural de Rio de Janeiro Pernambuco Acre
Companheiro de chapa Marco Maciel Aloizio Mercadante Roberto Gama e Silva
Vencedor em 25 estados + DF 1 estado nenhum
Votos 34.350.217 17.112.255 4.670.894
Porcentagem 54,28% 27,04% 7,38
1994 Brazilian presidential election map (Round 1).svg
  Estados onde Lula obteve maior votação
  Estados onde FHC obteve maior votação



Presidente do Brasil

Titular
Itamar Franco
PRN

A eleição presidencial do Brasil de 1994 ocorreu no dia 3 de outubro (segunda-feira) e foi o quarto sufrágio sob a égide da Constituição Federal de 1988. O sociólogo Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP) venceu no 1º turno o sindicalista Luís Inácio Lula da Silva (PT-SP), com 34.350.217 de votos contra 17.112.255 do oponente.[1] Nesta ocasião houve a escolha de Presidente e Vice-Presidente, Governadores de Estado, Senadores (2 por Estado), Deputados Federais e Deputados Estaduais em todo o Brasil.

A disputa pela presidência contou com 8 candidatos, dentre os quais, grandes homens da política e sociologia nacional, como Fernando Henrique Cardoso, Darcy Ribeiro (PDT-RJ), Leonel Brizola (PDT-RJ) e Lula. A campanha eleitoral foi marcada por vários acontecimentos importantes como o lançamento de uma nova moeda (Real), a queda do Ministro da Fazenda Rubens Ricupero, a crise dos vices (suspeitas não comprovadas de corrupção sobre os vices de Lula e Fernando Henrique) e a virada nas pesquisas de intenções de voto. Este número poderia ser maior caso Flávio Rocha (PL-RN) não abdicasse de sua candidatura à presidência por conta do "escândalo dos bônus eleitorais" (posteriormente abandonaria a carreira política) e Caetano Matanó Júnior não tivesse a candidatura indeferida porque seu partido, o PT do B, ainda não havia sido registrado no TSE.

O resultado desta eleição foi influenciada diretamente pelo Plano Real, um plano econômico elaborado por Fernando Henrique enquanto Ministro da Fazenda de Itamar Franco. O plano permitiu a acabar com a hiperinflação, estabilizando os preços, aumentando o poder de compra das famílias e permitindo o planejamento das ações governamentais sobre a economia e a sociedade, com a referência estável da moeda.

Influência do Plano Real[editar | editar código-fonte]

Em maio de 1993 o presidente Itamar Franco nomeou Fernando Henrique Cardoso para o Ministério da Fazenda. Em agosto houve a culminância de uma nova reforma monetária no Brasil, planejada desde o Governo Collor (1990-1992), com o lançamento do Cruzeiro Real. A inflação continuou em alta nos meses que se seguiram, levando a equipe do Ministério da Fazenda a elaborar um novo plano, eficiente e duradouro, o Plano Real. Utilizou-se de diversos instrumentos econômicos e políticos, sob comando de vários economistas, reunidos pelo então Ministro Fernando Henrique. A inflação registrada em moeda nacional continuava em ascensão, porém, a inflação na moeda escritural do governo (URV, que tinha paridade ao dólar) dava sinais de contenção. Com o apoio irrestrito do presidente Itamar Franco, o Ministro da Fazenda tornou-se o homem mais forte e poderoso do governo, com poder de limitar gastos públicos, e no candidato natural à sucessão presidencial.[2] [3] [4] [5]

Campanha Presidencial[editar | editar código-fonte]

Março[editar | editar código-fonte]

Fernando Henrique demite-se do Ministério da Fazenda para concorrer à Presidência da República, assumindo em seu lugar Rubens Ricupero. O presidente Itamar Franco não possuía candidato para as eleições de outubro, e a possibilidade de o Plano Real não avançar com outro presidente era muito grande. Outros planos haviam sido criados e usados anteriormente como arma eleitoral e não vingaram. Em ritual previamente acertado, Fernando Henrique aceita a candidatura oferecida pelo PSDB. Na despedida oficial do Ministério da Fazenda ele apresentou a arte das notas da nova moeda, com previsão para entrar em circulação em 1º de julho.[2] [6]

Se o partido coloca em minhas mãos a bandeira da vitória, eu vou empunhá-la!
 
FHC em cerimônia no Congresso, previamente acertada pelo PSDB , [7]

Abril[editar | editar código-fonte]

As pesquisas de intenção de voto indicavam vitória de Lula (PT) com 40%, e pouco mais de 12% para Fernando Henrique (PSDB). Os tucanos procuraram acertar uma coligação pequena, de maneira a ajudar o PSDB ganhar votos onde não possuía força política e também que não comprometesse o futuro governo (no caso de vitória). Fernando Henrique abandonou o PMDB em 1988 junto com outros colegas para formar um partido com características diferentes, principalmente sem o fisiologismo típico do Governo de José Sarney.[2] [6]

Maio[editar | editar código-fonte]

Ocorre a celebração da coligação entre PSDB, PFL (atual DEM) e PTB para as eleições de outubro. Fernando Henrique buscava se fortalecer no Nordeste, onde o PFL poderia ajudá-lo na campanha, tentando evitar perder por falta de apoio e/ou por pequena diferença de votos, como ocorreu nas eleições de 1985, quando disputou a Prefeitura de São Paulo e perdeu para Jânio Quadros. A coligação PSDB/PFL foi muito criticada e FH muito questionado sobre a ideologia do PFL (que teria sido base governista durante a ditadura militar). Nos estados da Bahia e do Maranhão a coligação foi composta por políticos inimigos. Sérgio Motta, José Serra e até mesmo o Presidente Itamar Franco eram contra a aliança com o PFL. Durante a cerimônia da Coligação, respeitou-se 1 minuto de silêncio em memória de Ayrton Senna.

As pesquisas de intenção de voto indicavam vitória de Lula (PT) com 41%, e pouco mais de 17% para Fernando Henrique (PSDB). Anos mais tarde, FH revelou que pensara em desistir no mês de maio porque achou que não seria possível angariar todos os votos que precisava para vencer, no tempo de campanha restante.[2] [6]

Junho[editar | editar código-fonte]

Lula concedeu entrevista para explicar porque não apoiava o Plano Real, e alertou sobre a possibilidade de o plano estar sendo usado como mecanismo publicitário e arma eleitoral. O Partido dos Trabalhadores se recusou a apoiar o Plano Real desde o seu começo; contudo, sua bancada apoiou as dotações orçamentárias para a saúde e educação previstas pela equipe econômica do governo.[2] No decorrer do mês surgiram denúncias de emendas parlamentares e aposentadoria especial irregulares contra o Senador José Paulo Bisol, candidato a vice-presidente pelo PT. Aloísio Mercadante substituiu Bisol na chapa.[8] No final do mês, com a proximidade do lançamento da nova moeda e a perspectiva de redução da inflação futura, e possivelmente pela repulsa de Lula pelo Plano Real, as pesquisas de intenção de voto deram empate técnico entre Lula (PT) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB) com cerca de 30% dos votos.[2] [6]

[…] O PT tem uma avaliação de que esse plano econômico é um estelionato eleitoral […]
 
Lula em entrevista
Quando a gente é de oposição, pode fazer bravata porque não vai ter de executar nada mesmo. Agora, quando você é governo, tem de fazer, e aí não cabe a bravata.
 
Presidente Lula (Ipsis litteris) no terceiro mês de mandato, assumindo que fez oposição ao Plano Real por 9 anos.[10] [11] [12] ,

Julho[editar | editar código-fonte]

A nova moeda é lançada e estabiliza os preços, tornando-se o mote da campanha de Fernando Henrique. A moeda de 50 centavos ganhou destaque na propaganda eleitoral na TV, com seu poder de compra de inúmeros produtos da cesta básica. Fernando Henrique toma café em público numa padaria do Rio de Janeiro e utiliza a nova moeda; muitos políticos o acompanham e até o abraçam. Muitos eleitores indecisos estariam decidindo pelo candidato do Plano Real, e Fernando Henrique assume a liderança nas pesquisas.[2] [6]

Ofertas de supermercados nunca mais vistas na TV. Eram comuns valores astronômicos e remarcações de preços até 3 vezes ao dia.
Real001a.jpgMoeda de 1 Real da primeira geração.pngMoeda de 50 centavos da primeira geração.png
Nota e moedas da Unidade Real de Valor, lançadas em 1º de julho como Real.

Agosto[editar | editar código-fonte]

Uma pesquisa mostra que 70% dos eleitores de Lula se diziam favoráveis ao Plano Real. Na pesquisa do dia 30, Fernando Henrique possui 40% das intenções de voto, contra 22% de Lula. No dia 2 surgiram denúncias de esquema de corrupção com empreiteiras contra o Senador Guilherme Palmeira, candidato a vice-presidente pelo PFL. Marco Maciel substituiu Palmeira na chapa.[2] [6] [8] Posteriormente, vários veículos de comunicação perderam ação judicial movida pelo Senador Bisol e tiveram de indenizá-lo.[13] [14]

O preço do pãozinho está comemorando o seu primeiro aniversário. Faz 1 mês que ele não muda. Feliz aniversário pãozinho! Bom começo Brasil!
 
Campanha de FHC, em 1º de agosto, no rádio e televisão

Setembro[editar | editar código-fonte]

O Ministro da Fazenda Rubens Ricupero concede entrevista, ao vivo, ao Jornal da Globo. Momentos antes da entrevista, nos ajustes de câmera e microfone, o ministro admitiu um comportamento tendencioso do governo a favor de Fernando Henrique. A conversa com o jornalista Carlos Monforte era informal e foi captada pelas residências sintonizadas no canal privativo de serviço da TV Globo.[15] O governador do Ceará, Ciro Gomes (PSDB-CE), substituiu Ricupero no cargo, após sua renúncia. Mesmo com o abalo ético, Fernando Henrique atinge 46% das intenções de voto.[2] [6]

No fundo é isso mesmo. Eu não tenho escrúpulos! Eu acho que é isso mesmo, o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde!…
 
Rubens Ricupero, no dia 1º de setembro, nos estúdios de Brasília , extraído do sinal aberto da TV Globo, disponível no YouTube
… um momento de fraqueza me levou a dizer palavras que não refletem o que penso, nem o que sinto…
 
Rubens Ricupero, no dia 6 de setembro, ao deixar o Ministério da Fazenda , Jornal Nacional, TV Globo
… A queda do Ministro Ricupero traz ao país inteiro a preocupação com o futuro do Real […] É preciso que todos os brasileiros se juntem para garantir o Real…
 
FHC , Campanha eleitoral de 6 de setembro, no rádio e televisão

Outubro[editar | editar código-fonte]

As eleições ocorreram durante a segunda-feira, 3 de outubro. O presidente Itamar Franco, ao sair de casa para votar, foi aplaudido nas ruas pelo combate e vitória sobre a inflação. Ao seu lado inúmeros políticos mineiros. Fernando Henrique votou pela manhã em São Paulo, repetindo inúmeras vezes o gesto-símbolo de sua campanha, a mão aberta; ao seu lado estavam familiares, amigos e políticos paulistas. Lula votou repetindo o gesto das eleições de 1989, beijo à cédula (não havia urna eletrônica e o voto era escrito em cédula de papel). Fernando Henrique Cardoso recebeu 34.350.217 de votos contra 17.112.255 de Luís Inácio Lula da Silva, vencendo-o no 1º turno. O PSDB elegeu inúmeros parlamentares e os governadores dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Ceará.[1]

O candidato Enéas Carneiro (PRONA-SP) conseguiu 4.670.894 de votos em todo país, quase que o total de votos de Orestes Quércia e Leonel Brizola juntos. Enéas Carneiro ficou famoso nas eleições de 1989 por apresentar seu programa de governo e transmitir suas ideias de renovação política de maneira hiperdinâmica, além de dizer seu nome e número em apenas 15 segundos no horário político gratuito de rádio e televisão destinado ao seu partido.

Concluía sempre de forma enfática dizendo o que se tornou um bordão:

Meu nome é Enéas, 56 !!!
 
Enéas Carneiro, Campanha eleitoral no rádio e televisão

.

Resultado[editar | editar código-fonte]

A mão aberta foi o gesto-símbolo da campanha vitoriosa de FHC em 1994.
Imagem Candidato Vice Coligação Votos %
Fhc-color.jpg Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP) Marco Maciel (PFL-PE) PSDB, PFL, PTB 34.350.217 54,28
Lula - foto oficial05012007 edit.jpg Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) Aloizio Mercadante (PT-SP) PT, PSB, PCdoB, PPS, PV, PSTU 17.112.255 27,04
Eneas33010.jpg Enéas Carneiro (PRONA-SP) Roberto Gama e Silva (PRONA-SP) Nenhuma 4.670.894 7,38
Orestes Quércia em Avaré 310806 REFON.jpg Orestes Quércia (PMDB-SP) Iris de Araujo (PMDB) PMDB, PSD 2.771.788 4,38
Leonel Brizola.jpg Leonel Brizola (PDT-RJ) Darcy Ribeiro (PDT-RJ) Nenhuma 2.015.284 3,18
60px Esperidião Amin (PPR-SC) Maria Gardênia (PPR-MA) Nenhuma 1.739.458 2,75
Replace this image male.png Carlos Antônio Gomes (PRN) Dilton Carlos Salomoni (PRN) Nenhuma 387.611 0,61
Replace this image male.png Hernani Fortuna (PSC) Vítor Jorge Abdala Nósseis (PSC) Nenhuma 238.126 0,38
Fonte: TSE[1]
Resultados do 1º Turno das Eleições Presidenciais Brasileiras - 1994
Porcentagem(%)
FHC
  
54,28%
Lula
  
27,04%
Enéas
  
7,38%
Quércia
  
4,38%
Brizola
  
3,18%
Amin
  
2,75%
Carlos Antônio
  
0,61%
Hernani
  
0,38%


… eu vou entrar no Palácio com muita esperança, não por entrar num palácio, mas por sentir que, palácios hoje, ou ouve muito de perto as ruas, ou são casas vazias…
 
FHC em entrevista após a vitória, Retrospectiva 1994, TV Globo

Referências

  1. a b c Tribunal Superior Eleitoral. Eleições 1994 (em português). Página visitada em 21 de julho de 2011.
  2. a b c d e f g h i Almanaque Abril, 28ª ed, 1995
  3. SAYAD, João. Observações sobre o Plano Real. Est. Econ. São Paulo. Vol. 25, Nº Especial, págs. 7-24, 1995-6
  4. FIÚZA, Guilherme. 3.000 dias no bunker. 1ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2006. 352p. ISBN 85-0107-342-3.
  5. Ministério da Fazenda. Exposição de Motivos da MP do Plano Real (em português). Página visitada em 29 de junho de 2008.
  6. a b c d e f g LEONI, Brigitte Hersant. Fernando Henrique Cardoso: o Brasil do possível; tradução Dora Rocha. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. 360p. ISBN 85-209-0824-1.
  7. FHC Candidata-se a presidente. Jornal Nacional, março de 1994
  8. a b Vários veículos: Jornal do Brasil, Zero Hora, O Globo, O Estado de S. Paulo, Correio Braziliense, Istoé
  9. Candidato Lula fala sobre o Plano Real. Jornal Nacional de 6 de junho de 1994
  10. Discurso do Presidente na Posse do Presidente da Associação Comercial de São Paulo, em 27 de março de 2003. Disponível em Palácio do Planalto
  11. Presidente Lula, em 27 de março de 2003. Disponível em Notícias UOL Reuters
  12. Presidente Lula, em 27 de março de 2003. Disponível em Site Universo Jurídico
  13. Consultor Jurídico. Veja voto de Peluso… (em português). Página visitada em 22 de julho de 2011.
  14. Consultor Jurídico. Zero Hora terá que indenizar Bisol… (em português). Página visitada em 22 de julho de 2011.
  15. BBC. Relembre gafes de políticos capturadas pelo microfone (em português). Página visitada em 18 de setembro de 2010.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]