Língua puri

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A língua puri é uma língua pertencente ao tronco linguístico macro-jê. É falada pelos puris, um grupo indígena homônimo que habitava, até o século XIX, e ainda hoje, os estados de São Paulo[1], Espírito Santo , Rio de Janeiro e o Sudeste do estado de Minas Gerais, no Brasil.

Classificação[editar | editar código-fonte]

A língua pertence à família linguística puri, dentro do tronco linguístico macro-jê.

Localização[editar | editar código-fonte]

A língua puri era falada nos vales do Itapemirim,Itabapoana, médio Paraíba do Sul e nas serras da Mantiqueira e das Frecheiras, entre os rios Pomba e Muriaé. Dividia-se em três subgrupos: sabonan, uambori e xamixuna, de acordo com Eschwege. A sua língua foi extinta no início do século XX e seus descendentes existem inseridos na população regional. Atualmente existe um movimento de reafirmação étnica de descendentes de puris no estados de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro.

Documentação[editar | editar código-fonte]

A principal fonte de documentação do puri encontra-se atualmente perdida. Diz-se de um catecismo bilíngue elaborado pelo padre Francisco das Chagas Lima (1757-1832), que catequizou esses índios quando foi pároco de Queluz. Tem-se a notícia de tal documentação através de seu sucessor, padre Manuel Eufrázio de Oliveira. Este mencionou a existência do catecismo puri e o teria enviado ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Portanto, o conhecimento dessa língua ficou parcialmente prejudicado pela falta de documentação. Existem cerca de 18 contribuições, sendo algumas bem representativas, feitas através de listas de palavras e vocabulários.[2][3]

Em 1885, o engenheiro Alberto de Noronha Torrezão ouviu dois remanescentes dos puris, Manoel José Pereira e Antônio Francisco Pereira e anotou algumas palavras da língua, uma amostra escassa, mas valiosa, dessa língua desconhecida. Em 1889, foi publicado o Vocabulário Puri, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. As palavras colhidas por esse engenheiro em Abre Campo são um dos registros de como os puris falavam.[4]Karl Friedrich Philipp von Martius e Wilhelm Ludwig von Eschwege coletaram palavras de línguas da família puri. Uma das listas é do próprio puri. Dom Pedro II em visita ao Espírito Santo,coletou em Vitória,junto aos índios puris que moravam há pouco na capital(1860), mais de uma centena de vocábulos da língua puri.[5] O antropólogo alemão Paul Ehrenreich veio ao Brasil em 1884 e coletou na região do Rio Doce,as margens do Rio São Manoel, tributário do Rio Manhuassu, de um cacique puri um pequeno vocabulário de 26 palavras com auxílio de um guia.[6]

Fonologia[editar | editar código-fonte]

  • Vogais

a, a, e, é, i, i, o, ó, u, u.

  • Consoantes

b, č, dz, dž, s, š, g, k, m, mb, n, ñ, p, ph, r, th, y.[7]

Vocabulário da língua puri[editar | editar código-fonte]

Em 1885, o engenheiro Alberto de Noronha Torrezão ouviu dois remanescentes dos puris e anotou algumas palavras da língua, uma amostra escassa mas valiosa dessa língua desconhecida:

  • Família:

Avô: antá

Avó: titiñan

Pai: xaré

Mãe: iñan

Filho: xambé

Irmão: xatã

  • Corpo humano:

Cabeça: ngwé

Cabelos:

Testa: toré

Olho: miri

Nariz: ám'ni

Lábio: ché

Língua: topé

Dente: uché

Braço: lakaré

  • Animais:

Macaco barbado: toké

Cateto (porco do mato): solakon

Capivara: bodaké

Cutia: bókon

Jacutinga: pitá

Macuco: xipára

Onça: ponã

Paca: arotá

Quati: xamutã

Peixe: ñamaké[8]

Sintaxe[editar | editar código-fonte]

acenda o fogo - poté kandú

água está fervendo - muñãmá pretón

cala a boca - kandló

eu fui-me embora - Á mamun

eu moro aqui - Á leká

fogo apagou - poté ndran

o tempo está ruim - opueráxka

quebro-te a cabeça com um pau - gué á mopó

quero beber cachaça - Á kanjana muiá

vá-se embora - má ndom

vou-me embora - Á ndómo[4]

Referências

  1. Lima,Pe. Francisco das Chagas. Notícia da Fundação e princípio d'esta Aldêa de São João de Queluz (cópia extraída do Livro 1º do tombo da Freguesia de S.João Batista de Queluz, Província de São Paulo). In Revista do IHGB, tomo V 3ª edição, p.72-76. Rio de Janeiro: Typographia Universal de Laemmert e Cia,1843.
  2. Ribeiro, Eduardo R. 2009. O Catecismo Purí do Pe. Francisco das Chagas Lima. Cadernos de Etnolingüística, v. 1, n. 1.
  3. Lemos, Marcelo Sant'Ana. Vocabulário da Língua Puri (Português-Puri).Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2012.
  4. a b TORREZÃO, Alberto de Noronha. Vocabulário puri. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,tomo LII, parte II, Rio de Janeiro, 1889, p. 511-3.
  5. Rocha,Levy. Viagem de Dom Pedro II ao Espírito Santo. Vitória: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2008. 3ª edição.
  6. Ehrenreich, Paul. Die Puris Ostbrasiliens. In Verhandlungen der Berlinger Gesellschaft für Anthropologie, Ethnologie und Urgeschichte. Berlim: Verlag von A.Ascher e Co., 1886
  7. NETO, Ambrósio Pereira da.Revisão da classificação da família linguística puri.Brasília, 2007
  8. «Untitled Document». Consultado em 9 de Novembro de 2009 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • TORREZÃO, Alberto de Noronha. Vocabulário puri. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,tomo LII, parte II, Rio de Janeiro, 1889, p. 511-3. biblio.etnoliguistica.org.