Língua puri

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Puri (Purí)
Falado em: Brasil
Total de falantes: 0
Família: Macro-jê ?
 Purí
  Puri
Códigos de língua
ISO 639-1: --
ISO 639-2: ---

A língua puri é uma língua pertencente ao tronco linguístico macro-jê. É falada pelos puris, um grupo indígena homônimo que habitava, até o século XIX, e ainda hoje, os estados de São Paulo[1], Espírito Santo , Rio de Janeiro e o Sudeste do estado de Minas Gerais, no Brasil.

Classificação[editar | editar código-fonte]

A língua pertence à família linguística puri, dentro do tronco linguístico macro-jê.

Localização[editar | editar código-fonte]

A língua puri era falada nos vales do Itapemirim, Itabapoana, médio Paraíba do Sul e nas serras da Mantiqueira e das Frecheiras, entre os rios Pomba e Muriaé. Dividia-se em três subgrupos: sabonan, uambori e xamixuna, de acordo com Eschwege. A sua língua foi extinta no início do século XX e seus descendentes existem inseridos na população regional. Atualmente existe um movimento de reafirmação étnica de descendentes de puris no estados de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro.

Documentação[editar | editar código-fonte]

A principal fonte de documentação do puri encontra-se atualmente perdida. Diz-se de um catecismo bilíngue elaborado pelo padre Francisco das Chagas Lima (1757-1832), que catequizou esses índios quando foi pároco de Queluz. Tem-se a notícia de tal documentação através de seu sucessor, padre Manuel Eufrázio de Oliveira. Este mencionou a existência do catecismo puri e o teria enviado ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Portanto, o conhecimento dessa língua ficou parcialmente prejudicado pela falta de documentação. Existem cerca de 18 contribuições, sendo algumas bem representativas, feitas através de listas de palavras e vocabulários.[2][3]

Em 1885, o engenheiro Alberto de Noronha Torrezão ouviu dois remanescentes dos puris, Manoel José Pereira e Antônio Francisco Pereira e anotou algumas palavras da língua, uma amostra escassa, mas valiosa, dessa língua desconhecida. Em 1889, foi publicado o Vocabulário Puri, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. As palavras colhidas por esse engenheiro em Abre Campo são um dos registros de como os puris falavam.[4]Karl Friedrich Philipp von Martius e Wilhelm Ludwig von Eschwege coletaram palavras de línguas da família puri. Uma das listas é do próprio puri. Dom Pedro II em visita ao Espírito Santo,coletou em Vitória,junto aos índios puris que moravam há pouco na capital(1860), mais de uma centena de vocábulos da língua puri.[5] O antropólogo alemão Paul Ehrenreich veio ao Brasil em 1884 e coletou na região do Rio Doce,as margens do Rio São Manoel, tributário do Rio Manhuassu, de um cacique puri um pequeno vocabulário de 26 palavras com auxílio de um guia.[6]

Fonologia[editar | editar código-fonte]

  • Vogais

a, a, e, é, i, i, o, ó, u, u.

  • Consoantes

b, č, dz, dž, s, š, g, k, m, mb, n, ñ, p, ph, r, th, y.[7]

Vocabulário da língua puri[editar | editar código-fonte]

Em 1885, o engenheiro Alberto de Noronha Torrezão ouviu dois remanescentes dos puris e anotou algumas palavras da língua, uma amostra escassa mas valiosa dessa língua desconhecida:

Família
  • Avô: antá
  • Avó: titiñan
  • Pai: xaré
  • Mãe: iñan
  • Filho: xambé
  • Irmão: xatã
Corpo humano
  • Cabeça: ngwé
  • Cabelos:
  • Testa: toré
  • Olho: miri
  • Nariz: ám'ni
  • Lábio: ché
  • Língua: topé
  • Dente: uché
  • Braço: lakaré
Animais

A lista completa de Alberto de Noronha Torrezão:[9][10]

Português Purí
achar iah
acender kandú
adoecer kondón
agarrar iahga
água m’nhàmã
amargo kandjuh
amarello putuhra
andar kehmùm
anta pennân
arara djasvatahra
arco ohmrin
arroz mem’rina
árvore mpó
assar mbôri
avô antah
avó titinhan’
banana maçan baoḥ
barbado (macaco) tokeh
barriga tikim
batata churumùm
beiço tsché
bocca tschoré
bacaina djareh
beber tch’mbá
boi tapira
bom schuteh
bonito schuteh
braço lacareh
brajahuba (palm) pahtan
branco (homo) haranjúa
branco (color) ohkarôna
cabeça nguê
cabello quê
cacao tembóra
café pahrahda
caitetu solakon
calor prehtôma
canna de assucar tupânãrikê
cantar ndl’ôno
capim chipampeh
capivara bodaqueh
capuêra chicopó
carne arikê
carvão mbòrvan
casca popeh
caxorro shindeh
caza nguára
cégo ahmripapú
chover nhã ma ku-uh
cobra shahmûm
colérico kochna
comer maschê
conversar tschóre bacoiah
corda tamah
corrego nhãmanrúri
couro peh
curar (eu curo) ah ndond
cutia bohkôn
deitar katahra
dente utsché
dentro kschê
deus tupã
dia opeh
diabo ahndl’ahaman
dinheiro mretetêno
dormir katahra
em pé pl’euák
entanha kopahra
estrella chúri
espingarda bôah
estrada chiman
eu aḥ
faca hum’ran
falar koiah
farinha makiprahra
feijão chumbêna
feio krohkon
ferro hum’ran
filha chambé
filho chambé
flexa aphon
flor pl’okeh
florzinha pô-pana
fogo poteh
foice hum’ran
folhas djop’leh
fome temembôno
força mehtl’on
frio nhamaitû
fumo pokeh
fui mahmûm
gambá scháriuô
gostar tl’amatl’i
homem hakorrema
irmão schahtâm’
jacucaca schák-on
jacutinga pittah
jaguatirica jogót-ahmùm
jaô mboré
joelho tuonri
lagoa nhãma-rorá
lagarto appehrtô
levantar ml’itôn
língua toppeh
lindo schuteh
lua petahra
luz poteh
macaco tanguah
cacuco shipahra
madrugada vemudah
mãi inhan
mamar nhamantáhm’bá
maminha nhamantah
mão chapeprera
mandioca veijuh
matar (com ferro) môm’ran
matar (com pau) mopô
mato virgem tschóre
mau krohkon
meio dia huáratirukah
mel butan
meu aḥ
milho maki
moça mbl’êma shu. teh
mono pahra
morar lekah
morder trchemurung
morrer mbôno
mulher mbl’êma
nariz ahm’ni
nhambu shaprúra
noite mripôn
nuvem huerahschka
olho mri
onça pon-na
osso am’mi
ouro mretetêna
orelha bipína
paca arotah
papagaio (jurujuba) shitrohra
passarinho chipú
pai charé
palmito (palm) ehkah
chapêprêra
pedra uk’huá
peixe nhamaquê
penna chipupé
perna katehra
póte pon
pombo schandô
porco sotanxira
porco castrado açohtl’axira
preto pehuôno
pud. mulieris tocoh
pud. hominis ashim
púlar guaschantl’eh
quati schamutan
queixada sôtan
quixerenguengue peh’oh
ramo horvi
sangue ahtl’im
santo tupan
sapo shaluh
sauá (macaco) beht-amûm
sol oppeh, popé
tacuara uhtl’na
tardinha toschá
tatú tutú
terra uchô
testa poreh
toucinho ahnhimim
trepar (em arvore) bocuah
trovejar tupan ruhuhú
tumbaca (pássaro) kupan
umbigo kah’ira
unha chapepreraquê
veado □ão’ri
velho tahé
verde tongòna
você dieh

Frases[editar | editar código-fonte]

Algumas frases coletadas por Torrezão:[9][10][4]

Português Purí
Acenda o fogo poteh kanduh
Água está fervendo munhãmá prehtôn
Cala a bocca kandl’ô
Eu fui-me embora Ah mahmûm
Eu moro aqui Ah! Lekah!
Fogo apagou poteh ndran
O tempo está ruim ohpúêráschka
Quebro-te a cabeça com um pão guê ah mopô!
Quero beber caxaça ah canjana muiá (ah canjana rumbáo)
Vá-se embora má-ndohm’
Vou-me embora Ah! Ndômo!

Referências

  1. Lima,Pe. Francisco das Chagas. Notícia da Fundação e princípio d'esta Aldêa de São João de Queluz (cópia extraída do Livro 1º do tombo da Freguesia de S.João Batista de Queluz, Província de São Paulo). In Revista do IHGB, tomo V 3ª edição, p.72-76. Rio de Janeiro: Typographia Universal de Laemmert e Cia,1843.
  2. Ribeiro, Eduardo R. 2009. O Catecismo Purí do Pe. Francisco das Chagas Lima. Cadernos de Etnolingüística, v. 1, n. 1.
  3. Lemos, Marcelo Sant'Ana. Vocabulário da Língua Puri (Português-Puri).Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2012.
  4. a b TORREZÃO, Alberto de Noronha. Vocabulário puri. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,tomo LII, parte II, Rio de Janeiro, 1889, p. 511-3.
  5. Rocha,Levy. Viagem de Dom Pedro II ao Espírito Santo. Vitória: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2008. 3ª edição.
  6. Ehrenreich, Paul. Die Puris Ostbrasiliens. In Verhandlungen der Berlinger Gesellschaft für Anthropologie, Ethnologie und Urgeschichte. Berlim: Verlag von A.Ascher e Co., 1886
  7. NETO, Ambrósio Pereira da. Revisão da classificação da família linguística puri. Brasília, 2007.
  8. «Untitled Document». Consultado em 9 de Novembro de 2009 
  9. a b SILVA NETO, Ambrósio Pereira da Silva. 2007. Revisão da classificação da família lingüística Puri. Dissertação (Mestrado em Lingüística), Universidade de Brasília.
  10. a b TORREZÃO, Alberto de Noronha. 1889. Vocabulário purí. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo LII, parte II, Rio de Janeiro, p. 511-513.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • SILVA NETO, Ambrósio Pereira da Silva. 2007. Revisão da classificação da família lingüística Puri. Dissertação (Mestrado em Lingüística), Universidade de Brasília.
  • BURMEISTER, Hermann. 1952. Viagem ao Brasil. Livraria Martins Editora S/A. São Paulo.
  • DAVIS, I. 1996. 'Comparative Jê phonology', Estudos Lingüísticos: Revista Brasileira de Lingüística Teórica e Aplicada.
  • LOUKOTKA, Chestmir. 1937. 'La familia lingüística Coroado', in Journal de la Société des Américanistes, Nouvelle Série, t XXIX, 1937, pp. 157-214.
  • MARTIUS, Karl F. Philipp von. SPIX, Johann Batit von. 1938. Viagem pelo Brasil. Rio de Janeiro. Imprensa nacional v.1.
  • MARTIUS, Karl F. Philipp V. 1863. Glossaria linguarum brasiliensium: Glossarios de diversas lingoas e dialectos, que fallao os indios no imperio do brazil. Erlangen: Junge. 548 p.
  • NIMUENDAJÚ, C. 1945 [1980]. Mapa etno-histórico do Brasil e regiões adjacentes. Rio de Janeiro: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
  • RODRIGUES, A. D. 1999. ‘Macro-Jê’. In: R. M. W. Dixon & A. Y. Aikhenvald (orgs.), The Amazonian Languages, pp. 164-206. Cambridge: Cambridge University Press.
  • SAINT-HILAIRE, Augusto de. 1938. Viagem pelas províncias de Rio de Janeiro e Minas Gerais. São Paulo: Companhia Editora Nacional.
  • TORREZÃO, Alberto de Noronha. 1889. Vocabulário purí. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo LII, parte II, Rio de Janeiro, p. 511-513.
  • WIED-NEUWIED, Maximilian A, Prinz von. 1940. Viagem ao Brasil. São Paulo: Cia Editora Nacional.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • TORREZÃO, Alberto de Noronha. Vocabulário puri. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo LII, parte II, Rio de Janeiro, 1889, p. 511-3. biblio.etnoliguistica.org.