Haile Selassie

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Haile Selassie
Imperador da Etiópia
Selassie.jpg
Haile Selassie, em foto da década de 1930
Governo
Reinado 2 de abril de 1930 - 2 de maio de 1936
5 de maio de 1941 - 12 de setembro de 1974
Coroação 2 de novembro de 1930
Consorte Menen Asfaw
Antecessor Zewditu I
Vítor Emanuel III da Itália
Herdeiro Amha Selassie
Sucessor Vítor Emanuel III da Itália
Dinastia Salomônica
Vida
Nascimento 23 de julho de 1892
Ejersa Goro, Flag of Ethiopia (1897-1936; 1941-1974).svg Império Etíope
Morte 27 de agosto de 1975 (83 anos)
Adis Abeba, Flag of Ethiopia (1897-1936; 1941-1974).svg Império Etíope
Sepultamento Catedral da Santíssima Trindade
Filhos Princesa Romanework Hailé Sélassié
Princesa Tenagnework
Amha Selassie
Princesa Tsehai
Princesa Zenebework
Príncipe Makonnen
Príncipe Sahle Selassie
Pai Mekonnen Welde Mikaél
Mãe Yeshimebet Ali Abajifar

Haile Selassie GCTEGCBTO (também grafado Hailé Selassié (português europeu) ou Hailê Selassiê (português brasileiro); em ge'ez: ኃይለ፡ ሥላሴ, "Poder da Trindade"[1] ; Ejersa Goro, 23 de julho de 1892Adis Abeba, 27 de agosto de 1975), nascido Tafari Makonnen e posteriormente conhecido como Ras Tafari, foi regente da Etiópia de 1916 a 1930 e imperador daquele país de 1930 a 1974. Herdeiro duma dinastia cujas origens remontam historicamente ao século XIII e, tradicionalmente, até o Rei Salomão e a Rainha de Sabá, Haile Selassie é uma figura crucial na história da Etiópia e da África.[2] [3]

É considerado o símbolo religioso do Deus encarnado, entre os adeptos do movimento rastafári, que conta com aproximadamente de 11 à 15 milhões no mundo inteiro atualmente.[4] [5] Os rastafáris também o chamam de H.I.M., sigla em inglês para "Sua Majestade Imperial" (His Imperial Majesty), Jah, Ras Tafari e Jah Rastafari.

Durante o seu governo, a repressão a diversas rebeliões entre as raças que compõem a Etiópia, além daquele que é considerado como o fracasso do país em se modernizar adequadamente,[6] rendeu-lhe críticas de muitos contemporâneos e historiadores.[7]

Seu protesto na Liga de Nações, em 1936, contra o uso de armas químicas contra o seu povo por parte da Itália, foi não só um prenúncio do conflito mundial que se seguiria, mas também representou o advento do que se chamou de "refinamento tecnológico da barbárie",[8] característica que veio a marcar as guerras do período.

Selassie era um orador talentoso, e alguns de seus discursos foram considerados entre os mais memoráveis do século XX.[8] Suas visões internacionalistas levaram a Etiópia a se tornar membro oficial das Nações Unidas, e sua experiência e pensamento político ao promover o multilateralismo e a segurança coletiva provaram-se relevantes até os dias de hoje.[9]

Origens e ascensão[editar | editar código-fonte]

Nascido, Tafari Makonnen, casou-se em 1911 com Wayzaro Menen, filha do imperador Menelik II, assim tornando-se príncipe, ou Ras, em amárico. Tafari significa, por sua vez, indomável. O neto de Menelik II, Lij Iyasu (Iyasu V), tornou-se imperador em 1913, mas foi deposto por uma assembleia de nobres, em conjunto com a Igreja Ortodoxa Etíope, por suspeita de ter se convertido ao islamismo. Assumiu Zewditu, também filha de Menelik II, que morreria em 1930. Mesmo antes da morte de Zewditu, Ras Tafari já havia assumido a regência da Etiópia (em 1917), e foi investido como rei (negus) em 1928. Em 2 de abril de 1930, a imperatriz morreu, e em 2 de novembro do mesmo ano Ras Tafari tornou-se o 225º imperador na dinastia que remontava, segundo a crença, ao Rei Salomão e a Rainha de Sabá. Novamente muda de nome, para Haile Selassie (que significa O Poder da Divina Trinidade) ou, na forma completa, Sua Majestade Imperial, Imperador Haile Selassie, Eleito de Deus, Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, Leão Conquistador da Tribo de Judá

O primeiro império[editar | editar código-fonte]

Iniciou então um governo que buscava modernizar a Etiópia, seguindo as linhas gerais traçadas por Menelik II: principalmente trazer tecnologia para a Etiópia e inserir o país no contexto da comunidade das nações. Seu discurso na Liga das Nações, em junho de 1936, sobre a guerra em geral e sobre a invasão da Etiópia pela Itália (1935), é considerado um dos mais belos e coerentes pronunciados por um líder político (o país havia sido admitido na Liga das Nações em 1923, logo após abolir a escravatura). Selassie também deu a Etiópia a primeira constituição de sua história, em 1931.

A invasão da Etiópia pela Itália em 1935 foi uma traição dos acordos celebrados entres esses países no ano de 1928. Também a Liga das Nações não fez sua parte, numa atitude muito semelhante àquela adotada pela Inglaterra e pela França em face a invasão alemã na Tchecoslováquia — com a diferença de que o país invadido não pertencia à Europa, e sim à esquecida África. Benito Mussolini recebeu uma condenação formal da liga, mas foi encorajado pela falta de atitudes desta para com seu ato injustificável. A invasão deflagrou a Segunda Guerra Ítalo-Etíope. Em 1936 Selassie se viu obrigado a se retirar para o exílio na Inglaterra, deixando o posto de imperador.

Exílio[editar | editar código-fonte]

Selassie em visita a Washington D.C. (1963).

A Itália estabeleceu um governo na Etiópia e tentou controlar os movimentos de resistência através de massacres e segregação. Selassie tentava angariar simpatia pelo seu país, e só veio a consegui-lo quando a Itália se aliou, na Segunda Guerra Mundial, à Alemanha. Com o apoio da Inglaterra, mas contando essencialmente com forças de resistência etíopes e norte-africanas, Selassie retoma Adis Abeba em 5 de maio de 1941. Aos poucos conseguiu afastar-se da influência britânica, mas ao mesmo tempo vem do exílio com novas ideias inspiradas na evolução da Inglaterra.

O segundo império[editar | editar código-fonte]

Com a derrota da Itália na frente etíope, já durante a Segunda Guerra Mundial, Haile Selassie reassumiu o império. Havia tensões na Eritréia, que não se identificava com o restante da Etiópia e rejeitava a soberania desta.

Selassie promove a reforma e recuperação da Etiópia, devastada pela guerra. Institui um imposto progressivo sobre a propriedade de terras. Em 1955 é promulgada uma nova constituição etíope, que institui, entre outras medidas, o voto universal, mas também concentra bastante o poder nas mãos do imperador.

Enquanto em missão diplomática no Brasil, em 1960, Haile Selassie sofreu uma tentativa de golpe, organizada e dirigida por Germane Neway que não teve sucesso, mas polarizou a Etiópia e preparou caminho para um segundo golpe alguns anos depois. Em 1963, Selassie participou da criação da Organização da Unidade Africana.

O golpe militar[editar | editar código-fonte]

Selassie em 1974

O país enfrentou anos difíceis no início da década de 1970. A grande fome de 1972–1973 agravou a contestação ao governo imperial, somando-se aos problemas políticos e à corrupção.

Em 12 de janeiro de 1974 registrou-se uma rebelião militar contra Selassie. Em junho, um grupo de cerca de 120 comandantes militares, formalmente fiéis ao imperador, formou um comitê para exercer o governo. Em 27 de setembro Selassie foi deposto por um golpe militar de inspiração marxista, que instituiu um Conselho Provisório de Administração Militar. Preso pelo novo governo, Selassié veio a falecer em 27 de agosto de 1975, oficialmente por complicações decorrentes de uma operação da próstata. Essa versão é contestada por seus apoiadores e familiares, que entendem que o ex-imperador foi assassinado em sua cama[carece de fontes?].

Em 1991, após a queda de Mengistu Haile Mariam, foi revelado que os restos mortais de Selassié tinham sido conservados no porão do palácio presidencial. Finalmente, em 5 de novembro de 2000, receberam um funeral da Igreja Ortodoxa Etíope digno, sendo sepultados. A família do cantor Bob Marley esteve presente na cerimônia.

Legado[editar | editar código-fonte]

É reconhecida a influência que Haile Selassie teve sobre o movimento negro, em especial em lideranças do movimento negro, como Martin Luther King e Nelson Mandela.[carece de fontes?] Além disso, Selassie é encarado como um messias por parte de um movimento religioso de origem jamaicana, o rastafarianismo, que crê que Haile Selassie vive, conduzirá os negros de volta à África, e é Deus Vivo.[carece de fontes?]

Discurso de Selassie na Liga das Nações em 1936[editar | editar código-fonte]

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Enquanto a filosofia que declara uma raça superior e outra inferior não for finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada; enquanto não deixarem de existir cidadãos de primeira e segunda categoria de qualquer nação; enquanto a cor da pele de uma pessoa for mais importante que o brilho dos olhos; enquanto não forem garantidos a todos por igual os direitos humanos básicos, sem olhar a raças, até esse dia, os sonhos de paz duradoura, cidadania mundial e governo de uma moral internacional irão continuar a ser uma ilusão fugaz, a ser perseguida mas nunca alcançada. E igualmente, enquanto os regimes infelizes e ignóbeis que suprimem os nossos irmãos, em condições subumanas, em Angola, Moçambique e na África do Sul não forem superados e destruídos, enquanto o fanatismo, os preconceitos, a malícia e os interesses desumanos não forem substituídos pela compreensão, tolerância e boa-vontade, enquanto todos os Africanos não se levantarem e falarem como seres livres, iguais aos olhos de todos os homens como são no Céu, até esse dia, o continente Africano não conhecerá a Paz. Nós, Africanos, iremos lutar, se necessário, e sabemos que iremos vencer, pois somos confiantes na vitória do bem sobre o mal.

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Haile Selassie, em discurso na Liga das Nações, em 1936

Reflexo[editar | editar código-fonte]

Esse discurso serviu de inspiração para a canção "War", um dos maiores clássicos do cantor de reggae jamaicano Bob Marley.[10]

No Brasil[editar | editar código-fonte]

Na visita de Haile Selassie ao Brasil estourou um golpe de Estado em Adis Abeba; o embaixador Edmundo Barbosa da Silva, secretário-geral do Itamaraty, foi encarregado de transmitir ao imperador a notícia do golpe e levou-o ao aeroporto. Na ocasião, ouviu dele a garantia de que voltaria a seu país e debelaria a insurreição "sem derramar uma gota de sangue". De fato, assim procedeu: mandou executar todos os rebelados na forca.[11]

Em Portugal[editar | editar código-fonte]

Selassie foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito a 28 de Outubro de 1925,[12] realizou uma visita de estado a Portugal em 1957 e foi agraciado com a Grã-Cruz da Banda das Três Ordens a 31 de Agosto de 1959.[13]

Referências

  1. Gates, Henry Louis and Appiah, Anthony. Africana: The Encyclopedia of the African and African American Experience. 1999, page 902.
  2. Erlich, Haggai. The Cross and the River: Ethiopia, Egypt, and the Nile. 2002, page 192.
  3. Murrell, Nathaniel Samuel and Spencer, William David and McFarlane, Adrian Anthony. Chanting Down Babylon: The Rastafari Reader. 1998, page 148.
  4. Major Religions of the World Ranked by Number of Adherents.
  5. Barrett, Leonard E. Sr (1997) The Rastafarians. Boston: Beacon Press.
  6. Meredith, Martin. The Fate of Africa: From the Hopes of Freedom to the Heart of Despair. 2005, page 212-3.
  7. Rebellion and Famine in the North under Haile Selassie, Human Rights Watch
  8. a b Safire, William. Lend Me Your Ears: Great Speeches in History. 1997, page 297-8.
  9. Karsh, Efraim. Neutrality and Small States. 1988, page 112.
  10. Bob Marley – War Lyrics - Rock Genius Media
  11. Ribeiro, Guilherme Luiz Leite. Os bastidores da diplomacia Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007, p. 389.
  12. http://www.ordens.presidencia.pt/
  13. http://www.ordens.presidencia.pt/
Precedido por
Franklin Delano Roosevelt
Pessoa do Ano
1935
Sucedido por
Wallis, Duquesa de Windsor
Precedido por
Zauditu
Imperador da Etiópia
1930 - 1974
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Nenhum