História do Paraná

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A História do Paraná é um domínio de estudos da história do Brasil, voltado para a análise dos fatos históricos, que se estende desde as primeiras expedições exploradoras, no século XVI, até os dias atuais. No entanto, a história do estado começa antes do descobrimento do Brasil, quando o atual território do estado era habitado por povos indígenas, como os tupi-guaranis, caingangues e xoclengues. Entre as primeiras cidades que foram fundadas, estão Paranaguá, Curitiba, Castro, Ponta Grossa, Palmeira, Lapa, Guarapuava e Palmas.

As terras que hoje pertencem ao estado do Paraná eram habitadas, durante a época do descobrimento do Brasil, pelos carijós no litoral do estado, do grupo tupi e pelos caingangues do grupo .[1] No século XVI o Paraná, então em grande parte território da coroa Espanhola, foi colonizado primeiramente pelos Jesuitas.[2] Em 1554, Domingo Martínez de Irala, Governador do Paraguai fez fundar Ontiveros, a uma légua do Salto das Sete Quedas.[3] Mais tarde, a três léguas de Ontiveros, fundou a Ciudad Real del Guayrá, na confluência do Rio Piquiri.[3] E em 1576, foi fundado à margem esquerda do rio Paraná, Vila Rica do Espírito Santo.[3] Com três cidades e diversas "reduções" ou "pueblos" a região foi denominada com o status de "Provincia Real del Guaira".[4] No século XVII os bandeirantes paulistas faziam incursões periódicas em seu vasto território, capturando-lhe os índios livres para escravizar-lhes.[5] Já em 1629, os estabelecimentos dos Padres Jesuitas, com exceção de Loreto e Santo Inácio, estavam completamente devastados pelos bandeirantes paulistas[6] e, em 1632, Vila Rica, último reduto espanhol capaz de oferecer resistência, foi sitiado e devastado por Antônio Raposo Tavares.[7] Somente em 1820 o território ocidental do Paraná passou definitivamente a coroa portuguesa passando a integrar politicamente a província de São Paulo, sendo conhecida como "Comarca de Curitiba".[8] No século XVII, descobriu-se na região do Paraná uma área aurífera, anterior ao descobrimento das Minas Gerais, que provocou o povoamento tanto no litoral quanto no interior.[9] Com o descobrimento das Minas Gerais, o ouro de Paranaguá perdeu a importância.[9] As famílias ricas, que possuíam grandes extensões de terra, passaram a se dedicar à criação de gado, que logo abasteceria a população das Minas Gerais.[10]

Mas apenas no século XIX as terras do centro e do sul do Paraná foram definitivamente ocupadas pelos fazendeiros.[11] No fim do século XIX, a erva-mate dominou a economia[12] e criou uma nova fonte de riqueza para os líderes que partilhavam o poder.[13] Com o aparecimento das estradas de ferro, ligando a região da araucária aos portos e a São Paulo,[14] já no fim do século XIX,[14] ocorreu novo período de crescimento.[10] A partir de 1850, o governo provincial de São Paulo empreendeu um amplo programa de colonização, especialmente de alemães, italianos, poloneses e ucranianos,[15] que contribuíram decisivamente para a expansão da economia paranaense e para a renovação de sua estrutura social.[10] O Paraná era parte da província de São Paulo, da qual se desmembraria apenas em 1853.[16] Nessa época, a produção de café começou a ganhar destaque.[5] O rápido desenvolvimento da cultura cafeeira atraiu milhares de imigrantes das províncias do Sul, do Sudeste e do Nordeste do país.[5]

Dois dos principais conflitos ocorridos no Paraná foram o Cerco da Lapa[5] e a Guerra do Contestado[17] (1912-1916), que foi um dos eventos mais significativos da história do Brasil no século XX, no limite com o estado de Santa Catarina.[5] Ao longo do século XX, o Paraná destacou-se pela criação de empresas agrícolas, muitas vezes de capital estrangeiro, o que acelerou o processo de concentração de terras e de renda.[5] Durante as décadas de 1970 e 1980, milhares de pequenos camponeses deixaram o campo em direção às cidades ou a outros estados e até países.[5] No final do século XX e início do XXI, o Paraná atraiu muitos investimentos externos, e indústrias automobilísticas instalaram-se no estado.[5]

Primeiros tempos[editar | editar código-fonte]

Capitanias hereditárias (Luís Teixeira. Roteiro de todos os sinais..., c. 1586. Lisboa, Biblioteca da Ajuda

Até meados do século XVII, o litoral sul da capitania de São Vicente, hoje pertencente ao estado do Paraná, foi esporadicamente visitado por europeus que buscavam madeiras de lei.[18] No período de domínio espanhol, foi estimulado o contato dos vicentinos com a área do rio da Prata e tornou-se mais frequente o percurso da costa meridional, cuja exploração intermitente também seria motivada pela procura de índios e de riquezas minerais.[19] Do litoral os paulistas adentraram-se para oeste, em busca de indígenas, ao mesmo tempo que, a leste, onde hoje estão Paranaguá e Curitiba, dedicaram-se à mineração.[20]

As lendas sobre a existência de grandes jazidas de ouro e prata atraíram à região de Paranaguá numerosos aventureiros.[20] O próprio Salvador Correia de Sá, que em 1613 assumira a superintendência das minas do sul do Brasil, ali esteve durante três meses, enquanto trabalhava com cinco especialistas que fizera vir de Portugal.[18] Não encontrou, porém, nem uma onça de ouro.[18] [21] Sob o governo do marquês de Barbacena, foi para lá enviado o espanhol Rodrigo Castelo Blanco, grande conhecedor das jazidas do Peru, que em 1680 escreveu ao rei de Portugal para também desiludi-lo de vez sobre a lenda das minas de prata.[21]

No fim do século XVII, abandonados os sonhos de grandes riquezas minerais, prosseguiu a cata do ouro de aluvião, dito "de lavagem", mediante a qual os escassos habitantes do lugar procuravam recursos para a aquisição de produtos de fora.[20] Os índios que escapavam ao extermínio eram postos na lavoura.[22] Os escravos africanos começaram a ser utilizados no século XVIII[21] e já em 1798 o censo revelava que seu número, em termos relativos, superava o dos índios.[21]

A vila de Paranaguá, criada por uma carta régia de 1648,[23] formou com o seu sertão - os chamados campos de Curitiba, a quase mil metros de altitude - uma só comunidade.[21] Prevaleceu em Paranaguá o cultivo das terras e, nos campos, a criação de gado. Pouco a pouco, Curitiba, elevada a vila em 1693,[24] transformou-se no principal núcleo da comunidade paranaense, e para isso foi fator decisivo a grande estrada do gado que se estabeleceu entre o Rio Grande do Sul e Sorocaba.[25]

Castro é o primeiro município verdadeiramente paranaense,[26] a fundação do município ocorreu em 1778.[26]

Ciclo das tropas[editar | editar código-fonte]

Monumento ao Tropeiro no município da Lapa (PR).

A descoberta das minas de ouro de Minas Gerais teve como uma de suas consequências a grande demanda de gado equino e vacum.[27] Recorreu-se então aos muares xucros da região missioneira do sul,[21] tocados pela estrada Viamão-Sorocaba, aberta em 1731.[28] Segundo Brasil Pinheiro Machado, a construção dessa estrada foi "acontecimento relevante na história paranaense".[21] Desligou Curitiba do ciclo litorâneo,[21] distanciando-a socialmente de Paranaguá e incorporando-a ao sistema histórico das guerras de fronteira,[21] dando-lhe oportunidade de uma marcha para o sul, para o norte e para oeste,[21] de maneira que Curitiba passa a significar o caráter de toda a região que será a futura província".[21]

Inaugurava-se assim o ciclo das tropas na história paranaense, que se estendeu até a década de 1870,[29] quando começou a era do transporte ferroviário.[21] Numerosos habitantes dedicaram-se ao rendoso negócio de comprar muares no sul, inverná-los em seus campos e revendê-los nas feiras de Sorocaba.[21] Foi essencialmente com a disseminação das fazendas de criação e invernagem que se fez a ocupação do território. Com base na propriedade das pastagens e no trabalho de escravos negros e índios, estabelecem-se as famílias que detêm o poder regional.[21] Graças às tropas que se estabeleciam ao torno de alguns rios, surgiram municípios como Lapa,[30] Ponta Grossa[31] e Castro.[26]

Expansão da atividade pastoril[editar | editar código-fonte]

Em princípio do século XIX, com o recrudescimento da guerra no sul,[32] tornou-se necessária, como parte da estratégia portuguesa, a ocupação das terras que pelo Tratado de Madri pertenciam a Portugal,[33] mas permaneciam abandonadas desde a destruição das missões jesuíticas pelos bandeirantes.[21]

Com o tríplice objetivo de ocupar o território, subjugar os índios e abrir caminho para as missões, em junho de 1810 uma operação militar atingiu os campos de Guarapuava,[34] que logo a seguir foram doados em sesmarias.[21] Os índios capturados foram distribuídos "pelos mais abonados moradores" e três décadas depois a região estava ocupada.[21] [35] Tratava-se então de conquistar aos indígenas os campos de Palmas, o que foi feito em 1839[36] por duas sociedades particulares, rivais, que recorreram à arbitragem para evitar choque armado entre seus componentes. Completou-se assim em meados do século XIX, e graças à atividade pastoril, a ocupação dos campos do interior.[37]

Província do Paraná[editar | editar código-fonte]

Fac-símile da Lei Imperial nº 704 de 26 de agosto de 1853, que deu autonomia ao Paraná

Por alvará de 19 de fevereiro de 1811, foi criada a comarca de Paranaguá e Curitiba, pertencente à capitania de São Paulo. A 6 de julho do mesmo ano a câmara municipal de Paranaguá dirigiu-se ao príncipe regente para pedir a emancipação da comarca e a criação de nova capitania.[38] Dez anos depois, o movimento denominado Conjura Separatista, liderado por Floriano Bento Viana, formulou abertamente sua reivindicação separatista, mas ainda sem obter êxito.[39] [40]

Apesar da atividade política expressa em sucessivas diligências e petições que tinham em vista a emancipação político-administrativa, e mesmo após a independência, continuaram os então chamados "parnanguaras" submetidos aos comandantes da tropa local, uma vez que o governo provincial estava longe e desinteressado daquelas terras.[21] A importância política e estratégica da região avultava com os anos e evidenciava-se com acontecimentos que repercutiram no plano nacional, como a Revolução Farroupilha (1835 - 1845) e a Revolução Liberal de 1842.[21]

Em 29 de maio de 1843, entra em primeira discussão o projeto de lei que elevava a comarca de Curitiba à categoria de província.[41] Durante os debates, destacaram-se os deputados de Minas Gerais e São Paulo.[41] Segundo os deputados paulistas, o verdadeiro motivo da criação da nova província, por desmembramento da Província de São Paulo, seria o de punir esta última por sua participação na Revolta Liberal de 1842.[41]

Paralelamente, a economia paranaense, a par do comércio de gado, ganhava incremento com a exportação da erva-mate nativa para os mercados do Prata e do Chile.[21] Eram feitas promessas de emancipação, enquanto prosseguiam as representações e a luta no Parlamento.[21] Finalmente, a 28 de agosto de 1853 foi aprovado o projeto de criação da província do Paraná, que teria como capital provisória (que depois seria confirmada) o município de Curitiba.[42]

A 19 de dezembro do mesmo ano chegou à capital Zacarias de Góis e Vasconcelos, primeiro presidente da província, que desde logo se empenhou em tomar medidas destinadas a impulsionar a economia local e conseguir recursos para as ações administrativas que se faziam necessárias.[42] Procurou encaminhar para outras atividades, mormente de lavoura, parte da mão-de-obra e dos capitais que se empregavam no preparo e comércio da erva-mate.[35] O mais lucrativo negócio da província continuava a ser, no entanto, a invernada e a venda de muares para São Paulo.[35] Essa atividade chegou ao ponto mais alto na década de 1860 e só entrou em declínio no final do século.[35]

Durante o período provincial, o governo do Paraná não alcançou a necessária continuidade administrativa, já que a presidência da província, de livre escolha do poder central, teve nada menos de 55 ocupantes em 36 anos.[43] Os liberais paranaenses organizaram-se sob a liderança de Jesuíno Marcondes e seu cunhado Manuel Alves de Araújo, pertencentes à família dos barões de Tibagi e Campos Gerais, na época a mais poderosa oligarquia na região.[35] Os conservadores eram chefiados por Manuel Antônio Guimarães e Manuel Francisco Correia Júnior, de famílias que controlavam o comércio do litoral.[35]

Crise na sociedade pastoril[editar | editar código-fonte]

Panorama de Curitiba, em gravura de Jean-Baptiste Debret, 1827.

A decadência do comércio de muares acarretou crise em toda a sociedade pastoril do Paraná.[35] O grande patrimônio indiviso da família patriarcal, que abrangia vários núcleos familiares, já não podia prover a subsistência de todos.[35] Filhos de fazendeiros emigraram para as cidades, para São Paulo e para o Rio Grande do Sul.[35] Desde o início do século XIX o Paraná vinha recebendo imigrantes, dentro da política de preenchimento dos vazios demográficos.[35] Eram açorianos, alemães,[35] suíços e franceses, mas em pequeno número e sem condições de prosperidade.[35]

Em meados daquele século, embora contasse com uma população de cerca de sessenta mil habitantes, o Paraná continuava, do ponto de vista humano, um deserto irregularmente interrompido por dezenove pequenos oásis situados a distâncias imensas uns dos outros,[35] distâncias literalmente intransponíveis,[35] pois, além dos "caminhos históricos", que dentro em pouco se saberia não serem os "caminhos econômicos", nada havia que se pudesse chamar de rede de comunicações.[35]

Esses dezenove oásis eram representados pelos dois municípios (Curitiba e Paranaguá);[35] pelas sete vilas (Guaratuba, Antonina, Morretes, São José dos Pinhais, Lapa, Castro e Guarapuava);[35] pelas seis freguesias (Campo Largo, Palmeira, Ponta Grossa, Jaguariaíva, Tibagi e Rio Negro)[35] e pelas quatro capelas curadas (Guaraqueçaba, Iguaçu, Votuverava e Palmas).[35]

Curitiba tinha, na época, seis mil habitantes,[44] e Paranaguá, 6.500.[35] A população das vilas, freguesias e capelas oscilava, em geral, entre mil e cinco mil habitantes, de forma que a densidade efetiva, nos centros urbanos incipientes, era bem maior do que a média estatística (0,3 pessoa por quilômetro quadrado) faria supor.[35] Em compensação, na maior parte do território o vazio era absoluto.[35] Eram os campos gerais, a floresta, e a serra do Mar.[35]

Colonização[editar | editar código-fonte]

De Immigrant (O Imigrante), moinho em estilo holandês na colônia neerlandesa de Castrolanda, em Castro.
Descendentes de ucranianos na cerimônia de bênção dos alimentos na véspera da Páscoa de 2006, em Curitiba.

Na segunda metade do século XIX estimulou-se um tipo de colonização orientada para a criação de uma agricultura que suprisse as necessidades de abastecimento.[35] Providências conjuntas dos governos imperial e provincial permitiram o estabelecimento de núcleos coloniais nas proximidades dos centros urbanos, sobretudo no planalto de Curitiba, constituídos de poloneses que se instalaram principalmente na região norte de Curitiba formando bairros como Santa Cândida, Tingui e outros da região,[45] alemães,[45] italianos deram origens a bairros nobres como Santa Felicidade[45] e também a municípios da região metropolitana como São José dos Pinhais e Colombo que foi a maior colônia italiana do Paraná no final do século XIX até o século XX[45] e, em grupos menores, suíços, franceses e ingleses.[45] Esses contingentes de imigrantes imprimiram à fisionomia étnica do Paraná uma notável variedade e em alguns lugares do Paraná, por exemplo, no município de Castro e arredores se fala somente o holandês e em algumas outras regiões do estado se fala somente o alemão, italiano, ucraniano, polonês e até o japonês sem contar as línguas nativas de tribos indígenas.[35]

O número de escravos diminuiu muito, a partir da metade do século, sobretudo em virtude de venda ou arrendamento para outras províncias.[35] Um relatório do presidente do Paraná, em 1867, assinalou que o imposto arrecadado sobre escravos que seguiam para São Paulo "era quase igual ao imposto sobre animais".[46]

A vinda de colonos atendia assim ao problema, agravado pela evasão da mão-de-obra escrava, da escassez e carestia dos produtos agrícolas.[35] Nas últimas décadas do século XIX, a construção de estradas de ferro e linhas telegráficas empregou colonos trazidos por sociedades de imigração.[35] Nesse período e no início do século XX, estabeleceram-se no Paraná mais de quarenta núcleos coloniais.[35]

República[editar | editar código-fonte]

Desde o manifesto de 1870 ocorreram no Paraná manifestações esporádicas, e sem organicidade, de simpatia pela república.[35] Mesmo depois da fundação dos jornais Livre Paraná, em Paranaguá, e A República, em Curitiba, e da criação de clubes republicanos nos dois municípios, o movimento não chegou a se aprofundar.[35] Alguns paranaenses se destacaram na campanha republicana, mas fora da província.[35] [47] Na Assembleia Provincial, contavam os republicanos com um só deputado, Vicente Machado da Silva Lima, eleito pelo Partido Liberal, e que foi figura de projeção nos primeiros anos do novo regime.[48]

Panteon dos Heroes, onde jazem os corpos dos legalistas que combateram no Cerco da Lapa.

O estado sofreu as consequências das várias crises políticas que marcaram os primeiros tempos da república[47] e somente em abril de 1892 viu promulgada sua constituição estadual, que vigorou até a vitória do movimento revolucionário de 1930.[47] Durante a revolução federalista, o Paraná foi palco de renhidos combates, já que em seu território se deu o encontro de tropas federalistas e legalistas. Abandonado o estado pelos federalistas, fez-se o acerto de contas.[49] Os "picapaus" assumiram então o poder e desencadearam a repressão contra os "maragatos". Apesar de eventuais conciliações, tal divisão durou até 1930.[49]

A província do Paraná deveria ter os mesmos limites da antiga comarca, em consequência do que se prolongou até a segunda década do século XX uma complicada questão de fronteiras com Santa Catarina, surgida desde a descoberta e ocupação dos campos de Palmas.[50] Com base na carta régia de 1749, Santa Catarina considerava seu o "sertão" que correspondia à costa, enquanto o Paraná se apoiava no princípio do uti possidetis.[47] Com a república, ambos os estados exerceriam sua competência de distribuir terras num mesmo território.[47]

Por três vezes Santa Catarina obteve ganho de causa no Supremo Tribunal Federal, mas o Paraná embargou as decisões. Nessa área é que se iria travar a campanha do Contestado.[47] Finalmente, em 1916, por decisão arbitral do presidente da república, fez-se a partilha da região em litígio, com o que ficou encerrada a questão.[51]

Questões agrárias[editar | editar código-fonte]

Em 1920, o Paraná ocupava o 13º lugar em população no Brasil, com cerca de 700 mil habitantes;[52] em 1960, o estado havia passado para o quinto lugar, com mais de 4,2 milhões de habitantes.[52] Esse aumento não se deveu apenas ao crescimento natural,[47] mas a intensas correntes migratórias internas,[47] pelas quais se deslocaram habitantes de outros estados para áreas até então incultas do Paraná.[47]

Plantação de Café impulsionou o crescimento do Norte do Paraná.

Desde o final do século XIX, lavradores paulistas e mineiros iniciaram a formação de fazendas de café no norte do estado,[47] rico em terras férteis, de solo conhecido como "terra roxa".[53] A esse tipo de ocupação veio juntar-se a colonização dirigida, tanto oficial como particular.[47] Ocorreram também novas levas de colonos imigrantes, notadamente japoneses, italianos e alemães,[45] e com a experiência de empreendimentos semelhantes na Austrália e na África, em 1924, Lord Lovat visitou o Paraná[54] e três anos depois obteve do governo uma concessão de 500 mil alqueires de terra no norte do estado.[47] Fundou então a Paraná Plantation Ltd. que, ao lado da Companhia de Terras do Norte do Paraná e da Companhia Ferroviária do Norte do Paraná, executou o plano de colonização dessa zona.[47] O eixo da operação foi Londrina, que a partir daí cresceu em ritmo vertiginoso.[47]

Na região dos rios Iguaçu e Paraná, as matas eram há muito exploradas por empresas que comercializavam madeira e mate.[47] Desde a década de 1920 ocorria ali a ocupação espontânea por colonos gaúchos e catarinenses, em geral descendentes de alemães e italianos.[47] Após a revolução de 1930, anuladas numerosas concessões de terras, passou-se, por iniciativa do governo estadual e de particulares, à ocupação organizada, dirigida para a agricultura variada e a criação de animais de pequeno porte.[47]

Revolução de 1930 e intervenção[editar | editar código-fonte]

Deflagrada a revolução em outubro de 1930, já no dia 5 do mesmo mês seus partidários, com apoio de forças militares, apossaram-se do governo estadual paranaense, instalaram um governo provisório e substituíram as autoridades no interior.[55] As finanças públicas estavam em completo desequilíbrio e a economia em crise.[47] Havia ainda a grave questão das terras devolutas do estado.[47] O general Mário Tourinho, primeiro interventor, foi substituído no governo por Manuel Ribas.[56] Este, eleito em 1935, foi confirmado como interventor pelo Estado Novo, em 1937, e permaneceu no cargo até 1945.[56]

Na década de 1960, todas as terras do Paraná já estavam ocupadas,[57] mas, em seu processo de ocupação, a par do colono que comprava um ou mais lotes, surgiu também a figura do "posseiro",[57] que tendia a se instalar no terreno que julgava do estado ou sem dono.[57] Passou a ocorrer também a venda múltipla, a compra do "não dono" e a "grilagem" em grande escala.[57] Assim, a época foi também de conflitos e lutas agrárias, que se prolongaram por toda a segunda metade do século XX, sem qualquer solução duradoura no meio dos avanços da economia e da sociedade.[58]

Progressos e problemas[editar | editar código-fonte]

À medida que o governo estadual procurava tornar o Paraná o celeiro agrícola do país e um produtor de madeira capaz de levar a efeito amplos reflorestamentos, os conflitos fundiários não só continuaram como cresceram em intensidade.[58] Centenas de milhares de pequenos proprietários rurais e trabalhadores sem terra encenaram um êxodo rural que provocou um esvaziamento demográfico em mais de cinquenta municípios.[58] Tais emigrantes seguiram principalmente para o Centro-oeste e para a Amazônia, levando consigo sua concepção produtiva.[58]

Enquanto, na agricultura, a soja aumentava em trinta por cento o espaço que ocupava.[58] Também a indústria dava saltos expressivos, como a instalação, em 1976, de uma fábrica de ônibus e caminhões em Curitiba[59] e o início do funcionamento, em 1977, da refinaria Presidente Getúlio Vargas.[60] Realizaram-se ainda nessa época os primeiros grandes melhoramentos que fizeram da capital paranaense um modelo de novas soluções urbanísticas: inaugurou-se a primeira parte das ciclovias da cidade[61] e surgiu o sistema de ônibus expressos.[62]

Aumentaram, no entanto, as disputas de terra, até mesmo em reservas indígenas,[58] assim como denúncias de graves perturbações ambientais causadas pelo crescente número de barragens para construção de usinas hidrelétricas nos rios Iguaçu, Paranapanema, Capivari e Paraná.[58] Em 1980, a colheita de soja atingia o recorde de 2.079 kg por hectare, maior do que a marca norte-americana até então alcançada,[63] enquanto a de trigo colocava o Paraná no primeiro lugar nacional, com 57% da produção de todo o país.[58]

Em 1982, o desaparecimento do salto de Sete Quedas, imposto pela necessidade de formar o imenso reservatório da represa de Itaipu, provocou intenso movimento de protesto.[64] Agravava-se também, ainda em meados da década de 1990, a questão da terra, com atentados e manifestações de trabalhadores sem terra.[58]

Estabilidade e desenvolvimento[editar | editar código-fonte]

O Paraná é um estado capaz de atrair investimentos, posição favorecida pela abertura da economia local em direção ao Mercosul.[65] Com o crescimento demográfico estabilizado nas três últimas décadas, a economia tem-se modernizado e se diversificado tanto no setor agrícola quanto no industrial.[65] Há auto-suficiência energética garantida pela hidrelétrica Itaipu e eficiente pólo exportador em Paranaguá.[65]

O aumento da participação do setor industrial na economia um dos fatores que têm contribuído para a população no estado.[65] Em 1997, três montadoras de automóveis - Renault, Audi e Chrysler - firmaram um acordo para instalar fábricas no Paraná.[65]

Apesar de atrair investimentos, o estado fechou ano de 1997 com um déficit de mais de R$ 1 milhão. Como conseqüência, as obras públicas estavam paralisadas, e o governo, falido, não conseguia honrar seus compromissos. Entre as principais causas da crise estavam a alta dos juros e a redução da arrecadação e o aumento dos salários do funcionalismo público.[66]

Mudança política[editar | editar código-fonte]

Em 1998, o governador do Paraná, Jaime Lerner, sai do PDT e filia-se ao PFL, levando junto o prefeito de Curitiba, Cássio Taniguchi, cinco deputados estaduais e a maior parte dos secretários de governo.[67] Entre os motivos para a saída estaria a falta de apoio do partido em uma possível candidatura do governador à reeleição.[65]

Em 2000, privatizou o Banco do Estado do Paraná (Banestado), alinhado com a política de privatizações do governo do PSDB, Fernando Henrique Cardoso.[68] Em 2001, apresentou o projeto de privatização da Companhia Elétrica do Paraná (Copel), o qual foi rejeitado na Assembléia Legislativa do Paraná, devido a pressões populares.[69] Concedeu ao grupo acionista minoritário Dominó, o controle da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar),[70] a qual também estava sendo preparada para privatização.[71]

Criou uma série de Organizações Públicas de Direito Privado como mecanismo de privatizar o serviço público.[71]

Fez contratos suspeitos na área de informática pública, tendo mais de R$ 450 milhões de contratos rompidos pelo governo posterior, sem que houvesse nenhuma ação contra o Estado pelo rompimento de contrato.[71]

Século XXI[editar | editar código-fonte]

Segundo exigências do mercado europeu, em 2003 o governo do Paraná cria uma lei proibindo o plantio, a comercialização e o transporte de sementes geneticamente modificadas.[72] O Supremo Tribunal Federal (STF), porém, julga a lei inconstitucional e libera o plantio de transgênicos.[73] Mas o governo mantém o embargo ao escoamento da produção de transgênicos pelo porto de Paranaguá.[73] Em 2005, é sancionada a Lei de Biossegurança, que determina a formação de uma Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CNTBio) para regular a produção de transgênicos.[74] Em 2006, uma liminar concedida pela Justiça Federal permite o embarque da soja geneticamente modificada por Paranaguá.[75] Dados da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem) revelam que a taxa de sementes transgênicas de soja na safra 2008/2009 é de 44% no estado.[76] Em outubro de 2008, a multinacional suíça Syngenta Seeds doa ao governo do estado a fazenda, no oeste do Paraná,[77] que foi palco de ocupação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).[77] Ela deverá ser usada pelo governo como centro experimental de agroecologia.[77]

Nas eleições de 2008, o prefeito de Curitiba, Beto Richa (PSDB), é reeleito, com 77,27% dos votos.[78] Richa deixa a prefeitura no início de 2010 para disputar o governo do estado, e seu vice, Luciano Ducci (PSB) assume.[79] Em outubro, é eleito governador no primeiro turno, com 52,43% dos votos.[80]

Em novembro de 2009, o STF suspende a nomeação de Maurício Requião, para o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE).[81] O STF avaliou como nepotismo.[82] Em 2010, o Ministério Público Estadual denuncia esquema de desvio de cerca 100 milhões de reais da Assembleia Legislativa do Paraná, com a nomeação de funcionários fantasmas durante 16 anos, de 1994 até 2009. Cinquenta funcionários teriam participação do esquema, incluindo o ex-diretor da casa, Abib Miguel, que é preso.[83]

Curitiba deverá sediar jogos da Copa do Mundo FIFA de 2014, no estádio do Clube Atlético Paranaense, o Joaquim Américo Guimarães, conhecido como Arena da Baixada.[84] Ele será reformado a um custo estimado de 184,6 milhões de reais.[85]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Secretaria de Estado do Turismo. Etnias (em português) Site Oficial do Estado do Paraná. Página visitada em 18 de julho de 2011.
  2. WACHOWICZ, Ruy Christovam. História do Paraná (em português). Curitiba: Editora Gráfica Vicentina, 1995. p. 25-37.
  3. a b c WACHOWICZ, Ruy Christovam. História do Paraná (em português). Curitiba: Editora Gráfica Vicentina, 1995. p. 26.
  4. WACHOWICZ, Ruy Christovam. História do Paraná (em português). Curitiba: Editora Gráfica Vicentina, 1995. p. 28.
  5. a b c d e f g h MANTOVANI, Ana Margô (junho de 2003). Paraná: História (em português) Laboratórios de Informática Unilasalle. Página visitada em 15 de julho de 2011.
  6. WACHOWICZ, Ruy Christovam. História do Paraná (em português). Curitiba: Editora Gráfica Vicentina, 1995. p. 32.
  7. WACHOWICZ, Ruy Christovam. História do Paraná (em português). Curitiba: Editora Gráfica Vicentina, 1995. p. 34-35.
  8. Gazeta Valeparaibana (em português) Site Oficial do Jornal (julho de 2010). Página visitada em 7 de fevereiro de 2011.
  9. a b O Paraná na história da mineração no Brasil do século XVII (em português).
  10. a b c "Paraná". (em português) Nova Enciclopédia Ilustrada Folha (volume 2). (1996). São Paulo: Folha de São Paulo. pp.736. 
  11. História da Cidade (em português) Prefeitura Municipal de Ponta Grossa. Página visitada em 24 de outubro de 2009.
  12. WONS, Iaroslaw. Ciclos econômicos do Paraná. In: ______________. Geografia do Paraná: física, humana e econômica. Curitiba: Ensino Renovado, 1994. p. 133.
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