Revolução Russa de 1917
| Revolução Russa | |
|---|---|
| Parte das Revoluções de 1917–1923 | |
No sentido horário, a partir do canto superior esquerdo:
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| Nome nativo | Революция 1917 года (romanizado: Revolyutsiya tysyacha devyat'sot semnadtsatogo goda) |
| Data | 8 de março de 1917 – 25 de outubro de 1922 (5 anos, 3 meses e 8 dias) |
| Duração |
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| Localização | Rússia |
| Participantes |
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| Resultado |
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| História da Rússia |
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| Parte da série sobre o |
| Comunismo |
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| Parte de uma série sobre o |
| Socialismo |
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A Revolução Russa de 1917 (em russo: Революция 1917 года в России) foi um período de mudança política e social na Rússia, iniciado em 1917. Nesse período, a Rússia aboliu sua monarquia e adotou uma forma socialista de governo após duas revoluções sucessivas e uma guerra civil. Pode ser vista como precursora de outras revoluções ocorridas em meio às consequências da Primeira Guerra Mundial, como a Revolução Alemã de 1918-1919. A Revolução Russa foi um acontecimento fundamental do século XX.
A Revolução Russa teve início com a Revolução de Fevereiro, em 1917, em plena Primeira Guerra Mundial. Com o Império Alemão impondo derrotas no fronte e o agravamento de problemas logísticos causando escassez de pão e cereais, o Exército Russo perdia o moral, enquanto se aproximava a possibilidade de um motim em grande escala.[1] As autoridades estavam convencidas de que, se o czar Nicolau II abdicasse, a agitação diminuiria. Nicolau renunciou em 15 de março [2 de março no calendário juliano], dando lugar a um governo provisório liderado pela Duma (parlamento).[2] Durante os distúrbios, moradores de Petrogrado (atual São Petersburgo) formaram conselhos soviéticos que, a princípio, não se opuseram ao novo governo; no entanto, os sovietes insistiram em exercer influência sobre o governo e em controlar as milícias. Em março, a Rússia passou a ter dois governos rivais. O Governo Provisório detinha o poder estatal nos assuntos militares e internacionais, enquanto a rede de sovietes exercia poder sobre os assuntos internos. De modo decisivo, os sovietes contavam com a lealdade da classe trabalhadora e da classe média urbana. Houve motins, protestos e greves. Organizações políticas socialistas e outras de esquerda disputavam influência dentro do Governo Provisório e dos sovietes. Entre as facções estavam os mencheviques, os socialistas revolucionários, os anarquistas e os bolcheviques, um partido de extrema esquerda leninista liderado por Lenin.
Os bolcheviques ganharam popularidade com seu programa que prometia "paz, terra e pão": o fim da guerra, terra para o campesinato e o fim da fome.[3] Depois de assumir o poder, o Governo Provisório continuou participando da guerra apesar da oposição popular. Aproveitando-se disso, os bolcheviques e outras facções conquistaram apoio popular para fazer avançar a revolução. Em resposta ao descontentamento em Petrogrado, o Governo Provisório reprimiu manifestantes, o que levou às Jornadas de Julho. Os bolcheviques reuniram as milícias operárias que lhes eram leais nas Guardas Vermelhas.[4] A situação instável atingiu seu ápice com a Revolução de Outubro, uma insurreição armada bolchevique em Petrogrado iniciada em 7 de novembro [25 de outubro no calendário juliano], que derrubou o Governo Provisório. Os bolcheviques estabeleceram seu próprio governo e proclamaram a República Socialista Federativa Soviética da Rússia (RSFSR). Sob pressão de ofensivas militares alemãs, transferiram a capital para Moscou. A RSFSR começou a reorganizar o império no primeiro Estado socialista do mundo, com a intenção de praticar a democracia soviética em escala nacional e internacional. A promessa de encerrar a participação russa na Primeira Guerra Mundial foi cumprida quando os dirigentes bolcheviques assinaram o Tratado de Brest-Litovski com a Alemanha, em março de 1918. Os bolcheviques criaram a Tcheka, polícia secreta e serviço de segurança revolucionária encarregado de descobrir, punir e eliminar os considerados "inimigos do povo" em campanhas conhecidas como Terror Vermelho.
Embora os bolcheviques tivessem amplo apoio nas áreas urbanas, enfrentavam inimigos estrangeiros e internos que se recusavam a reconhecer seu governo. A Rússia mergulhou em uma sangrenta guerra civil, que opôs os Vermelhos (bolcheviques) a seus inimigos, entre os quais estavam movimentos nacionalistas, partidos socialistas antibolcheviques, anarquistas, monarquistas e liberais; estes dois últimos grupos apoiavam fortemente o Movimento Branco russo, liderado principalmente por oficiais de direita e visto como uma força que combatia pela restauração da ordem imperial. O comissário bolchevique Leon Trótski começou a organizar as milícias operárias leais aos bolcheviques no Exército Vermelho. Embora acontecimentos fundamentais tenham ocorrido em Moscou e Petrogrado, todas as cidades do império foram sacudidas, inclusive as províncias de minorias nacionais; nas zonas rurais, camponeses tomaram e redistribuíram terras.
À medida que a guerra avançava, a RSFSR estabeleceu o poder soviético na Armênia, no Azerbaijão, na Bielorrússia, na Geórgia e na Ucrânia. A coesão do período de guerra e a intervenção de potências estrangeiras levaram a RSFSR a começar a unificar essas nações sob uma única bandeira, criando a União Soviética. Historiadores consideram que o período revolucionário terminou em 1922, quando a guerra civil se encerrou com a derrota do Exército Branco e das facções separatistas, provocando uma emigração em massa da Rússia. O vitorioso Partido Bolchevique reconstituiu-se como Partido Comunista de Toda a União (Bolcheviques) e permaneceu no poder por seis décadas.
Antecedentes
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A Revolução Russa de 1905 foi um dos principais fatores que contribuíram para as revoluções de 1917. Os acontecimentos do Domingo Sangrento desencadearam protestos em todo o país e motins de soldados. Nesse caos, foi criado um conselho de trabalhadores em São Petersburgo.[5] Embora a Revolução de 1905 tenha sido por fim esmagada e seus dirigentes tenham sido presos, ela lançou as bases para o posterior Soviete de Petrogrado e para outros movimentos revolucionários na preparação para 1917. A Revolução de 1905 também levou à criação da Duma (parlamento), que mais tarde formaria o Governo Provisório após fevereiro de 1917.[6]
O fraco desempenho da Rússia em 1914–1915 provocou crescentes críticas dirigidas ao czar Nicolau II e à família Romanov. Uma breve onda de nacionalismo patriótico se dissipou diante das derrotas e das condições precárias na Frente Oriental da Primeira Guerra Mundial. O czar agravou a situação ao assumir pessoalmente o comando do Exército Imperial Russo em 1915, um desafio muito além de suas capacidades. Passou então a ser considerado pessoalmente responsável pelas sucessivas derrotas e perdas russas. Além disso, a czarina Alexandra, deixada à frente do governo enquanto o czar comandava no fronte, nascera na Alemanha, o que despertava suspeitas de conluio, intensificadas por rumores sobre sua relação com o controverso místico Grigori Rasputin. A influência de Rasputin levou a nomeações ministeriais desastrosas e à corrupção, agravando as condições na Rússia.[6]
Após a entrada do Império Otomano na guerra ao lado das Potências Centrais, em outubro de 1914, a Rússia perdeu uma importante rota comercial para o Mar Mediterrâneo, o que agravou a crise econômica e a escassez de munições. Ao mesmo tempo, a Alemanha conseguia produzir grandes quantidades de munição apesar de combater continuamente em duas grandes frentes de batalha.[7]
As condições durante a guerra provocaram uma devastadora perda de moral no exército russo e entre a população em geral. Isso era particularmente evidente nas cidades, devido à falta de alimentos causada pela desorganização da agricultura. A escassez de alimentos tornou-se um problema considerável na Rússia, mas sua causa não estava em qualquer fracasso das colheitas, que não haviam se alterado significativamente durante a guerra. A causa indireta foi o fato de que, para financiar a guerra, o governo imprimiu milhões de rublos e, em 1917, a inflação havia elevado os preços a até quatro vezes os níveis de 1914. Os agricultores, por consequência, enfrentavam um custo de vida maior, mas pouca elevação de renda. Como resultado, tendiam a estocar seus cereais e retornar à agricultura de subsistência. Assim, as cidades sofriam constantemente com falta de alimentos. Ao mesmo tempo, a alta dos preços gerava reivindicações por salários maiores nas fábricas e, em janeiro e fevereiro de 1916, a propaganda revolucionária, em parte auxiliada por recursos alemães, levou a greves generalizadas. Isso resultou em críticas crescentes ao governo, inclusive em maior participação de trabalhadores em partidos revolucionários.
Os partidos liberais também passaram a dispor de maior espaço para expressar suas queixas, pois o fervor inicial da guerra levou o governo czarista a criar diversas organizações políticas. Em julho de 1915, foi estabelecido um Comitê Central das Indústrias de Guerra sob a presidência do destacado outubrista Alexander Guchkov (1862–1936), incluindo dez representantes dos trabalhadores. Os mencheviques de Petrogrado concordaram em participar, apesar das objeções de seus dirigentes no exterior. Toda essa atividade deu novo impulso às ambições políticas e, em setembro de 1915, uma combinação de outubristas e kadetes na Duma exigiu a formação de um governo responsável, o que o czar rejeitou.[8]
Todos esses fatores haviam provocado uma acentuada perda de confiança no regime, inclusive dentro da classe dominante, que aumentou ao longo da guerra. No início de 1916, Guchkov discutiu com oficiais superiores do exército e membros do Comitê Central das Indústrias de Guerra a possibilidade de um golpe para forçar a abdicação do czar. Em dezembro, um pequeno grupo de nobres assassinou Rasputin e, em janeiro de 1917, o primo do czar, o grão-duque Nicolau, foi indiretamente questionado pelo príncipe Lvov sobre se estaria disposto a tomar o trono de seu sobrinho, o czar Nicolau II. Nenhum desses episódios foi, por si só, a causa imediata da Revolução de Fevereiro, mas eles ajudam a explicar por que a monarquia sobreviveu apenas alguns dias depois que a revolução eclodiu.[8]
Enquanto isso, dirigentes socialistas revolucionários no exílio, muitos deles vivendo na Suíça, observavam com desalento o colapso da solidariedade socialista internacional. A Seção Francesa da Internacional Operária e o Partido Social-Democrata da Alemanha haviam votado a favor dos esforços de guerra de seus respectivos governos. Gueorgui Plekhanov, em Paris, adotara uma posição fortemente antialemã, enquanto Aleksandr Parvus apoiava o esforço de guerra alemão como o melhor meio de assegurar uma revolução na Rússia. Os mencheviques, em sua maioria, sustentavam que a Rússia tinha o direito de se defender da Alemanha, embora Julius Martov (um destacado menchevique), então situado à esquerda de seu grupo, exigisse o fim da guerra e um acordo baseado na autodeterminação nacional, sem anexações nem indenizações.[8]
Foram essas posições de Martov que predominaram em um manifesto redigido por Leon Trótski (à época menchevique) durante uma conferência em Zimmerwald, da qual participaram 35 dirigentes socialistas em setembro de 1915. Inevitavelmente, Lenin, apoiado por Zinoviev e Radek, contestou-as vigorosamente. Suas posições ficaram conhecidas como a esquerda da Conferência Socialista de Zimmerwald. Lenin rejeitou tanto a defesa da Rússia quanto o clamor pela paz. Desde o outono de 1914, insistia que "do ponto de vista da classe trabalhadora e das massas trabalhadoras, o mal menor seria a derrota da Monarquia Czarista"; a guerra deveria ser transformada em uma guerra civil de soldados proletários contra seus próprios governos e, se disso resultasse uma vitória proletária na Rússia, o dever deles seria travar uma guerra revolucionária pela libertação das massas em toda a Europa.[9]
Mudanças econômicas e sociais
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Uma concepção elementar de propriedade, compartilhada por muitos camponeses, era a de que a terra deveria pertencer àqueles que a trabalhavam. Ao mesmo tempo, a vida e a cultura camponesas estavam em constante transformação. A mudança era facilitada pelo deslocamento físico de um número crescente de moradores rurais que migravam entre ambientes agrícolas, industriais e urbanos, mas também pela introdução da cultura urbana nas aldeias por meio de bens materiais, da imprensa e da transmissão oral.[nb 1]
Os trabalhadores também tinham bons motivos para o descontentamento: moradias superlotadas, muitas vezes com condições sanitárias deploráveis; longas jornadas de trabalho (na véspera da guerra, a média era de dez horas por dia, seis dias por semana, e muitos trabalhavam de onze a doze horas diárias em 1916); risco constante de ferimentos e morte devido às más condições de segurança e higiene; disciplina severa (não apenas regras e multas, mas também agressões de capatazes); e salários insuficientes (agravados, depois de 1914, pelos fortes aumentos do custo de vida durante a guerra). Ao mesmo tempo, a vida industrial urbana tinha benefícios, embora eles pudessem ser tão perigosos para a estabilidade social e política quanto as privações. Havia muitos estímulos a esperar mais da vida. A aquisição de novas habilidades proporcionava a muitos trabalhadores um senso de autoestima e confiança, elevando suas expectativas e aspirações. Vivendo nas cidades, os trabalhadores tinham contato com bens materiais que nunca haviam visto nas aldeias. Mais importante, os trabalhadores urbanos eram expostos a novas ideias sobre a ordem social e política.[nb 2]
As causas sociais da Revolução Russa podem ser relacionadas a séculos de opressão das classes baixas pelo regime czarista e aos fracassos de Nicolau na Primeira Guerra Mundial. Embora os camponeses rurais tivessem sido emancipados da servidão em 1861, ainda se ressentiam de pagar prestações de resgate ao Estado e reivindicavam a posse comunal das terras que trabalhavam. O problema foi agravado pelo fracasso das reformas agrárias de Serguei Witte no início do século XX. Distúrbios camponeses crescentes e, às vezes, revoltas propriamente ditas ocorreram com o objetivo de garantir a propriedade das terras cultivadas. A Rússia era composta principalmente por camponeses agricultores pobres e apresentava grande desigualdade na propriedade da terra, com 1,5% da população possuindo 25% das terras.
A rápida industrialização da Rússia também resultou em superlotação urbana e condições precárias para os trabalhadores industriais das cidades, como mencionado acima. Entre 1890 e 1910, a população da capital, São Petersburgo, quase dobrou, passando de 1.033.600 para 1.905.600 habitantes, e Moscou registrou crescimento semelhante. Isso criou um novo proletariado que, por estar concentrado nas cidades, tinha muito mais probabilidade de protestar e entrar em greve do que o campesinato em épocas anteriores. Uma pesquisa de 1904 constatou que, em média, 16 pessoas compartilhavam cada apartamento em São Petersburgo, com seis pessoas por cômodo. Também não havia água encanada, e montes de dejetos humanos representavam uma ameaça à saúde dos trabalhadores. As más condições apenas agravaram a situação, com rápido aumento do número de greves e episódios de desordem pública nos anos imediatamente anteriores à Primeira Guerra Mundial. Devido à industrialização tardia, os trabalhadores russos estavam altamente concentrados. Em 1914, 40% deles trabalhavam em fábricas com mais de mil empregados (32% em 1901); 42% trabalhavam em empresas com 100 a mil trabalhadores e 18% em empresas com um a 100 (nos Estados Unidos, em 1914, os números eram, respectivamente, 18%, 47% e 35%).[10]
| Anos | Média anual de greves[11] |
|---|---|
| 1862–1869 | 6 |
| 1870–1884 | 20 |
| 1885–1894 | 33 |
| 1895–1905 | 176 |
A Primeira Guerra Mundial aumentou o caos. A conscrição em toda a Rússia resultou no envio de cidadãos relutantes para a guerra. A enorme demanda por produção fabril de suprimentos de guerra e por trabalhadores provocou muitos outros distúrbios trabalhistas e greves. A conscrição retirou das cidades trabalhadores qualificados, que precisaram ser substituídos por camponeses sem qualificação. Quando a fome começou a se alastrar em razão do precário sistema das Ferrovias Russas, trabalhadores abandonaram as cidades em massa à procura de alimentos. Por fim, os próprios soldados, que sofriam com a falta de equipamento e de proteção contra as intempéries, começaram a se voltar contra o czar. Isso ocorreu principalmente porque, à medida que a guerra avançava, muitos dos oficiais leais ao czar foram mortos e substituídos por recrutas descontentes provenientes das grandes cidades, que tinham pouca lealdade ao soberano.
Questões políticas
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Muitos setores do país tinham motivos para estar insatisfeitos com a autocracia existente. Nicolau II era um governante profundamente conservador e mantinha um rígido sistema autoritário. Esperava-se que os indivíduos e a sociedade em geral demonstrassem autocontrole, devoção à comunidade, deferência à hierarquia social e senso de dever para com o país. A fé religiosa ajudava a unir todos esses princípios, tanto como fonte de conforto e segurança diante das dificuldades quanto como meio de autoridade política exercida pelo clero. Talvez mais do que qualquer outro monarca moderno, Nicolau II vinculava seu destino e o futuro de sua dinastia à ideia do soberano como um pai santo e infalível para seu povo.[nb 3][12]
Essa visão da monarquia Romanov o mantinha alheio à situação de seu país. Convencido de que seu poder de governar lhe fora concedido pelo direito divino, Nicolau presumia que o povo russo lhe era devotado com lealdade inquestionável. Essa convicção inflexível tornou-o relutante em permitir reformas progressistas que poderiam ter aliviado o sofrimento da população russa. Mesmo depois que a Revolução de 1905 levou o czar a decretar direitos civis limitados e representação democrática, ele trabalhou para restringir até mesmo essas liberdades, a fim de preservar a autoridade suprema da Coroa.[nb 3]
Apesar da opressão constante, era forte o desejo popular de participar democraticamente das decisões do governo. Desde o Iluminismo, intelectuais russos promoviam ideais iluministas como a dignidade do indivíduo e a legitimidade da representação democrática. Esses ideais eram defendidos com maior vigor pelos liberais russos, embora populistas, marxistas e anarquistas também afirmassem apoiar reformas democráticas. Um movimento de oposição crescente já começara a desafiar abertamente a monarquia Romanov muito antes das turbulências da Primeira Guerra Mundial.
A insatisfação com a autocracia russa culminou na enorme convulsão nacional que se seguiu ao massacre do Domingo Sangrento, em janeiro de 1905, quando centenas de manifestantes desarmados foram baleados pelas tropas do czar. Os trabalhadores responderam ao massacre com uma greve geral paralisante, obrigando Nicolau a promulgar o Manifesto de Outubro, que estabeleceu um parlamento eleito democraticamente, a Duma Estatal. Embora o czar tenha aceitado as Leis Fundamentais do Estado de 1906 um ano depois, posteriormente dissolveu as duas primeiras Dumas quando elas se mostraram pouco cooperativas. As esperanças frustradas de democracia alimentaram ideias revolucionárias e explosões de violência dirigidas contra a monarquia.
Uma das principais razões do czar para arriscar uma guerra em 1914 era seu desejo de restaurar o prestígio que a Rússia perdera em meio aos desastres da Guerra Russo-Japonesa (1904–1905). Nicolau também procurava fomentar um sentimento maior de unidade nacional por meio de uma guerra contra um inimigo comum e antigo. O Império Russo era uma aglomeração de diversas etnias que haviam demonstrado sinais significativos de desunião nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial. Nicolau acreditava, em parte, que o perigo e as provações compartilhados de uma guerra externa reduziriam a agitação social em torno dos problemas persistentes de pobreza, desigualdade e condições de trabalho desumanas. Em vez de restaurar a posição política e militar da Rússia, a Primeira Guerra Mundial levou ao massacre de soldados russos e a derrotas militares que minaram tanto a monarquia quanto a sociedade russa até o ponto de colapso.
Primeira Guerra Mundial
[editar | editar código]O início da guerra, em agosto de 1914, serviu inicialmente para conter os protestos sociais e políticos então predominantes, direcionando as hostilidades contra um inimigo externo comum, mas essa unidade patriótica não durou muito. À medida que a guerra se prolongava sem conclusão, o cansaço com o conflito foi gradualmente cobrando seu preço. Embora muitos russos comuns tenham participado de manifestações antialemãs nas primeiras semanas da guerra, a hostilidade contra o Kaiser e o desejo de defender suas terras e suas vidas não se traduziam necessariamente em entusiasmo pelo czar ou pelo governo.[13][14][15]
A primeira grande batalha russa na guerra foi um desastre: na Batalha de Tannenberg de 1914, mais de 30 mil soldados russos foram mortos ou feridos e 90 mil foram capturados, enquanto a Alemanha sofreu apenas 12 mil baixas. No entanto, forças austro-húngaras aliadas à Alemanha foram empurradas para o interior da região da Galícia até o fim daquele ano. No outono de 1915, Nicolau assumira o comando direto do exército, supervisionando pessoalmente o principal teatro de guerra russo e deixando sua ambiciosa, porém incapaz, esposa Alexandra à frente do governo. Relatos de corrupção e incompetência no governo imperial começaram a surgir, e a influência crescente de Grigori Rasputin sobre a família imperial era amplamente ressentida.
Em 1915, a situação tomou um rumo crítico para pior quando a Alemanha concentrou seus ataques na Frente Oriental. O superior Exército Imperial Alemão – mais bem comandado, treinado e abastecido – mostrou-se muito eficaz contra as forças russas mal equipadas, expulsando-as da Galícia e também da Polônia Russa durante a Ofensiva Gorlice-Tarnów. Até o fim de outubro de 1916, a Rússia havia perdido entre 1,6 milhão e 1,8 milhão de soldados, além de 2 milhões de prisioneiros de guerra e 1 milhão de desaparecidos, totalizando quase 5 milhões de homens.
Essas perdas extraordinárias tiveram papel importante nos motins e revoltas que começaram a ocorrer. Em 1916, passaram a circular relatos de confraternização com o inimigo. Os soldados passavam fome e careciam de calçados, munições e até armas. O descontentamento generalizado reduziu o moral, que foi ainda mais abalado por uma série de derrotas militares.

As taxas de baixas eram o sinal mais evidente desse desastre. Até o fim de 1914, apenas cinco meses após o início da guerra, cerca de 390 mil russos haviam perdido a vida e quase 1 milhão estavam feridos. Muito antes do esperado, recrutas com treinamento insuficiente foram chamados ao serviço ativo, processo repetido durante toda a guerra à medida que as perdas continuavam a aumentar. O corpo de oficiais também sofreu mudanças notáveis, especialmente nos escalões inferiores, rapidamente preenchidos por soldados promovidos nas fileiras. Esses homens, em geral de origem camponesa ou operária, desempenhariam papel importante na politização das tropas em 1917.
O exército rapidamente ficou sem fuzis e munição, bem como uniformes e alimentos, e, em meados de 1915, homens eram enviados ao fronte sem armas. Esperava-se que se equipassem com armas recuperadas de soldados mortos de ambos os lados nos campos de batalha. Os soldados não se sentiam valorizados; ao contrário, sentiam-se descartáveis.
Na primavera de 1915, o exército estava em retirada constante, nem sempre de forma ordenada; deserções, saques e fugas caóticas não eram incomuns. Em 1916, porém, a situação havia melhorado em vários aspectos. As tropas russas pararam de recuar e chegaram a obter alguns êxitos modestos nas ofensivas realizadas naquele ano, embora ao custo de muitas vidas. O problema da escassez também foi em grande parte resolvido por um grande esforço de aumento da produção interna. Ainda assim, no fim de 1916, o moral dos soldados estava ainda pior do que durante a grande retirada de 1915. A sorte militar podia ter melhorado, mas a guerra continuava ceifando vidas russas. A crise de moral, como sustentou Allan Wildman, importante historiador do exército russo na guerra e na revolução, "estava fundamentalmente enraizada no sentimento de absoluto desespero de que a matança algum dia terminasse e de que algo semelhante a uma vitória pudesse ser alcançado".[16]
A guerra não devastou apenas os soldados. No fim de 1915, havia numerosos sinais de que a economia estava entrando em colapso sob a pressão crescente das demandas de guerra. Os principais problemas eram a escassez de alimentos e a alta dos preços. A inflação reduzia os rendimentos em ritmo alarmante, e a escassez dificultava a subsistência das pessoas. O problema era especialmente grave na capital, São Petersburgo, onde a distância das fontes de abastecimento e as precárias redes de transporte agravavam a situação. Lojas fechavam cedo ou completamente por falta de pão, açúcar, carne e outros mantimentos, enquanto as filas para os poucos produtos disponíveis cresciam enormemente. Tornava-se cada vez mais difícil tanto pagar pelos alimentos quanto obtê-los fisicamente.
As greves aumentaram continuamente a partir de meados de 1915, assim como a criminalidade, mas, em sua maior parte, a população sofria e resistia, vasculhando a cidade em busca de comida. Mulheres da classe trabalhadora de São Petersburgo supostamente passavam cerca de quarenta horas por semana em filas por alimentos, mendigavam, recorriam à prostituição ou ao crime e derrubavam cercas de madeira para alimentar fogões e se aquecer; ao mesmo tempo, continuavam ressentidas com os ricos.
Funcionários do governo responsáveis pela ordem pública se perguntavam por quanto tempo duraria a paciência popular. Um relatório da filial de São Petersburgo da polícia de segurança, a Okhrana, em outubro de 1916, advertiu de forma direta sobre "a possibilidade, em um futuro próximo, de tumultos das classes inferiores do império, enfurecidas pelos fardos da existência cotidiana".[17]
O czar Nicolau foi responsabilizado por todas essas crises, e o pouco apoio que ainda possuía começou a ruir. À medida que o descontentamento crescia, a Duma Estatal emitiu um alerta a Nicolau em novembro de 1916, afirmando que, inevitavelmente, um terrível desastre se abateria sobre o país se uma forma constitucional de governo não fosse instaurada. Nicolau ignorou os avisos, e o regime czarista russo desmoronou poucos meses depois, durante a Revolução de Fevereiro de 1917. Um ano mais tarde, o czar e toda a sua família foram executados.
Revolução de Fevereiro
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No início de fevereiro, trabalhadores de Petrogrado iniciaram diversas greves e manifestações. Em 7 de março [22 de fevereiro no calendário juliano], a Putilov, maior unidade industrial de Petrogrado, foi fechada por uma greve operária.[18] No dia seguinte, uma série de reuniões e comícios foi realizada pelo Dia Internacional das Mulheres, transformando-se gradualmente em encontros de caráter econômico e político. Foram organizadas manifestações para exigir pão, apoiadas pelos trabalhadores industriais, que as viam como motivo para dar continuidade às greves. As operárias marcharam até fábricas próximas e mobilizaram mais de 50 mil trabalhadores para a greve.[19] Em 10 de março [25 de fevereiro no calendário juliano], praticamente todas as empresas industriais de Petrogrado haviam sido fechadas, assim como muitas empresas comerciais e de serviços. Estudantes, trabalhadores de escritório e professores juntaram-se aos operários nas ruas e em reuniões públicas.[20]
Para conter os distúrbios, o czar recorreu ao exército. Pelo menos 180 mil soldados estavam disponíveis na capital, mas a maioria não tinha treinamento ou estava ferida. O historiador Ian Beckett estima que cerca de 12 mil poderiam ser considerados confiáveis, mas mesmo estes se mostraram relutantes em avançar contra a multidão, pois ela incluía muitas mulheres. Foi por isso que, em 11 de março [26 de fevereiro no calendário juliano], quando o czar ordenou ao exército que reprimisse os distúrbios pela força, as tropas começaram a se amotinar.[21] Embora poucos tenham aderido ativamente às revoltas, muitos oficiais foram baleados ou se esconderam; a capacidade da guarnição de conter os protestos foi praticamente anulada, símbolos do regime czarista foram rapidamente derrubados por toda a cidade e a autoridade governamental na capital entrou em colapso, situação agravada pelo fato de Nicolau ter prorrogado a Duma naquela manhã, deixando-a sem autoridade legal para agir. A resposta da Duma, pressionada pelo bloco liberal, foi criar um Comitê Provisório para restaurar a lei e a ordem; enquanto isso, os partidos socialistas estabeleceram o Soviete de Petrogrado para representar trabalhadores e soldados. As unidades ainda leais mudaram de lado no dia seguinte.[22]
O czar ordenou que o trem real retornasse a Petrogrado, mas ele foi detido em 14 de março [1.º de março no calendário juliano],[21] por um grupo de revolucionários em Malaya Vishera. Quando finalmente chegou a Pskov, o chefe do Exército, Nikolai Ruzsky, e os deputados da Duma Alexander Guchkov e Vasily Shulgin sugeriram em uníssono que ele abdicasse do trono. Nicolau o fez em 15 de março [2 de março no calendário juliano], em seu próprio nome e, após receber aconselhamento, também em nome de seu filho, o czarevich. Nicolau indicou seu irmão, o grão-duque Miguel Alexandrovich, como sucessor. Contudo, o grão-duque percebeu que teria pouco apoio como governante e recusou a coroa em 16 de março [3 de março no calendário juliano],[21] declarando que só a aceitaria se esse fosse o consenso de uma ação democrática.[23] Seis dias depois, Nicolau, já não mais czar e tratado com desprezo pelos sentinelas como "Nicolau Romanov", reuniu-se novamente com sua família no Palácio de Alexandre, em Tsarskoye Selo.[24] Ele e a família foram colocados em prisão domiciliar pelo Governo Provisório.
O efeito imediato da Revolução de Fevereiro foi uma atmosfera generalizada de euforia e entusiasmo em Petrogrado.[25] Em 16 de março [3 de março no calendário juliano], foi anunciado um governo provisório. A centro-esquerda estava bem representada, e o governo foi inicialmente presidido por um aristocrata liberal, o príncipe Georgy Yevgenievich Lvov, membro do Partido Constitucional Democrata (KD).[26] Os socialistas haviam formado seu órgão rival, o Soviete de Petrogrado (ou conselho de trabalhadores), quatro dias antes. O Soviete de Petrogrado e o Governo Provisório passaram a disputar o poder sobre a Rússia.
Dualidade de poderes: Dvoyevlastiye
[editar | editar código]O poder efetivo do Governo Provisório era contestado pela autoridade de uma instituição que afirmava representar a vontade de trabalhadores e soldados e que, de fato, podia mobilizar e controlar esses grupos durante os primeiros meses da revolução: o Conselho de Deputados Operários do Soviete de Petrogrado. O modelo dos sovietes eram os conselhos de trabalhadores que haviam sido estabelecidos em dezenas de cidades russas durante a Revolução de 1905. Em fevereiro de 1917, trabalhadores em greve elegeram deputados para representá-los, e ativistas socialistas começaram a organizar um conselho municipal que reunisse esses deputados com representantes dos partidos socialistas. Em 27 de fevereiro, deputados socialistas da Duma, principalmente mencheviques e socialistas revolucionários, assumiram a liderança na organização do conselho de toda a cidade. O Soviete de Petrogrado reuniu-se no Palácio Tauride, na sala 13, com permissão do Governo Provisório.[27]
Os dirigentes do Soviete de Petrogrado acreditavam representar classes específicas da população, e não a nação inteira. Também consideravam que a Rússia ainda não estava pronta para o socialismo. Entendiam que seu papel se limitava a pressionar a hesitante "burguesia" a governar e a introduzir amplas reformas democráticas no país: substituição da monarquia por uma república, garantia de direitos civis, polícia e exército democráticos, abolição da discriminação religiosa e étnica, preparação de eleições para uma assembleia constituinte e assim por diante. Reuniam-se no mesmo edifício que o Governo Provisório em formação não para competir com o Comitê da Duma pelo poder estatal, mas para exercer a maior pressão possível sobre o novo governo, atuando, em outras palavras, como um grupo de pressão democrático popular.[28]
A relação entre esses dois grandes poderes foi complexa desde o início e moldaria a política de 1917. Os representantes do Governo Provisório concordaram em "levar em consideração as opiniões do Soviete dos Deputados Operários", mas também estavam determinados a impedir uma interferência que criasse uma situação inaceitável de dualidade de poderes. Na realidade, era precisamente isso que estava sendo criado, embora essa "dualidade de poderes" (dvoyevlastiye) resultasse menos das ações ou atitudes dos dirigentes das duas instituições do que de acontecimentos fora de seu controle, especialmente o movimento social em curso nas ruas das cidades russas, nas fábricas, lojas, casernas, aldeias e trincheiras.[29]

Uma série de crises políticas ocorreu na relação entre o Governo Provisório e os sovietes, que se desenvolveram em um movimento de alcance nacional com uma liderança central. O Comitê Executivo Central de Toda a Rússia dos Sovietes (VTsIK) minou a autoridade do Governo Provisório, mas também a dos dirigentes socialistas moderados dos sovietes. Embora a liderança soviética inicialmente se recusasse a participar do Governo Provisório "burguês", Alexander Kerensky, um jovem advogado popular e membro do Partido Socialista Revolucionário (PSR), concordou em integrar o novo gabinete e se tornou uma figura cada vez mais central no governo, até assumir a chefia do Governo Provisório. Como ministro da Guerra e, posteriormente, primeiro-ministro, Kerensky promoveu a liberdade de expressão, libertou milhares de presos políticos, deu continuidade ao esforço de guerra e chegou a organizar outra ofensiva, que, contudo, não teve mais sucesso do que suas predecessoras. Ainda assim, Kerensky enfrentava vários desafios importantes, evidenciados por soldados, trabalhadores urbanos e camponeses que afirmavam não ter obtido nada com a revolução:
- Outros grupos políticos tentavam enfraquecê-lo.
- Pesadas perdas militares eram sofridas no fronte.
- Os soldados estavam insatisfeitos e desmoralizados e começaram a desertar. (Ao retornarem à Rússia, eram presos ou enviados diretamente de volta ao fronte.)
- Havia enorme descontentamento com a participação da Rússia na guerra, e muitos exigiam seu fim.
- Havia grande escassez de alimentos e suprimentos, difícil de solucionar devido às condições econômicas do período de guerra.
O grupo político que mais problemas causou a Kerensky, e que acabaria por derrubá-lo, foi o Partido Bolchevique, liderado por Lenin. Lenin vivia no exílio na neutra Suíça e, com a democratização da política após a Revolução de Fevereiro, que legalizou partidos políticos antes proibidos, percebeu uma oportunidade para sua revolução marxista. Embora o retorno à Rússia se tivesse tornado possível, a guerra o tornava logisticamente difícil. Por fim, autoridades alemãs organizaram a passagem de Lenin por seu território, esperando que suas atividades enfraquecessem a Rússia ou até que, se os bolcheviques chegassem ao poder, levassem o país a abandonar a guerra. Lenin e seus companheiros, porém, tiveram de concordar em viajar para a Rússia em um trem lacrado: a Alemanha não queria correr o risco de que ele fomentasse uma revolução em território alemão. Depois de atravessar o fronte, chegou a Petrogrado em abril de 1917.
A caminho da Rússia, Lenin preparou as Teses de Abril, que delineavam as principais políticas bolcheviques. Entre elas estavam a exigência de que os sovietes tomassem o poder, sintetizada no lema "todo o poder aos sovietes", e a denúncia dos liberais e socialistas revolucionários do Governo Provisório, com a proibição de cooperação com ele. Muitos bolcheviques, no entanto, haviam apoiado o Governo Provisório, entre eles Lev Kamenev.[30]


Com a chegada de Lenin, a popularidade dos bolcheviques aumentou continuamente. Ao longo da primavera, a insatisfação pública com o Governo Provisório e com a guerra, especialmente entre trabalhadores, soldados e camponeses, empurrou esses grupos em direção a partidos radicais. Apesar do apoio crescente aos bolcheviques, impulsionado por máximas que conclamavam, sobretudo, "todo o poder aos sovietes", o partido detinha muito pouco poder efetivo no Soviete de Petrogrado, dominado por moderados. Historiadores como Sheila Fitzpatrick afirmam que as exortações de Lenin para que o Soviete assumisse o poder pretendiam despertar indignação tanto contra o Governo Provisório, cujas políticas eram vistas como conservadoras, quanto contra os próprios sovietes, considerados submissos ao governo conservador. Segundo outros historiadores, Lenin e seus seguidores não estavam preparados para a maneira como o forte crescimento de seu apoio, especialmente entre grupos influentes de trabalhadores e soldados, se converteria em poder real no verão de 1917.
Em 18 de junho, o Governo Provisório lançou um ataque contra a Alemanha que fracassou de forma desastrosa. Pouco depois, o governo ordenou que soldados fossem ao fronte, descumprindo uma promessa. Eles se recusaram a obedecer às novas ordens. A chegada de marinheiros radicais de Kronstadt – que haviam julgado e executado muitos oficiais, inclusive um almirante – alimentou ainda mais a crescente atmosfera revolucionária. Marinheiros e soldados, ao lado de trabalhadores de Petrogrado, saíram às ruas em protestos violentos, exigindo "todo o poder aos sovietes". A revolta, contudo, foi repudiada por Lenin e pelos dirigentes bolcheviques e se dissipou em poucos dias.[31] Na sequência, Lenin fugiu para a Finlândia sob ameaça de prisão, enquanto Trótski e outros bolcheviques destacados foram presos. As Jornadas de Julho confirmaram a popularidade dos bolcheviques radicais e contrários à guerra, mas sua falta de preparo no momento da revolta foi um erro constrangedor que lhes custou apoio entre seus principais grupos de base: soldados e trabalhadores.
O fracasso bolchevique nas Jornadas de Julho mostrou-se temporário. O partido havia experimentado um crescimento espetacular no número de filiados. Em fevereiro de 1917, os bolcheviques tinham apenas 24 mil membros; em setembro, a facção já contava com 200 mil.[32] Antes em minoria nas duas principais cidades da Rússia – São Petersburgo e Moscou – em relação a mencheviques e socialistas revolucionários, em setembro os bolcheviques já eram maioria em ambas.[32] Além disso, o Escritório Regional de Moscou do partido, controlado pelos bolcheviques, também dominava as organizações partidárias das treze províncias em torno da cidade. Essas treze províncias abrigavam 37% da população russa e 20% dos membros da facção bolchevique.[32]
Em agosto, comunicações deficientes e enganosas levaram o general Lavr Kornilov, recentemente nomeado comandante supremo das forças militares russas, a acreditar que o governo de Petrogrado já havia sido tomado por radicais ou corria sério risco de sê-lo. Em resposta, ordenou o envio de tropas a Petrogrado para pacificar a cidade. Para preservar sua posição, Kerensky teve de pedir auxílio aos bolcheviques. Também buscou ajuda do Soviete de Petrogrado, que convocou Guardas Vermelhos armados para "defender a revolução". O Golpe de Kornilov fracassou em grande parte devido aos esforços dos bolcheviques, cuja influência sobre ferroviários e trabalhadores do telégrafo foi decisiva para impedir o deslocamento das tropas. Com o fracasso do golpe, Kornilov se rendeu e foi destituído. O papel dos bolcheviques na contenção da tentativa de golpe fortaleceu ainda mais sua posição.
No início de setembro, o Soviete de Petrogrado libertou todos os bolcheviques presos, e Trótski tornou-se presidente do órgão. Um número crescente de socialistas e russos das classes baixas passou a ver cada vez menos o governo como uma força que defendia suas necessidades e seus interesses. Os bolcheviques se beneficiaram por serem o único grande partido organizado de oposição que se recusara a chegar a um compromisso com o Governo Provisório e também pela frustração e até repulsa crescentes em relação a outros partidos, como mencheviques e socialistas revolucionários, que teimosamente se recusavam a abandonar a ideia de unidade nacional entre todas as classes.
Na Finlândia, Lenin trabalhou em seu livro O Estado e a Revolução e continuou dirigindo seu partido, escrevendo artigos de jornal e decretos políticos.[33] Em outubro, retornou a Petrogrado, atual São Petersburgo, ciente de que a cidade cada vez mais radicalizada não lhe representava perigo jurídico e lhe oferecia uma segunda oportunidade de revolução. Reconhecendo a força dos bolcheviques, passou a pressionar por uma derrubada imediata do governo Kerensky. Lenin considerava que a tomada do poder deveria ocorrer simultaneamente em São Petersburgo e Moscou, observando entre parênteses que não fazia diferença qual cidade se levantaria primeiro.[34] O Comitê Central Bolchevique redigiu uma resolução que pedia a dissolução do Governo Provisório em favor do Soviete de Petrogrado. A resolução foi aprovada por 10 votos a 2, com Lev Kamenev e Grigori Zinoviev entre os opositores mais destacados, promovendo a Revolução de Outubro.
Revolução de Outubro
[editar | editar código]A Revolução de Outubro, que se desenrolou em 7 de novembro [25 de outubro no calendário juliano] de 1917, foi organizada pelo Partido Bolchevique. Lenin não teve papel direto na execução da revolução e estava escondido por sua própria segurança. Contudo, no fim de outubro, entrou secretamente em Petrogrado, correndo grande risco pessoal, e participou de uma reunião privada do Comitê Central Bolchevique na noite de 23 de outubro.[35] O Comitê Militar Revolucionário criado pelo Partido Bolchevique organizava a insurreição, e Leon Trótski era seu presidente. Cinquenta mil trabalhadores haviam aprovado uma resolução favorável à exigência bolchevique de transferência do poder aos sovietes.[36][37] Lenin, porém, teve papel crucial no debate dentro da liderança bolchevique a favor de uma insurreição revolucionária, quando o partido, no outono de 1917, passou a deter maioria nos sovietes. Uma facção aliada, os Socialistas Revolucionários de Esquerda, que possuíam amplo apoio entre camponeses contrários à participação russa na guerra, apoiava o lema "Todo o poder aos sovietes".[38] A fase inicial da Revolução de Outubro, que envolveu a tomada de Petrogrado, transcorreu em grande parte sem baixas humanas.[39][40][41][falta página]
Forças liberais e monarquistas, vagamente organizadas no Exército Branco, entraram imediatamente em guerra contra o Exército Vermelho dos bolcheviques, em uma série de combates que se tornariam conhecidos como Guerra Civil Russa. A Guerra Civil começou no início de 1918, quando forças antibolcheviques internas enfrentaram o nascente Exército Vermelho. No outono de 1918, os países Aliados precisavam impedir que a Alemanha tivesse acesso aos suprimentos russos. Enviaram tropas para apoiar os "Brancos", além de armas, munições e equipamentos logísticos provenientes dos principais países ocidentais, mas essa ajuda não foi coordenada. A Alemanha não participou da guerra civil, pois se rendeu aos Aliados.[42]
O Governo Provisório, em sua segunda e terceira coalizões, era liderado por uma facção de direita do Partido Socialista Revolucionário (PSR). Esse governo provisório não eleito enfrentou a situação revolucionária e o crescente sentimento contrário à guerra evitando eleições para a Duma Estatal. A Revolução de Outubro, porém, obrigou os partidos políticos que sustentavam o recém-dissolvido Governo Provisório a agir rapidamente em favor de eleições imediatas. Tudo ocorreu com tanta rapidez que a facção de esquerda do PSR não teve tempo de alcançar o eleitorado e ser representada nas cédulas do partido, que integrava a coalizão do Governo Provisório. Esse governo não eleito apoiava a continuação da guerra ao lado das potências Aliadas. Assim, as eleições de 25 de novembro de 1917 não refletiram necessariamente a verdadeira situação política entre os camponeses, ainda que não se saiba qual teria sido o resultado se a ala esquerda e contrária à guerra do PSR tivesse tido oportunidade justa de desafiar os dirigentes partidários. Nas eleições, o Partido Bolchevique recebeu 25% dos votos e os socialistas revolucionários, 58%. É possível que a esquerda do PSR tivesse boas chances de obter mais de 25% dos votos e, assim, legitimar a Revolução de Outubro, mas isso só pode ser objeto de conjectura.
Depois que a maioria do Soviete de Petrogrado passou às mãos dos bolcheviques, [Trótski] foi eleito seu presidente e, nessa condição, organizou e dirigiu a insurreição de 25 de outubro.
Lenin sobre a organização da Revolução de Outubro, vol. XIV das Collected Works.[43]
Lenin não acreditava que uma revolução socialista necessariamente pressupusesse uma economia capitalista plenamente desenvolvida. Um país semicapitalista seria suficiente, e a Rússia possuía uma base de classe trabalhadora equivalente a 5% da população.[44]
Embora Lenin fosse o líder do Partido Bolchevique, argumenta-se que, como ele não estava presente durante a tomada efetiva do Palácio de Inverno, foi na realidade a organização e a direção de Trótski que conduziram a revolução, ainda que impulsionadas pela motivação que Lenin incutira em seu partido. Figuras bolcheviques como Anatóli Lunatcharski, Moisei Uritski e Dmitri Manuilski concordavam que a influência de Lenin sobre o Partido Bolchevique fora decisiva, mas que a insurreição de Outubro ocorreu segundo o plano de Trótski, e não o de Lenin.[45]
Críticos de direita há muito sustentam que a assistência financeira e logística da inteligência alemã, por meio de seu agente-chave Aleksandr Parvus, também foi um componente fundamental, embora os historiadores estejam divididos, pois há poucas evidências em apoio a essa alegação.[46]

A participação nos sovietes era inicialmente definida por eleições livres, mas muitos membros do Partido Socialista Revolucionário, anarquistas e outros grupos de esquerda criaram oposição aos bolcheviques por meio dos próprios sovietes. As eleições para a Assembleia Constituinte Russa ocorreram em 25 de novembro de 1917. Os bolcheviques obtiveram 25% dos votos. Quando ficou claro que tinham pouco apoio fora das áreas industrializadas de São Petersburgo e Moscou, simplesmente impediram os não bolcheviques de participar dos sovietes. Os bolcheviques dissolveram a Assembleia Constituinte em janeiro de 1918.[47][48]
Guerra Civil Russa
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A Revolução de Outubro, liderada pelos bolcheviques, não foi reconhecida por diversos grupos sociais e políticos, entre eles oficiais do exército e cossacos, a "burguesia" e os proprietários de terras, além de grupos políticos que iam da extrema direita aos socialistas moderados, aos socialistas revolucionários e aos mencheviques, que se opunham à drástica reestruturação defendida pelos bolcheviques após o colapso do Governo Provisório.[49]
A Guerra Civil Russa, que eclodiu nos meses seguintes à revolução, provocou a morte e o sofrimento de milhões de pessoas, independentemente de sua orientação política. A guerra foi travada principalmente entre o Exército Vermelho (os "Vermelhos"), composto por bolcheviques e apoiadores dos sovietes, e o Movimento Branco (os "Brancos") e seus Exércitos Brancos frouxamente aliados,[50] liderados sobretudo por oficiais de direita e conservadores[51] do Império Russo e pelos cossacos, com apoio das classes que haviam perdido poder e privilégios com a revolução bolchevique. A Guerra Civil também incluiu conflitos armados com movimentos nacionalistas de independência, luta armada e terrorismo de socialistas e anarquistas antibolcheviques e levantes de camponeses que se organizaram nos chamados "Exércitos Verdes". Embora as posições entre os Brancos russos variassem do monarquismo ao socialismo,[50] em geral eles preferiam o Império Russo à revolução.[52] Eram comumente vistos como restauradores da antiga ordem, pois combatiam os movimentos das nacionalidades não russas em favor de uma "Rússia indivisível", opunham-se à reforma agrária e defendiam os direitos de propriedade das classes superiores. Os socialistas que se opunham às duas facções viam o governo dos Brancos, uma ditadura militar chefiada por Alexandr Kolchak[53][54][55] e pelos comandantes das forças brancas, como uma ditadura de direita. Os Brancos russos receberam apoio de países como Reino Unido, França, Estados Unidos e Japão, enquanto os Vermelhos dispunham de apoio interno e se mostraram muito mais eficazes. Embora os Aliados tenham fornecido substancial ajuda militar aos Brancos por meio de intervenção externa, estes acabaram derrotados.[50]
Os bolcheviques assumiram o poder inicialmente em Petrogrado e expandiram seu domínio para outras regiões. Quatro anos após o início da guerra, chegaram à costa russa da Sibéria oriental, em Vladivostoque, ocupação considerada o fim de todas as grandes campanhas militares no país. Menos de um ano depois, a última área controlada pelo Exército Branco, o distrito de Ayano-Maysky, diretamente ao norte do krai que contém Vladivostoque, foi abandonada quando o general Anatoly Pepelyayev capitulou em 1923.
Várias revoltas foram iniciadas contra os bolcheviques e seu exército perto do fim da guerra, sobretudo a Revolta de Kronstadt. Tratou-se de um motim naval organizado por marinheiros soviéticos do Báltico, ex-soldados do Exército Vermelho e habitantes de Kronstadt. O levante armado voltou-se contra as políticas econômicas bolcheviques impostas aos agricultores, entre elas a apreensão de colheitas de cereais pelos comunistas.[56] Tudo isso resultou em descontentamento em grande escala. Quando delegados dos marinheiros de Kronstadt chegaram a Petrogrado para negociações, apresentaram quinze reivindicações relacionadas principalmente ao direito dos russos à liberdade. O governo condenou firmemente as revoltas e caracterizou as reivindicações como uma lembrança dos socialistas revolucionários, partido político popular nos sovietes antes de Lenin, mas que se recusara a cooperar com o Exército Bolchevique. Em seguida, respondeu com repressão armada e sofreu dez mil baixas antes de entrar na cidade de Kronstadt.[57] Isso encerrou as revoltas com relativa rapidez e levou muitos rebeldes a fugir em busca de exílio político.[58]
Durante a Guerra Civil, Nestor Makhno liderou um movimento anarquista ucraniano. O Exército Insurgente de Makhno aliou-se aos bolcheviques três vezes, e em cada ocasião uma das partes rompeu a aliança. No entanto, uma força bolchevique sob Mikhail Frunze destruiu a Makhnovtchina quando os makhnovistas se recusaram a se incorporar ao Exército Vermelho. Além disso, o chamado "Exército Verde", composto por camponeses que defendiam suas propriedades contra as forças rivais, desempenhou papel secundário na guerra, principalmente na Ucrânia.
Tribunais revolucionários
[editar | editar código]Tribunais revolucionários funcionaram durante a Revolução e a Guerra Civil com o objetivo de combater forças da contrarrevolução. No auge da Guerra Civil, estima-se que mais de 200 mil casos tenham sido investigados por cerca de 200 tribunais.[59] Em comparação com a Tcheka, esses tribunais se apresentavam como uma força mais moderada, atuando sob a bandeira da justiça revolucionária em vez de empregar a força bruta rigorosa utilizada pela polícia secreta. Ainda assim, tinham suas próprias ineficiências, como levar meses para responder a casos e não possuir uma definição concreta de "contrarrevolução", decidida caso a caso.[59] O "Decreto sobre os Tribunais Revolucionários", utilizado pelo Comissário do Povo para a Justiça, determina no artigo 2.º: "Ao fixar a pena, o Tribunal Revolucionário deverá orientar-se pelas circunstâncias do caso e pelos ditames da consciência revolucionária".[60] Em última análise, os tribunais revolucionários demonstraram que alguma forma de justiça continuava presente na sociedade russa onde o Governo Provisório Russo havia fracassado. Isso, em parte, desencadeou a transição política da Revolução de Outubro e a Guerra Civil que se seguiu.
Assassinato da família imperial
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Os bolcheviques assassinaram o czar e sua família em 16 de julho de 1918.[61] No início de março de 1917, o Governo Provisório havia colocado Nicolau e sua família em prisão domiciliar no Palácio de Alexandre, em Tsarskoye Selo, 24 km ao sul de Petrogrado. Em agosto de 1917, porém, os Romanov foram evacuados para Tobolsk, nos Montes Urais, a fim de protegê-los da crescente maré revolucionária. Depois que os bolcheviques chegaram ao poder, em outubro de 1917, as condições de prisão tornaram-se mais rigorosas e cresceram as discussões sobre levar Nicolau a julgamento. Em abril e maio de 1918, com a aproximação da guerra civil, os bolcheviques transferiram a família para a fortaleza de Ecaterimburgo.
Na madrugada de 16 de julho, Nicolau, Alexandra, seus filhos, o médico da família e vários criados foram levados ao porão e fuzilados. Segundo Edvard Radzinsky e Dmitrii Volkogonov, a ordem teria vindo diretamente de Lenin e Yakov Sverdlov, em Moscou. Essa alegação, porém, nunca foi confirmada. O assassinato pode ter sido realizado por iniciativa de autoridades bolcheviques locais ou ter sido uma opção previamente aprovada em Moscou, já que tropas brancas se aproximavam rapidamente de Ecaterimburgo. Radzinsky observou que o guarda-costas de Lenin entregou pessoalmente o telegrama que ordenava a execução e recebeu ordens de destruir as provas.[62][63]
Simbolismo
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A Revolução Russa tornou-se palco de numerosos exemplos de simbolismo, tanto físicos quanto não físicos. A simbologia comunista é talvez um dos exemplos mais marcantes do período, como a adoção da foice e do martelo como representação do movimento revolucionário e, posteriormente, como símbolo oficial da União Soviética a partir de 1922. A utilização de símbolos, imagens e cerimônias políticas desempenhou papel importante na construção da cultura política soviética. Alguns estudiosos, como Harald Wydra, analisam determinados aspectos dessa cultura política a partir do conceito de messianismo político, destacando a dimensão simbólica e as expectativas de transformação social associadas à revolução.[64] Figuras revolucionárias, como Lenin, também foram representadas por meio de métodos iconográficos que, segundo essa perspectiva, apresentavam algumas características semelhantes às formas tradicionais de representação religiosa.[64] Esse processo ocorreu paralelamente à política de ateísmo estatal e aos períodos de intensa repressão às instituições religiosas na União Soviética, incluindo a Igreja Ortodoxa Russa.
A revolução e o mundo
[editar | editar código]A revolução acabou levando ao estabelecimento da futura União Soviética como uma ideocracia; entretanto, a criação de tal Estado constituía um paradoxo ideológico, pois os ideais de Marx sobre como um Estado socialista deveria surgir se baseavam em uma formação natural e não artificialmente provocada, isto é, por meio de uma revolução.[65] Leon Trótski afirmou que o objetivo do socialismo na Rússia não seria realizado sem o êxito da revolução mundial. Uma onda revolucionária provocada pela Revolução Russa durou até 1923, mas, apesar das esperanças iniciais de sucesso na Revolução Alemã de 1918-1919, na breve República Soviética Húngara e em experiências semelhantes, apenas a Revolução Mongol de 1921 viu, naquele período, um movimento marxista conseguir manter o poder.
A questão é objeto de visões conflitantes sobre a história comunista entre diferentes grupos e partidos marxistas. Josef Stalin posteriormente rejeitou esse conceito, afirmando que o socialismo era possível em um único país. A confusão sobre a posição de Stalin decorre do fato de que, após a morte de Lenin em 1924, ele utilizou com sucesso o argumento de Lenin – de que o êxito do socialismo precisava do apoio dos trabalhadores de outros países – para derrotar seus concorrentes dentro do partido, acusando-os de trair Lenin e, consequentemente, os ideais da Revolução de Outubro.
A Revolução Russa foi percebida como uma ruptura com o imperialismo por diversos movimentos de direitos civis e de descolonização, além de abrir espaço para grupos oprimidos em todo o mundo. Essa percepção ganhou força com o apoio financeiro da União Soviética a muitos movimentos anticoloniais do Terceiro Mundo contra potências coloniais europeias.[66]
Historiografia
[editar | editar código]Poucos acontecimentos na pesquisa histórica foram tão condicionados por influências políticas quanto a Revolução de Outubro. A historiografia da Revolução costuma ser dividida em três escolas de pensamento: a visão soviético-marxista (marxista-leninista), a visão ocidental "totalitária" e a visão "revisionista".[67] Os historiadores "totalitários" também são chamados de "tradicionalistas" e "historiadores da Guerra Fria" por se basearem em interpretações enraizadas nos primeiros anos da Guerra Fria e descritas como uma orientação conservadora. Os revisionistas ocidentais não possuíam uma doutrina ou filosofia da história plenamente desenvolvida, mas se distinguiram nas décadas de 1960 e 1970 por criticar o viés "tradicionalista" em relação à União Soviética e à esquerda em geral e por enfatizar a "história vista de baixo" e perspectivas sociais. Enquanto os historiadores "totalitários" descreviam a revolução bolchevique como um golpe realizado por uma minoria que transformou a Rússia em uma ditadura totalitária, os "revisionistas" rejeitavam essa descrição e destacavam o caráter genuinamente "popular" da Revolução. Desde as Revoluções de 1989 e a dissolução da União Soviética, em 1991, a visão ocidental-totalitária voltou a predominar, e a interpretação soviético-marxista praticamente desapareceu da análise política dominante. Os revisionistas obtiveram algum sucesso em desafiar os tradicionalistas e passaram a ser aceitos nos meios acadêmicos, enquanto os historiadores totalitários conservaram popularidade e influência na política e na esfera pública.[68][69][70]
Após a morte de Vladimir Lenin, o governo bolchevique mergulhou em uma crise. Lenin não indicara quem seria seu sucessor nem como ele deveria ser escolhido. Eclodiu uma disputa de poder dentro do partido entre Leon Trótski e seus adversários. Trótski foi derrotado pelo bloco antitrotskista em meados da década de 1920, frustrando suas esperanças de liderar o partido. Entre seus oponentes, Josef Stalin ascendeu até assumir uma liderança partidária incontestada em 1928. Em 1927, Trótski foi expulso do partido e, em 1929, perdeu a cidadania e foi enviado ao exílio. Durante o exílio, aprofundou sua própria interpretação do marxismo, denominada trotskismo. O cisma entre Trótski e Stalin constitui o ponto central a partir do qual surge a visão revisionista. Trótski viajou pelo mundo denunciando Stalin e a União Soviética sob sua liderança. Concentrou suas críticas especialmente na doutrina stalinista do socialismo em um só país, que considerava incompatível com a ideologia da revolução.[71] Por fim, estabeleceu-se na Cidade do México, onde criou uma base de operações para si e seus apoiadores.[72] Em 1937, no auge do Grande Expurgo, publicou A Revolução Traída, obra em que expôs suas divergências ideológicas com Stalin e acusou-o de subverter e degradar a revolução de 1917. Continuou a criticar publicamente Stalin e o stalinismo até ser assassinado em 1940, por ordem de Stalin.
A interpretação soviético-marxista sustenta que a Revolução Russa sob os bolcheviques foi um esforço orgulhoso e glorioso da classe trabalhadora, que retirou o czar, a nobreza e os capitalistas de posições de poder. Os bolcheviques e, posteriormente, o Partido Comunista deram os primeiros passos na libertação do proletariado e na construção de um Estado operário que praticasse a igualdade. Fora da Europa Oriental, essa visão foi fortemente criticada porque, após a morte de Lenin, a União Soviética tornou-se mais autoritária. Embora a União Soviética não exista mais, a visão soviético-marxista ainda é utilizada como interpretação no meio acadêmico. Tanto estudiosos quanto apoiadores soviéticos argumentam que ela é sustentada por diversos acontecimentos. Em primeiro lugar, a RSFSR promoveu avanços substanciais nos direitos das mulheres. Foi o primeiro país a descriminalizar o aborto e permitiu que mulheres recebessem educação, o que era proibido sob o czar.[73] Além disso, a RSFSR descriminalizou relações homossexuais entre adultos consentindo, medida considerada radical para a época.[74] O governo bolchevique também recrutou ativamente cidadãos da classe trabalhadora para cargos de liderança partidária, garantindo assim a representação do proletariado na formulação de políticas.[75] Um dos aspectos mais importantes dessa interpretação foi a vitória bolchevique na Guerra Civil Russa.[76] Em teoria, os bolcheviques deveriam ter sido derrotados, em parte devido ao amplo apoio internacional recebido por seus inimigos. Grã-Bretanha, França, Estados Unidos, Japão e outros países enviaram ajuda ao Exército Branco e forças expedicionárias contra os bolcheviques.[77] Os bolcheviques estavam ainda em desvantagem devido a fatores como a pequena extensão territorial sob seu controle, a falta de oficiais profissionais e a escassez de suprimentos. Apesar disso, o Exército Vermelho prevaleceu. Ao contrário de muitas facções brancas, manteve moral elevado entre tropas e civis durante toda a guerra civil.[78] Isso se deveu em parte ao uso habilidoso da propaganda. A propaganda bolchevique retratava o Exército Vermelho como libertador e protetor dos pobres e oprimidos.[79] O apoio aos bolcheviques também aumentou com as iniciativas de Lenin de distribuir terras aos camponeses e encerrar a guerra com a Alemanha. Durante a guerra civil, os bolcheviques conseguiram mobilizar um exército de cerca de cinco milhões de soldados ativos. O apoio interno e o patriotismo desempenharam papel decisivo na Guerra Civil Russa. Em 1923, os bolcheviques haviam controlado os últimos redutos do Exército Branco, e a guerra terminou com uma vitória bolchevique. Essa vitória influenciou a maneira como a União Soviética interpretou sua própria ideologia e a própria Revolução de Outubro. A partir de 1919, os soviéticos passaram a comemorar o acontecimento com um desfile militar e um feriado público. A tradição perdurou até o colapso da União Soviética. Com o tempo, a interpretação soviético-marxista desenvolveu uma versão antistalinista. Esta subseção procura distinguir o "período Lenin" (1917–24) do "período Stalin" (1928–53).[80]
Nikita Khrushchov, sucessor de Stalin, argumentou em seu Discurso Secreto, proferido em 1956, que o regime stalinista diferia profundamente da liderança de Lenin. Criticou o culto ao indivíduo construído em torno de Stalin, enquanto Lenin enfatizava "o papel do povo como criador da história".[81] Khrushchov também destacou que Lenin favorecia uma liderança coletiva, baseada na persuasão pessoal, e recomendara a remoção de Stalin do cargo de secretário-geral. Contrastou isso com o "despotismo" de Stalin, que exigia submissão absoluta à sua posição, e observou que muitas das pessoas posteriormente eliminadas como "inimigos do partido" "haviam trabalhado com Lenin durante sua vida".[81] Também contrapôs os "métodos severos" empregados por Lenin nos "casos mais necessários", como uma "luta pela sobrevivência" durante a Guerra Civil, aos métodos extremos e às repressões em massa utilizados por Stalin mesmo quando a Revolução "já era vitoriosa".[81]
As opiniões no Ocidente eram divididas. Socialistas e organizações trabalhistas tendiam a apoiar a Revolução de Outubro e a tomada do poder pelos bolcheviques; por outro lado, governos ocidentais ficaram alarmados.[82] Dirigentes ocidentais e, mais tarde, alguns acadêmicos concluíram que a Revolução Russa apenas substituíra uma forma de tirania, o czarismo, por outra, o comunismo.[83] Inicialmente, os bolcheviques toleravam facções políticas opositoras. Depois de tomar o poder estatal, organizaram um parlamento, a Assembleia Constituinte Russa. Em 25 de novembro, foi realizada uma eleição. Apesar de terem derrubado o Governo Provisório e organizado a assembleia, os bolcheviques perderam o pleito. Em vez de governar em coalizão, proibiram toda a oposição política. Historiadores apontam esse episódio como o início do autoritarismo comunista.[47] O historiador conservador Robert Service afirma que Lenin "ajudou a lançar as bases da ditadura e da ilegalidade. Consolidou o princípio da penetração do Estado em toda a sociedade, sua economia e sua cultura. Lenin praticou o terror e defendeu o amoralismo revolucionário".[84] Lenin permitia certo grau de divergência e debate, mas apenas nos órgãos superiores do Partido Bolchevique, praticando o centralismo democrático. A RSFSR e, posteriormente, a União Soviética continuaram a praticar repressão política até a dissolução do país em 1991.
Teóricos trotskistas contestaram a ideia de que um Estado de partido único tenha sido uma consequência natural das ações bolcheviques.[85] George Novack destacou os esforços iniciais dos bolcheviques para formar um governo com os Socialistas Revolucionários de Esquerda e legalizar politicamente outros partidos, como os mencheviques.[86] Tony Cliff argumentou que o governo de coalizão entre bolcheviques e socialistas revolucionários de esquerda dissolveu a Assembleia Constituinte por diversos motivos. Citou os cadastros eleitorais desatualizados, que não refletiam a cisão do Partido Socialista Revolucionário, e o conflito da assembleia com o Congresso dos Sovietes como estrutura democrática alternativa.[87] O historiador trotskista Vadim Rogovin acreditava que o stalinismo havia "desacreditado a ideia do socialismo aos olhos de milhões de pessoas em todo o mundo". Rogovin também argumentava que a Oposição de Esquerda, liderada por Leon Trótski, era um movimento político "que oferecia uma alternativa real ao stalinismo, e que esmagar esse movimento foi a principal função do terror stalinista".[88]
Representações culturais
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Literatura
[editar | editar código]- The Twelve (1918), do poeta simbolista Aleksandr Blok, e Mystery-Bouffe (1918) e 150 000 000, do poeta futurista Vladimir Maiakovski, estiveram entre as primeiras respostas poéticas à Revolução.
- The White Guard, de Mikhail Bulgákov (1925), romance parcialmente autobiográfico, retrata a vida de uma família dilacerada pela incerteza dos tempos da Guerra Civil; seu romance curto Heart of a Dog (1925) foi interpretado como uma alegoria satírica da Revolução.
- The Life of Klim Samgin (1927–1936), de Máximo Gorki, romance de reputação controversa por vezes descrito como exemplo da literatura modernista, retrata o declínio da intelligentsia russa desde o início da década de 1870 até a Revolução, visto por um intelectual de classe média ao longo de sua vida.
- Chevengur (1929), de Andrei Platonov, retrata a Revolução e a Guerra Civil de modo grotesco, na forma de uma parábola modernista,[89] como uma luta entre a utopia e a distopia que confunde ambas e que se associa aos motivos da morte e do apocalipse.[90]
- O romance Quiet Flows the Don, de Mikhail Sholokhov (1928–1940), descreve a vida dos Cossacos do Dom durante a Primeira Guerra Mundial, a Revolução e a Guerra Civil.
- A clássica novela Animal Farm (1945), de George Orwell, é uma alegoria da Revolução Russa e de suas consequências. Ela retrata o ditador Josef Stalin como um grande javali Berkshire chamado "Napoleão". Trótski é representado por um porco chamado Bola de Neve, orador brilhante que faz discursos magníficos. Napoleão, porém, derruba Bola de Neve assim como Stalin derrubou Trótski e assume o controle da fazenda onde vivem os animais. Torna-se um tirano e usa força e propaganda para oprimir os animais, enquanto os ensina culturalmente que são livres.[91]
- Doutor Jivago (1957), de Boris Pasternak, descreve o destino da intelligentsia russa; os acontecimentos se passam entre a Revolução de 1905 e a Segunda Guerra Mundial.
- The Red Wheel (1984–1991), de Alexander Soljenítsin, é um ciclo de romances que descreve a queda do Império Russo e o estabelecimento da União Soviética.
Cinema
[editar | editar código]A Revolução Russa foi retratada ou serviu de pano de fundo para muitos filmes. Entre eles, em ordem de lançamento:[92]
- O fim de São Petersburgo. 1927. Dirigido por Vsevolod Pudovkin e Mikhail Doller, União Soviética.
- Outubro: Dez Dias que Abalaram o Mundo. 1927. Dirigido por Serguei Eisenstein e Grigori Aleksandrov. União Soviética. Preto e branco. Mudo.
- Scarlet Dawn, drama romântico americano pre-code de 1932, estrelado por Douglas Fairbanks Jr. e Nancy Carroll, cujos personagens são envolvidos pelas consequências da Revolução Russa.
- Knight Without Armour. 1937. Drama histórico britânico estrelado por Marlene Dietrich e Robert Donat, com Dietrich no papel de uma aristocrata ameaçada às vésperas da Revolução Russa.
- Lenin in 1918. 1939. Dirigido por Mikhail Romm, E. Aron e I. Simkov. Filme histórico-revolucionário sobre as atividades de Lenin nos primeiros anos do poder soviético.
- Doutor Jivago. 1965. Filme de drama, romance e guerra dirigido por David Lean, filmado na Europa com elenco majoritariamente europeu e livremente baseado no famoso romance homônimo de Boris Pasternak.
- Reds. 1981. Dirigido por Warren Beatty, é baseado no livro Ten Days that Shook the World.
- Anastasia. 1997. Longa-metragem de animação americano dirigido por Don Bluth e Gary Goldman.
Ver também
[editar | editar código]Notas explicativas
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Referências
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Leitura adicional
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- Brenton, Tony, ed. (2017). Was revolution inevitable? turning points of the Russian Revolution. New York: Oxford University Press. ISBN 978-0-1906-5891-5
- Lieven, Dominic, ed. (2006). The Cambridge history of Russia. 2: Imperial Russia, 1689-1917. Cambridge (GB): Cambridge University Press. ISBN 978-0-5218-1529-1
- Suny, Ronald Grigor, ed. (2006). The Cambridge history of Russia. 3: The Twentieth Century. Cambridge (GB): Cambridge University Press. ISBN 978-0-5218-1144-6
- Chamberlin, William Henry (1935). The Russian revolution, 1917-1921. 1. 1917-1918: From the overthrow of the Czar to the assumption of power by the Bolsheviks. New York: Grosset & Dunlap. ISBN 978-0-4480-0189-0. OCLC 1151177013
- —— (1957). The Russian revolution, 1917-1921. 2. 1918-1921: From the civil war to the consolidation of power. New York: Grosset & Dunlap. OCLC 1151163731
- Daly, Jonathan W.; Trofimov, Leonid (2009). Russia in war and revolution, 1914-1922: a documentary history. Indianapolis (Ind.): Hackett Publishing. ISBN 978-0-8722-0987-9
- Fitzpatrick, Sheila (2017). The Russian Revolution 4th ed. Oxford: Oxford University Press. ISBN 978-0-1988-0670-7
- Lincoln, W. Bruce (1986). Passage through Armageddon: The Russians in war and revolution 1914-1918. Col: Oxford paperbacks. New York: Simon & Schuster. ISBN 978-0-6715-5709-6
- Marples, David R. (2014). Lenin's Revolution: Russia, 1917-1921. Col: Seminar studies in history. Oxfordshire: Routledge. ISBN 978-1-3178-8259-6
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Historiografia
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- Volkogonov, D. A.; Shukman, Harold (1994). Lenin: a new biography. Traduzido por Shukman, Harold. New York: Free Press. ISBN 978-0-0293-3435-5
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- Warth, Robert D. (junho de 1967). «On the Historiography of the Russian Revolution». Slavic Review. 26 (2): 247–264. ISSN 0037-6779. JSTOR 2492453. doi:10.2307/2492453
Relatos de participantes
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- —— (1982). Ten days that shook the world. New York: International Publishers. ISBN 978-0-7178-0200-5
- Serge, Victor (1972). Year one of the Russian revolution. Traduzido por Sedgwick, Peter. London: Holt, Rinehart, and Winston. ISBN 978-0-7139-0135-1. OCLC 489470. Cópia arquivada em 6 de março de 2026
- Steinberg, Mark D.; Schwartz, Marian; Peregudova, Zinaida Ivanovna; Tiutiunnik, Liubov (2001). Voices of revolution, 1917. Col: Annals of communism. New Haven, Conn.: Yale University Press. ISBN 978-0-3000-9016-1
- Trockij, Lev Davidovič (1992). The history of the Russian revolution. Traduzido por Eastman, Max 3rd ed. New York: Pathfinder Press. ISBN 978-0-9134-6083-2. Cópia arquivada em 1 de agosto de 2026
Fontes primárias
[editar | editar código]- Ascher, Abraham, ed. (1976). The Mensheviks in the Russian Revolution. Col: Documents of revolution. Ithaca, NY: Cornell University Press. ISBN 978-0-8014-0989-9
- Bunyan, James; Fisher, Harold H.; Golder, Frank Albert, eds. (1934). The Bolshevik Revolution, 1917–1918: Documents and Materials. Stanford; London: Stanford University Press; H. Milford; Oxford University Press. LCCN 34035285. OCLC 2521770. OL OL6312935M Verifique
|ol=(ajuda) - Daly, Jonathan W.; Trofimov, Leonid, eds. (2009). Russia in war and revolution, 1914-1922: a documentary history. Indianapolis: Hackett Publishing Company. ISBN 978-0-8722-0987-9 Inclui cartas privadas, editoriais de imprensa, decretos governamentais, diários, tratados filosóficos, obras literárias e memórias.
- Golder, Frank Alfred, ed. (1927). Documents of Russian history, 1914-1917. Traduzido por Aronsberg, Emanuel. New York: The Century Company. OCLC 2672434
- Miller, Martin A., ed. (2001). The Russian revolution: the essential readings. Col: Blackwell essential readings in history. Malden, MA: Blackwell Publishers. ISBN 978-0-6312-1638-4
- Zeman, Z. A. B., ed. (1958). Germany and the Revolution in Russia, 1915-1918; documents from the Archives of the German Foreign Ministry. London: Oxford University Press. OCLC 1465338736





