Unificação do Iêmen

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Desenho mostrando a reunificação iemenita.

A Unificação do Iêmen ocorreu no dia 22 de maio de 1990, quando os territórios da República Democrática Popular do Iêmen (Iêmen do Sul) e da República Árabe do Iêmen (Iêmen do Norte) foram unificados, formando a República do Iémen. Este episódio marca o fim da Guerra Fria no mundo árabe, enquanto na Europa ocorria gradualmente a queda do Bloco do Leste.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Ao contrário da Alemanha Oriental e Alemanha Ocidental ou da Coréia do Norte e Coréia do Sul, as repúblicas do Iêmen do Norte e Iêmen do Sul mantinham uma relação relativamente amistosa e próxima, embora muitas vezes as relações tenham sido tensas. Também ao contrário dos Estados coreanos e alemães, os dois estados iemitas não foram formados depois de uma guerra civil ou por ocupação militar.

O Iêmen do Norte se tornou um Estado independente, o Reino do Iêmen, após o colapso do Império Otomano, no fim da Primeira Guerra Mundial, em novembro de 1918, enquanto que o Iêmen do Sul, ainda naquela época, era uma colônia britânica.

No Iêmen do Norte, após uma guerra civil, estabeleceu-se a República Árabe do Iémen, que incluía representantes tribais e que desfrutava de modestos rendimentos do petróleo, bem como das remessas de seus cidadãos que trabalhavam nas nações do Golfo, ricas em petróleo. A população do país, em 1980, foi estimada em 12 milhões, contra 3 milhões no Iêmen do Sul.[1]

Em 1967, após uma insurgência no Iêmen do Sul, liderada por dois partidos nacionalistas, o Reino Unido retirou-se de sua antiga colônia e concedeu-lhe a independência. Estabeleceu-se então um governo marxista e predominantemente secular,[2] governado pela Frente de Libertação Nacional (posteriormente transformado em Partido Socialista do Iêmen). O partido instaura o único regime comunista no Oriente Médio, com ajuda econômica e militar da União Soviética, ao fundar, em 1970, a República Democrática Popular do Iêmen.[3]

Iêmen do Norte (em laranja) e Iêmen do Sul (em azul) antes de 1990.

Em 1972, foi anunciado que a unificação viria a ocorrer, após a celebração de um acordo. O objetivo de unificação foi reafirmado pelos chefes de Estado do norte e do sul, durante uma reunião de cúpula no Kuwait, em março de 1979. No entanto, esses planos foram suspensos no mesmo ano, uma vez que a Arábia Saudita fomentou uma guerra entre os dois Estados. Forças do Iêmen do Sul penetraram na República Árabe do Iêmen e, após um mês de combates, ambas as partes aceitaram a mediação da Liga Árabe. Dois anos depois, iniciaram conversações com vistas à unificação. Assim, em 28 de outubro de 1972 pelo Acordo do Cairo estabeleceu-se um plano para unificar os dois países.[4] [5]

Os combates eclodiram novamente em fevereiro e março de 1979, com o Iêmen do Sul supostamente fornecendo ajuda aos rebeldes do norte, através da Frente Democrática Nacional, e cruzando as fronteiras. [6] As forças do sul tomaram até a cidade de Taizz antes de se retirar.[7] [8] Este conflito também foi de curta duração.[9]

Na década de 1980, a exploração de petróleo perto da fronteira entre as duas nações, em Marib, no Iêmen do Norte, e em Shabwah, no Iêmen do Sul, estimularam o interesse em acordos para explorar os recursos da região e incrementar as economias de ambas as nações.[10] As negociações começaram em 1981, porém a República Árabe do Iêmen (Iêmen do Norte) acusava o vizinho do sul de financiar e armar as forças guerrilheiras de esquerda da Frente Nacional Democrática, que operava em seu território. Na República Democrática Popular do Iêmen desencadeou-se em 1986 uma luta entre facções que provocou mais de duas mil mortes e a destituição do presidente Ali Nasir Mohamed Husani. No fim da década de 1980, sob o impacto da liberalização soviética, o Iêmen do Sul renuncia ao comunismo e inicia diálogo com o Iêmen do Norte.

Em maio de 1988, os dois governos chegam a um entendimento que reduziu consideravelmente as tensões, incluindo acordos para renovar as discussões sobre a unificação, estabelecer uma zona de exploração conjunta de petróleo ao longo da fronteira indefinida, agora chamada de Área de Investimento Conjunto pela Hunt Oil e Exxon.[11] Em maio de 1988, formaram a Companhia Iemenita de Investimento em Recursos Minerais e Petróleo (YCIMOR).[12] Em novembro de 1989, Ali Abdullah Saleh, do Iêmen do Norte, e Ali Salim al-Baidh, do Iêmen do Sul, aceitaram conjuntamente um projeto de constituição única, originalmente elaborado em 1981, que incluía a desmilitarização da fronteira, com a livre circulação dos cidadãos iemenitas sem a necessidade de passaporte, bastando apenas a carteira de identidade. Na mesma ocasião, Sanaa foi designada como a capital do Iêmen unificado.

Unificação[editar | editar código-fonte]

Iêmen unificado.

A República do Iêmen foi declarada em 22 de maio de 1990. Ali Abdullah Saleh do norte tornou-se Chefe de Estado, e Ali Salim al-Beidh tornou-se Chefe do Governo. Um período de 30 meses de transição para a conclusão da unificação dos dois sistemas políticos e econômicos foi definido. Um conselho presidencial foi eleito em conjunto composto de 26 membros do conselho consultivo da República Árabe do Iêmen e 17 membros do presidium da República Democrática Popular do Iêmen. O conselho presidencial nomeou um primeiro-ministro, que formou um gabinete. Houve também 301 assentos provisório do parlamento unificado, composto por 159 membros provenientes do norte, 111 membros do sul, e 31 membros independentes nomeados pelo presidente do conselho.

A constituição de unidade foi acordada em maio de 1990 e ratificada pela população em maio de 1991. Confirmou também o compromisso do Iêmen para eleições livres, um sistema político multipartidário, o direito à propriedade privada, igualdade perante a lei, e o respeito dos direitos humanos fundamentais. As eleições legislativas foram realizadas em 27 de abril de 1993. Os grupos internacionais auxiliaram na organização das eleições e observação da votação real. O novo parlamento representava fortemente o Norte. O Partido Socialista Iemenita, embora tivesse ganho a maioria dos assentos em votação nas regiões menos povoadas do sul, foi considerado uma pequena parte do novo governo de coalizão.[13] O chefe da Islaah, Abdullah ibn Husayn al-Ahmar, tornou-se o presidente do Parlamento. O Islaah foi convidado para a coalizão governista, e o conselho presidencial foi alterado para incluir um membro do Islaah.

Como um novo campo de petróleo foi colocado em linha no Governorato de Hadhramaut, no sul, os sulistas começaram a sentir que a sua terra, o lar da maioria das reservas de petróleo do país, foi ilegalmente apropriada como parte de uma conspiração planejada pelos governantes do Iêmen do Norte.[14] [15] [16]

Finalmente, a nação recém-unificada enfrentou uma crise política quando cerca de 800.000 iemenitas e trabalhadores do exterior foram enviados para casa pela Arábia Saudita, após a decisão do Iêmen de não apoiar as forças da coalizão na Guerra do Golfo. As remessas destes trabalhadores, uma parte importante da economia, foram cortadas e muitos iemenitas foram colocados em campos de refugiados, enquanto o governo decidia onde abrigá-los e como reintegrá-los no mercado de trabalho. O repatriamento destes iemenitas imediatamente aumentou a população do país em 7%.[17] [18]

Guerra Civil[editar | editar código-fonte]

O Congresso Geral do Povo (GPC), partido do presidente Saleh, obtém maioria nas eleições legislativas. Entretanto, a permanência de Saleh não agrada aos sul-iemenitas o que conduz a deterioração das relações entre os unionistas e os marxistas. Em maio de 1994, os separatistas do sul iniciam uma guerra civil com o objetivo de separar-se novamente; os líderes sul-iemenitas proclamaram o estabelecimento da República Democrática do Iêmen, liderada por Haydar Abu Bakr Al-Attas, um Estado que não foi reconhecido por nenhum país da comunidade internacional, correspondente ao território do extinto Iêmen do Sul. Os sul-iemenitas foram apoiados pela Arábia Saudita que estava preocupada com suas fronteiras com o Iêmen unificado [19] enquanto os Estados Unidos repetidamente exigiam um cessar-fogo, sem sucesso. A guerra terminou em 7 de julho de 1994, quando o exército iemenita assume o controle de todo o país. O equilíbrio é particularmente pesado: de 7 000 a 10 000 mortes de acordo com fontes[20] . Os combatentes (vários milhares) e os líderes sulistas foram forçados ao exílio. Se esta guerra marcou a eventual reunificação dos dois estados, no entanto, o país teve de enfrentar numerosas reconstruções, após os danos causados ​​pela guerra. Saleh, concomitantemente, reforça sua posição política em setembro com emendas à Constituição que diminuem o poder do antigo Iêmen do Sul. A lei islâmica torna-se a base de toda a legislação.

Pós unificação[editar | editar código-fonte]

As primeiras eleições presidenciais ocorreram em 23 de setembro de 1999 e viram o ex-presidente do Iêmen do Norte, Ali Abdullah Saleh, ser eleito com 96,3% dos votos[21] . Emendas constitucionais adotadas no verão de 2000 estenderam o mandato presidencial de 2 anos, movendo, assim, as próximas eleições presidenciais para 2006. O Iêmen passa a ser um Estado de partido dominante com o Congresso Geral do Povo no poder.

Em 2010, os problemas ainda continuam, em que alguns vêem como um tratamento injusto do Norte[22] . Em 2007, um novo movimento, o Movimento do Iêmen do Sul (também chamado de Movimento Pacífico do Sul ou Movimento Separatista do Sul) é criado, exigindo o retorno de um Estado independente no sul, e passando a atacar as forças do governo.[23] Em 22 de maio de 2010, o Iêmen celebra o 20 º aniversário da reunificação do país[24] .

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Jonsson, Gabriel, Towards Korean reconciliation: socio-cultural exchanges and cooperation. Ashgate Publishing, Ltd., 2006, pp 38-48
  2. Laessing, Ulf, Women of southern Yemen port remember better times Reuters, January 22, 2010
  3. Gart, Murray, South Yemen New Thinking in a Marxist Land, Time, January 09, 1989
  4. CIA Study on Yemeni Unification
  5. Gause, Gregory, Saudi-Yemeni relations: domestic structures and foreign influence, Columbia University Press, 1990, page 98
  6. Hermann, Richard, Perceptions and behavior in Soviet foreign policy, University of Pittsburgh Pre, 1985, page 152
  7. Hoagland, Edward, Balancing Acts,Globe Pequot, 1999, page 218
  8. Interview with Al-Hamdani Middle East Research and Information Reports, February 1985
  9. Burrowes, Robert, Middle East dilemma: the politics and economics of Arab integration, Columbia University Press, 1999, pages 187 to 210
  10. Whitaker, Brian, The Birth of Modern Yemen, e-book available at Al-Bab, 1979
  11. CIA, page 3
  12. Ismael, Sharif, Unification in Yemen: Dynamics of Political Integration, Thesis paper written for Wadhamn College, 2001, page 24
  13. Enders, Klaus-Stefan, Republic of Yemen: selected issues, International Monetary Fund Report, 2001
  14. Enders, 2001, page 10
  15. May 2009 speech by former South Yemen President Ali Salim al-Beidh
  16. Enders, Klaus-Stefan, Yemen in the 1990s: from unification to economic reform, International Monetary Fund, 2002, page 4
  17. Foad, Hisham, The Effect of the Gulf War on Migration and Remittances, Department of Economics paper, San Diego State University, December 2009
  18. Whitaker, Brian, Pawns of War live in forgotten Yemen camps, The Guardian, repreinted in Al-Bab, 7 January 1993
  19. (em francês) Histoire du Yémen durant la guerre froide. Consultado em 24 de outubro de 2010
  20. (em inglês) « Saleh down plays Yemeni war death toll. », Agence France-Presse, 12 de julho de 1994.
  21. (em inglês) The presidential Elections, SABA News. Publicado em 8 de janeiro de 2004, consultado em 24 de outubro de 2010
  22. (em inglês) « In south of Yemen, talk of rebellion is rife », Haley Edwards, dans Los Angeles Times, 18 de maio de 2010, p.3.
  23. (em inglês) 18 killed in south Yemen violence this year: report, Agence France-Presse. Publicado em 17 de abril de 2010, consultado em 24 de outubro de 2010
  24. (em francês) Le Yémen célèbre samedi 22 mai le 20e anniversaire de son unification, RFI.fr. Publicado em 21 de maio de 2010, consultado em 24 de outubro de 2010

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • (em inglês) Robert D. Burrowes, Historical dictionary of Yemen, The Scarecrow press, Lanham (Md.) ; Toronto ; Plymouth (UK), 2010 (2×10{{{1}}} éd.), LXXXII-533 p. ISBN 978-0-8108-5528-1
  • (em francês) Rémy Leveau, Franck Mermier et Udo Steinbach (dir.), Le Yémen contemporain, Karthala, Paris, 1999, 459 p. ISBN 2-86537-893-4

Ligações externas[editar | editar código-fonte]