Kamés

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sarcófago de Kamés

Kamés foi o último faraó da XVII dinastia egípcia.

Era filho da Rainha Ah-hotep e do rei Sekenenré Taá, e governou por poucos anos, sendo sucedido por seu irmão Amósis ou Ahmés, o fundador da XVIII dinastia egípcia, que inaugurando a fase chamada de novo império.

Seu reinado abrange o final do Segundo Período Intermediário. Em geral se atesta para Kamés um reinado de três anos, embora alguns pesquisadores lhe deem um reinado de cinco anos.

Seu reinado é importante pelas iniciativas militares, que foram decisivas naquela altura, contra os Hiksos, que estavam governando uma grande parte do delta. Seu pai, Seqenenre Tao, começou a campanha para a reunificação do Egito e certamente perdeu a vida em alguma das batalhas. Acredita-se que sua mãe ficou sendo a regente, e manteve a luta acesa após a morte de Kamés, e, finalmente seu irmão Amósis lutou as batalhas finais completando a unificação do Egito.

Campanhas[editar | editar código-fonte]

Desenho de um escaravelho pertencente à Kamés por Flinders Petrie

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Kamés foi o último rei de uma sucessão de reis egípcios nascidos em Tebas. Originalmente, os governantes tebanos viveram em paz com os governantes hicsos, que mandavam no delta do Nilo. A ideia de Seqenenre Tao e depois de sua morte, de Kamés, era estender seu governo para o norte de modo que o Egito voltasse a ser um país unido, sob o comando de um egípcio,

Aparentemente, Kamés enfrentou a oposição de muitos dos cortesãos. Em algum momento, os príncipes tebanos ficaram habituados a viver de comum acordo com os reis hicsos, aceitando as regras de trânsito através do território controlado por eles – o baixo Egito e o Médio Egito além dos direitos sobre os pastos nas terras férteis do Delta. Os registros de Kamés no Tablete de Carnavon (conhecido por ter sido encontrado numa tumba da 17ª dinastia em Deir el- Bahari por Carnavon; está no Museu Egípcio do Cairo, embora não existam fotos reais dele) relatam o temor dos conselheiros do rei com relação a uma guerra contra os hicsos.

Não há evidências para corroborar a afirmação de Pierre Montet, que a luta de Kamés contra os hicsos foi patrocinada pelos sacerdotes de Amon contra o deus Set, que era adorado no norte (seria uma guerra de libertação com um motivo religioso). O Tablete Carnavon afirma que Kamés foi para o norte atacar os hicsos, sob o comando de Amon, mas isso deve ser visto como uma maneira comum em praticamente todas as inscrições do antigo Egito. Não deve ser tomado ao pé da letra, como um comando específico do deus.

Kamés deixou claro que suas razões para um ataque aos hicsos era o orgulho nacional. Ele também estava prosseguindo a política agressiva e militar de seu antecessor Seqenenre Tao, que aparentemente morreu numa das batalhas contra os hicsos pois sua múmia apresenta ferimentos no crânio condizentes com uma batalha.

No terceiro ano de reinado, Kamés embarcou com suas tropas para enfrentar os hicsos, navegando para o norte saindo de Tebas. Primeiro alcançou Nefrusi, que ficava ao norte de Cusae e era guardada por uma guarnição egípcia leal aos hicsos. Um destacamento de tropas medjai (soldados núbios extremamente corajosos e capazes) atacou o forte e o derrotou. O Tablete Carnavon conta sobre essa campanha e termina aqui. No entanto, a estratégia militar de Kamés pode ser imaginada. À medida que ia avançando para o norte, ele tomava pequenas vilas e ia destruindo as pequenas guarnições dos hicsos. Caso uma cidade resistisse, ele podia separá-la do resto do reino hicso, atacando-a diretamente pelo norte. Esse tipo de tática provavelmente permitiu que Kamés viajasse bem rápido pelo Nilo. Uma segunda estela encontrada também em Tebas, continua a narrativa, com um ataque a Avaris. Como não menciona Mênfis ou outra grande cidade do norte, se suspeita que Kamés nunca atacou Avaris e sim registrou o que pensava fazer.

Kim Ryholt levantou a possibilidade de que Kamés provavelmente chegou apenas até Anpu ou Cinópolis no médio Egito próximo ao Faiyum e à cidade de Saka. E, nunca chegou propriamente ao baixo Egito, ao delta do Nilo.

segunda estela de Kamés que registra sua vitória contra os hicsos -(Luxor Museum).

De acordo com a segunda estela, após se dirigir ao norte até Nefrusi, os soldados de Kamés capturaram um mensageiro levando uma carta do rei hicso Awoserre (ou Apopi) em Avaris para seu aliado o governante de Kush, pedindo ajuda urgente, contra Kamés. Kamés imediatamente ordenou que um destacamento de suas tropas ocupasse e destruísse o Oasis Bahariya no deserto a oeste, que controlava a rota do deserto norte-sul. Kamés, chamado “o Forte” nesse texto, ordenou essa ação para proteger a retaguarda. Depois disso, Kamés navegou para o sul pelo Nilo, até Tebas, para uma comemoração alegre depois do sucesso militar contra os hicsos, empurrando as fronteiras de seu reino ao norte, de Cusae através de Hermópolis até Sako, que passou a ser a nova fronteira entre a 17ª dinastia de Tebas e a 15ª dinastia dos hicsos.

Kamés também fez campanhas contra os cushitas antes do seu terceiro ano, uma vez que o rei dos hicsos apelou diretamente para seu colega cushita para atacar seu rival tebano e vingar os danos que Kamés inflingiu sobre seus estados.

Duração do seu reinado[editar | editar código-fonte]

ilustração de uma barca votiva atribuída a Kamés

O último ano registrado para Kamés é o ano 3 e ao que parece finaliza seu reinado. No entanto pode ser que Kamés tenha reinado um ou dois anos além dessa data porque ele iniciou uma segunda campanha contra a Núbia.

Duas inscrições em pedras separadas foram encontradas em Armina e Toshka, na Núbia, elas trazem o nome e o título de Kamés e Ahmés lado a lado e foram inscritas ao mesmo tempo e pela mesma pessoa. O nome de Ahmés vem logo após aos nomes de Kamés e a cada rei é dado o epíteto Doador de Vida, que normalmente é usado apenas para os reis governantes. Isso indica que ambos, Kamés e Ahmés estavam reinando quando as inscrições foram feitas, portanto eles eram co-regentes. Uma vez que o nome de Kamés foi registrado primeiro, ele deveria ser o primeiro co-regente. Não há menção ou referência a Ahmés como rei antes da estela do terceiro ano de Kamés.

É muito provável que a segunda campanha na Núbia de Kamés tenha ocorrido no terceiro ou quarto ano de reinado. O alvo de Kamés deve ter sido a fortaleza de Buhen, que os núbios haviam recapturado dos soldados de Kamés, uma vez que uma estela que tinha seu cartucho gravado foi deliberadamente apagada e o forte foi incendiado. Um reinado um pouco mais longo, de cinco anos para Kamés, foi estimado por Ryholt portanto as datas seriam de 1554 a.C. até 1549 a. C. levando em conta um ano de co-regência entre Ahmés e Kamés.

Sepultamento[editar | editar código-fonte]

Donald Redford registra que Kamés foi sepultado de maneira modesta, num sarcófago simples que sequer possuía um uraeus real. Isso significa que o rei faleceu antes que tivesse tempo de completar seus preparativos para o funeral, talvez porque estivesse envolvido na guerra com os cushitas e os hicsos.

Múmia[editar | editar código-fonte]

A múmia de Kamés é mencionada no Papiro Abbott, que registra uma investigação sobre o roubo de tumbas durante o reinado de Ramsés IX, por volta de 400 anos após o sepultamento de Ahmés. Embora registre que sua tumba estava em bom estado fica claro que a múmia foi dali retirada em algum momento. Ela foi descoberta em 1857 em Dra' Abu el-Naga', aparentemente escondida numa pilha de entulho. O sarcófago pintado foi descoberto por Auguste Mariette e por Heinrich Brugsch, que registraram que a múmia estava num estado deplorável.

Junto com a múmia foram encontrados amuletos, um escaravelho, um espelho de bronze, uma adaga de ouro e prata e um peitoral no formato de cartucho trazendo o nome de seu irmão e sucessor Ahmés.

O caixão ficou no Egito, a adaga em Bruxelas e o peitoral e o espelho estão no Louvre, Paris. O nome do rei inscrito no caixão só foi reconhecido cinqüenta anos após sua descoberta, e a múmia abandonada numa pilha de entulhos, onde foi encontrada, certamente se perdeu.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Gardiner, Sir Alan. Egypt of the Pharaohs. Oxford: University Press, 1964, 1961.
  • Montet, Pierre. Eternal Egypt, translated from the French by Doreen Weightman. London, 1964
  • http://realhistoryww.com/world_history/ancient/Misc/Hyksos/Inscriptions_of_Kamose.htm
  • Pritchard, James B. (Editor). Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament (3rd edition). Princeton, 1969.
  • Redford, Donald B. History and Chronology of the Eighteenth Dynasty of Egypt: Seven Studies. Toronto, 1967.
  • Ryholt, Kim SB, The Political Situation in Egypt during the Second Intermediate Period (Carsten Niebuhr Institute Publications, Copenhague, (Museum Tusculanum Press:1997) ISBN 87-7289-421-0
  • Simpson, William Kelly (Editor). The Literature of Ancient Egypt: An Anthology of Stories, Instructions, Stelae, Autobiographies, and Poetry (3rd edition). New Haven, 2003, pp. 345–50 (translation of the Kamose texts).