Boco (faraó)

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Boco
Vaso de pedra com sereque de Boco. Museu de Arqueologia Nacional (França)
Faraó do Egito
Reinado 25-29 anos
Antecessor(a) Bienequés ou Nefercaés
Sucessor(a) Queco
 
Dinastia II dinastia
Filho(s) Pernebe?
Religião Politeísmo egípcio
Titularia
Nome
M23
X1
L2
X1
G16R4
(Nsw.t-btj-nbt.j-htp)
Hórus
G5R4S42S42
(Hr.-htp-sxm.wj)
Duas Senhoras
G16S29R4
(S.htp-nbt.j)
Lista Real de Abidos
<
D58U28G43P11
>
(Bḏ3.w)
Lista Real de Sacará
<
R8G30
>
(Nṯr-b3.w)
Cânone de Turim
HASHG30R4
Z2
V11AG7
(...Bau-hetepju)
Quadro de Gizé (VI dinastia)
<
D58U28U30G43
>
(Bḏ3-t3.w)
Cilindro de osso com seu sereque

Boco (em latim: Bochus), Beto (em grego: Boëthôs) ou Hotepsequemui (em egípcio: Hotepsekhemwy) é o nome de Hórus do 1º faraó da II dinastia (r. 2890–2686 a.C.). O tempo exato de seu reinado é incerto; o Cânone de Turim sugere improváveis 95 anos,[1] enquanto o historiador Manetão relata 38 anos.[2] Os egiptólogos consideram que ambos os relatos como exageros ou má-interpretações e lhe creditam um reinado de 25 ou 29 anos.[3]

A julgar pela etimologia proposta de seu nome, e pelo fato de que reconstruiu a tumba de Bienequés que havia sido saqueado, é possível que reinou nem período de tumulto político. Se sabe por inscrições suas que erigiu edifícios em seu tempo, um deles a chamada "Capela da Coroa Branca" em Buto, o que pode dar pistas de sua origem dinástica. Não se conhece o local de sua tumba, e o sítio proposto é disputado como também possível sepultamento de seu sucessor Queco.

Nome[editar | editar código-fonte]

O nome de Boco foi identificado pelos arqueológicos em impressões em selos de argila, vasos de pedra e cilindros de osso em Sacará, Gizé, Badari e Abidos e várias inscrições em vasos de pedra menciona-o junto do nome de seu sucessor Queco.[4][5][6] Seu nome de Hórus (Hotepsequemui) esteve sujeito ao interesse particular dos egiptólogos e historiadores, pois pode indicar a política turbulenta do período. A palavra Hotepe significa "pacífico" e "estar satisfeito", mas pode também significar "conciliação" ou "ser reconciliado". Assim, o nome poderia ser lido como "os dois poderes estão reconciliados" ou "agradando em poderes", sugerindo relevante significado político. Nesse sentido, "os dois poderes" podem se referir ao Alto e Baixo Egito, bem como as divindades Hórus e Seti.[7][8]

Família[editar | editar código-fonte]

O nome da esposa de Boco é desconhecido. Um "filho do rei" e "sacerdote de Sopedu" chamado Pernebe poderia ter sido seu filho, mas uma vez que os selos de argila, fornecendo seu nome e títulos foram achados numa tumba da galeria associada a dois reis igualmente (Boco e Queco), é incerto de quem Pernebe realmente era filho.[9][10]

Identidade[editar | editar código-fonte]

Boco é comumente associado aos nomes Bedjau da lista real de Abidos, Bedjatau de Gizé, Netjer-Bau da lista real de Sacará e Bau-hetepju do Cânone de Turim. O egiptólogo Wolfgang Helck cita o nome parecido Bedjatau, que aparece em pequena lista de reis encontrada num quadro da mastaba G1001 do alto oficial Mesdjeru. "Bedjatau" significa "o fundidor" e acredita-se que seja uma leitura equivocada do nome "Hotepsequemui", já que os signos hieroglíficos usados ​​para escrever "Hotepe" em sua forma completa são muito semelhantes aos sinais de um forno de cerâmica e um filhote em hierático. Os sinais de dois cetros de Sequém foram mal interpretados como uma perna e uma broca. Um fenômeno semelhante poderia ter ocorrido no caso do faraó Quenerés (Casequemui), onde os dois cetros no nome de Hórus eram mal interpretados como dois símbolos de pernas ou dois sinais de perfuração. A lista de Abidos imita o nome "Bedjatau" do Reino Antigo. Os nomes "Netjerbau" e "Bau-hetepju" são problemáticos, uma vez que os egiptólogos não podem encontrar nenhuma fonte de nome do tempo de Boco que poderia ter sido usada para formá-los.[11][12]

Reinado[editar | editar código-fonte]

Pouco se sabe sobre seu reinado. Fontes coetâneas apontam que pode ter tomado o trono após período de conflitos políticos, incluindo governantes efêmeros como Hórus "Pássaro" e Nefercaés (o último também é pensado para ser um nome alternativo usado pelo faraó Bienequés por curto período). Como prova disso, Wolfgang Helck, Dietrich Wildung e George Reisner dizem que o túmulo de Bienequés, saqueado no fim da I dinastia, foi restaurado sob Boco. O saque e o significado excepcionalmente conciliatório de seu nome podem ser pistas de uma luta dinástica. Outrossim, Helck assume que Nefercaés e Hórus "Pássaro" foram omitidos das listas de reis posteriores porque suas lutas pelo trono foram fatores no colapso da primeira dinastia.[8][13]

Cartucho (nº 9) de Boco na lista real de Abidos

Impressões de selo fornecem evidência de uma nova residência real chamada "Hórus, a estrela brilhante" erigida Boco. Ele também construiu um templo próximo a Buto à divindade pouco conhecida Netjer-Achti e fundou a "Capela da Coroa Branca", um símbolo do Alto Egito. Isto é pensado como outra pista de sua origem dinástica, indicando a provável fonte de seu poder político.[14] Egiptólogos como Nabil Swelim apontam que não há nenhuma inscrição de seu reinado mencionando um festival Sede, indicando que não pode ter governado por mais de 30 anos (o festival Sede foi celebrado como o aniversário marcando um tridecênio).[15]

O antigo historiador egípcio Manetão chamou-o Boëthôs (aparentemente alterado a partir do nome Bedjau) e relatou que durante o reinado deste governante "um abismo se abriu perto de Bubástis e muitos pereceram". Embora tenha escrito no século III a.C. - mais de dois milênios após o reinado real do rei - alguns egiptólogos acham possível que a anedota tenha sido baseada em fatos, já que a região perto de Bubástis é conhecida por ser sismicamente ativa.[2]

Tumba[editar | editar código-fonte]

A localização da tumba de Boco é desconhecida. Egiptólogos como Flinders Petrie, Alessandro Barsanti e Toby Wilkinson acreditam que pode ser a gigantesca galeria subterrânea da Tumba B abaixo da passagem funeral da necrópole de Unas em Sacará; várias impressões de selos foram descobertas ali. Outros egiptólogos como Wolfgang Helck e Peter Munro não estão convencidos e acham que o sítio pertencesse a Queco, pois várias impressões de sele dele também foram achadas lá.[16][17][18][19]

Referências

  1. Gardiner 1997, p. 15, tabela I.
  2. a b Waddell 2004, p. 37-41.
  3. Wildung 1969, p. 31-33.
  4. Brunton 1927, p. 25.
  5. Maspero 1902, p. 185-190.
  6. Engel 2006, p. 28-29.
  7. Clayton 1994, p. 26.
  8. a b Kaplony 2006, p. 126-127.
  9. Wilkinson 1999, p. 296.
  10. Kaplony 1963, p. 96; obj. 367.
  11. Brovarski 1987, tabela 1.
  12. Schneider 2002, p. 134.
  13. Wildung 1969, p. 36–41.
  14. Wilkinson 1999, p. 285-286.
  15. Swelim 1983, p. 67-77.
  16. Wilkinson 1999, p. 183-184.
  17. Helck 1975, p. 21-32.
  18. Munro 1993, p. 95.
  19. Barsanti 1902, p. 249–257.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Barsanti, Alessandre (1902). Anais do Serviço de Antiguidades do Egito - Suplementos Vol. II. Cairo: Instituto Francês de Arquelogia Oriental 
  • Brovarski, Edward (1987). «Two Old Kingdom writing boards from Giza». Anais do Serviço de Antiguidades do Egito. 71. Cairo: Serviço de Antiguidades do Egito 
  • Brunton, Guy (1927). Qau and Badari I. 44. Londres: Escola Britânica de Arqueologia no Egito 
  • Clayton, Peter A. (1994). «Dynasty 2». Chronicle of the Pharaohs (em inglês). Londres: Thames and Hudson. ISBN 0-500-05074-0 
  • Engel, Eva-Maria (2006). «Die Siegelabrollungen von Hetepsechmui und Raneb aus Saqqara». In: Czerny, Ernst; Hein, Irmgard; Hunger, Hermann; Melman, Dagmar; Schwab, Angela. Timelines: Studies in Honour of Manfred Bietak. Lovaina: Peeters. ISBN 90-429-1730-X 
  • Gardiner, Alan H. (1997). The royal canon of Turin. Oxônia: Instituto Griffith de Oxônia. ISBN 0-900416-48-3 
  • Helck, Wolfgang (1975). Wirtschaftsgeschichte des alten Ägypten im 3. und 2. Jahrtausend vor Chr. Leida: Brill. ISBN 90-04-04269-5 
  • Kaplony, Peter (1963). «Die Inschriften der Ägyptischen Frühzeit, vol. III». Viesbade: Harrassowitz Verlag. Ägyptologische Abhandlungen (ÄA). 8 
  • Kaplony, Peter (2006). «„Er ist ein Liebling der Frauen" – Ein „neuer" König und eine neue Theorie zu den Kronprinzen sowie zu den Staatsgöttinnen (Kronengöttinnen) der 1./2. Dynastie». In: Bietak, Manfred. Ägypten und Levante. Viena: Editora da Academia Austríaca de Ciências. ISBN 978-3-7001-6668-9 
  • Maspero, Gaston (1902). Notes sur les objets recueillis sous la pyramide d'Ounas in: Annales du Service des Antiquités de l'Egypt (ASAE). 3. Cairo: Serviço de Antiguidades do Egito 
  • Munro, Peter (1993). Der Unas-Friedhof Nordwest I. Mogúncia: Von Zabern 
  • Schneider, Thomas (2002). Lexikon der Pharaonen. Dusseldórfia: Albatros. ISBN 3-491-96053-3 
  • Swelim, Nabil M. A. (1983). Some Problems on the History of the Third Dynasty. Alexandria: Sociedade Arqueológica de Alexandria 
  • Waddell, William Gillian (2004). Manetho. 350. Cambrígia, Massachusetts: Imprensa da Universidade de Harvard. ISBN 0-674-99385-3 
  • Wildung, Dietrich (1969). Die Rolle ägyptischer Könige im Bewusstsein ihrer Nachwelt. Teil 1: Posthume Quellen über die Könige der ersten vier Dynastien. Estudos de Egiptologia de Munique. 17. Munique/Berlim: Deutscher Kunstverlag 
  • Wilkinson, Toby A. H. (1999). Early Dynastic Egypt. Londres e Nova Iorque: Routledge. ISBN 0415186331