Lobo-guará

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Como ler uma caixa taxonómicaLobo-guará[1]
Ocorrência: Pleistoceno - Recente, 0.51–0 Ma
Maned Wolf 11, Beardsley Zoo, 2009-11-06.jpg

Estado de conservação
Status iucn3.1 NT pt.svg
Quase ameaçada (IUCN 3.1) [2]
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Carnivora
Família: Canidae
Género: Chrysocyon
Smith, 1839
Espécie: C. brachyurus
Nome binomial
Chrysocyon brachyurus
Illiger, 1815
Espécie-tipo
Canis jubatus
Smith, 1839
Distribuição geográfica
Maned Wolf area.png
Sinónimos[3]
  • Canis brachyurus Illiger, 1811
  • Canis campestris Wied-Neuwied, 1826
  • Canis isodactylus Ameghino, 1909
  • Canis jubatus Desmarest, 1820
  • Vulpes cancrosa Oken, 1816

O lobo-guará (nome científico: Chrysocyon brachyurus), também conhecido como guará, aguará, aguaraçu, lobo-de-crina, lobo-de-juba, lobo-vermelho ou simplesmente lobo,[4] [5] é uma espécie de canídeo endêmico da América do Sul e único integrante do gênero Chrysocyon. A espécie não está diretamente ligada a nenhum outro gênero de canídeos e aparentemente é uma relíquia da fauna pleistocênica da América do Sul, que desapareceu, na maioria, após a formação do Istmo do Panamá.[6] [7]

De uma população total estimada em 23 600 indivíduos, cerca de 21 746 encontram-se no Brasil, 880 no Paraguai e 660 na Argentina e provavelmente não mais de 1 000 animais na Bolívia.[8] [9] De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), o estado de conservação da espécie é pouco preocupante, mas no Brasil o lobo-guará é considerado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) uma espécie ameaçada de extinção, com estado de conservação vulnerável.[2] [10]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

"Lobo" origina-se do latim lupus.[4] "Guará" e "aguará" se originaram do tupi agoa'rá, "pelo de penugem".[11] "Aguaraçu" veio do termo tupi para "guará grande".[4] O nome do gênero, Chrysocyon, deriva do grego e significa "cão dourado".[carece de fontes?] Guará vem do tupi e significa "vermelho".[carece de fontes?]

Taxonomia e evolução[editar | editar código-fonte]

Árvore filogenética do lobo-guará, segundo Lindblad-Toh et al. (2005)[12]


Cachorro-do-mato-de-orelhas-curtas




Cachorro-do-mato







Raposa-do-deserto-peruana



Raposa-colorada





Graxaim



Raposa-cinzenta-argentina





Raposa-de-darwin




Raposa-do-campo







Lobo-guará



Cachorro-do-mato-vinagre



O lobo-guará foi descrito em 1815, por Johann Karl Wilhelm Illiger, inicialmente como Canis brachyurus.[3] Lorenz Oken o classificou como Vulpes cancrosa, e somente em 1839, Charles Hamilton Smith descreveu o gênero Chrysocyon.[3] Posteriormente outros autores o consideraram como integrante do gênero Canis.[3]

Apesar já ter sido classificado nos gêneros Canis e Vulpes, graças a suas semelhanças morfológicas, o lobo-guará não está intimamente relacionado a estes gêneros.[13] Estudos moleculares não demonstraram relações do gênero Chrysocyon com estes canídeos.[12] [14] O lobo-guará é considerado um dos canídeos endêmicos da América do Sul, juntamente com o cachorro-do-mato (Cerdocyon thous), o cachorro-vinagre (Speothus venacitucs) e o gênero Lycalopex.[14] Tal grupo é monofilético baseando-se em estudos genéticos, apesar de estudos morfológicos incluir Nyctereutes procyonoides, que é originário da Ásia.[14]

Um estudo comparando a anatomia cerebral de vários canídeos, publicado em 2003, colocou o lobo-guará junto à raposa-das-falkland (Dusicyon australis) e o gênero Pseudalopex.[15] Mesmo estudos moleculares corroboram a hipótese de o lobo-guará ter um ancestral comum exclusivo com a raposa-das-falkland, que viveu há aproximadamente 6 milhões de anos.[6] [7]

Entretanto, estudos genéticos recentes situam o lobo-guará como mais próximo filogenéticamente do cachorro-vinagre (Speothos venaticus), formando um clado que é grupo-irmão de outro em que se contém os outros canídeos sul-americanos, como o cachorro-do-mato-de-orelhas-curtas (Atelocynus microtis), o Guaraxaim (Cerdocyon thous) e as espécies pertencentes ao gênero Pseudalopex.[12] [14] Tal clado divergiu dos outros canídeos sul-americanos cerca de 4,2 milhões de anos atrás, e os gênero Chrysocyon e Speothos divergiram cerca de 3 milhões de anos atrás.[14]

Fósseis de lobo-guará originários do Holoceno e do Pleistoceno Superior foram desenterrados no Planalto Brasileiro.[16]

Distribuição geográfica e habitat[editar | editar código-fonte]

O lobo-guará habita as pradarias e matagais da América do Sul central, com distribuição geográfica indo desde a foz do rio Parnaíba, no nordeste do Brasil, passando pelas terras baixas da Bolívia, o oeste dos Pampas del Heath, no Peru e o chaco paraguaio, até o estado brasileiro do Rio Grande do Sul.[3] Evidências da presença do lobo-guará na Argentina podem ser encontradas até o Paralelo 30, com avistamentos recentes em Santiago del Estero.[2] Provavelmente, o lobo-guará ainda ocorre no Uruguai, dado que um espécime foi avistado em 1990, mas desde então não há registro da espécie no país.[2]

O habitat do lobo-guará se caracteriza principalmente por campos abertos, com vegetação arbustiva e áreas de bosque com o dossel aberto.[17] Também pode ser encontrado em áreas que sofrem inundações periódicas e campos cultivados pelo homem.[17] Aparentemente, o lobo-guará prefere ambientes com baixa quantidade de arbustos e vegetação pouco densa.[17] Áreas mais fechadas são utilizadas para descansar durante o dia. Apesar de ser mostrado que a espécie pode ocorrer em ambientes altamente alterados pelo homem, é necessário que se faça mais estudos a fim de se quantificar qual o grau de tolerância do lobo-guará às atividades agrícolas.[17]

Descrição[editar | editar código-fonte]

O lobo-guará é o maior canídeo da América do Sul, tendo entre 95 e 115 cm de comprimento, com uma cauda medindo entre 38 e 50 cm de comprimento.[17] Pesa entre 20,5 e 30 kg.[17] É um animal difícil de confundir com os outros canídeos sul-americanos, dado suas longas e finas pernas, densa pelagem avermelhada e grandes orelhas.[17]

O lobo-guará é o maior canídeo da América do Sul.

A pelagem do corpo varia do vermelho-dourada ao laranja e os pelos da nuca são arrepiados e pretos.[3] A parte inferior da mandíbula e a ponta da cauda são brancos.[3] O formato da cabeça se parece muito com de uma raposa, com um focinho esguio e grandes orelhas.[3] Assim como observado no cachorro-vinagre (Speothos venaticus) o rinário se estende até o lábio superior, mas as vibrissas são mais compridas no lobo-guará.[3] A forma esguia dessa espécie provavelmente é uma adaptação ao deslocamento em áreas abertas cobertas por gramíneas.[3]

Comportamento e ecologia[editar | editar código-fonte]

Diferentemente dos lobos, esta espécie não forma alcateias e tem hábitos solitários, juntando-se apenas em casais durante a época de reprodução.[18]

O lobo-guará caça pequenos mamíferos, roedores e aves. Mas a sua dieta tem uma forte componente onívora. Estes animais são bastante dependentes da lobeira (Solanum lycocarpum) e estabelecem, com esta planta, uma relação simbiótica: sem os frutos da lobeira, o lobo-guará morre de complicações renais causadas por nemátodos. Em contrapartida, o guará tem um papel fundamental na dispersão das sementes dessa planta.


Reprodução[editar | editar código-fonte]

A gestação dura em média 65 dias e resulta em ninhadas de até seis crias sendo dois o número médio de crias que nascem entre junho e setembro.[9] Os filhotes tem pelagem completamente preta, exceto pela ponta da cauda, cuja pelagem é branca, e pesam entre 340 e 410 g. Os lobos-guará atingem sua maturidade sexual com um ano de idade.[9] O lobo guará tem seus filhotes somente no mês de [carece de fontes?]

Conservação[editar | editar código-fonte]

Vídeo: Lobo-guará no Zoológico Ueno, Japão.

Embora o atual estado de conservação da espécie, de acordo com a IUCN, seja pouco preocupante,[2] a médio prazo o lobo-guará corre risco de extinção na natureza, em função do declínio populacional e da extrema fragmentação da área de ocupação.[carece de fontes?] No Brasil, de acordo com o ICMBio, o lobo-guará é considerado uma espécie ameaçada de extinção, com estado de conservação vulnerável, sendo ainda objeto de um plano de ação nacional cujo objetivo é a sua conservação.[19] [10] [20] O lobo-guará ocorre em várias áreas protegidas na Argentina, no Brasil, na Bolívia, no Paraguai e no Peru.[2] [10] Na Argentina está classificada entre as espécies em perigo (EN).[2] Sua caça é proibida no Brasil, Paraguai e Bolívia.[2]

As principais ameaças ao lobo-guará vêm da conversão de terras para agricultura, do fato de ser susceptível a doenças de cães domésticos, que competem com eles por alimento, e de acidentes, como atropelamentos em estradas.[10] Uma fêmea de lobo-guará, que fora atropelada, passou por um tratamento com células-tronco no Zoológico de Brasília.[21] Este foi o primeiro caso registrado do uso de células-tronco para curar lesões num animal selvagem.[22]

Estudos ecológicos e de variabilidade genética da espécie são desenvolvidos em várias instituições de pesquisa brasileiras, das quais pode-se citar a Associação Pró-Carnívoros, CNPq, a União de Ensino do Planalto Central, a USP, a Fundação Zoobotânica de Belo Horizonte, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, a EMBRAPA e a Universidade de Brasília.[carece de fontes?]

De uma população total estimada em 23 600 indivíduos, cerca de 21 746 encontram-se no Brasil, 880 no Paraguai e 660 na Argentina. O número de indivíduos na Bolívia provavelmente não excede os 1 000 animais.[8] [9]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Wozencraft, W.C.. In: Wilson, D.E.; Reeder, D.M. (eds.). Mammal Species of the World. 3. ed. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2005. Seção Order Carnivora. 532–628 pp. ISBN 978-0-8018-8221-0. OCLC 62265494.
  2. a b c d e f g h Rodden, M., Rodrigues , F. & Bestelmeyer, S. (2008). Chrysocyon brachyurus (em Inglês). IUCN . Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN de 2012 Versão 2. Página visitada em 30 de outubro de 2012.
  3. a b c d e f g h i j Dietz, J.M.. (1985). "Chrysocyon brachyurus". Mammalian Species 234: 1-4.
  4. a b c Ferreira, A. B. H.. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
  5. de Paula, R.C.; et al. (2013). "Avaliação do risco de extinção do lobo-guará Chrysocyon brachiurus (Illiger, 1815) no Brasil". Biodiversidade Brasileira 3 (1): 146-159.
  6. a b Slater, Graham J; Thalmann, Olaf; Leonard, Jennifer A.; Schweizer, Rena M.; Koepfli, Klaus-Peter; Pollinger, John P.; Rawlence, Nicolas J.; Austin, Jeremy J.; Cooper, Alan; Wayne, Robert K. (2009). "Evolutionary history of the Falklands wolf". Current biology 19 (20) p. R937-R938. DOI:10.1016/j.cub.2009.09.018.
  7. a b New Clues To Extinct Falklands Wolf Mystery (em inglês) ScienceDaily (03 de novembro de 2009).
  8. a b Maned Wolf (Chrysocyon brachyurus) (em inglês) Canid Specialist Group. Visitado em 29 de novembro de 2012.
  9. a b c d Costa, Erli. How Stuff Works: como funciona o lobo-guará Universo On-Line.
  10. a b c d Lobo-guará - Chrysocyon brachyurus Lista de espécies ameaçadas Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Visitado em 29 de novembro de 2012.
  11. Definição de guará Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora Infopédia - Enciclopédia e Dicionários Porto Editora. Visitado em 29 de abril de 2010.
  12. a b c Lindblad-Toh, Kerstin et al. (08 de dezembro de 2005). "Genome sequence, comparative analysis and haplotype structure of the domestic dog" (em inglês). Nature 438 p. 803–819. DOI:10.1038/nature04338. PMID 16341006.
  13. Osgood, Wilfred H.. (Novembro 1919). "Names of Some South American Mammals" (em inglês). Journal of Mammalogy 1 (1) p. 35. Visitado em 02 de dezembro de 2011.
  14. a b c d e Perini, F. A., Russo, C. A. M., & Schrago, C. G.. (2010). "The evolution of South American endemic canids: a history of rapid diversification and morphological parallelism". Journal of Evolutionary Biology 23 (2): 311-322. DOI:10.1111/j.1420-9101.2009.01901.x.
  15. Lyras, G.A.; Van der Geer, A.A.E. (2003). "External brain anatomy of the Canidae" (em inglês). Zoological Journal of the Linnean Society 138 p. 505-522. DOI:10.1046/j.1096-3642.2003.00067.x.
  16. Gorog, A (1999). Chrysocyon brachyurus (On-line) (em inglês) Animal Diversity Web. Visitado em 29 de novembro de 2012.
  17. a b c d e f g Silvero-Zubiri, C.. In: Wilson, D.E.; Mittermeier, R.. Handbook of the Mammals of the World - Volume 1. Barcelona: Lynx, 2009. Capítulo Family Canidae (Dogs). 352-448 pp. ISBN 978-84-96553-49-1.
  18. Maned wolf (Chrysocyon brachyurus) (em inglês) ARKive. Visitado em 29 de novembro de 2012.
  19. Plano de Ação Nacional para a Conservação do Lobo-guará: Análise de viabilidade populacional e de habitat. Formato PDF. 2ª. ed. Brasília: Edições Ibama. ISBN 978-85-7300-268-3. Visitado em 29 de novembro de 2012.
  20. Plano de Ação Nacional para a Conservação do Lobo-guará Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Visitado em 29 de novembro de 2012.
  21. Lobo-guará atropelado por caminhão faz tratamento com células-tronco Ambientebrasil (11 de janeiro de 2011). Visitado em 12 de janeiro de 2011.
  22. Lobo-guará sobrevive a atropelamento graças a tratamento com células-tronco Jornal Nacional (10 de janeiro de 2011). Visitado em 12 de janeiro de 2011.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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