Onça-pintada

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Como ler uma caixa taxonómicaOnça-pintada[1]
Ocorrência: Pleistoceno - Recente, 0.51–0 Ma
Onça-pintada

Onça-pintada
Estado de conservação
Status iucn3.1 NT pt.svg
Quase ameaçada (IUCN 3.1) [2]
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Carnivora
Família: Felidae
Subfamília: Pantherinae
Género: Panthera
Espécie: P. onca
Nome binomial
Panthera onca
(Linnaeus, 1758)
Distribuição geográfica
  Atual   Original Apesar do espaço "vazio" em parte da Amazônia brasileira, isso se deu por conta do desconhecimento do status de conservação da espécie: a presença da onça-pintada foi confirmada em tal região.[3]
  Atual   Original
Apesar do espaço "vazio" em parte da Amazônia brasileira, isso se deu por conta do desconhecimento do status de conservação da espécie: a presença da onça-pintada foi confirmada em tal região.[3]
Subespécies
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A onça-pintada (nome científico: Panthera onca), também conhecida por pintada, onça-verdadeira, jaguar, jaguarapinima, jaguaretê, acanguçu, canguçu, tigre[4] e onça-preta (somente no caso dos indivíduos melânicos), é uma espécie de mamífero carnívoro da família Felidae encontrada nas Américas. É o terceiro maior felino do mundo, após o tigre e o leão, e o maior do continente americano. Ocorria nas regiões quentes e temperadas, desde o sul dos Estados Unidos até o norte da Argentina, estando, hoje, porém, extinta em diversas partes dessa região. Nos Estados Unidos, por exemplo, está extinto desde o início do século XX, apesar de relatos de que possivelmente ainda ocorre no Arizona.

Se assemelha ao leopardo fisicamente, se diferindo desse, porém, pelo padrão de manchas na pele e pelo tamanho maior. As características do seu comportamento e do seu habitat são mais próximas às do tigre. Pode ser encontrada principalmente em ambientes de florestas tropicais, mas também é encontrada em ambientes mais abertos. A onça-pintada está fortemente associada com a presença de água e é notável, juntamente com o tigre, como um felino que gosta de nadar. É, geralmente, solitária. É um importante predador, desempenhando um papel na estabilização dos ecossistemas e na regulação das populações de espécies de presas. Tem uma mordida excepcionalmente poderosa, mesmo em relação aos outros grandes felinos. Isso permite que ela fure a casca dura de répteis como a tartaruga e de utilizar um método de matar incomum: ela morde diretamente através do crânio da presa entre os ouvidos, uma mordida fatal no cérebro.

Seu número está em queda e a espécie está ameaçada de extinção, principalmente por causa da perda e da fragmentação do seu habitat. Embora o comércio internacional de onças ou de suas partes esteja proibida, o felino ainda é frequentemente morto por seres humanos, particularmente em conflito com fazendeiros e agricultores na América do Sul. Apesar de reduzida, sua distribuição geográfica ainda é ampla. Ela faz parte da mitologia de diversas culturas indígenas americanas, incluindo a dos maias, astecas e guarani. Na mitologia maia, apesar de ter sido cotada como um animal sagrado, era caçada em cerimônias de iniciação dos homens como guerreiros.

Etimologia

"Onça" origina-se do termo grego lygx, através do termo latino luncea e do termo italiano lonza.[4] No Brasil, o nome "onça-pintada" é o mais utilizado, sendo que "pintada" é uma alusão à pelagem cheia de manchas e rosetas, ao contrário da outra "onça", a onça-parda.[4]

"Jaguar" origina-se do termo tupi ya'wara, e pode ser traduzido como "fera" e até "cão", já que o termo era utilizado pelos indígenas para se referir a qualquer "fera" antes da chegada dos europeus.[5] Com a colonização européia e a chegadas dos cães, a palavra passou a ser usada apenas como referência aos cachorros, e "ya'wara-etê" passou a se referir à onça-pintada, originando o termo "jaguaretê".[5] Este último termo significa "fera verdadeira", através da junção de ya'wara (fera) e eté (verdadeiro).[5] "Yaguareté" é um nome usado em países de língua espanhola em que há muitos descendentes dos guaranis, como a Argentina e Paraguai.[5] "Acanguçu" e "canguçu" originam-se do termo tupi akãgu'su, que significa "cabeça grande", através da junção de akanga (cabeça) e usu ("grande").[4] "Jaguarapinima" vem do tupi ya'wara (onça) e pi'nima (pintada)[4] . "Tigre" é um termo de origem iraniana.[4]

A designição "pantera", vem do latim, panthera, que também é o primeiro componente do nome científico. Panthera, em grego, é uma palavra para leopardo, πάνθηρ. A palavra é uma composição de παν- "todos" e θήρ vem de θηρευτής "predador", significando "predador de todos" (animais), apesar de que esta deve ser considerada uma etimologia popular.[6] A palavra deve ter uma origem do Sânscrito, "pundarikam", que significa "tigre".[7]

Taxonomia e evolução

Embora numerosas subespécies foram reconhecidas no passado, estudos recentes sugerem a existência de três apenas.

A onça-pintada é o único membro atual do gênero Panthera no Novo Mundo. Filogenias moleculares evidenciaram que o leão, o tigre, o leopardo, o leopardo-das-neves e o leopardo-nebuloso compartilham um ancestral em comum exclusivo, e esse ancestral viveu entre seis e dez milhões de anos atrás apesar do registro fóssil apontar o surgimento do gênero Panthera entre 2 000 000 e 3 800 000 de anos atrás.[8] [9] Estudos filogenéticos geralmente mostram o leopardo-nebuloso como um táxon basal ao gênero Panthera.[8]

Baseado em evidências morfológicas, o zoológo britânico Reginald Pocock concluiu que a onça-pintada é mais próxima ao leopardo.[10] Entretanto, filogenias baseadas no DNA são inconclusivas à posição da onça-pintada em relação às outras espécies do gênero, mas coloca a onça-pintada como mais próxima do leão.[8] Fósseis de espécies extintas do gênero Panthera, como o jaguar-europeu (Panthera gombaszoegensis) e o leão-americano(Panthera atrox), mostram características tanto da onça-pintada quanto do leão.[10] Entretanto, é possível que o jaguar-europeu seja uma subespécie da atual onça-pintada.[11] Análise do DNA mitocondrial apontam para o surgimento da espécie entre 280 000 e 510 000 anos atrás, bem depois do que é sugerido pelo registro fóssil.[12]

Relações filogenéticas da onça-pintada.[8]


Neofelis nebulosa - pantera-nebulosa





Panthera tigris - tigre



Panthera uncia - leopardo-das-neves





Panthera pardus - leopardo




Panthera leo - leão



Panthera onca - onça-pintada






Filogenia inferida a partir de estudos citogenéticos e moleculares.

Ancestral asiático

Apesar de habitar o continente americano, a onça-pintada descende de felinos do Velho Mundo. Cerca de 2,87 milhões de anos atrás, a onça-pintada, o leão e o leopardo, compartilharam um ancestral comum na Ásia.[8] [13] No início do Pleistoceno, os precursores da atual onça atravessaram a Beríngia e chegaram na América do Norte: a partir daí alcançaram a América Central e a América do Sul.[13] A linhagem da onça-pintada se separou da linhagem do leão (que compartilham um ancestral comum exclusivo, sendo a espécie mais próxima da onça-pintada), há cerca de 2 milhões de anos.[8]

Subespécies e variação Geográfica

A última delineação taxonômica foi feita por Pocock em 1939. Baseado em origens geográficas e morfologia de crânio, ele reconheceu oito subespécies. Entretanto, ele não teve acesso a um número suficiente de espécimes para fazer uma análise crítica das subespécies, e expressou dúvida sobre a validade de várias delas. Uma reconsideração posterior reconheceu apenas três subespécies.[14]

Estudos recentes não demonstraram a existência de subespécies bem definidas, e muitos nem reconhecem a existência delas.[15] Larson (1997) estudou a variação morfológica na onça-pintada e demonstrou que existe variação clinal entre a ocorrência sul e norte da espécie, mas a variação dentro das subespécies é maior do que entre elas, e portanto, não há garantia da existência das subespécies.[16] Um estudo genético confirmou a ausência de divisões geográficas entre as populações, apesar de que foi demonstrado que grandes barreiras geográficas, como o rio Amazonas, limita o fluxo gênico entre as populações.[12] Um estudo subsequente, caracterizou mais detalhadamente a variação genética e encontrou diferenças populacionais nas onças da Colômbia.[17]

As divisões de Pocock (1939) ainda são regularmente citadas em muitas decrições do felino. Seymour reconhece apenas três subespécies.[1] [14]

  1. Panthera onca onca Linnaeus, 1758: Venezuela através da bacia amazônica, incluindo
    • P. onca peruviana Blainville, 1843: costa do Peru
  2. P. onca hernandesii Gray, 1857: oeste do México – incluindo
  3. P. onca palustris Ameghino, 1888(a maior subespécie, pesando mais de 135 kg):[18] Ocorre no Pantanal, regiões do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Brasil, ao longo da bacia do rio Paraguai no Paraguai e nordeste da Argentina.

O Mammal Species of the World continua a reconhecer nove subespécies, adicionando P. o. paraguensis Hollister, 1914.[1]

Distribuição geográfica e habitat

A onça-pintada vive em uma ampla variedade de habitats, desde campos abertos até florestas densas, mas geralmente, associados a cursos d'água permanentes.

A onça-pintada é presente desde o México, passando pela América Central, até a América do Sul, incluindo toda a bacia Amazônica, no Brasil.[19] Os países que a onça-pintada ocorrem são: Argentina, Belize, Brasil, Bolívia, Colômbia, Costa Rica (particularmente na península de Osa), Equador, Guiana Francesa, Guatemala, Guiana, Honduras, México,Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Suriname, Estados Unidos e Venezuela. Foi extinta de El Salvador e do Uruguai.[2] Ocorre nos 400 km² do Reserva Natural de Cockscomb em Belize, nos 5 300 km² da Reserva da Biosfera Sian Ka'an, no México, nos 15 000 km² do Parque Nacional de Manú no Peru, nos 26 000 km² do Parque Indígena do Xingu e nos cerca de 1 800 km² do Parque Nacional do Iguaçu, ambos no Brasil, e em muitas outras unidades de conservação ao longo de sua distribuição.

A inclusão dos Estados Unidos na lista é baseada em ocorrências casuais no sudoeste do país, nos estados do Arizona, Texas e Novo México.[20] No início do século XX, a onça-pintada ocorria ao norte até o Grand Canyon e ao oeste até o Sul da Califórnia.[20]

A ocorrência histórica da espécie inclui a metade sul dos Estados Unidos no limite norte, e quase todo continente sul-americano, no limite sul. Atualmente, sua distribuição ao norte recuou 1 000 km, e ao sul, cerca de 2 000 km. Fósseis de onça-pintada, datados entre 40 000 e 15 000 anos atrás, mostram a ocorrência dessa espécie na era do Gelo até o Missouri.[21]

A onça-pintada habita florestas tropicais na América do Sul e América Central, áreas abertas, e com inundações periódicas, como o Pantanal. Há uma preferência por áreas de floresta densa e chuvosa, sendo escassa em regiões mais secas, como nos pampas argentinos, nas secas savanas do México, e sudoeste dos Estados Unidos.[22] A onça ocorre em florestas tropicais, subtropicais e secas (incluindo, historicamente, as florestas de carvalho nos Estados Unidos). A onça-pintada é dependente de cursos d'água permanentes, vivendo preferencialmente próximo a rios e pântanos, e florestas chuvosas. Não ocorre em altitudes maiores de 3 800 m, e evitam florestas montanas no México e nos Andes.[22]

Descrição

A cabeça da onça-pintada é robusta e a mandíbula é extremamente poderosa. O tamanho dos indivíduos tende a ser maior quanto mais longe das regiões equatoriais.

A onça-pintada é um animal robusto e musculoso. Tamanho e peso variam consideravelmente: o peso normalmente está entre 56 a 96 kg. Os maiores machos registrados pesavam até 160 kg (tendo o peso de uma leoa ou tigresa), e as menores fêmeas chegavam a ter 36 kg.[23] As fêmeas são entre 10 a 20 % menores que os machos. O comprimento da ponta do focinho até a ponta da cauda varia de 1,2 m a 1,95 m.[15] [24] Sua cauda é a menor dentre os grandes felinos, tendo entre 45 e 75 cm de comprimento. Suas pernas também são curtas, consideravelmente mais curtas se comparadas a um tigre ou leão com mesma massa corporal, mas são mais grossas e robustas. A onça-pintada tem entre 63 a 75 cm de altura, se medida até a altura dos ombros.[25] Comparada ao leopardo, a onça é maior, mais pesada e atarracada.[14]

Variações no tamanho são observadas ao longo das regiões de ocorrência da onça, com o tamanho tendendo a aumentar nos indivíduos nos limites norte e sul da distribuição geográfica, com os menores indivíduos sendo encontrados na Amazônia e regiões equatoriais adjacentes. Um estudo realizado na Reserva da Biosfera Chamela-Cuixmala na costa do Pacífico no México, reportou medidas de massa corporal ao redor de 50 kg, não muito maior que uma suçuarana.[26] Em contraste, no Pantanal, a média de peso foi de cerca de 100 kg, e machos mais velhos não raramente chegavam a pesar mais de 130 kg.[27] [28] Onças que ocorrem em ambientes florestais frequentemente são mais escuras na coloração da pelagem e menores do que aquelas encontradas em regiões de campos abertos (como no Pantanal), possivelmente, devido ao menor número de presas de grande porte em florestas.[22]

A forma corporal atarracada e robusta torna a onça-pintada capaz de nadar, rastejar e escalar.[25] A cabeça é grande e a mandíbula é desenvolvida e forte.[29] A onça-pintada possui a mordida mais forte de todos os felinos, capaz de alcançar até 910 kgf. É duas vezes a força da mordida de um leão e só não é maior que a da mordida de uma hiena; tal força é capaz de quebrar o casco de tartarugas.[30] Um estudo comparativo colocou a onça-pintada como em primeiro lugar em força de mordida, ao lado do leopardo-das-neves, e à frente do leão e do tigre.[31] É dito que uma onça é capaz de arrastar um touro de até 360 kg por 8 m e quebrar ossos com as mandíbulas.[32] A onça-pintada caça grandes herbívoros de até 300 kg em florestas densas, como a anta, e seu corpo forte e atarracado é uma adaptação a esse tipo de presa e ambiente. A cor de fundo da pelagem da onça é uma amarelo acastanhado, mas pode chegar ao avermelhado e marrom e preto, para todo o corpo.[25] As áreas ventrais são brancas.[25] A pelagem é coberta por rosetas, que servem como camuflagem, usando o jogo de luz e sombra do interior de florestas densas. As manchas variam entre os indivíduos: rosetas podem incluir um ou várias pontas em seu interior, e a forma das pintas também pode variar. As manchas e pintas da cabeça e pescoço costumam ser sólidas, e na cauda, elas se unem, de forma a aparecer bandas.

Variedades melânicas da onça-pintada ocorrem com uma frequência de 6% nas populações selvagens.

Enquanto a onça-pintada lembra o leopardo, além dela ser maior e mais robusta, as rosetas são diferentes nessas duas espécies: as rosetas da pelagem da onça-pintada são maiores, menos numerosas, mais escuras, são formadas por linhas mais grossas e possuem pintas no meio delas, que não são encontradas nas rosetas do leopardo. As onças também possuem cabeças maiores e arredondadas, e membros mais atarracados se comparados com os do leopardo.[33]

Melanismo

Polimorfismo na cor ocorre na espécie. Variedades melânicas são frequentes. Em indivíduos totalmente pretos, quando visto sob a luz e de perto, é possível observar as rosetas.

A forma totalmente preta (chamada de onça-preta) é mais rara que a forma de cor amarelo-acastanhado, representando cerca de 6 % da população, o que é uma frequência muito maior do que a taxa de mutação.[34] Portanto, a seleção natural contribuiu para a frequência de indivíduos totalmente negros na população. Existem evidências de que o alelo para o melanismo na onça-pintada é dominante.[35] Ademais, a forma melânica é um exemplo de vantagem do heterozigoto; mas dados de cativeiro não são conclusivos quanto a isso.

Apesar de ser conhecida popularmente como onça-preta, é apenas uma variação natural, não sendo uma espécie propriamente dita.

Indivíduos albinos são muito raros, e foi reportada a ocorrência na onça-pintada, assim como em outros grandes felinos.[22] Como é usual com o albinismo na natureza, a seleção natural mantém a frequência da característica próxima à taxa de mutação.

Ecologia e comportamento

A onça-pintada tem uma mordida excepcionalmente forte que permite quebrar cascos de tartarugas.

A onça-pintada é um superpredador, o que significa que está no topo da cadeia alimentar e não é predada no ambiente em que vive. Também pode ser considerada como uma espécie-chave, já que é importante no controle das populações de mamíferos herbívoros e granívoros, contribuindo para a manutenção da integridade dos ecossistemas florestais.[36] [37] Entretanto, qual o efeito que a onça-pintada tem no ecossistema é difícil, pois os dados devem ser comparados com ambientes em que ela não ocorre, e controlar o efeito das atividades humanas em tais ambientes. É aceito que presas de tamanho médio aumentam de população na ausência de superpredadores, e pensa-se que isso tem um efeito cascata negativo no ecossistema.[38] Porém, trabalhos de campo mostraram que isso pode ser uma variabilidade natural, e que o aumento populacional não se sustenta. Portanto, a hipótese do superpredador não é largamente aceita.[39]

A onça-pintada também possui um efeito em outros predadores. Ela e a suçuarana ou onça-parda, são frequentemente simpátricos e são estudadas em conjunto. Onde a suçuarana é simpátrica com a onça-pintada, o tamanho da primeira tende a ser menor que o das onça-pintadas locais. Estas últimas tendem a matar presas maiores, geralmente, com mais de 22 kg, e a suçuarana, menores, entre 2 e 22 kg.[40] [41] Esta parece ser uma situação vantajosa para a onça-parda. Sua capacidade de expandir seu nicho ecológico, incluindo, de se alimentar de presas menores, a torna mais adaptável que a onça-pintada a ambientes perturbados pelo homem;[36] o que se reflete em sua maior distribuição geográfica e menor risco de extinção.

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Onça caçando um jacaré-do-pantanal, no Pantanal.
Onça caçando um jacaré-do-pantanal, no Pantanal.

Dieta, forrageamento e caça

Como todos os felinos, a onça-pintada é um carnívoro obrigatório, se alimentando somente de carne. É um caçador oportunista, e sua dieta inclui até 87 espécies de animais. A onça pode predar, teoricamente, qualquer vertebrado terrestre ou semi-aquático nas Américas Central e do Sul, com preferência por presas maiores. Ela regularmente preda jacarés, veados, capivaras, antas, porcos-do-mato, tamanduás e até mesmo sucuris.[14] [42] [43] Entretanto, o felino pode comer qualquer pequena espécie que puder pegar, como ratos, sapos, aves (principalmente mutuns), peixes, preguiças, macacos e tartarugas; um estudo conduzido no Santuário de Cockscomb, em Belize, revelou que a dieta das onças era constituída principalmente por tatus e pacas.[44] Em áreas mais povoadas ou com grande número de pecuaristas, a onça-pintada preda o gado doméstico, e muitas vezes parece ter um preferência por esse tipo de presa (no Pantanal, foi constatado que até 31,7% de sua alimentação era constituída por bezerros de gado bovino).[43] [45] Pelo grande porte, é capaz de se alimentar até de outros felinos de tamanho menor, como a jaguatirica (Leopardus pardalis), apesar de ser incomum.[46]

A onça-pintada geralmente mata com uma mordida no pescoço, sufocando a presa, como é típico entre os mesmo do gênero Panthera, mas às vezes ela mata por uma técnica única entre os felinos: ela morde o osso temporal no crânio, entre as orelhas da presa (especialmente se for uma capivara) com os caninos, acertando o cérebro.[47] [48] Isto também permite quebrar cascos de tartaruga, após as extinções do Pleistoceno, quelônios podem ter se tornado presas abundantes em seu habitat.[22] [49] A mordida na cabeça é empregada em mamíferos, principalmente, enquanto que em répteis, como jacarés, a onça-pintada ataca o dorso do animal, acertando a coluna cervical, imobilizando o alvo. Embora capaz de rachar o casco de tartarugas, a onça pode simplesmente esmagar o escudo com a pata e retirar a carne.[50] Quando ataca tartarugas-marinhas que vão nidificar na praia, a onça ataca a cabeça, e frequentemente decapita o animal, antes de arrastá-la para comer.[51] Ao caçar cavalos, a onça pode pular sobre o dorso, colocar uma pata no focinho e outra na nuca, de forma de deslocar o pescoço. Moradores de ambientes em que ocorre a onça-pintada já contaram anedotas de uma onça que atacou um par de cavalos, e depois de ter matado um, ainda arrastou o outro, ainda vivo.[52] Em presas pequenas, como pequenos cães, uma pancada forte com as patas é suficiente para matar.

A onça-pintada caça em espreita e formando emboscadas, perseguindo pouco a presa. O felino anda de forma lenta, ouvindo e espreitando a presa, antes de armar a emboscada ou atacá-la. Ela ataca por cima, através de algum ponto cego da presa, com um salto rápido: as habilidades de espreita e emboscada dessa espécie são consideradas inigualáveis tanto por povos indígenas quanto por pesquisadores, e tal capacidade deve derivar do papel de ser um superpredador nos ambientes em que vive. Quando arma a emboscada, a onça pode saltar na água enquanto persegue a presa, já que é capaz de carregar grandes presas nadando, sua força permite levar novilhos para a copa das árvores.[50]

Após matar a presa, a onça arrasta a carcaça para alguma capoeira ou outro lugar seguro. Começa a comer pelo pescoço e peito, em vez de começar pelo ventre. O coração e pulmões são consumidos, seguidos pelos ombros.[50] A necessidade diária alimentar de um indivíduo com 34 kg (que é menor peso encontrado em um indivíduo adulto) é de 1,4 kg.[20] Para animais em cativeiro, pesando entre 50 a 60 kg, mais de 2 kg de carne são recomendados.[53] Em liberdade, o consumo é naturalmente mais irregular: felinos selvagens gastam considerável energia e tempo para obter alimento, e podem comer até 25 kg de carne de uma só vez, seguidos por longos períodos sem se alimentar.[54] Ao contrário das outras espécies do gênero Panthera, a onça-pintada raramente ataca seres humanos. Muitos dos escassos casos reportados mostram que tratavam-se de indivíduos velhos ou feridos, com dentes danificados. Às vezes, se feridas ou ameaçadas, as onças podem atacar os tratadores em zoológicos.[55]

Território e comportamento social

Como muitos felinos, a onça-pintada é solitária, exceto quando formam pequenos grupos de mãe e filhotes. Adultos encontram-se somente no período de corte e acasalamento (embora socializações não relacionadas a esses eventos foram observados anedoticamente[50] ) e mantém grandes territórios para si. Os territórios das fêmeas, que têm entre 25 e 40 km² de área, podem se sobrepor, mas os animais geralmente se evitam nesses locais. Machos podem ter áreas duas vezes maiores do que essas, variando o tamanho de acordo com a disponibilidade de recursos, e seus territórios nunca se sobrepõem.[50] [56] A onça-pintada usa marcas de arranhões, urina e fezes para marcar território.[44] [57]

Como outros grandes felinos, a onça é capaz de rugir[58] [59] e faz isso para repelir competidores: ataques com indivíduos intrusos podem ser observados em liberdade.[49] Seu rugido lembra uma repetitiva tosse, e as vocalizações podem consistir também de grunhidos.[28] Brigas por cópulas entre machos podem ocorrer, mas são raras, e comportamentos evitando a agressão podem ser observados[44] Quando ocorre, o conflito é tipicamente territorial: o território de um macho geralmente compreende o de uma ou duas fêmeas, e eles não toleram a invasão por intrusos.[50]

A onça-pintada é geralmente descrita como um animal noturno, mas é, mais especificamente, crepuscular (pico de atividade é durante a madrugada ou o crepúsculo). Ambos os sexos caçam, mas os machos se deslocam para mais longe do que as fêmeas, diariamente, o que é condizente com seus grandes territórios. A onça-pintada pode caçar durante o dia se existe caça disponível; é um felino relativamente enérgico, com cerca de 50 a 60% do tempo mantendo-se ativo.[22] A natureza arredia e a inacessibilidade de seus habitats preferidos tornam a onça-pintada um animal difícil de ser avistado e de ser estudado.

Reprodução e ciclo de vida

Mãe pegando filhote pelo pescoço.

As fêmeas da onça-pintada alcançam a maturidade sexual com cerca de 2 anos de idade, e os machos entre 3 e 4 anos. Acredita-se que esse felino copule durante todo o ano em estado selvagem, embora os nascimentos se concentrem em épocas que as presas abundem.[60] Pesquisas com machos em cativeiro suportam a hipótese de que os acasalamentos ocorrem durante o ano todo, com nenhuma variação em características do sêmen e da ejaculação: baixo sucesso reprodutivo também tem sido observado em cativeiro.[61] O estro dura entre 6 e 17 dias, em um ciclo de 37 dias, e fêmeas demonstram o período fértil com marcação de urina e aumento nas vocalizações.[60] Ambos os sexos se deslocam mais durante o período da corte.

O casal se separa após o ato sexual e as fêmeas providenciam todo o cuidado parental. A gestação dura entre 93 e 105 dias: elas podem dar à luz a até quatro filhotes, mas o mais comum é nascerem dois de cada vez. A mãe não tolera a presença de machos após o nascimento dos filhotes, visto o risco de infanticídio: tal comportamento também se observa no tigre.[50]

Os filhotes nascem cegos, e abrem os olhos após duas semanas. São desmamados após três meses, mas podem permanecer no ninho por até 6 meses, quando passam a acompanhar a mãe nas caçadas.[62] Eles continuarão com ela até os dois anos de idade, antes de estabelecerem um território sozinhos. Jovens machos são primeiramente nômades, competindo com outros mais velhos até que conseguem obter um território. Em estado selvagem, a onça-pintada vive entre 12 e 15 anos de idade, mas em cativeiro, pode viver até mais de 23 anos, sendo um dos felinos com maior longevidade.[28]

Conservação

O comércio internacional de peles de onça-pintada é proibido.

Atualmente, é classificada, pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais, como "quase ameaçada", visto sua ampla distribuição geográfica.[2] A onça-pintada é regulada pelo Appêndice I da CITES: todo comércio internacional de onças-pintada é proibido. A caça é proibida na maior parte dos países onde ocorre: Argentina, Colômbia, Guiana Francesa, Honduras, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Venezuela, Estados Unidos e Uruguai; sendo que a caça de "animais-problemas" (aqueles que atacam o gado doméstico) é permitida no Brasil, Costa Rica, Guatemala, México e Peru.[27] Na Guiana e no Equador, a espécie carece de proteção legal.[27]

Estudos detalhados realizados pela Wildlife Conservation Society mostraram que a espécie perdeu 37 % da sua distribuição histórica, e possui um status de conservação desconhecido em 17 % da sua área de ocorrência atual.[19] A onça-pintada foi extinta em grande parte do extremo norte e sul de sua distribuição geográfica, assim como em algumas regiões da América Central e no nordeste, leste e sul do Brasil.[19] [63] Encorajador para a conservação da espécie, é de que a probabilidade de sobrevivência a longo prazo é considerada alta em 70 % de seu habitat, notadamente nas regiões da Amazônia, do Gran Chaco e do Pantanal.[19] Entretanto, apenas nesta regiões citadas a onça ainda tem chances de sobrevivência a longo prazo, enquanto que no restante de sua ocorrência, incluindo o México; a América Central; o Cerrado, a Caatinga e a Mata Atlântica, no Brasil; ela encontra-se em algum grau de ameaça de extinção a curto e médio prazo.[2] As estimativas populacionais variam ao longo da distribuição geográfica, sendo que em Belize, estimou-e que existiam cerca de 600 a mil onças no país; no México, há variação do grau de conservação ao longo do país , sendo que, em 1990, por exemplo, na província de Chiapas, havia 350 onças; e na Reserva da Biosfera Maya na Guatemala havia entre 465-550.[27] As maiores ameaças à onça-pintada são a fragmentação de seu habitat e a caça.[2] Em áreas mais alteradas pelo homem, atropelamentos em rodovias que cortam unidades de conservação são também fatores que diminuem significativamente as populações.[64] [65]

A caça para obtenção para o comércio de peles já foi um grande problema na conservação da espécie: na década de 1960, houve uma diminuição significativa no número de indivíduos, pois anualmente mais de 15.000 peles foram exportadas ilegalmente da Amazônia Brasileira.[66] A implementação da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção, em 1973, resultou numa forte queda do comércio de peles.[66]

Entretanto, é a caça por parte de fazendeiros, que considera o animal uma ameaça às criações de gado, uma das atividades que mais tem contribuído para extinções locais da espécie.[27] Em áreas próximas a grandes populações humanas, como em Guaraqueçaba, as onças-pintadas acabam mostrando uma preferência pelo gado doméstico, talvez por uma diminuição na densidade populacional de suas presas habituais, o que acaba incomodando os criadores de gado.[45]

Como observado na região da Mata Atlântica, as estratégias de conservação da onça-pintada são dificultadas pela intensa fragmentação de seu habitat em algumas regiões. Algumas unidades de conservação em que existem onças em pequeno número estão isoladas: como o caso da Reserva Biológica de Sooretama e a Reserva Natural Vale, que contam com menos de 20 indivíduos e são os únicos fragmentos de floresta capazes de abrigar onças-pintada. Sendo assim, é necessário que se criem "corredores" unindo as unidades de conservação, impedindo, inclusive, que os animais precisem sair de áreas florestadas e causar problemas às populações rurais.[19] [67] [68] Foi criada a iniciativa, idealizada por Alan Rabinowitz, de que se una todas as áreas de ocorrência da onça-pintada, desde o norte do México até a América do Sul, constituindo o chamado Paseo del Jaguar.[67] [68]

Conservação no Brasil

O Brasil detém cerca de 50% das populações de onça-pintada em estado selvagem, a maior parte delas, na Amazônia.[69] É no Brasil em que se foi registrada as maiores densidades da espécie, também. Ela ocorre em todos os biomas brasileiros (exceto nos Pampas, ao qual já foi extinta), com diferentes estados de conservação em cada um destes.[69] Estudos demográficos concluíram que uma população de mais de 200 indivíduos em uma dada unidade de conservação é a adequada para uma sobrevivência a longo prazo da espécie: a maior parte destas áreas protegidas está na Amazônia e no Pantanal. Na Mata Atlântica, nenhuma população é viável por mais de 100 anos.[69]

Dado esta situação, a onça-pintada é listada como "vulnerável" pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, entretanto, seu status de conservação varia pelo país, sendo considerada "criticamente em perigo" no estados de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro,[70] [71] o que alerta para uma extinção da espécie nesses estados em um futuro muito próximo.

Na Mata Atlântica, a população total não ultrapassa estimativas entre 156 e 180 indivíduos, mas a população efetiva não é de mais de 50 indivíduos, sendo classificada como "criticamente em perigo".[72] [73] [74] Neste bioma, a Serra do Mar, o Parque Nacional do Iguaçu e o Parque Estadual do Turvo (que são contínuos entre si por meio do "Corredor Verde", da província de Misiones, na Argentina), o Pontal do Paranapanema, o Parque Nacional de Ilha Grande e as várzeas do rio Ivinhema são os locais com as maiores populações de onça-pintada.[72] De fato, a espécie está restrita a unidades de conservação nestas regiões, e em número muito reduzido em algumas delas: no Parque Nacional do Iguaçu, um dos últimos locais no sul do Brasil onde ainda é encontrada, estima-se que exista no máximo 12 indivíduos,[65] no Parque Nacional do Monte Pascoal, a estimativa está entre 1 e 5 animais, e apenas uma deve ocorrer na Serra do Espinhaço.[72] A Mata Atlântica é o bioma tropical com maior probabilidade de extinção da onça-pintada a curto prazo, e apesar de 24% dos remanescentes de floresta serem adequados para a ocorrência da espécie, ela ocorre em apenas 7% deles.[73] Ademais, a recuperação das populações de onça-pintada, neste bioma, é problemática, visto o alto grau de degradação e perda de habitat: é necessário a integração, via corredores ecológicos das unidades de conservação onde ela ainda ocorre.[75]

O Pantanal, no Brasil, é uma das áreas em que existem as maiores populações de onça-pintada.

Na Caatinga, a situação também é crítica, com estimativas não ultrapassando 250 indivíduos adultos, apesar de que pouco se conhece a cerca da demografia da onça-pintada neste bioma.[76] A população está dividida em 5 subpopulações, sendo que apenas as que ocorrem no complexo dos parques nacionais da Serra da Capivara e da Serra das Confusões, no Piauí, possuem boas perspectivas de sobrevivência a longo prazo.[76] Nestes parques, a densidade de onças ultrapassa 2 indivíduos por 100 km², entretanto, ela é muito baixa em outras regiões, não chegando a 0,5 indivíduo por 100 km².[76] Além da crescente perda de habitat, a onça-pintada na Caatinga é ameaçada pela caça, principalmente como forma de retaliação por fazendeiros.[76]

No Cerrado, a onça-pintada é classificada como situação melhor que na Caatinga e Mata Atlântica, entretanto, ela também está ameaçada, principalmente por conta do agronegócio, que converteu mais da metade do Cerrado em campos cultivados nos últimos 50 anos.[77] A construção de usinas hidrelétricas e a mineração também é razão para a perda do habitat.[77] A caça como forma de retaliação por fazendeiros e a diminuição de presas disponíveis são ameaças diretas às populações remanescentes, mesmo em áreas protegidas.[77] As estimativas é de que não exista mais de 323 indivíduos adultos, divididos em 11 subpopulações.[77] A maior parte das onças do Cerrado encontra-se no complexo dos parques nacionais do Araguaia e das Nascentes do Rio Parnaíba, no complexo dos parques nacionais do Grande Sertão Veredas e Cavernas do Peruaçu e no norte de Goiás e sul do Tocantins.[77]

O Pantanal possui uma das maiores densidades registradas da onça-pintada (entre 6,5 e 7 indivíduos por 100 km²).[78] Além, disso, este bioma foi pouco alterado pelo homem, apesar de na bacia do Alto Paraguai mais de 50% da vegetação já ter sido alterada. Essa situação coloca a onça-pintada no Pantanal como "quase ameaçada", situação melhor que no Cerrado ("em perigo"), na Mata Atlântica e Caatinga (ambas em situação "crítica").[78] Visto ser região com criação de gado, a caça como retaliação por conta de ataques ao gado, é uma das maiores ameaças.[78] Entretanto, em unidades de conservação do Pantanal, como o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, a onça-pintada tem boas perspectivas de sobrevivência a longo prazo.[69] [75]

Na Amazônia, apesar de ser estimado ocorrer até mais de 10.000 indivíduos adultos (a maior estimativa para todos os biomas), com uma densidade média de 1 a 2 onças a cada 100 km² (com maior densidade em áreas alagáveis bem preservadas), é considerada como "espécie vulnerável": o crescente desmatamento, a caça e a diminuição de presas disponíveis coloca a onça-pintada em algum grau de ameaça na Amazônia brasileira.[3] As populações não estão separadas, mas em um futuro próximo, ela pode estar divida entre 4 ou 5 subpopulações.[3] Destas, 4 estariam no "arco do desflorestamento", e se o atual ritmo de desmatamento continuar, as populações do sudoeste de Rondônia, nordeste do Mato Grosso norte do Maranhão estarão extintas em 100 anos (há chance de sobrevivência apenas das populações no sul do Pará).[3] No século XX, principalmente nos anos 60, a grande ameaça à onça-pintada na Amazônia era o comércio internacional de peles, atividade que está proibida atualmente.[3] Ainda assim, a caça por conta de conflito de interesses com fazendeiros de gado e a diminuição de presas disponíveis constituem-se em ameaças importantes.[3]

Um plano nacional para a conservação da espécie foi estabelecido em 2009.[79] foram definidas 20 unidades de conservação como prioritárias para a conservação da onça-pintada no Brasil, entre terras indígenas, áreas de uso sustentável e de proteção integral.[79] Embora na Amazônia e Pantanal grande parte da vegetação é contínua, isso não ocorre nos outros biomas, principalmente na Mata Atlântica, o que torna necessário estudos de ecologia de paisagem para a aplicação do plano.[79] Com a aplicação desse plano, com a integração das várias unidades de conservação da onça-pintada, é possível salvar a espécie da extinção, principalmente por conta de ainda existirem populações saudáveis e viáveis a longo prazo no Brasil.[79]

Conservação nos Estados Unidos

A Serra de Santa Rita é local onde foi registrado um indivíduo de onça-pintada nos Estados Unidos.

Nos Estados Unidos, a onça-pintada foi citada, historicamente, por Thomas Jefferson em 1799.[80] Há inúmeras citações da espécie na Califórnia, duas tão ao norte quanto Monterey em 1814 (por Langsdorff) e em 1826 (por Beechey).[81] O povo Kumeyaay de San Diego e o povo Cahuilla de Palm Springs tinham palavras para a onça-pintada e ela ocorreu neste locais até 1860.[82] A única descrição de uma ninhada de onças nos Estados Unidos foi nas Montanhas Tehachapi da Califórnia, antes de 1860.[81] Em 1843, Rufus Sage, um explorador e experiente observador registrou a presença da onça-pintada na nascente do rio Platte Norte, ao norte do Longs Peak no Colorado. O mapa de Sebastião Caboto de 1544 tinha um desenho de onça-pintada nos vales da Pensilvânia e Ohio. Historicamente, a espécie foi registrada no leste do Texas, norte do Arizona e Novo México. Entretanto, desde a década de 1940, a onça-pintada tem se limitado ao sul desses estados. Artefatos de nativos americanos relacionados a esse felino sugerem uma ocorrência desde o Noroeste Pacífico até a Pensilvânia e a Flórida.[83]

Atualmente, os registros de onça-pintada nos Estados Unidos se resumem a avistamentos eventuais de machos, provavelmente não residentes.[63] A espécie foi rapidamente eliminada pelos americanos nos Estados Unidos. A última fêmea foi morta em 1963, nas White Mountais, no Arizona. A caça da onça-pintada foi proibida em 1969, mas já não restava nenhuma fêmea, e os únicos dois machos encontrados foram mortos. Em 1996, Warner Glenn, um fazendo e guia de caça de Douglas, encontrou uma onça-pintada nas Montanhas Peloncillo e se tornou um pesquisador da espécie, instalando câmeras que registraram outros quatro indivíduos.[84] Nenhum desses machos registrados no Arizona durante 15 anos foram avistados dede 2006.[85] Até que, em 2009, um indivíduo nomeado Macho B, morreu logo após ter sido marcado pelo Arizona Game and Fish Department (AGFD). Em 2011, um macho de cerca de 90 kg foi fotografado perto de Cochise, sul do Arizona, após ter sido detectado por seus cães. Um segundo avistamento foi feito em 2011, também no Arizona, e pesquisadores confirmaram a presença de dois indivíduos próximo à fronteira com o México em 2010.[86] Em setembro de 2012, outro indivíduo foi fotografado na Serra de Santa Rita do Arizona, o segundo registro em dois anos.[87] aparentemente, esse mesmo indivíduo foi fotografado inúmeras vezes em 9 meses, até junho de 2013.[88]

Em 1996 e 2004, guardas florestais no Arizona fotografaram e documentaram onças na parte sul do estado. Entre 2004 e 2007, dois ou três onças foram reportadas por pesquisadores ao redor do Refúgio Nacional da Vida Selvagem Buenos Aires no sul do Arizona. Um deles, chamado "Macho B", já havia sido avistado em 1996.[89] Para que exista uma população permanente e viável nos Estados Unidos, a proibição da caça, qa existência de presas, e a conectividade com populações do México são essenciais.[90] Em 25 de fevereiro de 2009, um macho de 53,5 kg foi capturado e marcado em um área a sudoeste de Tucson, que é uma região muito ao norte do que esperado, significando que deva existir alguma população residente no sul do Arizona.[91] Esse ano era o mesmo que foi fotografado em 2004.[91] Em 2 de março de 2009, descobriu-se que esse indivíduo, "Macho B", possuía insuficiência renal, e foi eutanasiado.[92] É a onça-pintada com maior longevidade em estado selvagem.[92]

O muro fronteiriço Estados Unidos-México pode inviabilizar o estabelecimento de populações de onça-pintada nos Estados Unidos, já que pode impedir o fluxo gênico com indivíduos residentes no México.[93]

Aspectos culturais

Culturas mesoamericanas

Onça da cultura Moche (300 AD) Museu Arqueológico Rafael Larco Herrera Lima, Peru.
Guerreiro-jaguar na cultura asteca.

Em culturas pré-colombianas das Américas Central e do Sul a onça-pintada foi um símbolo de força e poder. Entre as culturas andinas, o culto ao jaguar foi disseminado pela cultura Chavín e passou a ser aceito na maior parte do que é hoje o Peru a partir de 900 a.C. A cultura Moche, do norte do Peru, utilizava a onça como símbolo de poder em muitas das suas cerâmicas.[94] [95] [96]

Na Mesoamérica, a cultura Olmeca, precoce e influente na região da Costa do Golfo, aproximadamente contemporânea da cultura Chavín, desenvolveu um distinto "homem-jaguar" motivo de esculturas e figuras que mostram onças estilizadas ou seres humanos com características de onça. Na civilização maia, acreditava-se que a onça-pintada facilitava a comunicação entre os vivos e os mortos e protegia a família real. Os maias viam esses felinos poderosos como os seus companheiros no mundo espiritual. Uma série de governantes maias tinham nomes que incorporavam a palavra maia para a onça-pintada, b'alam. A civilização asteca compartilhou essa imagem do jaguar como representante do governador e como guerreiro. Os astecas formaram uma classe de guerreiros de elite conhecidos como guerreiros jaguares. Na mitologia asteca, a onça-pintada foi considerada o animal totêmico do poderoso deus Tezcatlipoca.[97]

Cultura contemporânea

A onça-pintada ainda é amplamente usada em manifestações simbólicas. É o animal nacional da Guiana, e é representada em seu brasão.[98] A bandeira do Departamento do Amazonas, da Colômbia, representa uma silhueta preta de onça pulando em direção a um caçador.[99] A onça-pintada também é representada na cédula de cinquenta reais, no Brasil.[100] Mesmo em indígenas sul-americanos contemporâneos a onça faz parte da mitologia e folclore, sendo um animal que é capaz de dar aos homens, o poder sobre o fogo.

O sinônimo de onça-pintada, "jaguar", é utilizado amplamente em nomes de marcas, como no carro Jaguar. Esse mesmo nome também é utilizado em franquias esportivas, como no time da National Football League, Jacksonville Jaguars, e no time de futebol mexicano, Jaguares de Chiapas. Uma banda de rock ganhadora do Grammy, "Jaguares", teve a escolha de seu nome baseada na imponência da onça-pintada, conhecida como jaguar em vários países da América Latina.

Uma onça-preta perdida em uma cidade da América do Sul é o personagem central no romance de 1941, Black Alibi, de Cornell Woolrich.

Nos Jogos Olímpicos de Verão de 1968, na Cidade do México, uma onça-pintada vermelha foi o primeiro mascote oficial.[101]

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