Minos
Na mitologia grega, Minos (em grego: Μίνως) foi um rei semi-lendário da ilha de Creta, filho de Zeus e da princesa fenícia Europa.1 Teria nascido em cerca de 1 445 a.C. e reinado de 1 406 a.C. a 1 204 a.C. (segundo a Crônica de Jerônimo de Stridon. Há diversas variantes de seu mito, tendo em algumas dela a existência de dois Minos. Além disso muitos estudiosos questionam a interessante semelhança entre o nome Minos e o nome de outros reis semi-lendários da Antiguidade como Menés do Egito, Mannus da Germânia, Manu da Índia.
A civilização que prosperou em Creta, quando foi descoberta pelo arqueólogo Arthur Evans, recebeu a alcunha de minoica, em referência a Minos.2 Dentro da hierarquia minoica, os reis recebiam o nome de Minos, o que teria salientado, possivelmente, a origem de tal mito.3 No poema épico A Divina Comédia, Minos aparece como um dos juízes do inferno sendo ele quem ouve as confissões dos mortos e designa-os a um círculo ou subcírculo específico de acordo com a falta relatada.4
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História[editar]
Família[editar]
Minos era filho de Zeus, que havia raptado Europa, filha de Agenor e Teléfassa, ou filha de Fênix, filho de Agenor e Teléfassa. Foi para procurar Europa que Agenor enviou seus outros filhos, que, desistindo da busca, fundaram vários reinos: Cadmo fundou Tebas, Fênix a Fenícia, Cílix a Cilícia e Tasos a cidade da ilha de Tasos.1
Zeus se transformou em um touro, e levou Europa até Creta; lá, Europa teve três filhos com Zeus: Minos, Sarpedão e Radamanto.1 Astério, rei de Creta, casou-se com Europa, e criou seus filhos.5
Início do reinado em Creta[editar]
Após a morte de Astério, houve uma rivalidade entre os filhos de Europa, pois estes haviam apaixonado-se pelo mesmo homem, Mileto, filho de Apolo e Aria, filha de Cleochus. Por Mileto preferir Sarpedão, Minos entrou em guerra aberta contra ambos, o que causou a fuga destes para a Cária. Segundo outra versão, o motivo da briga foi Atymnius, filho de Zeus e Cassiepea. Mileto fundou a cidade de Mileto e Sarpedão se aliou a Cílix, em guerra com os lícios.5 Outra versão afirma que Radamanto também foi exilado da ilha tendo ele ido para a Beócia, e seu irmão Sarpedão para a Anatólia onde conquistou os mílios e terminou como rei destes.6 7 8 9 Radamanto quando morreu tornou-se um dos três juízes do inferno.10
Minos fez as leis dos cretenses, e se casou com Pasífae, filha de Hélio e Perseis, no entanto, segundo Asclepíades, Minos casou-se com Creta, filha de Astério. Seus filhos foram Catreu, Deucalião, Glauco e Androgeu, e suas filhas foram Acalle, Xenodice, Ariadne e Fedra;11 além destes, ele teve filhos com a ninfa Paria, Eurimedonte, Nephalion, Chryses e Philolaus, e com Dexithea ele teve o filho Euxanthius.5
Pasífae havia enfeitiçado Minos para que sempre que tentasse traí-la, bestas sairiam do corpo de seu marido e matariam sua amante; no entanto, Minos acabou por ter um caso com Prócris, filha de Erecteu e esposa de Céfalo, que antes já havia se prostituído para Pteleon, e havia fugido para Creta quando foi descoberta. Minos ofereceu a ela um cachorro veloz e um dardo que jamais errava o alvo e esta, em troca, ofereceu a ele uma raiz que permitiria que fossem para cama. No entanto, temendo Pasífae, Prócris regressou para Atenas.12
O Minotauro e o labirinto[editar]
Minos ansiava governar sobre Creta, no entanto, seu reinado era contestado, o que o levou a pedir que um touro emergisse do mar para ser sacrificado em sua homenagem, durante um sacrifício a Posidão; este atendeu o pedido, mas Minos, ao invés de sacrificar o touro, o colocou junto de seu rebanho e sacrificou outro touro no lugar.13 Em represália, Posidão fez com que o touro se tornasse selvagem e que Pasífae se apaixonasse por ele.14
Após ser banido de Atenas por ter assassinado Perdix,15 Dédalo, um famoso arquiteto e inventor ateniense, refugiou-se em Creta16 e lá construiu um aparelho mecânico de madeira no formato de uma vaca para que Pasífae pudesse copular com o touro. Da união do touro com Pasífae nasceu Astério, mais conhecido como Minotauro (criatura metade homem, metade touro), que foi encerrado no labirinto construído por Dédalo a mando de Minos.14
Androgeu e o tributo de Atenas[editar]
Androgeu havia vencido todas as provas dos jogos panatenaicos suscitando a inveja do rei Egeu, que acaba por mandar assassinar o príncipe.17 Minos invade então a Ática mas não logra tomar Atenas. Reza a Zeus para que este provoque peste e fome à cidade. Com a derrota do rei Egeu, Minos impôs um tributo de sete rapazes e sete moças que deviam ser sacrificados ao Minotauro anualmente.18
Teseu e o minotauro[editar]
Teseu, filho de Egeu, decidiu voluntariamente ser um dos escolhidos para irem a Creta serem devorados pelo Minotauro, prometendo a seu pai que iria matá-lo e se voltasse vitorioso, o navio, que habitualmente possuía velas pretas, teria velas brancas. Chegando em Creta, os jovens e donzelas são exibidos a Minos, e, durante a exibição, Ariadne avista Teseu e acaba por apaixonar-se por ele.17 Com a promessa de que levaria Ariadne para Atenas, Teseu recebe dela um novelo de lã encantado (o fio de Ariadne) e uma espada, que Teseu usou para matar a fera.19 Em outra versão, o herói mata a criatura a socos;20 ainda segundo outra versão, foi com a espada de ouro de seu pai, que Teseu alcançou a vitória.21
Para não perder-se durante o caminho, Ariadne segurou uma das pontas do novelo que se desenrolava a medida que Teseu adentrava no labirinto. Uma versão alternativa diz que o novelo foi preso na porta do labirinto.20 No meio do labirinto Teseu matou a fera, libertou os atenienses e retornou pelo mesmo caminho por onde havia adentrado.21 Após o grandioso feito, Teseu foge para seu navio acompanhado de Ariadne e os atenienses, no entanto, não zarpa da ilha antes de fender o casco dos navios cretenses.17
Durante a viagem de regresso Teseu aportou na ilha de Naxos para coletar água. Ariadne foi abandonada por Teseu na ilha, uma ocorrência para a qual há várias explicações: uma tempestade desviou o barco de Teseu; Minerva apareceu-lhe nos sonhos e ordenou que o fato fosse realizado; Teseu já era casado; Dioniso apaixonou-se por Ariadne, e acabou por enfeitiçar Teseu para esquecê-la;21 Dioniso ordena a Teseu que este abandone a jovem na ilha.20 Quando estavam próximos da costa de Atenas, Teseu tomado pela imensa alegria, esqueceu-se de trocar as velas do barco para brancas, fazendo com que Egeu, em um momento de desespero, se lançasse ao mar que hoje tem seu nome para homenageá-lo.19
Dédalo e Ícaro[editar]
Quando Minos descobriu que Dédalo tinha feito a vaca para Pasífae, este fugiu de Creta, com a ajuda da rainha.22 Ícaro (filho de Dédalo) foge com seu pai, mas acaba por morrer em um acidente naval na ilha que passou a se chamar Icária.23 Diodoro apresenta a versão alternativa de que Dédalo fugiu de Creta voando: com seu engenho inigualável, constrói para si e para seu filho dois pares de asas, ligadas com cera.24 Ícaro, deslumbrado com a beleza do firmamento, sobe demasiado e o Sol derrete a cera de suas asas, precipitando-o nas águas do mar Egeu, enquanto Dédalo consegue chegar à Sicília.25
Morte de Minos[editar]
Dédalo passou um bom tempo trabalhando para o rei Cócalo, construindo várias maravilhas.26 Minos, porém, quando soube que Dédalo tinha se refugiado na Sicília, resolveu fazer uma campanha contra a ilha. Desembarcando com uma grande força na ilha, no local chamado a partir de então de Heracleia Minoa, Minos demandou de Cócalo que entregasse Dédalo para ele ser punido,27 porém, o rei, trouxe Minos como convidado ao seu palácio, e assassinou-o durante o banho, fervendo-o em água quente. Cócalo devolveu o corpo de Minos aos cretenses, dizendo que ele tinha se afogado no banho;28 os cretenses o enterraram na Sicília,29 no lugar onde mais tarde foi fundada a cidade de Acragas, e lá seus restos ficaram até que Terone, tirano de Acragas, devolveu seus ossos para os cretenses.30
Após sua morte, Minos tornou-se, assim como Radamanto e Éaco, um dos três juízes do inferno, sendo ele o juiz responsável pelo veredito final.10 Seu sucessor foi seu filho Catreu
Versão do mito em que houve dois reis chamados Minos[editar]
Estas versões procuram conciliar o fato de Minos ser uma personalidade real, confidente de Zeus e legislador e, ao mesmo tempo, um homem cruel e violento.31 Plutarco racionaliza esta inconsistência propondo que sua imagem ruim foi construída pelos poetas trágicos de Atenas, e que foi uma infelicidade ser inimigo de uma cidade que domina a língua e a literatura.32 Diodoro Sículo supõe que o primeiro Minos era filho de Zeus e Europa, e sucedeu ao marido da sua mãe, Astério, rei de Creta. Este se casou com Ithone, filha de Lyctius, e desta união nasceu Licasto, seu sucessor. Licasto se casou com Idê, filha de Corybas, e desta união nasceu o segundo Minos. Este segundo é quem se tornou senhor dos mares,33 casou-se com Pasífae, filha de Hélio e Cretê, e teve vários filhos.34
| Precedido por Astério |
Rei de Creta |
Sucedido por Catreu |
Referências
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- ↑ Bennet 1996, pp. 985
- ↑ Santiago 2006, pp. 130-131
- ↑ Alighieri 1304-1321, pp. V.4
- ↑ a b c Pseudo-Apolodoro século I ou II, pp. 3.1.2.
- ↑ Diodoro Sículo século I a.C., pp. 5.79.3
- ↑ Pausânias 160-176, pp. 7.3.7
- ↑ Estrabão século I, pp. 12.8.5
- ↑ Heródoto c. 440 a.C., pp. 1.173
- ↑ a b Platão c. 387 a.C., pp. 424A
- ↑ Hesíodo século VIII a.C., pp. 119
- ↑ Pseudo-Apolodoro século I ou II, pp. 3.15.1
- ↑ Pseudo-Apolodoro século I ou II, pp. 3.1.3
- ↑ a b Pseudo-Apolodoro século I ou II, pp. 3.1.4
- ↑ Diodoro Sículo século I a.C., pp. 4.76.6
- ↑ Diodoro Sículo século I a.C., pp. 4.77.1
- ↑ a b c Salles 2008
- ↑ Pseudo-Apolodoro século I ou II, pp. 3.15.8
- ↑ a b Bulfinch 2006
- ↑ a b c Pavam 2006
- ↑ a b c Wilkinson 2010
- ↑ Diodoro Sículo século I a.C., pp. 4.77.5
- ↑ Diodoro Sículo século I a.C., pp. 4.77.6
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- ↑ Diodoro Sículo século I a.C., pp. 4.78.1-5
- ↑ Diodoro Sículo século I a.C., pp. 4.79.1
- ↑ Diodoro Sículo século I a.C., pp. 4.79.2
- ↑ Diodoro Sículo século I a.C., pp. 4.79.3
- ↑ Diodoro Sículo século I a.C., pp. 4.79.4
- ↑ Plutarco século I, pp. 16.3
- ↑ Plutarco século I, pp. 16.2
- ↑ Diodoro Sículo século I a.C., pp. IV.60.3
- ↑ Diodoro Sículo século I a.C., pp. IV.60.4
Bibliografia[editar]
- Bennet, John. Oxford Classical Dictionary (em inglês). Oxford: [s.n.], 1996. ISBN 978-0198661726
- Pseudo-Apolodoro. Biblioteca. [S.l.: s.n.], século I ou II.
- Diodoro Sículo. Biblioteca Histórica (em grego). [S.l.: s.n.], século I a.C..
- Pausânias. Descrição da Grécia (em grego). [S.l.: s.n.], 160-176.
- Estrabão. Geographia (em grego). [S.l.: s.n.], século I.. Geographica Tradução em inglês por H. C. Hamilton e W. Falconer no Perseus Project.
- Heródoto. Histórias (em grego). [S.l.: s.n.], c. 440 a.C..
- Platão. Górgias (em grego). [S.l.: s.n.], c. 387 a.C..
- Alighieri, Dante. A Divina Comédia. [S.l.: s.n.], 1304-1321.
- Salles, Catherine. Larousse das Civilização Antigas: Vol. I Dos faraós à fundação de Roma. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. ISBN 978-85-7635-443-7
- Bulfinch, Thomas. O livro da Mitologia: História de Deuses e Herois. [S.l.]: Martin Claret, 2006. ISBN 85-7232-656-1
- Wilkinson, Philip. Mitos & Lendas: Origens e significados. [S.l.]: Martins Fontes, 2010. ISBN 978-85-7827-327-9
- Santiago, Pedro. Por dentro da história. São Paulo: Escala Educacional, 2006. ISBN 987-85-7666-608-0
- Plutarco. Vida de Teseu. [S.l.: s.n.], século I.
- Hesíodo. Teogonia. [S.l.: s.n.], século VIII a.C.. Tradução em português: Regino, Sueli Maria de. Teogonia - Trabalhos e dias. São Paulo: Martin Claret, 2010. 144 p. ISBN 978-85-7232-708-4