Assexualidade

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Disambig grey.svg Nota: Este artigo é sobre humanos que não sentem atração sexual. Para outros usos, veja Reprodução assexuada.

Assexualidade[1][2][3] é a falta de atração sexual a qualquer pessoa, ou pequeno ou inexistente interesse nas atividades sexuais humanas.[4][5][6] Pode ser considerada a falta de uma orientação sexual, ou uma de suas variações, ao lado da heterossexualidade, da homossexualidade e da bissexualidade.[7][8][9] Também é considerado uma palavra-ônibus para caracterizar um espectro mais amplo de diferentes sub-identidades assexuais. Um estudo de 2004 descobriu que a prevalência de assexuais na população britânica era de 1%.[7][10]

A assexualidade difere da abstinência sexual e do celibato,[11][12] que são comportamentais e geralmente motivados por fatores como crenças pessoais ou religiosas.[13] Acredita-se que a orientação sexual, ao contrário do comportamento sexual, é "duradoura".[14] Algumas pessoas assexuais engajam em atividades sexuais, mesmo não tendo desejo por sexo ou atração sexual, por uma variedade de razões, como a vontade de obter ou dar prazer e a aspiração de ter filhos.[6][11]

A aceitação da assexualidade como orientação sexual e o início das pesquisas científicas em relação ao tema ainda são muito recentes,[4][6][8] ao passo em que um conjunto crescente de pesquisadores de ambas as perspectivas fisiológicas e psicológicas começou a se desenvolver.[6] Enquanto alguns especialistas reconhecem-na como orientação sexual, outros discordam.[8][9] Diversas comunidades de assexuais começaram a se formar desde o advento da World Wide Web e das mídias sociais. A mais prolífica e conhecida delas é a Asexual Visibility and Education Network (AVEN), fundada em 2001 pelo ativista David Jay.[9][15]

Debate[editar | editar código-fonte]

Bandeira assexual

Há um desacordo sobre se a assexualidade é uma orientação sexual legítima. Muitos ainda confundem assexualidade com baixa libido. Alguns argumentam que ela cai sobre o nome de distúrbio de hipoatividade sexual ou distúrbio da aversão sexual. Entre os que não acreditam ser uma orientação, outras causas sugeridas incluem abuso sexual passado, repressão sexual, problemas hormonais, desenvolvimento tardio de atração, e não ter encontrado a pessoa certa. Muitos assexuais auto-identificados, enquanto isso, negam que tais diagnósticos se apliquem a eles; outros argumentam que, porque a sua assexualidade não lhes causa angústia, não deveria ser vista como um distúrbio emocional ou médico. Outros argumentam que no passado, foram feitas afirmações semelhantes sobre a homossexualidade e bissexualidade, apesar do fato de que muitas pessoas agora as considerem como orientações legítimas.

Entretanto, a maior parte dos argumentos contrários à assexualidade se dão tomando como base as pesquisas relacionadas à falta de atração sexual, que não é sinônimo de assexualidade, já que a falta de atração sexual possui várias causas possíveis. Já as pesquisas voltadas diretamente à área da assexualidade têm concluído que os assexuais não são portadores de patologias e de problemas psicológicos comumente atribuídos a outras pessoas que, por algum problema, não sentem ou deixaram de sentir atração sexual.

Pesquisa[editar | editar código-fonte]

Um estudo feito com cordeiros chegou ao resultado de que cerca de 2% a 3% dos indivíduos estudados não tinham interesse aparente em acasalar com sexo algum. Outro estudo, foi feito com ratos e gerbils, em que até 12% dos machos não mostraram interesse nas fêmeas. Contudo, como suas interações com outros machos não foram medidas, o estudo é de uso limitado no que toca à assexualidade (Westphal, 2004).

Uma pesquisa de opinião no Reino Unido sobre sexualidade incluiu uma pergunta sobre atração sexual, e 1% dos entrevistados responderam que "nunca se sentiram atraídos sexualmente por absolutamente ninguém" (Bogaert, 2004). O Kinsey Institute conduziu uma pequena pesquisa sobre esse assunto, que concluiu que "os assexuais parecem melhor caracterizados por pouco desejo sexual e excitação que por baixos níveis de comportamento sexual ou alta inibição sexual" (Prause e Graham, 2002). Esse estudo também menciona um conflito quanto à definição de "assexual": os pesquisadores descobriram quatro definições diferentes na literatura, e afirmaram que era incerto se aquelas identificando assexual estavam se referindo a uma orientação.

Lori Brotto[16], pesquisadora britânica sobre o tema, ao iniciar a sua pesquisa de campo em grupos assexuais, acreditava que essas pessoas poderiam estar se considerando assexuais por alienação, pensamento suicida, sintomas psicopáticos, transtornos sexuais, ansiedade, stress pós-traumático, dentre outros problemas. Mas, ao aprofundar os seus estudos, percebeu que, entre os assexuais, não havia evidência dessa orientação sexual ser determinada por qualquer patologia.

Subclassificações[editar | editar código-fonte]

Alguns assexuais usam um sistema de classificação desenvolvido (e então aposentado) pelo fundador da Asexual Visibility and Education Network. Nesse sistema, assexuais são divididos em tipos de A a E:

  1. Assexual tipo A: possui atração romântica por indivíduos do sexo oposto (heterorromântico).
  2. Assexual tipo B: possui atração romântica por indivíduos do mesmo sexo (homorromântico).
  3. Assexual tipo C: possui atração romântica por indivíduos de ambos os sexos (birromântico).
  4. Assexual tipo D: possui atração romântica por todos os tipos de indivíduos (panromântico).
  5. Assexual tipo E: sem atração romântica e direção sexual (arromântico).

Note que a assexualidade não é o mesmo que celibato, que é a abstinência deliberada de atividade sexual; muitos assexuais fazem sexo, e a maioria dos celibatários não são assexuais. A AVEN não utiliza mais esse sistema por se tratar de algo muito exclusivo.

Assexualidade e religião[editar | editar código-fonte]

Muitas religiões ou seitas religiosas acreditam que a assexualidade é uma condição espiritualmente superior, e alguns assexuais creem que sua falta de "desejos básicos" os permite sentir uma espiritualidade mais profunda, embora outros assexuais considerem isso uma atitude elitista. Por exemplo, é possível que em séculos passados, muitos padres católicos, monges, e freiras eram assexuais, incluindo muitos santos canonizados. Em outros credos, crianças eram consideradas um dom de Deus que não deveria ser recusado, um meio de espalhar a religião, ou ambos; deveria ser notado, no entanto, que alguns assexuais têm filhos, e algumas religiões elogiam tanto a assexualidade quanto as crianças.

Além do mais, de acordo com algumas crenças religiosas, a sexualidade mesmo é sagrada ou um dom divino; certas variedades de Tantra envolvem sexo, por exemplo, e alguns tipos de neo-paganismo e Nova Era incluem o conceito de sexualidade sagrada.

Atualmente, a assexualidade enfrenta pouca condenação religiosa.

Assexualidade na ficção[editar | editar código-fonte]

Talvez o exemplo mais antigo de personagem assexual possa ser encontrado em Hipólito, que evita todas as mulheres e devota sua vida à castidade.

O Personagem de Sir Artur Conan Doyle, Sherlock Holmes, é outro exemplo de assexualidade.

Em Os Miseráveis, de Victor Hugo, os dois protagonistas, Jean Valjean e Javert, podem ser considerados assexuais.

Na ficção, o romance de John Braine The Jealous God (1964) é um bom exemplo de sexo visto principalmente como pecado. Por outro lado, em seu romance de ficção científica Distress (1995), Greg Egan imagina um mundo no século XXII onde "assex" é uma das sete configurações de gênero conhecidas. Citação de Distress:

"Asex não era nada mais que um termo guarda-chuva para um grupo largo de filosofias, estilos de vestir, mudanças cirúrgicas e de cosméticos, e alterações profundas biológicas. A única coisa que uma pessoa assex tinha necessariamente em comum com outra era a visão que os parâmetros de gênero (neural, endócrino, cromossômico e genital) não interessavam a ninguém mais, somente a si próprios, geralmente (mas nem sempre) a seus amantes, provavelmente a seu médico, e às vezes a alguns poucos amigos próximos. O que uma pessoa realmente fazia em resposta a essa atitude poderia variar de tão pouco como clicar no botão 'A' nos formulário de censo, a escolher um nome assex, a fazer redução de peito ou de pelos do corpo, ajustes do timbre de voz, reescultura facial, 'empouchment' (cirurgia para fazer os genitais masculinos retráteis), todas as formas de assexualidade neural ou física, hermafroditismo ou exoticismo." (Distress, paperback ed., p. 45)

Um exemplo de personagem assexual simpaticamente apresentado na ficção científica é Aghora, um dos Metabarões de Alejandro Jodorowsky, que não é apenas assexual, mas também um transexual.

O conto de Samuel R. Delany de 1969, "Aye, and Gomorrah..." retrata uma sociedade onde astronautas se tornam sem sexo por que a radiação cósmica faz seus órgãos reprodutores inúteis.

No anime Soul Eater, o personagem Chrona não só se mostra um assexual tipo B(tem uma pequena paixão escondida pela garota Maka Albarn mas não se importa com sexo), mas também há a suspeitas de que seja um assexual, um humano sem sexo definido, devido às suas ações não serem nem as de um jovem garoto e nem de uma garota. Só mais tarde através do mangá é confirmado que Chrona é uma menina .

O romance de Ryan A. Morgan de 1997, John-Jack Christian, conta sobre um adolescente lutando para lidar com sua assexualidade num ambiente adolescente normal, antes de recorrer ao fisiculturismo para se manter são.

Na série original de TV Doctor Who (1963–1989), o Doutor quase sempre era retratado como assexual apesar de sua regular companhia de mulheres jovens e atraentes. Já que a primeira companheira do Doutor, Susan Foreman, foi apresentada por sua neta, frequentemente se assume, mas nunca foi confirmado, que o Doutor tenha sido casado anteriormente, e com filhos. O filme de 1996 causou alguma controvérsia entre os fãs do Doctor Who por ter o beijo do Oitavo Doutor com sua companheira Grace. Na nova série (2005–), o Doutor ocasionalmente flerta, e tem um relacionamento romanticamente tingido com sua companheira Rose Tyler.

Nas tirinhas online da K. Sandra Fuhr, Boy Meets Boy (terminado) e Friendly Hostility (em produção), o cínico Collin Sri'Vastra diz ser assexual. Mais tarde ele cria um relacionamento com sua melhor amiga, Kailen "Fox" Maharassa, mas seu nível afetivo/romântico parece ser muito baixo, pelo menos no início.

Um dos personagens centrais do The House of Spirits de Isabel Allende, Clara, poderia ser considerada assexual. Nos anos posteriores, ela expressava uma falta de interesse no coito, comentando que isso apenas fazia seus ossos doerem.

O personagem central que dá o nome ao livro Deadeye Dick de Kurt Vonnegut é assexual devido a um trauma de infância.

Um dos personagens principais do Sitcom The Big Bang Theory de 2007, Sheldon Cooper é também considerado pelos outros personagens como sendo assexual, mas na terceira temporada da série ele conhece Amy Farrah Fowler (que sofre suspeita de bissexualidade entre os fãs) e começa um relacionamento romântico não-sexual. Apesar de Amy viver se queixando disso e das piadas que sofrem, ela aparenta ser feliz com ele e o relacionamento e vice-versa. Apesar disso, muitos fãs torcem pelo "coito" dos dois e na sexta temporada Sheldon disse que isso era uma possibilidade (confirmada com um beijo na sétima temporada, mas questionada com a fuga dele no season finale, por que Leonard e Penny vão se casar e ele irá perder seu melhor amigo/colega de quarto).

O personagem Alê, interpretado por William Barbier em Malhação ID também é considerado assexual.

Em um episódio da 8ª temporada de House, M.D., o oncologista e melhor amigo do Dr. House, Dr. Wilson, trata um caso no qual o paciente se diz ser assexual, porém é depois descoberto que ele sofria de um prolactinoma.

Willy Wonka, o excêntrico personagem de A Fantástica Fábrica de Chocolate, é claramente assexual. Apesar de sua simpatia, ele se mostra indiferente às relações humanas e, por não ter filhos, preocupa-se em encontrar uma criança para herdar sua fábrica.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. «Asexual» (em inglês). TheFreeDictionary.com. Consultado em 29 de janeiro de 2016. 
  2. Lynn Harris (26 de maio de 2005). «Asexual and proud!» (em inglês). Salon. Consultado em 29 de janeiro de 2016. 
  3. "Assexualidade". (em português). Dicionário Michaelis. Consultado em 7 de dezembro de 2016.
  4. a b Bogaert, Anthony F (2006). «Toward a conceptual understanding of asexuality». Review of General Psychology [S.l.: s.n.] 10 (3): 241–250. doi:10.1037/1089-2680.10.3.241. 
  5. Kelly, Gary F. (2004). «Chapter 12». Sexuality Today: The Human Perspective 7 ed. McGraw-Hill [S.l.] p. 401. ISBN 978-0-07-255835-7  Asexuality is a condition characterized by a low interest in sex. 
  6. a b c d Prause, Nicole; Cynthia A. Graham (August 2004). «Asexuality: Classification and Characterization» (PDF). Archives of Sexual Behavior [S.l.: s.n.] 36 (3): 341–356. doi:10.1007/s10508-006-9142-3. PMID 17345167. Arquivado (PDF) desde o original em 27 September 2007. Consultado em 31 August 2007. 
  7. a b Bogaert, Anthony F. (2004). «Asexuality: prevalence and associated factors in a national probability sample». Journal of Sex Research [S.l.: s.n.] 41 (3): 279–87. doi:10.1080/00224490409552235. PMID 15497056. 
  8. a b c Melby, Todd (November 2005). «Asexuality gets more attention, but is it a sexual orientation?». Contemporary Sexuality [S.l.: s.n.] 39 (11): 1, 4–5. ISSN 1094-5725. Consultado em 20 November 2011  The journal currently does not have a website 
  9. a b c Marshall Cavendish, : (2010). «Asexuality». Sex and Society 2 Marshall Cavendish [S.l.] pp. 82–83. ISBN 978-0-7614-7906-2. Consultado em 27 July 2013. 
  10. «Study: One in 100 adults asexual» CNN [S.l.] 15 October 2004. Arquivado desde o original em 27 October 2007. Consultado em 11 November 2007. 
  11. a b Margaret Jordan Halter, Elizabeth M. Varcarolis (2013). Varcarolis' Foundations of Psychiatric Mental Health Nursing Elsevier Health Sciences [S.l.] p. 382. ISBN 1-4557-5358-0. Consultado em May 7, 2014. 
  12. DePaulo, Bella (26 September 2011). «ASEXUALS: Who Are They and Why Are They Important?». Psychology Today. Consultado em 13 December 2011. 
  13. The American Heritage Dictionary of the English Language (3d ed. 1992), registros de celibacy e abstinence
  14. «Sexual orientation, homosexuality and bisexuality». American Psychological Association. Consultado em March 30, 2013. 
  15. Swash, Rosie (February 25, 2012). «Among the asexuals». The Guardian. Consultado em February 2, 2013. 
  16. Understanding Asexuality - [1]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]