Igreja Episcopal Anglicana do Brasil

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Igreja Episcopal Anglicana do Brasil
Brasão da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.
Orientação Anglicana
Fundador Lucien Lee Kinsolving, James Watson Morris, William Cabell Brown, John Gaw Meem e Mary Packard
Origem Porto Alegre, 1890
Sede Praça Olavo Bilac, 63, Campos Elíseos
São Paulo, SP
Localização Brasil
Número de membros Aproximadamente 20.000
Número de igrejas 87
Países em que atua Brasil

A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) é uma província eclesiástica da Comunhão Anglicana que abrange todo o território do Brasil. É formada por nove dioceses e um distrito missionário, cada um deles dirigida por um bispo, dentre os quais um é eleito como bispo primaz. O atual bispo primaz é Dom Francisco de Assis da Silva, da Diocese Anglicana Sul-Ocidental, eleito em 2013. A IEAB é a mais antiga igreja não-católica romana do país,[1] tendo suas origens nos trabalhos de missionários norte-americanos que aportaram no país em 1890. Inicialmente ligada à Igreja Episcopal dos Estados Unidos, da qual foi um distrito missionário por 74 anos, a IEAB obteve sua autonomia eclesiástica em 1965, se tornando a décima-nona província da Comunhão Anglicana. Vinte anos depois, começou a ordenar mulheres. A igreja se destaca por seu compromisso em combater problemas que afetam a sociedade brasileira, tais como a desigualdade social, a concentração fundiária, a violência doméstica, o racismo, a homofobia e a xenofobia. Sua postura inclusiva em relação às minorias provocou alguns cismas ao mesmo tempo em que atraiu ex-fiéis católicos e evangélicos em busca de aceitação e acolhimento.

História[editar | editar código-fonte]

"Quem será o ditoso missionário que irá trazer o nome de Cristo a esta região ocidental? Quando será este país libertado da idolatria e do Cristianismo espúrio? Cruzes há em abundância, mas quando será aqui anunciada a doutrina da Cruz?"

Visão do missionário Henry Martin, que passou 15 dias em Salvador, sobre o Brasil.[2]

O anglicanismo iniciou-se em 1534, quando Henrique VIII da Inglaterra, movido a interesses políticos e pessoais, proclamou a independência da Igreja da Inglaterra da Igreja de Roma.[1] A nova religião espalhou-se pelas colônias britânicas no Novo Mundo.[3] No Brasil, no entanto, a religião oficial imposta pelos dominadores portugueses era o catolicismo romano e as tentativas de missionarismo protestante de huguenotes franceses e calvinistas holandeses fracassaram.[2] O primeiro missionário anglicano a pisar em solo brasileiro foi Henry Martin, em 1805, no Porto de Salvador, Bahia, quando o seu navio seguia viagem para a Índia.[2] Ele permaneceu por duas semanas na cidade, onde manteve contato com padres que falavam francês e latim.[2]

A partir de 1810, com a vigência de tratado comercial assinado entre Portugal e a Inglaterra, o governo brasileiro permitiu a construção das primeiras capelanias não-católicas em terras brasileiras,[2] desde que não tivessem a aparência de templos religiosos.[1] Nesse ano, foram iniciadas as primeiras capelanias anglicanas do país, exclusivamente para estrangeiros.[2] [4] [5] Em 1819, a primeira capela anglicana do país, a Christ Church, foi construída no Rio de Janeiro.[2] Após a independência do Brasil, foram realizados os primeiros trabalhos missionários por religiosos anglicanos no país. Em 1853, o reverendo William Cooper foi enviado pela Igreja Episcopal dos Estados Unidos para realizar trabalho missionário no país, a pedido de um episcopaliano do Rio de Janeiro (provavelmente membro da colônia americana).[2] No entanto, o navio de Cooper naufragou no Caribe a caminho do Brasil e ele desistiu da missão, retornando para os Estados Unidos.[2] Em 1860, o reverendo escocês Richard Holden desembarcou em Belém, Pará, também enviado pela Igreja Episcopal dos EUA.[2]

Holden conduziu a menos fracassadas das missões, permanecendo no país por doze anos.[2] Holden escolheu Belém devido à existência de um posto de distribuição de bíblias na cidade e à expectativa de que o Rio Amazonas fosse aberto à navegação internacional.[2] Em Belém, tentou criar uma comunidade anglicana, mas não obteve sucesso.[2] Usou a imprensa local para difundir a religião, escrevendo artigos de jornais que provocaram a ira do então bispo católico, Dom Antônio de Macedo Costa.[2] Holden foi responsável pela primeira tradução do Livro de Oração Comum em português e por uma dezena de hinos (dois deles presentes no hinário de 1962) e viajava pelos afluentes do Rio Amazonas para vender bíblias nas comunidades ribeirinhas.[2] Em 1862, após o fracasso da missão no norte, mudou-se para Salvador, onde também valeu-se da imprensa para propagar o anglicanismo.[2] Encontrou forte oposição na capital baiana e sofreu três tentativas de assassinato.[2] Devido à sua personalidade forte e seu estilo polêmico de pregar, Holden começou a encontrar oposição também na Igreja Episcopal dos EUA, que havia patrocinado sua vinda ao Brasil.[2] Em 1864, Holden aceitou o convite do Dr. Robert Kalley para atuar como pastor na Igreja Congregacional Fluminense no Rio.[2] Mais tarde abandonou o anglicanismo e se tornou darbista.[2]

"Esses missionários vieram para trabalhar com os brasileiros, ao contrário dos britânicos, que vieram trabalhar com eles mesmos. Nossa relação é obviamente mais forte com os americanos, já que eles tomaram a iniciativa de iniciar o diálogo com os brasileiros"

Reverendo Arthur Cavalcante, secretário provincial da IEAB.[5]

As missões anglicanas só obtiveram êxito no país após 1889, quando foi proclamada a República, desvinculando a Igreja Católica do Estado Brasileiro, o que possibilitou a livre conversão de católicos ao anglicanismo e demais religiões.[4] [5] Em 1890, os reverendos missionários Lucien Lee Kinsolving e James Watson Morris vieram do Seminário Teológico da Virgínia, nos Estados Unidos e estabeleceram-se na Rua Voluntários da Pátria, nº 387 (endereço mais tarde conhecido como Casa da Missão),[6] em Porto Alegre,[5] onde realizaram o primeiro culto anglicano em português no país, em 1º de junho daquele ano.[1] Outros três missionários norte-americanos — os reverendos William Cabell Brown e John Gaw Meem e a leiga Mary Packard — vieram para o Brasil em no ano seguinte, estabelecendo missões em Santa Rita do Rio dos Sinos, Rio Grande e Pelotas.[5] Esses cinco missionários são considerados os fundadores da IEAB e ajudaram a difundir o anglicanismo no Sul do país, região que concentra o maior número de igrejas anglicanas.[6]

A Catedral do Redentor, localizada em Pelotas, foi uma das primeiras igrejas de confissão anglicana do Brasil, inaugurada em 1892.

Em 1893, Morris e Brown fundaram o Estandarte Cristão, jornal da comunidade anglicana em Porto Alegre.[2] No mesmo ano, a comunidade recebeu o bispo norte-americano George William Peterkin, que ordenou quatro diáconos.[2] Quatro anos depois, foi a vez da comunidade receber Waite Hockin Stirling, bispo das Ilhas Falkland, que ordenou os três primeiros presbíteros nacionais e confirmou 159 fiéis.[2] Em 1899, Kinsolving foi sagrado bispo.[2] Em 1907, os esforços missionários no país resultaram no estabelecimento do distrito missionário do Brasil no âmbito da Igreja Episcopal dos Estados Unidos.[2] [5] [6] Em 1908, os missionários iniciaram suas atividades no Rio de Janeiro, então capital nacional, onde Kinsolving desejava construir a sede nacional da igreja.[2] Quatro anos depois, os anglicanos fundaram suas primeiras escolas, em Porto Alegre e Santana do Livramento.[2] Em 1921, a Igreja se firmou na Baixada Santista, chegando a São Paulo em 1924.[2] Em 1926, William Mathew Merrick Thomas foi eleito bispo da comunidade brasileira e Kinsolving retornou para os Estados Unidos no ano seguinte.[2] Em 1929, a Igreja fundou a Imprensa Episcopal e, no ano seguinte, realizou a mais importante revisão do Livro de Oração Comum.[2] Através do LOC, os cultos são apresentados de maneira uniforme nas igrejas e em português (à época as missas católicas ainda eram celebradas em latim).[2]

O primeiro bispo brasileiro, Athalicio Theodoro Pithan, foi sagrado em 1940,[1] quando a Igreja Episcopal celebrava seus 50 anos de atividade no país.[6] Em 1949, o distrito missionário foi dividido em três dioceses,[2] [6] o que deu início às discussões sobre a autonomia da Igreja Episcopal brasileira.[5] Em 1952, foi realizado o primeiro Sínodo Nacional.[2] Em 1955, as capelanias inglesas fundadas no Período Joanino passaram à administração do distrito missionário brasileiro após um acordo firmado entre a Igreja da Inglaterra e a Igreja Episcopal dos EUA.[2] Em 1965, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil se tornou uma província eclesiástica autônoma da Comunhão Anglicana,[5] a décima-nona, elegendo o primeiro bispo-primaz, Dom Egmont Machado Krischke.[6] Desde então, a Igreja Episcopal Anglicana possui autonomia para elaborar seus próprios formulários litúrgicos.[2] Em 1966, a IEAB se filiou ao Conselho Mundial de Igrejas (CMI),[2] demonstrando seu compromisso com o ecumenismo cristão. Em 1974, o Brasil recebeu, pela primeira vez, a visita de um arcebispo de Cantuária, à época Arthur Michael Ramsey.[2] A IEAB deixou de receber apoio financeiro da Igreja Episcopal dos EUA no ano seguinte.[5]

Em 1985, a IEAB, seguindo deliberação do Sínodo realizado no ano anterior, passou a ordenar mulheres,[4] sendo a primeira delas a reverenda Carmen Etel Alves Gomes.[2] A ordenação feminina na IEAB ocorreu antes mesmo da Igreja da Inglaterra começar a fazer o mesmo.[1] Em 1990, durante o centenário da IEAB, os problemas socioeconômicos do Brasil levaram a Igreja a focar em três prioridades: educação, serviço e expansão.[4] No mesmo ano, os primazes norte-americano e brasileiro concordaram em estabelecer um comitê bilateral visando à reaproximação entre as igrejas, encorajando parcerias e relações mútuas entre as igrejas.[5] A Igreja Episcopal dos EUA continua enviando missionários para o Brasil e as Dioceses de Pensilvânia e de São Paulo e as de Brasília e de Indianópolis mantêm relações mútuas.[5] Mais recentemente, a IEAB se voltou para o diálogo com as Igrejas dos demais países lusófonos, sem deixar sua parceria com a Igreja Episcopal dos EUA de lado.[5]

Liturgia e teologia[editar | editar código-fonte]

Catedral da Santíssima Trindade, localizada em Porto Alegre e consagrada em 10 de maio de 1903.

Quando Henrique VIII separou a Igreja da Inglaterra da Igreja de Roma, todos compreendiam que a mudança fora apenas de líder, de um papa para um rei.[1] De fato, a liturgia e a estrutura hierárquica da Igreja da Inglaterra continuavam as mesmas do tempo em que era submetida à autoridade do papa.[1] Nos anos seguintes, através de contatos com luteranos e calvinistas, a liturgia anglicana foi reformulada, através da primeira edição do Livro de Oração Comum (LOC) em 1549, e da elaboração de uma declaração doutrinária, denominada 39 Artigos de Religião.[1] Desde então, a liturgia anglicana mantém-se como um meio-termo entre o catolicismo e o protestantismo.[1] [3] Essa atitude é designada de "via media".[1]

Como no catolicismo, a IEAB possui bispos (com sucessão apostólica), padres e diáconos, mas, semelhantemente ao protestantismo, não exige o celibato.[1] Como no catolicismo, o centro da liturgia é o altar e a comunhão eucarística, mas grande ênfase é dada à pregação.[1] A terminologia é tipicamente católica, mas, ao mesmo tempo, permite-se que os padres sejam chamados de "pastores", que a missa seja designada como "culto" e que a eucaristia seja chamada de "santa ceia" ou "ceia do senhor", tal como no protestantismo.[1] Como no catolicismo, os anglicanos acreditam em santos, mas o culto às imagens é desaconselhado, como no protestantismo.[3] Ao contrário do catolicismo, a IEAB permite que fiéis divorciados se casem novamente, desde que frequentem a igreja por pelo menos um ano e a cerimônia seja precedida por uma união civil.[1]

Segundo a maioria dos teólogos anglicanos, a Comunhão Anglicana não possui uma doutrina teológica.[1] Stephen Neill, por exemplo, fala de "uma atmosfera anglicana e [de] uma atitude anglicana".[1] A IEAB não aceita nenhuma instância de poder eclesiástico como intérprete da Bíblia e os pronunciamentos de instâncias superiores, como os bispos primazes, jamais reivindicam infalibilidade ou obediência cega, ao contrário do que ocorre no catolicismo.[1] A figura mais próxima de líder espiritual da Comunhão Anglicana é o arcebispo de Cantuária, que fornece recomendações e mantém a unidade das províncias eclesiásticas no mundo, mas não impõe doutrina alguma.[3] Os bispos só podem interferir na liturgia de uma paróquia se ela não estiver seguindo o LOC.[1] Apesar da falta de doutrinas, a IEAB possui um conjunto de crenças que são aceitas como parte da identidade da igreja.[1] O discurso oficial da IEAB é definido pelo Sínodo Geral, que reúne trienalmente bispos, clérigos e representantes leigos das dioceses.[1] De acordo com a Constituição da IEAB, somente o sínodo pode aprovar, emendar ou reformar os documentos oficiais da igreja que dizem respeito ao culto, à disciplina e à doutrina da IEAB.[1] Mas, por ser parte da Comunhão Anglicana, isso deve ser sempre feito em processo de consulta e escuta às demais igrejas de tradição anglicana.[1]

Os documentos oficiais da IEAB são o Livro de Oração Comum (LOC), de uso obrigatório nos cultos de todas as paróquias e missões, e o Catecismo.[1] O Catecismo é utilizado para transmitir aos novos membros os conteúdos que a igreja julga essenciais para a fé, enquanto o LOC é utilizado para realizar cultos e cerimônias sacramentais, apresentando a forma como a igreja regula sua celebração litúrgica.[1] Além disso, a IEAB compartilha com a Comunhão Anglicana o "Quadrilátero de Lambeth", que serve de base para o diálogo ecumênico e que demarca sua postura diante do que considera inegociável nos acordos bilaterais entre igrejas cristãs.[1] Esse minimalismo na definição dos conteúdos da fé faz com que a IEAB não seja uma igreja confessional ou doutrinal propriamente dita.[1] Segundo Calvani, é uma igreja "credal", pois exige que seus membros vinculem a fé aos credos históricos — Credo dos Apóstolos e Credo Niceno — da Igreja antiga, que devem ser repetidos em todas as celebrações eucarísticas.[1]

A IEAB se contenta em não propor muitas explicações teológicas.[1] Não há na IEAB ou no anglicanismo em geral, qualquer doutrina sobre o que aconteceria com os elementos pão e vinho no momento da consagração.[1] Os ritos eucarísticos do LOC apresentam praticamente todas as possibilidades (há frases que reforçam a consubstanciação e outras que reforçam a transubstanciação).[1] As divergências no anglicanismo surgem na interpretação dada às palavras dos credos.[1] Os anglicanos "evangélicos" afirmam que os credos devem ser aceitos de maneira literal; os "anglo-católicos" dizem que os credos implicam na aceitação dos dogmas e da tradição pós-apostólica da Igreja Cristã (se aproximando dos católicos romanos e ortodoxos) e os "liberais" buscam atualizar histórica e socialmente o sentido existencial e simbólico dos credos, o que significa a recusa em interpretá-los de maneira literal.[1] Por não possuir caráter confessional ou doutrinal, a IEAB acaba por abrigar adeptos de todas as três vertentes,[1] aceitando o desafio de conviver com a diversidade,[3] sendo que os cânones da IEAB não preveem a excomunhão de fiéis.[1]

Sacramentos[editar | editar código-fonte]

A IEAB afirma a existência de dois sacramentos (batismo e eucaristia) e cinco ritos sacramentais (confirmação ou crisma, matrimônio, unção, absolvição dos pecados e ordenação) que evoluíram na tradição da igreja sob a direção do Espírito Santo. Os sacramentos são essenciais aos fiéis, ao contrário dos ritos sacramentais.[1] Segundo Calvani, isso se deu devido à tentativa de acomodar as alas anglo-católica e evangélica.[1]

  • Batismo: administrado a adultos e crianças ainda não batizados em outra igreja cristã.[1] Exige-se a confissão de fé credal (que no caso das crianças cabe aos padrinhos).[1] É entendido como ato divino e pode ser feito por imersão, efusão ou aspersão, mas para ser considerado válido deve ser ministrado com água em nome da Santíssima Trindade.[1] Pode ser realizado por um leigo em caso de emergência.[1] Não pode ser repetido a quem já tenha sido batizado por demais fés; na dúvida se alguém foi batizado ou não, usa-se uma fórmula condicional: "se ainda não estás batizado, eu te batizo em nome do Pai" (LOC, 1988, p. 168).[1]
  • Eucaristia: através da comunhão eucarística, o fiel participa no corpo e no sangue de cristo. A linguagem eucarística do LOC se apresenta mais próxima da concepção católica romana do que das tradições protestantes.[1] A eucaristia não é somente um memorial, mas um "sacrifício" de louvor e ação de graças e o meio pelo qual o sacrifício de Cristo se torna presente.[1] Os benefícios prometidos são o perdão dos pecados, o fortalecimento da união com Cristo e a antecipação das bênçãos da vida eterna.[1] A matéria é o pão e o vinho e apenas um presbítero ou bispo ordenado pode realizar o rito.[1] A comunhão eucarística é o centro do culto anglicano e qualquer pessoa de outra igreja pode participar do rito, desde que devidamente batizada.[1]
  • Confirmação ou crisma: ocorre por meio da imposição das mãos do bispo sobre o fiel acompanhado de uma oração na qual o Espírito Santo é invocado sobre a pessoa. Para ser válida, o celebrante deve ser um bispo de sucessão apostólica. Pessoas confirmadas ou crismadas nas igrejas católica romana, ortodoxa e luteranas, são recebidas na IEAB sem a exigência de nova confirmação, o que não ocorre com oriundos de outras igrejas.[1]
  • Absolvição dos pecados: trata-se da confissão dos pecados a Deus na presença de um sacerdote. Ao final, o fiel recebe a garantia do perdão e a graça da absolvição.[1] Pode ser auricular ou coletiva e, para ser considerada válida, deve ser declarada unicamente pelo bispo ou presbítero.[1]
  • Unção: consiste em colocar as mãos sobre a cabeça de uma pessoa enferma e orar por ela pedindo a cura com a intenção de que Deus lhe conceda a graça da saúde física ou espiritual.[1] Pode ser aplicada em qualquer caso de enfermidade e, ao contrário do batismo, não é obrigado o uso de óleo, embora o mesmo seja recomendado.[1]
  • Matrimônio: a forma são os votos e promessas que os noivos fazem e a declaração do ministro ordenado de que agora são esposo e esposa e a intenção é a de que estabeleçam um relacionamento estável e duradouro, tendo as alianças como matéria ou sinal visível dessa união física e espiritual.[1]
  • Ordenação: é de extrema importância para o anglicanismo, pois, na concepção anglicana, a ausência de bispos compromete a continuidade da igreja, pois somente os bispos podem confirmar novos membros e ordenar presbíteros que podem celebrar a eucaristia, o que significa que igrejas sem a sucessão apostólica não possuem membros validamente confirmados e ordenados.[1] Na concepção da IEAB, os bispos são sucessores dos apóstolos e é seu dever “conservar a fé, unidade e disciplina da igreja toda, proclamar a palavra de Deus, agir em nome de Cristo para reconciliar o mundo e edificar a Igreja; e ordenar outros para continuar o ministério de Cristo".[1] Um ministro procedente de outra igreja só pode ter sua ordenação reconhecida como válida e legítima se a tiver recebido das mãos de um bispo de sucessão apostólica que, no ato da ordenação, tenha sido fiel na matéria (imposição das mãos), forma (oração de ordenação) e intenção (que o ordenado seja diácono, presbítero ou bispo e tenha cumprido o ministério para o qual foi ordenado).[1] Ministros procedentes de igrejas evangélicas ou protestantes que não tenham sido ordenados dessa forma são "reordenados".[1]

Questões sociais[editar | editar código-fonte]

Devido à predominância da ala liberal[3] — que prega uma interpretação mais social das escrituras[1] devido à exclusão que uma leitura literal pode provocar[3] —, a IEAB prega, ao contrário de outras igrejas evangélicas que ganharam espaço no país nos últimos anos, uma teologia social que visa engajar as congregações e comunidades em debates ainda considerados tabus na sociedade brasileira, como a concentração fundiária, a violência doméstica, o racismo, a homofobia e a xenofobia.[5] É considerada uma igreja inclusiva, devido à forma que encara as escrituras, oferecendo acolhimento e apoio a grupos historicamente marginalizados como LGBTs, mulheres, indígenas e sem-terra.[5] A IEAB defende que "todas as pessoas batizadas, fiéis e obedientes a Deus, não obstante suas orientações sexuais, são membros plenos do Corpo de Cristo, a Igreja".[6] Outra peculiaridade da IEAB em comparação às demais igrejas protestantes do país é seu caráter ecumênico, que faz parte de sua essência teológica.[1] Segundo o Reverendo Arthur Cavalcante, "a Igreja Anglicana é um lugar onde você pode ter uma visão alternativa do que é uma igreja".[5]

Membros[editar | editar código-fonte]

O número de membros da IEAB é difícil de precisar, pois a teologia anglicana qualifica todos os batizados como membros da igreja, mesmo aqueles que, batizados na infância, nunca se incorporaram à vida comunitária.[1] Dessa forma, a estatística oficial enumera 103 mil membros desde 1890.[6] No entanto, Calvani estima em 20 mil os membros da igreja atualmente no país, considerando a soma de membros "comungantes" (frequentadores assíduos) e "em plena comunhão" (pessoas que assumem cargos de liderança leiga e contribuem financeiramente com a instituição).[1] Segundo o autor, a presença relativamente pequena do anglicanismo no país se deve ao fato de seu compromisso ecumênico, o que inibe iniciativas missionárias.[1] Segundo a jornalista Michelle Veronese, boa parte dos novos fiéis vem de outras denominações cristãs: "em geral, são ex-católicos e ex-evangélicos, em busca de aceitação e acolhimento".[3]

Dissidências e Cismas[editar | editar código-fonte]

A IEAB é o ramo mais antigo e mais bem organizado do anglicanismo no Brasil; as demais igrejas são relativamente recentes, surgidas a partir da década de 1990.[1] Há, no Brasil, diversas igrejas que disputam a herança da tradição anglicana.[1] No entanto, a IEAB é a única vinculada institucionalmente, de direito e de fato, à Comunhão Anglicana.[1] Para fazer parte da Comunhão, as igrejas nacionais (ou províncias) precisam reconhecer a primazia de honra do arcebispo de Cantuária, colaborar financeiramente de acordo com seus recursos para a manutenção do escritório central da Comunhão Anglicana, enviar bispos para representar sua província na Conferência de Lambeth (reunião dos bispos anglicanos que ocorre a cada dez anos), designar ou eleger um bispo-primaz que representará a igreja local no encontro bienal dos primazes e designar ou eleger representantes (bispos, clérigos ou leigos) para fazerem parte do Conselho Consultivo Anglicano.[1]

Em 25 de janeiro de 2005, Dom Robinson Cavalcanti, então bispo da Diocese Anglicana do Recife, opondo-se à predominância da ala liberal na igreja, promoveu um cisma na IEAB. Cavalcanti, que julgava inadmissível a aceitação da homossexualidade,[3] declarou unilateralmente a suspensão do relacionamento da Diocese do Recife com a Província do Brasil, proclamando-a como uma Diocese autônoma da Comunhão Anglicana.[7] Segundo Christina Takatsu Winnischofer, então Secretária Geral da IEAB, Cavalcanti proclamou uma "guerra santa" entre anglicanos evangélicos e liberais, ao punir "todos os que discordaram dele".[7] Segundo ela o Bispo visava, ao declarar guerra aos liberais, obter o apoio dos radicais conservadores.[7] Apesar de constituir ato raro e extremo, Cavalcanti foi excomungado da IEAB em 10 de junho de 2005 pelo Tribunal Superior Eclesiástico.[7] Em 2013, a IEAB conseguiu, através de decisão judicial, recuperar a posse, a propriedade e a administração de todos os bens e direitos até então administrados pela Igreja Anglicana - Diocese do Recife.[8] Isso significa que cinco templos, com todos seus pertences, retornarão à supervisão de Dom Sebastião Armando, atual bispo da Diocese Anglicana do Recife.[8] Outro grupo que surgido em 2005 por oposição à ala liberal foi a Igreja Anglicana Reformada do Brasil.

Em 2013, a IEAB listou 24 congregações, dioceses, igrejas, paróquias e até mesmo uma província que usam a denominação anglicana ou episcopal sem vínculo algum à Comunhão Anglicana.[9] A igreja decidiu se posicionar após a divulgação, na imprensa, de que a polícia do Paraná estava procurando um padre da Igreja Anglicana Tradicional, localizada em Campina Grande do Sul, acusado de estupro, maus tratos e exploração de trabalho infantil em um orfanato do qual era diretor.[9] As notícias veiculadas pela imprensa causaram furor entre os fiéis da IEAB.[9] Entre as organizações listadas pela IEAB constavam a Igreja Anglicana - Diocese do Recife, a Catedral Anglicana de São Paulo, a Comunidade Anglicana de Curitiba, a Igreja Cristã Episcopal, a Igreja Anglicana Tradicional e a Província Anglicana Sagrado Coração.[9]

Estrutura[editar | editar código-fonte]

Bispo Maurício José Araújo de Andrade, primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil até 2013 e bispo da diocese de Brasília.

Dioceses e distrito missionário[editar | editar código-fonte]

Atualmente, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil é composta por oito dioceses e dois distritos missionários (áreas onde a presença anglicana é menor e carece de recursos para seu auto-sustento).[1] São elas:

Bispos primazes[editar | editar código-fonte]

# Nome Período Diocese
Bispos primazes
Dom Francisco de Assis da Silva 2013 — atualidade Diocese Sul-Ocidental
Dom Maurício José Araújo de Andrade 2006 — 2013 Diocese de Brasília
Dom Orlando Santos de Oliveira 2003 — 2006 Diocese Meridional
Dom Glauco Soares de Lima 1993 — 2003 Diocese de São Paulo
Dom Olavo Ventura Luiz 1986 — 1992 Diocese Sul-Ocidental
Dom Arthur Rodolpho Kratz 1972 — 1984
Dom Egmont Machado Krischke 1965 — 1971

Presidentes da Câmara de Clérigos e Leigos[editar | editar código-fonte]

Nome Período Diocese
Presidentes da Câmara de Clérigos e Leigos
Sra. Selma Rosa 2010 — atualidade Diocese de Curitiba
Rev. Luiz Alberto Barbosa 2006 — 2010 Diocese de Brasília
Rev. Francisco de Assis da Silva 2003 — 2006 Diocese Meridional
Revda. Dilce Regina Paiva de Oliveira 2000 — 2003 Diocese de Pelotas

Secretários Gerais[editar | editar código-fonte]

Nome Período Diocese
Secretários gerais
Rev. Arthur Cavalcante 2011 — atualidade Diocese Anglicana de São Paulo
Rev. Francisco de Assis da Silva 2006 — 2011 Diocese Meridional
Sra. Cristina Takatsu Winishofer 2003 — 2006
Rev. Maurício José Araújo de Andrade 1994 — 2003

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa ab ac ad ae af ag ah ai aj ak al am an ao ap aq ar as at au av aw ax ay az ba bb bc bd be bf bg bh bi bj bk bl bm bn bo Calvani, Carlos Eduardo. "Anglicanismo no Brasil". Revista USP. São Paulo: n.67, p. 36-47, setembro/novembro 2005. Página visitada em 6 de julho de 2015.
  2. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa ab ac ad ae af ag ah ai aj ak al Kickhofel, Oswaldo. "Apontamentos de História da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil". CENTRO DE ESTUDOS ANGLICANOS. Página visitada em 6 de julho de 2015.
  3. a b c d e f g h i Veronese, Michelle. "Igreja Anglicana: Do começo ao fim". Superinteressante. Ed. 255. Agosto de 2008. Página visitada em 5 de julho de 2015.
  4. a b c d Member Church - Brazil. Anglican Communion. Página visitada em 5 de julho de 2015.
  5. a b c d e f g h i j k l m n o "Episcopal Anglican Church of Brazil to celebrate 125 years". Anglican Communion News Service. 5 de junho de 2015. Página visitada em 5 de julho de 2015.
  6. a b c d e f g h Departamento de Comunicação "Conheça a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil". Secretaria Geral da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Página visitada em 6 de julho de 2015.
  7. a b c d "Cisma". Serviço de Notícias da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. 20/03/2004 a 15/09/2005. Página visitada em 6 de julho de 2015.
  8. a b Setor Jurídico da Diocese Anglicana do Recife. "Justiça de Pernambuco Ordena a Devolução dos Templos e Propriedades para IEAB". Palavra Aberta. 21 de julho de 2013. Página visitada em 6 de julho de 2015.
  9. a b c d "Imprensa generaliza uso “episcopal anglicano” e confunde fiéis da IEAB". Instituto Humanitas Unisinos. 7 de junho de 2013. Página visitada em 7 de junho de 2015.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]