Carlos Gomes
| Carlos Gomes | |
|---|---|
| Nome completo | Antônio Carlos Gomes |
| Pseudônimo(s) | Carlos Gomes |
| Nascimento | 11 de julho de 1836 |
| Morte | 16 de setembro de 1896 (60 anos) |
| Nacionalidade | brasileiro |
| Parentesco |
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| Educação | Lista |
| Principais trabalhos | O Guarani |
| Carreira musical | |
| Período musical | |
| Gênero(s) | |
| Instrumento(s) | |
| Assinatura | |
Antônio Carlos Gomes (Campinas, 11 de julho de 1836 — Belém, 16 de setembro de 1896) foi o mais importante compositor de ópera brasileiro. Destacou-se pelo estilo romântico, com o qual obteve carreira de destaque na Europa.[1] Foi o primeiro compositor brasileiro a ter suas obras apresentadas no renomado Teatro alla Scala, em Milão, na Itália.[2][3] É o autor da ópera O Guarani e patrono da cadeira de número 15 da Academia Brasileira de Música.[4]
Teve o nome inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, em 26 de dezembro de 2017.[5][6]
Primeiros anos
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Carlos Gomes ficou conhecido por Nhô Tonico,[2] apelido com o qual assinava até em suas dedicatórias. Nasceu numa segunda-feira, em uma humilde casa da Rua da Matriz Nova,[7] em Campinas - SP. Foram seus pais Manuel José Gomes (Maneco Músico) e dona Fabiana Jaguari Gomes.[8]
A vida de Antônio Carlos Gomes foi marcada pela dor. Muito criança ainda, perdeu a mãe, tragicamente assassinada aos vinte e oito anos.[9] Seu pai vivia em dificuldades, com diversos filhos para sustentar. Com eles formou a Banda Musical de Campinas, onde Carlos Gomes iniciou seus passos artísticos e, posteriormente, substituiria seu pai na direção do grupo. Desde cedo revelou seus pendores musicais, incentivado pelo pai e, depois, por seu irmão, José Pedro de Sant'Ana Gomes, fiel companheiro das horas amargas.[9]
É na banda do pai que Carlos Gomes, em conjunto com seus irmãos, executa as primeiras apresentações em bailes e em concertos. Nessa época alternava o tempo entre o trabalho numa alfaiataria, costurando calças e paletós, e o aperfeiçoamento dos seus estudos musicais.[10]
Aos 15 anos de idade compôs valsas, quadrilhas e polcas. Aos 18 anos, em 1854, compôs a Missa de São Sebastião,[2] sua primeira missa, repleta de misticismo. Na execução cantou alguns solos. A emoção que lhe embargava a voz comoveu a todos os presentes, especialmente ao irmão mais velho, que lhe previa os triunfos. Em 1857, compôs a modinha Suspiro d'Alma, com versos do poeta romântico português Almeida Garrett.[2]
Ao completar 23 anos, já apresentara vários concertos com o pai. Ainda moço lecionava piano e canto, dedicando-se também com afinco ao estudo das óperas, demonstrando preferência por Giuseppe Verdi.[1] Era conhecido também em São Paulo, onde frequentemente realizava concertos. Compôs o Hino Acadêmico, ainda hoje cantado pela mocidade da Faculdade de Direito de São Paulo. Aqui recebeu os mais amplos estímulos e todos, sem discrepância, apontavam-lhe o rumo da Corte, onde poderia aperfeiçoar-se no Conservatório Imperial de Música. Todavia, Carlos Gomes não podia viajar porque não tinha recursos.[2]
Sua primeira ópera
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Em 4 de setembro de 1861, estreou-se no Teatro Lírico Fluminense A Noite do Castelo, o primeiro trabalho de fôlego de Antônio Carlos Gomes, baseado na obra de Antônio Feliciano de Castilho. Constituiu uma grande revelação e um êxito sem precedentes nos meios musicais do país. Carlos Gomes foi levado para casa em triunfo por uma entusiástica multidão, que o aclamava sem cessar. O imperador D. Pedro II, também entusiasmado com o sucesso do jovem compositor, agraciou-o com a Imperial Ordem da Rosa.[11]
Carlos Gomes conquistou logo a Corte. Tornou-se uma figura querida e popular. Seus cabelos compridos eram motivo de comentários e até ele ria das piadas. Certa vez, viu um anúncio que fora emendado: de "Tônico para cabelos", fizeram "Tonico, apara os cabelos!".[11]
A saudade de sua querida Campinas e de seu velho pai atormentava-lhe o coração. Pensando também na sua amada Ambrosina, com quem namorava, moça da família Correia do Lago, Carlos Gomes escreveu Quem sabe?, de uma poesia de Bittencourt Sampaio, cujos versos "Tão longe, de mim distante… " ainda são cantados pela nossa geração.[11]
Dois anos depois desse memorável triunfo, Carlos Gomes apresentou sua segunda ópera, Joana de Flandres, com libreto de Salvador de Mendonça, levada à cena em 15 de setembro de 1863.[11]
Como corolário do êxito, na Congregação da Academia Imperial de Belas Artes, foi lido um ofício do diretor do Conservatório de Música do Rio de Janeiro, comunicando ter sido escolhido o aluno Antônio Carlos Gomes para ir à Europa, às expensas da Empresa de Ópera Lírica Nacional, conforme contrato com o governo Imperial. Estava assim concretizada a velha aspiração do moço campineiro, que, mesmo comovido, ao ir agradecer ao Imperador a magnanimidade, ainda se lembrou do seu velho pai e solicitou para este, o lugar de mestre da Capela Imperial. Dom Pedro II, enternecido ante aquele gesto de amor filial, acedeu.[11]
Europa
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Dom Pedro II preferia que Carlos Gomes fosse para a Alemanha, onde pontificava o grande Wagner, mas a imperatriz, Dona Teresa Cristina, napolitana, sugeriu-lhe a Itália.[11]
A 8 de novembro de 1863,[12] o estudante partiu a bordo do navio inglês Paraná, entre calorosos aplausos dos amigos e admiradores, que se comprimiam no cais. Levava consigo recomendações de Dom Pedro II para o Rei Fernando, de Portugal, pedindo que apresentasse Carlos Gomes ao diretor do Conservatório de Milão, Lauro Rossi. O jovem compositor passou por Paris, onde assistiu a alguns espetáculos líricos, mas seguiu logo para Milão.[1]
Lauro Rossi, encantado com o talento do jovem aluno, passou a protegê-lo e a recomendá-lo aos amigos. Em 1866, Carlos Gomes recebia o diploma de mestre e compositor e os maiores elogios de todos os críticos e professores.[8] A partir dessa data, passou a compor. Sua primeira peça musicada foi Se sa minga, em dialeto milanês, com libreto de Antonio Scalvini, estreada, em 1 de janeiro de 1867, no Teatro Fossetti. Um ano depois, surgia Nella Luna, com libreto do mesmo autor, levada à cena no Teatro Carcano.[11]

Carlos Gomes já gozava de merecido renome na cidade de Milão, grande centro artístico, mas continuava saudoso da pátria e procurava um argumento que o projetasse definitivamente. Certa tarde, em 1867, passeando pela Praça do Duomo, ouviu um garoto apregoando: "Il Guarany! Il Guarany! Storia interessante dei selvaggi del Brasile!" Tratava-se de uma péssima tradução do romance de José de Alencar, mas aquilo interessou de súbito o maestro, que comprou o folheto e procurou logo Scalvini, que também se impressionou pela originalidade da história.[13] E assim surgiu Il Guarany, que apesar de não ser a sua melhor obra, foi aquela que o imortalizou. A noite de estreia da nova ópera foi em 19 de março de 1870.[14]
A ópera ganhou logo enorme projeção, pois se tratava de música agradável, com sabor bem brasileiro, onde os índios tinham papel de primeiro plano. Foi representada em toda a Europa e na América do Norte.[11]
O grande Verdi, já glorioso e consagrado, teria dito sobre Carlos Gomes, nessa noite memorável: "Questo giovane comincia dove finisco io!" ("Este jovem começa onde eu termino!").[11]
Na noite de 2 de dezembro de 1870, aniversário do imperador D. Pedro II, foi estreada a ópera no Teatro Lírico Provisório, no Rio de Janeiro. Os principais trechos foram cantados por amadores da Sociedade Filarmônica. O maestro viveu horas de intensa consagração e emoção. Depois, O Guarani foi levado à cena nos dias 3 e 7 de dezembro, e na última noite em benefício do autor. Nesta data, o maestro ficou conhecendo André Rebouças. Após o espetáculo, houve uma alegre marche aux flambeaux, com música, até ao Largo da Carioca, onde estava hospedado Carlos Gomes na casa de seu amigo Júlio de Freitas.[13]
Por intermédio de André Rebouças, o compositor foi apresentado ao ministro do Império, João Alfredo Correia de Oliveira, em sua casa, nas Laranjeiras. Em 1871, a 1º de janeiro, Carlos Gomes vai a Campinas visitar Santana Gomes, seu irmão e protetor. Em 18 de fevereiro, com André Rebouças, despede-se do imperador, em São Cristóvão. No dia 23 do mesmo mês, segue para a Europa.[1]
Na Itália, Carlos Gomes casou-se com Adelina Peri,[2] que devotou toda a sua vida ao maestro. Do casamento nasceram cinco filhos, porém quatro morreram em tenra idade, sobrevivendo apenas Ítala Gomes Vaz de Carvalho, que mais tarde se tornaria uma das biógrafas do próprio pai. Registros de época mencionam o ambiente familiar em Milão e a preocupação do compositor em que os filhos aprendessem português, além de memórias publicadas no centenário de 1936 que documentam aspectos de sua vida privada e de sua família.[15]
Em seguida, ainda na península itálica, Carlos Gomes escreveu Fosca, considerada por ele sua melhor obra, Salvator Rosa e Maria Tudor.[16]

Em 1876, a pedido do imperador Dom Pedro II, Carlos Gomes compôs o Hymn for the First Centennial of the American Independence (também conhecido como Saluto del Brasile), criado especialmente para as celebrações do centenário da independência dos Estados Unidos. A obra foi executada durante a Exposição Universal de 1876, em 4 de julho naquele ano e, novamente, em Nova York no dia 9. O imperador, que esteve presente à cerimônia e presenteou o presidente norte-americano Ulysses S. Grant com uma partitura do hino, registrou em seu diário que a execução teve pouco destaque devido ao barulho e à distância do público.[17] A partitura original manuscrita integra atualmente a Coleção Carlos Gomes do Museu Imperial, em Petrópolis.
Em 1880, recebeu Carlos Gomes, de novo no Brasil, uma justa consagração na Bahia, onde, a pedido do grande pianista português, Artur Napoleão, compôs o Hino a Camões, para o Quarto Centenário Camoniano, executado simultaneamente ali e na Corte, com grande sucesso.[11]
O compositor, porém, não mais perseguia somente a glória. Abalado por seguidos e profundos desgostos, doente, desiludido, procurava uma situação que lhe permitisse viver em sua pátria e ser-lhe útil. Seu estado, contudo, era mais grave do que supunha.[11]
De volta à Itália, compôs a grande ópera Lo Schiavo, que entretanto, por vários motivos, não pôde ser representada ali. Foi levada à cena pela primeira vez em 27 de setembro de 1889, no Rio de Janeiro, em homenagem à Princesa Isabel, a Redentora, com esplêndido sucesso.[18][19] Interessante dizer que a abertura desta ópera, Alvorada, foi composta na Ilha de Paquetá, no município do Rio de Janeiro, onde se encontra um busto de Carlos Gomes pouco conhecido.[11]
Seus últimos anos de vida
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No dia 3 de fevereiro de 1891, outra vez na Itália, Carlos Gomes estreia com grande êxito no Scala de Milão, a ópera Condor. A obra apresentara uma nova forma, muito mais próxima do recitativo moderno.[11]
O tumor maligno na língua e garganta que o levaria ao túmulo, nessa época, fazia-o sofrer dolorosamente. Todavia, as desilusões, as decepções, a ingratidão de seus compatriotas e as dores físicas ainda não lhe haviam quebrado a resistência. Ainda estava à espera de sua nomeação para o cargo de diretor do Conservatório de Música, no Brasil. Nesse tempo foi proclamada a República, e seu grande amigo e protetor, Dom Pedro II, foi exilado, com grande mágoa de Carlos Gomes. O governo da recém-instalada república ofereceu-lhe a quantia de 20.000$000 (vinte contos de réis) para que compusesse um novo hino nacional, mas o maestro recusou-se em respeito ao imperador deposto.[20] Compôs, ainda, Colombo em 1892,[8] poema coral sinfônico que, incompreendido pelo grande público, não obteve êxito.[11]
Em 1895, foi recebido pelo povo paraense com enternecedoras manifestações de apreço. Suas óperas encenadas no Teatro da Paz obtiveram muito sucesso e o compositor foi convidado pelo governador Lauro Sodré a viver em Belém e organizar e dirigir o conservatório daquele estado.[21]
Carlos Gomes volta para a Itália, a fim de pôr em ordem suas coisas, despedir-se dos filhos e reunir elementos para uma obra grandiosa que, apesar de seu estado, sempre mais grave, ainda conseguiu realizar. Amigos aconselharam-no a fazer uma estação em Salso Maggiore, mas ele desejava partir, quanto antes, para sua pátria. Chegou a Lisboa, por estrada de ferro e recebeu comovedora homenagem. A 8 de abril de 1895, nessa mesma cidade, sofre a primeira intervenção cirúrgica na língua, sem resultados animadores.[11]
Em abril de 1896 retorna ao Brasil e assume a direção do Conservatório Carlos Gomes em Belém do Pará.[2][21] No entanto, a saúde agravava-se cada vez mais e os esforços médicos não conseguiam diminuir as dores. No dia 11 de julho, data de seu aniversário, as homenagens tributadas ao compositor davam a medida da afetividade que inspirava. Em vários pontos da cidade ouviam-se os acordes da protofonia de O Guarani e os jornais alimentavam a dor pública com o relatório constante do agravamento do estado geral do compositor. Estava montado o cenário onde aconteceria a representação final do artista genial, do brasileiro ilustre, do consagrado testa di leone (cabeça de leão, devido à farta cabeleira), como algumas publicações italianas o chamavam.[11]
Cercado por autoridades e amigos, com o governador Lauro Sodré à cabeceira, Carlos Gomes morreu às 22 horas e 20 minutos de 16 de setembro de 1896.[2] Seu corpo foi embalsamado, fotografado e em seguida exposto à visitação pública, cercado de flores e objetos como partituras e instrumentos, bem de acordo com a idealizada "morte bela" do Romantismo. Descrevendo os cenários da morte, os jornais relatavam com solenidade o acontecimento, destacando o repouso, o sono intérmino, o triunfo silente do grande artista. Diziam os jornais, o maestro não morrera; antes, cruzara os umbrais da Fama. Dois dias depois do falecimento, o corpo do maestro foi transferido para o conservatório de música. O cortejo varou a noite de Belém. Desatrelado das parelhas de animais, o carro funerário era conduzido pelo povo, numa insólita romaria colonial, anunciada pelos acordes de O Guarani e iluminada pelas velas e archotes levados no préstito ou dispostos nas varandas das casas. De 18 a 20 de setembro de 1896, o corpo ficou exposto em câmara ardente, nos salões do conservatório de música, que se transformou em santuário cívico e espaço para as representações do afeto coletivo pelo compositor, como registram as imagens de época. Em seguida, foi levado para o Cemitério da Soledade, um misto de panteão e cemitério-jardim, onde estavam sepultados heróis da Guerra do Paraguai, como o general Henrique Gurjão, acompanhado por aproximadamente 70 mil pessoas, que levavam andores, quadros, alegorias e guirlandas. Numa Belém cujos círculos letrados eram fortemente influenciados pelo positivismo, mas para a gente do povo cristã o cortejo fúnebre tornou-se uma verdadeira procissão cívica, em grande parte por iniciativa também do governo do Pará, que instrumentalizou a morte de Carlos Gomes.[11]


O maestro, porém, não foi sepultado em Belém. A pedido do presidente do estado de São Paulo, Campos Sales, o compositor foi levado para lá, com honras e transporte militares, a bordo do vapor Itaipu. Antes, na setecentista Catedral da Sé no Pará, foi celebrada uma missa de réquiem, entoando-se uma Elegia a Carlos Gomes. Seu ataúde dominava o centro de um monumento funerário de quatorze metros de altura, em um catafalco encomendado por Lauro Sodré. O culto aos grandes homens dava forma à religião cívica do positivismo e exaltava os nomes reconhecidos pela humanidade. Ao final das cerimônias litúrgicas, o navio deixou o porto de Belém rumo a Santos.[11]
Pouco antes de morrer, diante do estado de saúde do compositor, o governo de São Paulo autorizou uma pensão mensal de dois contos de réis, enquanto ele vivesse e, por sua morte, de quinhentos mil réis, aos seus filhos, até completarem a idade de 25 anos. Nessa ocasião, existiam somente dois filhos do compositor e maestro. Dias antes de sua morte, Carlos Gomes diria, fatalista:[11]
| “ | Qual, o mano Juca não chega... Eu sou mesmo o mais caipora dos caipiras... | ” |
O corpo do compositor encontra-se hoje no magnífico monumento-túmulo, em Campinas, sua terra natal, na Praça Antônio Pompeu. A duas quadras dali está o Museu Carlos Gomes, que reúne objetos e partituras do compositor.
Em 1936 foi comemorado o centenário de seu nascimento, com grandes solenidades em todo o país.[11]
Epílogo
[editar | editar código]Carlos Gomes faz jus também ao nosso reconhecimento pelo seu grande espírito de brasilidade, que sempre conservou, mesmo no estrangeiro. Quando da estreia O Guarani, em Milão, o famoso tenor italiano Villani, escolhido para o papel de Peri, criou um problema: ele usava barbas, e recusava-se a raspá-las. Carlos Gomes protestou: "Onde se vira índio brasileiro barbado?" mas, afinal, tudo se acomodou. O tenor era um dos grandes cartazes da época e não podia ser dispensado. Assim, acabou cantando, após disfarçar os pelos, com pomadas e outros ingredientes.[11]
A procura de instrumentos indígenas foi outro tormento para o maestro. Em certos trechos de música nativa, eram necessários borés, tembis, maracás ou inúbias. Andou por toda a Itália, mas não os encontrou. Foi preciso mandar fazê-los, sob sua direção, numa afamada fábrica de órgãos em Bérgamo.[11]
Identidade racial e memória
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Estudos recentes discutem como a imagem pública de Carlos Gomes foi historicamente apresentada como a de um homem branco, apesar de referências à sua origem parda e à experiência de preconceito racial no século XIX.[22] A interpretação proposta por pesquisadores e comentaristas relaciona esse enquadramento a padrões visuais e narrativos da época, à circulação de fotografias de estúdio e à monumentalização do compositor, elementos que teriam contribuído para fixar uma memória social embranquecida. Nesse sentido, a discussão aproxima o caso de Gomes de outros personagens canônicos que teriam passado por processos semelhantes, como Machado de Assis e Castro Alves, e insere o tema no quadro mais amplo do racismo científico e das políticas de memória no Brasil oitocentista e novecentista.[23]
A literatura recente também enfatiza que o reconhecimento da origem social e racial do compositor não diminui sua relevância artística. Ao contrário, permite contextualizar de modo mais completo sua trajetória excepcional em circuitos musicais elitizados no Brasil imperial e na Europa, além de iluminar desafios enfrentados por artistas pretos e pardos no período. Iniciativas contemporâneas têm incorporado essa perspectiva em ações de difusão e reinterpretação da obra, como oficinas públicas em Campinas que abordam o tema sob enfoque histórico e antropológico e projetos audiovisuais que propõem novas leituras biográficas.[24]
Entre esses, destaca-se a cinebiografia em produção, "Bravo! Carlos Gomes do Brasil", estrelada pelo tenor Jean William, que comunica ao público que a identidade racial do maestro é parte constitutiva de sua história.[25] Outra iniciativa de resgate histórico é a peça "Maestro Selvagem", escrita por Miriam Halfim e dirigida por Ary Coslov, com Luciano Quirino no papel principal. O espetáculo revisita a trajetória de Carlos Gomes sob uma perspectiva racial e biográfica, evidenciando o reconhecimento internacional e o preconceito que marcou sua vida e obra.[26]
Homenagens
[editar | editar código]Músicas
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O hino de Campinas, intitulado Ao Povo Campineiro: Progresso, é também de autoria de Carlos Gomes. Com letra adaptada do poema homônimo de Carlos Ferreira, foi composto em 1885 a pedido do comendador Tórlogo Dauntré, por ocasião da 1ª Exposição Regional de Campinas. A obra, escrita para grande orquestra e coro, foi oficializada como hino municipal pela Lei nº 7.945, de 27 de junho de 1994.[27]
A abertura da ópera O Guarani tornou-se amplamente reconhecida no Brasil após ser adotada como tema de abertura do programa radiofônico A Voz do Brasil, criado durante o governo Getúlio Vargas e transmitido obrigatoriamente em todo o país desde 1935. A associação da peça ao programa estatal transformou seus acordes iniciais em uma representação sonora quase nacional, embora críticos ressaltem que a obra de Gomes transcende esse vínculo e possui importância muito maior no contexto da música erudita brasileira.[28]
O Guarani Futebol Clube apresenta, no início de seu hino oficial, uma melodia inspirada nos acordes de abertura da ópera O Guarani. A composição foi criada em 1976 pelo jornalista e compositor Oswaldo Guilherme, em parceria com seu amigo e torcedor Augusto Duarte Ribeiro.[29] Fundado em 2 de abril de 1911, o clube teve origem em uma reunião na Praça Carlos Gomes, em Campinas, realizada por jovens descendentes de imigrantes italianos e alemães. O nome escolhido homenageia a ópera de Carlos Gomes, refletindo o orgulho local pela projeção internacional do compositor e o desejo de associar o time a um símbolo da identidade cultural campineira.[30]
Monumentos
[editar | editar código]Diversas cidades brasileiras prestam homenagens ao compositor com estátuas, bustos, ruas, avenidas, praças e conservatórios que levam seu nome. Em Campinas, sua cidade natal, destaca-se o Monumento-Túmulo de Carlos Gomes, obra do escultor Rodolfo Bernardelli. Inaugurado em 16 de setembro de 1905, o monumento marcou o retorno dos restos mortais do maestro ao Brasil. A pedra fundamental foi lançada por Santos Dumont.[31]
A estrutura, feita em granito, apresenta na base a figura da cantora lírica Maria Monteiro, simbolizando Campinas, e, no topo, uma escultura em tamanho real do maestro, retratado como se regesse uma orquestra. O monumento está localizado na Praça Bento Quirino.[32]
Em São Paulo, o monumento a Carlos Gomes, localizado na Praça Ramos de Azevedo, foi inaugurado em 1922 para celebrar o centenário da Independência do Brasil. Durante uma visita à cidade, o compositor italiano Pietro Mascagni, autor de Cavalleria Rusticana e amigo pessoal de Gomes, percebeu que o busto presente na escultura não correspondia à fisionomia do homenageado. Ao investigar o caso, descobriu que a cabeça representava o político José Gomes Pinheiro Machado. Após relatar o equívoco ao então prefeito Washington Luís, o busto foi substituído e o monumento recebeu finalmente a imagem correta do compositor. O episódio ficou conhecido como a “degola temporária” de Carlos Gomes, ocorrida em 1926, quando a peça original foi removida para ser refeita.[33]
Envolvimento com a Maçonaria
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Carlos Gomes foi iniciado na Maçonaria em 24 de julho de 1859, na cidade de São Paulo, juntamente com seu irmão José Pedro de Sant'Ana Gomes, na loja Grande Benemérita e Grande Benfeitora Amizade, vinculada ao Grande Oriente do Brasil. O registro de sua admissão consta em ata preservada na Biblioteca do Grande Oriente do Brasil, no Palácio Maçônico do Lavradio, no Rio de Janeiro.[34]
O legado do compositor é lembrado em diversas lojas maçônicas regulares em atividade no estado de São Paulo que levam seu nome como patrono, localizadas em Campinas, Jaguariúna, Tupã e na cidade de São Paulo. A loja da capital, denominada A∴R∴L∴S∴ Carlos Gomes nº 1.598 – Grande Benfeitora da Ordem, foi fundada em 30 de setembro de 1950 e permanece filiada ao Grande Oriente do Brasil e ao Grande Oriente Paulista. Já em Campinas, a A∴R∴L∴S∴ Maestro Carlos Gomes nº 507, fundada em 25 de janeiro de 1998, é jurisdicionada à Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo (GLESP) e atua sob o Rito Escocês Antigo e Aceito, promovendo atividades maçônicas, culturais e filantrópicas em homenagem ao maestro.[35]
Representações na cultura
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- Artes e mídia
- Na minissérie Chiquinha Gonzaga (1999), foi retratado na televisão pelo ator Paulo Betti.[36]
- Na peça teatral Maestro Selvagem (2024), escrita por Miriam Halfim e dirigida por Ary Coslov, com Luciano Quirino no papel principal.[37]
- No filme Bravo! Carlos Gomes do Brasil (em produção), dirigido por Ariane Porto e estrelado pelo tenor Jean William como Carlos Gomes.[38]
- Literatura
- Homenagem à Memória de Carlos Gomes (1897), organizado pela Academia de Amadores de Música de Lisboa e publicado pela Companhia Nacional.
- A Vida de Carlos Gomes (1935), biografia escrita por Ítala Gomes Vaz de Carvalho, filha do compositor.[39]
- O Selvagem da Ópera (1994), romance de Rubem Fonseca que utiliza episódios da vida de Carlos Gomes como base para o enredo.
- Carlos Gomes – Documentos Comentados (2007), de Marcus Góes, publicado pela Algol Editora, reúne documentos históricos e cartas do compositor.[40]
- Numismática
- Figurou em moedas de trezentos réis emitidas em 1936 e 1937.[41]
- Teve sua efígie impressa nas notas de Cr$ 5 000,00 (cinco mil cruzeiros) de 1990.[42]
Montagens brasileiras
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- O Guarani - montagens no Teatro Alfa, com regência de Isaac Karabtchevsky e em Portugal, produção da Casa da Ópera no Teatro Nacional de São Carlos, com regência de Luiz Fernando Malheiro. Coprodução da Casa da Ópera e Ópera Nacional da Bulgária Regência Júlio Medaglia 1996/97.
- O Guarani - Montagem do Teatro da Paz - com regência de Roberto Duarte e interpretação do tenor paulista Richard Bauer, como Pery, e o soprano Adriane Queiroz, paraense radicada em Berlim.
- O Guarani - Montagem da versão integral (revisão de Roberto Duarte) em 2002, em coprodução entre a Casa da Ópera e o Palácio das Artes, em Belo Horizonte - regência de Emilio de César, com a direção de Cleber Papa.
- Maria Tudor - com regência do maestro Luiz Fernando Malheiro e a soprano Eliane Coelho. Essa produção foi realizada pela Casa da Ópera em Sófia, Bulgária e gravada em CD e vídeo.
- Fosca - montagem brasileira da Casa da Ópera em Sófia, na Bulgária, com reapresentação no Teatro Municipal de São Paulo, Teatro da Paz e Teatro Amazonas.
- Condor - montagem no Teatro Amazonas e reapresentação no Teatro universal de São Paulo, em 2005.
- Colombo - montagem no Teatro Municipal de São Paulo com regência de Rogério Duarte e Sebastião Teixeira como Cristóvão Colombo
- Lo Schiavo - com direção e produção de Fernando Bicudo, em 1998, no Teatro Municipal de São Paulo, Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Palácio das Artes de Belo Horizonte, Teatro Nacional Cláudio Santoro, Teatro da Paz de Belém e Teatro Artur Azevedo de São Luís do Maranhão e remontagem em Campinas, em 2004, com regência de Cláudio Cruz, interpretado pelo barítono Sebastião Teixeira que ganhou Prêmio Carlos Gomes de 1999, por sua interpretação.
Óperas
[editar | editar código]- A Noite do Castelo (Rio de Janeiro,1861)
- Joana de Flandres (Rio de Janeiro,1863)
- Il Guarany (Milão, 1870)
- Fosca (Milão, 1873)
- Salvator Rosa (Gênova, 1874)
- Maria Tudor (Milão, 1879)
- Lo Schiavo (Rio de Janeiro, 1889)
- Condor (Milão, 1891)
- Colombo (Rio de Janeiro, 1892)
Ver também
[editar | editar código]- Fundação Carlos Gomes
- Instituto Estadual Carlos Gomes
- Conservatório Carlos Gomes (Campinas)
- Conservatório de Música do Rio de Janeiro
Referências
- ↑ a b c d «Biografia de Carlos Gomes». e-Biografias. 11 de abril de 2012. Consultado em 11 de julho de 2012. Arquivado do original em 6 de março de 2016
- ↑ a b c d e f g h «Compositores brasileiros: Carlos Gomes». MiniWeb. Consultado em 16 de outubro de 2009. Cópia arquivada em 13 de maio de 2025
- ↑ «Carlos Gomes». Folha on Line. Arquivado do original em 1 de maio de 2007
- ↑ Redação ABM (16 de setembro de 2025). «129 anos da morte do patrono Carlos Gomes». Academia Brasileira de Música. Consultado em 23 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 23 de outubro de 2025
- ↑ Da Redação (28 de dezembro de 2017). «Maestro Antônio Carlos Gomes tem nome inscrito no Livro dos Heróis da Pátria». Agência Senado. Consultado em 9 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 29 de novembro de 2020
- ↑ «Antônio Carlos Gomes – Herói da Pátria». Livro de Aço. Governo Federal. 30 de maio de 2025. Consultado em 9 de outubro de 2025
- ↑ atualmente denominada Rua Regente Feijó
- ↑ a b c «Compositores brasileiros: Carlos Gomes». UOL educação. Consultado em 16 de outubro de 2009. Cópia arquivada em 16 de outubro de 2019
- ↑ a b «Sant'Anna». Maestro Carlos Gomes. Consultado em 16 de outubro de 2009. Arquivado do original em 6 de novembro de 2012
- ↑ «Antônio Carlos Gomes - Patrono da SBACE». Sociedade Brasileira de Artes Cultura e Ensino - Carlos Gomes. Consultado em 16 de outubro de 2009. Arquivado do original em 7 de abril de 2011
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v «A Vida de Carlos Gomes | A Campinas de Carlos Gomes». carlosgomes.campinas.sp.gov.br. Consultado em 14 de setembro de 2025. Cópia arquivada em 17 de julho de 2025
- ↑ «Antônio Carlos Gomes». Portal São Francisco. Consultado em 16 de outubro de 2009. Arquivado do original em 19 de dezembro de 2009
- ↑ a b Elizabeth (26 de maio de 2010). «Biografia de Carlos Gomes». Letras.com. Consultado em 11 de julho de 2012. Cópia arquivada em 15 de dezembro de 2024
- ↑ «Carlos Gomes:A Grande Presença Brasileira na Música Clássica». Pietre Stones. Consultado em 16 de outubro de 2009. Cópia arquivada em 11 de julho de 2025
- ↑ a b A. A. Bispo (1936). «Feminismo e auto-valorização em Ítala Gomes Vaz de Carvalho na problemática historiográfica de Carlos Gomes». Revista Brasil-Europa. Consultado em 24 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 25 de janeiro de 2025
- ↑ «A Vida de Carlos Gomes | A Campinas de Carlos Gomes». carlosgomes.campinas.sp.gov.br. Consultado em 14 de setembro de 2025. Cópia arquivada em 17 de julho de 2025
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Ligações externas
[editar | editar código]- Nascidos em 1836
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