Nheengatu

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Disambig grey.svg Nota: Este artigo é sobre a língua derivada do tronco tupi. Para o álbum de Titãs, veja Nheengatu (álbum).
Nheengatu (Ñe’engatú)
Outros nomes:Tupi Moderno, Língua Geral, Língua Brasílica
Falado em: Brasil, Colômbia, Venezuela
Região: Amazônia
Total de falantes: 19 060[1]
Família: Proto-tupi
 Tupi
  Tupi-guarani
   Subgrupo III
    Nheengatu
Estatuto oficial
Língua oficial de: São Gabriel da Cachoeira
Códigos de língua
ISO 639-1: --
ISO 639-2: sai
ISO 639-3: yrl

A língua Nheengatu (Tupi: [ɲɛʔɛ̃ŋaˈtu], português: /ɲeẽɡaˈtu/), frequentemente escrito Nhengatu, é uma língua indígena da família de línguas Tupi-Guarani, sendo então derivada do tronco tupi. O nome do idioma deriva das palavras nhe'eng (que significa "língua" ou "falar") e katu (que significa "bom").[2][3] O nome do idioma relacionado Ñheengatu, no Paraguai, é derivado de maneira similar. Nheengatu é referido por uma grande variedade de nomes na literatura, incluindo Nhengatu, Tupi Costeiro, Geral, Yeral (na Venezuela), Tupi Moderno,[4] Nyengato, Nyengatú, Waengatu, Neegatú, Is'engatu, Língua Brasílica, Tupi Amazônico,[2] Ñe'engatú, Nhangatu, Inhangatu, Nenhengatu,[5] Yẽgatú, Nyenngatú, Tupi e Língua Geral. Também é comumente referida como Língua Geral Amazônica (LGA) no Brasil.

Os falantes de Nheengatu podem ser encontrados na região do Alto Rio Negro, com uma grande variedade falada na região do Médio Rio Negro. Mais especificamente, os falantes podem ser encontrados no município de São Gabriel da Cachoeira, no estado do Amazonas, no Brasil, onde Nheengatu é um idioma oficial (juntamente de baníua, tucano e português) desde 2002. Os falantes também podem ser encontrados nos vizinhos países da Venezuela e Colômbia.[6] Atualmente, continua a ser falado por aproximadamente 19 060 pessoas na região do vale do Rio Negro.[4]

Pertencente à família linguística tupi-guarani, o nheengatu surgiu no século XIX, como uma evolução natural da língua geral setentrional,[7] em um desenvolvimento paralelo ao da língua geral paulista (sendo esta última extinta).

História[editar | editar código-fonte]

Desenvolvimento[editar | editar código-fonte]

Moore (2014) documenta o desenvolvimento histórico de Nheengatu, que é uma língua de contato que se estende por quinhentos anos, desde que os portugueses desembarcaram no Brasil em 1500. Ao chegarem ao Brasil, colonizadores portugueses encontraram diversas línguas ou dialetos aparentados da família Tupi-Guarani usados ao longo da costa do Brasil. Desconsideradas as diferenças dialetais, praticamente havia uma "língua brasílica" da qual os colonizadores podiam servir-se como lingua franca[8] para se comunicarem com os indígenas ao longo dum vasto território. Após contato europeu, houve muito intercâmbio cultural e comercial, e homens europeus procuravam mulheres locais e iniciaram famílias, produzindo filhos (ou mestiços) que falariam sua língua nativa, que é o precursor agora extinto de Nheengatu chamado Tupinambá (também conhecido como Brasílico ou Tupi Costal). Os europeus também aprenderam esse idioma para agir como intermediário, e Tupinambá passou a ser usado na colônia depois que os portugueses se estabeleceram permanentemente nas novas terras.[6] Em meados do século XVI, os jesuítas chegaram à Bahia, Brasil. Esses missionários eram aprendizes ativos das línguas nativas, produzindo manuais de idiomas. Obras linguísticas mais conhecidas do século XVI e início do século XVII são a Arte da Gramática da Língua mais usada na costa do Brasil pelo Padre José de Anchieta (1595) e a Arte da Língua Brasílica por Luis Figueira (1621).[6][9]

Capa do livro.
Capa de Arte de grammatica da lingoa mais usada na costa do Brasil por José de Anchieta em 1595.

A Amazônia foi estabelecida como a segunda colônia no início do século XVII. Na foz do Amazonas, o estado do Maranhão era linguisticamente diverso e enfrentava um afluxo de imigrantes do Brasil que falavam Tupinambá: “Índios, brancos, negros, pardos e mestiços deixando suas casas no Brasil para povoar o norte do país colônia trouxe a Brasílica com eles”.[6] O número de falantes de outras línguas superava imensamente os colonos portugueses nesta segunda colônia. Com esse afluxo de imigrantes do Brasil, Tupinambá era a língua para a qual as pessoas iam na colônia. (Rodrigues 1996a e Freire 2004) A língua falada pelos índios, tupi antigo, que foi denominado "língua brasílica", foi absorvida pela sociedade colonial, passando a ser usada não apenas por índios e jesuítas, mas também por muitos colonos de sangue português e por escravos africanos. A então chamada "língua geral" foi levada junto aos portugueses na conquista do território brasileiro, sendo imposta a povos indígenas que falavam outras línguas.

A Língua Geral evoluiu em dois ramos, a língua geral setentrional (amazônica) e a língua geral meridional (paulista), a qual em seu auge chegou a ser a língua dominante do vasto território brasileiro. Um manuscrito anônimo do século XVIII é emblematicamente intitulado "Diccionario da lingua geral do Brasil, que se falla em todas as villas, lugares, e aldeas deste vastissimo Estado, escrito na cidade do Pará, anno de 1771".[10]

A Língua Geral foi estabelecida como língua oficial de 1689-1727, após a qual o português foi promovido, mas sem sucesso. Em meados do século XVIII, a Língua Geral Amazônica (distinta da Língua Geral Paulista, variedade semelhante usada mais ao sul) foi usada em toda a colônia. Nesse ponto, Tupinambá permaneceu intacto, mas como uma "linguagem litúrgica".[6] As línguas usadas na vida cotidiana evoluíram drasticamente ao longo do século devido ao contato com a língua, com Tupinambá como a "língua dos rituais, e Língua Geral Amazônica, a linguagem da comunicação popular e, portanto, da instrução religiosa”.[11] Moore (2014) observa que, em meados do século XVIII, a Língua Geral Amazônica e Tupinambá já eram distintas.[6] Até então, a comunidade original de Tupinambá estava enfrentando um declínio, mas outras comunidades de fala ainda eram exigidas pelos missionários portugueses para aprender a língua tupinambá. Os esforços para se comunicar entre as comunidades resultaram na "corrupção" da língua tupinambá, daí a distinção entre tupinambá e língua geral amazônica.

Também em meados do século XVIII, porém, a população indígena enfrentou um acentuado declínio devido a doenças, sendo forçada a trabalhar sobre opressão por seus colonizadores portugueses. Houve um impulso ativo dos colonizadores para aumentar a presença portuguesa: as aldeias foram erradicadas ao longo da Amazônia e houve um esforço para substituir a Língua Geral Amazônica pela portuguesa. Havia diferentes variedades de Tupinambá nas diferentes comunidades da Amazônia, mas essas variedades foram substituídas em grande parte pelos portugueses no início do século XIX.[11] 1822 marcou a independência do Brasil; após o que houve uma grande revolta, chamada Cabanagem, contra os europeus. Isso envolveu índios, caboclos e negros, por mais de uma década, e muito sangue foi derramado. 40 000 vidas foram perdidas; todos eram da comunidade de língua Nheengatu.[12] Com o aumento da imigração devido à urbanização, os demais falantes da Língua Geral Amazônica, ou Nheengatu, foram empurrados para áreas mais remotas no oeste da Amazônia. Os documentos linguísticos também foram publicados durante esse período, devido ao crescente interesse em Nheengatu.

Nheengatu continuou a evoluir no século XX, quando se expandiu na região do Alto Rio Negro. Houve contato com outros idiomas como Marawá, Baníua, Warekana, Tucano e Dâw (Cabalzar; Ricardo 2006 em Cruz 2015). Devido a eventos econômicos e políticos, como o ciclo da borracha na Amazônia, a presença portuguesa voltou a ser sentida devido a esses eventos, forçando as populações indígenas a se mudarem ou serem subjulgados a trabalho forçado. Sua língua, naturalmente, foi novamente influenciada com o aumento da presença de falantes de português.[6]

A língua entrou em declínio no fim do século XVIII, com o aumento da imigração portuguesa e seu banimento em 1758 por Marquês de Pombal, por ser associada aos jesuítas, que haviam sido expulsos dos territórios dominados por Portugal. Isto extinguiu a língua geral paulista gradualmente. O declínio da língua geral na Amazônia acentuou-se com a chegada de migrantes nordestinos lusófonos após a Grande Seca de 1877.[7]

Até o século XIX, foi veículo da catequese e da ação social e política luso-brasileira na Amazônia, sendo mais falada que o português no Amazonas e no Pará até 1877.[13]

Família linguística[editar | editar código-fonte]

Nheengatu desenvolveu-se a partir da extinta língua tupinambá e pertence ao ramo tupi-guarani da família de línguas tupi.[6] A família de idiomas tupi-guarani é responsável por um grupo grande e diversificado de idiomas "incluindo, por exemplo, Xetá, Sirionó, Araweté, Ka'apor, Kamayurá, Guajá e Tapirapé". Muitas dessas línguas se diferenciaram anos antes da chegada dos portugueses no Brasil. Com o tempo, o termo Tupinambá foi empregado para descrever grupos que estavam "relacionados linguística e culturalmente", mesmo que a tribo original tivesse desaparecido.

Tomando como exemplo os pronomes pessoais, veja-se uma comparação entre o tupi antigo e o Nheengatu:

Português Tupi Antigo Nheengatu
eu xe, ixé se, ixé
tu ne/nde, endé ne, indé
ele, ela i, a'e (singular) i,
nós (exclusivo) oré
nós (inclusivo) îandé yané, yandé
vós pe, peẽ pe, penhẽ
eles, elas i, a'e (plural) i/ta, aintá

O tupinólogo Eduardo de Almeida Navarro defende que o Nheengatu, com suas características actuais, teria surgido somente no século XIX, como uma evolução natural da língua geral setentrional.[7]

Uso atual[editar | editar código-fonte]

Atualmente, o nheengatu ainda é falado por cerca de 73,31% dos 29,9 mil habitantes de São Gabriel da Cachoeira, no Brasil (Censo IBGE 2000), cerca de 3 000 pessoas na Colômbia e 2 000 pessoas na Venezuela, especialmente na bacia do rio Negro (rios Uaupés e Içana).[1] Para além disso, é a língua materna da população cabocla e mantém o caráter de língua de comunicação entre índios e não índios, ou entre índios de diferentes línguas. Constitui, ainda, um instrumento de afirmação étnica de povos indígenas amazônicos que perderam suas línguas nativas, como os barés, os arapaços, os baniuas, os uarequenas e outros.

O nheengatu é uma das quatro línguas oficiais do município de São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do estado do Amazonas, no Brasil.[14]

É possivel a existência de cerca de 19.000 falantes de Nheengatu em todo o mundo, de acordo com The Ethnologue (2005),[15] embora alguns jornalistas tenham relatado até 30.000.[16][17] A linguagem recuperou recentemente algum reconhecimento e destaque depois de ter sido suprimida por muitos anos. É falado na região do Alto Rio Negro, no estado do Amazonas, na Amazônia brasileira e em partes vizinhas da Colômbia e Venezuela. É a língua nativa da população rural da área e também é usada como uma linguagem comum de comunicação entre indígenas e não-indígenas e entre indígenas de diferentes povos.

Em 1998, o professor da Universidade de São Paulo, Eduardo de Alameida Navarro, fundou a organização Tupi Aqui dedicada a promover o ensino do Tupi e Nheengatu históricos em escolas de ensino médio de São Paulo e em outros lugares do Brasil.[2][18] O professor Navarro escreveu um livro didático para o ensino de Nheengatu que o Tupi Aqui disponibiliza, juntamente com outros materiais didáticos, em um site hospedado pela Universidade de São Paulo.[19]

Em dezembro de 2002, Nheengatu ganhou o status de idioma oficial ao lado do português no município de São Gabriel da Cachoeira, Brasil, onde muitos falantes estão concentrados, de acordo com a lei local 145/2002.[2]

O Ethnologue classifica Nheengatu como "mudando", com uma classificação de 7 na Escala de Interrupção Intergeracional Gradual (GIDS) (Simons e Fennig 2017). De acordo com essa escala, essa classificação sugere que “a população de filhos pode usar o idioma entre si, mas não está sendo transmitida às crianças”. Segundo o Atlas das Línguas em Perigo do Mundo da UNESCO, Nheengatu é classificado como "severamente ameaçado".[20]

Literatura[editar | editar código-fonte]

Ao longo de sua evolução desde o início como Tupinambá, uma extensa pesquisa foi realizada no Nheengatu. Houve estudos realizados em cada fase de sua evolução, mas muito se concentrou em como aspectos do Nheengatu, como gramática ou fonologia, mudaram através do contato exterior ao longo dos anos. (Facundes et al. 1994 e Rodrigues 1958, 1986).

Como mencionado anteriormente, os primeiros documentos que foram produzidos foram pelos missionários jesuítas nos séculos XVI e XVII, como a Arte da Gramática da Lingoa mais usada na costa do Brasil pelo Padre José de Anchieta (1595) e a Arte da Língua Brasileira de Luis Figueira (1621). Estas eram gramáticas detalhadas que serviam para seus propósitos religiosos. Vários dicionários também foram escritos ao longo dos anos (Mello 1967, Grenand e Epaminondas 1989, Barbosa 1951). Mais recentemente, Stradelli (2014) também publicou um dicionário de português-nheengatu.

Também houve vários estudos linguísticos de Nheengatu mais recentemente, como a tese de Borges (1991) sobre fonologia do Nheengatu e o artigo detalhado de Cruz (2011) sobre a fonologia e gramática de Nheengatu. Ela também estudou a ascensão da concordância em número no Nheengatu moderno, analisando como a gramaticalização ocorreu ao longo de sua evolução a partir de Tupinambá (Cruz 2015). Cruz (2014) também estuda a reduplicação do Nheengatu em detalhes, bem como a fissão morfológica em construções bitransitivas. Um livro didático para a condução das aulas de Nheengatu também foi escrito. (Navarro 2011). Lima e Sirvana (2017) fornecem um estudo sociolinguístico de Nheengatu na comunidade Pisasu Sarusawa do povo Baré, em Manaus, Amazonas.

Projetos de documentação do idioma[editar | editar código-fonte]

Agências de documentação de idiomas (como SOAS, Museu do Índio, Museu Goeldi e Dobes) atualmente não estão envolvidas em nenhum projeto de documentação de idiomas para Nheengatu. No entanto, as pesquisas sobre Nheengatu realizadas por Moore (1994) foram apoiadas pelo Museu Goeldi e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e financiadas pela Society for the Study of the Indigenous Languages of the Americas (SSILA) e pela Inter-American Foundation. Neste estudo, Moore se concentrou nos efeitos do contato com a língua e em como Nheegatu evoluiu ao longo dos anos com a ajuda de um informante que falava Nheegatu. Moore (2014) pede a “localização e documentação dos dialetos modernos de Nheegatu”, devido ao risco de extinção.[6]

Etnografia[editar | editar código-fonte]

Pesquisas antropológicas foram realizadas sobre a mudança de paisagens culturais ao longo da Amazônia, bem como a vida do povo Tupinambá e suas interações com os jesuítas.[21] Floyd (2007) descreve como as populações navegam entre suas esferas "tradicional" e "aculturada".[22] Outros estudos se concentraram no impacto da urbanização nas populações indígenas da Amazônia (de Oliveira 2001).

Características[editar | editar código-fonte]

Além da anteriormente mencionada língua geral paulista, agora extinta, o nheengatu é bastante relacionado com o tupi antigo, idioma extinto, e com o guarani do Paraguai, que, longe de estar extinto, é o idioma mais falado naquele país e uma de suas línguas oficiais. Segundo algumas fontes, o nheengatu antigo e o guarani chegaram a ser mutuamente inteligíveis no passado.

Escrita[editar | editar código-fonte]

Ao longo do tempo têm-se usado diversas convenções para escrever o nheengatu com base no alfabeto latino e segundo as regras do português, usando-se grafias como "nh"; "c"; "ç", "ce", "ci"; "que", "qui"; "h" mudo; "n" em fim de sílaba como marca de nasalisação; "u" e "i" usados indistintamente como vogais e semivogais; etc.

Mais recentemente pesquisadores da língua e os próprios falantes têm buscado usar convenções ortográficas mais adaptadas à fonologia da língua, menos vinculadas às convenções portuguesas. Essas convenções tendem a incluir o uso de til sobre as vogais "e", "i" e "u"; o uso de "k" em lugar de "c" e "qu"; o uso de "s" simples em lugar de "ç", "ce", "ci" ou "ss"; o uso de "y" e "w" para representar semivogais; o uso de "y" próximo à vogal nasal em lugar de "nh"; o uso de consoantes simples próximo a vogal nasal em vez de encontros consonantais "mb", "nd", "ng", "nt"; redução da acentuação tônica; etc.

Fonologia[editar | editar código-fonte]

Consoantes[editar | editar código-fonte]

Parênteses marcam fonemas marginais que ocorrem em somente algumas palavras, ou com status impreciso.[6]

Bilabial Alveolar Pós-alveolar Palatal Velar Glotal
plain lab.
Oclusivo plain p t (tʃ) k (kʷ) (ʔ)
voiced (b) (ɡ)
pré-nasalizadas ᵐb ⁿd ᵑɡ
Fricativa s ʃ
Vibrante múltipla r
Nasal m n
Aproximante w j j̃

Vogais[editar | editar código-fonte]

Oral Nasal
Fechada i ĩ
Média e
Semifechada o õ
Aberta a ã
Posterior fechada u ũ

Morfologia[editar | editar código-fonte]

Existem oito classes gramaticais em Nheengatu: substantivos, verbos, adjetivos, advérbios, posposição, pronomes, mostrativo e partículas.[6] Essas oito classes de palavras também são refletidas Fonologia e Gramática do Nheengatú de Cruz (2011). Em seus livros, Cruz inclui 5 capítulos na seção Morfologia, que descreve classes lexicais, lexicogênese nominal e verbal, a estrutura da frase substantiva e estruturas gramaticais. Na seção sobre classes lexicais, Cruz discute prefixos pessoais pronominais, substantivos e suas subclasses (incluindo pronomes pessoais, anafóricos e demonstrativos, além de substantivos relativos), verbos e suas subclasses (como verbos estativos, transitivos e intransitivos) e expressões adverbiais. O capítulo subsequente sobre lexicogênese nominal discute derivação endocêntrica, nominalização e composição nominal. Sob a lexicogênese verbal no capítulo 7, Cruz cobre a valência, reduplicação e o empréstimo de palavras de empréstimo em português. O capítulo seguinte discute a distinção entre partículas e clíticos, incluindo exemplos e propriedades de cada estrutura gramatical.

Pronomes[editar | editar código-fonte]

Existem dois tipos de pronomes em Nheengatu: pessoal ou interrogativo. Nheengatu segue o mesmo padrão de Tupinambá, em que o mesmo conjunto de pronomes pessoais é adotado para o sujeito e o objeto de um verbo.[6]

Singular Prefixo Sg Plural Prefixo Pl
1 isé se- yãndé yane-
2 ĩndé ne- pẽỹẽ pe-
3 aʔé i-

s-

aẽtá ta-

Amostras de texto[editar | editar código-fonte]

Pedro Luiz Sympson, 1876
A! xé ánga, hu emoté i Iára. / Xé abú iu hu rori ána Tupã recé xá ceiépi. / Maá recé hu senú i miaçúa suhi apipe abasáua: / ahé recé upáem miraitá hu senecáre iché aié pepasáua. / Maá recé Tupã hu munha iché áramau páem maá turuçusáua, / i r'ira puranga eté. / Y ahé icatusáua xé hu muçaim ramé, r'ira péaca upáem r'iapéaca ramé, maá haé aitá hu sequéié.
Pe. Afonso Casanovas, 2006
Aikwé paá yepé tetama puranga waá yepé ipawa wasú rimbiwa upé. Kwa paá, wakaraitá retama. Muíri akayú, paá, kurasí ara ramé, kwá uakaraitá aywã ta usú tawatá apekatú rupí. Muíri viaje, tausú rundé, aintá aría waimí uyupuí aitá piripiriaka suikiri waá irũ, ti arã tausaã yumasí tauwatá pukusawa.
Eduardo de Almeida Navarro, 2011
1910 ramé, mairamé aé uriku 23 akaiú, aé uiupiru ana uuatá-uatá Amazônia rupi, upitá mími musapíri akaiú pukusaua. Aé ukunheséri ana siía mira upurungitá uaá nheengatu, asuí aé umunhã nheengarisaua-itá marandua-itá irũmu Barbosa Rodrigues umupinima ana uaá Poranduba Amazonense resé.
Aline da Cruz, 2011
A partir di kui te, penhe nunka mais pesu pekuntai aitekua yane nheenga. Yande kuri, mira ita, yasu yakuntai. Ixe kuri asu akuntai perupi. Ixe kua mira. Ixe asu akuntai perupi. Penhe kuri tiã pesu pekuntai. Pepuderi kuri penheengari yalegrairã yane felisidaderã.
Trecho do livro Yasú Yapurũgitá Yẽgatú, 2014
Se mãya uyutima nãnã kupixawa upé. Nãnã purãga yaú arama yawẽtu asuí purãga mĩgaú arama yuiri. Aikué siya nãnã nũgaraita. Purãga usemu mamé iwí yumunaniwa praya irũmu.
Roger Manuel López Yusuino (nheengatu venezuelano), 2013
Tukana aé yepé virá purangava asoi orikú bando ipinima sava, ogustari oyengari kuemaite asoi osemo ara ramé osikari arama ombaó vasaí iyá. Tukana yepé virá porangava yambaó arama asoi avasemo aé kaáope asoi garapé rimbiva ropí.

Comparação com o tupi antigo[editar | editar código-fonte]

Tomando como exemplo os pronomes pessoais, veja-se uma comparação entre o tupi antigo e o nheengatu:

Tupi Antigo Nheengatu Português
xe, ixé se, ixé eu
ne/nde, endé ne, indé tu
i, a'e (singular) i, aé ele, ela
oré nós (exclusivo);
îandé yané, yandé nós (inclusivo);
pe, peẽ pe, penhẽ vós
i, a'e (plural) i/ta, aintá eles, elas

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b «Nheengatu», Etnólogo .
  2. a b c d Alves. "Ñe'éngatu" em guaraní significa "falar demais" ou alguém que fala demais. .Jr, Ozias (2010). Parlons Nheengatu: Une langue tupi du Brésil. Paris: L'Harmattan. ISBN 978-2-296-13259-7 
  3. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p.1 192.
  4. a b NAVARRO, E. A. Método moderno de tupi antigo: a língua do Brasil dos primeiros séculos. 3ª edição. São Paulo. Global. 2005. p. 13.
  5. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p.1 192, 1 727.
  6. a b c d e f g h i j k l Moore, Denny; Facundes, Sidney; Pires, Nádia (1994). Nheengatu (Língua Geral Amazônica), its History, and the Effects of Language Contact (PDF). [S.l.]: Survey Of California And Other Indian Languages, Berkeley: University of California 
  7. a b c NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo. Global. 2013. p. 537.
  8. «Línguas», Habilidades, RPG ficção .
  9. Anchieta, Joseph de (1595). Arte de Grammatica da Lingua mais Usada na Costa do Brasil. [S.l.]: Coimbra, Portugal: Antonio Mariz 
  10. «Ficha Bibliográfica: DICIONÁRIO DA LÍNGUA GERAL DO BRASIL». Biblioteca Geral Digital - Universidade de Coimbra. Consultado em 21 de maio de 2020 
  11. a b Freire, José Ribamar Bessa (2004). A extensão da Língua Geral Amazônica no século XIX e política de línguas. [S.l.]: RILI II 
  12. Facundes (1994). Nheengatu (Língua Geral Amazônica), sua história e os efeitos de contato com o idioma. [S.l.: s.n.] 
  13. NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo. Global. 2013. p. XVIII.
  14. Martin, Flávia; Moreno, Vitor. «Na Babel brasileira, português é 2ª língua». Folha de S. Paulo. Consultado em 30 de outubro de 2012. Arquivado do original em 4 de junho de 2012 
  15. Ethnologue Report for Nhengatu
  16. Rohter, Larry.  "Language Born of Colonialism Thrives Again in Amazon." New York Times. August 28, 2005.
  17. Angelo, Claudio (dezembro de 1998). «A língua do Brasil». Super Interessante. Consultado em 5 de dezembro de 2013 
  18. «Cursos de Tupi Antigo e Lingua Geral». Consultado em 5 de dezembro de 2013 
  19. Navarro, Eduardo de Almeida (2011). CURSO DE LÍNGUA GERAL  (NHEENGATU OU TUPI MODERNO)  A LÍNGUA DAS ORIGENS DA CIVILIZAÇÃO  AMAZÔNICA    (1ª edição) (PDF). São Paulo: [s.n.] 
  20. Moseley, Christopher; Nicolas, Alexandre (2010). Atlas of the world's languages in danger. unesdoc.unesco.org. Paris: United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. p. 17. ISBN 978-92-3-104096-2. Consultado em 21 de maio de 2020 
  21. Forsyth, Donald W (1978). The Beginning of Brazilian Anthropology: Jesuits and Tupinamba Cannibalism. [S.l.]: Journal of Anthropological Research. 
  22. Floyd, Simeon (2007). Changing Times and Local Terms on the Rio Negro, Brazil: Amazonian Ways of Depolarizing Epistemology, Chronology and Cultural Change. [S.l.]: Latin American and Caribbean Ethnic Studies. 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • NAVARRO, Eduardo de Almeida (2011), Curso de língua geral (nheengatu ou tupi moderno) – A língua das origens da civilização amazônica, ISBN 978-85-912620-0-7, São Paulo: Edição do autor . 112 pp.
  • Sympson, Pedro Luís, Gramática da língua brasileira: brasílica, tupi ou nheengatu .
  • Casasnovas, Padre A (2006), Noções de língua geral ou nheengatu 2ª ed. , Manaus: UFAM; Faculdade Salesiana Dom Bosco ,

Ligações externas[editar | editar código-fonte]