História da filosofia no Brasil

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A Faculdade de Direito do Recife foi onde nasceu e floresceu o movimento filosófico conhecido como a Escola do Recife, nos anos de 1860 e 1880, cujo líder era o sergipano Tobias Barreto.

História da Filosofia no Brasil refere-se à tradição do pensamento filosófico realizada por brasileiros dentro ou fora do Brasil. As atividades de reflexão filosófica foram trazida pelos padres jesuítas na segunda metade do século XVI com as atividades do descobrimento das Américas, e se estende até os dias atuais com o processo de profissionalização universitária.

Um dos pioneiros em utilizar a expressão "filosofia no Brasil" foi Sílvio Romero, em sua obra historiográfica A filosofia no Brasil (1878). É possível separar em três grandes momentos o desenvolvimento da história da filosofia no Brasil. A primeira metodologia de estudo de filosofia no Brasil foi marcada pela utilização do método da Ratio Studiorum introduzido pelos jesuítas no século XVI. No século XIX, foi marcado pela predominância do método ensaístico, com uma filosofia sem referência à tradição, pois era formada por eruditos provenientes de diversas áreas do conhecimento. Por fim, o último modo moderno de se estudar filosofia teve seu princípio no século XX, marcado pela profissionalização e especialização dos estudos universitários. Seu marco foi na década de 1940 com a missão francesa na Universidade de São Paulo, introduzido por Martial Gueroult e Victor Goldschmidt. Contudo, o estudo da história da filosofia baseado apenas em comentários ocasionou pouca produtividade filosófica no país, como é atestado por Roberto Gomes no livro "A Crítica da Razão Tupiniquim" (1977).

Um dos primeiros compiladores contemporâneos da filosofia no Brasil foi João Cruz Costa (1904-1978), autor de Contribuição à História das Ideias no Brasil (1949), que é citado por Leopoldo Zea Aguilar (1912-2004) em seu Pensamiento Latinoamericano (1965, segunda edição de Dos etapas del pensamiento en hispanoamérica, de 1949). Costa utiliza o método historiográfico citado acima, o qual se baseia na perspectiva do papel das ideias na condução da história política e econômica, em disputa com uma perspectiva dialética que identifica a conjuntura socioeconômica como o berço no qual são acalentadas as ideias, críticas ou ideologias. Em muitos casos, a história da filosofia no Brasil tem sido um registro ou coleção de temas e conteúdos elaborados por pensadores que atuaram neste espaço geográfico. Há uma certa hegemonia do primeiro grupo nos estudos do pensamento brasileiro, o que pode ser notado por meio de visita ao blogue "Textos de Filosofia Brasileira", alimentado pelo professor doutor Luiz Alberto Cerqueira (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro). Diferentemente, a concepção de Cruz Costa é de o Brasil ser um país de contrastes, que precisa ser compreendido em meio a esses dilemas. Da mesma forma também precisa ser entendida a produção de ideias, até mesmo as ideias filosóficas.[1]

Muitos autores compreendem, por pensamento filosófico no Brasil, um duplo projeto: a construção de linhas de interpretação do pensamento filosófico à luz das circunstâncias da realidade brasileira e a construção de linhas de pensamento filosófico oriundas da brasilidade ou pertinentes à brasilidade ou correspondentes à nacionalidade brasileira dos autores.[2] João Cruz Costa já anunciara que a investigação filosófica do "tema nacional" era algo nebuloso. Por um lado, a produção de conhecimento filosófico se dá em diálogo com a produção do conhecimento científico e a vida econômica, política, social e cultural de cada sociedade, em seu espaço e tempo determinados. Por outro lado, Cruz Costa aponta que o enfrentamento cultural que foi a chegada dos europeus às Américas implicou em um elemento novo no processo de modernização pelo qual passava a Europa e gerou, simultaneamente, uma relação mimética com a cultura europeia.[3]

Antônio Paim, um dos principais pesquisadores do pensamento brasileiro, classifica nossos pensadores segundo a estrutura apresentada a seguir:[4] período colonial, período imperial e período republicano. Como se nota, essa periodização respeita a clássica divisão historiográfica da história nacional. Procura-se, por meio dela, agrupar pensadores por meio dos períodos históricos, sem necessariamente relacioná-los à conjuntura social, econômica, política e cultural na qual produzem suas obras. Por exemplo, não há, na obra de Paim, discussões sobre o papel do aristotelismo no pensamento colonial e suas conexões, ou inexistência delas, com a economia escravagista. Parece, por conseguinte, necessário avançar por uma perspectiva historiográfica que faça tais conexões.

A história da filosofia no Brasil[editar | editar código-fonte]

Período Pré-Cabralino[editar | editar código-fonte]

Os índios que habitavam o Brasil antes da chegada dos europeus possuíam todo um conjunto de cosmovisões que deve ser incluído na história da filosofia no Brasil. Porém, por terem sido povos ágrafos, esse conhecimento chegou até nós somente sob a forma dos relatos escritos dos observadores europeus, o que pode ter gerado muitas distorções e equívocos de interpretação. Sendo assim, tal campo de estudos ainda aguarda pesquisas etnológicas mais aprofundadas.[5]

Período Colonial[editar | editar código-fonte]

Século XVI[editar | editar código-fonte]

O processo do descobrimento das Américas causou profundas mudanças nas perspectivas filosóficas na Europa, que vivia seu momento final do renascimento. O fulcro da questão era sobre os povos nativos do continente, os índios, que se encontravam numa organização sociocultural completamente diferente da dos povos europeus. O grande centro cultural e filosófico da época estava na Espanha, com os padres da escolástica tardia da conhecida escola de Salamanca. Em Portugal, o importante centro formador será Coimbra.

Pórtico do Colégio de São Gregório

Um enorme debate aconteceu nos países ibéricos, conhecido como o debate de Valladolid, ocorrido no Colégio de São Gregório em 1550 e 1551. O debate foi entre Juan Ginés de Sepúlveda e Bartolomé de las Casas. O continente americano encontrava-se, então, varrido pelos conflitos gerado pelos conquistadores hispânicos, como os avanços de Hernán Cortés sob o Império Asteca. Isso gerou diversas atrocidades, saques e escravização dos nativos americanos. A discussão girou em torno do conceito de guerra justa que poderia ser empreendida contra os nativos americanos. A raiz dessa discussão encontrava-se em São Tomás de Aquino.

Juan Ginés de Sepúlveda defendia a conquista dos espanhóis e a escravização dos povos indígenas. Sepúlveda seguia uma perspectiva aristotélica, tendo, por subsídio, o livro I da Política, onde se advoga que certos povos nasceram para ser dominados e escravizados. "A fim de erradicar os crimes que ofendem a natureza", os índios deveriam ser punidos e, portanto, reduzi-los à escravidão ou servidão estava de acordo com a teologia católica e a lei natural.[6]

Em contraponto, Bartolomé de las Casas advogava que os povos latino-americanos tinham alma, eram homens livres na ordem natural e merecia o mesmo tratamento que outros, de acordo com a teologia católica.[7] Essa defesa valeu, para Casas, o título de protector dos índios. Dessa forma, foi consolidado o sistema de encomienda organizado pelas Leis Novas em 1542. Tal sistema visava a evitar a escravização indígena, bem como a levar, aos índios, a fé católica e os princípios da civilização ocidental. A bula papal Sublimus Dei, do Papa Paulo III, escrita em 1537, teve influência sobre esse debate, pois demonstrava a posição contrária da Igreja em relação à escravização indígena.

Nos Ensaios de Michel de Montaigne, escritos em 1580, o autor se coloca em contraponto à colonização e à guerra justa empreendida contra os povos nativos, refletindo que essa conquista da América refletia um lado bárbaro e selvagem por parte da civilização ocidental e cristã. O processo de colonização das Américas repercutiu na literatura da filosofia humanística em outros países. Forneceu base para os escritos de Erasmo de Roterdão sobre o Elogio da Loucura de 1511; e Utopia, escrito em 1516 por Tomás Morus. Muito desse debate será importante para formulação do direito internacional, tendo, como principais expoentes, o escolástico de Salamanca Francisco de Vitória e o holandês Hugo Grócio.

"Evangelho nas Selvas" (1893), pintura de Benedito Calixto que retrata o padre Anchieta

Os jesuítas terão o objetivo de levar a salvação das almas aos nativos americanos. Eles chegaram na frota de Tomé de Sousa em 1549, fundando o Colégio de Salvador. Eram liderados pelo padre Manuel da Nóbrega, e contavam com nomes importantes: Leonardo Nunes, Vicente Pires e João de Azpilcueta Navarro. Posteriormente, em 1553, chegou o padre José de Anchieta. Através deles que surgem os principais escritos sobre o Brasil que marca a literatura do quinhentismo. A filosofia passou a ser lecionada como apoio para a formação do clero, que passou a seguir o plano de estudos do Ratio Studiorum escrito em 1599. Esse livro, que ditava os métodos de estudos, foi inspirado na escolástica tardia e foi adotado pelos padres jesuítas. Os padres também fariam preciosos relatos sobre os eventos históricos da vida da colônia, sendo um dos precursores da historiografia brasileira Frei Vicente do Salvador com o livro Historia do Brazil (1627).

Os jesuítas condenavam práticas de vida dos nativos como a antropofagia e a poligamia e tinham, por meta, adaptar a moral da civilização cristã aos índios. Para esse processo de assimilação cultural, uma maiores contribuições intelectuais foi a sistematização da língua tupi. Todos esses elementos demonstravam a finalidade dos jesuítas de fazer, dos tupis, uma nova elite das nações cristãs. Essa iniciativa era uma importante estratégia organizada no Concílio de Trento para conter os avanços realizados na Europa pela Reforma Protestante. Até o século XVIII, os jesuítas irão somar um número de 670 espalhados ao longo do país, em conventos, missões e aldeias.[8]

Haverá um conflito em relação ao método de evangelização dos nativos. Por um lado, alguns adotaram o modelo da fundação de colégios; outros, o modelo das missões. O primeiro era baseado no discernimento e era semelhante à encomiendaː os índios já evangelizados prestavam serviços aos colonos, ganhando alguma remuneração pelos serviços. O segundo, o das missões, eram aldeamentos isolados, onde os índios evangelizados continuavam com seus modos de vida. Construíam uma cidade, às vezes murada, com igrejas e escolas, e tudo isso eram organizado pelos padres. O clero advogava mais a última forma de evangelizar, pois garantia que os índios não virariam escravos. Muitos conflitos ocorreram principalmente com os bandeirantes, que buscavam mão de obra para a produção agrícola da cana-de-açúcar.

Os colégios educadores se espalharam pelo Brasil. O primeiro foi na cidade de Salvador, fundado em 1549 pelo padre Manuel da Nóbrega, tendo "como mestre o Irmão Vicente Rodrigues, com apenas 21 anos. Irmão Vicente tornou-se o primeiro professor nos moldes europeus e durante mais de 50 anos dedicou-se ao ensino e a propagação da fé religiosa."[9] . Em 1554, o padre José de Anchieta funda os Colégios de São Paulo. Com a expulsão dos franceses, é fundado em 1567 o Colégio do Rio de Janeiro. Um ano depois, o Colégio de Olinda. Em 1570, o Brasil "conta com cinco escolas elementares (Porto Seguro, Ilhéus, São Vicente, Espírito Santo e São Paulo de Piratininga) e três colégios: (Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia)."[9]

Século XVII[editar | editar código-fonte]

Padre António Vieira

Em 1638, a filosofia passou a ser ensinada em nível superior no Colégio do Rio de Janeiro. Essas correntes filosóficas europeias tiveram suas correspondências no país. Os representantes foram: Diogo Gomes Carneiro, Nuno Marques Pereira. Esta filosofia é conhecida como "saber de salvação." Sobressaiu-se, também, o padre Vieira, com a sua moral da ação. Muitos resultados alcançou o ensino dos jesuítas, como a figura de nativos como Filipe Camarão e, no campo do direito, o santista Alexandre Gusmão, que se tornou um importante diplomata, defensor do direito de posse e mentor do Tratado de Madrid, que deu, ao Brasil, extensão muito próxima à atual.

Século XVIII[editar | editar código-fonte]

Ver também: Iluminismo
Marquês de Pombal

Até a segunda metade do século XVIII, a escolástica foi o pensamento predominante no Brasil, tendo, como marca, Matias Aires. Ele abordava o problema da ética tomando uma perspectiva teleológica. No seu livro Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, escrito em 1752, o autor relaciona o cânone evangélico do trecho bíblico extraído do Eclesiastes Vanitas vanitatum et omnia vanitas ("Vaidade das vaidades, tudo é vaidade") ao pensamento das virtudes em Aristóteles. Outros tiveram importância como: Feliciano Joaquim de Souza Nunes e Francisco Luís Leal (ou Santos Leal).

José Joaquim da Cunha Azeredo Coutinho

Entretanto, com as reformas iluministas do Marquês de Pombal, surgiu o empirismo mitigado, que era caracterizado por uma visão cientificista. Silvestre Pinheiro Ferreira introduziu, no Brasil, o empirismo e inaugurou um movimento de reação antiescolástica, reinterpretando Aristóteles com base no empirismo inglês de John Locke.

O padre Azeredo Coutinho foi bispo de Olinda e teceu importantes comentários sobre a administração colonial e contra as medidas mercantilistas, em favor de uma perspectiva mais liberal.

Dentre as diversas medidas das reformas pombalinas, estava o encerramento das atividades dos jesuítas no Brasil, sendo, os Jesuítas, expulsos do Reino de Portugal e de suas colônias. Isso interrompeu todo o trabalho executado nas escolas dos jesuítas. A filosofia passou então a ser divulgada em grupos secretos maçons como o Areópago de Itambé em Recife e outras lojas espalhadas no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. Tais grupos estiveram na vanguarda das revoltas que exigiam a emancipação do Brasil em relação a Portugal.

[9]

Período Imperial[editar | editar código-fonte]

Século XIX[editar | editar código-fonte]

O desenvolvimento da filosofia no Império do Brasil pode ser dividido em três momentos: o primeiro reinado, o Período regencial e o segundo reinado. Durante o primeiro reinado, é notável a hegemonia do liberalismo iluminista do século XVIII. Com a experiência da administração liberal do período regencial, surgiram correntes antagônicas ao iluminismo. Muitos aderiram a correntes espiritualistas e metafísicas tradicionais por influência do romantismo.

No início do século XIX, o Brasil estava emergindo como país autônomo sob o reinado de dom Pedro I. Muitos entrelaçaram as reflexões filosóficas aos sentimentos patrióticos. Muita influência francesa foi possível observar, como por exemplo na Constituição de 1824, inspirada no pensamento do poder moderador do pensador franco-suíço Benjamin Constant. Muitas contribuições políticas serão por parte de conservadores como Visconde do Uruguai, Marquês de São Vicente, Zacarias de Góis e Vasconcelos, Visconde de Cairu e Bernardo Pereira de Vasconcelos; liberais moderados como José Bonifácio e Hipólito José da Costa; e liberais radicais como Frei Caneca e Diogo Antônio Feijó.

Durante o Período regencial, o caos social gerado durante a hegemônica administração liberal ajudou para que surgissem os primeiros elementos antagônicos ao iluminismo brasileiro. É importante observar que, com o fim do ensino dos jesuítas, a forma da filosofia passou a ser a de um método de escrita puramente ensaístico, gerando contribuições de pessoas de diversas áreas do conhecimento. O maior polo formador da erudição filosófica passaram a ser as faculdades de direito, como a Faculdade do Largo de São Francisco em São Paulo, e a Faculdade de Direito de Olinda. Muitas contribuições para a filosofia serão através de juristas, romancistas, poetas e políticos. Em 1838, o elemento de transformação para as ciências sociais foi a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Foi o início do estudo da historiografia do Brasil. Com o objetivo de compreender os elementos da integridade nacional, será o foco da reflexão de Francisco Adolfo de Varnhagen.

Em reação ao iluminismo, surgiu o ecletismo como uma fusão do espiritualismo metafísico, fruto do racionalismo francês de René Descartes, e do empirismo inglês de John Locke, sendo, o maior expoente, o educador francês Victor Cousin. O ecletismo vai ter grande adesão na primeira metade do século XIX por diversos setores da sociedade brasileira, como o poeta Gonçalves de Magalhães, o pintor Pedro Américo, o médico Eduardo Ferreira França e Antônio Pedro de Figueiredo. Será característica a influência do indianismo como forma de buscar os valores de identidade da nação brasileira.

Em 1845, Álvares de Azevedo, Aureliano Lessa e Bernardo Guimarães fundaram um grupo secreto de escritores chamado Sociedade Epicureia. O grupo era composto por boêmios e produziu discussões e sarais sobre a temática sombria da vidaː por exemplo, sobre morte e satanismo. Tiveram muita influência do romantismo de Lord Byron e Charles Baudelaire. Foram, também, participantes: Francisco Leite de Bittencourt Sampaio, Castro Alves, Fagundes Varela, João Cardoso de Meneses e Sousa (Barão de Paranapiacaba) e Múcio Teixeira, entre outros. Na mesma época, vai existir forte influência no direito no Brasil através do pensamento panteísta de Karl Christian Friedrich Krause, que tinha também influenciado fortemente a Espanha através de Julián Sanz del Río e Francisco Giner de los Ríos, um dos fundadores da Institución Libre de Enseñanza sobre pedagogia com influência no krausismo. No Brasil, terá mais repercussão no direito por: João Teodoro Xavier de Matos e Carlos Mariano Galvão Bueno. Na Faculdade de Direito de Recife, o tomismo surgiu com o pensamento do paraibano José Soriano de Souza e teve respaldo em outros pensadores como: João Mendes de Almeida Júnior, Leonel Franca, Frei Firmino de Centelhas, José Maria Correia de Sá e Benevides e José Maria Correia de Sá e Benevides (padre Júlio Maria).

Tobias Barreto

Contudo, na segunda metade do século XIX, houve uma enorme mudança a partir do segundo reinado. Inicialmente com a introdução dos pensamentos de influência filosofia alemã. A partir desta corrente, veio um período chamado por Sílvio Romero de "surto de novas ideias".

Silvio Romero

A Faculdade de Direito de Recife se tornou o polo florescedor do positivismo entre os intelectuais do Brasil, na chamada Escola do Recife. Terá destaque, nesse grupo, Tobias Barreto, que vai tentar trazer a influência da filosofia alemã herdeira do kantismo. Teórico do monismo evolucionista, Barreto sofreu profundas influências do naturalista Ernst Haeckel. Essa Escola do Recife será uma forma do positivismo heterodoxo advogado por Émile Littré. Isso repercutirá em diversos pensadores como: Silvio Romero, Clóvis Beviláqua, o historiador Capistrano de Abreu, o médico Luís Pereira Barreto, Ivan Monteiro de Barros Lins e por Alberto Sales entre diversoso outros bacharéis. Isso fará com que o positivismo repercuta nas diversas camadas da sociedade imperial. Uma das grandes contribuições dos estudiosos do positivismo da Escola do Recife foi as primeiras tentativas de organizar a história da filosofia no Brasil, sendo esse o título das primeiras obras de Silvio Romero em 1878.

Na região sul e sudeste do Brasil, o positivismo terá uma influência na sua forma ortodoxa como defendido por Pierre Laffitte, com a criação da Igreja Positivista. Sendo, os maiores expoentes no Brasil: Miguel Lemos, Raimundo Teixeira Mendes e Benjamin Constant Botelho de Magalhães, que fundaram, em 1876, a Sociedade Positivista do Brasil, e a Igreja Positivista do Brasil em 1881. Todos advogaram o Estado laico, o ingresso das mulheres na política, e muito dessa filosofia irá servir de suporte ao movimento abolicionista liderado pelo liberal Joaquim Nabuco e Ruy Barbosa, e ao movimento republicano que culminou com o Proclamação da República do Brasil. Valentim cita: "um exemplo da ampla e profunda influência do Positivismo no Brasil [...] pode ser encontrado na bandeira brasileira republicana em que é estampada a frase "ordem e progresso", que constitui a síntese do ideário comtiano, que conquistou as mentes dos intelectuais na passagem do século XIX para o século XX no Brasil".[10]

Período Republicano[editar | editar código-fonte]

Século XX[editar | editar código-fonte]

A República do Brasil, também conhecida como República dos Bacharéis, demonstra forte produção de juristas brasileiros. A primeira década do século XX vai ser marcada pelo positivismo. No direito, vai respaldada por Pontes de Miranda e Pedro Lessa, que compunha a Liga da Defesa Nacional, que advogava a serviço militar obrigatório. Os princípios positivistas repercutiam em quase todas camadas políticas do Brasil durante esse período.

Em contraponto, surgiram autores que foram contra essa corrente positivista, que era uma herança do kantismo. Um dos mais importantes foi a metafísica de Raimundo de Farias Brito e Jackson de Figueiredo. Figueiredo foi o responsável pela fundação do Centro Dom Vital, que era uma organização católica, responsável pela exposição do pensamento filosófico conservador ultramontano antiliberal e antimaçom. Depois da morte de Fiqueredo, o Centro Dom Vital passou para ser administrado por Alceu Amoroso Lima. Outros autores importantes surgiram, como: Leonel Franca, Heráclito Fontoura Sobral Pinto e Manuel Bonfim. Este último travou um forte confronto contra Silvio Romero sobre a questão da importância da miscigenação para formação da identidade do povo brasileiro. Muitos positivistas, influenciados pela doutrina de Arthur de Gobineau, que tinha passado pelo Brasil, adotavam muitas posições racistas, e defendiam que o Brasil necessitaria passar por um processo de embranquecimento racial. Manuel Bonfim foi uma das principais vozes em antagonismo contra essas correntes, advogando a miscigenação como um importante elemento positivo na formação da identidade nacional.

Oswald de andrade

Um marco importante da produção cultural e filosófica, durante a primeira metade do século XX, foi a Semana de Arte Moderna de 1922. Marcados pela influência do futurismo de Marinetti, pregavam a total ruptura com a tradição cultural em favor da construção de uma nova cultura, uma nova forma de ser, genuinamente nacional. Seria possível detectar a primeira tentativa de buscar não mais uma filosofia no Brasil, mas uma filosofia do Brasil. Em busca dessa nova tentativa de reconstruir a identidade nacional, os modernistas passam a novamente, reconstruir a imagem do índio através da forma do primitivismo como o elemento central para a ruptura. Sendo as bases iniciais ditadas na Revista Klaxon Manifesto da Poesia Pau-Brasil, Movimento Verde-Amarelo e o Manifesto Antropófago. Essa onda artística tem influências longínquas do hegelianismo. E como houve uma bifurcação política, é notável uma bifurcação dos autores em duas correntes. Os da direita hegeliana unido os princípios indianistas do modernismo à metafísica de Farias Brito realizado por Plinio Salgado que gerou o movimento nacionalista: Integralismo, inspirado no integralismo lusitano e no corporativismo.

Oswald de Andrade incorpora os elementos do hegelianismo de esquerda e filia-se ao Partido Comunista Brasileiro. Apesar de, no futuro, largar a militância política, Oswald vai estudar sobre os princípios do homem cordial como elemento formador da nação, tema este que seu amigo Mário de Andrade também irá muito refletir. Osvaldo Aranha também é outro importante ícone dessa época. Outro importante expoente do nacionalismo foi Arlindo Veiga dos Santos, criador da Frente Negra Brasileira e posteriormente da Ação Imperial Patrianovista Brasileira. Árduo defensor da monarquia, também foi influenciado pelo integralismo lusitano, mas jamais se filiou às fileiras do integralismo, embora tivesse uma relação cordial com Plínio Salgado. Do integralismo, surgiram diversos intelectuais e artistas, muitos com o foco voltado para o estudo da identidade nacional e da história do Brasil. Entre eles, Gustavo Barroso e Luís da Câmara Cascudo. Miguel Reale sofreu uma profunda influência das reflexões de Plínio Salgado e recorreu ao neokantismo para elaborar sua teoria tridimensional do direito.

Outro grupo que destacou-se em dar uma nova interpretação para a história do Brasil foi a corrente marxista. Dentre seus pensadores, houve intelectuais como Leôncio Basbaum e Caio Prado Júnior.

Dentro da corrente modernista, houve também os responsáveis pela reforma pedagógica conhecida como Escola Nova, que teve, como um dos principais expoentes, Anísio Teixeira, que tinha influência das reformas educacionais de John Dewey.

Toda essa onda de nacionalismo culminou com a revolução de 1930 e o regime de Getúlio Vargas. O positivismo demonstrou sua forte influência na vida cultural do país, sendo, um dos seus principais representantes, Francisco Campos, que criou a Legião de Outubro para dar suporte à Revolução de 1930. Com as reformas educacionais de Gustavo Capanema, os princípios da Escola Nova passam a ser adotados. Getúlio Vargas, em 1939, criou a Faculdade Nacional de Filosofia, que passou a integrar a Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Teodoro Augusto Ramos passou a ser responsável pelo governo do Estado de São Paulo de Armando de Salles Oliveira para convocar eruditos para compor o corpo docente da recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, que iria compor o que seria a Universidade de São Paulo. Nesse momento, a filosofia no Brasil passou por uma profunda mudança, entrando na sua terceira fase, a acadêmica universitária. A filosofia passou por um processo de profissionalização, constituindo um departamento dentro da universidade. A partir desse momento, a filosofia na sua forma ensaística, realizada desde o século XIX, cedeu espaço para o jargão acadêmico. Com isso, organizou-se a missão francesa da Universidade de São Paulo, que se desenvolveu em três fases distintas. Em 1934, foram contratados professores experientes em universidades e liceus franceses, com o objetivo de abrir os cursos. Dos seis nomes que compuseram essa primeira leva - Émile Coornaert (história), Pierre Deffontaines (geografia), Robert Garric (literatura francesa), Paul-Arbousse Bastide (sociologia), Étienne Borne (filosofia e psicologia) e Michel Berveiller (literatura greco-latina), somente Berveiller e Arbousse-Bastide renovaram os seus contratos com a universidade no ano seguinte. Em 1935, o perfil do grupo se alterou, assim como a duração dos contratos, agora de três anos: trata-se de jovens agrégés, sem experiência no ensino superior, com exceção de Fernand Braudel.

Além do professor de história, chegam, ao país, neste momento: Pierre Hourcade (literatura francesa), Pierre Monbeig (geografia), Claude Lévi-Strauss (segunda cadeira de sociologia) e Jean Maugüé (filosofia). Monbeig e Maugüé permaneceram no país até 1944 e 1947, respectivamente, em função da eclosão da Segunda Guerra Mundial. A partir de 1938, Dumas decidiu convidar docentes mais velhos, como fizera na Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, em 1935. Deste novo grupo de professores, fizeram parte: Roger Bastide (substituto de Lévi-Strauss), Jean Gagé (no lugar de Braudel), Alfred Bonzon (literatura francesa) e Paul Hugon (economia), que se estabelecerá definitivamente no país.[11]

Outros nomes importantes foram Martial Gueroult e Victor Goldschmidt. Assim, se tem o ingresso da filosofia continental, sendo muito deles de orientação hegeliano com influências também do marxismo. Muitos desses intelectuais irão ser os maiores expoentes da Escola dos Annales. Nesse momento, inaugura-se o marco da profissionalização da filosofia. Que passa a se tornar uma profissão, e por isso, a conter regras para separar os acadêmicos dos ensaístas e amadores. Assim, a partir da metade do século XX, a filosofia passa a ter sua primeira onda de intelectuais acadêmicos: João Cruz Costa, Washignton Vita, Antonio Paim, Oswaldo Porchat Pereira, Ernildo Stein, Gerd Bornheim, Bento Prado Júnior, José Arthur Giannotti, Paulo Arantes, Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder, Marilena Chauí e João Quartim de Moraes; e na sociologia: Florestan Fernandes, Antônio Candido de Mello e Souza, Fernando Henrique Cardoso e Darcy Ribeiro.

Enquanto a formação acadêmica foi profundamente marxista, no campo da teologia essa hegemonia não era plena. Havia profundos debates entre as teorias imanentistas da teologia liberal do padre Henrique Cláudio de Lima Vaz, Paulo Freire, Leonardo Boff, o frei Carlos Josaphat Evaldo Pauli e Rubem Alves. A característica desses pensadores é partir das causas sociais geradoras da miséria e propor a pobreza e a libertação como temas de discussão filosófica e teológica.

Mario Ferreira dos Santos

Inúmeros outros pensadores demonstram sua influência, em geral, de matriz e orientação política contraesquerda, inspirados no conservadorismo e no ultramontanismo, comoː Plinio Corrêa de Oliveira, criador da Tradição, Família e Propriedade (TFP); Urbano Zilles; e Gustavo Corção. Também é importante a metafísica escolástica moderna de Mario Ferreira dos Santos. Destacam-se, também, os espiritualistas como Leonardo Van Acker, cujos pensamentos caracterizam-se como um humanismo cristão. O espiritualismo universalista teve ampla divulgação com o pensamento e traduções de Huberto Rohden, que vai influenciar a Nova Era no Brasil.

Entre os estudiosos da filosofia do direito, com a teoria tridimensional do direito de Miguel Reale, criou o Instituto Brasileiro de Filosofia, que influenciou os juristas Tércio Sampaio Ferraz Jr. e Miguel Reale Júnior, e a teoria da comunicação de Vilém Flusser. Outra importante contribuição para historiografia do Brasil veio por Gilberto Freyre.

Newton da Costa

Nos anos 1960, também surgiu, na Universidade Estadual de Campinas, o desenvolvimento da lógica paraconsistente com Newton da Costa, Walter Carnielli, Marcelo E. Coniglio e João Marcos de Almeida, sendo um dos mais impostantes expoentes da filosofia analítica.

Com o Regime Militar, muitos intelectuais de esquerda se exilaram em outros países. Entraram em contato com outras correntes como o marxismo cultural e a psicanálise voltada para análise social. Durante o Regime Militar a esquerda continuou agindo intensamente nas universidades. Nesse momento o curso de filosofia volta-se mais para formação dos seminários para o clero. Por isso, nesse momento se tem o forte crescimento da teologia da libertação. Com a forte instrumentalização do conhecimento, raízes do positivismo dentre a tradição militar no Brasil, muitos críticos demonstraram a falta de eficiência das universidades terem uma filosofia, ou um filosofo verdadeiro. O autor dessa crítica nos anos 1970 foi de Roberto Gomes, no seu livro Crítica da Razão Tupiniquim. Durante o regime militar, criou disciplinas educativas para o ensino secundário para evitar a ampliação da esquerda e criou-se a Educação Moral e Cívica, que substituiu a filosofia (ver: Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo), e Estudos dos Problemas Brasileiros, que substituiu a sociologia.

Com o fim da ditadura militar, todos os intelectuais de esquerda retornaram, gerando uma nova onda de intelectuais como: Vladimir Safatle, Roberto Mangabeira Unger, Emir Simão Sader, Silvio Gallo, Mario Sergio Cortella, Dermeval Saviani, Paulo Ghiraldelli Jr., Oswaldo Giacóia Júnior, Márcia Tiburi, Viviane Mosé, Nildo Viana, Sérgio Paulo Rouanet, José Américo Motta Pessanha e Alaor caffé.

Nos anos 1990, muitos filósofos irão na contramão desta correnteː liberais como Roberto Campos, Denis Lerrer Rosenfield, José Guilherme Merquior, Paulo Francis e Luiz Felipe Pondé; e os conservadores Paulo Mercadante e José Osvaldo de Meira Penna. Aliada à corrente conservadora, o Brasil viu um novo nascer da teologia aliada ao estudo da filosofia clássica. O filósofo, diplomata e teólogo Marcos Azambuja se destacou no meio como um dos maiores teólogos e estudiosos do judaísmo e do cristianismo vivos atualmente, sendo considerado, pelo ex-secretário de estado americano Henry Kissinger, "o maior estudioso da filosofia de São Tomás de Aquino e Maimônides vivo atualmente", e, pelo seu aluno Luis Felipe Pondé, "o maior nome da espiritualidade e da tradição judaico-cristã da história do pensamento brasileiro".

Servindo para alargar e ao mesmo tempo buscando consolidar a história institucional da filosofia no Brasil, fundou-se, em Belo Horizonte, em 1939, a Faculdade de Filosofia, anexada posteriormente à Universidade de Minas Gerais, que, mais tarde, passaria por processo de federalização[12] . Ao longo das décadas, a velha faculdade criada conforme o modelo tradicional de "Filosofia, Ciências e Letras" funcionou em várias localidades da área central da cidade, até transferir-se para a Rua Carangola, no Bairro Santo Antônio, cujo prédio foi posteriormente adquirido pela Prefeitura[13] . Em 1990, a faculdade foi transferida para o campus Pampulha, onde ainda hoje permanece.  

Ressaltado pelos estudiosos, a figura mais importante dessa época foi Arthur Versiani Vellôso, que, em 1968, mostra-se à frente no momento da refundação da faculdade, quando passou a se denominar Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (atual Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (FAFICH).[14] Discípulo de Leonel Franca, de quem herdou a influência do pensamento católico francês, Vellôso era reconhecido por seus estudantes por alimentar uma admiração fervorosa pelas ideias de Kant. Assim, viajou duas vezes à Catedral de Königsberg, na Alemanha, para participar de visita ritualística à Sepultura de Kant (local conhecido no passado como Stoa Kantiana[15] ), com o corpo docente da universidade alemã[16] . Seus trabalhos publicados variam entre livros, traduções e artigos – estes últimos em vários jornais e revistas, na qual se inclui a revista de filosofia mais antiga do país, a Kriterion (Departamento de Filosofia da UFMG), fundada em 1947, cuja criação ele estimulou e à qual seu nome viu-se definitivamente ligado.

Figura proeminente nos meios intelectuais de Belo Horizonte, de fato Vellôso não deixou obra escrita de vulto, mas deixou outra obra não menos importante: a obra de fundador – da Faculdade e do Departamento de Filosofia. Menos conhecido pela geração atual – passadas quase três décadas depois de sua morte (1986) –, os estudiosos reconhecem no entanto que Vellôso formava no Brasil uma trinca com João Cruz Costa (São Paulo) e Ernani Fiori (Rio Grande do Sul). Já nessa época, ele laborava para fazer o Departamento de Filosofia conhecer-se nacionalmente, ao mesmo tempo em que o fazendo impor sua identidade. Seu legado principal está no cultivo do gosto e do respeito pela disciplina filosófica, que foi transmitido aos discípulos mais por meio do ensino (altamente valorizado à época) do que através da pesquisa.

José Henrique Santos é o discípulo mais destacado de Vellôso, e o outro foi Luiz de Carvalho Bicalho, de quem se falará na seqüência. Inicialmente aluno de Vellôso, José Henrique mais tarde torna-se colega de trabalho do mestre. Talvez a influência mais explícita de Vellôso esteja no interesse de José Henrique pela filosofia alemã (Kant, Husserl e Hegel, em especial). Sua biobibliografia intelectual é complexa e sólida. Por um lado, tem obra filosófica publicada variada e de vulto, a que se soma uma grande erudição e o cultivo das letras, inclusive da prosa filosófica, tendo sido,como Vellôso, membro da Academia Mineira de Letras. Por outro lado, com ele ganha corpo o que se entende propriamente por ethos acadêmico: José Henrique aderiu à história universitária, ocupando cargos importantes, como chefe de departamento, vice-reitor e reitor. Além disso, publicou artigos nos quais trata os temas do ensino, da cultura e do destino da universidade no Ocidente. Por fim, José Henrique foi responsável pela autoafirmação e o crescimento do Departamento de Filosofia da UFMG e é exemplo de liderança institucional, como reconhecem colegas e alunos em vários registros.

Formando um grupo com os dois filósofos, a terceira pessoa a citar – e provavelmente a mais conhecida – é Henrique Cláudio de Lima Vaz, inaciano com passagem por Roma (fez doutorado na Pontifícia Universidade Gregoriana), e cujo nome viu-se associado ao de Vellôso, mas por outros motivos e contingências. Radicado após voltar ao Brasil no seminário dos jesuítas, em Nova Friburgo, posteriormente, Lima Vaz estabeleceu-se no Departamento de Filosofia da UFMG, ao atender um convite de Vellôso, num contexto pessoalmente difícil, quando se viu forçado ao silêncio obsequioso, devido a questões políticas da época, em pleno regime militar. Conhecido por sua vasta erudição e pela grande penetração de seu pensamento, Lima Vaz deixou expressivo volume de obras e artigos publicados. Depois de sua morte, o Instituto Santo Inácio (atualmente Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte), local onde atuou até o fim da vida, batizou com o seu nome a Biblioteca e ergueu um memorial, homenageando-o.

Além da atuação acadêmica, Lima Vaz exerceu importante influência ideológico-política sobre segmentos da esquerda católica, num momento especial da história nacional – os anos 1960 –, tendo ajudado na elaboração da parte filosófica do documento que serviu de guia para a fundação da Ação Popular (AP), uma organização política de esquerda. Ademais, as ideias de Lima Vaz causaram impacto na Juventude Universitária Católica, depois filiada à AP. Nestes dois campos de atuação, a marca mais característica do pensamento de Lima Vaz está na tentativa de unir categorias aparentemente opostas: razão e fé, política e religião, imanência e transcendência, buscando os elementos da união nas obras de Platão, Tomás de Aquino e Hegel. Mais além da política e, de um modo ainda mais fundamental, no terreno filosófico, Lima Vaz preocupou-se desde cedo em fazer da experiência nacional um campo de reflexão da filosofia e, sem dúvida, seu nome figura na lista dos filósofos mais importantes para o desenvolvimento da filosofia no Brasil, no século XX.

Pode-se afirmar que o Departamento de Filosofia da UFMG cumpre um ciclo – o primeiro de três – com as três figuras representativas evocadas. Em contrapartida, uma fase nova abre-se com outro grupo de profissionais – ainda que as gerações sejam mescladas –, o qual se depara com questões diferentes e com outros desafios intelectuais e políticos. Isto, num momento da história do Departamento em que o ensino e a disseminação da filosofia para fora, a um tempo do Departamento e da própria Universidade, ficaram em primeiro plano. Deste grupo, fazem parte Ângela Mascarenhas, Moacyr Laterza, Sônia Maria Viegas Andrade e Luiz de Carvalho Bicalho, entre outros.

Ângela Mascarenhas, a cujo nome o ensino de graduação viu-se definitivamente ligado por várias décadas e por mais de uma geração, é, talvez, o melhor exemplo de esforço e dedicação institucional numa época difícil, quando a filosofia era assunto de poucos e tudo estava ainda por fazer e por consolidar.   

Por seu turno, Laterza e Sônia Viegas fundaram o Laboratório de Estética da FAFICH nos anos 1980, originariamente construído para abrigar a pesquisa, mas com forte propósito de disseminação da arte. Laterza, além de desenvolver o trabalho em estética, foi poeta e crítico literário, atividades que gostava de ver misturadas à docência em filosofia. Ao mesmo tempo, Laterza acreditava que o aprendizado filosófico devesse extrapolar a formalidade da instituição. Segundo ele, "o logos da educação é mais do que a lógica da escola". Sônia Viegas, de quem Laterza foi professor, percorreu caminhos análogos na profissão. Sua dissertação de mestrado em filosofia, transformada em livro, versa sobre a "palavra poética' na obra de Guimarães Rosa: A vereda trágica do Grande Sertão: Veredas. Seus Escritos testemunham uma abertura às artes, que, além da literatura, abrangem o cinema e a expressão plástica. Além da influência deixada por ambos na UFMG e no departamento, cabe reconhecer que suas atuações extrapolavam os muros da academia e tiveram grande expressão no Estado e na cidade, como bem o mostra em particular o caso de Sônia Viegas, que fundou o reputado Núcleo de Estudos Sônia Viegas.

Com respeito a Luiz Bicalho, outro importante discípulo de Vellôso, cedo foi tocado pelas palavras do mestre e decidiu, como testemunha ele próprio, "procurar o sentido da realidade humana". Estreitando teoria e práxis, foi ter com a filosofia primeiramente junto à política, alistando-se no Partido Comunista, mesmo que a ideologia deste – em especial o "assustador conceito de ditadura do proletariado" e as simplificações de Stalin – não coincidisse com os seus pontos de vista. Em virtude de tal gênero de escolha, Bicalho entrou relativamente tarde no corpo docente universitário, bem depois de José Henrique, de quem foi colega. Na Faculdade e no Departamento Bicalho se ocupou, particularmente, de Marx e Sartre nos ensinos de Graduação e Pós. Afastado da vida partidária, atormentado com problemas pessoais e cético a respeito do estado das coisas, porém conservando até o fim de sua vida seu ethos de intelectual de esquerda, Bicalho prezou no sistema de ensino o cultivo das relações, ao mesmo tempo que trabalhou para elevar o padrão universitário, dentro e fora da UFMG. Destacadamente, ajudou Darcy Ribeiro e outros colegas a criar a Universidade de Brasília.

O terceiro ciclo de desenvolvimento da filosofia na UFMG transcende a esfera departamental e agrupa um número maior de profissionais, chegando aos dias atuais. Os dois acontecimentos marcantes são a criação: 1º do Curso de Mestrado e 2º do Curso de Doutorado. A Pós-Graduação, em especial a Stricto sensu, gera densidade no ambiente acadêmico, criando intercâmbios nacionais e internacionais e ampliando os horizontes, em contraste com a atmosfera que tende a prevalecer quando ele dispõe apenas do curso de Graduação e limita-se a uma espécie de introdução à cultura filosófica, extremamente importante, mas por si só insuficiente sob vários pontos de vista. Com a mudança de gerações – a dos fundadores para a dos scholars e a dos profissionais – originam-se, nos anos 1970, novas frentes de atuação, onde a pesquisa ganha especial relevo.

Implantado em 1974, o mestrado, além de contar com a participação de um grupo da "casa" que compreendia José Henrique, Luiz Bicalho, Sylvio Barata, Moacyr Laterza, Sônia Viegas, Marilena Brunelli, Maria Eugênia D. de Oliveira e Lima Vaz (este último, o seu primeiro coordenador), teve, à sua frente, um corpo de profissionais particular, os chamados louvanianos, recém-chegados. Faziam parte, deste corpo, Hugo César da Silva, Walter Evangelista, Hugo Amaral e José Anchieta Corrêa, a que mais tarde se juntaram Sebastião Trogo e Theresa Calvet de Magalhães, outros louvanianos. E acrescentem-se ainda os nomes de Javier Herrero, José Chasin e Ester Vaisman, de outras procedências, todos com grande envolvimento com o mestrado. O contexto é a implantação do Sistema Nacional de Pós-Graduação, liderado pela CAPES, com paralelismo em vários pontos do país: além de Minas Gerais, no Rio de Janeiro, em São Paulo e no Rio Grande do Sul.  

O doutorado, por seu turno, idealizado e estabelecido depois (1992), é o resultado do esforço de Ivan Domingues, primeiro coordenador do novo curso completo, e representa mais amplamente a soma da iniciativa de sua geração, num momento da história do Departamento marcada pela aposentadoria precoce de um grande contingente da antiga geração, incentivado pela política previdenciária do governo federal da época.

Neste quadro, o Programa de Pós-Graduação reúne um corpo docente com o doutoramento realizado, em sua maior parte, na Europa, especialmente na França e na Alemanha. Com o tempo e o passar das gerações, o corpo de professores torna-se mais heterogêneo do ponto de vista da titulação – adquirida no próprio país, na Itália, na Inglaterra e nos Estados Unidos – e, posteriormente, do aperfeiçoamento acadêmico (Pós-Doutorado), quando outros centros entram no escopo, aumentando a diversidade da formação. Assim, se no começo da Pós-Graduação as principais áreas do interesse filosófico se concentravam no idealismo alemão, na filosofia da ciência, no marxismo, na estética e na psicanálise, num segundo momento (início dos anos 1990 em diante), outros domínios, correntes e autores serão incorporados, como a filosofia política, o ceticismo moderno, a filosofia analítica e outros segmentos da filosofia contemporânea.

Pode-se dizer que tal parece ser a marca distintiva da Pós-Graduação: a diversidade de formação, com todas as grandes tradições filosóficas representadas no corpo de pesquisadores e nas linhas de pesquisa, numa dinâmica em que algumas frentes de investigação já abertas continuam, enquanto outras passam por reformulações bem como se encerram, até alcançarem em 2010 a estrutura consolidada e a organização própria que apresentam hoje. Doravante, são 6 linhas de pesquisa (lógica e filosofia da ciência, filosofia antiga e medieval, ética e filosofia política, filosofia moderna, estética e filosofia da arte, filosofia contemporânea) nucleadas a partir de uma área de concentração em comum: Filosofia. Assinale-se que o Programa de Pós-Graduação possui em 2015 "cerca de 30 professores orientadores em seu corpo docente e 180 alunos". Paralelamente a tal ação, o curso de graduação apresentou grande crescimento e diversificação, com impacto sobre a pós-graduação e vice-versa.

Como consequência desse processo, a comunicação com outros centros de filosofia do país, que já era usual, suscita parcerias com qualidade, e uma nova frente se abre com diversas instituições do exterior. Por conseguinte, o trabalho integrado está mais intenso e novos patamares de excelência estão sendo alcançados, com a Pós-Graduação ao longo dos anos ocupando o topo nas avaliações da CAPES, e tendo em 2014 obtido a nota 7, a mais alta, ao lado da USP. Por sua vez, a repercussão e o reconhecimento de trabalhos publicados pelos pesquisadores é um fato indiscutível, resultando em novas referências acadêmico-intelectuais, podendo ser citados – a se tomar como critérios a senioridade, o volume e o impacto das obras publicadas – Ivan Domingues (epistemologia das ciências sociais e filosofia da tecnologia), Newton Bignotto (filosofia política), Rodrigo Duarte (estética e filosofia crítica frankfurtiana), José Raimundo M. Neto (história do ceticismo) e Paulo Margutti (hoje aposentado e dedicando sua carreira à filosofia do Brasil).

Cabe, em acréscimo, tal como sugerido acima, – e em continuidade a experiências já em curso desde os anos 1970, mas agora em outro contexto e ambiente – dizer que a filosofia dentro da UFMG tem extrapolado o âmbito do seu departamento. Nesse sentido, iniciativas que levam a relações com institutos, faculdades e departamentos de outros setores do conhecimento – conduzindo às vezes ao inter e ao transdiciplinar, com destaque a do professor Domingues, um dos fundadores do IEAT – Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares – são cada vez mais frequentes. Cite-se, ainda, Rodrigo Duarte, que foi Presidente da ANPOF, e Patrícia Kauark na direção do Espaço do Conhecimento da UFMG. E acrescente-se Marcelo P. Marques, Telma de S. Birchal e Patrícia Kauark na elaboração do currículo de filosofia do ensino médio em Minas Gerais, já implantado em todo o Estado, e Rodrigo Duarte exercendo o cargo de Pró-Reitor de Pós-Graduação. Por fim, soma-se a presença de professores em comissões e assessoria da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em continuidade a uma tradição iniciada com José Henrique Santos.

Décadas depois de fundação da Faculdade de Filosofia, o desafio agora é promover, de acordo com as diretrizes do Ministério da Educação, a internacionalização na pós-graduação, assim como atender as demandas cada vez mais prementes colocadas pelo ensino médio à graduação.

Vários incentivos estatais vêm sendo realizados para aperfeiçoamento dos profissionais filosóficos como em 1983 a Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia, pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Que passa a financiar inúmeros eventos de filosofia ao redor do país. Muitos filósofos estão utilizado recursos virtuais como you tube para promover palestras e cursos ou organizações não governamentais como a Academia Brasileira de Filosofia. A partir dos anos 1990, a maior preocupação se passa para educação da filosofia no ensino médio, que passa a ser obrigatório durante o governo Lula.

Ensino de filosofia no Brasil[editar | editar código-fonte]

A retomada do Ensino da Filosofia nos Ensino Fundamental e Médio[editar | editar código-fonte]

O ensino da filosofia era parte obrigatória do ensino médio até que, em 1961, a Lei 4 024/61 extirpou essa obrigatoriedade. A retomada do ensino da filosofia no ensino médio, a partir da década de 1990, com a criação dos parâmetros curriculares, em resposta à Lei 9 394/96, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), oferece uma visão do que seria imprescindível ser ensinado. Neste sentido, vale recordar que, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, a obrigatoriedade do ensino da filosofia não havia. Foi durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva que seu ensino tornou-se obrigatório. Isso abriu um campo de trabalho que estava represado para os licenciados em filosofia (que, antes, deviam se restringir a serem professores de história, sociologia ou geografia).

O ensino de filosofia no Brasil tem que ser avaliado a partir de alguns parâmetros fundamentais. Primeiramente, deve ser identificado o processo de formação de docentes para o ensino de filosofia, em segundo lugar o material didático utilizado, em terceiro lugar os efeitos desse ensino para a sociedade - e, sobre este aspecto, as avaliações nunca estão a ser elaboradas. O processo de formação de docentes se dá por meio dos cursos de graduação em filosofia. Por meio desses cursos, a licenciatura atende a uma formação que permite aos discentes se apropriarem dos campos teórico, prático e metafilosófico da disciplina, além de receberem os insumos pedagógicos básicos para o desempenho da função docente.

Teríamos que nos perguntar: qual papel cumprem esses novos professores? Em função dessa questão, os encontros da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (Anpof) têm procurado criar espaços para avaliar como essa função docente tem ocorrido. Isso também tem sido objeto de discussão em grupos da Associação Nacional de Pós-Graduação em Pedagogia (Anped).

Em relação aos livros didáticos de filosofia para o ensino médio, temos que observar que há uma ampla variedade. Todos produzidos por professores doutores em filosofia. Durante algum tempo, foi praticamente um best-seller o livro da professora Marilena Chauí (Chauí, M. Convite à Filosofia, SP: Ática, 2000). Vários outros livros têm se apresentado e, atualmente, vários professores do ensino médio utilizam blogues e outros meios de difusão de informações filosóficas.

Todas essas questões, entretanto, não permitem notar quão profusa e profundamente o ensino de filosofia tem interferência na construção das visões de mundo das cidadãs e cidadãos no Brasil.

Ensino superior de Filosofia[editar | editar código-fonte]

Em 2004, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) registrava a existência de 56 cursos de graduação em filosofia, e a comunidade filosófica, 91. Esses dados não estão checados novamente, e faltam mais informações. Sobre as condições de formação do professor de filosofia para o ensino médio, ver Fávero, Altair et al. "O ensino da filosofia no Brasil: um mapa das condições atuais" In Cadernos CEDES, Campinas, 24 (64), pp. 257–284, set/dez 2004.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. COSTA, João Cruz. . Contribuição à História das ideias no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1956.
  2. Ver, p.ex., verbete filosofia no Brasil in MARCONDES, D. e JAPIASSÚ, H. Pequeno dicionário de filosofia. RJ: Zahar, 1996. pp.100-102.
  3. Ver "A filosofia e a evolução histórica nacional" publicado em COSTA, J.C. A filosofia no Brasil - ensaios. Porto Alegre: Globo, 1945.
  4. PAIM, Antônio. O estudo do pensamento filosófico brasileiro. 1a. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1979.
  5. MATTAR, J. Introdução à Filosofia. São Paulo. Pearson Prentice Hall. 2010. p. 299.
  6. Ginés de Sepúlveda, Juan (trad. Marcelino Menéndez y Pelayo e Manuel Garcia-Pelayo) (1941). TRATADO sobre las Justas Causas de la Guerra contra Los Indios . México, DF: Fondo de Cultura Económica. p. 155.
  7. Crow, John A. The Epic of Latin America, 4th ed. University of California Press, Berkeley: 1992.
  8. SANTOS, Fabrício Lyrio (2008), "A expulsão dos jesuítas da Bahia: aspectos econômicos", Revista Brasileira de História (São Paulo) 28 (55): 171–95.
  9. a b c http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/heb02.htm
  10. VALENTIM, Oseias Faustino (2010). O Brasil e o Positivismo (Rio de Janeiro: Publit). p. 38. 
  11. http://bndigital.bn.br/francebr/intercambios.htm
  12. «História da UFMG». UFMG. Consultado em 14/07/2015. 
  13. «85 anos». UFMG. 2012. Consultado em 14/07/2015. 
  14. Telma Birchal e Eduardo S. Neves SIlva (2014). «Departamento de Filosofia UFMG». Fafich UFMG. Consultado em 14/07/2015. 
  15. «The Cathedral's History». Konigsberg Сathedral. 2014. Consultado em 14/07/2015. 
  16. Antonio Ribeiro de Almeida. «Memórias do meu mestre de Filosofia». Consultado em 14/07/2015. 

[1]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • ECSBDefesa - Quem tem medo da filosofia brasileira? Artigo de Ricardo Vélez Rodríguez. Acessado em 13/08/2013.
  • Estudos Ibéricos (Ibérica)- Revista Interdisciplinar de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos. Acessado em 13 de agosto de 2013.
  • Instituto de Filosofia- Grandes filósofos brasileiros. Acessado em 13 de agosto de 2013.
  1. VALENTIM, Oseias Faustino (2010). O Brasil e o Positivismo (Rio de Janeiro: Publit). p. 38.