História da Mesopotâmia

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A História da Mesopotâmia é uma disciplina que lida com o passado clássico do território da Antiga Mesopotâmia (Mesopotâmia, do grego antigo, "entre rios")[1] , correspondente, na sua maior parte, ao território da atual República do Iraque. A Mesopotâmia não é definida por fronteiras naturais marcantes, estendendo-se a leste para o Irã, ao norte para a Anatólia e a oeste para a Síria. A História da Mesopotâmia corresponde também a um período histórico da antiguidade oriental que se inicia com os primeiros povoamentos da mesopotâmia em lugares como Tell Hassuna, Samarra e Tell Halaf. A relação da mesopotâmia com o Antigo Testamento tornou esse campo de estudo particularmente atraente aos ocidentais a partir do século XVIII.[2] A assiriologia, disciplina que lida com a História Antiga da Mesopotâmia, foi instituída no século XIX; seu desenvolvimento foi influenciado por um fenômeno que os críticos pós-modernos, como Edward Said, chamaram de Orientalismo,[3] [4] [5] definido como a representação do Oriente na academia, na literatura e na arte ocidental por meio de esteriótipos determinados por uma postura neocolonialista, etnocentrica e racista.

Índice

Origens (7 000-5 500 a.C.)[editar | editar código-fonte]

cerâmica mesopotâmica antiga.

Pode-se considerar que a História da Mesopotâmia se inicia com o assentamento dos primeiros povos na região, graças ao desenvolvimento da agricultura. As primeiras comunidades agrícolas da mesopotâmia surgiram no norte da região por volta do ano 7 000 a.C., onde a chuva era regular o suficiente para o desenvolvimento de uma agricultura simples. Três complexos culturais foram identificados pelos arqueólogos a partir da cerâmica: Hassuna, Samarra e Halaf. Na Suméria, região sul da Mesopotâmia, a agricultura parece ter surgido por volta do ano 5 500 a.C. Os agricultores do sul foram os primeiros a empregar o método de irrigação a partir do Rio Tigre e o Rio Eufrates, uma vez que a chuva nessa região era intensamente irregular.[6]

Período de Ubaid (5 500-4 000 a.C.)[editar | editar código-fonte]

ESTANHO A transformação da estrutura social dos povos mesopotâmicos por volta do século V a.C. é atestada pela existência de sítios arqueológicos como a vila antiga de Tell al-Ubaid. Os povos dessa época são chamados comumentes de "povo de Ubaid" pelos arqueólogos. Esses homens haviam construído canais de irrigação para a agricultura, e também produziam abundante cerâmica e terracota. Eles também possuíam armas como machados de pedra, e mantinham um comércio dinâmico de lápis-lazúli, pedra e ouro com os povos vizinhos. Sua vila era composta por construções a base de tijolos de barro cozido.

Eridu[editar | editar código-fonte]

O Templo de Eridu, cujo nome vem de uma região no sul da Suméria, é conhecido como o templo mais antigo já encontrado. Outros templos dominam o sítio de Ubaid, o que indica a existência de um influente grupo sacerdotal entre esses povos. Os templos tinham forma retangular, eram divididos em várias câmaras e uma nave principal.[7] Um espaço era reservado para a colocação da estátua de uma divindade, cuja função parece ter sido proteger os habitantes da região. As paredes dos templos eram construídas à base de barro cozido. Alguns especialistas acreditam que o desenvolvimento posterior desses templos, elevados como torres, teria dado origem aos famosos Zigurates da Mesopotâmia Antiga.[8]

Período de Uruk (4 000-2 900 a.C.)[editar | editar código-fonte]

A cultura de Ubaid influenciou todas as regiões vizinhas da Mesopotâmia e se desenvolveu de formas diversas conforme se expandia. O período de Uruk possui esse nome por estar relacionado ao surgimento do impressionante sítio arqueológico de Uruk (Erech na bíblia), cujas estruturas atestam uma continuidade indubitável em relação ao período de Ubaid.[9] O surgimento de Uruk está relacionado ao advento da vida urbana e da primeira cidade da História. O crescimento da rede de irrigação e do número de cidades satélites agricultoras permitiu um aumento na produção de comida.[10]

Templo Branco[editar | editar código-fonte]

O Templo Branco é uma construção famosa de Uruk construída com tijolos no topo de uma montanha. O Templo era dedicado ao Deus do Céu, An, e era pintado inteiro de branco. Os habitantes de Uruk acreditavam que os deuses poderiam habitar essas regiões.

Escrita (3 500-1 500 a.C.)[editar | editar código-fonte]

tablete com escrita cuneiforme.

A escrita na mesopotâmia se desenvolveu em vários estágios diversos, de acordo com a complexidade dos negócios do palácio. A escrita era usada para controlar, sobretudo, o comércio, a economia e a agricultura. Os arqueólogos encontraram em sítios arqueológicos do Oriente Próximo peças de argila cozida chamados de tokens, cuja função era determinar a quantidade e a natureza de produtos comercializados (de acordo com o tamanho e o tipo dos tokens). Essa prática foi substituída mais tarde pela utilização dos tokens em conjunto com uma bola de argila na qual eram armazenados para indicar os elementos de uma transação complexa separadamente.

A escrita pictográfica e ideográfica foi desenvolvida por volta do século IV a.C. na Suméria (considerada aqui como região sul da mesopotâmia). Essa escrita utilizava, por exemplo, a figura de um peixe inscrita em argila para determinar um peixe, círculos para expressar números e, numa fase mais complexa, figuras para representar ideias, com pés representando movimento (p.e. "andar").

Num estágio posterior, a escrita mesopotâmica passou a utilizar símbolos fonéticos e determinativos, como os hieróglifos egípcios. Seria, a grosso modo, como se utilizássemos a figura de um beijo e uma flor para dizer beija-flor em português. Em inglês, seria como se juntássemos a figura de um pé (foot) com uma bola (ball) para dizer futebol. Nesse tipo de escrita, cada símbolo representa um som, mas pode também representar uma ideia geral, o que é o caso dos determinativos. Isso quer dizer que, por exemplo, após escrever a palavra "mulher" a partir de fonemas, o desenho de uma mulher poderia ser colocado logo em seguida para dar a ideia geral da palavra (evitando confusão entre sentidos de palavras de mesma pronúncia).[11]

A escrita cuneiforme parece ter sido resultado do aperfeiçoamento de todas essas técnicas anteriores. Ela tem esse nome pois era realizada a partir da pressão de um instrumento em forma de cunha sobre um tablete de argila. Os símbolos cuneiformes, extremamente abstratos, eram usados para representar ideias, sons e figuras. Essa escrita se tornou extremamente popular pelo oriente antigo nos anos subsequentes.[12] [13]

Sumérios e Semitas[editar | editar código-fonte]

Uma vez desenvolvida a escrita, pode-se identificar dois povos de línguas diferentes convivendo na mesopotâmia: Sumérios e Semitas. Na verdade, Sumério e Semita são conceitos linguísticos, e não devem de forma alguma ser relacionados a conceitos étnicos. A língua suméria era predominante nos documentos cuneiformes, e os falantes de sumério viviam no sul da mesopotâmia, razão pela qual os acadianos chamaram essa região posteriormente de Suméria. Os falantes de língua semitas[14] estão relacionados por uma matriz comum, mas não falavam a mesma língua (acadiano e hebraico, por exemplo, são línguas semitas, porém diferentes). A origem dos sumérios é incerta. Os povos falantes de línguas semitas viviam predominantemente na região central da mesopotâmia. Sua origem é igualmente incerta.

Urbanização[editar | editar código-fonte]

A época de Uruk é uma época de crescimento econômico e centralização política. Os centros urbanos eram sustentatos por territórios rurais adjacentes às cidades, responsáveis pela produção agrícola. O desenvolvimento da arquitetura, das artes e da tecnologia, além da escrita, possibilitaram um aumento na produção de alimentos. Digno de nota é o desenvolvimento dos sistemas de irrigação em formas cada vez mais extensas.

A classe dos sacerdotes parecia controlar a política nas primeiras unidades políticas da Antiga Mesopotâmia, comumente chamadas de "Cidade-Estado". Toda a cidade possuía um deus protetor, que os mesopotâmicos acreditavam ser responsável por garantir as boas colheitas, etc. se os homens se comportassem conforme as regras. Os sacerdotes do templo, intermediários entre os homens e os deuses, adquiriam proeminência política na medida em que essas crenças se fortaleciam.

Considerações acerca da Urbanização[editar | editar código-fonte]

O advento da cidade nos períodos chamados de Uruk antigo, médio e recente (essa cronologia é usada para diferenciar os estágios de urbanização), foi um processo que fascinou estudiosos de diversos campos científicos. A transformação de pequenos vilarejos em uma complexa estrutura urbana durante o período de Uruk foi exaustivamente estudada por sociólogos, antropólogos e historiadores, que buscavam sondar as causas deste processo de urbanização e caracterizá-lo de forma mais sistemática.[15] A teoria da "Revolução Urbana", desenvolvida por V. Gordon Childe nas décadas de 40 e 50, é a mais célebre destas considerações acerca da urbanização mesopotâmica. Gordon Childe, responsável também por cunhar a expressão "Revolução Neolítica", defendia que o surgimento da civilização na mesopotâmia durante o período de Uruk estava vinculada a alguns fatores específicos. A civilização foi caracterizada por Childe a partir da existência de dez fatores:

1- Maior densidade demográfica 2- especialização do trabalho 3- produção de excedente agrícola 4- construções impressivas 5- o surgimento de uma classe dominante 6- surgimento da escrita 7- elaboração de ciências exatas 8- estilos sofisticados de arte 9- comércio exterior regular 10- existência do Estado

A obra de Childe, certamente uma das mais influentes sobre o tema, foi criticada por seu viés evolucionista e, em alguns casos, pelo emprego do conceito marxista de "revolução" para caracterizar as transformações na maneira de viver dos antigos.[16] A obra de Gordon Childe foi seguida pelos trabalhos de Robert McC. Adams e H. Nissen, publicados na década de 1970.

Uma importante teoria recente sobre a urbanização da mesopotâmia, desenvolvida por Guilhermo Algaze, defende que a diferenciação econômica ocorrida entre áreas diversas da região de Uruk permitiu o surgimento de uma "economia urbana", ou seja, o comércio entre essas regiões envolvendo tecido de , couro, pelo de cabra, produtos hortícolas, peixe, etc. Cada região supria sua necessidade de consumo com esse comércio, uma vez que cada região poderia oferecer/precisava de produtos diferentes. Num segundo momento, essas regiões passam por um processo de substituição de importações, desenvolvendo suas capacidades produtivas para deixar de depender deste comércio. Isso resulta numa expansão deste comércio em escala muito maior, permitindo concomitantemente um maior desenvolvimento urbano.[17] Após a década de 1980, o debate acerca da urbanização na mesopotâmia tem se fragmentado.[15]

Período Dinástico Antigo (2 900-2 350 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Durante o período dinástico antigo a situação política na Mesopotâmia emerge com mais clareza. Depois de Uruk, surgem cidades como Ur e Kish, que disputam pela supremacia política. A Cidade-Estado, composta não apenas pela cidade, mas pelo território rural no seu entorno, afigura-se como unidade política básica destes primeiros anos do mundo urbano. Sua população poderia variar de 10 a 50 mil habitantes.[18]

Política[editar | editar código-fonte]

Três títulos para governantes eram frequentemente empregados pelos homens do período dinástico antigo: En, Ensi e Lugal. Destes três, o que mais se aproxima da ideia ocidental de rei é Lugal, literalmente "Grande Homem". O lugal era responsável pelo ministério da justiça, por representar a cidade-estado perante as outras e por fazer a guerra. O ensi poderia ser vassalo de Lugal em algumas circunstâncias, agindo como uma espécie de governador, enquanto o en era um senhor local. Todos os três poderiam partilhar tanto da autoridade temporal, como a espiritual. Acredita-se que, nos primeiros anos das dinastias mesopotâmicas, os reis eram aconselhados por assembleias formadas pelos homens comuns. Essa teoria advém das interpretações dos textos míticos sumérios, onde deuses mais importantes eram aconselhados por um grupo de deuses menores. Nesse período observa-se o fortalecimento da monarquia e uma escalada gradual que a coloca acima do templo (como instituição religiosa). A monarquia promovia banquetes e festas, artes e guerra. A monarquia organizava os exércitos, que eram providos com carruagens, lanças e machados para o combate, além de outros instrumentos sofisticados de guerra. No mais, os reis foram responsáveis por colocar de pé palácios amplos e suntuosos, importantes indícios de sua grande autoridade nessa época.[19]

Lista real Suméria[editar | editar código-fonte]

Um importante documento do período em questão é a Lista Real Suméria,[20] documento cujas informações transitam entre o imaginário mítico e histórico. O documento parece ter sido escrito por volta de meados do terceiro milênio, pois transmitia para uma data anterior fatos que só foram acontecer mais tarde, como a unificação da Suméria sob um só líder. Os primeiros reis sumérios são apresentados em ordem, seus reinos são datados e seus feitos narrados. A Lista pretende indicar que a realeza é uma concessão divina, legitimando a instituição monárquica. Os primeiros reis são quase todos míticos, enquanto os últimos parecem ter realmente existido. A Lista Real suméria foi reconstituída por Thorkild Jacobsen a partir de vários tabletes diferentes, e foi publicada em 1939. Ela se preocupa em apresentar apenas os reis que reinaram sobre todo o território sumério, e os lista, todos, até o reinado de Sinmagir de Isin (1 827-1 817 a.C.).[21]

Supremacia de Kish[editar | editar código-fonte]

Lança pertencente a "Lugal", rei de Kish.

A cidade de Kish ficava numa região próxima da atual cidade Bagdá, e durante o período dinástico antigo foi responsável por estender seu domínio sobre grande parte das cidades vizinhas. O período dinástico antigo é marcado pelos conflitos entre as cidades-estado (mais corretamente cidades-reino) que se desenvolveram na região por essa época (principalmente Kish, Ur e Uruk). Por volta de 2 700 a.C. um rei chamado Enmebaragesi[22] obteve controle sobre toda a região sul da mesopotâmia e também de Elam, localizada no sudoeste do atual Irã. Enmebaragesi foi também responsável por construir um templo em homenagem ao deus Enlil na cidade de Nipur,[23] que posteriormente se tornaria o mais importante centro religioso da Mesopotâmia.

Supremacia de Uruk[editar | editar código-fonte]

Durante essa época as cidades de Uruk e Ur começaram a crescer em importância política, desafiando a autoridade de Kish. O rei Gilgamesh,[24] talvez a figura mais conhecida da antiga mesopotâmia, foi responsável por travar guerra com Agga, rei de Kish e filho de Enmebaragesi. Agga foi derrotado e submetido à autoridade de Gilgamesh. O rei de Uruk se tornou um verdadeiro herói no imaginário mesopotâmico, tendo inclusive participado como personagem de uma das mais famosas obras literárias da antiguidade, o Épico de Gilgamesh.

Supremacia de Ur[editar | editar código-fonte]

A terceira cidade a estender seu domínio sobre as vizinhas foi a cidade de Ur. O rei Mesannepadda,[25] governando talvez por volta de 2 600 a.C., adotou para si o título de "rei de Kish", o que indicava sua sucessão como supremo senhor da Suméria. O esplendor de Ur é atestado pelo famoso cemitério real encontrado nesta cidade.

Supremacia de Lagash[editar | editar código-fonte]

Estela do rei Eannatum, narrando sua vitória esmagadora sobre a cidade de Umma.

As disputas incessantes entre Ur, Uruk e Kish, reiniciadas com a morte do rei Mesannepadda, fizeram da região um território particularmente vulnerável aos ataques de estrangeiros como os elamitas (de Elam, no sudoeste do atual Irã). A invasão dos elamitas favoreceu o fortalecimento de uma cidade-estado mesopotâmica ao norte, Lagash, que nos anos subsequentes dominou e subjugou toda a Suméria.[26] O rei Eannatum, conhecido pelo título de "Aquele Que Submete Todas As Terras", expulsou os elamitas do território sumério e conquistou Elam. Por volta do ano 2 450 a.C. ele estendeu seu controle sobre as outras cidades-estado da região. A Estela do rei Eannatum conta a história da batalha travada entre o rei de Lagash e a cidade de Umma, e descreve os termos da paz, constituindo talvez o primeiro documento diplomático da história. A vitória do rei Eannatum é obtida com a ajuda do deus de Lagash, Ningirsu, que é retratado na estela.

Supremacia de Umma (2 360-2 350 a.C.)[editar | editar código-fonte]

A cidade de Umma, contudo, sob o governo do rei Lugalzagesi, derrotou e destruíu a cidade de Lagash em pouco menos de um século depois do reinado de Eannatum. De acordo com os registros oficiais, Lugalzagesi conseguiu obter a submissão de 50 príncipes e o controle sobre o território inteiro se estendendo do Golfo Pérsico até o Mediterrâneo. Não obstante, em 2350, Lugalzagesi foi derrotado e feito prisioneiro pelo conquistador acadiano Sargão, o Grande.

Cultura no Período Dinástico Antigo[editar | editar código-fonte]

O desvendamento do Cuneiforme[editar | editar código-fonte]

O desvendamento da escrita cuneiforme foi uma tarefa difícil e demorada levada a cabo por diversos intelectuais no século XIX. Um dos nomes mais associados a esse processo é o de Sir Henry Rawlinson, que copiou uma inscrição cuneiforme trilíngue que havia sido esculpida por ordem do rei persa Dario I por volta do ano 520 a.C. Rawlinson também traduziu a coluna da inscrição que correspondia ao antigo persa, valendo-se de uma técnica já empregada por Georg Friedrich Grotenfend. Os esforços de Edward Hincks[27] foram essenciais para o deciframento do cuneiforme acadiano. A interpretação do sumério, por sua vez, foi muito mais demorada, e recebeu ajuda particular por parte de Paul Haupt. Já o Elamita permanece na sua maior parte incompreendido. A partir da interpretação dos textos antigos foi possível conhecer e estudar o universo cultural dos antigos mesopotâmicos.

Religião[editar | editar código-fonte]

Portão da deusa Inanna, representando o leão de Inanna.

O pensamento religioso era muito importante para os primeiros povos mesopotâmicos, na medida em que quase todos os elementos da sociedade eram entendidos a partir de sua relação com o sagrado. Os sumérios acreditavam que o mundo (ou a Mesopotâmia) era um disco cujos limites eram determinados pelas montanhas e uma imensidão de água. Tudo no universo era passível de ser "animado" no sentido religioso, desde pedras até animais e astros. Os deuses eram concebidos como agentes superiores e imortais com o poder de controlar o cosmos. Embora os deuses fossem imortais, inúmeras narrativas mitológicas falam de divindades mortas e depois renascidas. Uma crença amplamente difundida pelo oriente próximo era a de que os deuses poderiam criar apenas pelo poder da palavra. A palavra dos deuses também funcionava no sentido de estabelecer "me", a lei cósmica.[28]

As divindades mais importantes do panteão mesopotâmico no período dinástico antigo eram An (deus do céu), Enlil (deus do vento),[29] Enki (deus da água) e Ninhursag (deusa da terra). An era descrito como o soberano entre os deuses. Enlil era um importante intermediário entre os deuses e os homens, cujo templo principal era o de Nipur. Era chamado pelo título de "Pai dos Deuses". Um dos mitos antigos, interpretado por alguns autores como a crença suméria em relação ao ciclo da vida, conta a história de como Enlil raptou uma bela deusa chamada Ninlil, e forçou-a a ter relações sexuais com ele. Por ter cometido esse ato hediondo, Enlil fora punido pelos outros deuses e exilado para a "Terra sem Retorno", o mundo dos mortos, junto de Ninlil, agora grávida da deusa-lua Nanna.

Enki era fortemente relacionado à fertilidade, certamente porque a água era essencial para a agricultura nas terras secas de Sumer. Um mito antigo fala em como Enki ejaculava no Rio Tigre, com isso tornando todas as terras cultivados férteis.

Outros deuses eram importantes no panteão sumério, entre eles a deusa da fertilidade Inanna, conhecida como Ishtar em acadiano, e normalmente associada às deusas Vênus e Afrodite da Grécia e da Roma antigas. Inanna era relacionada à sensualidade, aos oprimidos, e também à guerra. Uma narrativa suméria conta a história de como Inanna, após uma incursão no submundo, descobre que não poderia mais retornar aos céus. Buscando escapar da prisão perpétua no submundo, Inanna coloca seu amante Dumuzi como substituto em seu lugar, deixando-o lá para toda a eternidade. Outros mitos narram o apetite sexual de Inanna, ao mesmo tempo em que lhe dedicam o título de "Rainha do Céu".

Casamento Sagrado e Prostituição Sagrada[editar | editar código-fonte]

Uma cerimônia popular nas antigas cidades-estado sumérias era o chamado "casamento sagrado". Nessa cerimônia era realizada a união sexual entre um deus e uma deusa importantes do panteão regional (ex. Inanna e Dumuzi), representados pelo rei e uma nobre especialmente escolhida. Essa cerimônia ocorria geralmente no dia de Ano Novo. Outros ritos eróticos, chamados de "Prostituição Sagrada", acompanhavam o ritual do casamento sagrado, e normalmente eram realizados entre sacerdotes e sacerdotisas na busca de experiências religiosas. Autores ocidentais, familiariazados com esses ritos por meio de suas descrições na bíblia, muitas vezes o confudiram erroneamente com homossexualidade e prostituição.

O Templo, As Zigurates[editar | editar código-fonte]

A religião suméria era organizada pelo templo. Cada cidade mesopotâmica tinha um templo, dedicado seja a um deus seja a uma deusa, que eram espécies de patronos locais. Dentro dos templos permaneciam estátuas dos deuses cultuados, nas quais se acreditava residir o próprio deus. Os sumérios ofereciam sacríficos de alimento aos deuses, pois uma das crenças muito difundidas no oriente próximo era a de que os deuses poderiam se alimentar dos alimentos que lhes eram ofertados. Nos templos, hinos eram recitados, canções cantadas e festas celebradas. Os ritos em homenagem aos deuses eram importantes para a manutenção da ordem na terra, e também para a manipulação das divindades em favor dos homens.

As zigurates eram torres de vários andares, construções muito populares entre os mesopotâmicos. No topo das zigurates existiam santuários. Os estudiosos acreditam que essas construções representavam uma ligação entre o céu e a terra, funcionando em larga medida como meio de comunicação com os deuses. É provável que a imagem bíblica da torre de babel tenha sido baseada nas Zigurates.

As escavações na cidade de Ur[editar | editar código-fonte]

O interesse pela cidade de Ur no ocidente é facilmente explicado pela sua marcante presença na bíblia como pátria de Abraão. A antiga cidade de Ur se encontra no sul do Iraque, a noroeste da atual cidade de Baçorá. Sua importância, atestada no período dinástico antigo e mesmo depois, não era menor nos tempos pré-históricos, quando já era povoada. As primeiras prospecções na região remontam a 1854, enquanto as escavações começaram em 1918, tendo sido brevemente interrompidas e retomadas em 1922, por iniciativa do Museu Britânico e da Universidade da Pensilvânia, sob comando do arqueólogo Sir Leonard Wooley.[30] Neste mesmo ano, os arqueólogos já haviam conseguido desenterrar a famosa zigurate da cidade. Vestígios valiosos, contudo, desviaram a atenção dos arqueólogos para uma outra área arqueológica, desenterrada entre 1926 e 1932: o cemitério de Ur.

Cemitério de Ur[editar | editar código-fonte]

Na década de 1920 o arqueólogo britânico Sir Leonard Woolley descobriu as tumbas reais de Ur do período dinástico antigo.[31] Essas tumbas datam dos anos 2550 e 2 450 a.C., e são famosas devido ao abundante e suntuoso material arqueológico nelas encontrado. Sua existência atesta a crença de que os reis mesopotâmicos, devido ao seu vínculo com os deuses, teriam uma vida abençoada no pós-morte. Por esse motivo, os reis eram enterrados em grandes câmaras junto de seus pertences mais valiosos, como joias e tesouros de ouro. Servidores também eram enterrados com os reis, talvez involuntariamente, embora a ideia de passar uma vida pós-morte privilegiada ao lado dos reis possa ter seduzido alguns desses homens. Entre os reis enterrados no cemitério de Ur apenas alguns foram identificados, como Akalamdug e Meskalamdug, além das duas rainhas (nin) Puabi e Ninbanda. Nenhum destes reis, contudo, é citado na lista real suméria, o que indica que eles governaram apenas sobre o território da cidade-estado de Ur.[31] [32] [33]

O Enigma do Cemitério de ur[editar | editar código-fonte]

Junto dos reis de Ur, foram encontrados também esqueletos de músicos, músicas, cantores e cantoras, soldados e damas de companhia. Na tumba de Akalamdung, por exemplo, foram encontrados 53 esqueletos em vários níveis. Como já foi dito, é possível que estas pessoas esperassem desfrutar de uma pós-morte bem aventurada junto dos reis ao permitir serem envenenados e enterrados com o corpo do soberano. Essa foi a teoria aventada por sir Leonard Wooley para explicar as inumações coletivas encontradas no sítio arqueológico. No entanto, esta hipótese foi contestada por outros estudiosos, que apontam motivos diferentes para esse fenômeno, uma vez que muitos dos corpos encontrados nas tumbas não foram associados a nenhum dinasta reinante, ou seja, talvez nem toda a tumba carregue o corpo de um monarca. A teoria do arqueólogo Peter Roger S. Moorey é a de que essas inumações coletivas seriam um ritual particular dedicado aos deuses patronos da cidade de Ur, a deusa da lua, Nanna, e seu marido, Ningal. Esse ritual envolvia, muito provavelmente, as sacerdotisas do templo dedicado aos deuses em questão, motivo pelo qual tantas mulheres teriam sido encontradas nas tumbas.

Literatura[editar | editar código-fonte]

Os documentos literários mais famosos do período dinástico antigo são as narrativas mitológicas e as narrativas épicas. No Conto da Criação, conta-se como Enlil, deus nacional da Suméria, criou o mundo ao separar a terra do céu. Conta-se também como os seres humanos foram criados a partir da argila com um sopro divino, com o propósito de servirem os deuses com bebidas e comida.

O dilúvio[editar | editar código-fonte]

A narrativa suméria do dilúvio conta como os deuses, irritados com a humanidade, decidiram lançar sobre ela um terrível dilúvio. Ziusudra (também chamado de Utnapishtim), uma espécie de Noé sumério, foi avisado por algumas divindades em sonho que deveria criar uma arca na qual colocaria representantes de todas as espécies animais existentes e com a qual se salvaria do dilúvio.

O orientalismo e o dilúvio[editar | editar código-fonte]
O controverso tablete do dilúvio.

Em 1873, a história mesopotâmica do dilúvio foi publicada, causando polêmica no meio acadêmico e nas sociedades ocidentais. O fragmento da epopeia de Gilgamesh, traduzido e divulgado a partir de um tablete de Nínive (preservado no Museu Britânico), narrava uma história muito semelhante àquela do gênesis bíblico, o que obrigou os estudiosos a colocarem a composição da bíblia na esfera de influência do seu contexto histórico, a antiga mesopotâmia. No entanto, os primeiros estudos comparativos entre o tablete do dilúvio e a bíblia tratavam a narrativa suméria apenas como uma prova da historicidade bíblica, o que era muito comum nos primeiros anos da arqueologia. Foi a figura contraditória de Friedrich Delitzsch que observou pela primeira vez a necessidade de se estudar os documentos hebraicos sob a luz de seu contexto mesopotâmico, numa famosa conferência conhecida como "Babel/Bíblia".[34] Delitzsch defendia que as concepções hebraicas de criação, além de suas narrativas mitológicas, eram em grande parte dependentes do imaginário de uma civilização que ele considerava superior, a suméria. Cercado pelas teorias racistas e anti-semitas do final do século XIX e começo do XX, Delitzsch desprezou o caráter sagrado do antigo testamento, ao mesmo tempo preservando o valor dos manuscritos cristãos, que considerava mais perfeitos.

Essa teoria exagerada foi acompanhada do surgimento de uma corrente ideológica conhecida como "Pan-Babilônica". Os orientalistas desta corrente defendiam que as origens de quase toda a cultura humana poderia ser traçada de volta à mesopotâmia, radicalizando a teoria difusionista da sociologia. Autores famosos dessa época foram Hugo Winckler e Peter Jensen.

A Epopeia de Gilgamesh[editar | editar código-fonte]

Gilgamesh, protagonista de uma das mais famosas epopeias da antiguidade.

Gilgamesh foi uma personagem em parte histórica e em parte mitológica. A epopeia de Gilgamesh narra a história do rei Gilgamesh de Uruk, dois-terços deus, um-terço humano. Este rei fora um grande conquistador, mas também um governante opressor, razão pela qual os deuses enviaram o gigante Enkidu para detê-lo em sua tirania. Após um confronto inicial, contudo, Enkidu e Gilgamesh se tornaram amigos. Em uma de suas aventuras juntos, Enkidu e Gilgamesh precisam enfrentar o Toudo dos Céus, enviado pela deusa suméria Inanna como punição por uma ofensa. Enkidu consegue derrotar o monstro, o que não impede que este seja amaldiçoado e morto pelos poderes de Inanna. Gilgamesh, aterrorizado diante da morte, se embrenha numa jornada pela busca da imortalidade. Ziusudra (Utnapishtim), sobrevivente do episódio do dilúvio, adverte Gilgamesh que ele só poderia se tornar imortal após encontrar a planta da vida e, embora Gilgamesh consiga obter essa planta, ao final da epopéia ela é roubada por uma cobra, tornando a jornada do rei de Uruk uma empresa vã.[35]

O mundo dos Mortos[editar | editar código-fonte]

Os sumérios acreditavam na vida pós-morte. Na mitologia suméria, os mortos eram enviados para um mundo subterrâneo do qual não havia retorno. Os vivos reverenciavam os mortos, pois acreditavam aque assim garantiriam o bom andamento das coisas no mundo dos vivos. Não existia concepção de julgamento pós-morte entre os mesopotâmicos. Acreditava-se que o "espírito" dos mortos atravessava um rio até o "sombrio" mundo dos mortos, onde permaneceria pela eternidade. Essa visão era muito semelhante àquela que os antigos hebreus reproduziram por muito tempo, na qual os homens mortos eram encaminhados para Sheol, uma espécie de submundo sombrio. Em ambas, não há julgamento e a vida na terra é mais valorizada do que a vida pós-morte, onde não se faz distinção entre um "céu" e um "inferno", ou uma eternidade de danação e outra paradisíaca.

Metalurgia[editar | editar código-fonte]

Uma das principais inovações do período sumério foi a descoberta do bronze. Por volta de 4 000 a.C. os sumérios já tinham dominado a tecnica da fundição,e já conheciam o cobre. Por volta de 3 000 a.C. eles descobriram que a combinação do cobre com estanho e arsênico permitia fazer bronze. Por esse motivo, os arqueólogos ainda denominam este período como "Idade do Bronze". O ouro e a prata também eram manipulados pelos especialistas, e parece que o cobre era importado devido a sua escassez.

Edubba[editar | editar código-fonte]

Edubba, traduzida como "casa dos tabletes", era uma instituição criada para educar os filhos dos abastados e os escribas nas artes e conhecimentos sumérios. Na edubba, os futuros funcionários do palácio aprendiam a ler, a escrever, matemática, biologia e desenho. Nestas instituições os alunos deveriam se comportar de maneira exemplar, senão poderiam sofrer castigos físicos. A presença das mulheres nestas escolas era limitada, embora saiba-se que algumas filhas de famílias importantes chegaram a frequentá-las. Na edubba eram preservados tabletes e documentos de literatura suméria.[36]

Matemática e Calendário[editar | editar código-fonte]

Os sumérios também realizaram importantes avanços no campo da matemática. Seu sistema numérico era baseado no número 60. Os primeiros registros matemáticos da suméria tinham como objetivo regular os negócios do palácio, principalmente no que diz respeito às transações comerciais.[37] O calendário mesopotâmico era dividido em 12 meses lunares, de 29 ou 30 dias cada. Um mês extra poderia ser adicionado ao calendário para manter compassados o ano lunar e o solar. O ano se iniciava após a época da colheita, entre setembro e outubro do nosso calendário. Assim como os antigos hebreus, os sumérios datavam seus anos contando a partir do ano zero de um reinado, por exemplo, "sétimo ano de Nabucodonosor". Os sumérios diferenciavam apenas duas estações: emesh (verão, no começo do nosso ano) e enten (inverno, no começo do ano sumério, com a chegada das chuvas e as colheitas).[38]

A Roda[editar | editar código-fonte]

A invenção da roda, ocorrida em diferentes lugares do mundo e em diferentes épocas independentemente do contato entre os povos, aconteceu pela primeira vez na suméria. A roda de cerâmica já estava em uso no período de Uruk antes de ser empregada para os meios de transporte, por volta do último século do quarto milênio a.C. Os arqueólogos encontraram restos de carruagens enterrados na região da antiga suméria, usadas provavelmente para transportar bens materiais. Posteriormente os veículos com rodas foram empregados para fazer guerra. A invenção da roda é particularmente importante, uma vez que permitiu aos antigos ampliar o número de bens transportados.[39]

Império Acádio (2 350-2 160 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Sargão, o Grande[editar | editar código-fonte]

Inscrição acadiana.

No ano de 2 350 a.C. a Suméria passa pela primeira vez a ser controlada por uma dinastia acadiana, ou seja, uma dinastia de origem semítica. Os textos antigos contam como um homem de habilidades extraordinárias, Sargão, conquistou e governou o território sumério. Acredita-se hoje que os acadianos eram povos vindos do norte (donde vem o nome de acádia para o norte da mesopotâmia). Sargão derrotou o rei Lugalzagesi, e o manteve enjaulado na cidade sagrada de Nipur, onde o rei deposto passava pelas maiores humilhações. As lendas mesopotâmicas diziam que Sargão teria sido colocado por sua mãe dentro de um cesto flutuando sobre o rio Eufrates quando bebê, tendo depois sido encontrado por um fazendeiro que o criou. Não se sabe como se deu sua ascensão política, mas parece que conquistou um cargo dentro do palácio da monarquia em Kish pouco antes de derrotar o rei de Umma.[40]

Após derrotar Lugalzagesi, Sargão conseguiu derrotar os elamitas e também os povos de uma região da assíria. Nessa época a mesopotâmia estabeleceu redes de troca com a civilização do Vale do Indo, o Egito e a Anatólia. Sargão fundou a cidade de Acádia, uma importante joia do império, que nunca foi encontrada pelos arqueólogos.

Durante essa época as cidades passaram a ser governadas por enviados do imperador, o que reduziu sua autonomia política. Esses enviados eram falantes de acadiano, e com o tempo o acadiano substituiu o sumério nas inscrições cuneiformes. O imperador construiu um importante templo em homenagem ao deus Enlil em Nipur.

Naram-Sin[editar | editar código-fonte]

O neto de Sargão, Naram-Sin, que governou por volta de 2 250 a.C., foi uma importante figura política para a história da mesopotâmia. Aparentemente este governador exigiu ser tratado como um deus vivo, chamando a si mesmo de "deus da Acádia". Também dizia ser o "Rei Dos Quatro Cantos do Mundo". A "Estela de Naram-Sin", exposta no Museu do Louvre, mostra como este rei foi deificado, uma vez que sua imagem se destaca em relação à dos deuses, o que não acontecia no período dinástico antigo. Naram-Sin expandiu o domínio do Império Acádio para a região da atual Síria, tendo conquistado a cidade de Ebla. Seu governo permitiu a amalgamação entre as instituições do templo e do palácio.[41]

Período dos Gutis (2 150-2 100 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Gudea de Lagash representado em estátua no Museu do Louvre.

O povo sobre o qual Naram-Sin obteve a vitória na época em que foi gravada sua famosa estela, os gutis, eventualmente se revoltaram contra o domínio mesopotâmico e impuseram seu controle sobre o antigo Império Acádio. As disputas internas, as revoltas regionais (incluindo a libertação de Elam) e os ataques destes invasores da cordilheira de Zagros culminou com o destronamento do último monarca acadiano, Ur-Utu, por volta do ano 2 150 a.C. O controle dos gutis foi limitado, e a cidade de Lagash, por exemplo, parece ter permanecido independente durante esse período, assim como a cidade de Uruk. O governador Gudea de Lagash foi um dos importantes líderes políticos desse período, tendo sido intensivamente louvado pelos seus súditos na literatura da época.

Gudea de Lagash[editar | editar código-fonte]

Gudea de Lagash não aceitava o título de rei (Lugal), preferivelmente chamava a si mesmo de "patési" (ensi), um cargo de governante político-religioso mais humilde. Este governante se destacou na estatuária do período "neo-sumério", uma vez que 30 peças representando-o foram encontradas na antiga mesopotâmia. Elas se encontram hoje em museus como o Louvre e a Glyptotek.

Terceira Dinastia de Ur (2 110-2 000 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Por volta do ano 2 110 a.C. o rei de Uruk, Utu-Hegal, derrotou e expulsou os Gutis do território central mesopotâmico. Seu governo, contudo, durou pouco, e logo foi destronado por Ur-Nammu, governador de Ur que em breve reunificaria grande parte do território sumério e restauraria o poderio dos tempos anteriores.

Ur-Nammu[editar | editar código-fonte]

Ur-Namm, o governador de Ur, fundou a última dinastia suméria a reinar sobre parte da mesopotâmia. A língua oficial voltou a ser o sumério, as artes e a literatura voltaram a ser estimuladas pelo governo e as conquistas militares se multiplicaram. A grande Zigurate de Ur foi construída sob ordem de Ur-Nammu. Esse governante foi tido como brilhante estrategista e líder político, e promulgou o primeiro código de leis da história[42]

Código de Ur-Nammu[editar | editar código-fonte]

Boa parte da comunidade acadêmica é reticente hoje em denominar por "código de lei" o gênero de documento legal produzido na antiga mesopotâmia. O código de Ur-Nammu, por exemplo, não era exatamente um conjunto de leis voltado a regular todas as atividades dos homens, mas apenas um conjunto de sentenças com o objetivo de regular casos excepcionais. Esse rei promulgou o primeiro documento do tipo conhecido na história, cujo texto chegou a nós por meio de uma cópia tardia. O "código" fala sobre crimes tais como fuga de escravos, adultério e falso testemunho, que eram punidos na sua maioria por multas.[43]

Queda de Ur (2 000-1 800 a.C.)[editar | editar código-fonte]

O período que vai de 2 000 a.C. até 1 800 a.C. é um período de desagregação política, no qual o domínio de Ur se dissolve rapidamente frente às invasões dos povos Amurru (Amoritas, na bíblia), que penetraram na mesopotâmia vindos do oeste. Além das invasões amoritas, incursões elamitas são atestadas a partir do leste, além de um decrescimento da produção agrícola. A derrota da última dinastia suméria culmina com o cerco e destruição da cidade Ur pelos elamitas. O rei Ibbi-Sin, último da terceira dinastia, é preso e humilhado por seus captores. Nessa época o sul da mesopotâmia ficou sob influência dos elamitas, irradiada a partir cidade de Larsa, enquanto o norte passou para o domínio dos babilônios, os antigos amoritas.

Império Paleobabilônico (1 800-1 590 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Hamurabi (1 792-1 750 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Os povos amoritas (de origem semita) que chegavam para ocupar a região desde o golfo pérsico até o mediterrâneo fundaram novas dinastias nas antigas cidades-estado sumério-acadianas. O Império Paleobabilônico foi um dos numerosos reinos estabelecidos na Mesopotâmia por esta época. O sexto rei babilônio, o famoso Hamurabi, conquistou Larsa, a capital dos elamitas no sul, e aniquilou a cidade de Mari, então um importante centro cultural e político mesopotâmico, reconstruindo assim um império aos moldes daquele governado por Sargão, o conquistador, anos atrás. A antiga região chamada por Suméria ou Acádia passou, logo, a ser denominada por Babilônia. A língua suméria continuou sendo utilizada para os registros escritos, mas não era mais falada por essa época. O Império Babilônico não durou muito após a morte de Hamurabi, que foi um brilhante estrategista; no entanto, a cidade de Babilônia, cujas origens permanecem obscuras, continuou sendo um importante centro cultural mesopotâmico nos próximos anos.

O código de Hamurabi[editar | editar código-fonte]

O código de Hamurabi é menos um código de leis do que aquele de Ur-Nammu. O documento é, na verdade, uma série de decisões reais para resolver casos excepcionais e reais.

A estela mais conhecida na qual encontra-se o texto do código foi encontrada no sudoeste do Irã, para onde havia sido levada pelos elamitas milhares de anos atrás, e hoje está exposta no Museu do Louvre. Ela representa o rei Hamurabi homenageando uma deidade, normalmente identificada como o deus do sol, Shamash (Utu, em sumério), às vezes também identificada como o deus nacional da babilônia, Marduque. A ideia que a estela transmite é que o código foi aprovado pelos deuses. O prologo do documento louva o rei Hamurabi por suas habilidades políticas e qualidades, enquanto o texto apresenta resoluções para pelo menos trezentas causas jurídicas. Entre os temas abordados estão a propriedade, os escravos e o comércio. Morte e mutilação eram punições comuns reservadas aos piores delitos, como incesto, bigamia, adultério e bruxaria. Essas punições variavam de acordo com a condição social do acusado (nobres, por exemplo, tinham a maior compensação por injúrias porém tinham as mais pesadas multas por ofensas).

Divisão da Sociedade[editar | editar código-fonte]

Embora a mentalidade babilônica operasse com tipos diferentes de ordenamentos sociais, atuando em níveis e escalas diferentes, os arqueólogos e historiadores enfatizam uma determinada concepção de sociedade encontrada nos documentos cuneiformes. O código de Hamurabi oferece a melhor imagem dessa concepção de sociedade, que estava divida em três estamentos ou ordens (embora esses conceitos sejam polêmicos), grosso modo, os nobres/senhores, os dependentes do palácio e os escravos. O primeiro grupo, cercado de privilégios, era composto pelos comandantes militares, oficiais do palácio, sacerdotes e senhores de terras. A segunda "classe" de pessoas incluía a maioria dos habitantes da babilônia: pequenos proprietários, comerciantes e artesãos. Os escravos, por sua vez, eram aqueles homens tornados propriedade de outros seja por débito ou por terem sido feitos prisioneiros em guerra. Sua condição de vida variava; eles poderiam adquirir liberdade com o consentimento do dono.

Religião Amorita[editar | editar código-fonte]

Marduque era um deus pouco importante de origem amorita que, com a integração desses povos ao mundo mesopotâmico, se mescla ao antigo panteão sumério-acadiano. Sua ascensão ao patamar de deidade principal da religião mesopotâmica ocorre com o tempo, após a fundação do reino babilônico, e se intensifica com o reinado de Hamurabi. No período de Hamurabi, esse deus permanece sendo uma divindade local, mas posteriormente seu culto é difundido para toda a mesopotâmia.

Durante o período babilônico, os velhos deuses (An, Enlil e Ea ou Enki) perdem a importância que detinham anteriormente. Ishtar, Shamash e, claro, Marduque, se tornam centrais nos cultos desse período.

O Enuma Elish[editar | editar código-fonte]

Cquote1.svg "Quando no alto o céu ainda não havia sido nomeado
E, abaixo, a terra firme não havia sido mencionada com um nome
Apenas Apsu, seu progenitor
E a mãe Tiamat, geradora de todos,
mesclavam juntos suas águas;
Os juncos não estavam trançados, ou galhos sujavam as águas,
Quando os deuses ainda não haviam aparecido,
nem haviam sido chamados com um nome, nem determinado destino algum,
Cquote2.svg

Depois da Epopeia de Gilgamesh, o Enuma Elish é a peça literária mais conhecida da antiga mesopotâmia. Ignora-se quem foi o autor (ou autores) desta composição literária. Seu nome babilônico (enuma elish) é derivado das primeiras palavras do texto, "quando no alto", e tem sido resgatado pelos historiadores e arqueólogos em oposição ao antigo título de "mito da criação", pelo qual era inadequadamente designado nos primeiros anos da assiriologia. Não existe consenso em relação à data de sua publicação, embora uma teoria aceita seja a de que este poema tenha sido feito no reinado de Nabucodonosor I (1 124-1 103 a.C.), quando este derrota os elamitas e restabelece a estátua do deus Marduque à antiga morada. O texto do enuma elish é dividido em sete cantos, com um total de aproximadamente mil e cem versos. O poema fala da criação do mundo, da criação dos deuses e da criação dos homens, mas seu tema principal é a ascensão de Marduque sobre os outros deuses como soberano divino.

O poema conta como, no princípio, Tiamat e Apsu, respectivamente os princípios da água salgada (mar) e da água doce misturavam suas águas. De dentro destes dois surgiram os primeiros deuses, entre eles Lakhmu e Lakhamu, Anshar e Kishar, Anu e Nudimmud (Ea). Esses deuses teriam causado transtornos dentro de Apsu e Tiamat, de forma que o primeiro, junto de seu mensageiro Mummu, foi tomado pelo desejo de destruí-los. Nudimmud, contudo, sabendo dos planos de Mummu e Apsu, os assassina, e com o coração de apsu faz nascer Marduque, caracterizado como o mais sábio e perfeito de todos os deuses. Nos cantos seguintes, a geração de deuses convence Tiamat a punir a geração de deuses mais velhos, com base na ofensa de Nudimmud. Desta forma Tiamat, enraivecida, cria um exército de monstros e dragões para exterminar os primeiros deuses, seus filhos, e entrega o tablete dos destinos (instrumento com o qual se controla os rumos do universo) para Kingu (ou Quingu), general de suas tropas de monstros. Aterrorizados com os projetos de Tiamat, os deuses da primeira geração decidem abdicar de sua autoridade em prol de Marduque, que se compromete a destituir Kingu e derrotar Tiamat, provando assim sua coragem e força. Marduque destrói Tiamat, e usa o corpo desta para criar as partes do universo. Com o sacrifício de Kingu, são criados os homens (chamados no poema de "cabeças negras"), trabalho de Nudimmud (Ea). Os outros deuses revoltosos são poupados por Marduque, elevado ao nível de soberano supremo entre as divindades por suas proezas. Marduque também resgata o tablete dos destinos, e recebe cinquenta títulos especiais, tornando-se assim o mais poderoso dos deuses.

O Enuma Elish e seu significado político[editar | editar código-fonte]

A maior parte da comunidade acadêmica afirma que a história contada no Enuma Elish, isso é, a ascensão da Marduque, está ligada ao crescimento do Império Babilônico antigo e seu fortalecimento político. Alguns dizem que, pelo contrário, a redação do mito se deve ao enfraquecimento político e à necessidade de auto-afirmação em períodos de crise. Uma opinião corrente é a de que o estilo de governo representando pela monarquia de Marduque é um reflexo do modelo imperial de governança da babilônia antiga. De acordo com outras interpretações do Enuma Elish, o mito retrataria uma transição do governo "democrático" primitivo para um governo monárquico, uma vez que o conselho dos deuses da primeira geração é substituído, a partir de um acordo, pelo governo autárquico de Marduque.

O Enuma Elish e seu significado religioso[editar | editar código-fonte]

Alguns historiadores acreditam que o mito revela uma tendência ao monoteísmo, uma vez que Marduque é colocado acima dos outros deuses. Não obstante, a ascensão de Marduque parece depender justamente desses deuses menores, ou seja, do politeísmo, para ser verificada.

Mircea Eliade, um célebre estudioso da história das religiões, acreditou ver no universo do Enuma Elish uma natureza dual: constituído pelo corpo de Tiamat (demoníaco) e pelo trabalho de Marduque (divino). O mesmo seria aplicável aos homens, que foram criados pela substância demoníaca de Kingu e pela obra divina de Ea. Para Eliade, a "primordialidade" em si era tida como fonte de criações negativas,

O Enuma Elish e o Gênesis[editar | editar código-fonte]

Por ser um poema cosmogônico e antropogônico, o Enuma Elish foi comparado incontáveis vezes com livro do Gênesis. Isso porque a bíblia, nos primeiros anos da assiriologia, tinha sua importância exagerada por parte dos pesquisadores. De fato, podemos estabelecer certos paralelos entre o livro do gênesis e o Enuma Elish, pois ambos são oriundos de um mesmo universo cultural. Mas as diferenças entre os dois também são substanciais.

Tanto no gênesis quanto no Enuma Elish, a água aparece como substância primordial (Gênesis 1:2). O caos original é descrito de forma semelhante em ambos os textos. No entanto, enquanto no gêneses há apenas um deus criador, no Enuma elish os deuses vão sendo criados deste caos primordial. Elohim(Deus), assim como Marduque, se vale da palavra na cosmogonia bíblica (Gênesis 1:3). Elohim (Deus) cria o céu, na mesma ordem que Marduque. Em ambos os textos, o céu é uma abóbada na qual reside a água celeste. Elohim e Marduque criam o sol, a lua e as estrelas na mesma sequência (gênesis 1:16). Depois são criadas as plantas, o mesmo no gênesis e no Enuma Elish (Gênesis 1:12). O Gênesis traz a passagem "E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem", enquanto o Enuma Elish traz a passagem "Eu criarei algo original cujo nome será homem"..[45] No gênesis, o homem e a mulher são criados para cultivar o paraíso, no Enuma Elish, para estar a serviço dos deuses. No final da criação, os deuses descansam, assim como Elohim.[46]

No restante da bíblia hebraica, pode-se perceber que os hebreus atribuiam a Iahweh (Deus) certos feitos de Marduque. Em Jó 7, 12[47] , por exemplo, ressoam imagens do mito babilônico ("Sou eu o mar, ou um monstro marinho, para que me ponhas uma guarda?"). O tema do combate a um monstro primordial, caracterizado como o "mar" ou as "águas", ou ainda como um monstro mitológico primordial (Leviatã), aparece em Jó 3, 8; 9, 13; 26, 12; 40, 25; em Salmos 65, 8; 74, 13-14; 77, 17; etc.

O Enuma Elish e a cidade de Babilônia[editar | editar código-fonte]

No Enuma Elish a criação da cidade de Babilônia é creditada ao deus Marduque. Essa cidade teria sido construída pelo deus supremo como morada para os deuses. Sua existência é anterior à criação dos homens, de acordo com o poema.

Período de desagregação (1 590-1 000 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Após a morte de Hamurabi, possivelmente na data de 1 750 a.C., povos de origem cassita começaram a invadir a região da Babilônia. Esses povos, cuja língua não pode ser associada a nenhum outro grupo linguístico e cujas origens permanecem obscuras, fundaram novas dinastias reinantes no sul da mesopotâmia e lá se instalaram por muitos anos, até serem expulsos pelos elamitas mais tarde. Enquanto isso, povos de origem indo-européia começaram a adentrar o território mesopotâmico pela Anatólia. Um desses povos foram os hititas, originários do sudeste europeu, na margem superior do mar negro, que formaram um poderoso império na mesopotâmia, destruído por volta do ano 1 180 a.C. Os reinos hurritas, formados também por novos invasores, unificaram-se numa unidade política conhecida como o reino Mitaniano (1 550-1 350 a.C.) que influenciou a situação política na mesopotâmia pelos próximos séculos. O Egito, nessa época adentrando no período do Novo Império, seria outra influente força política dominando a história da mesopotâmia nesse período. No entanto, será a assíria a tomar o papel de nova senhora do oriente próximo com seu fortalecimento político nesses anos de desagregação.

Babilônia cassita (1 590-1 160 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Após a morte de Hamurabi (por volta do ano 1 750 a.C.), miríades de revoltas e insurgências explodiram no reino babilônico, tornando-o particularmente vulnerável aos ataques externos. O sul do Império Paleobabilônico passou para o controle de invasores do mar, enquanto a região norte foi ocupada pelos cassitas, povos provindos da região da Cordilheira de Zagros. A cidade de Babilônia, ainda sob domínio dos amoritas, foi invadida e ocupada pelos hititas por volta do ano 1 590 a.C., extinguindo-se dessa forma a dinastia de Hamurabi. No entanto, os ataques cassitas pressionaram os hititas a deixarem rapidamente a capital, e estes povos migrantes tomaram o território central e sul da antiga Babilônia.

A Babilônia esteve sob domínio cassita por cerca de quatrocentos anos. Esses povos absorveram rapidamente a cultura local, de forma que poucas de suas particularidades culturais puderam ser identificadas. Os reis cassitas tinham sua autoridade limitada e seu povo, após a fixação, passou por longos períodos de paz. Seu domínio sobre a Babilônia foi encerrado por volta do ano de 1 160 a.C., quanto tropas elamitas invadiram a região. Uma breve restauração ocorre com ajuda do imperador Nabucodonosor I, que expulsa os elamitas durante seu reinado (1125-1104).

Migração dos Indo-europeus (2 000 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Os povos indo-europeus começaram a migrar pela Europa e pela Ásia antes do ano 2 000 a.C. Entre eles estavam os persas e medas, que ocuparam a região do atual Irã, os arianos, que ocuparam o norte da Índia, os hurritas e os hititas, que ocuparam a região da Anatólia. Os hurritas penetraram no noroeste da Mesopotâmia e no sudeste da Anatólia entre 1 800-1 550 a.C.

Hititas (2 000-1 180 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Relevo de rei Hitita.

Certos povos de língua indo-européia ocuparam a região de Hatti, na Anatólia, onde povos de língua não indo-européia habitavam. Logo passaram a ser denominados por hititas (cujo nome deriva de "Hatti"). Esse povo se instalou como minoria governante em Hatti e, se apropriando de alguns conhecimentos nativos, se organizou em cidades-estados. O rei Hattusilis unificou os povos hititas por volta do ano 1 650 a.C. Entre 1 650-1 500 a.C. surgiu uma unidade política que os historiadores chamam por "Velho Reino" Hitita, sintetizado pelos governos de Hattusilis I (1 650-1 620 a.C.) e Mursilis I (1 620-1 590 a.C.). Mursilis I capturou a cidade de Babilônia em 1 595 a.C., mas logo depois foi assassinado numa contenda palaciana, o que levou o reino a um longo período de instabilidade (1 590-1 370 a.C.). Com a ascensão do rei Suppiluliumas I ao trono por cerca do ano 1 370 a.C., o reino hitita renasce, num período conhecido como o do "Novo Império" hitita. Durante essa época, os hititas aniquilaram os reinos dos hurritas e de Arzawa, estendendo seu império do mar Egeu às montanhas sírias. No ano de 1274 ocorreu a famosa batalha de Qadesh entre Hititas e Egípcios, culminando com um tratado de paz entre as duas potências. O declínio do império hitita ocorre com a chegada dos "povos do mar" e com o fortalecimento dos assírios.

Reinos Hurritas (1 550-1 350 a.C.)[editar | editar código-fonte]

A partir de 1 550 a.C. os hurritas colocaram toda a região entre o norte da mesopotâmia e a costa síria sob um único domínio, o de Mitani. Esse grupo étnico conseguiu submeter a Assíria à vassalagem e formou uma coalizão com o Egito durante o reinado de Tutmósis IV (1 401-1 391 a.C.). Por volta de 1 350 a.C., o rei hurrita Tushratta foi desafiado pela nobreza do reino, enquanto Mitani sofria ataques dos povos hititas. O Egito, se poderoso aliado, passava por turbulências internas com o reinado de Aquenáton. Isso culminou com a queda do reino hurrita por volta deste mesmo ano. Os hurritas cultuavam deuses semelhantes àqueles dos indianos védicos, como Mitra, Indra e Varuna.

Ugarit (1 450-1 200 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Ugarit era um reino cananita que floresceu por volta do ano 1 450 a.C. Esse reino foi vassalo dos hurritas, dos egípcios e dos hititas e, por fim, foi destruído pelos "povos do mar" (invasores que causaram turbulência no oriente próximo por volta do século XIII a.C.). O povo de Ugarit tinha um alfabeto próprio, grandes bibliotecas e palácios. Sua cultura matinha continuidade com tradições mais antigas da Cananeia, ocupada desde antes do ano 3 500 a.C. O Deus supremo do panteão cananita era El, o rei dos deuses, frequentemente representado por um touro. Sua parceira era a deusa mãe Asherah. O filho de El era Baal, o deus da fertilidade. A religião cananita foi profundamente influente para as crenças hebraicas. Ugarit floresceu por muitos anos como um importante centro comercial.[48]

Filisteus (1 190-700 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Os Peleset, conhecidos por seu nome bíblico de Filisteus, eram um dos grupos entre os chamados "povos do mar", que invadiram o oriente próximo durante o século XII a.C. Seu nome (Peleset) deu origem ao nome da atual região da Palestina. Os filisteus estavam organizados em cidades-estado como Asdode, Asquelom, Gaza, Ecrom e Gate, todas independentes. Acredita-se que os filisteus tenham introduzido as culturas de vinho e oliva no Oriente Próximo. Pouco se sabe sobre sua língua, que ao longo dos anos foi substituída por um dialeto cananita. Os Filisteus entraram em conflito com os Hebreus, depois com os Egípcios, Assírios e Caldeus, tendo deixado de documentar por volta do ano 700 a.C.[49]

Período Antigo da Assíria (2 300-2 000 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Pouco se sabe sobre os assírios antes destes assumirem definitivamente o controle sobre a maior porção do oriente próximo. A Terra de Assur, donde provinham os assírios, tinha esse nome em homenagem a uma deidade principal entre esses povos, escrita em grego como Assíria (e adotada pelos ocidentais até hoje). O território assírio foi domínado por dinastias acadianas e sumérias, durante o império de Sargão e da terceira dinastia de Ur. Isso explica a grande proximidade existente entre os universos culturais sumério-acadianos e assírio. A unidade política adotada pelos assírios era a cidade-estado, uma monarquia centrada nas duas principais cidades da região: Nínive e Assur.[50]

Emergência da Assíria (2 000-1 000 a.C.)[editar | editar código-fonte]

O ano de 2000 coincide com a queda da terceira dinastia de Ur e, consequentemente, com o ressurgimento da Assíria como um reino autônomo. Isso permitiu que os comerciantes assírios estabelecessem entrepostos comerciais na Anatólia, onde a circulação de bronze, ouro e prata era intensa. Entre 1 850-1 650 a.C. a Assíria ficou sob domínio babilônico, e entre 1 650-1 350 a.C. a Assíria foi um reino vassalo dos hurritas de Mitani. Devido a sua posição geográfica, a Assíria permaneceu sendo por muito tempo um palco de guerras, e isso talvez tenha contribuído para transformar os habitantes nativos em guerreiros violentos. Por volta de 1 365 a.C. o rei assírio Assurubalite derrotou o reino de Mitani e restaurou a independência assíria. A invasão dos povos do mar desestabilizou o antigo cenário político da mesopotâmia, favorecendo a tomada de poder por parte dos assírios, que com o reinado de Tiglate-Pileser (1 115-1 077 a.C.) estenderam seus domínios até parte da costa mediterrânea. No entanto, o século seguinte seria de enfraquecimento político, com as invasões dos arameus e a instabilidade interna.

Império Neoassírio (1 000-605 a.C.)[editar | editar código-fonte]

relevo assírio.

Os assírios retomam seu vigor conquistador após o ano 900 a.C. O século anterior havia testemunhado o gradual enfraquecimento da potência assíria, que, não obstante, havia já demonstrado seu potencial expansionista. O reinado de Adadenirari II (911-891 a.C.) reafirmou a autoridade assíria na mesopotâmia com a expulsão dos arameus, ao mesmo tempo possibilitando um maior controle das principais rotas comerciais da região. Assurnasirpal II, neto de Adadenirari II, dominou um número impressionante de pequenos reinos entre a região da Assíria e o Mediterrâneo, sendo considerado o fundador do Império Neoassírio. Assurnasirpal II fez da cidade de Kalhu, na margem do rio Tigres, a nova capital do Império. Esse monarca também ficou famoso pela dispersão em massa dos povos conquistados, que eram deslocados como mão-de-obra para diferentes partes do império.

Salmanaser III (858-824 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Salmanaser III era filho de Assurnasirpal II, foi responsável pela expansão da Assíria até a região do antigo reino sírio e da região da Palestina. O final de seu reinado foi abalado por revoltas internas. Seus sucessores foram considerados ineptos, e permitiram que o reino de Urartu tomasse parte do território assírio entre 824-740 a.C.[51]

Tiglate-Pileser III (745-727 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Tiglate-Pileser III era um usurpador, e não pertencia à dinastia anterior. Esse monarca foi responsável por conquistar a antiga Babilônia, já não mais ocupada pelos cassitas, mas sim por um povo semita, os caldeus. Tiglate-Pileser III combateu o reino de Israel, e derrotou os temíveis urartianos, que anos antes pressionavam as fronteiras assírias. Além disso, ele incorporou os reinos arameus e estabeleceu um sistema de estradas e correios para facilitar a comunicação dentro do Império.[51]

Nessa época, os territórios do império eram governados por príncipes locais ou por oficiais assírios, de acordo com a especificidade de cada cidade.

Salmanaser V (726-722 a.C.) e Sargão II (721-705 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Salmanaser V era filho de Tiglate-Pileser III, e durante seu reino, combateu um bloco rival formado por israelitas e egípcios. A cidade de Samaria, capital do reino de Israel, foi sitiada por 3 anos e tomada em 722 a.C. por Sargão II, sucessor de Salmanaser V. Alguns israelitas foram mortos, outros deportados para a assíria. Sargão II tomou esse nome certamente fazendo alusão ao antigo conquistador acadiano que havia reinado sobre o território mesopotâmico 1500 anos atrás. Sargão II inicia um período na história da assíria que os historiadores convencionaram chamar de "período dos sargônidas". Sargão II transferiu a capital do império para Dur-Sharrukin. Em 714 a.C., este famoso monarca invadiu o reino de Urartu.

Senaqueribe (704-681 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Senaqueribe, filho de Sargão, moveu a capital do império para a Nínive reconstruída. Entre suas incontáveis obras, está o jardim botânico assírio, onde ficavam plantas de todas as partes do império, a dupla muralha de Nínive e um longo canal de abastecimento de água.

Guerra com Judá[editar | editar código-fonte]

Peter Paul Rubens representa o episódio bíblico do livro de Reis.

Senaqueribe enfrentou também o monarca judeu Ezequias, que teria formado uma aliança com fenícios e filisteus contra os assírios. Em 701 a.C. Senaqueribe moveu uma campanha contra cidades destes três reinos, que foram destruídas e submetidas ao julgo do imperador.

Embora o segundo livro de Reis apresente uma versão amenizada da história do cerco de Jerusalém (2Reis 18, 2Reis 19), segundo a qual Senaqueribe teria abandonado o intento de destruir a capital de Judá devido à intervenção de Javé (2Reis 19,35-36), uma inscrição do rei assírio descreve uma situação muito mais grave. De acordo com ele, "Eu o tranquei [Ezequias] em Jerusalém, sua cidade real, como um pássaro na gaiola. (…) Eu lhe impus pagamentos e presentes por minha soberania, além de seu tributo anterior, pago anualmente." Ainda de acordo com Senaqueribe, Ezequias teria entregue como tributo (demonstração de sua obediência) ouro, prata, marfim e, inclusive, suas próprias filhas.

Na História de Heródoto, segundo livro parágrafo 151, o autor descreve um desastre ocorrido num combate entre assírios e egípcios. De acordo com o grego "(…) Quando Senaqueribe, rei dos Árabes e dos Assírios, veio atacar o Egito com um grande exército, os guerreiros negaram-se a lutar em defesa da pátria. Vendo-se em tão difícil situação, Setos dirigiu-se ao templo e ali, diante da estátua do deus, pôs-se a lamuriar pela sorte funesta que parecia aguardá-lo; e assim, deplorando suas desgraças, adormeceu. Em sonhos, julgou ver o deus encorajando-o e assegurando-lhe que se marchasse ao encontro dos Árabes, a sorte estaria do seu lado, pois ele próprio, o deus, lhe enviaria socorros. Cheio de confiança na visão, Setos reuniu todas as pessoas de boa vontade e dispostas a segui-lo e foi acampar em Pelusa, ponto chave do Egito. Seu exército era composto exclusivamente de negociantes, artífices e vivandeiras. Nenhum guerreiro acompanhava-o. Logo que essas tropas improvisadas chegaram à cidade, espantosa multidão de ratos do campo espalhou-se pelo acampamento inimigo, pondo-se a roer os ameses, os arcos e as correias que serviam para manejar os escudos de maneira que, no dia seguinte, os árabes estavam sem armas, e assim lutando foram fragorosamente derrotados". Essa passagem tem sido interpretada como uma versão da narrativa bíblica sobre um possível desastre que teria retardado as conquistas assírias.

Senaqueribe também conquistou parte da Babilônia e destruiu a cidade sagrada por volta do ano 689 a.C. A estátua do deus babilônico Marduque foi levada para a Assíria.

Assaradão (680-669 a.C.), Assurbanípal (668-627 a.C.) e decadência assíria (627-605 a.C.)[editar | editar código-fonte]

De acordo com relatos do oriente próximo, Senaqueribe foi morto por dois de seus filhos enquanto rezava num templo. Esses se rebelavam contra Assaradão, seu irmão, que havia sido empossado do título de rei da Assíria como sucessor do pai. Assaradão derrotou os rebeldes e reconstruiu a cidade de Babilônia. Em 671 a.C. Assaradão invadiu o Egito e proclamou-se rei.[52] Assurbanípal, filho de Assaradão, tentou reconquistar o Egito, uma vez que o rei núbio Taharqa havia instaurado uma nova dinastia na região. Shamash-shum-ukin, irmão de Assurbanípal, se rebelou contra o governo do irmão e, com ajuda dos elamitas, atacou tropas na Babilônia em 652 a.C. Após a recaptura da cidade, Shamash-shum-ukin cometeu suicídio. Assurbanípal praticamente exterminou o estado elamita e puniu severamente os rebeldes caldeus na Babilônia.

A morte de Assurbanípal foi seguida da desintegração do império assírio. O Egito conquistava sua independência em 626 a.C., e Nabopolassar, um rebelde caldeu, inaugurou a última dinastia babilônica, ignorando a autoridade assíria. Uma aliança formada entre caldeus e medas permitiu a destruição dos assírios, que tiveram sua capital (Nínive) aniquilada em 612 a.C., tendo sofrido sua derrota derradeira em 605 a.C. na Batalha de Carquemis. Os assírios foram praticamente varridos do mapa, sua língua apagada, e o império dividido entre medos e caldeus.

Cultura e Sociedade no Período Neoassírio[editar | editar código-fonte]

Estela de Lamashtu.

As escavações na Assíria se iniciaram em 1845 sob a liderança do diplomata britânico Sir Austen Henry Layard. Esse famoso arqueólogo descobriu os restos das cidades antigas de Nínive e Kalhu.[53] Ele encontrou o palácio real de Senaqueribe e a Livraria de Assurbanípal nesses sítios arqueológicos, construções que impressionaram o mundo todo. Hormuzd Rassam, assistente de Layard, continuou as escavações em Nínive nos próximos anos. As peças resgatadas foram enviadas para o Museu Britânico, e nos permitem conhecer e entender parcialmente o que foi a cultura assíria.[53]

Monarquia[editar | editar código-fonte]

O rei assírio era sobretudo um líder militar.[51] Da mesma forma, ele detinha autoridade no plano religioso, uma vez que, para os antigos assírios, o poder real era uma concessão de Assur, deus nacional. O rei consultava profetas para saber a vontade dos deuses. Quando a morte do rei era prevista (eclipses, por exemplo, eram sinal de regicídio), um substituto era colocado para reinar por poucos dias e depois era sacrificado.[53]

Religião[editar | editar código-fonte]

A religião assíria deveu muito às antigas crenças babilônias.[51] Assur, o deus nacional, era colocado pelos assírios acima de todos os outros deuses, como soberano divino, lugar outrora ocupado por Marduque. Ao mesmo tempo, Assur possuía características encontradas nos antigos soberanos da mesopotâmia, Marduque e Enlil. Acreditava-se que esse Deus era responsável por trazer vitórias e conquistas militares aos assírios.[53]

Na mitologia assíria, o demônio Lamashtu (representado por uma figura feminina) era responsável por criar caos e medo entre as pessoas.

Por meio dos sonhos e da astrologia alguns assírios ilustrados acreditavam serem capazes de prever o futuro. Na maior parte das vezes, essas previsões envolviam descobrir a vontade dos deuses, que puniam os homens quando estes se afastavam dos intentos divinos, e os recompensavam quando estes se comportavam. Os reis consultavam profetas para saber como governar.

Akitu, Zagmuk[editar | editar código-fonte]

O Festival de Ano Novo tinha um papel essencial na legitimação das monarquias assíria e neo-babilônica. Esse festival, cujo nome sumério é Zagmuk, já existia na mesopotâmia quase 3000 anos atrás. Seu nome acadiano era Akitu. Nos 12 primeiros dias do mês de Nisan o rei encarnava uma deidade e reproduzia sua história em várias etapas. As etapas finais envolviam o retorno do rei do banquete na Bit Akitu (casa do ano novo) e o hierogamos, quando este se unia a uma jovem escolhida. De acordo com os críticos da história das religiões, esse ritual representava a recriação do cosmos pelo rei, que obtinha um papel divino durante o festival, e sacralizava assim a monarquia.[51]

Biblioteca de Assurbanípal[editar | editar código-fonte]

A biblioteca de Assurbanípal, quase inteira conservada pelo Museu Britânico, era uma enorme coleção de tabletes cuneiformes em Nínive. Cerca de 20 mil tabletes foram encontrados, trazendo poesias, hinos religiosos, encantações e trechos de épicos famosos como o de Gilgamesh e o Enuma Elish.

Império Neobabilônico (612-539 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Egípcios, lídios, medos e caldeus eram os novos senhores do oriente próximo após a queda da Assíria. Os caldeus eram um povo semítico que havia se instalado na Babilônia por volta do século IX a.C.. Esse povo controlou uma porção da mesopotâmia por menos de um século, até perderem seu reino para os persas.

Nabopolassar (626-605 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Como já foi dito, Nabopolassar era um rebelde caldeu que conseguiu se tornar rei babilônio com a queda do Império Assírio. Esse rei foi o fundador da última dinastia babilônica e responsável por aniquilar os últimos efetivos assírios.

Nabonido, um dos reis caldeus.

Nabucodonosor II (605-562 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Filho de Nabopolassar, Nabucodonosor II ampliou as fronteiras do Império Neo-babilônico até a Síria Palestina. Sua grande vitória foi a conquista do reino de Judá e a destruição de Jerusalém. Os judeus capturados foram exilados para a Babilônia, episódio conhecido como o "cativeiro da Babilônia".

Nabucodonosor II manteve relações amigáveis com os medas, porém continuou combatendo os egípcios. Seus sucessores imediatos foram mortos em rebeliões.

Nabonido (556-539 a.C.)[editar | editar código-fonte]

Conspirações palacianas foram suficientes para encerrar a antiga linha dinástica e colocar o rei Nabonido no poder por volta do ano 556 a.C. Nabonido, considerado uma personalidade louca, promoveu o deus da lua, Sin, em oposição a Marduque, ainda principal para o culto babilônico. Também se auto-exilou num oásis, abandonando seu reino por muitas anos, o que deixou seus súditos descontentes.

Seu reinado se encerra com a conquista da Babilônia por Ciro, o Grande, em 539 a.C. Os persas dominarão essa região nos próximos anos.

Calendário Babilônico[editar | editar código-fonte]

Base para o calendário hebraico, o calendário babilônico era um calendário luni-solar dividido em doze meses lunares de 29/30 dias cada. A diferença com o ano solar (365 dias) era dissipada com a adição de um mês no final do ciclo.

(Mês) Nome Babilônico/hebraico Nome Persa Nome Macedônico Nosso Calendário Número
1 Nisannu Nisan Adukanaisa artemisios março-abril 1
2 Ajaru Iyyar Thûravâhara daisios abril-maio 2
3 Simanu Sivan Thâigaciš panemos maio-junho 3
4 Du'ûzu Tammuz Garmapada loos junho-julho 4
5 Âbu Ab Turnabaziš gorpaios julho-agosto 5
6 Ulûlu Elul Karbašiyaš yiperberataios agosto-setembro 6
7 Tašrîtu Tishri Bâgayâdiš dios setembro-outubro 7
8 Arahsamna Marhesvan Markâsanaš apellaios outubro-novembro 8
9 Kislîmu Kisleu Âçiyâdiya audunaios novembro-dezembro 9
10 Tebêtu tebet Anâmaka peritios dezembro-janeiro 10
11 Šabatu shebat Samiyamaš dystros janeiro-fevereiro 11
12 Addaru Adar Viyaxana xanthikos fevereiro-março 12

[54]

Arquitetura Caldeia[editar | editar código-fonte]

As escavações na Babilônia dos caldeus trouxeram informações consideráveis acerca das estruturas arquitetônicas desses povos. A cidade de Babilônia, por exemplo, foi reconstruída durante o reinado de Nabucodonosor II, e sua nova versão trazia maior número de muralhas, templos e palácios. O portão de Ishtar, assim como outros portões magníficos da mesopotâmia antiga, levavam ao exterior das muralhas da cidade. Eram portões compostos por figuras de criaturas místicas, associadas às divindades da cidade. As avenidas centrais, como a rua da procissão, eram lugares onde se realizavam cerimônias religiosas. Outras construções famosas da Babilônia nesta época foram o palácio de Nabucodonosor, o templo de Esagila e a zigurate Etemenanki, tradicionalmente considerada a base histórica para a imagem da torre de babel.

Aramaico[editar | editar código-fonte]

Os arameus eram povos semitas oriundos da região do deserto sírio. Seu protagonismo no comércio do oriente médio fez com que sua língua, o aramaico, se difundisse notavelmente nos anos posteriores a sua instalação na Síria. Sua língua, escrita em papiro por meio do alfabeto fenício, logo se tornaria língua franca no oriente próximo, inclusive na Babilônia.

Religião[editar | editar código-fonte]

Os caldeus acreditavam que os astros (o sol, a lua, etc.) eram deuses. Sua religião identificava os deuses do panteão tradicional a determinados corpos celestes. A semana dos caldeus era dividida em sete dias, o que foi posteriormente adotado pelos romanos. Sua astronomia era avançada, e eles conseguiam prever eclipses do sol e da lua.

Os Persas[editar | editar código-fonte]

Tumba de Ciro, o Grande, em Pasárgada.

Os persas, originalmente vassalos dos medas, se insurgiram contra estes últimos no ano de 559 a.C. Tanto os persas quanto os medas eram povos indo-europeus que ocuparam a planície iraniana durante a primeira metade do primeiro milênio. Os Medas, durante o reinado de Ciáxares, estabeleceram um grande império, que incluía os persas como seus vassalos. No entanto, Astiages, filho de Ciáxares, foi destronado por um vassalo persa, Ciro, o Grande, em 559 a.C. Quando Ciro ascendeu ao trono do antigo Império Meda, iniciou uma série de campanhas de expansão que incluíram a conquista da Lídia, da Jônia e da Babilônia. Ao fim de seu reinado, o Império Aquemênida dominava praticamente todo o Oriente Próximo. Os primeiros dinastas persas, conhecidos como aquemênidas, tinham uma política de tolerância religiosa, e respeitavam as crenças dos povos conquistados. Ciro, por exemplo, era chamado pelos judeus de "ungido" (Isaías 45:1), título incomum para designar monarcas pagãos, o que demonstra a popularidade do rei persa entre seus súditos.[55]

A Assiriologia e a Bíblia Hebraica[editar | editar código-fonte]

A assiriologia foi instituída como disciplina no século XIX. Durante seus primeiros anos, a assiriologia foi uma espécie de ciência auxiliar dos estudos bíblicos, funcionando como mera ilustração das passagens e narrativas da bíblia hebraica, enquanto os estudos bíblicos permaneciam em larga medida a-históricos.[56] Isso porque a mesopotâmia só era conhecida pelos ocidentais, até então, por duas fontes, consideradas hoje em certa medida controversas: a Bíblia e as fontes gregas, particularmente as histórias de Heródoto.[57] Além dos estudos assiriológicos representarem a mesopotâmia em termos nitidamente etnocentricos, eles contribuíram para o fortalecimento da posição ocidental no oriente, particularmente no que diz respeito aos interesses imperais de países como França, Inglaterra e Alemanha. Peças arqueológicas, tratadas como relíquias devido a sua ligação com a história clássica e sagrada, eram levadas como troféus à Europa, onde permanecem ainda nos nossos dias.

No século XX, a assiriologia respondeu a sua condição de ciência dependente com teorias radicais, que pretendiam isolar a mesopotâmia do estudo bíblico. Entre elas estavam as ideias de Friedrisch Delitzsch e as dos Pan-Babilônicos, que falavam de uma suposta superioridade cultural mesopotâmica.

Atualmente, tanto os estudos bíblicos quanto a assiriologia levam em consideração os estudos comparativos como forma de compreender as sociedades antigas do oriente próximo. No entanto, o caráter discursivo dos livros históricos bíblicos, assim como os gregos, deve ser levado em conta ao se estudar a mesopotâmia.[57] A Bíblia de Jerusalém salienta que os manuscritos hebraicos tinham um significado particular para o seu povo, o que influenciava a maneira destes narrarem os fatos passados. Alguns livros, como por exemplo Ester (por sinal, provável variante do nome acadiano "Ishtar"), adquiriram um tom sobremaneira "nacionalista", e narram fatos pouco verossímeis do ponto de vista histórico (como a promulgação de uma ordem de extermínio de judeus pelos aquemênidas). Além disso, os críticos da bíblia salientam que a preocupação das escrituras hebraicas era de ordem teológica.

Em relação aos documentos gregos, é necessário admitir uma pluralidade de perspectivas. Amelie Kuhrt,[58] em artigo intitulado "Ancient Mesopotamia in Classical Greek and Hellenistic Thought", salienta o fato de que as narrativas clássicas sobre a mesopotâmia variam de acordo com o objetivo de seu autor. As histórias de Heródoto, por exemplo, são consideradas "vagas", e sua caracterização dos costumes mesopotâmicos se define a partir dos padrões gregos, como um espelho distorcido.[59]

Referências

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  2. Assyriology and the Old Testament (Jewish Enciclopedia).
  3. Nouri Jarah. Edward Said discusses orientalism.
  4. Panel Reflects on Said´s legacy, Orientalism.
  5. Preface to Orientalism.
  6. Ancient Mesopotâmia (University of Chicago).
  7. Shamil A. A. Kubba (1998). Architecture and linear measurement during the Ubaid period in Mesopotamia (em inglês) British Archaeological Reports.
  8. Templos de Eridu e Uruk.
  9. Uruk: The First City, The Metropolitan Museum of Art".
  10. Uruk: Classical History Glossary.
  11. A Short Essay on Cuneiform, Richard Hooker".
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  13. Mesopotamia: The Invention of Writing, University of Chicago".
  14. Semites.
  15. a b Guillermo Algaze. Ancient Mesopotamia at the dawn of civilization (em inglês).
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  20. Mark William Chavalas. The ancient Near East: historical sources in translation.
  21. The Sumerian King List.
  22. Enmebaragesi, King of Kish.
  23. Nippur, Ancient Mesopotamia.
  24. Richard Hooker. Gigamesh, historical King of Uruk.
  25. Mesannepadda, On The Borders Of History.
  26. Kingdoms of Mesopotamia - Lagash.
  27. Edward Hincks.
  28. Sumerian Religion.
  29. Enlil (em português).
  30. Sir Leonard Woolley.
  31. a b Sir Leonard Woolley. Excavations at Ur (em inglês).
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  35. A epopeia de Gilgamesh (em inglês).
  36. Wisdom, Gods and literatura Wisdom, Gods and literatura.
  37. Uma breve história da matemática na mesopotâmia.
  38. Sumerian Calendar Sumerian Calendar.
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  40. Akkad and Sargon The Great.
  41. Naram-Sin.
  42. O Renascimento Neo-Sumério.
  43. Código de Leis de Ur-Nammu.
  44. Enuma Elish em português.
  45. Título não preenchido, favor adicionar., Enuma Elish
  46. Gênesis.
  47. Evaristo Eduardo de Miranda. Animais interiores - Nadadores e rastejantes.
  48. Ugarit (ancient city, Syria).
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  51. a b c d e Don Nardo (1998). The Assyrian Empire (em inglês).
  52. Esarhaddon (king of Assyria).
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  55. Amélie Kuhrt. The Persian Empire.
  56. Bill T. Arnold, Professor of Old Testament and Semitic Language. The Bible and Interpretation.
  57. a b Mark W. Chavalas (2003). Mesopotamia and the Bible (em inglês).
  58. Blog: "Ancient Mesopotamia in Classical Greek and Hellenistic Thought".
  59. Ancient Mesopotamia in Classical Greek and Hellenistic Thought.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]