Gueorgui Jukov

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Gueorgui Jukov
RIAN archive 2410 Marshal Zhukov speaking.jpg
Zhukov em 1940
Nome completo Gueorgui Konstantinovitch Jukov
Nascimento 1 de dezembro de 1896 Strelkovka, Maloyaroslavets, KalugaMoscou
Morte 18 de junho de 1974 (77 anos) Moscou

Gueorgui Konstantinovitch Jukov (em russo: Георгий Константинович Жуков; Strelkovka, 1 de dezembro de 1896Moscou, 18 de junho de 1974), conhecido como Marechal da União Soviética, foi o comandante-em-chefe das Forças Armadas Soviéticas durante a Segunda Guerra Mundial, repelindo a invasão da Alemanha nazista e levando-a à derrota.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Não se sabe muito a respeito da infância e adolescência de Jukov. É de se presumir, entretanto, que sua infância tenha sido semelhante às dos seus contemporâneos nascidos no campo. A despeito da falta de recursos da família, cresceu sadio e forte. E como todos os meninos russos que nasciam em comunidades rurais, aos cinco anos já era um bom cavaleiro. Até então, não se destacara dos demais. Só sobressaiu quando a família, fazendo imensos sacrifícios, conseguiu matriculá-lo na escola paroquial de uma aldeia vizinha. O pequeno Gueorgui não somente aprendeu rapidamente tudo o que lhe ensinaram como completou os seus estudos elementares entre os' primeiros de sua turma. A coisa de que mais gostaria era prosseguir nos estudos, mas isso estava fora das condições da família. Satisfeitos com os resultados alcançados pelo menino na escola, seus pais, Ustina e Konstantin, reunindo seus parcos recursos, só puderam presentear o rapaz com um par de botas e uma blusa nova.

Foi então enviado por seus pais Moscou, onde deveria trabalhar como aprendiz de peleteiro na pequena oficina de um tio ali estabelecido. Estudando à noite, completou os cursos equivalentes ao ginásio e colégio.

Em 1913, na ante-véspera da Primeira Guerra Mundial, Jukov chegou a considerar seriamente a possibilidade de emigrar para os Estados Unidos, como o estavam fazendo tantos de seus companheiros. Mas a ideia de emigrar foi logo abandonada e Jukov, já como peleteiro habilitado, continuava a trabalhar e estudar em Moscou quando irrompeu a Primeira Guerra Mundial.

Carreira militar[editar | editar código-fonte]

Convocado e convidado a escolher a arma em que preferia servir, Jukov optou pela cavalaria. Para nela ingressar, entretanto, teve de vencer algumas dificuldades, especialmente as relacionadas com sua estatura, que era apenas mediana. Somente os soldados de mais de um metro e oitenta e cinco eram recrutados para as unidades de cavalaria na Rússia e Jukov teve de valer-se de uma série de expedientes — inclusive sua instrução, que era excepcional para um soldado raso mobilizado — para ingressar na arma de sua escolha.

Admitido, treinado e promovido a sargento, Jukov foi incorporado à X Divisão de Cavalaria Divisionária, cujos integrantes tinham sido recrutados na região de Moscou e cujo batismo de fogo ocorreu nas proximidades de Kharkov.

Como sargento, Jukov ganhou preciosa experiência logística, tática e de combate, lutando com sua unidade sobre terreno altamente acidentado, onde com frequência os soldados eram compelidos a desmontar e lutar como infantes contra os alemães. Tais circunstâncias serviriam para familiarizar o jovem sargento de cavalaria com as táticas de infantaria. Nos intervalos da luta, ao contrário da maioria de seus companheiros, o sargento Jukov estudava cuidadosamente todas as obras militares que lhe caíam nas mãos.

Condecorado várias vezes por valor em combate e pessoalmente elogiado pelo comandante de sua divisão, Jukov foi gravemente ferido em 1916 por uma mina alemã que explodiu entre as patas de seu cavalo. Projetado a distância pelo impacto da explosão, sofreu grave concussão cerebral e passou meses internado num hospital de campanha. Somente sua robusta constituição de camponês o salvou, mas sua convalescença foi lenta e penosa.

Restabelecido — e parcialmente surdo do ouvido direito, problema que deveria afetá-lo pelo resto da vida — Jukov foi então incorporado a uma unidade de adestramento, onde sua grande experiência seria útil. Até então, jamais se pusera em dúvida sua lealdade em relação ao Império e ao czar. Tal lealdade, entretanto, chegaria ao fim, com o fim da Primeira Guerra Mundial para a Rússia.

Esgotada, com seus recursos exauridos, faminta e farta de guerra, a Rússia foi presa fácil da propaganda revolucionária que pregava na frente de combate a paz e a volta ao lar. Em fevereiro de 1917, o regimento em que servia Jukov sublevou-se, passando-se para os revolucionários. Os oficiais que tentaram reprimir a sublevação foram detidos e o jovem sargento, detentor de altas condecorações czaristas ganhas por bravura na defesa do regime imperial, foi eleito por seus camaradas delegado ao soviete do regimento.

Posteriormente, o regimento acabou sendo incorporado às forças cossacas do general Petlura, que não reconhecia o governo provisório constituído após a deposição do imperial. A unidade em que Jukov servia foi dissolvida e ele teve de esconder-se nos bosques das proximidades de Balaclava, perseguido pelas forças de nacionalistas ucranianos.

O sargento de cavalaria das forças imperiais já se tinha convertido, a essa altura, em ardente revolucionário. Voltando a pé para casa, chegou a Strelkovka no início de novembro de 1917, pouco antes do golpe desfechado pelos bolchevistas para tomar o poder, pondo fim ao breve interlúdio do governo revolucionário dirigido por Alexander Kerensky.

A guerra e a revolução tinham alterado profundamente os projetos de Jukov. Incorporou-se à Guarda Vermelha, que posteriormente seria transformada no Exército Vermelho.

Acometido de violenta febre, Gueogui Jukov permaneceu vários meses acamado na residência dos pais. Além dos ferimentos mal curados, sofria também de tifo, mal que se propagava rapidamente pelo país desorganizado e flagelado pela conflagração.

Em junho de 1918, quando seguiu para Moscou, já recuperado, muita coisa tinha mudado. Já não era o czar quem governava a Rússia e decidia seus destinos, mas o pequeno grupo de bolchevistas liderado por Lênin, naquele momento às voltas com os mais graves problemas de ordem interna e externa.

Para derrotar os principais inimigos dos bolchevistas, o então sargento Jukov foi um dos veteranos aceitos como voluntários no Exército Vermelho, sendo incorporado em agosto de 1918, em Moscou.

Exército Vermelho[editar | editar código-fonte]

Como já havia ocorrido por ocasião de seu alistamento na cavalaria do Exército Imperial, a fim de lutar como soldado do czar, Jukov enfrentou grandes dificuldades quando, para combater como soldado do novo regime, apresentou-se em agosto de 1918 ao centro de recrutamento da IV Divisão de Cavalaria do Exército Vermelho, que estava sendo constituída em Moscou.

Ao tratar de ingressar no Exército Vermelho, as dificuldades com que se defrontou foram de ordem essencialmente política. Isso se explica pela divergência que se registrava entre os líderes do Exército Vermelho, divididos em duas correntes influentes e que não chegavam a um acordo quanto às qualificações dos militares a serem incorporados.

De um lado, estavam os antigos agitadores profissionais que tinham sublevado unidades regulares e desfechado as ações militares destinadas a dar cobertura às iniciativas políticas dos bolchevistas, quando estes partiram para a tomada do poder. Quase todos esses antigos agitadores profissionais, incorporados ao exército durante a guerra — casos de Kliment Vorochilov e Semyon Budyonny — tinham chegado ao fim do conflito com os galões de sargentos. Seu grupo ficaria conhecido, de fato, como o grupo dos sargentos. Estreitamente vinculados a Stalin, vários deles — entre os quais os mesmos Vorochilov e Budyonny — acabariam ascendendo ao marechalato, com conseqüências mais que desastrosas para a União Soviética, como se verificaria mais tarde.

De qualquer forma, o grupo dos sargentos tinha considerável influência e, quando se tratou de organizar e consolidar os quadros do Exército Vermelho, no início da Guerra Civil, seus integrantes eram terminantemente contrários ao recrutamento de oficiais, técnicos e graduados que não pertencessem ao antigo agrupamento de revolucionários profissionais. Em seu entender, os melhores soldados seriam sempre os revolucionários treinados. Pelas mesmas razões, opunham-se ao aproveitamento de veteranos regulares do Exército Imperial, sustentando que eles não eram dignos de confiança e trairiam a revolução na primeira oportunidade que lhes fosse oferecida.

O outro grupo era liderado por Leon Trotsky, primeiro-comissário de guerra da União Soviética. Trotsky atribuía prioridade máxima à vitória na Guerra Civil e à expulsão das forças de intervenção. E sustentava que, para atingir esses objetivos, não bastariam ao Exército Vermelho antigos cabos e sargentos, sem qualquer noção de logística, tática e estratégia. Era indispensável a colaboração de profissionais experientes e estes só podiam ser encontrados entre os antigos integrantes do quadro de regulares do exército czarista.

Quando Jukov se apresentou à IV Divisão de Cavalaria, a divergência entre o grupo dos sargentos, de um lado, e Trotsky, do outro, estava no auge. As credenciais de Jukov foram acolhidas com suspeita. Afinal, o antigo sargento era detentor de duas cruzes de São Jorge, condecorações raramente concedidas sob o regime do czar, além de uma vasta série de outras medalhas e citações. Jukov conseguiu vencer tais dificuldades comprovando sua origem e levantando os documentos necessários para demonstrar que era filho de pobres aldeões e que ganhara a vida, até a Primeira Guerra Mundial, trabalhando como peleteiro numa oficina de Moscou.

Superado o problema, Jukov foi finalmente admitido e integrou-se sem maiores dificuldades no grupo dos sargentos. Essa integração foi facilitada pelo ingresso simultâneo de Jukov na IV Divisão de Cavalaria e no Partido Comunista. Ele iniciava naquele momento uma dupla carreira, que se desenvolveria em rotas paralelas: a militar e a política.

Assim que se conseguiu completar seu efetivo, a IV Divisão, comandada por um antigo tenente-coronel czarista — devidamente assistido e fiscalizado por um comissário-político — foi enviada para a frente de combate.

No início de 1919, sofrendo derrota após derrota, o Exército Vermelho parecia ter perdido completamente sua capacidade de luta e os brancos avançavam em todas as frentes. Comandando uma força de antigos soldados regulares, o general branco Denikin ocupara sucessivamente Karkov, Kiev e cercara Czaritsyn, ameaçando diretamente Moscou.

Foi para Czaritsyn que o sargento Jukov seguiu com sua divisão, participando da intensa luta que se desenvolveu em torno desse centro vital, que viria a ser chamado Stalingrado e ao qual ele voltaria anos mais tarde, para cobrir-se de glória. Naquela ocasião, entretanto, o que Jukov ganhou em Czaritsyn foi um punhado de estilhaços de granada de mão, que dilaceraram sua coxa esquerda. Internado no hospital de sangue local, travou conhecimento, durante sua convalescença, com os homens que iriam influenciar de forma decisiva sua vida e sua carreira político-militar: Budieny, Voroshilov e, principalmente, Stalin, comissário das nacionalidades mas que ali funcionava como supervisor dos comissários-políticos.

Restabelecido dos ferimentos recebidos e municiado com as elogiosas referências dos integrantes do antigo grupo dos sargentos, Jukov foi encaminhado no início de 1920 a um curso especial de preparação de comandantes do esquadrão da Cavalaria Vermelha.

Nesse meio tempo, sob o comando direto de Leon Trotsky, o Exército Vermelho eliminara seus mais perigosos adversários. Kolchak foi compelido a retirar-se para a Sibéria, perdendo contato com suas bases, enquanto Denikin recuava precipitadamente rumo ao mar Negro, com os remanescentes de suas forças. O cerco de Czaritsyn tinha sido levantado pelo Exército Vermelho, o que afastou a ameaça que pesava sobre Moscou. Até hoje a dúvida sobre a quem cabe o mérito da vitória local persiste. De acordo com Trotsky, a vitória só poderia ser atribuída à estratégia do coronel Sytin, oficial de carreira que servira sob o czar. Para o grupo dos sargentos — ao qual estava vinculado Stalin — a vitória tinha sido apenas um produto dos seus esforços. E como foi afinal Stalin que acabou eliminando Trotsky na luta pelo poder que se seguiu à morte de Lênin, sua versão acabou por prevalecer durante muito tempo, tanto assim que o nome da cidade, em sua homenagem, foi mudado para Stalingrado.

O episódio, aparentemente insignificante no contexto da Guerra Civil e das estupendas convulsões sociais que se registravam no antigo Império devastado pelo conflito, teria profundas consequências: até depois do início da Segunda Guerra Mundial, as teses do antigo grupo de sargentos exerceria grande influência sobre a organização, tática e estratégica do Exército Vermelho, com resultados calamitosos, como se verá avante.

Já comissionado como oficial, depois de completar o curso especial de preparação, Jukov participou, na Crimeia, da luta contra as forças do general branco Wrangel. Completadas as operações nessa área — Wrangel foi compelido a abandonar a Crimeia por mar, ao perder o apoio ativo da Polônia, que concluíra um acordo de paz com Moscou — Jukov, promovido a comandante de esquadrão de cavalaria, tomou parte ativa na campanha desfechada na área de Voronezh, onde o Exército Vermelho eliminou os grupos de guerrilheiros que infestavam a região e, ao mesmo tempo, reprimiu um levante de pequenos proprietários rurais, que resistiam à divisão de suas terras.

Completadas as operações nessa área, Jukov, incorporado às forças comandadas pelo general Mikhail Tukhachevsky, seguiu para Tambov, onde as forças de Antonov lutavam contra o governo. A campanha desenvolveu-se de dezembro de 1920 a junho do ano seguinte e no seu decorrer Jukov ganhou grande experiência, não somente de combate contra irregulares e guerrilheiros como também de ordem tática e estratégica. Deveria aprender muito durante os meses de estreita colaboração com Tukachevsky e foi nessa oportunidade que decidiu fazer carreira no Exército Vermelho, mesmo depois do fim das hostilidades.

Embora integrando os quadros do Partido Comunista, Jukov esquivava-se habilmente de tomar partido na pendência que dividia os antigos líderes bolchevistas e que já prenunciavam a luta crucial que seria travada entre os herdeiros de Lenin — Trotsky e Stalin — pelo controle do partido e, com ele, da nação e do movimento comunista internacional.

Mantendo-se cuidadosamente à parte, Jukov estudava com afinco as campanhas de Tukhachevsky, Frunze e Blucher — os antigos profissionais, cuja capacidade admirava — e continuava cultivando as relações com Stalin, Budieny, Voroshilov e outros oficiais que integrava o antigo grupo dos sargentos, cujo apoio facilitaria sua ascensão hierárquica nos quadros do Exército Vermelho. Tal cautela, numa das épocas mais conturbadas e agitadas da história da União Soviética, rendeu-lhe juros rapidamente.

Tido como excelente profissional e militante leal do partido, sempre disposto a acatar sem qualquer vacilação tanto as ordens de seus comandantes como as diretivas do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), Jukov fez uma rápida carreira após o fim das hostilidades.

Já casado, comandou até 1923 o Regimento-Escola de Cavalaria do Exército Vermelho, unidade padrão, e depois de ter ganho experiência como subcomandante — com uma graduação que equivalia à de major — do XL Regimento de Cavalaria, foi nomeado em 1923 comandante do Regimento de Cavalaria de Buzuluk, também uma unidade de elite, reservada ao treinamento e preparação de jovens oficiais. Assim, antes de ter completado trinta anos e sem ter tido uma preparação especializada, Jukov ostentava na gola de sua túnica as estrelas douradas de coronel-comandante de Regimento, uma vez que as platinas, consideradas pelo novo regime uma detestável lembrança da antiga ordem czarista, haviam sido suprimidas, ainda durante a Revolução.

O Exército Vermelho passava, àquela altura, por uma transformação radical. Milhões de conscritos, cuja massa garantira aos bolchevistas a vitória na Guerra Civil e a consolidação do regime, iam sendo desmobilizados para satisfazer as demandas urgentes da agricultura e da indústria, que durante anos tinham sido relegadas a um abandono quase completo. O objetivo da reforma do Exército Vermelho era duplo: reduzir seus quadros e convertê-lo numa força eficiente, comandada por oficiais profissionais, absolutamente leais e preparados de acordo com uma teoria de guerra única, fundamentada na "estratégia revolucionária". Tratava-se, em última instância, tanto de substituir os remanescentes do corpo de oficiais do Exército czarista, cuja colaboração garantira a constituição do núcleo do Exército Vermelho e, simultaneamente, criar um novo tipo de soldado, correspondente às novas instituições soviéticas.

O primeiro passo para a formação desses quadros foi a criação de uma academia em Moscou, destinada à preparação de oficiais selecionados para os cursos de comando e Estado-maior. A criação dessa academia foi obra do general Mikhail Frunze, um dos mais competentes comandantes soviéticos e braço direito de Trotsky durante o período mais crucial da Guerra Civil. Após sua morte — cercada de circunstâncias obscuras, durante uma intervenção cirúrgica a que foi compelido a submeter-se — a instituição que fundara e dirigira e que formou os mais competentes oficiais do Exército Vermelho, passou a denominar-se Academia Frunze, em homenagem ao herói da Guerra Civil.

Além da intensa preparação prática e teórica ministrada aos jovens oficiais, a União Soviética valia-se de um acordo secreto com a Alemanha — privada pelo acordo de Versalhes de forças mecanizadas e aviação militar— para treinar seus futuros comandantes sob a orientação de veteranos profissionais alemães. Estes, nos termos do mesmo acordo secreto, tinham liberdade para testar as suas táticas de guerra mecanizada e aérea nas estepes do interior da União Soviética. Em contrapartida, a Alemanha comprometia-se a ministrar cursos de comando e Estado-maior a grupos de jovens oficiais soviéticos. Na época, o acordo funcionou satisfatoriamente para ambas as partes. Foi nas planícies da URSS que os teóricos alemães desenvolveram os fundamentos da técnica da Blitzkrieg — a guerra-relâmpago — por meio da qual eliminariam rápida e inapelavelmente todos os seus adversários europeus ocidentais na Segunda Guerra Mundial, e foi nas academias militares de Berlim que jovens oficiais soviéticos, experimentados apenas em combate, começaram a dominar os rudimentos de logística, transporte militar, tática de guerra de movimento e estratégia adequada às condições de guerra moderna.

Afirma-se que Jukov foi enviado à Alemanha numa dessas missões, sob pseudônimo, como vários de seus camaradas. Não se encontra referência ao seu nome nos arquivos da Divisão de Ensino do Estado Maior alemão, apreendidos depois da Segunda Guerra Mundial. Se chegou a estudar na Alemanha, contudo, tal fato constitui uma ironia histórica, uma vez que os próprios alemães prepararam um dos chefes militares que mais contribuiria para infligir-lhes, vinte anos mais tarde, a derrota total.

A própria atitude de Jukov, nos últimos anos da década dos 20, indica que se não estudou diretamente sob a orientação de Von Seckt e outros especialistas alemães, foi de qualquer forma profundamente influenciado por suas teorias, particularmente no que se refere à guerra de movimento, baseada no emprego conjugado de forças blindadas, mecanizadas e aviação tática.

De fato, enquanto os oficiais que tinham saído do primitivo grupo de sargentos para galgar posições de mando no Exército Vermelho manifestavam grande resistência à introdução de novas técnicas, insistindo em que tudo na guerra se podia resolver com cargas da cavalaria, devidamente apoiadas pela artilharia e exploradas pela infantaria, Jukov entendia que as condições tinham mudado radicalmente e que as táticas da Guerra Civil não mais se aplicavam à guerra moderna.

Sua atitude produziu ressentimentos entre os veteranos e influentes oficiais da cavalaria que tinham feito carreira a seu lado. E sua insistência na adoção de novas técnicas poderia ter-lhe custado a carreira e a própria vida, não fora sua condição de militante leal e empenhado do PCUS. Uma coisa compensava a outra.

Também ao contrário de seus velhos camaradas da cavalaria, que preferiam dormir sobre as glórias do passado, ele não perdia oportunidade de fazer novos cursos e de aprender, aperfeiçoando-se como oficial. Em Leningrado, onde cursou a Escola de Comando de Cavalaria, teve por companheiros de turma Yeremenko, Bragamyan e Rokossovsky, cujos nomes deveriam projetar-se, ao lado do seu, entre os dos grandes líderes militares soviéticos na Segunda Guerra Mundial. Depois de Leningrado, Jukov foi escolhido para integrar a turma que deveria fazer o curso de estudos avançados na Academia Frunze, reservado a oficiais superiores.

Consequentemente, além de extenso preparo prático e experiência efetiva de combate na Primeira Guerra e na Guerra Civil, Jukov chegou a 1930 com excelente preparo teórico. Seu primeiro comando independente foi o da II Brigada de Cavalaria, integrante da divisão comandada por Rokossovsky. Este recorda que Jukov do inimigo em retirada, ofensivas em condições climáticas e de terreno especiais — mas ela jamais voltaria a desempenhar o papel decisivo que havia tido no passado. Um novo elemento, o tanque, estava destinado a substituí-la como instrumento decisivo de choque, envolvimento e perseguição do inimigo.

Desde o começo, Jukov defendia a tese de que os tanques não deviam ser usados em pequenas unidades, como elementos de apoio à infantaria, mas como grandes formações, capacitadas a deslocar-se rapidamente sobre qualquer terreno e destinadas, basicamente, não a apoiar a infantaria em ofensiva, mas a abrir-lhe caminho, para que ela consolidasse posteriormente o terreno ganho. Noutras palavras, essa era a essência da guerra de movimento, preconizada pelo teórico britânico Liddell Hart, refinada pelo alemão Guderian e levada às últimas consequências, em seu devido tempo, pelo próprio Jukov.

Naquela ocasião, entretanto, suas teorias não foram levadas a sério pelo alto comando soviético, ainda profundamente influenciado pêlos antigos integrantes do grupo dos sargentos, segundo os quais o cavalo continuava sendo insubstituível e os tanques não passavam de meros brinquedos pitorescos, nos quais não se podia confiar.

Na luta desenvolvida contra os conservadores que cercavam Stalin e que eram contrários à constituição de grandes forças blindadas independentes, Jukov encontrou um único aliado, o general Boris Shaposhnikov, chefe do Estado-maior do Exército Vermelho. Mas acabou sendo derrotado. Suas teses foram rejeitadas. E seu consolo deve ter sido a Ordem de Lenin, que lhe foi atribuída em 1933 — a mais alta condecoração que o governo soviético concedia aos seus mais leais e destacados servidores.

De Strelkovka ao comando de uma Divisão do Exército Vermelho, Gueorgui Konstantinovich Jukov, ex-peleteiro, ex-soldado e ex-sargento das forças imperiais czaristas, detentor da Ordem de Lenin, tinha percorrido uma boa parte do caminho que se propusera trilhar — mas nem mesmo em seus mais ambiciosos sonhos imaginava o que ainda lhe estava reservado no decorrer de sua extraordinária carreira político-militar.

Interlúdio espanhol[editar | editar código-fonte]

Enquanto Jukov progredia rapidamente em sua dupla carreira, acumulando promoções nos quadros do Exército Vermelho e consolidando sua posição junto ao partido, o mundo, além das fronteiras da URSS passava por uma radical transformação.

Na Itália, o fascismo tinha sido institucionalizado; na Alemanha, a grande crise económica de 1929, o desemprego maciço e a falta de visão dos líderes do centro e da esquerda tinham aberto o caminho do poder a Hitler; a França esvaía-se em sucessivas crises governamentais e a Grã-Bretanha já arcava com as primeiras consequências do início do processo de liquidação de seu vasto império colonial. Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos, a despeito dos esforços de Franklin Delano Roosevelt, permaneciam imersos no isolacionismo, enquanto no Extremo Oriente o Japão, impelido pelo nacionalismo e necessidade de matérias-primas, expandia-se militarmente, ocupando extensas regiões da China e preparando ativamente seu exército e sua marinha para ações maiores.

As pressões, conflitos de interesse e tensões resultantes desse estado de coisas não tardaram a traduzir-se em conflitos armados, que irromperam sucessivamente, como um prelúdio à Segunda Guerra Mundial: o Japão atacou e ocupou a Manchúria; as legiões fascistas de Mussolini vingaram a derrota imposta em fins do século passado aos italianos na África, atacando e ocupando a Etiópia e, finalmente, a irrompeu a Guerra Civil Espanhola.

Nesta, o conflito foi deflagrado por um levante de forças militares, comandadas por generais direitistas, entre os quais Francisco Franco, contra o governo da República. Este, em defesa das instituições, armou o povo para resistir aos sublevados e a guerra civil resultante foi urna das mais prolongadas, desastrosas e cruéis do século.

Os insurgentes contavam com o apoio econômico, técnico e militar na Alemanha nazista e da Itália fascista. O líder soviético Josef Stalin, temendo o estabelecimento de um novo regime fascista na Europa — que poderia levar à subversão na França e enfraqueceria consideravelmente o conjunto de nações que pareciam dispostas a resistir ao expansionismo alemão, decidiu fornecer ajuda militar aos republicanos, enviando-lhes equipamento militar urgentemente demandado — tanques, aviões de caça, armas de vários tipos, munições e dezenas de oficiais qualificados, como conselheiros e instrutores.

Alguns desses oficiais eram comissários-políticos, encarregados primordialmente de controlar a entrega do equipamento às unidades militares e paramilitares constituídas pêlos comunistas — como as brigadas internacionais e o V Regimento. A maioria, entretanto, era constituída de militares que, além de sua missão precípua de ajudar o governo da República, tinham o objetivo de avaliar as técnicas e as armas da guerra moderna, no vasto laboratório experimental em que se convertera a Espanha. Ali, valendo-se da Legião Condor, enviada em ajuda de Franco, a Luftwaffe aperfeiçoou, em condições de guerra real, suas táticas de bombardeio de objetivos civis (Guernica foi a primeira cidade do mundo arrasada, com grande parte de sua população, por aviões de bombardeio), de combate aéreo (um dos mais eficientes caças da Segunda Guerra Mundial, o Messerschmitt Bf 109 foi exaustivamente testado na Espanha) e, principalmente, a técnica de perfeita coordenação entre forças blindadas, infantaria e aviação tática, ponto. de partida do que deveria vir a ser a Blitzkrieg.

Os oficiais russos enviados à Espanha também fizeram uma série de observações úteis no tocante ao emprego da artilharia de campanha autopropelida, guerra aérea e utilização de blindados sob as mais diversas condições.

Alguns desses oficiais, como os futuros marechais Malinovsky, Nedelin, Ivan Konev, Voronov e Konstantin Rokossovsky teriam oportunidade de fazer seu aprendizado de guerra moderna na Espanha. Não se sabe ao certo se Jukov esteve ou não ali, durante a Guerra Civil. Todo o pessoal militar russo destacado para a Espanha atuava sob pseudónimos, o que torna difícil a identificação precisa de todos os participantes.

O próprio Jukov, em atitude que corresponde perfeitamente à incurável mania de segredo dos soviéticos, não chega a esclarecer, em suas memórias, se participou ou não ativamente do conflito espanhol. É fora de dúvida entretanto, que mesmo que não tenha participado pessoalmente, tirou as lições certas da guerra, pois continuava defendendo firmemente a constituição de grandes forças de blindados, capazes de atuar como unidades independentes.

Contudo, mesmo antes da derrota do governo republicano e do retorno de todos os oficiais soviéticos enviados à Espanha — muitos deles encontrariam um trágico fim, logo após o seu regresso — a opinião que acabou prevalecendo na URSS foi a de um dos mais graduados peritos soviéticos enviados por Stalin ao teatro de operações, o general Pavlov, um especialista em tanques.

Regressando a Moscou, Pavlov convenceu Stalin (o que equivalia a convencer a cúpula do governo e do partido, assim como o alto comando do Exército Vermelho) de que sua experiência na Espanha demonstrara que os tanques serviam apenas como elementos de apoio à infantaria. Consequentemente, as grandes formações de blindados que Mikhail Tukhachevsky tinha começado a criar, deviam ser dissolvidas e distribuídas entre os diversos corpos de Exército, divisões e mesmo regimentos, para atuar apenas como elementos secundários de apoio.

De nada valeram os esforços desenvolvidos por Jukov e outros jovens oficiais, que tinham tirado as conclusões certas da Guerra Civil espanhola, para demover Stalin. As grandes formações de blindados foram dissolvidas e distribuídas proporcionalmente entre as divisões existentes da infantaria — para grande satisfação de Kliment Vorochilov, Budieny e outros antigos integrantes do grupo dos sargentos, para os quais os cavalos eram insubstituíveis e os blindados meros brinquedos curiosos.

Mais convencido do que nunca de que tinha razão, Jukov decidiu apelar à autoridade de Tukhachevsky, um velho camarada de armas, para expor a Stalin a necessidade vital de constituição de grandes forças blindadas independentes.

Nessa ocasião, Jukov comandava o VI Corpo de Cavalaria, no Cazaquistão e já se dispunha a voar para Moscou, a fim de entrar em contato direto com Tukhachevsky, para pedir-lhe seu apoio, quando um acontecimento imprevisto forçou-o a cancelar a viagem planejada.

Stalin estendera ao Exército Vermelho o sangrento expurgo que até então tinha envolvido apenas civis e Tukhachevsky havia sido uma de suas primeiras vítimas.

Sobrevivendo[editar | editar código-fonte]

O expurgo do Exército Vermelho, que privaria a União Soviética da maioria dos seus mais brilhantes e experimentados oficiais — os quais representavam a revolução em armas — foi um desdobramento da liquidação impiedosa, promovida por Josef Stalin, de toda e qualquer forma de oposição, real ou imaginária ao seu poder absoluto. Já desembaraçado de Leon Trotsky, que exilara e mandara matar no México, Stalin liquidou, nos chamados processos de Moscou, não somente os remanescentes do grupo trotskista e todos os simples suspeitos da mais remota associação com ele como também a esmagadora maioria da velha guarda bolchevista.

Os processos de Moscou foram cercados de grande aparato legal — Vishinsky atuava como procurador-geral e suas acusações equivaliam a sentenças passadas de antemão —e foram caracterizados pelas mais grotescas e patéticas confissões e autocríticas. Abjetamente, os acusados reconheciam perante um público selecionado, nos tribunais, todas as culpas que lhes eram atribuídas, por mais fantásticas que fossem, depois de terem sido devidamente "programados" pelos torturadores da polícia política de Stalin.

A União Soviética mergulhou numa atmosfera de pesadelo e terror permanente. Ninguém se sentia a salvo, com exceção dos oficiais do Exército Vermelho que, mesmo nos mais altos escalões do PCUS eram considerados intocáveis. Até então, esses oficiais tinham mantido uma atitude de estrita neutralidade em relação aos milhares de condenações pêlos tribunais stalinistas, seguidos por execuções ou transferência para campos de trabalhos forçados, missões das quais era incumbida a polícia secreta.

Entretanto, não eram apenas os velhos militantes revolucionários ou os suspeitos de com eles colaborar que estavam na mira de Stalin. Imaginando-se cercado de conspiradores, rivais e adversários por todos os lados e determinado a manter-se no poder a todo custo, ele acabou por voltar-se, em 1937, contra o corpo de oficiais do Exército Vermelho.

Alguns historiadores pretendem que uma hábil manobra do serviço secreto nazista teria precipitado o expurgo no Exército Vermelho. De acordo com tal teoria, os alemães teriam feito chegar ao presidente Edvard Beneš, da Checoslováquia, que nessa ocasião mantinha boas relações com Moscou, evidências forjadas de que os líderes militares soviéticos tramavam a deposição e liquidação de Stalin. Tal teoria nunca chegou a ser corroborada.

Entretanto, tudo indica que Stalin, com ou sem as evidências forjadas fornecidas pêlos nazistas alemães, aproveitou-se das circunstâncias para liquidar, na esteira do Grande Terror, os líderes militares mais brilhantes e bem preparados da nação, justamente aqueles que tinham emergido como heróis da Guerra Civil e que gozavam de grande e genuíno prestígio popular.

Quando Stalin começou a livrar-se sangrentamente de rivais possíveis ou imaginários, os integrantes do antigo grupo dos sargentos deram todo o apoio ao expurgo dos civis e à sua extensão ao exército, uma vez que ele levaria à liquidação de concorrentes aos mais altos postos da hierarquia profissional. Como Stalin, os antigos agitadores profissionais jamais tinham esquecido as estreitas relações que haviam unido Mikhail Tukhachevsky, Blucher e outros destacados oficiais ao organizador do Exército Vermelho, Leon Trotsky.

O expurgo militar colheu a nação de surpresa. A 1.° de maio de 1937, Tukhachevsky estava ao lado de Stalin, sobre a tumba de Lenin, na Praça Vermelha, passando em revista os manifestantes do Dia do Trabalho. No dia 12 de junho, a execução de Tukachevsky e de outros conhecidos oficiais-generais foi secamente anunciada à nação. A sentença de morte de Tukhachevsky, suspeito de bonapartismo, tinha sido assinada pelos outros quatro marechais do Exército Vermelho: Kliment Vorochilov, Budieny, Blucher e Yegorov. Os dois últimos, logo depois seriam também arrastados pela sangrenta enxurrada do terror.

Mas aquele era apenas o início do grande expurgo que dizimaria a oficialidade do Exército Vermelho. Logo ele perderia até mesmo o seu caráter pretensamente ideológico, para dar pretexto à satisfação mórbida de informantes sádicos, quando não assumia a forma de simples ajuste de velhas contas, vingança, oportunidade para eliminação de rivais e concorrentes perigosos no quadro da luta pelo poder que, como acontecia na cúpula do PCUS, se travava também na cúpula do comando do Exército.

Em questão de poucos meses e após uma farsa de sumaríssimo julgamento — quando este chegava a ser realizado — foram sucessivamente eliminados todos os generais que comandavam distritos militares, — entre os quais conhecidos veteranos da Guerra Civil, como Uborevich e Yakir — assim como todos os comandantes de corpos de Exército. Poucos generais de divisão escaparam do fuzilamento ou internação em campos de trabalho forçado na Sibéria, assim como mais da metade dos coronéis integrantes dos quadros de comandantes de regimento. No total, de um terço à metade dos 75 mil oficiais do Exército Vermelho desapareceu, entre fuzilados ou deportados para os campos de trabalho forçado controlados pela polícia secreta.

Quase todos os oficiais soviéticos enviados à Espanha durante a Guerra Civil EspanholaBerzin, Berov, Kulik, Stashevsky, Antonov-Ovscenko foram executados logo após terem sido chamados de volta à União Soviética, depois de submetidos a julgamentos sumários, sem saber sequer do que eram acusados. Uns poucos — como Konstantin Rokossovsky e Gorbatov — conseguiram sobreviver a brutais espancamentos, torturas e internação nos campos de trabalhos forçados da polícia política, para serem reabilitados, reintegrados ao exército e desempenhar papel de destaque nas operações da Segunda Guerra Mundial.

Esses sobreviventes reabilitados, contudo, eram as raríssimas exceções — como exceções foram também os casos de Timoshenko, que chegou a ser interrogado pela polícia secreta, e Ivan Bragamyan, que em 1941 era o chefe do estado-maior de Jukov, então comandante do distrito militar de Kiev, e foi acusado de ter colaborado com o exército branco, em 1919!

O expurgo do quadro de oficiais do Exército Vermelho prosseguiria até a invasão da União Soviética pelos alemães e seu preço foi pesadíssimo. Basta dizer que em 1940, mais de 10% dos generais de divisão, quase 70% dos comandantes de regimento e 60% de todos os comissários políticos eram oficiais recém-promovidos, sem qualquer experiência para o exercício de suas novas funções. Um levantamento efetuado nesse mesmo ano demonstrou que 225 coronéis comandantes de regimento tinham sido promovidos sem cursos de estado-maior. Deles, somente 25 tinham completado curso regular de formação em academias militares. Concluído o expurgo, constatou-se que somente 7% dos oficiais do Exército Vermelho haviam feito cursos de preparação superior, ao passo que 37% jamais haviam frequentado um centro de preparação para oficiais de carreira.

Nada tem de surpreendente, assim, o fato de ter sido absolutamente necessário para Stalin, numa emergência, reabilitar e reintegrar aos quadros do Exército Vermelho profissionais de competência comprovada como Rokossovsky, pois ao fim do expurgo a principal força de defesa da União Soviética era apenas uma mera sombra da moderna e eficiente máquina militar que Trotsky ajudara a criar e que Tukachevsky aperfeiçoara. Não somente o Exército Vermelho tinha sido privado de seus melhores e mais experimentados chefes como também passara a ser orientado, reorganizado e dirigido por Voroshilov, Budieny e outros representantes do retrógrado, ultraconservador e desatualizado grupo dos sargentos. Voroshilov e Budieny, nessa ocasião, eram os dois únicos marechais sobreviventes do Exército Vermelho e principais conselheiros de Stalin para questões militares. Com os poderes quase absolutos que detinham, os dois promoveram todos os antigos integrantes do grupo de Czaritsyn, enquanto colaboravam com a polícia-secreta na elaboração das listas dos oficiais profissionais que deviam ser eliminados por suspeitas de deslealdade para com o regime, "desviacionismo, "associação com remanescentes trotskistas" e, mais geralmente, "bonapartismo".

Em consequência, os grandes beneficiários do expurgo foram os comissários-políticos, que grandes dificuldades tinham criado aos militares profissionais por ocasião da Guerra Civil. Não somente os quadros dos comissários-políticos foram consideravelmente ampliados mas seus poderes também cresceram, garantindo-lhes uma grande ascendência sobre os oficiais de carreira, que se viram submetidos à implacável e constante supervisão dos delegados do PCUS junto às Forças Armadas.

Muitos dos comissários-políticos, totalmente leigos em questões militares, foram destacados para preencher grande número de vagas abertas no quadro de oficiais do Exército Vermelho pelo expurgo, assumindo funções para as quais não tinham um mínimo de preparo.

A ampliação dos quadros e dos poderes dos comissários-políticos teria consequências desastrosas a curto e a longo prazo. A curto prazo elas se traduziram pela inibição dos soldados profissionais, para os quais era mais seguro acatar as decisões dos comissários e seguir escrupulosamente a obsoleta doutrina imposta por Voroshilov, Budieny e seus companheiros.

Tal sujeição da técnica militar à interferência de interesses circunstanciais políticos é perfeitamente ilustrada pela atitude do especialista em blindados, general Pavlov, ao regressar da Espanha, onde atuara como observador soviético. Pavlov certamente teria sido eliminado, com dezenas de outros oficiais generais e superiores, condenados à morte ao regressar da Espanha, se não tivesse aderido rapidamente aos princípios que eram impostos ao Exército Vermelho inerme e apavorado pelo grupo de Czaritsyn. Para salvar a própria pele, Pavlov — a despeito de sua experiência prática na Espanha — voltou defendendo a tese tão cara a Voroshilov e Budieny, de que as grandes formações de blindado não podiam ser empregadas independentemente.

Como era o mais reputado perito em blindados do Exército Vermelho, sua palavra pesou na decisão final de dissolução das divisões blindadas e distribuição dos tanques pêlos regimentos de infantaria, como meros elementos de apoio.

Essa consequência do expurgo no Exército Vermelho seria traduzida, pouco mais tarde, numa verdadeira catástrofe militar, pela qual o próprio Pavlov teria de pagar com sua vida. Outra consequência foi a desmoralização do Exército Vermelho no exterior, pois a mediocridade de seus novos líderes era notória e a reação dos militares, particularmente na Grã-Bretanha, França e Estados Unidos, foi de grande repugnância, quando constataram que nem mesmo seus colegas de uniforme estavam a salvo do terror desencadeado por Stalin para manter-se no poder a qualquer preço. Wiston Churchill foi um dos ocidentais a observar nessa ocasião que o expurgo do Exército Vermelho contribuiu mais do que outra coisa, na década dos 30, para projetar sobre o mundo uma imagem da URSS conturbada pelas vinganças e pelos ódios internos.

Jukov foi dos poucos oficiais soviéticos de carreira, entre os generais que exerciam funções de comando, a sobreviver ao expurgo e a beneficiar-se dele, ascendendo rapidamente a postos aos quais não teria acesso a curto prazo em circunstâncias normais.

A que se deveria tal fato, uma vez que ele não foi um dos instigadores do expurgo, tendo até mesmo desenvolvido esforços para salvar alguns dos seus subordinados acusados pela polícia secreta, como Bragamyan?

Segundo O. P. Chaney vários fatores contribuíram para isso:

  • 1) o fato de Jukov ter ingressado no Partido Comunista logo no início da Guerra Civil, ao passo que muitos de seus camaradas expurgados só aderiram ao PCUS muito mais tarde, sendo que alguns nem mesmo a esse trabalho se tinham dado;
  • 2) Jukov foi beneficiado pela benevolente atitude de Stalin em relação aos militares procedentes de cavalaria, em geral, e, particularmente, em relação aos oficiais ligados ao grupo dos sargentos, com os quais o general sempre mantivera ligações das mais íntimas e cordiais;
  • 3) finalmente, Stalin apreciava o estilo de Jukov e, longe de nele ver um rival perigoso — como Tukachevsky, Blucher e Yakir — o considerava membro leal do partido e profissional dedicado, ainda que obstinado na defesa de suas teses.

Todos esses elementos contribuíram para a sobrevivência física de Jukov e aceleração de sua carreira — era urgente preencher as vagas abertas pelo grande expurgo — numa ocasião em que o terror stalinista varria a URSS de ponta a ponta e uma simples denúncia anónima à polícia secreta era o suficiente para levar chefes militares de alta patente ao paredão de fuzilamento ou à deportação e trabalhos forçados no Círculo Polar Ártico.

Ao fim do grande expurgo, Jukov era subcomandante do distrito militar da Bielorrússia, um dos mais importantes da URSS.

A despeito das crescentes responsabilidades com que arcava, não tinha deixado de estudar, procurando aperfeiçoar-se constantemente na profissão. Como subcomandante de distrito militar, uma de suas obrigações era entrevistar os oficiais superiores destacados para servir na sua circunscrição. Ao que parece, valia-se dessas entrevistas para manter longas palestras com oficiais que tinham servido na Espanha, a fim de inteirar-se da técnica dos alemães no emprego de forças blindadas em estreita cooperação com a força aérea e artilharia de assalto.

Intimamente, continuava convencido de que a orientação imposta pelo grupo dos sargentos ao Exército Vermelho estava errada e procurava preparar-se para atuar de acordo com suas próprias ideias. E como estava convencido de que mais tarde ou mais cedo teria de enfrentar os alemães, estudava com afinco, permanentemente, as técnicas que eles aperfeiçoavam para a guerra moderna.

Essa dedicação em breve produziria frutos, embora num teatro de operações que o mundo esquecera — o do Oriente.

A primeira vitória[editar | editar código-fonte]

Em que medida uma força totalmente despreparada. privada de seus melhores oficiais, submetida a constantes interferências de comissários-políticos e estritamente vinculada a um alto comando remoto, situado a milhares de quilómetros de distância, pode enfrentar e derrotar uma força inimiga aguerrida, bem equipada, bem comandada e de moral elevado? Na medida em que tem um comandante capacitado a dirigi-la, não somente competente mas ainda disposto a correr todos os riscos políticos e pessoais para atingir o fim a que se propôs, isto é, a vitória sobre o inimigo.

Em agosto de 1939 — enquanto o mundo concentrava sua atenção na fronteira teuto-polonesa, onde dentro de alguns dias seriam disparados os tiros que deflagrariam a Segunda Guerra Mundial — Jukov provou que isso era possível.

A situação mundial tendo por foco a crescente tensão na Europa Central, onde os alemães nem ao menos se davam o trabalho de esconder suas intenções expansionistas, os japoneses, discretamente, tratavam de expandir sua área de influência no Extremo Oriente, a partir das bases de operações que tinham conquistado na Manchúria. A resistência encontrada pelos japoneses era desorganizada e facilmente superável, uma vez que tinham por adversários apenas camponeses chineses arrebanhados em grandes forças de infantaria, sob o comando de improvisados generais. Valendo-se de sua aviação, artilharia e colunas blindadas, os japoneses expandiam continuamente sua área de ocupação, empregando a infantaria economicamente e logrando grandes resultados com um volume de baixas mínimo.

Em fins de 1938, os japoneses chegaram aos limites da Mongólia — um Estado-tampão no qual os soviéticos tinham concentrado efetivos para garantir suas próprias fronteiras. Julgando-se mais ameaçados pelo expansionismo japonês do que pelo alemão — afinal, o Pacto Molotov-Ribbentrop constituía para a URSS uma garantia de segurança, em relação ao Ocidente — os russos desenvolveram um grande esforço para dissuadir os japoneses de lançar um ataque contra suas fronteiras orientais, fortificando-as, instalando uma rede de aeródromos militares na região e abrindo estradas de ligação entre os principais centros e guarnições militares sediadas ao longo da divisa da Manchúria. Ao mesmo tempo, reforçavam sua guarnição na Mongólia, criavam a Frente — expressão russa, usada para designar o equivalente a corpo de Exército — do Extremo Oriente e a frota do Pacífico, armada com grande número de submarinos costeiros e oceânicos.

Tais medidas preventivas, contudo, não foram suficientes para reduzir a agressividade japonesa, fundada na exaltação do nacionalismo, no acendrado anticomunismo que prevalecia entre os chefes militares japoneses e nas tradições que datavam de 1905, quando o Japão infligiu esmagadora derrota militar às forças imperiais russas.

Seria preciso mais que simples medidas preventivas para deter as forças imperiais japonesas, que jamais tinham amargado uma só derrota.

Segundo Tóquio, o colosso soviético não era muito diferente do colosso czarista e, como este, estava também profundamente combalido. Os líderes militares japoneses sabiam que o grande expurgo stalinista privara o Exército Vermelho dos seus mais experimentados oficiais e presumiam que ele estivesse totalmente desmoralizado.

Nesse caso, uma iniciativa militar audaciosa poderia render altos juros, quer em termos de prestígio, quer em termos de conquista de novas bases, destinadas a proteger o flanco de suas forças em operações na China.

Com aprovação e apoio de Tóquio, as forças japonesas, que tinham mantido apenas uma série de escaramuças isoladas com destacamentos da NKVD encarregados da segurança das fronteiras russas, efetuaram uma série de incursões — sondagens — armadas em fins de 1938. Os primeiros choques diretos entre efetivos do Exército Vermelho e forças japonesas foram travados nas proximidades do lago Kazan.

Com base nos relatórios enviados pelos comandantes das unidades empenhadas, os oficiais do estado-maior japonês na Manchúria chegaram à conclusão de que os soldados soviéticos eram mal preparados, mal equipados e pessimamente comandados por oficiais que não tinham qualquer experiência na técnica de guerra moderna.

Tal conclusão animou o alto comando japonês a montar uma grande ofensiva, destinada a expulsar os soviéticos da Mongólia. Como preparação para a ofensiva, destacamentos de cavalaria ocuparam uma série de posições fortificadas na fronteira da Mongólia. As forças enviadas de Ulan Bator, sob o comando de oficiais e conselheiros soviéticos, foram colhidas a meio caminho pela aviação japonesa e totalmente desbaratadas.

Ante o súbito agravamento da situação, Moscou decidiu que suas fronteiras com a Manchúria e as da Mongólia deviam ser defendidas a todo custo. E Jukov — general reputado e militante comunista disciplinado — foi enviado à área para assumir o comando das forças soviéticas do Extremo Oriente.

As ordens que recebeu, ditadas por Stalin e firmadas pelo general Shaposhnikov, chefe do estado-maior do exército, eram simples: garantir as linhas de fronteira da URSS e da Mongólia. Mais não se esperava e mais não se pedia a Jukov, em função das condições em que se achava o Exército Vermelho após o expurgo e da reputação de invencibilidade de que gozavam os japoneses.

Jukov, porém, tinha planos mais ambiciosos. Tendo estudado cuidadosamente as campanhas japonesas e sua técnica de guerra, ao chegar à zona da fronteira a sua primeira preocupação foi efetuar um levantamento rigoroso das forças que tinha à sua disposição. Numericamente, as forças soviéticas e mongóis disponíveis eram inferiores às japonesas, mas Jukov contava com maior número de tanques, carros blindados e transporte motorizado para a infantaria. Os japoneses também contavam com unidades blindadas, aviação, artilharia de campanha e alguns regimentos de cavalaria. O grosso das tropas japonesas, porém, era formado por quatro divisões de infantaria. Jukov concluiu logo que, em função do terreno e de suas disponibilidades, tinha à sua frente uma oportunidade única de testar o emprego maciço de formações blindadas independentes, aplicando as teorias que preconizava há anos.

Sabia que se comunicasse seus planos a Moscou seria imediatamente removido do comando. E sabia também que se desfechasse a operação à revelia de Moscou e ela falhasse, seu destino seria, inevitavelmente, o paredão de fuzilamento.

Ainda assim, Jukov julgou que a oportunidade que se lhe oferecia era excelente e teve a coragem de ousar. Discretamente, constituiu um estado-maior de jovens oficiais, contornou todos os obstáculos erguidos pelos comissários-políticos e, com a obstinação que o caracterizava, trabalhou durante dois meses — junho e julho — na elaboração de seus planos, estabelecendo uma disposição especial para as forças que tinha sob seu comando e dando ênfase especial à solução dos problemas de transporte e suprimentos.

Em fins de julho, precedidos pela cavalaria, os japoneses atacaram — e foram repelidos em toda a linha pelas forças de Jukov, instaladas em posições previamente preparadas. Surpreendidos pela inesperada resistência, os japoneses não tiveram tempo de refazer-se, pois uma série de contra-ataques desfechados por forças combinadas soviéticas e mongóis os compeliram a recuar desordenadamente, abandonando todas as posições que haviam conquistado.

Até então, Jukov conseguira o que Moscou dele esperava, isto é, repelir os invasores japoneses. Assim, não lhe foi difícil obter do alto comando soviético os reforços que solicitou imediatamente, sob o pretexto de que era necessário "consolidar" as posições de defesa junto às fronteiras. A pedido de Jukov, foram enviados para o Extremo Oriente mais duas divisões de infantaria e uma brigada de infantaria blindada, uma brigada aerotransportada e uma brigada de tanques pesados. A aviação que tinha sob seu comando também foi reforçada, compreendendo mais de quinhentos aviões &s vários tipos.

Jukov voltou a trabalhar em seus planos. Moscou julgava que ele pretendia apenas "consolidar" a fronteira ameaçada. Jukov, secretamente, planejava a primeira grande batalha de envolvimento e aniquilamento do inimigo, que marcaria o advento de uma nova era na guerra moderna.

Sabia que os japoneses, inconformados com a derrota que lhes fora infligida, estavam reforçando seus efetivos — especialmente aviação, artilharia e blindados — para voltar à luta. Por outro lado, se estava disposto a correr o risco de enganar Moscou, ocultando a seus superiores o verdadeiro propósito da operação que planejava, Jukov estava também mais que disposto a correr o risco menor de enganar seus adversários japoneses.

Trabalhando com a maior discrição e meticulosidade, o general convenceu tanto os comissários-políticos, encarregados de fiscalizá-lo, como os japoneses com os quais se defrontava, de que suas forças estavam exclusivamente empenhadas no estabelecimento de uma poderosa linha de defesa ao longo das fronteiras soviéticas e da Mongólia. Enquanto concentrava reservas estratégicas em posições-chaves, movimentando suas forças à noite, para escapar à observação dos pilotos japoneses, Jukov adotou uma série de medidas para convencer os adversários de que suas intenções eram puramente defensivas. Chegou a mandar imprimir milhares de panfletos, distribuídos às tropas sob seu comando, com instruções específicas sobre medidas defensivas — e permitiu que centenas dos folhetos caíssem nas mãos dos japoneses. Por outro lado, trocava incessantes mensagens pelo rádio, usando códigos facilmente decifráveis, com os comandantes de suas unidades, tratando essencialmente de medidas defensivas, que deveriam prolongar-se por todo o outono e inverno.

Os folhetos e as mensagens interceptadas acabaram convencendo os japoneses de que não corriam o menor risco de serem atacados pêlos soviéticos. A salvo de uma surpresa, podiam dar-se o luxo de escolher o terreno e o momento mais propícios para a ofensiva que planejavam. O alto comando japonês estava tão seguro da vantagem que detinha que permitiu aos comandantes e chefes de Estado-maior das forças dispostas ao longo das fronteiras da Mongólia que aproveitassem o domingo, 20 de agosto, para repousar.

Entretanto, na madrugada desse mesmo domingo, surpreendendo tanto seus superiores em Moscou como os japoneses com que se defrontava, Jukov lançou sua planejada e ambiciosa ofensiva. Esta foi precedida por um ataque combinado de aviação e de artilharia contra as concentrações, postos de comando, linhas de comunicações e reservas japonesas. Ao fim de rápido ataque, precedida por formações blindadas e canhões de assalto, a infantaria soviética atacou, sem a preocupação de fazer frente à resistência isolada que encontrava, mas numa grande manobra destinada a envolver o inimigo e cortar-lhe a retirada. A resistência, onde se manifestava, era deixada a cargo de reservas especiais, constituídas por forças blindadas, artilharia e aviação. Em três dias, a grande manobra tinha sido completada precisamente de acordo com os planos de Jukov, que passou então, metodicamente, à eliminação do inimigo cercado. Para levar socorro às suas forças que estavam sendo metodicamente destruídas pela artilharia soviética, os japoneses só podiam valer-se de linhas de comunicação já distendidas ao máximo — e estas eram facilmente cortadas pela cavalaria e pela aviação de Jukov.

Em treze dias toda a operação cuidadosamente planejada por Jukov, à revelia de Moscou, estava completada. Como de costume, os soviéticos nunca revelaram suas baixas precisas, mas sabe-se que entre mortos, feridos e prisioneiros, os japoneses perderam na batalha de cerco e aniquilação, em Kalkin-Gol, na fronteira da Mongólia, 50 mil homens. Essa foi a primeira derrota infligida às forças imperiais japonesas e seus efeitos psicológicos sobre os nipônicos foram decisivos: Tóquio jamais voltaria a assumir qualquer atitude agressiva em relação à URSS. A lição amarga calou fundo e isso permitiu à União Soviética, na hora de sua maior crise, desguarnecer suas fronteiras do Extremo Oriente para fazer frente à terrível situação em que se encontraria no outono e inverno de 1941.

O risco calculado assumido por Jukov, no qual jogara sua própria cabeça, tinha dado certo. Se tivesse sido batido pêlos japoneses, como resultado de uma iniciativa individual que contrariava expressamente as instruções que recebera do alto comando soviético, teria sido fuzilado. Como venceu, infligindo uma espetaculosa derrota aos japoneses, seu prémio foi a Ordem de Herói da União Soviética, concedida pessoalmente por Stalin.

A reputação profissional de Jukov cresceu extraordinariamente no Exército Vermelho como resultado da vitória. Tornou-se conhecido como um dos raros generais sobreviventes ao expurgo que ainda tinham coragem de ousar. Revelara-se superior aos comissários-políticos — os temidos cães-de-fila do partido — e inflexível como disciplinador. Depois de iniciada sua ofensiva, tinha destituído de seus comandos dezenas de oficiais que lhe pareceram vacilantes no cumprimento de ordens, entre os quais um general de divisão. Essa inflexibilidade e intolerância em relação a qualquer forma de negligência, incompetência ou quebra de disciplina deveria caracterizar toda sua carreira — sendo o mais eficiente, revelar-se-ia também o mais duro militar profissional do Exército Vermelho.

O fato de ter vencido, contrariando determinações expressas de Moscou — noutras palavras, do próprio Stalin —, também teria profunda influência sobre sua personalidade e suas atitudes. De volta da Mongólia, como herói consagrado, julgou-se em condições não apenas de fazer frente ao grupo dos sargentos como ao próprio Stalin, ousando discutir com ele, enfrentá-lo e até mesmo contradizê-lo quando julgava oportuno.

Mais importante ainda foi o fato de ter demonstrado, com sua primeira e grande vitória, o acerto da tática e estratégia que preconizava, particularmente quanto ao emprego combinado de forças blindadas, artilharia e aviação. Rios de sangue, entretanto, deveriam correr antes que tivesse liberdade para aplicar suas teorias na grande conflagração que se aproximava, pois a despeito da vitória em Kalkin-Gol, toda a doutrina militar soviética continuava fundamentada nos retrógrados princípios defendidos pêlos marechais de cavalaria e pêlos antigos agitadores profissionais convertidos em soldados.

Na véspera da tormenta[editar | editar código-fonte]

Depois de sua espetacular vitória na Mongólia sobre os japoneses, Jukov — um dos primeiros promovidos ao posto de general de exército, quando foram restabelecidas as antigas patentes — devia completar sua formação de soldado. Era o chefe militar soviético mais experimentado em função de comando de grandes unidades. Aberto às inovações da técnica, estava sempre disposto a fazer experiências, levando em conta os últimos desenvolvimentos da tecnologia e suas aplicações militares. Essas mesmas experiências o tinham convencido de que as bases da doutrina militar soviética, impostas pelo grupo de Czaritsyn, não mais se aplicavam à realidade. Chegara a comprovar, na prática, que a guerra de movimento não só produzia altos rendimentos a quem dominava sua técnica como extorquiria um preço pesadíssimo aos que persistissem em ignorá-la.

Nessas circunstâncias, Jukov continuou desenvolvendo grandes esforços junto ao alto comando para convencê-lo do acerto de suas teses. Seus esforços, entretanto, foram vãos. Fiado na ilusória segurança que lhe era garantida pelo Pacto Ribbentrop-Molotov, Josef Stalin nem cogitava de alterar a doutrina militar soviética.

Nem mesmo a fulminante conquista da Polónia pelos alemães, numa demonstração prática e aberta de sua técnica altamente refinada de guerra de movimento, contribuiria para abrir os olhos de Stalin e do alto comando soviético. De fato, a única reação da URSS à conquista da Polónia ocidental foi a tranquila ocupação da área oriental do país pelo Exército Vermelho, nos termos do acordo secreto de partilha que tinha sido concluído entre Berlim e Moscou.

Transferido para o Distrito Militar da Ucrânia, como subcomandante, Jukov teve oportunidade de observar de perto as técnicas dos generais alemães, que registraria cuidadosamente, assim como a grande lição da campanha finlandesa.

Logo após a conclusão da campanha alemã contra a Polónia, o governo soviético, partindo do princípio de que Leningrado — com sua grande base naval, movimentado porto e centro industrial vital — estava desprotegida, adotou uma série de medidas para garantir sua defesa. Entre essas medidas estava a pressão crescente e direta sobre a Finlândia, da qual a URSS queria bases destinadas a facilitar a defesa de Leningrado. Ao compreender, tardiamente, que a pequenina Finlândia não se deixaria dobrar por simples ameaças do colosso soviético, Stalin recorreu à guerra, incidindo simultaneamente em dois erros gravíssimos — subestimação grosseira da capacidade de defesa dos finlandeses e superestimação igualmente grosseira do poderio e organização do Exército Vermelho que ele, mais que ninguém, convertera num gigante de pés de barro.

Consequentemente, a primeira fase da guerra russo-finlandesa foi um desastre de grandes proporções para os soviéticos.

O plano original da campanha finlandesa tinha sido preparado pelo chefe do estado-maior soviético, o cuidadoso e competente Shaposhnikov, levando em conta não apenas a potencialidade real do Exército Vermelho como também as características da extensa linha fortificada guarnecida pelos finlandeses, sua alta capacidade de luta, grande motivação, familiaridade com o terreno em que se travaria a campanha e equipamento adequado para a guerra no inverno. Stalin, entretanto, ficou furioso quando Shaposhnikov apresentou seu plano de operações ao conselho de guerra e rejeitou-o liminarmente, alegando que o chefe de estado-maior havia superestimado o poderio finlandês e subestimado o soviético.

Convocando o general Meretskov — veterano da Espanha, onde atuara sob o pseudónimo de "Camarada Petrovitch", revelando-se como o arquiteto da vitória republicana em Guadalajara), Stalin, sem consultá-lo, deu-lhe um prazo de 48 horas para preparar o novo plano de ataque à Finlândia. Meretskov teve de improvisar em três dias o que o escrupuloso Shaposhnikov levara mais de seis meses para fazer — e quando as forças soviéticas agrediram a Finlândia, invadindo seu território a 10 de novembro de 1939, os acontecimentos provaram que as previsões do chefe do estado-maior não poderiam ser mais corretas e as de Stalin mais erradas.

Em lugar de uma ofensiva geral, os russos atacaram com grandes efetivos seções isoladas da poderosa Linha Mannernheim, em ações descoordenadas de aviação, infantaria e blindados e, a despeito de uma esmagadora superioridade numérica, foram literalmente massacrados pêlos finlandeses. Não havia a menor coordenação entre os ataques aéreos — a URSS tinha nessa época a maior frota aérea de combate do mundo — e os desfechados por terra. A opinião que acabava prevalecendo era a dos comissários-militares e os soldados não tinham a menor motivação para o combate. Os sistemas de logística, abastecimento, transportes, comunicações e sanitários revelaram-se praticamente inexistentes. Eram as primeiras consequências diretas do grande expurgo do Exército Vermelho que se faziam sentir. Outras mais graves ainda se registrariam no futuro próximo.

Semyon Timoshenko foi convocado às pressas para substituir Meretskov — que não fizera outra coisa senão cumprir as ordens específicas que recebera de Stalin — e o plano original de Shaposhnikov foi aplicado. Atacando simultaneamente ao longo de toda a frente, com o apoio de uma grande concentração de artilharia pesada, Timoshenko reduziu a resistência das linhas fortificadas finlandesas, compelindo o governo de Helsinque a pedir a suspensão das hostilidades a 12 de março de 1940. A sangrenta e onerosa campanha finlandesa demonstrara ao mundo surpreendido a debilidade do Exército Vermelho — conclusão que levaria os generais alemães a erros fatais — mas garantiu aos soviéticos a posse de uma área vital situada ao norte de Leningrado e da Península de Hangoe, posições que se revelariam cruciais alguns meses mais tarde, quando a sorte da segunda cidade soviética foi posta em jogo.

No plano externo, a guerra russo-finlandesa teria uma série de importantes repercussões. Um grande movimento internacional de solidariedade para com a Finlândia agredida se registrou e os governos da França e da Grã-Bretanha chegaram a planejar o envio de uma força expedicionária em ajuda de Helsinque; como agressora, a URSS foi expulsa da Liga das Nações e, finalmente, Hitler e seus generais, incidindo no mesmo erro de Stalin e pretendendo tirar da campanha finlandesa lições que excediam seu âmbito, concluíram que a URSS poderia ser facilmente batida. Stalin cometera um erro gravíssimo ao superestimar suas forças e subestimar as do adversário numa campanha local — os alemães cometeram o erro incomparavelmente mais grave, e que se revelaria fatal, de superestimar grosseiramente suas forças e subestimar também grosseiramente as do Exército Vermelho numa guerra total.

Isso, entretanto, só se verificaria mais tarde.

No plano interno, a primeira consequência da campanha da Finlândia foi o declínio da influência do grupo dos sargentos. Stalin precisava encontrar um bode expiatório para os desastres sofridos na primeira fase da campanha e Voroshilov, um dos principais líderes dos veteranos de Czaritsyn, foi destituído de seu posto de comissário da Defesa e substituído por Timoshenko. Simultaneamente, importantes comandos foram entregues a oficiais de comprovada experiência, entre os quais alguns veteranos da Guerra da Espanha que, como Rokossovsky, estavam confinados em campos de trabalhos forçados.

A movimentação de oficiais que se seguiu, entretanto, não chegou a afetar as linhas gerais da doutrina militar soviética. Jukov era um dos poucos oficiais-generais a clamar abertamente por uma revisão profunda e geral da doutrina militar oficial.

Na troca de comandos que se seguiu, Jukov foi designado comandante do Distrito Militar Especial de Kiev, um dos mais importantes da nação. Ali, ele entraria em contato com o primeiro-secretário do Partido Comunista da Ucrânia, Nikita Kruschev, que era um dos homens de confiança de Stalin. A estreita ligação que se estabeleceu entre ambos afetaria profundamente o futuro do soldado profissional e do político profissional — o Jukov político começou a ganhar estatura nessa ocasião e foi também nessa época que Kruschev começou a arregimentar apoio militar que lhe seria de valor extraordinário alguns anos mais tarde.

Fortalecido pela influência e apoio político de Kruschev, o general Jukov passou a dirigir acerbas críticas à doutrina militar soviética e à estrutura de comando que prevalecia. Tomando como exemplo a campanha que conduzira na Mongólia, não somente exortava os demais comandantes a disciplinar e treinar devidamente seus subordinados como ainda a resistir às interferências indevidas dos comissários-políticos. Insistia ainda, falando em reuniões de oficiais do Distrito Militar que comandava, na necessidade de compreensão e rápida adaptação aos meios técnicos de guerra moderna; na urgência do aperfeiçoamento dos sistemas logísticos e de comunicações; na perfeita coordenação de todas as forças empenhadas em qualquer operação.

Por outro lado, Jukov não se deixava iludir pela segurança teórica oferecida pelo Pacto Ribbentrop-Molotov e previa, mais cedo ou mais tarde, a eclosão de um conflito com a Alemanha nazista. Além da devida preparação contra um ataque alemão, Jukov defendia a criação de zonas-tampão, destinadas a facilitar a defesa em caso de agressão alemã — e foi com energia e determinação característica que, nomeado comandante de uma força especial e unidades blindadas e contingentes de cavalaria, que ocupou rapidamente a Bessarábia e Bukovina, antigas Províncias ocupadas pêlos romenos desde o fim da Primeira Guerra Mundial. O êxito dessa operação, que decorreu exatamente de acordo com os planos preparados por Jukov, valeu-lhe a eleição, como delegado, ao Soviete Supremo da União Soviética.

Era o soldado profissional que garantia a ascensão do político Jukov.

Essa ascensão prosseguiu em janeiro de 1941, quando, após uma reunião do alto comando realizada sob a presidência de Stalin, Jukov recebeu um inesperado convite para comparecer ao Kremlin.

Ali, era aguardado por Stalin, que anunciou sem rodeios: "O Politburo decidiu relevar o general Meretskov (substituto provisório do enfermo Shaposhnikov) das funções de chefe do estado-maior, designando-o para substituí-lo.

"Nunca pertenci a uma organização de estado-maior — replicou o surpreendido Jukov. — "Sempre fui um oficial de linha. Não posso ser chefe do estado-maior."

"O Politburo decidiu designá-lo" — respondeu Stalin, secamente, enfatizando a expressão decidiu. Jukov compreendeu que de nada lhe valeria argumentar, mas ainda assim observou, depois de agradecer a Stalin a confiança que lhe depositava: "Que assim seja. Mas se eu não me revelar um bom oficial de estado-maior, quero ter liberdade para solicitar minha reversão ao comando de tropa".

Stalin concordou e Jukov assumiu a chefia do estado-maior do Exército Vermelho no dia 1 de fevereiro de 1941.

Era sua formação profissional que se completava, pois até então jamais trabalhara como oficial de estado-maior. Era também a grande oportunidade prática que se lhe oferecia para passar da teoria à prática, impondo suas próprias ideias à doutrina militar oficial.

Com pleno apoio do comissário da Defesa, Timoshenko, e assistido por competentes oficiais, que selecionara cuidadosamente — Vatutin, Sokolovsky e Malandin — Jukov lançou-se imediatamente à tarefa que considerava mais urgente, isto é, preparar a nação para resistir à agressão que considerava inevitável, aperfeiçoando o seu sistema de defesa militar. Enfrentando imensas dificuldades e não raro a oposição pessoal de Stalin, Jukov passou a remover sistematicamente oficiais incompetentes que exerciam funções importantes, substituindo-os por pessoal capacitado e experimentado.

Foi no exercício das funções de chefe do estado-maior que Jukov teve conhecimento dos grandes problemas logísticos enfrentados pelo Exército Vermelho e sua aviação tática. Desdobrando-se, ele acumulou as funções de subcomissário da Defesa com as de chefe de Estado-maior e supervisor dos Diretórios de Comunicações, Suprimento de Combustível, Defesa Aérea e da Escola de Estado-maior.

Em suas memórias, no trecho referente a esse período, Jukov nota que Stalin temia, em caso de guerra, a ocupação da Ucrânia e da bacia do rio Don pelos alemães, o que privaria a União Soviética dos cereais, carvão e óleo indispensáveis à economia nacional. Em consequência, grandes efetivos do Exército Vermelho foram concentrados nessa área, enfraquecendo consideravelmente outras áreas mais expostas das fronteiras ocidentais da URSS e os setores ocupados da Polônia e da Bessarábia.

Nesse meio tempo, dos pontos mais diversos do mundo — Tóquio, onde os soviéticos dispunham de um mestre da espionagem, Richard Sorge; Londres, de onde chegavam relatos pormenorizados levantados pelo Intelligence Service e transmitidos a Moscou por ordens de Churchill; Genebra, onde estavam situados os postos transmissores da "Orquestra Vermelha', uma vasta rede de espionagem que os soviéticos tinham organizado na Europa ocupada pêlos alemães — chegavam a Stalin advertências de que um ataque alemão contra a URSS era iminente. Algumas das informações recebidas em Moscou eram mais que pormenorizadas, indicando o poderio da concentração de forças alemãs e de seus satélites mobilizadas para a invasão da URSS; o número preciso de unidades aéreas que os alemães lançariam à luta e até mesmo a data aproximada da invasão — junho de 1941.

Stalin simplesmente se recusava a tomar conhecimento dessas informações. Mais que isso, proibia terminantemente seus generais de tomar qualquer medida preventiva que pudesse ser interpretada como um ato de provocação à Alemanha. Parecia ser o único cidadão soviético que reagia com ceticismo à possibilidade de um ataque alemão e preferia classificar de "provocadores a serviço do fascismo" todos aqueles que o advertiam para a iminência da ofensiva nazista.

Jukov e Timoshenko, mais de uma vez, tentaram convencê-lo a adotar medidas preventivas, fortificando os pontos mais vulneráveis das fronteiras ocidentais e constituindo grandes reservas estratégicas móveis. Insistiam ainda em que tais medidas deviam ser complementadas pela prontidão geral das forças da ativa e mobilização das reservas.

"Vocês estão sugerindo a mobilização, entrada de nossas forças em prontidão e sua deslocação para as fronteiras ocidentais? Isso significaria guerra! É o que vocês querem?" Essa foi a resposta de Stalin aos dois generais que arcavam com a maior responsabilidade pela segurança nacional. Quando Jukov, na mesma ocasião, lembrou que os efetivos alemães concentrados junto as fronteiras da URSS eram mais poderosos que os soviéticos, de acordo com informações que recebera do seu serviço secreto militar, Stalin, irredutível e afastando sempre a possibilidade de uma agressão alemã, limitou-se a replicar-lhe: "Isso prova apenas que não se pode aceitar como verdade tudo o que o serviço secreto diz".

Stalin não somente descartava a possibilidade de uma agressão alemã como ainda proibiu expressamente o comissário de defesa, o chefe do estado-maior e os comandantes de distritos militares de adotar qualquer medida que pudesse ser interpretada como uma provocação pelos alemães. Os responsáveis pagariam com suas cabeças por qualquer incidente que se produzisse.

Foi justamente essa decisão de Stalin, posteriormente transmitida a todos os distritos militares e aplicada em todos os escalões hierárquicos, que mais contribuiu para a abertura do enorme lapso que se abriria entre o ataque alemão e o início da resistência soviética organizada, anulando praticamente todas as medidas preventivas que Jukov e Timoshenko, arriscando suas próprias cabeças, tinham logrado adotar.

Na tarde de 21 de junho, informado de que os alemães tinham concluído seus preparativos para a ofensiva, Stalin convocou o comissário de defesa, o estado-maior e os membros do Politburo para uma reunião extraordinária. Timoshenko propôs a mobilização imediata, seguida de ordem de alerta aos comandantes dos distritos militares.

Alegando que adotar tais medidas seria "aceitar uma provocação", Stalin classificou-as de "prematuras". A muito custo e apoiados por alguns poucos membros do Politburo, Timoshenko e Jukov conseguiram arrancar de Stalin permissão para uma cautelosa ordem de alerta aos comandos militares da área ocidental da URSS.

A ordem de alerta começava acautelando os chefes militares sobre a necessidade de "ignorar provocações, que poderiam levar a graves incidentes". Somente na parte final determinava a entrada de determinadas unidades em regime de prontidão, a dispersão de forças terrestres e aéreas e a previsão do corte de iluminação elétrica das cidades e centros estratégicos expostos. Ainda assim, a ordem proibia terminantemente a adoção de qualquer outra medida militar sem prévia e expressa autorização.

A diretiva autorizada por Stalin correspondia mais à preparação de uma manobra em tempo de paz do que a providências de emergência a serem tomadas nas últimas horas de paz que restavam à União Soviética naquele fatídico 21 de junho de 1941.

Ao deixar naquela noite o seu gabinete na chefia do estado-maior, como lembra em suas memórias, Jukov era possuído de uma dupla sensação. De um lado, sentia-se aliviado pelo fato de Stalin ter finalmente concordado em alertar as forças soviéticas; por outro lado, sentia que muito do que era necessário deixara de ser feito.

O que não sabia, como nota seu biógrafo O. P. Chaney, é que a diretiva que acabara de transmitir aos comandantes dos distritos militares envolvidos jamais chegaria a tempo.

Também não sabia, embora talvez o pressentisse, pois tinha ideia tanto do poderio soviético quanto do alemão, que a União Soviética estava na iminência de arcar com as consequências de uma verdadeira catástrofe militar, pela qual, como chefe do estado-maior, seria mais tarde parcialmente responsabilizado. Entretanto, dentro das circunstâncias, tinha feito o possível — e a experiência que lhe faltara até então, ganha na solução de problemas específicos de estado-maior, o transformara no mais capacitado chefe militar de que dispunha a União Soviética, às vésperas de sua entrada na maior conflagração da História.

Militarmente, Jukov ascendera do posto de simples praça da cavalaria imperial czarista ao de tenente-general, chefe do estado-maior do Exército Vermelho e sub-comissário de defesa da União Soviética. Politicamente, de simples militante do PCUS, ascendera à posição de delegado ao Soviete Supremo da União Soviética.

Era uma estupenda carreira paralela, desenvolvida em pouco mais de vinte anos — mas que de maneira alguma representava o fim da ascensão de Georgi Konstantinovich Jukov. A guerra contribuiria apenas para acelerá-la, pois quando ela irrompeu ele era um dos poucos homens certos que ocupavam a posição certa no momento certo em toda a URSS.

Surpresa e despreparo[editar | editar código-fonte]

Quando chegaram a Moscou, na manhã de 22 de junho de 1941, as primeiras e desencontradas notícias dando conta de que poderosas forças terrestres, aéreas e navais alemãs haviam desfechado uma ofensiva contra a União Soviética, cobrindo uma imensa frente de operação, a primeira reação oficial foi de incredulidade. Josef Stalin, Viatcheslav Molotov e seus assessores continuavam convencidos de que um ataque dessa natureza era inconcebível — e só aceitaram a realidade do fato quando o embaixador alemão, convocado por Molotov ao Ministério das Relações Exteriores, entregou-lhe uma declaração formal de guerra.

Nesse meio tempo, as unidades atacadas diretamente pelos alemães — as forças do Exército Vermelho que guarneciam as fronteiras ocidentais; as frotas do Báltico e do mar Negro; as grandes bases aéreas situadas nos distritos militares ocidentais — não obtinham resposta dos apelos urgentes enviados a Moscou. Alguns dos comandantes que pediam instruções chegaram a ser advertidos por usar linguagem clara, naquela emergência, e não o código militar secreto previsto para o dia. Stalin, perturbado pelo ataque, isolara-se em seus aposentos no Kremlin e não recebia ninguém. Era quase uma repetição da História. Tal como acontecera em 1917, no momento mais crucial da Revolução, quando os bolchevistas jogavam uma cartada decisiva para a conquista do poder, ele não era encontrado em seu posto.

Coube aos que tinham poderes — e coragem de usá-los — como Semyon Timoshenko e Jukov, adotar as primeiras providências para fazer frente à invasão, enquanto Molotov se encarregava de falar ao povo soviético, em nome do governo e do partido, para exortá-lo a resistir ao invasor alemão. "Stalin não acreditava em ninguém — explicaria mais tarde o embaixador soviético em Londres, Ivan Maisky — com exceção de Hitler. A tragédia residia no fato dele estar convencido de que poderia enganar Hitler. Foi tudo uma questão de psicologia."

Nesse meio tempo, os alemães agiam. Precedidos por uma intensa barragem de artilharia pesada e de um sistemático bombardeio aéreo de saturação que pulverizaria fortificações, entroncamentos ferroviários, bases aéreas e navais, centros de concentração de tropas, depósitos de material bélico e combustível, três poderosos exércitos alemães, antecedidos por grandes formações blindadas invadiam a União Soviética, com o apoio de forças finlandesas, húngaras e romenas.

Para os soviéticos, a invasão foi uma dupla e dolorosa surpresa. A primeira surpresa foi tática, pois os comandos soviéticos responsáveis pela defesa das fronteiras ocidentais estavam com as mãos amarradas, em vista das ordens expressas de Stalin de evitar qualquer medida que pudesse ser interpretada como "provocação" aos alemães. Assim, grande número de oficiais-generais e superiores estava ausente de seus postos, unidades inteiras estavam licenciadas e outras empenhadas em manobras ou treinamentos longe das posições que deviam ocupar em caso de guerra. A última diretiva que Jukov conseguira arrancar de Stalin tinha chegado tarde demais. A segunda surpresa envolveu não apenas os militares mas todo o conjunto da população soviética, convencida pela propaganda de Moscou de que nada havia a temer por parte dos alemães.

Explorando a fundo a surpresa, o comando alemão, que havia montado a maior ofensiva já organizada no mundo, atacava a URSS em três frentes principais. Os exércitos que a invadiram com destino ao Norte eram comandados por Van Leeb e tinham por destino Leningrado; os exércitos que operariam no Sul eram comandados por Von Rundstedt e tinham por objetivo a Ucrânia, a bacia do Don, a Crimeia e o Cáucaso. Ocupando seus objetivos, Von Rundstedt privaria a União Soviética de seus principais centros produtores de cereais, carvão, ferro e combustíveis. Finalmente, na frente central, a mais poderosa das forças alemãs era comandada por Von Bock, cujo destino último seria Moscou. Antes de atingir todos os objetivos designados, entretanto, os alemães pretendiam envolver e destruir por completo, numa série de batalhas decisivas, as forças do Exército Vermelho na Rússia Ocidental. Ao fim dessa operação, o colosso soviético simplesmente ruiria, como tinham ruído a França e a Polónia.

E de início tudo correu de acordo com os planos dos líderes da maior e mais perfeita máquina militar até então montada no mundo.

Enquanto ondas de bombardeiros e caças-bombardeiros da Luftwaffe pulverizavam aeródromo após aeródromo, incendiando e destruindo no chão grupos inteiros da aviação soviética, ainda alinhados nas pistas como para uma revista, as vanguardas motorizadas e as forças blindadas alemãs atingiam rapidamente todos os seus objetivos, apoiadas pela aviação tática e artilharia de assalto. Os bolsões de resistência eram isolados e deixados para trás. As forças de artilharia e infantaria que vinham na retaguarda se encarregariam de reduzi-los.

Refinada e testada em dois anos de guerra, a Blitzkrieg funcionava perfeitamente na Rússia. Privado de comando competente, comunicações rápidas e perdendo a iniciativa da luta em todos os setores, o Exército Vermelho foi facilmente dividido em grandes grupos pelas vanguardas blindadas alemãs, que operavam como cunhas. Posteriormente, os grupos isolados eram cercados e submetidos a bombardeios de saturação. Alguns dos grupos cercados eram constituídos por divisões completas. Em determinados setores, como Brest-Litovsk, as unidades envolvidas lutaram até o fim. Outras, em razão da própria rapidez do avanço dos blindados alemães, conseguiram escapar ao envolvimento. Outras ainda, cumprindo à risca diretivas de Moscou, destruíram tudo ao retirar-se, aplicando a tática de terra queimada.

A despeito do extraordinário êxito logrado pela ofensiva, em termos táticos, alguns dias de luta bastaram, entretanto, para convencer os generais alemães que se defrontavam com um inimigo muito diferente do que tinham encontrado nos países conquistados da Europa. Blumentritt, um dos generais responsáveis pelo comando do Grupo de Exércitos Centro, observaria: "A conduta dos russos, mesmo nos primeiros choques, é completamente diferente dos poloneses e dos ocidentais quando são batidos. Mesmo quando estão cercados, os russos resistem e lutam… Não há forças alemãs suficientes para cercar por completo os grandes bolsões, pois nossas forças motorizadas atuam nas ou perto das estradas e esta região é coberta de florestas… Naturalmente, nossas operações de cerco raramente são inteiramente bem sucedidas…".

Assim, a despeito da surpresa, da desorganização do Exército Vermelho, da perda de importantes bases, centros de comunicações e indústrias vitais, os russos revelavam-se dispostos a lutar, contrariando os prognósticos dos alemães, os quais contavam de antemão com a cooperação e ajuda da população que prometiam libertar do bolchevismo. Tal espírito de resistência ao invasor, de fato, foi altamente estimulado pelos próprios alemães que, desde o primeiro dia da invasão aplicaram à risca as ordens de Hitler de liquidar sumariamente todos os judeus e militantes comunistas que lhes caíssem nas mãos, além de executar reféns como represália a qualquer ato de sabotagem ou guerrilha.

De qualquer forma, enquanto no Norte a vanguarda alemã de Von Leeb atingia rapidamente seu objetivo, Leningrado, no Centro e no Sul os exércitos de Van Bock e Von Rundstedt avançavam uma média de 50 quilómetros por dia, levando de roldão, cercando ou simplesmente destruindo as forças soviéticas que encontravam pela frente. De junho a setembro, as forças alemãs tinham ocupado uma área em que viviam 40% da população soviética, de onde provinham 65% da produção de carvão, 68% de ferro forjado, 58% de aço e 60% de alumínio, 38% dos cereais e 84% do açúcar. Grandes cidades — Rostov, Minsk, Kiev — tinham caído em poder dos alemães, que continuavam a progredir na direção da Crimeia, ameaçavam o Cáucaso, estavam a ponto de tomar Leningrado e continuavam a avançar rapidamente na direção de Moscou. O número de soviéticos aprisionados nas grandes batalhas de envolvimento ascendia a centenas de milhares, enquanto o de mortos — civis e militares — ultrapassava um milhão.

Tudo se desenrolava de acordo com os planos do estado-maior alemão e tudo contribuía para desorientar os soviéticos. Ao dirigir-se finalmente ao povo, treze dias depois do início da invasão, Stalin dirigiu-lhe uma exortação à resistência de cunho profundamente nacionalista. De fato, pouco tinha a oferecer-lhe, pois o avanço alemão parecia de fato irresistível e a crítica situação do Exército Vermelho refletia em toda sua extensão e profundidade as consequências do expurgo a que fora submetido. Verificou-se logo nos primeiros dias de luta que não contava com número suficiente de oficiais-generais e superiores experientes e bem preparados. Os imensos claros tinham sido preenchidos por representantes do velho grupo dos sargentos — como o marechal Budieny, um dos principais responsáveis pelo sistema geral de defesa, e Kliment Vorochilov, encarregado de defender a área de Leningrado. Quando não eram velhos profissionais desatualizados e que não tinham conhecimento das técnicas de guerra moderna, os comandantes eram jovens oficiais inexperientes, que tinham feito carreira mais em função de suas atividades partidárias do que em função de seu preparo profissional. Agravando a situação, os comissários-políticos, com raríssimas exceções também inexperientes, travavam todas as iniciativas dos comandantes com objeções burocráticas — o que apenas facilitava a missão das forças alemãs encarregadas de cercar, aprisionar ou exterminar os grupos do Exército Vermelho isolados.

Só restava aos soviéticos apegar-se desesperadamente aos trunfos que lhes restavam: os tanques T-34, que tinham surpreendido os alemães e que se revelariam os mais eficientes da Segunda Guerra Mundial; a unidade de comando, representada pela Stavka — Supremo Comando, que funcionaria sob a orientação direta de Stalin — e que constitui o sonho de todos os estrategistas; a possibilidade de abrir mão de vastos espaços para ganhar tempo precioso, chave de toda a estratégia soviética na primeira fase de operações e, finalmente, o punhado de oficiais altamente capacitados e que se encarregariam de transformar o Exército Vermelho, que se retirava em todas as frentes, numa formidável máquina de guerra, à altura da alemã.

Entre esses oficiais sobre os quais recairia o peso da missão de transformar a sucessão de derrotas na vitória final estava, naturalmente, Jukov. Este, como integrante da Stavka, foi enviado por Stalin, a 22 de junho, para Kiev. Sua missão era verificar as razões pelas quais até então fora impossível estabilizar a frente naquele setor vital. Devia ainda, em colaboração com Nikita Kruschev, fazer um levantamento completo da situação no setor.

Com ajuda de Kruschev, que estava familiarizado com as condições específicas e com os responsáveis pelo setor de defesa da Ucrânia, Jukov inspecionou toda a frente, constatando que as forças soviéticas estavam praticamente acéfalas, que as comunicações, mesmo a nível de divisão e regimento eram mais que precárias, que os alemães tinham consolidado seu domínio do espaço aéreo e que seria impossível estabilizar a frente a curto prazo.

Regressando a Moscou, Jukov comunicou a Stalin que era indispensável organizar novas linhas de defesa na frente central, a serem guarnecidas por cinco Exércitos, reforçados por mais dois na retaguarda, atuando como reserva estratégica. Assim mesmo, previa que a ofensiva alemã deveria prosseguir. Stalin não somente aprovou os planos de Jukov como passou a dispensar, remover e punir, imediatamente, os comandantes que se tinham mostrado incompetentes e não estavam à altura da situação. Um dos primeiros chamados a Moscou, com todo seu estado-maior, foi o infortunado especialista em blindados, Pavlov. Responsabilizando-o pela rápida penetração alemã, Stalin mandou fuzilá-lo. Nessa mesma ocasião, dezenas de oficiais-generais e superiores — quase todos recém-promovidos no decorrer ou depois do grande expurgo no Exército Vermelho, foram fuzilados em Moscou ou executados por destacamentos especiais da NKVD, geralmente por terem abandonado suas tropas ou posições que deveriam ocupar. Outros — como foi o caso de Voroshilov, afastado do Comissariado de Defesa e designado para a frente norte, e Budieny, que perdeu o comando das Forças de Reserva — foram transferidos para funções menos vitais. Timoshenko passou a acumular as funções de comandante da frente ocidental, assistido por Jukov. Os esforços combinados de ambos permitiram transformar o que não passara até então de uma debandada de forças batidas e desmoralizadas, num simulacro de retirada organizada, com o estabelecimento de pontos fortes e ações coordenadas de retaguarda, destinadas a reduzir a rapidez do avanço alemão.

Ainda assim, os débeis contra-ataques soviéticos não detinham o progresso dos blindados alemães, apoiados de perto pela aviação tática, e as cidades russas — Smolensk, Orsha, Elnya — caíam sucessivamente. O XXVI Exército soviético foi cercado no setor de Roslavi e seu comandante, general Kachalov, morreu combatendo.

No início de agosto, depois de fazer um balanço da situação, Jukov propôs a Stalin nova retirada, até a linha do Dnieper, o que envolveria o abandono de Kiev aos alemães. Sugeria ainda que a concentração de forças soviéticas que ainda ocupava o saliente de Elnya desfechasse um contra-ataque contra o flanco do grupo de Exércitos Centro. Stalin replicou que o contra-ataque proposto seria apenas uma tolice e Jukov, exausto, impaciente e farto de objecoes, respondeu-lhe secamente: "Se julga que o chefe do Estado-maior propõe tolices, nada mais tenho a fazer aqui. Solicito que me dispense das atuais funções e me destaque imediatamente para qualquer frente de luta, onde serei mais útil à pátria".

Acostumado à vassalagem e à obediência imediata de seus comandados, Stalin ficou sem palavras. Entretanto, era forçado a reconhecer o valor de Jukov e, depois de pensar no assunto, chegou à conclusão de que ele seria mais útil como estrategista, numa das frentes de luta, do que como chefe de estado-maior. Convocando novamente o idoso e enfermo Shaposhnikov para a chefia do estado-maior, mandou chamar Jukov e perguntou-lhe para que posto preferia ser designado. — "Farei o que me for ordenado — respondeu ele. — Posso comandar uma divisão, um corpo de exército, um exército ou toda uma frente."

E do Kremlin, Jukov partiu com a missão de organizar em Elnya o contra-ataque que havia proposto. Este, bem coordenado e lançado com o apoio de reservas, infligiu pesadas baixas às forças blindadas do general Guderiam, reduzindo a pressão geral exercida pêlos alemães na frente central e permitindo a Shaposhnikov e a Timoshenko um reagrupamento de suas forças ainda dispersas no Norte, Centro e Sul. Ao mesmo tempo, a ofensiva alemã na frente central era detida para reequipamento, substituição de veículos blindados motorizados eestabelecimento de linhas de suprimento e comunicações seguras.

Entretanto, nas demais frentes o avanço alemão prosseguia e ao Norte e no Sul a situação era mais que crítica para as forças soviéticas, que cediam ao ímpeto do invasor.

Na frente central, era evidente que o objetivo diretamente visado pelos alemães era Moscou; ao Sul, eles continuavam rumo ao Cáucaso e às grandes jazidas de petróleo, indispensáveis ao esforço de guerra soviético;' ao Norte, seu alvo principal era Leningrado, que já tinham cercado quase por completo. Hitler tinha planos especiais para a antiga capital imperial russa, partindo do princípio de que a cidade havia sido o berço da Revolução de Outubro. De início, estava disposto simplesmente a ocupá-la. A obstinada resistência oferecida pelo Exército e pela Marinha em defesa da cidade exasperaria a tal ponto o líder alemão que, em setembro, ele ordenou que as eventuais ofertas de rendição das forças que defendiam Leningrado fossem ignoradas. A cidade deveria ser inteiramente destruída, com tudo o que representava, e todos os seus habitantes, civis e militares, exterminados sem contemplação. Depois de concluída tal missão, as forças do general Von Leeb deveriam convergir sobre Moscou, desfechando contra a capital soviética um ataque coordenado com as forças do Grupo de Exércitos Centro, comandados por Von Bock.

Era precisamente o que o comando soviético mais temia. Além de constituir um importantíssimo centro industrial, Leningrado constituía um símbolo tão precioso para os soviéticos como Moscou e sua perda teria um efeito psicológico catastrófico, dentro e fora do país. Além disso, a rápida junção das forças de Von Leeb com as de Van Bock, antes que novas reservas soviéticas pudessem ser mobilizadas, tornaria a ofensiva alemã rumo a Moscou realmente irresistível.

O moral da população civil de Leningrado, onde Zhdanov atuava como principal comissário, era excelente. O mesmo não acontecia, entretanto, em relação às forças de defesa, comandadas por Voroshilov. Eram frequentes os recuos, os abandonos não autorizados ds posições, as deserções. A disciplina deteriorava-se rapidamente, ordens importantes deixavam de ser cumpridas e os alemães estavam a ponto de completar o cerco da antiga capital imperial.

Foi para garantir a defesa da cidade ameaçada que Stalin chamou Jukov a Moscou, no dia 8 de setembro. Vinte e quatro horas depois, investido de poderes quase absolutos, Jukov voava para Leningrado.

As ordens que tinha recebido de Stalin eram simples: "Siga para Leningrado. Ali, a situação é extremamente difícil. Se os alemães completarem o cerco de Lenhigrado, unindo-se aos finlandeses, poderão convergir sobre Moscou partindo do Nordeste e a situação se tornará ainda mais crítica do que a atual".

E no dia 9 de setembro, Jukov, com os oficiais de seu estado-maior, que selecionara cuidadosamente, chegava a Leningrado, para defrontar-se com a mais difícil missão de sua carreira.

Atacar, atacar, atacar![editar | editar código-fonte]

Dispensando protocolo e cerimonial de recepção, Jukov dirigiu-se diretamente da esburacada pista do aeroporto de Leningrado para o Smolny — de onde Lenin desfechara e comandara a Revolução de Outubro e que agora servia de sede ao quartel-general de Leningrado — apresentou suas credenciais e tomou posse de seu novo comando. Dali mesmo, telefonou ao marechal Vassilevsky, representante da Stavka em Moscou, para anunciar: "Fala Jukov. Assumi o comando. Pretendo atuar mais ativamente que meu predecessor".

Foi assim que Jukov deu a entender, duramente, ao marechal Voroshilov, que se encontrava na mesma sala, o que pensava a respeito de sua capacidade. Uma hora mais tarde, o marechal e seus assessores estavam a caminho de Moscou, para jamais voltar a tomar parte ativa no conflito.

A simples troca de comando, entretanto, não afetava de forma alguma a situação geral: os alemães continuavam estreitando cerco à cidade e Leningrado estava no centro de um círculo de aço quase fechado. No dia 13, Jukov, que estava completando um levantamento geral das defesas internas da cidade, foi informado pelo seu estado-maior de que os alemães se preparavam para lançar um ataque frontal e final contra a cidade.

Imediatamente, Jukov convocou o coronel-engenheiro Bychevsky, responsável pelas fortificações internas e externas, ouviu impacientemente sua exposição e foi informado de que os grupos de tanques encarregados da defesa de determinado setor vital do perímetro não existiam mais — tinham sido substituídos por simulacros de madeira, construídos num teatro local. Era sobre esses falsos tanques que a artilharia alemã concentrava seu fogo naquele momento.

Jukov ordenou-lhe que providenciasse naquela mesma noite mais cem falsos tanques, para dispô-los em outros dois setores ameaçados. Bychevsky respondeu que o teatro não tinha condições para produzi-los naquela noite. — "Muito bem" — replicou Jukov — "como se chama seu comissário, camarada coronel?"

— "Coronel Mukha."

— "Pois diga a esse coronel Mukha que se até amanhã de manhã os tanques não estiverem nos pontos que escolhi, vocês dois serão submetidos a um conselho de guerra. Fui claro? Amanhã, eu mesmo farei a verificação".

Os falsos tanques foram providenciados a tempo e a determinação inabalável de Jukov logo se tornou conhecida de toda a guarnição. Quem não cumpria as suas ordens era imediatamente punido. Dois generais e um comissário foram destituídos e enviados para Moscou no primeiro avião disponível, depois de terem sido qualificados de incompetentes. Para pôr fim à indisciplina, valendo-se dos poderes especiais de que estava investido, Jukov mandou fuzilar sumariamente oficiais, comissários e soldados que tinham abandonado sem ordens expressas suas posições. Determinadas unidades em que se tinham registrado casos de insubordinação — tanto do Exército como da Marinha — foram dissolvidas e seus integrantes incorporados a outras. Em todos os níveis e todos os setores, a ordem era sempre a mesma, fossem quais fossem as condições — atacar, atacar, atacar!

Deixar de cumpri-las equivalia a ser sumariamente fuzilado ou destacado para os "batalhões de choque", unidades especiais encarregadas de silenciar posições alemãs de artilharia durante a noite.

Preparando-se para o pior, Jukov convocou Bychevsky e ordenou-lhe que minasse sistematicamente todos os principais setores do centro de Leningrado, a começar pelas pontes. Destacamentos especiais da polícia secreta — NKVD — foram encarregados de organizar a defesa interna, mobilizando não apenas prisioneiros políticos mas a própria população civil de Leningrado não empenhada nas indústrias e serviços vitais — mais de 100 mil pessoas — na construção de fortificações internas. Se os alemães chegassem à cidade, teriam de lutar rua por rua e casa por casa para ocupá-la. Até mesmo crianças e mulheres foram mobilizadas para a defesa.

Havia uma grande falta de armas para equipar os batalhões organizados às pressas e Jukov ordenou que se recorresse até mesmo às velhas armas dos museus militares. Canhões antitanque foram montados em velhos bondes, caminhões e ônibus, dezenas de milhares de coquetel Molotov e de granadas eram diariamente fabricadas pelas indústrias civis convertidas em pequenas oficinas improvisadas. Estacas com pontas de aço foram cravadas e ninhos de metralhadoras montados em todos os espaços abertos da cidade e nos seus arredores, para prevenir lançamentos de pára-quedistas alemães. Menos de uma semana após a chegada de Jukov, Leningrado havia perdido seu aspecto normal — todas as ruas e avenidas da grande cidade estavam bloqueadas por treliças de trilhos de aço, casamatas de concreto, embasamentos de artilharia e ninhos de metralhadora. Nas praças e sobre os edifícios mais altos estavam concentrados os canhões antitanque e antiaéreos. Todos os navios da Marinha ancorados estavam empenhados no bombardeio incessante das posições alemãs.

Nesse meio tempo, Jukov tudo inspecionava várias vezes por dia. Verificava o cumprimento estrito do racionamento de géneros, o estado das defesas internas, as posições avançadas do perímetro externo de defesa. A estas, a ordem de Jukov, que não levava em conta baixas sofridas, carência de material, falta de combustível, posições insustentáveis, doença, sono, exaustão, era sempre e invariavelmente a mesma: atacar, atacar, atacar! Não era mais preciso fazer ameaças ou advertências. Ante opção inexorável — obedecer sem vacilar ou ser fuzilado —, ninguém vacilava. E foi esse espírito que conteve, mais que as armas e os homens, os alemães nos subúrbios de Leningrado.

A 12 de setembro, enquanto o general Halder, chefe do Estado-maior alemão registrava em seu diário que a queda de Leningrado era iminente, Hitler ordenava a Von Leeb que a eventual capitulação da cidade não devia ser aceita. A população civil deveria ser exterminada juntamente com a guarnição militar. O bombardeio aéreo e terrestre da cidade devia ser intensificado. Para manter o cerco da cidade, até sua destruição total, Leeb devia conservar toda a sua artilharia e suas unidades de blindados. Somente depois do esmagamento da última resistência eles seriam incorporados às forças que convergiriam do Nordeste sobre Moscou, para atacar a capital soviética, simultaneamente com as de Von Bock.

A noite de 17 de setembro de 1941 foi crucial para a defesa da cidade. As defesas externas, a despeito de todos os esforços, pareciam a ponto de ruir ante as maciças investidas alemãs e Jukov ordenou que se completassem os últimos preparativos para a destruição da cidade. O porto, os navios fundeados, os grandes armazéns, os entroncamentos ferroviários e todos os principais edifícios estavam minados e tudo deveria voar pelos ares a uma palavra de Jukov, no momento em que os alemães penetrassem no perímetro interno de Leningrado.

Naquela mesma noite, lançando à luta todas as suas reservas — e entre essas reservas havia batalhões de civis, adolescentes, trabalhadores que tinham cumprido seu turno diário de doze horas nas fábricas, milicianos, marinheiros, intendentes e almoxarifes, escriturários e ferradores —, Jukov conseguiu conter os alemães.

Todos os esforços desenvolvidos por Von Leeb, com ajuda da aviação, artilharia e infantaria motorizada para cortar a derradeira via de suprimento que ainda ligava Leningrado ao resto da URSS — as linhas estabelecidas através do lago Ladoga — falharam. Seus ataques encontravam sempre a obstinada resistência dos contra-ataques de Jukov, apoiados por uma arma até então desconhecida pêlos alemães e que produzia terríveis efeitos sobre seus blindados e infantaria motorizada: os foguetes terra-terra do tipo Katyusha, lançados de baterias múltiplas montadas sobre caminhões.

Para cobrir os claros da artilharia de que careciam, os russos usavam os lançadores de foguetes, deslocando-os de um setor para outro, para dar cobertura aos seus contra-ataques.

Todo esse imenso esforço de defesa tinha uma única origem — Jukov.

"Naqueles dias de setembro, ele era um homem terrível. Não há outra palavra para descrevê-lo. Ameaçava comandante após comandante de fuzilamento sumário. Continuava a removê-los, substituí-los e dispensá-los incessantemente. Insistia apenas e sempre num único ponto: Atacar! Atacar! Atacar! Esta era a essência de sua primeira ordem ao assumir o comando. Não importava que a unidade lançada ao ataque fosse débil e desfalcada. Não importava que não tivesse armas nem munições, que viesse de uma sequência de retiradas. Atacar! Essa era a ordem permanente. Desobedecê-la levava à corte marcial.

Atacar ou ser fuzilado — uma equação simples".

E foi a vontade de ferro de Jukov que acabou prevalecendo sobre uma guarnição desmoralizada e carente de recursos, sobre a população civil faminta e privada de tudo, na cidade incessantemente submetida a duro bombardeio, levando-a a resistir com as forças do desespero ao inimigo mais forte, durante a noite crucial de 17 de setembro.

Na noite de 18, os ataques alemães começaram a perder o ímpeto e em determinados setores dos subúrbios, apoiados por barragens dos navios de guerra surtos no porto e concentrações de lançadores de foguetes, os defensores de Leningrado conseguiram recuperar algumas das posições perdidas nos dias e semanas anteriores.

Os russos cercados em Leningrado ainda não sabiam a que atribuir a redução da pressão alemã e as minas instaladas na cidade continuavam ligadas e preparadas para fazê-la voar pelos ares.

No último momento, Leningrado tinha sido salva da destruição total, por uma combinação de fatores.

A despeito da intensidade dos bombardeios alemães, o perímetro das defesas externas resistira e a passagem do lago Ladoga continuava aberta, garantindo, ainda que em termos precaríssimos, as ligações da antiga capital imperial com o resto da nação.

Ao mesmo tempo, o Grupo de Exércitos Centro, que reiniciara sua ofensiva em direção a Moscou, começava a esbarrar em resistência cada vez mais intensa. Ainda progredia, mas o custo em baixas e material aumentava progressivamente. As chuvas de outono tinham começado e os veículos montados sobre pneumáticos — praticamente todo o sistema de transporte e abastecimento dos alemães — sofrera uma paralisação, uma vez que as estradas de terra do interior da URSS se tinham convertido em atoleiros. Somente os tanques e os veículos do tipo meia-lagarta podiam progredir e assim mesmo dentro de um raio de ação limitado, uma vez que dependiam de abastecimento de combustível e de reposição de peças. Ante tal emergência, o Estado-maior alemão foi compelido a recorrer às forças blindadas de Von Leeb, que se encontravam no setor Norte, empenhadas no ataque a Leningrado. Sem elas, o progresso da ofensiva rumo a Moscou estaria ameaçado. Von Leeb, que tinha a vitória à vista, relutou em abrir mão de seus blindados, sabendo que sem eles a conquista da cidade seria praticamente impossível. Solicitou a Halder um último prazo para a conquista da cidade. O prazo foi-lhe concedido e a 15, 16 e 17 de setembro os alemães desenvolveram um esforço máximo para conquistar Leningrado. Mas embora tivessem chegado às portas da cidade, ocupando algumas posições no perímetro de defesa externa, não conseguiram rompê-la.

E na manhã de 18, Von Leeb, sem esconder sua irritação, foi compelido a acatar as ordens recebidas de Berlim, deslocando o grosso de suas forças blindadas e infantaria motorizada para a frente central, rumo a Moscou.

Leningrado estava salva — embora seus defensores ainda não soubessem disso. Sabiam apenas que a pressão constante exercida pêlos alemães começara a decrescer. Um número crescente de informações sobre movimentação de unidades alemãs em torno de Leningrado chegava continuamente ao QG de Jukov. Entre os oficiais de seu Estado-maior prevalecia a impressão de que o maior perigo que pesava sobre a cidade tinha sido afastado.

Jukov, porém, acolhia com grande ceticismo essas informações. Fora testemunha dos imensos desastres militares na frente ocidental e não pretendia deixar-se surpreender. As ordens de fazer voar a cidade, caso os alemães ultrapassassem o perímetro externo, continuavam em vigor. Todas as notícias sobre a redução da pressão inimiga eram cuidadosamente verificadas. A produção de armas e munições era intensificada, enquanto o racionamento se tornava mais rigoroso, para poupar os géneros cada vez mais escassos. Simultaneamente, novos contingentes — de fuzileiros navais liberados de suas funções a bordo da frota, de marinheiros que faziam parte de serviços administrativos, de operários que trabalhavam em indústrias não-essenciais, de adolescentes aceitos como voluntários — eram equipados e enviados aos vários setores de defesa. As ordens aos comandantes e comissários eram invariavelmente as mesmas que Jukov dava desde sua chegada a Leningrado: atacar, atacar, atacar! As primeiras informações sobre deslocação de forças alemãs da área foram qualificadas por Jukov de "simples provocações" , destinadas a amolecer a disposição dos defensores de resistir a qualquer custo. Entretanto, alguns observadores sustentam que Jukov estava a par do deslocamento dos tanques e forças blindadas alemãs do setor de Leningrado e só não confirmava publicamente essa movimentação para não afetar o moral dos defensores de Leningrado.

Com o correr do tempo, contudo, tornou-se público e notório que a pressão alemã tendia a perder sua intensidade. Prisioneiros alemães, capturados durante contra-ataques, revelaram que as forças atacantes tinham sofrido baixas pesadíssimas e, desistindo finalmente de tomar a cidade de assalto, estavam construindo posições permanentes para sitiá-la. Em voos de observação, pilotos soviéticos confirmaram o deslocamento de parte das forças de Von Leeb para a frente central.

No início de outubro, os alemães intensificaram a ação de sua artilharia pesada contra Leningrado — e Jukov finalmente admitiu reservadamente aos integrantes de seu Estado-maior que os maiores riscos que pesavam sobre a cidade tinham sido afastados. A intensificação dos bombardeios da artilharia pesada alemã, a partir de posições fortificadas e previamente preparadas, era um indício seguro dos dois objetivos imediatos de Von Leeb: mascarar a retirada parcial de seus blindados e forças de infantaria mecanizada, reclamados pela frente central, e manter o cerco à cidade que não conseguira conquistar.

Somente então Jukov autorizou a desconexão dos cabos elétricos que ligavam milhares de cargas de explosivos, espalhadas pelo centro da cidade, ao seu QG. Depois de quase um mês de angústia permanente, o coronel engenheiro Bychevsky e demais encarregados da destruição de Leningrado, que parecera inevitável, respiravam, aliviados.

O desmantelamento de algumas das obras de defesa erguidas febrilmente no centro da cidade, em fins de setembro, permitiu a consolidação do perímetro defensivo externo. Embasadas em posições fortificadas, artilharia de campanha e armas automáticas impediam eficazmente a penetração da infantaria alemã, enquanto uma comissão especial, constituída por artilheiros da Marinha, regulava o sistema de fogo de contrabateria. O potencial de fogo das unidades navais ancoradas no porto era enorme e seu fogo de contrabateria, regulado por observadores situados em balões cativos ou no topo dos edifícios mais altos da cidade, silenciava eventualmente as grandes baterias alemãs.

Jukov sabia que, se a ameaça imediata estava afastada, os dias de sofrimento impostos a Leningrado ainda estavam muito longe de seu fim. Não havia possibilidade de ampliar a brecha do lago Ladoga no círculo de aço imposto pêlos alemães aos defensores. Leningrado continuaria a ser submetida, durante quase três anos, a ataques quase incessantes da aviação e da artilharia — e no terrível inverno de 1941, a fome e o frio cobrariam da população um preço ainda mais elevado do que as balas e granadas alemãs: milhares de pessoas morreriam diariamente de fome e de frio, casos de canibalismo seriam registrados; papel de parede, cascas de árvore e couro de velhos cintos e sapatos seriam usados como alimento; faltaria água não contaminada até mesmo para intervenções cirúrgicas de urgência .

Leningrado deveria arcar com sacrifícios indizíveis até 1944, quando o longo cerco alemão foi finalmente levantado, mas não se deixaria dominar — e mais que ninguém, quem inspirou esse espírito de inquebrantável resistência da guarnição e da população civil da cidade foi Jukov. Em circunstâncias dificílimas, contando com recursos precários, compelido a improvisar, premido pelo tempo e enfrentando uma atmosfera de derrotismo e quase pânico, ele lograra erguer o moral de Leningrado, impondo-lhe, a ferro e fogo, o esprit de corps que prevaleceria até a vitória final.

Era de generais como Jukov que o comando soviético precisava desesperadamente naquele momento no setor central, onde a situação era mais que crítica. E foi a Jukov que Stalin apelou mais uma vez, a 6 de outubro, solicitando-lhe informações sobre Leningrado. Pelo telefone, Jukov informou que a cidade seria submetida a um longo cerco, mas que tinha condições de resistir ao assédio inimigo e que não cairia. A defesa estava consolidada. Informou também que suas patrulhas aéreas de reconhecimento haviam fotografado colunas blindadas alemãs, acompanhadas de contingentes de infantaria motorizada, que desciam de Leningrado rumo ao Sul, aparentemente em direção a Moscou.

As informações fornecidas por Jukov conferiam com as que Stalin tinha em seu poder. "Transfira o seu comando em Leningrado ao chefe do Estado-maior, general Khozin" — ordenou Stalin — "e venha imediatamente para Moscou."

Na tarde do dia seguinte, a bordo de um bimotor da Força Aérea, Jukov partiu para a capital, onde Stalin o aguardava ansiosamente.

Já no espaço, enquanto o avião circulava, ganhando altitude, ele podia avistar a cidade devastada pelo bombardeio inimigo. Esta, contudo, estava numa situação muito diversa daquela em que a encontrara no início de setembro. Como produto de sua energia, esforço e capacidade profissional, deixava atrás de si uma fortaleza inexpugnável. Em quatro semanas, Leningrado tinha sido salva. Tentando ocupá-la, os alemães tinham perdido semanas de tempo precioso e irrecuperável. A fórmula simples e brutal utilizada por Jukov para garantir a defesa de Leningrado — atacar ou ser fuzilado — funcionara.

Mas funcionaria também na frente central, onde a situação era desastrosa?

Segundo o capitão Yuri Artibachev, o piloto que o conduziu de Leningrado a Moscou, Jukov não teve tempo para preocupar-se com isso. A despeito da importância de sua próxima missão, estava tão exausto que dormiu durante todo o tempo de voo LeningradoMoscou.

Vitória em Moscou[editar | editar código-fonte]

Josef Stalin e seus companheiros da Stavka tinham boas razões para deslocar Jukov do setor vital de Leningrado e convocá-lo a Moscou, pois agora a maior ameaça pesava sobre a própria capital soviética.

Em agosto, os alemães tinham detido voluntariamente sua rápida progressão na frente central, para considerar os inúmeros problemas com que se defrontavam. Suas extensas linhas de comunicação eram constantemente ameaçadas por guerrilheiros que operavam nas regiões conquistadas e por remanescentes das forças soviéticas que tinham escapado às diversas batalhas de envolvimento — somente perto de Smolensk 600 mil soldados soviéticos tinham sido cercados, mas nem todos aprisionados. Os comandantes das vanguardas blindadas, entre os quais Guderian, eram favoráveis ao prosseguimento da ofensiva, alegando que a desmoralização e desorganização dos defensores ofereciam condições ideais para o desenvolvimento da Blitzkrieg. Sustentavam ainda que urgia aproveitar o verão, pois, quando as chuvas do outono começassem, as estradas de terra do interior da União Soviética se converteriam em lamaçais intransponíveis. Para esses generais, experimentados na guerra de movimento, Moscou deveria ser tomada até o fim de outubro e o tempo perdido à espera de uma decisão seria irrecuperável.

Entretanto, outros generais, especialmente os responsáveis por logística e abastecimento, sustentavam que era indispensável consolidar o terreno conquistado e estabelecer bases de suprimento e linhas seguras de comunicações antes de prosseguir na ofensiva.

Temporariamente incorporadas ao corpo de exércitos de Rundstedt, na frente sul, as forças blindadas do general alemão Heinz Guderian foram novamente integradas na vanguarda dos exércitos que operavam na frente centro, sob o comando de Von Bock, no início de outubro. Mais uma vez apanhado de surpresa — seu sistema de comunicações ainda era rudimentar e a força aérea alemã barrava dos céus os aparelhos de reconhecimento russos —, o comando soviético sofreu nova investida, cujo objetivo era Moscou. Reforçadas pêlos blindados e infantaria motorizada retirados da frente de Leningrado, as forças de Von Bock progrediam rapidamente rumo à capital soviética.

A vanguarda blindada alemã progredia sem problemas maiores e na retaguarda destacamentos especiais da SS eram treinados para executar a operação que seria levada a cabo logo após a ocupação de Moscou — dinamítação da cidadela do Kremlin, que deveria desaparecer para sempre com tudo que simbolizava.

No dia 6 de outubro, quando Stalin entrou em contato com Jukov, os alemães estavam chegando à Linha Mozhaisk, última das grandes barreiras defensivas erguidas pelos soviéticos na rota de Moscou. Ivan Konev, que fora encarregado da defesa da capital, recorria a todas as reservas da região de Moscou, lançando à luta batalhões de recrutas ainda mal uniformizados e precariamente armados. A urgência era tão grande que os trens encarregados de conduzi-los à frente iam praticamente até a linha de fogo. Ali, as locomotivas eram desacopladas e voltavam ao ponto de partida para trazer mais tropas, abandonando os vagões que tinham servido para levar os reforços à frente.

Todo esse esforço, entretanto, era inútil. Nem mesmo os excelentes tanques T-34, cuja eficiência constituíra uma grande e dura surpresa para os alemães, logravam deter as vanguardas alemãs. Os especialistas na guerra de movimento viviam o seu grande momento de triunfo. Apoiadas de perto pela aviação tática e pela artilharia de assalto, as forças blindadas de Guderian continuavam a avançar irresistivelmente.

Em Moscou, começaram a ser registrados os primeiros sinais de pânico. Nas ruas, pela manhã, os lixeiros encontravam centenas de carteiras de militantes do PCUS atiradas fora por seus detentores. Documentos secretos eram queimados nas repartições, falava-se abertamente em abandono da capital.

Foi esse o clima que Jukov encontrou ao regressar a Moscou. Depois de conferenciar com Stalin e Shaposhnikov, que lhe expuseram sem rodeios a situação, ele efetuou uma série de inspeções aos vários setores mais ameaçados e, já investido das funções de comandante da frente — substituição que Konev jamais perdoaria nem esqueceria —, obteve as reservas estratégicas que reputava indispensáveis para reduzir a rapidez do avanço alemão. Pela primeira vez, grandes unidades de tanques T-34, comandados por oficiais experientes, foram lançados contra o flanco esquerdo da vanguarda alemã, nas margens do Navlia. Ainda assim, o avanço prosseguia e Jukov sacrificou deliberadamente o L Exército soviético em Bryansk, numa ação de retaguarda, enquanto retirava o grosso de suas forças para uma ação decisiva.

A essa ação de retardamento, com grande sacrifício de homens e material seguiram-se dezenas de outras, no decorrer de todo o mês de outubro e meados de novembro. À medida que se aproximavam de Moscou, as forças de Von Bock, precedidas pelos blindados de Guderian, sofriam baixas cada vez mais pesadas e imensas perdas de material. Ainda assim, o avanço prosseguia.

Em Moscou, um grande pânico foi registrado quando se anunciou a transferência do corpo diplomático para Kuibishev, no dia 15 de outubro. Lojas e armazéns começaram a ser saqueados e a ordem só foi restabelecida quando Stalin decretou estado de sítio na região moscovita e destacamentos da NKVD saíram às ruas da capital.

Jogando com o tempo e convencido de que os japoneses não se atreveriam a intervir, Jukov obteve da Stavka permissão para transferir reforços da Sibéria para a frente de Moscou. Ao contrário das forças com que contava para defender a capital, as divisões sibe-rianas eram aguerridas, bem treinadas e muito bem equipadas.

Entretanto, o transporte dessas forças e de seu equipamento dos confins da Sibéria para a Rússia Ocidental demandaria tempo. E foi nessa corrida contra o tempo, em que se empenhava com os alemães, que Jukov, com a ajuda de Rokossovsky e Shaposhnikov lançou mão de todas as reservas disponíveis em Moscou e proximidades. Para deter a vanguarda alemã, foram improvisadas até o fim de outubro quatro divisões completas, grupos especiais para combate nas ruas e pelotões equipados com armas antitanque e foguetes. Eram os frutos da lição de Leningrado. E como em Leningrado, as indústrias de Moscou foram mobilizadas para produzir cimento, tijolos, vergalhões de aço e demais materiais destinados a obras de fortificação e defesa. Também como já acontecera em Leningrado, uma das primeiras providências de Jukov ao assumir o comando em Moscou foi anunciar que a mais estrita disciplina deveria ser observada e que qualquer negligência no cumprimento do dever, por parte de oficiais, soldados ou civis mobilizados para a defesa, seria punida com fuzilamento sumário. Como em Leningrado — a reputação de inflexibilidade de Jukov se propagava rapidamente — sua determinação produziu efeitos imediatos.

A 6 de novembro, os tradicionais atos comemorativos da passagem da véspera do aniversário da Revolução de Outubro foram promovidos, sob a presidência de Stalin, na estação central do metro de Moscou. No dia seguinte, os cidadãos moscovitas que permaneciam na capital tiveram oportunidade de observar um espetáculo sem precedentes: Stalin, todos os membros do governo e da Stavka passaram em revista, na Praça Vermelha, grandes contingentes do Exército Vermelho que, da parada, seguiam diretamente para as linhas de frente. Os últimos vestígios de inquietação que se registravam em Moscou desapareceram naquela manhã.

Nesse meio tempo, o próprio Heinz Guderian, que comandava a vanguarda alemã, começava a manifestar dúvidas sobre a possibilidade de avançar com segurança, cobrindo os poucos quilómetros que se interpunham entre suas pontas de lança e Moscou. Seus homens ainda estavam em uniforme de verão — Hitler previra uma campanha de algumas semanas para vencer a URSS —, o inverno começara mais cedo do que de costume, o intenso frio já inutilizara os instrumentos éticos da artilharia e dos blindados. Além disso, seus tanquistas estavam exaustos e os próprios tanques demandavam revisões completas e reposição de peças vitais. A pedido de Guderian, Von Bock sugeriu ao comandante-chefe do Exército, Brauchitsch, uma pausa na ofensiva.

A resposta de Berlim, a 24 de novembro, foi a de que a ofensiva devia prosseguir a todo custo.

Jukov, completando seus planos de uma ofensiva geral contra a vanguarda alemã e o flanco oeste do Grupo de Exércitos Centro, continuava acumulando reservas na área de Moscou, aguardando a chegada das divisões siberianas e reforços para suas unidades blindadas, artilharia e aviação. Nesse meio tempo, jogando com as forças disponíveis em ações de retardamento, Rokossovsky recuava lentamente para Moscou, cedendo terreno e desgastando ao máximo a vanguarda alemã. A 27 de novembro, o fogo de artilharia era perfeitamente ouvido em Moscou. Stalin, apreensivo, telefonou a Jukov : "Tem a certeza de que poderemos manter Moscou? Faço esta pergunta com o coração contrito. Responda honestamente, como comunista".

Jukov replicou-lhe como um general: "Não há dúvida de que poderemos manter Moscou. Mas ainda precisamos de dois exércitos e de pelo menos duzentos tanques".

"É bom saber que está confiante" — respondeu Stalin. — "Entre em contato com Shaposhnikov e acerte com ele as áreas em que pretende concentrar os dois exércitos. Poderá contar com eles no fim de novembro, mas ainda não temos os tanques que pede."

Nos primeiros dias de dezembro, Guderian, num esforço que era produto do desespero — suas forças exaustas e despreparadas para a luta em condições de inverno rigoroso, carentes de peças de reposição para os blindados, com combustível, munição e víveres racionados, tinham perdido muito de sua agressividade —, chegou aos subúrbios de Moscou, enquanto era iniciado o movimento de pinças destinado a cercar e isolar a capital soviética.

Então, as condições atmosféricas ajudaram os russos. Intensas nevadas impediram os voos de observação dos alemães, tornando seus comandos praticamente cegos.

A brusca queda da temperatura produziu milhares de casos de congelamento total ou parcial entre os alemães expostos em uniformes de verão ao intenso frio. Os tanquistas descobriram que para movimentar os motores de seus veículos, pela manhã, tinham de manter fogueiras acesas sob eles durante toda a noite, para evitar que o óleo lubrificante congelasse. Além dos aparelhos óticos que não funcionavam, os artilheiros e tanquistas defrontavam-se com dificuldades inusitadas, pois a diferença de contração entre o latão dos cartuchos e o aço das culatras tornava um pesadelo o municiamento dos canhões.

E foi somente então que Jukov, que soubera esperar pacientemente a chegada das divisões siberianas, resistindo aos impulsos de atacar antecipadamente e ignorando até mesmo determinações de Stalin, desfechou, em condições ideais, a contra-ofensiva limitada que planejara cuidadosamente.

No dia 6 de dezembro, ele lançou todas as forças sob seu comando, inclusive as reservas da Stavka contra a vanguarda do Grupo de Exércitos Centro e suas linhas de comunicações. A contra-ofensiva geral soviética foi precedida por uma preparação de artilharia que colheu os alemães — privados pelo mau tempo de seus aviões de observação — totalmente de surpresa, compelindo-os a recuar precipitadamente. Pela primeira vez, na Segunda Guerra Mundial, os alemães não somente eram contidos, como já sucedera em Leningrado, mas compelidos a recuar em desordem, perseguidos pelos blindados soviéticos e pêlos cavalarianos do general Belov, que atuavam em seu elemento natural. Pilotos soviéticos, que operavam a partir de Moscou, chegaram a bombardear colunas blindadas alemãs em retirada, outro episódio até então inédito na guerra. Forças consideradas invencíveis tinham sido batidas e recuavam em toda a frente de Moscou.

No dia 13 de dezembro de 1941, enquanto a Rádio Berlim suspendia sem maiores explicações seu boletim diário sobre os progressos logrados pelo Grupo de Exércitos Centro, a Rádio Moscou anunciava ao mundo que os alemães estavam em retirada, depois de terem malogrado grado em seus esforços para cercar a capital soviética.

Sem condições de enfrentar a contra-ofensiva soviética no setor de Moscou, Guderian voou para o QG de Hitler — que a essa altura já substituíra Von Brauchitsch como comandante supremo do Exército — para informá-lo da crítica situação enfrentada pela vanguarda alemã, castigada pelos russos e pelo frio intensíssimo. Hitler prometeu a Guderian todo o equipamento demandado por suas forças, agasalhos e peças de reposição. Entretanto, depois do regresso de Guderian à frente de combate, as forças de Jukov continuavam avançando. No dia de Natal, para evitar que suas divisões motorizadas fossem envolvidas e cercadas pelas forças do Exército Vermelho, Guderian ordenou uma retirada tática — e no dia seguinte, teve o mesmo destino que teriam tantos generais alemães que exerciam comandos na frente russa, isto é, foi sumariamente relevado de suas funções e chamado de volta à Alemanha.

Pela primeira vez, desde o fatídico junho de 1941, Moscou vivia uma atmosfera de festa. Os jornais publicavam grandes fotografias dos generais que tinham comandado a contra-ofensiva, com grande destaque para as de seu organizador, Jukov, ressaltando a importância da vitória lograda. Enquanto os primeiros prisioneiros alemães eram exibidos nas ruas da capital, juntamente com suas bandeiras regimentais e estandartes, os jornais soviéticos anunciavam que mais de mil tanques, centenas de outros veículos militares, l.434 canhões e milhares de metralhadoras tinham sido tomados ao inimigo ou destruídos, ao passo que as baixas alemãs, entre mortos, feridos e prisioneiros, ascendiam a 300 mil homens.

Na atmosfera de regozijo que se registrou, Jukov foi um dos poucos comandantes soviéticos a não perder a cabeça. Tinha vencido o primeiro choque, repelindo a vanguarda alemã que ameaçava Moscou. Entretanto, repelir o inimigo não significava derrotá-lo. Os contraataques sucessivos na frente de Moscou tinham sacrificado as reservas estratégicas deslocadas da Sibéria. Com exceção de algumas esquadrilhas de bombardeiros médios, a defesa de Moscou não contara com cobertura aérea adequada e só o mau tempo reinante tinha impedido uma intervenção da força aérea tática alemã, que poderia ter sido decisiva. Mais ainda, as perdas de blindados tinham sido elevadas e as reservas de munição para artilharia estavam quase esgotadas.

De nada valia, nessas circunstâncias, lançar novas contra-ofensivas contra as forças alemãs, já reagrupadas, reequipadas e ocupando sólidas posições defensivas. Em seu entender, como afirmou na primeira reunião plenária da Stavka convocada após a vitória em Moscou, era indispensável constituir novas reservas estratégicas, suprir as baixas sofridas, reforçar as forças blindadas, organizar a indispensável cobertura aérea e, sobretudo, municiar devidamente a artilharia. Somente assim poderia ser lançada com êxito uma contra-ofensiva geral, destinada não apenas a repelir os invasores, mas a envolver suas forças, cercá-las e compeli-las a render-se ou morrer. Em suma, Jukov pretendia repetir no início de 1942, na frente central, o que já tinha conseguido contra os invasores japoneses em Kalkin Gel, três anos antes, nos confins da Mongólia.

Sua opinião, contudo, não prevaleceu na reunião da Stavka. Stalin mal atentou em sua argumentação. Raciocinando menos em termos militares do que políticos, insistiu no lançamento imediato de uma contra-ofensiva geral, partindo do princípio de que a retirada alemã devia ser explorada a fundo.

Contra a vontade de Jukov, que continuava apreensivo, a ofensiva foi lançada no princípio de janeiro, com algum sucesso inicial. Em abril, entretanto, o degelo restituiu às unidades alemãs a mobilidade perdida, e sua resistência se intensificou. As baixas soviéticas tornaram-se insustentáveis, os alemães lograram progredir em vários setores e, embora jamais voltassem a ameaçar Moscou, consolidaram suas posições e Stalin foi compelido a sustar a desastrosa ofensiva. "Sem tanques suficientes" — escreveria Jukov — "era impossível montar operações ofensivas em grande escala, para lograr resultados decisivos. Somente quem conta com forças blindadas poderosas e grandes formações de forças mecanizadas tem condições para manobrar devidamente, flanquear rapidamente o adversário, penetrar em sua retaguarda, cercar e dividir as diversas unidades de suas forças." Essa lição não seria esquecida.

Ainda assim, a malograda ofensiva geral não empanou os efeitos e consequências da vitória em Moscou, lograda num momento de desespero e depressão para as nações que se tinham unido na luta contra o Eixo. Era a primeira luz que brilhava no momento em que as trevas pareciam mais densas — e os próprios alemães, até então invencíveis, foram compelidos a reconhecer, após a batalha de Moscou, que a campanha na frente oriental seria longa, penosa e duríssima, muito diferente de todas aquelas em que a Blitzkrieg se revelara irresistível.

Nessa campanha, até então, Jukov alcançara alguns resultados táticos. A partir de 1942, entretanto, deveria submeter-se a uma prova crucial, não mais como simples comandante de setores ameaçados pelo inimigo, mas como estrategista.

A virada da maré[editar | editar código-fonte]

Os comandantes supremos em 5 de junho de 1945 em Berlim: Bernard Montgomery, Dwight D. Eisenhower, Georgy Jukov e Jean de Lattre de Tassigny.

Mesmo após a amarga derrota que lhes fora infligida por Jukov na frente de Moscou, os alemães ainda mantinham a iniciativa em toda a Frente Oriental e em determinados setores, como no Sul, logravam grandes vitórias. Tinham conquistado a Crimeia e em meados de 1942 marchavam rumo ao Cáucaso. Enquanto isso, os soviéticos, ainda sofrendo as desastrosas consequências da ofensiva geral que malograra, após a vitória em Moscou, empenhavam-se em reconstituir suas forças, organizar novas reservas estratégicas e produzir nas indústrias transferidas para os Urais os milhares de tanques e aviões que a situação demandava.

Em busca das vitórias decisivas que visava, Hitler, na primavera de 1942, decidiu diversificar seus objetivos e, em lugar de concentrar o poderio máximo num determinado setor, dividiu suas forças: enquanto o grupo de exércitos A devia ocupar o Cáucaso, apoderando-se das principais jazidas petrolíferas da URSS, o grupo de exército B devia cruzar o Don e ocupar Stalingrado, um dos mais importantes entroncamentos ferroviários e chave da rede de comunicações fluviais da Rússia Central.

Essa divisão de forças, para atingir objetivos simultâneos, situados a grande distância um do outro, seria fatal aos alemães.

A própria extensão excessiva das linhas de comunicação e abastecimento, sobre terreno altamente irregular e ante crescente resistência soviética, pôs fim ao sonho alemão de conquista do Cáucaso, compelindo as forças de Von Manstein a recuar.

No setor central, o desfecho não seria um simples recuo. Stalingrado, a antiga Czaritsyn — onde Stalin constituíra o núcleo do grupo com que mais tarde enfrentaria e derrotaria Trotsky — era considerada por Hitler, assim como Leningrado e Moscou, um símbolo a ser totalmente erradicado. Pelas mesmas razões, o comando soviético considerava Stalingrado uma posição a ser mantida a qualquer custo, não importando que sacrifícios demandasse. Daí a ferocidade da luta que se travou em torno da cidade, no período que se estendeu de julho de 1942 a fevereiro de 1943, numa sucessão de batalhas que dominaria toda a campanha na Rússia e cujo resultado determinaria o seu próprio desfecho.

À margem da luta, a carreira política de Jukov também seria afetada decisivamente pêlos acontecimentos desenrolados em Stalingrado, pois, assim como Stalin ali constituiria seu próprio grupo, que lhe garantiria a vitória na luta pelo poder, Nikita Kruschev, como comissário-chefe de todo o teatro de operações, ali estava constituindo o seu, obtendo o apoio de figuras importantes para sua própria ascensão ao poder. Foi ali, em plena luta, que se consolidou a aliança política Kruschev-Jukov.

Este, até então responsável pela tática e comando operacional em vários setores, atuou em Stalingrado mais como o grande responsável geral pela estratégia. Tal fato contribuiu para aureolá-lo de glória — e para as queixas de vários generais soviéticos que viveram meses de angústia no comando operacional do setor. Um destes era Chuikov, arrebatado, inteligente e mordaz, que começara a guerra como tenente-general e deveria terminá-la como tenente-general, pois as promoções lhe escapavam em consequência de seu temperamento desabusado e irreverente.

Muitos anos depois, em suas próprias memórias de guerra, Chuikov contestaria a importância do papel de Jukov em Stalingrado, atribuindo-se os méritos da grande vitória. Nisso, entretanto, incidia em exagero, uma vez que o verdadeiro planejador da estratégia soviética foi Jukov.

Em setembro, quando as forças do VI Corpo de Exércitos, comandadas por Friedrich von Paulus investiram as defesas internas de Stalingrado, Jukov começou a planejar uma gigantesca contra-ofensiva nessa área. Ordenou a Chuikov que resistisse a todo o custo, enquanto preparava seus planos. Apoiado pela artilharia soviética situada na margem oposta do Volga, Chuikov resistiu a todos os ataques alemães, fazendo frente ao inimigo mais poderoso, que se empenhava na destruição metódica de Stalingrado para depois ocupar suas ruínas. Entre outubro e novembro, particularmente, a cidade esteve a ponto de cair várias vezes, enquanto atacantes e defensores lutavam por cada casa. O troar da artilharia e as explosões das granadas eram ouvidos a mais de 20 quilómetros de distância. Ante a aproximação do inverno e a obstinada resistência de Chuikov, os generais alemães recomendaram a Hitler que retirasse as forças empenhadas em Stalingrado, pois sua posição poderia tornar-se insustentável. A essa altura, o comando alemão tinha informações de que Jukov estava concentrando suas reservas de blindados e artilharia para uma contra-ofensiva. Não conheciam o âmbito desta, mas sabiam que o VI Exército estava ameaçado.

Hitler, entretanto, preferiu demitir o general Halder, chefe de seu estado-maior, e substituí-lo por Kurt Zeitzicr, mais dócil e identificado com seus planos. E em lugar de retirar a tempo suas forças ameaçadas, determinou o envio de divisões romenas, húngaras e italianas — de capacidade de combate mais que duvidosa — para o setor. Essas divisões deveriam proteger os flancos do VI Exército, enquanto este se empenhava na conquista de Stalingrado.

Nesse meio tempo, Jukov obtivera da Stavka as forcas que solicitara para a grande contra-ofensiva e começara a concentrá-las, cuidadosamente, na margem do Volga em poder dos soviéticos. Os maiores cuidados fórum tomados pêlos soviéticos para evitar que a aviação alemã avaliasse corretamente o poderio dessa concentração.

Inicialmente, as forças reunidas pelo comando soviético para a ofensiva tinham sido consideradas insuficientes por Jukov que, como representante da Stavka, ora submetido a dupla e crescente pressão. De um lado, Chuikov e os exaustos defensores de Stalingrado estavam esgotados e mal tinham condições para resistir à pressão dos alemães, que atacavam desesperadamente para completar a ocupação da cidade antes da chegada do inverno. Pura defender-se, a guarnição de Stalingrado dependia da artilharia postada na margem oposta do Volga e, na intensa luta que se travava, os soviéticos recuperavam em combates noturnos as áreas perdidas durante o dia para os alemães. Consequentemente, Chuikov e seus oficiais dirigiam apelos cada vez mais urgentes a Jukov, para que iniciasse logo a grande ofensiva preparada. Por outro lado, Stalin estava impaciente, exigindo uma rápida vitória sobre os alemães e insistindo no início da ofensiva sem mais delongas. Como os demais integrantes políticos da Stavka, ele não apenas queria beneficiar-se politicamente de uma grande vitória como ainda reduzir a pressão alemã em outras áreas da vasta frente de luta.

Mas Jukov não esquecera a lição da malograda ofensiva desfechada após a vitória em Moscou — e somente depois de reunir todos os recursos que reclamara, isto é, mais de l milhão de homens, uma poderosa concentração de artilharia, dois exércitos de forças blindadas e de infantaria, ele designou os comandantes dos diversos setores (Rokossovsky, leremenko e o especialista em artilharia, Voronov). Reunindo os comandantes de corpos de Exército, Exércitos e Divisões que participariam da ofensiva, Jukov expôs detalhadamente seus planos, certificando-se de que todos os seus comandantes estavam familiarizados com a operação. "Jukov — lembra Rokossovsky em suas memórias — demonstrou nessas reuniões grande erudição e um perfeito conhecimento da situação" - Insistia na mais perfeita coordenação entre as forças blindadas, a aviação, a artilharia e a infantaria motorizada, no papel crucial reservado aos tanques e unidades de cavalaria que seriam empregados para romper as linhas inimigas e na necessidade de exploração imediata de todas as brechas abertas.

As forças em confronto na área, segundo Jukov, eram aparentemente do mesmo poderio — cerca de 1 milhão de homens de cada lado. Os soviéticos, entretanto, deveriam ser beneficiados por linhas de comunicação mais curtas e possibilidade de deslocar mais rapidamente reservas estratégicas para os pontos em que fossem necessárias.

Seu plano geral era simples. A ofensiva seria desencadeada ao longo de uma frente de 400 quilômetros, tendo o Volga por eixo. Avançando em linhas convergentes, as forças blindadas e a cavalaria, seguidas de perto pela infantaria motorizada e contando com cobertura permanente da aviação e da artilharia, deviam cercar e isolar o VI Exército alemão. Completada a operação de cerco, o grosso das forças soviéticas seria lançado contra os Exércitos alemães que deveriam ser enviados da frente sul — como de fato ocorreu — em ajuda às unidades cercadas. A ofensiva só teria êxito se fosse perfeitamente coordenada, precisamente de acordo com o plano geral. Se o cerco não fosse completado a tempo, se o VI Exército não fosse isolado e as forças de socorro enviadas pelos alemães não fossem detidas e batidas, a gigantesca operação estaria fadada a um desastre de proporções incalculavelmente maiores e mais graves do que tinha sido a contra-ofensiva lançada após a vitória em Moscou.

Na manhã de 19 de novembro, antecedidos por longa preparação de fogo de artilharia, as forças blindadas e a infantaria mecanizada de Jukov iniciaram a ofensiva, rompendo o elo mais fraco da linha alemã, que era constituído pelas divisões romenas. A brecha foi imediatamente ampliada e no dia seguinte as primeiras unidades soviéticas passaram a operar na retaguarda das forças de Von Paulus. Quatro dias depois, a primeira fase da operação tinha sido completada com êxito. Os 300 mil alemães que integravam o VI Exército estavam cercados e seu destino estava selado. Para impedir que os cercados fossem socorridos ou rompessem as linhas soviéticas, Jukov deslocou para a frente sul mais da metade de suas reservas, interpondo-as entre o VI Exército e as forças deslocadas precipitadamente para a região, sob o comando de Von Manstein.

Paulus, cercado, pediu instruções a Berlim, propondo um esforço conjugado de suas forças com as de Manstein, para romper as linhas soviéticas. A ordem que recebeu — e que receberia até o fim — era de resistir por todos os meios, até a chegada da força de socorro comandada por Manstein. Enquanto isso, recorrendo à sua poderosa artilharia, Jukov começava a dividir sistematicamente em seções as forças inimigas cercadas, reduzindo, permanentemente, seu perímetro de defesa.

A tentativa desenvolvida por Von Manstein para romper o cerco imposto ao VI Exército malogrou quando as forças blindadas de Malinovsky romperam as linhas de defesa do VIII Exército italiano, perto de Rostov. Para estabilizar a frente, Manstein foi obrigado a abrir mão de suas forças blindadas — e perdeu assim a indispensável ponta de lança com que contava para romper o cerco soviético .

Em Berlim, a situação do VI Exército era considerada grave, mas não desesperadora. O comandante da Força Aérea alemã, Goering, prometera organizar uma "ponte aérea" que transportaria 500 toneladas diárias de suprimento às forças de Von Paulus. Mas em consequência do mau tempo, da superioridade numérica dos caças soviéticos e das barragens incessantes da artilharia de Jukov, que dominava os dois aeródromos mantidos pêlos alemães, o volume dos suprimentos enviados por via aérea ao Exército cercado nunca ultrapassou 100 toneladas diárias. Em fins de dezembro, famintos, os alemães cercados viram-se a braços com uma epidemia de tifo. Promovido a marechal, Von Paulus era intimado diariamente por Hitler a lutar até o fim. Entretanto, a 22 de janeiro os alemães perderam o último aeródromo que detinham e as comunicações do VI Exército foram definitivamente cortadas. Finalmente, a 2 de fevereiro de 1943, Von Paulus, com 24 de seus generais e pouco menos de 100 mil sobreviventes, rendeu-se formalmente a Rokossovsky.

Em Moscou salvas de artilharia foram disparadas para comemorar a vitória, enquanto Jukov, condecorado com a Ordem de Suvorov, era promovido ao posto de Marechal da União Soviética. Era o primeiro soldado soviético a ser distinguido com tal honra na Segunda Guerra Mundial.

Tudo isso se justificava, pois Stalingrado não constituíra apenas uma grande vitória local. Se em Leningrado Jukov tinha conseguido salvar a cidade ameaçada e se em Moscou lograra conter os alemães, em Stalingrado ele lhes infligira uma derrota tática e estratégica de proporções decisivas.

Assim como a vitória naval norte-americana em Midway, sobre os japoneses, e a vitória britânica em El Alamein, na África, sobre os alemães e italianos, Stalingrado era um indício seguro de que a situação geral se transformara radicalmente. A guerra ainda estava longe do fim, mas daquele momento em diante as forças do Eixo seriam compelidas a recuar em todas as frentes. Stalingrado foi o começo da mudança da maré.

Kursk, a maior batalha[editar | editar código-fonte]

Stalingrado não constituíra para Jukov apenas a maior vitória estratégica até então lograda na guerra sobre os alemães, pois se a História não se repete, de acordo com o conhecido aforismo, suas circunstâncias, às vezes, são mais que semelhantes.

Sob o aspecto político, por exemplo, Stalingrado foi quase uma reprodução de Czaritsyn. Assim como, nesta, Stalin soubera cercar-se dos agitadores profissionais que acabariam controlando o Exército Vermelho e cujo apoio militar seria um dos seus grandes trunfos na luta contra Leon Trotsky, pelo poder, Nikita Kruschev soubera cercar-se em Stalingrado dos generais que antes do fim da guerra seriam marechais — Jukov, Konstantin Rokossovsky, Malinovsky, Voronov, Vassilevsky — e que depois do conflito exerceriam uma influência tão grande quanto a que fora exercida até 1941 pelos remanescentes do grupo de sargentos.

Jukov, cuja capacidade de organizador Kruschev há muito admirava, converteu-se depois de Stalingrado num dos seus mais importantes sustentáculos políticos, cuja colaboração seria requerida e prestada no momento oportuno.

Naquele momento, todavia, quando o fumo da pólvora mal começava a dissipar-se sobre as ruínas de Stalingrado e longas colunas de prisioneiros alemães, italianos, romenos e húngaros marchavam para Moscou e o cativeiro na Sibéria, ninguém se preocupava com isso — exceção feita talvez a Kruschev, cujo aspecto bonacheirão apenas mascarava uma imensa ambição e desejo de poder.

Se outros pensavam como Kruschev, naquelas circunstâncias, sabiam disfarçar perfeitamente seus sentimentos, uma vez que a necessidade urgente é inadiável — estimulada pela Stavka — era a de prosseguir na ofensiva, até infligir a derrota final e incondicional aos alemães.

Foi com esse estado de ânimo que, prosseguindo na ofensiva após Stalingrado, as forças soviéticas levaram os alemães de vencida no setor central. Quando, finalmente, Von Manstein, comandante do Grupo de Exércitos Sul e Von Kluge, comandante do Grupo de Exércitos Centro, conseguiram estabilizar a frente, a vanguarda soviética estava solidamente estabelecida num bolsão que se projetava além de suas linhas, na área de Kursk.

Os estrategistas alemães compreenderam logo que devidamente reforçadas, as grandes unidades soviéticas que operavam na área poderiam fazer junção com as forças da frente ocidental, isolando e cercando todo o flanco esquerdo dos Exércitos de Kluge e ameaçando seriamente as forças de Erich von Manstein, no Sul.

Esses mesmos estrategistas recomendaram a Adolf Hitler uma retirada planejada ao Norte e ao Sul de Kursk, para retificação da frente. Encurtando suas linhas de comunicação e operando a partir de posições e bases sólidas, os Grupos de Exércitos Centro e Sul poderiam, dessa forma, enfrentar em condições vantajosas a ofensiva que os soviéticos estavam preparando para a primavera.

Mas Hitler continuava absolutamente contrário a qualquer retirada. Depois de estudar cuidadosamente os mapas operacionais do Estado-maior, concluiu que o bolsão soviético em Kursk representava uma ameaça direta a Orei e Karkov, duas das mais importantes bases alemãs na União Soviética. E foi com fundamento nessa mesma conclusão que ordenou a preparação do que seria a última das grandes ofensivas alemãs na Segunda Guerra Mundial — a Operação Cidadela, que tinha por objetivo eliminar o bolsão soviético em Kursk e destruir as reservas estratégicas que estavam sendo concentradas na área para a prevista ofensiva russa da primavera.

As objeções apresentadas por alguns generais alemães — as forças em operações na URSS tinham sofrido baixas pesadíssimas nos últimos meses, as unidades blindadas e de infantaria motorizada estavam com seus efe-tivos reduzidos, os soviéticos estavam a ponto de conquistar o domínio do espaço na frente central — foram ignoradas por Hitler, que não abriu mão de seus planos. Para garantir o êxito da Operação Cidadela, reforços aéreos e terrestres foram transferidos de toda a Europa ocupada para a área de Kursk, com a finalidade de completar os efetivos das forças que seriam empenhadas. Por outro lado, Hitler tinha grande confiança nas "superarmas' que pretendia lançar contra os russos: os novos tanques da série Panther, protegidos por grossa blindagem, rápidos e bem armados, e os enormes Ferdinand, que eram verdadeiras fortalezas sobre esteiras, certamente surpreenderiam os soviéticos.

E enquanto Hitler recorria a todas as suas reservas para garantir o êxito da Oeração Cidadela, os soviéticos, sob o comando geral de Jukov, preparavam-se cuidadosamente para fazer frente à ofensiva e, simultaneamente, para desfechar sua contra-ofensiva. Ao contrário da atmosfera que predominava entre os alemães — somente Hitler e alguns de seus comandantes mais agressivos pareciam acreditar sinceramente no êxito da ofensiva — os soviéticos estavam confiantes e tranquilos. Tinham boas razões para isso. Lucy, o misterioso agente que mantinham na Suíça, transmitia todas as noites, pelo rádio, os planos pormenorizados do alto comando alemão. Assim, tinham prévio e perfeito conhecimento das intenções adversárias. Além disso, tendo conquistado o domínio do espaço aéreo, na frente central, tornavam quase impossíveis os voos de observação dos pilotos alemães, o que lhes permitia efetuar suas deslocações e concentrações sem o conhecimento ou interferência do inimigo. Tal vantagem teve extraordinário valor para os soviéticos, pois estando previamente a par dos principais eixos da ofensiva alemã, puderam preparar a tempo extensas faixas de minas, com passagens especialmente abertas para o campo de fogo de canhões antitanque.

Jukov preparou com imenso cuidado e paciência seu dispositivo. Certificava-se pessoalmente da disposição das diversas grandes unidades; exigia uma preparação cuidadosa, que ia aos mínimos detalhes, por parte de todas as forças, em todos os escalões; insistia, como sempre, na perfeita coordenação e mantinha conferências diárias com seus comandantes — Sokolovsky, na frente ocidental, Popov, na frente de Bryansk, Konstantin Rokossovsky e Nikolai Vatutin, na frente central, e Malinovsky, ao Sul, enquanto Koniev, na retaguarda, contava com meios para lançar poderosas reservas estratégicas nos pontos eventualmente ameaçados pêlos alemães ou através das brechas abertas nas linhas inimigas.

Assim, na véspera do início da Operação Cidadela, as duas maiores forças militares já reunidas no mundo estavam preparadas para participar da batalha de Kursk, que seria também a maior já travada.

O poderio dos adversários era praticamente equilibrado. Von Kluge e Von Manstein dispunham de 900 mil homens, 10 mil peças de artilharia de todos os calibres, 2 700 tanques e canhões de assalto e 2 500 aviões de combate de todos os tipos. Do outro lado, Jukov contava com um milhão e 300 mil homens, 20 mil peças de artilharia, 3 mil tanques e canhões de assalto e 2 650 aviões, quase todos caças e caças-bombardeiros. A superioridade numérica dos soviéticos era equilibrada pela experiência dos alemães nesse tipo de luta e o resultado, menos que dos efetivos empenhados, dependeria da capacidade de comando.

E se em Stalingrado os soviéticos, sob o comando de Jukov, já tinham demonstrado sua capacidade de mobilizar, deslocar e empregar efetivamente grandes contingentes e enorme massa de material, em Kursk deviam demonstrar sua capacidade de manobrar em espaço reduzido, arte na qual os alemães sempre se tinham mostrado mestres consumados.

A Operação Cidadela — que se converteria na maior batalha do mundo — foi iniciada a 5 de julho de 1943 com ofensivas simultâneas de Manstein, pelo sul, e Kluge, pelo norte. A cobertura aérea alemã era excelente, pois a Luftwaffe, reforçada com grupos retirados até mesmo da frente italiana, tinha condições para efetuar 3 mil surtidas por dia contra as posições soviéticas. Com essa cobertura e o apoio dos novos Panther e Ferdinand, Manstein e Kluge estavam convencidos de que romperiam as linhas soviéticas e teriam condições para reiniciar a nova ofensiva em direção a Moscou, explorando a desorganização e desmoralização das forças soviéticas, depois de derrotá-las.

Mas os soviéticos estavam devidamente preparados e as duas fases da grande batalha de Kursk foram surpreendentemente rápidas, características da guerra de movimento que os próprios alemães haviam aperfeiçoado e refinado. Kluge nem ao menos chegou a pequena distância das linhas soviéticas. A poderosa artilharia, a concentração de armas antitanque e os extensos campos minados que encontrou pela frente, assim como um poderoso contra-ataque soviético contra sua ala esquerda o forçaram a passar da ofensiva à defensiva. No sul, Manstein conseguiu abrir algumas brechas nas linhas de defesa de Vatutin, mas as reservas de Koniev foram lançadas sobre sua vanguarda e a luta que se seguiu foi a maior batalha de blindados da História. No dia 12 de julho, a vitória soviética já era evidente.

As forças de Jukov abandonaram suas posições e passaram à ofensiva geral ao longo de toda a frente, em perseguição ao inimigo derrotado, cujas baixas tinham sido enormes. Os tanques Panther não se tinham mostrado tão eficientes quanto haviam previsto seus" criadores, ao passo que os enormes Ferdinand, que não contavam com a proteção de armas automáticas eficientemente dispostas, tinham sido presa fácil da infantaria soviética.

Na esteira dos alemães em retirada, as forças de Jukov, prosseguindo na grande contra-ofensiva iniciada em Kursk, reconquistariam não somente os pontos-chave de Orel e Karkov como também Kiev, ampliando a sua frente geral de operações do mar Negro ao Báltico.

As perdas soviéticas nas grandes batalhas de Kursk e nas que se seguiram nunca chegaram a ser reveladas. Nelas, entretanto, sabe-se que os alemães perderam mais de 400 mil homens que, ao contrário dos russos, não teriam substitutos. O fato de as derrotas sucessivas impostas aos alemães não ter resultado numa desordenada debandada de forças desmoralizadas, tendo-se processado em boa ordem, constitui, por si, um atestado da alta capacidade de Manstein e dos demais generais comandantes de setores na frente oriental.

Essa imensa retirada ordenada, porém, marcou definitivamente o fim da capacidade ofensiva alemã. A partir de Kursk, Hitler jamais reuniria condições para desfechar uma grande ofensiva contra a URSS. Doravante, os alemães se empenhariam apenas em batalhas estritamente defensivas, tentando adiar ao máximo o desfecho que lhes seria fatal.

Para os soviéticos, por outro lado, Kursk produziu uma série de resultados espetaculosos e imediatos. Não somente garantiu a reconquista de vastas áreas industriais e do imenso celeiro da Ucrânia, como ainda contribuiu para convencer os soldados soviéticos que nada ficavam a dever aos alemães. Se a defesa de Leningrado, a vitória em Moscou e a derrota imposta aos alemães em Stalingrado tinham dependido muito da iniciativa de alguns militares de talento, como Jukov e os jovens generais, da capacidade de improvisação e da exploração de fatos circunstanciais, Kursk demonstrou que o novo Exército Vermelho, forjado na guerra, tinha condições de enfrentar as melhores, mais bem equipadas e mais bem comandadas forças alemãs em terreno e no momento escolhido por elas, detê-las, batê-las e compeli-las a recuar.

A partir de Kursk, a iniciativa em toda a frente oriental escapou definitivamente aos alemães e passou a ser detida pêlos soviéticos.

As consequências políticas da batalha também seriam cruciais: Bulgária, Roménia, Hungria e a própria Finlândia, considerando sua própria segurança, reconsiderariam sua posição em relação à Alemanha, com a consequente aceleração do colapso da resistência desta.

Em reconhecimento ao papel vital de Jukov, como principal responsável pela grande vitória de Kursk e seus desdobramentos, o Praesidium do Soviete Supremo da União Soviética atribuiu-lhe no dia 31 de julho a sua segunda Ordem de Suvorov.

Até Berlim[editar | editar código-fonte]

A partir de Kursk, a situação dos alemães agravou-se continuamente, em consequência de dois fatores: a crescente pressão dos aliados ocidentais, primeiro na Itália e a partir de junho de 1944, na França; e a organização da União Soviética para a guerra total, sob a forma de produção e efetivos.

Contando com vastos recursos materiais e uma massa de forças quase inexaurível, os soviéticos montaram um grande rolo compressor que não poderia mais ser detido nem mesmo por excelentes profissionais, como eram os generais alemães. Estes, sempre tendo de levar em conta a inferioridade numérica que beneficiava o inimigo e carentes, em grau cada vez maior, de todo o tipo de equipamentos e suprimentos, ainda tinham de haver-se com as diretivas de Hitler, que continuava dirigindo pessoalmente a estratégia em todas as frentes. Proibia terminantemente qualquer retirada — suas ordens permanentes eram sempre as de resistir até o último cartucho — e sua estratégia demandava uma defesa estática. Consequentemente, os generais alemães, especialistas em guerra de movimento, não podiam opor aos soviéticos a única forma de resistência que lhes teria sido possível nessas circunstâncias, isto é, uma defesa elástica, em profundidade.

Como representante da Stavka na frente ocidental e tendo por objetivo final Berlim, Jukov, a partir de Kursk, limitava-se a enviar às áreas escolhidas para as sucessivas ofensivas todos os recursos humanos e materiais demandados pêlos comandantes de setor. Empenhados na defesa estática, tal como queria Hitler, os alemães eram atacados frontalmente, flanqueados e esmagados pelo poderio superior soviético — e os generais que conseguiam retirar das áreas de combates, de antemão perdidos, uma parte de sua forças eram imediatamente destituídos de seu comando, e substituídos por oficiais mais afinados com a política de resistência suicida estabelecida por Hitler.

A 20 de julho de 1944, descendo irresistivelmente para o Ocidente sob o comando de Jukov, o Exército Vermelho retomou Brest, a primeira fortaleza russa a cair em poder dos invasores em 1941. Os objetivos imediatos de uma série de ofensivas combinadas eram agora a Polônia, a Prússia Oriental, a Checoslováquia e a Hungria.

Entretanto, como representante da Stavka e executor das decisões de Stalin, Jukov não era apenas um chefe militar, mas um representante político, o que ficou claro por ocasião do levante de Varsóvia, iniciado em agosto de 1944.

A aproximação dos soviéticos, cujas vanguardas se achavam do outro lado do Vístula, quase à distância de tiro de artilharia de Varsóvia, o general Borkomorowski, fiel ao governo exilado em Londres, e que comandava uma organização clandestina não-comunista de resistência, iniciou.um levante geral contra a guarnição alemã. A luta logo se intensificou em toda a capital polonesa, os alemães enviaram poderosos reforços das unidades SS para Varsóvia e Bor passou a dirigir uma série de apelos e de desesperados pedidos de ajuda aos soviéticos e aliados ocidentais.

Jukov sustenta que o levante de Bor foi iniciado sem a devida preparação e sem conhecimento das suas forças que avançavam sobre Varsóvia, sob o comando de Rokossovsky. Sustenta também que na medida do possível os soviéticos ajudaram os insurgentes que combatiam os alemães lançando-lhes, por via aérea, armas, munições, víveres e medicamentos. Contudo, os depoimentos dos sobreviventes poloneses da luta contradizem totalmente o marechal: nada receberam, dos russos, além de algumas emissões da rádio Moscou, a qual clasifiçava os líderes do levante de "camarilha pequeno burguesa empenhada em criminosas manobras desviacionistas".

Tudo indica que a razão está com os poucos sobreviventes poloneses, uma vez que as forças soviéticas, sob o comando de Rokossovsky, poderiam ter cruzado o Vístula sem grandes dificuldades, socorrendo os que se batiam na capital, pois os alemães não contavam com meios para detê-los. Além disso, o simples fato de Moscou ter negado à RAF e à Força Aérea norte-americana permissão para pousar seus quadrimotores de transporte em território ocupado pelas forças soviéticas impediu os ocidentais de proporcionar ajuda aos poloneses que em Varsóvia se batiam desesperadamente com os alemães. Umas poucas surtidas foram feitas pela aviação norte-americana com bases na Itália, mas a longa viagem de ida e volta sobre território inimigo, para lançar suprimentos aos combatentes poloneses, era quase inviável. Assim, Bor foi compelido a render-se aos alemães no início de outubro, após o sacrifício de mais da metade de suas forças.

Tudo indica que a decisão de deter a ofensiva no Vístula e aguardar o desfecho inevitável da luta em Varsóvia foi o produto de uma fria decisão de Stalin, devidamente implementada por Jukov e Rokossovsky. Os soviéticos, ao contrário dos ocidentais, só reconheciam o governo no exílio polonês estabelecido em Moscou e constituído por veteranos comunistas. A eventual vitória do levante de Bor reforçaria substancialmente a posição do governo polonês exilado em Londres. Assim, Stalin permitiu, deliberadamente, que os poloneses não-comunistas e os alemães se exterminassem em Varsóvia. E quando, no início de 1945, as vanguardas de Rokossovsky entraram em Varsóvia, a cidade era pouco mais que um monte de ruínas e os soviéticos não tiveram dificuldades em estabelecer o núcleo do futuro governo comunista da Polônia.

Os desdobramentos políticos da carreira militar de Jukov só tenderiam a ganhar corpo a partir dessa ocasião.

E de Varsóvia em diante a carreira militar de Jukov se tornou inextricável de sua carreira política, uma vez que mais que nunca uma passou a depender da outra.

Isso se aplicaria especialmente à última fase da campanha, quando, depois de reconquistados todos os territórios soviéticos ocupados pelos alemães, o Exército Vermelho partiu para a ofensiva em áreas situadas além de suas fronteiras originais — caso dos Estados bálticos, convertidos em Repúblicas-satélites e incorporados à URSS, a Hungria, a Áustria, a Checoslováquia, a Iugoslávia e a Polônia, para não se falar da Alemanha propriamente dita.

Jukov continuava sendo o representante pessoal de Stalin e da Stavka — e como tal foi pessoalmente encarregado de coordenar o último esforço final do Exército Vermelho, que deveria culminar com a conquista de Berlim.

Stalin fazia questão de que o Exército Vermelho entrasse em Berlim antes das forças ocidentais que, do lado oposto, cruzavam o Reno também com destino à capital alemã. Tal vitória, mais que militar — era evidente, a essa altura, que a Alemanha estava literalmente esmagada e que tinha condições de oferecer apenas uma resistência simbólica ao imenso poderio aliado contra ela concentrado — teria implicações políticas de largo alcance. A conquista de Berlim pelo Exército Vermelho proj etária sobre o mundo uma nova imagem da União Soviética e particularmente do movimento internacional comunista liderado por Moscou. Assim, menos que um simples objetivo militar — uma vez que a guerra estava ganha, sendo a rendição incondicional alemã uma mera questão de tempo — Berlim constituía essencialmente um grande objetivo político. E, naturalmente, os marechais soviéticos que tinham ambições políticas, competiam arduamente para chegar primeiro a Berlim.

Stalin, acostumado a jogar com as ambições, rivalidades e ódios de seus subordinados, incrementava habilmente a disputa, ora favorecendo Malinovsky, que operava no Sul, a caminho de Viena, ora Rokossovsky, que comandava na Polônia e na Prússia Oriental, ora Koniev e Jukov, que avançavam paralelamente sobre Berlim.

Cada qual progredia de acordo com seu estilo e os meios de que dispunha para a grande ofensiva final.

Malinovsky, antigo cavalariano, dava plena liberdade às suas colunas blindadas que convergiam sobre Viena. Avançava com um mínimo de reservas de combustível e munições. Suas forças eram praticamente auto-suficientes, isto é, aprovisionavam-se recorrendo às reservas conquistadas ao inimigo. Assim, sem a preocupação de estabelecer e defender extensas linhas de comunicação, seu progresso era rápido, facilitado pela pouca resistência oferecida pelo inimigo no setor.

Rokossovsky, que exigia uma completa preparação de artilharia antes de desfechar qualquer ofensiva, progredia mais lentamente, uma vez que os alemães ofereceram intensa resistência tanto na Polónia como na Prússia Oriental, as áreas cobertas por seu comando.

Koniev, permanentemente preocupado com a disposição de suas reservas estratégicas, também exigia boa preparação de artilharia e deslocava-se a ritmo relativa- ( mente lento, preferindo eliminar todos os focos isolados de resistência antes de prosseguir no avanço.

Dentre eles, apenas Jukov aplicava a fundo todos os princípios fundamentais da guerra de movimento, promovendo uma perfeita coordenação de blindados com a infantaria motorizada, a aviação tática e a artilharia. Não progredia tão rapidamente como Malinovsky nem tão lentamente como Rokossovsky e Koniev. Não raro, como nas grandes operações que organizou na Prússia, seu avanço era limitado deliberadamente, para garantir uma perfeita coordenação — o que impacientava Stalin, ansioso por uma rápida vitória final. Quando acionava seu dispositivo completo, entretanto, Jukov era irresistível. Não lhe escapavam os menores detalhes: antes de iniciar sua ofensiva final rumo a Berlim, o marechal providenciou, por exemplo, a instalação de 180 hospitais de campanha, com 60 mil leitos de reserva.

Deslocando-se paralelamente, dentro da melhor técnica da Blitzkrieg as vanguardas blindadas de Jukov e Koniev aprofundaram-se pela Prússia Oriental, com plena cobertura da aviação tática. Ao deparar com focos de resistência organizada, essas vanguardas simplesmente contornavam os pontos fortes e prosseguiam rumo a seu destino, enquanto unidades especiais de infantaria e artilharia eram destacadas das colunas principais para eliminar a resistência, unindo-se mais tarde às forças que desenvolviam a ofensiva. Noutras palavras, a técnica empregada por Jukov em sua longa marcha rumo a Berlim era idêntica à empregada pêlos alemães ao invadir a URSS — com a diferença de que os soviéticos não precisavam preocupar-se com economia de efetivos nem de material, uma vez que sua superioridade sobre os alemães era esmagadora.

A 1 de abril de 1945, Jukov e Koniev foram chamados a Moscou por Stalin. Eisenhower, levando em conta as pesadas baixas que seriam sofridas pelas forças aliadas e com a guerra praticamente ganha, comunicara a Moscou que não se interessava pela conquista de Berlim. Suas forças não ultrapassariam o Elba, situado a 50 quilômetros da capital alemã. Stalin, entretanto, que suspeitava de tudo e de todos, não confiava em Eisenhower. Temia um engodo e fazia questão de que as forças soviéticas fossem as primeiras a chegar a Berlim. E conhecendo a intensa rivalidade que reinava entre Jukov e Koniev, interpelou-os: "Então, quem chegará primeiro a Berlim? Nós ou os ocidentais?"

Um e outro asseguraram a Stalin que estavam em condições de tomar rapidamente Berlim.

Stalin ordenou-lhes então que submetessem à Stavka os seus planos detalhados para a conquista do último reduto alemão. De posse dos planos e continuando a jogar com a ambição e o desejo de glória dos dois marechais, Stalin deu a entender que aquele que conquistasse a posição mais favorável para um ataque final contra Berlim teria a glória de ocupá-la.

Sempre cauteloso, Jukov planejou meticulosamente o ataque final de suas forças contra Berlim. Em lugar de jogar todas as suas possibilidades no impacto da massa que comandava — como faria Koniev no emprego de seus blindados e artilharia — Jukov, valendo-se da superioridade aérea soviética, efetuou um minucioso levantamento fotográfico de Berlim e suas defesas, treinou durante mais de três semanas todas as forças incumbidas do assalto final e decidiu que o ataque seria desfechado pela madrugada, com a ajuda de 140 gigantescos holofotes normalmente usados na defesa antiaérea.

O próprio Jukov descreve o início de sua última ofensiva, exatamente às cinco horas da madrugada de 16 de abril:

"Naquele exato momento, a passagem sobre o Oder foi brilhantemente iluminada pelo fogo concentrado de nossa artilharia, nossos morteiros pesados e nossos lançadores múltiplos de foguetes, enquanto o estrondo simultâneo de milhares de granadas, minas e bombas aéreas era ensurdecedor. No céu, os bombardeiros formavam uma nuvem escura sobre nossas cabeças. Estávamos atacando". Finda a barragem, o panorama foi iluminado pêlos 140 holofotes, simultaneamente acionados e dirigidos sobre as defesas inimigas, indicando o caminho aos tanques e infantaria motorizada.

Ainda assim, a resistência encontrada foi forte, pois o comandante alemão, Heinrich, contrariando ordens expressas de Hitler, recuara com suas forças da área que seria batida pela artilharia soviética. Frustrado, Jukov ficou irritadíssimo ao ser informado de que as forças de Koniev, sem preparação prévia de artilharia, estavam avançando rapidamente sobre Berlim.

Estava determinado a bater Koniev na corrida pela conquista de Berlim e, lançando mão de todas as suas reservas, deu uma única ordem aos comandantes de seu corpo de Exércitos: avançar.

Seus comandantes sabiam que estavam lidando com o mesmo homem que dirigira implacavelmente a defesa de Leningrado e conheciam perfeitamente o destino que lhes estava reservado à menor vacilação ou negligência. Premidos, premiram suas forças e como produto desse último e grande esforço, na tarde do dia 20 a artilharia da vanguarda de Jukov já estava disparando sobre os subúrbios de Berlim. Seria o primeiro a chegar, como desejava, e Koniev, cujas forças se aproximavam da capital alemã, ficou indignado ao receber instruções pessoais de Stalin — suas forças deveriam deter-se a 150 metros do Reichstag. A conquista deste, símbolo do poderio alemão, seria o prêmio ao esforço final desenvolvido por Jukov.

Para os alemães, não havia mais qualquer possibilidade de resistência. Ainda assim, o fanatismo da guarnição de Berlim, o fuzilamento sumário de todos aqueles que pretendiam fugir à luta e a presença de Hitler num abrigo subterrâneo da Chancelaria, compeliram os soviéticos a lutar casa por casa e rua por rua pela conquista da capital alemã. As passagens estreitas não permitiam a movimentação de blindados e as grandes avenidas estavam cobertas de ruínas e barricadas. Assim, coube à infantaria soviética vencer a última resistência alemã, reduzindo objetivo por objetivo com o apoio de canhões de assalto e morteiros. Na tarde de 30 de abril, os homens de Jukov lograram o que se tornara o sonho de todos os soldados do Exército Vermelho: hastear o pavilhão vermelho sobre as ruínas do Reichstag. Nesse meio tempo, como uma fera acuada, Hitler suicidava-se em seu abrigo subterrâneo da Chancelaria.

A guerra tinha terminado. Só se fazia necessário formalizar a rendição alemã.

No dia 2 de maio, os últimos defensores de Berlim, comandados pelo general Weidling, cercados no centro da cidade, entregaram-se ao general Chuikov, comandante da vanguarda de Jukov.

Berlim finalmente caíra e a guerra que tinha custado à União Soviética 20 milhões de mortos finalmente chegara ao fim.

Convergindo sobre as ruínas da capital alemã, as forças de Jukov efetuavam as derradeiras operações de limpeza, enquanto tratores desobstruíam as ruas centrais cobertas de entulho para facilitar a passagem de tanques e artilharia das forças de ocupação.

Entretanto, não havia júbilo pela conquista de Berlim, como registra um correspondente de guerra soviético: "Cruzei o zoológico, em direção a Tiergarten. Os russos mortos estavam dispostos sobre os bancos e cobertos, os alemães jaziam onde tinham caído. Um hipopótamo morto flutuava numa lagoa, com a empenagem de uma granada de morteiro que não explodira projetando-se de seu flanco. Um tratador chorava pelos animais mortos, sem se importar com os cadáveres espalhados à sua volta. Nas ruínas da Chancelaria os soldados tinham encontrado o cadáver de Goebbels, mas ainda não tinham achado o de Hitler. Soldados e veículos militares soviéticos chegavam à cidade de todas as direções".

Era esse sombrio panorama de glória feita de sangue que aguardava em meio às ruínas o conquistador de Berlim, Georgi Konstantinovich Jukov, que ali viveu o apogeu de sua carreira militar.

Ciúmes de Stalin[editar | editar código-fonte]

A queda de Berlim não marcara apenas o fim da maior guerra que já flagelara o mundo, mas também o início da fase do expansionismo militar soviético. Preenchendo o vazio da Europa Oriental, a União Soviética, embora ainda mal o soubesse, se convertera, ao lado dos Estados Unidos, na segunda superpotência mundial — e Stalin estava firmemente decidido a tirar o maior partido possível dessa nova situação.

Mal tinha sido disparado o último tiro da conflagração quando Stalin telefonou a Jukov, em Berlim, determinando-lhe que organizasse uma cerimônia solene na antiga capital alemã, para institucionalizar a derrota do Terceiro Reich e deixar claro ao mundo que "a União Soviética, e não os aliados ocidentais, tinha sido a verdadeira vencedora da Alemanha".

Na realidade, o esforço de guerra ocidental, quer com o abastecimento da URSS durante a conflagração com suprimentos vitais, quer com a abertura da segunda frente na França, em 1944, tinham facilitado extraordinariamente a missão do Exército Vermelho tanto na fase de resistência aos alemães como na fase das grandes ofensivas dos dois últimos anos de guerra.

A colaboração ocidental ao esforço de guerra soviético, contudo, jamais foi reconhecida por Stalin nem por seus sucessores e a exigência de uma segunda cerimônia formal de rendição alemã em Berlim, depois das forças alemãs já se terem rendido no dia 7 de maio, em Reims, aos representantes do comando aliado, foi considerada excessiva por Eisenhower. Assim, em lugar de comparecer à cerimónia na qual Jukov representou a Stavka e Stalin, Eisenhower enviou em seu lugar o marechal-do-ar Arthur Tedder, da Grã-Bretanha, assim como os generais Cari Spaatz, dos Estados Unidos, e de Lattre de Tassigny, pela França. Na cerimónia, os alemães foram representados pelo marechal Keitel, general Stumpf e almirante Frieburg.

Como representante soviético, ao firmar o documento, Jukov, de uma penada, entrou na História como o vingador de uma sucessão de derrotas impostas à Rússia no decorrer de quase um século, da Guerra da Crimeia à Primeira Guerra Mundial, passando pela Guerra Russo-japonesa.

Tal fato não somente lhe garantiria uma projeção maior que a dos seus camaradas que tinham contribuído para a vitória como incrementaria não apenas os ciúmes de seus principais rivais — como sempre, Koniev estava entre eles — mas do próprio Stalin, que não desejava dividir com ninguém as glórias da vitória sobre a Alemanha e o novo poder de que se vira investido.

Designado por Stalin representante soviético à Comissão de Controle Aliada na Alemanha, a primeira providência política de Jukov, assistido por Andrei Vishinsky, tristemente célebre por seu papel de procurador no grande expurgo de Moscou, foi exigir a imediata retirada de todas as forças norte-americanas que se encontravam em áreas da zona soviética. Tal providência, ao que tudo indica, tinha dois propósitos:

  • 1) facilitar a remoção, para a União Soviética, de todos os bens e equipamentos expropriados na Alemanha a título de reparações de guerra e;
  • 2) acelerar a implantação de um regime comunista, no setor alemão controlado pelos soviéticos, com um mínimo de interferência e mesmo conhecimento dos representantes dos governos ocidentais.

A guerra-fria, entretanto, ainda não fora desencadeada e as relações entre os soviéticos e os aliados ocidentais eram satisfatórias, embora os primeiros indícios de tensão já se registrassem.

Convidado a visitar a União Soviética, Eisenhower teve por cicerone o próprio Jukov. Em Moscou, depois de um desfile militar na Praça Vermelha, que assistiram em companhia de Stalin, os dois líderes militares trocaram um abraço, sendo ovacionados pela massa — tributo jamais prestado a Stalin e que deve ter contribuído para intensificar os ciúmes que lhe eram suscitados pela popularidade do marechal junto aos russos.

E Stalin não esquecia facilmente desafetos, fossem eles reais ou imaginários. Estava decidido a afastar Jukov do centro dos acontecimentos. Mas isso não podia ser feito de forma abrupta, nem mesmo por ele, cujos poderes eram absolutos. A destituição pura e simples do mais popular dos líderes militares soviéticos, logo após a grande vitória lograda sobre a Alemanha, teria efeitos negativos tanto no país como no exterior — para não se falar de uma eventual reação do próprio Exército Vermelho no qual, por obra e iniciativa de Jukov, os antigos comi ssários-políticos tinham sido privados de grande parte de seus antigos poderes.

Assim, Stalin preferiu agir sutilmente.

Quase um ano após o fim da guerra, em abril de 1946, Jukov foi chamado da Alemanha para assumir o comando de todas as forças do Exército Soviético.

Tudo indicava que desempenharia essas altas funções durante muito tempo — mas em julho, Stalin designou-o comandante do Distrito Militar de Odessa, posto obscuro e afastado do centro das grandes decisões.

A transferência para Odessa foi seguida de outra, para o comando do Distrito Militar dos Urais, posição ainda mais obscura do que a primeira.

Era evidente a todos, a essa altura, que Stalin não queria compartilhar com ninguém e muito menos com um líder militar realmente popular, os louros e as glórias da vitória. Como não podia simplesmente eliminar Jukov, afastava-o do centro do poder, aguardando pacientemente a oportunidade adequada para dar uma solução final ao caso do marechal que poderia fazer sombra ao seu prestígio.

Pouco se sabe a respeito da vida particular de Jukov durante esse período de obscuridade da sua carreira. Enviuvando, o marechal que já era avô, voltou a casar-se com uma médica que tinha menos da metade de sua idade.

Tudo indica que, posto à margem como militar, Jukov passou a dedicar-se com afinco às atividades políticas, provavelmente com ajuda do grupo que atuara em conjunto durante a campanha de Stalingrado. Essa possibilidade é reforçada pela rápida ascensão de Kruschev, que em 1961 contribuiu para que vários marechais, entre os quais Jukov, fossem designados suplentes da Comissão Central do Partido Comunista da União Soviética. Lentamente, com a mesma cautela que demonstrara como preparador meticuloso de operações militares, Jukov foi aos poucos emergindo da sombra a que fora relegado por Stalin. Seu retorno ao centro dos acontecimentos certamente foi facilitado pelo grupo de Kruschev, já então aglutinando forças para o próximo lance da luta pelo poder, e pêlos seus antigos camaradas de uniforme, que ocupavam posições de mando e influência.

Todavia, ainda permanecia numa espécie de atmosfera de limbo no início de 1953, quando se iniciou aquele que seria o último processo da era de Stalin e que teria sido um dos mais sangrentos, se tivesse sido levado a cabo — a chamada conspiração dos aventais. Mais de vinte professores de medicina, que integravam o corpo médico do Cremlin, foram acusados de ter eliminado por envenamento dois líderes do PCUS — Zhdanov e Schherbarkov — e de conspirar com o propósito de assassinar vários líderes militares, entre os quais os marechais Vassilevsky, Gevorov, Shtemenko, Koniev e outros. Simultaneamente, os filhos de Anastas Mikoyan, um dos sobreviventes da velha guarda bolchevista, eram detidos pela polícia secreta e a mulher de Molotov, que exercia grande influência sobre certas organizações do PCUS, era deportada de Moscou.

Tudo indicava a preparação de um novo e grande expurgo, que se desenrolaria sangrentamente enquanto a atenção mundial era concentrada pela guerra-fria, então no auge.

De acordo com alguns peritos em questões soviéticas, a conspiração dos aventais não foi, como as demais da era de Stalin, inventada pêlos especialistas da polícia secreta, mas pelo serviço secreto militar, organização paralela e rival, cujos poderes vinham aumentando desde a guerra. Assim, é possível que os pretextos para o expurgo tenham sido inventados por alguns dos líderes militares empenhados na luta pelo poder — e cujos nomes constavam das listas das supostas vítimas visadas na conspiração. Naturalmente, é fácil imaginar o destino que teriam aqueles não relacionados nas listas. Seguramente seriam acusados de conivência com os conspiradores e prontamente liquidados. E como o nome de Jukov não fazia parte de nenhuma lista, não é preciso ter muita imaginação para antecipar a sorte que lhe seria reservada, especialmente pelo fato de Koniev, seu arqui-rival e inimigo declarado, constar da relação.

De qualquer forma, nunca se saberá ao certo quais viriam a ser as verdadeiras proporções de expurgo nem quais as cabeças que rolariam, uma vez que Stalin morreu em março de 1953 — e seu brusco e inesperado desaparecimento pôs cobro ao processo dos aventais. Seus herdeiros empenharam-se imediatamente na luta pela sucessão e o expurgo foi postergado para ocasião mais oportuna, uma vez que os diversos grupos em confronto — Molotov e Kaganovich, aliados contra Malenkov e Beria, enquanto Kruschev se mantinha sobre o muro, aguardando o momento adequado para intervir — iniciaram suas manobras na mesma noite em que Stalin morreu.

Tanto Molotov e Kaganovich como Malenkov e Beria detinham considerável influência no partido e na máquina burocrática estatal. Entretanto, todos eles subestimaram a capacidade de Kruschev na luta pelo poder, e ele teve tempo e condições para organizar cuidadosamente seu dispositivo antes de intervir. Afirma-se que foi por sua iniciativa que, imediatamente após a morte de Stalin, Jukov foi chamado a Moscou e investido das funções de vice-ministro da Defesa. A própria pasta militar coube ao marechal Bulganin, que era outro associado de Kruschev. Este, assim, além do apoio com que já contava nos quadros do partido e da burocracia, onde fizera carreira à sombra de Kaganovich e do próprio Stalin, passou a dispor de uma sólida base militar, da qual careciam seus rivais.

Kruschev, porém, não se precipitou na luta pelo poder diretamente, permanecendo sobre o muro enquanto seus contendores principais se digladiavam. E o primeiro grupo a ser eliminado foi o constituído por Beria.

Malenkov, que assumira a chefia do governo, recebeu informações de que Beria, o chefe da poderosa polícia secreta, conspirava para tomar o poder. Imediatamente convocou os marechais Jukov, Vassilevsky e Bulganin, sendo decidida então a detenção, destituição e eliminação sumária de Beria. Afirma-se que Jukov deslocou uma guarnição dos Urais, não comprometida com nenhuma das facções em luta pelo poder, para garantir essa operação. Um grupo de onze marechais e generais foi especialmente convocado ao Cremlin e encarregado de promover a detenção de Beria, que se fazia acompanhar permanentemente por guarda-costas da polícia secreta. No dia 26 de junho de 1953, Beria compareceu a uma sessão especial da Comissão Central do PCUS, realizada no Kremlin.

Sem suspeitar de que sua sorte tinha sido previamente decidida, o chefe da polícia secreta deixou os seus guarda-costas na ante-sala e entrou no recinto onde se realizaria a reunião. Imediatamente, Malenkov o acusou de uma série de crimes, no que foi secundado por Bulganin. E antes que Beria voltasse a si da surpresa, Kruschev anunciou a demissão do chefe da polícia secreta. Os marechais, que tinham aguardado numa sala ao lado um sinal de Malenkov, passaram para o recinto da reunião e Jukov deu voz de prisão a Beria. Os pormenores de sua execução são desconhecidos, sabendo-se apenas que ela ocorreu no mês seguinte, sob a supervisão de Mikoyan, só sendo oficialmente anunciada no fim de dezembro daquele ano. Com a eliminação de Beria, todos os membros da Comissão Central do Partido — entre os quais Kruschev — livraram-se do testemunho do chefe da polícia secreta, que estava a par de todos os crimes cometidos sob Stalin e com os quais todos os integrantes dos escalões superiores do PCUS, por ação ou omissão, estavam também profundamente comprometidos.

Não somente as estrelas militares mas também as perspectivas políticas de Jukov voltavam a ser brilhantes após a morte de Stalin.

Logo após a eliminação do temido Laurenti Beria, Jukov foi designado membro da Comissão Central do Partido, promoção que coincidiu com a redução dos poderes da polícia secreta e com a projeção do papel do Exército como sustentáculo do regime.

Liberto das consequências do ciúme de Stalin, Jukov podia partir rumo ao ponto alto de suas inextricáveis carreiras militar e política, não mais como manipulado, mas pretendendo também ser um manipulador.

Voltando por cima[editar | editar código-fonte]

Contando com ampla base de apoio político e militar e aparentemente convencido de que tinha condições para participar por sua própria conta e risco da luta pelo poder, Jukov voltara por cima ao centro dos acontecimentos.

Organizador consumado, não perdeu tempo em reforçar seu próprio dispositivo de sustentação político-militar, designando homens de sua confiança para todas as funções importantes de comando nas Forças Armadas — Exército, Marinha e Aviação, pois no dispositivo militar soviético já não havia lugar para as antigas denominações, como o Exército Vermelho. Sob seu controle e designação, os postos-chave do establishment militar soviético foram entregues a homens nos quais confiava pessoalmente — ou nos quais imaginava poder confiar —, quase todos remanescentes do grupo de Sta-lingrado. De fato, esse grupo passou a exercer sobre as Forças Armadas uma profunda influência, semelhante à exercida sobre o antigo Exército Vermelho pelo grupo dos sargentos.

Recorrendo aos serviços de técnicos e cientistas civis, Jukov reorganizou a obsoleta estrutura dos comandos soviéticos e lançou as bases da nova doutrina militar, relegando as grandes massas de infantaria a segundo plano e dando ênfase à constituição de poderosas forças blindadas, aerotransportadas e de artilharia, atualizan-do também os sistemas de abastecimento, transportes e comunicações.

Nessa transformação de um Exército, cujo poderio sempre dependera da capacidade de mobilização de grandes massas e da possibilidade de exploração dos vastos espaços internos da Rússia, num dispositivo militar moderno, Jukov teve oportunidade de aplicar tudo o que aprendera ao longo de sua extensa carreira com relação à guerra de movimento. Seu objetivo era emprestar às forças soviéticas a mobilidade e o apoio com que jamais tinham contado, mesmo na fase final da segunda conflagração mundial, quando eram abastecidas não apenas pela indústria pesada soviética, funcionando em regime de plena capacidade, como também pela maciça assistência material proporcionada pelo Ocidente.

A modernização das Forças Armadas soviéticas, iniciada por Jukov, também levou em conta dois elementos que caracterizariam os esforços paralelos desenvolvidos pelas duas superpotências durante e após o período mais agudo da guerra-fria — o desenvolvimento das armas atómicas e o aperfeiçoamento dos foguetes balísticos que representariam os seus vetores ideais.

Simultaneamente, sempre de acordo com suas antigas ideias, Jukov emprestava extraordinária ênfase à disciplina, prestigiava os comandantes militares e limitava os poderes dos comissários-políticos, consolidando a nova influência ganha pêlos marechais desde o fim da guerra.

Ainda assim, mesmo dispondo de influência, prestígio e poder superiores até mesmo aos que tinham sido detidos por Tukachevsky — que jamais lograra ascender aos altos escalões do partido e cuja carreira militar seria negativamente afetada pela sua antiga ligação íntima com Trotsky —, Jukov ocultava até então suas ambições políticas com a mesma habilidade com que soubera ocultar aos adversários, nos campos de batalha, os seus meticulosos preparativos para ofensivas.

Pretendia, evidentemente, ser um manipulador — mas deixava-se manipular pêlos eventuais detentores do poder, enquanto não julgava chegada a oportunidade para assumi-lo.

Assim, no campo político, não passava de um destacado integrante do grupo de Kruschev, que a essa altura deixara de manobrar para lançar-se decididamente à luta pelo poder, que se desdobraria em várias fases, após a sumária eliminação de Beria, vítima do primeiro choque entre as facções rivais empenhadas na luta pela sucessão de Stalin.

Malenkov, que dominava uma poderosa facção do partido e da burocracia administrativa, fazia-se cercar de tecnocratas e dava a entender que seu objetivo central era promover uma reforma de diretrizes, destinada a incrementar a indústria leve. Tal reforma, que levaria naturalmente a uma melhora do padrão de vida da população soviética, só poderia ser promovida por meio do cancelamento da prioridade máxima emprestada à indústria pesada desde os idos da década dos 20 e que fora uma constante da política de Stalin.

O pretexto da anunciada reconversão das prioridades industriais foi hábil e imediatamente explorado por Kruschev, que arregimentou o apoio declarado dos burocratas da máquina partidária, dos ideólogos do partido e — no caso, da maior importância — do comando das Forças Armadas da URSS, nominalmente dirigidas por Bulganin e na prática por Jukov e seus associados.

Para os burocratas da máquina partidária, uma inversão de prioridades, tal como a pretendida por Malenkov, seria simplesmente calamitosa, uma vez que poria em causa posições e privilégios conquistados ao longo de anos de intensa luta interpartidária.

Para os ideólogos do partido, apegados estreitamente aos velhos dogmas, a inversão da prioridade estabelecida ainda no tempo de Lenin e enfatizada por Stalin a ferro e fogo, constituiria uma heresia inimaginável.

Finalmente, para os líderes militares, a emergência da União Soviética como superpotência militar, justamente quando começava a reunir condições para constituir um arsenal atômico capacitado a rivalizar com o dos Estados Unidos, seria seriamente ameaçada pela conversão das prioridades, uma vez que todo o poderio da URSS tinha por base a capacidade crescente de sua indústria pesada.

Nessas circunstâncias foi fácil a Kruschev arregimentar o apoio de que necessitava nas áreas vitais — administração, burocracia e Forças Armadas — apoio que lhe permitiu exigir e obter a demissão de Malenkov e promover sua própria eleição ao posto de líder do Partido Comunista da União Soviética.

Na divisão dos despojos, após essa primeira etapa crucial da luta pelo poder, em março de 1956, coube a Bulganin a chefia do governo, enquanto Jukov o substituía como ministro da Defesa. Logo depois, o marechal foi nomeado membro suplente do Presidium do PCUS — o primeiro militar profissional soviético a atingir tal posição em toda a história da URSS. Sua carreira política estava chegando ao ápice, o que foi confirmado por sua designação para uma série de postos importantes e não necessariamente relacionados com as Forças Armadas.

Kruschev tinha o maior interesse em cultivar a amizade e o apoio do marechal, uma vez que planejava uma ousada incursão no campo político.

O cenário que escolheu para tal incursão foi o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, o primeiro a ser realizado após o desaparecimento de Stalin. As reuniões plenárias, ao fim das sessões de instalação do congresso, foram secretas — mas Kruschev permitiu, deliberadamente, que certas informações fossem filtradas, embora no fim as revelações fossem bem mais extensas e completas do que pretendia. Entre tais revelações — cuja divulgação é atribuída à principal organização de espionagem americana, a Central Intelligence Agency, CIA — estava o chamado "discurso secreto" de Kruschev. Neste, o líder do PCUS denunciou os crimes de Stalin, inclusive os cometidos durante os grandes expurgos; aqueles da fase da coletivização da agricultura; os assassínios e o terror desencadeados pela polícia política sob as ordens de Beria e, finalmente, o próprio sistema stalinista.

Kruschev, porém, tomou duas precauções importantes em seu discurso. Primeiro, dissociou seu grupo dos crimes stalinistas, como se ele e seus mais íntimos associados — Bulganin, Gromiko, Mikoyan e outros — deles não tivessem igualmente participado. Em segundo lugar, deu-se ao trabalho de fazer a apologia dos líderes militares que se tinham destacado na guerra, dando ênfase especial ao papel de Jukov e notando que ele tinha sido posto à sombra, depois das hostilidades, apenas em consequência dos ciúmes de Stalin.

As consequências do discurso secreto de Kruschev são conhecidas. Ele não somente precipitou a cisão sino-soviética — que com o correr do tempo acabaria por transformar-se em conflito aberto — como ainda fomentou o irredentismo e o nacionalismo em todos os países da Europa Oriental que tinham sido incluídos, ao fim da guerra, na esfera de influência direta da União Soviética.

Enquanto a fermentação nacionalista e irredentista ganhava corpo, especialmente na Polónia e na Hungria, toda a história militar da União Soviética começou a ser reescrita, sob a supervisão direta de Jukov e, naturalmente, reduzindo a proporções insignificantes o papel reservado a Stalin como líder militar da URSS no decorrer da Segunda Guerra Mundial, reservando um papel secundário a Koniev e seus associados e destacando a participação do ministro da Defesa e do grupo que o cercava.

A pretexto de inspecionar as diversas Regiões Militares da URSS e verificar a aplicação de suas diretrizes, Jukov passou a percorrer todo o país, fazendo discursos em que ressaltava a importância do papel desempenhado pelas Forças Armadas na consolidação do regime, na Segunda Guerra Mundial e na conquista, pela URSS, da posição de superpotência mundial.

Lembrava constantemente, nesses discursos a dívida de gratidão que o povo russo tinha contraído em relação aos soldados que se haviam sacrificado por sua segurança nos momentos mais cruciais do conflito, reportando-se especialmente ao cerco de Leningrado, à defesa de Moscou e à grande vitória de Stalingrado — ações das quais havia sido um notório participante.

Por ações e palavras, Jukov provava que voltara por cima.

Polônia, Hungria e a crise interna[editar | editar código-fonte]

O discurso secreto de Kruschev no XX Congresso do PCUS, originalmente planejado como mero expediente demagógico, destinado a reforçar sua própria posição, teve desdobramentos e consequências que não haviam sido previstas, entre as quais o distanciamento da China; o alargamento das brechas abertas por Tito no monolitismo do movimento comunista internacional; revoltas na Polônia e na Hungria e, finalmente, uma grave crise interna na própria URSS, que por pouco não cortou prematuramente a fase final da ascensão de Kruschev ao poder absoluto.

Essas crises internas e externas deram ao marechal Jukov, mais uma vez, oportunidade para provar sua utilidade e eficiência, quer como político, no plano da militância partidária, quer como militar, responsável direto pela implementação das medidas adotadas para contornar ou esmagar as insurreições nacionais na Polônia e na Hungria.

Para os russos, os problemas na Polônia começaram, como sempre acontece, no grande centro industrial de Poznan, em junho de 1956. Trabalhadores da indústria de construção naval abandonaram o serviço, reclamando melhores salários, melhores condições de vida e legítima representatividade. O movimento propagou-se rapidamente por todo o país, traduzindo-se em manifestações maciças de trabalhadores e de estudantes nas grandes cidades.

De início, a agitação intensa na Polónia — onde os sentimentos anti-russos eram fortes e latentes — não causou maior preocupação em Moscou. Os líderes soviéticos estavam bem representados em Varsóvia, onde um marechal soviético nascido na Polônia e amigo íntimo de Jukov — Rokossovsky — acumulava as funções-chave de ministro da Defesa e comandante das forças de segurança e polícia política. Podendo mobilizar a qualquer momento as Forças Armadas e de segurança para reprimir manifestações contra o regime e contra a União Soviética, Rokossovsky detinha o controle da situação e, dessa forma, os líderes soviéticos não nutriam qualquer preocupação em relação aos acontecimentos que se desenrolavam na Polónia.

Entretanto, logo se verificou que a crise era profunda, ampla e escapava rapidamente ao controle do marechal soviético encarregado de manter â ordem russa na Polónia.

O próprio Rokossovsky levou algum tempo para perceber a gravidade e extensão da crise que enfrentava e, quando finalmente informou Moscou da verdadeira situação, esta já era mais que explosiva.

Preocupado com os problemas que já enfrentava na consolidação de sua liderança, Kruschev decidiu que a crise polonesa deveria ser resolvida rapidamente, uma vez que suas repercussões, cada vez maiores, tendiam a afetar não somente todo o sistema imposto pêlos soviéticos à Europa Oriental como sua própria posição de líder do PCUS.

Premido pela rapidez e gravidade dos acontecimentos, Kruschev atuou rapidamente, em duas frentes. À testa de um grupo de influentes líderes militares soviéticos — entre os quais estavam o marechal Koniev, comandante das forças do Pacto de Varsóvia, e o general Antonov, chefe do Estado-maior da organização — Kruschev seguiu para Varsóvia no dia 19 de outubro de 1956, para dirigir-se diretamente aos líderes poloneses que participavam de um congresso do partido. Sabe-se que Kruschev chegou a Varsóvia irritadíssimo, pois os poloneses, pouco antes, tinham negado acesso a Bulga-nin e Jukov ao recinto em que se desenrolava a reunião plenária do partido.

A ausência de Jukov na comitiva que desembarcou com Kruschev em Varsóvia no dia 19 não passou despercebida. Naquele momento, enquanto Kruschev tentava encontrar uma solução política para o problema, Jukov armava o seu dispositivo especial para re solvê-lo militarmente. Instalado em Legnica, comando do Grupo de Exército Setentrional da URSS, ele planejava a ocupação de Varsóvia pelas forças daquela área. Simultaneamente, uma força naval soviética era enviada para Dantzig.

A essa altura, Vladislaw Gomulka, líder comunista polonês que caíra em desgraça sob o stalinismo, voltava à cena política como o campeão dos liberais. Eleito líder do partido, proclamou a necessidade de estabelecimento de "um caminho polonês para o socialismo".

A confrontação Kruschev-Gomulka foi altamente dramática, especialmente a partir do momento em que o líder polonês foi informado de que forças soviéticas já se deslocavam em direção a Varsóvia. Simulando surpresa, ao ser informado disso por Gomulka, Kruschev saiu por alguns momentos para consultar os generais de sua comitiva e minutos depois voltou para comunicar aos líderes poloneses que, de fato, as forças soviéticas estavam marchando sobre Varsóvia.

A resposta de Gomulka não deixou margem a qualquer dúvida. Esclarecendo que em hipótese alguma manteria entendimentos com os soviéticos sob ameaça de força, anunciou que dirigiria pela rádio de Varsóvia um apelo ao povo polonês, para que resistisse aos russos, se a movimentação de forças não fosse imediatamente detida.

As horas que se seguiram foram de grande tensão. Sob o comando geral de Jukov, todas as forças soviéticas acantonadas na área ocidental da União Soviética e na Alemanha Oriental foram mobilizadas para intervir na Polônia. Por outro lado, Rokossovsky comunicou a Kruschev que tanto o Exército como as forças de segurança da Polônia eram leais a Gomulka e que uma intervenção soviética desencadearia inevitalmente um conflito sangrento.

Kruschev acabou por ceder, concordando em ouvir do próprio Gomulka, em futuro próximo, na capital soviética, as principais reivindicações dos poloneses. Por outro lado, em troca das garantias de Gomulka de que a Polónia continuaria integrando o Pacto de Varsóvia, os soviéticos concordaram em chamar de volta Rokossovsky, autorizando também algumas pequenas reformas de ordem interna há muito reclamadas pêlos poloneses. A confrontação foi evitada na última hora e Gomulka desfrutou, durante algum tempo, do prestígio de "liberal" — reputação que os próprios fatos se encarregariam posteriormente de desmentir.

Entretanto, resolvida a custo a crise da Polónia, os russos viram-se a braços com outra ainda mais grave, na Hungria. Estimulados pêlos acontecimentos que se tinham desenrolado na Polónia, estudantes de Budapeste promoveram uma manifestação nacionalista no centro da capital. A polícia política abriu fogo contra os manifestantes e, em questão de horas, o protesto isolado converteu-se numa verdadeira revolução nacional.

Depois do recuo que lhes tinha sido imposto pelos poloneses, os soviéticos não estavam dispostos a permitir a repetição impune de manifestações de descontentamento dos húngaros e sua reação à revolução foi rápida.

Imre Nagy, que dirigia o governo revolucionário, tentou ingenuamente negociar com Moscou. Mas Kruschev tinha condições para resolver o problema húngaro com o simples emprego da força e não estava interessado em fazer qualquer tipo de concessões, como as que lhe tinham sido arrancadas por Gomulka.

O verdadeiro encarregado de resolver o problema húngaro foi Jukov que, como ministro da Defesa, era o braço armado do Partido Comunista da União Soviética. Agindo rapidamente, no dia 24 de outubro de 1956, Jukov lançou suas forças blindadas contra os patriotas húngaros que se tinham apoderado de Budapeste e outros grandes centros. Na primeira semana de novembro a sangrenta repressão foi concluída e a ordem soviética voltou a ser imposta em Budapeste, após o esmagamento da maior insurreição com que se tinham defrontado os russos desde o fim da Segunda Guerra Mundial em seus domínios da Europa Oriental. Imre Nagy, cujo único crime tinha sido a proclamação da neutralidade da Hungria, conseguiu exilar-se na embaixada da Jugoslávia. Pouco depois, em companhia do general Paul Maleter, comandante dos insurretos húngaros, ele abandonaria seu refúgio, depois de receber solenes garantias soviéticas. Essas garantias, porém, não valiam as palavras em que foram expressas: deixando a embaixada, Nagy e Maleter foram imediatamente detidos, deportados para a URSS, sumariamente julgados e executados.

A paz soviética, imposta pelas baionetas dos seus exércitos, voltara a prevalecer em todo o conjunto do bloco da Europa Oriental — com exceção da pequenina Albânia, que tomara o partido da China logo após a denúncia formal do stalinismo, no XX Congresso do PCUS — e Kruschev tinha agora tempo e vagar para consolidar a sua posição interna.

Para isso, ele dependeria mais uma vez de Jukov, não na qualidade de militar profissional, encarregado de esmagar sublevações, mas na de influente líder político, que tinha atrás de si as Forças Armadas. Compreendendo tal dependência em relação ao marechal, Kruschev conferia-lhe tratamento especial: ao fazer sessenta anos, em dezembro de 1956, Jukov foi condecorado com a Ordem de Lenin e com sua quarta Estrela Dourada. Era evidente que Kruschev muito esperava dele nos meses que se seguiriam.

E Jukov correspondeu a Kruschev, no plano político, tão bem quanto correspondera no plano militar.

O primeiro indício percebido no mundo exterior de que a luta pelo poder na União Soviética entrara em nova fase foi um lacónico comunicado, publicado pela imprensa soviética a 4 de julho de 1957, anunciando que Molotov, Kaganovich e Malenkov tinham sido destituídos do Politburo da Comissão Central do Partido Comunista da União Soviética.

Entre os designados para substituí-los estava o marechal da União Soviética e ministro da Defesa, Georgi K. Jukov. Era a primeira vez — o episódio repetiu-se há alguns anos, após a queda de Kruschev, quando o marechal Grechko foi designado para o Politburo — que um militar profissional soviético ascendia a tão destacada posição.

Imediatamente, tanto na União Soviética quanto no exterior, os observadores começaram a especular sobre o significado político do afastamento dos líderes bolchevistas — cujas carreiras tinham sido feitas à sombra de Stalin — por um representante das Forças Armadas.

Chegou-se a afirmar, na ocasião, que a designação de Jukov para o Politburo marcava a abertura de uma nova fase na URSS — a da substituição dos velhos militantes por tecnocratas representantes de todas as esferas de influência na União Soviética. Sempre de acordo com essa hipótese, defendida com entusiasmo por alguns conhecidos cremlinologistas, Jukov, como integrante do Politburo, ali representaria menos um velho militante do PCUS do que sua própria classe, a dos oficiais profissionais que tinham emergido do grande teste representado pela Segunda Guerra Mundial.

Somente mais tarde, à luz dos acontecimentos que então se verificaram em Moscou, tornou-se claro que não se tratava de abertura de uma nova fase, mas simplesmente do início de novo episódio de permanente e acirrada luta pelo poder na URSS.

Como sempre acontece nessas ocasiões, antes da confrontação crucial, as partes que disputavam o poder entregavam-se ao indispensável trabalho de estabelecer um balanço de força.

Efetuada a cuidadosa contagem de votos e avaliadas as posições dos grupos em conflito, Kruschev chegou à desalentadora conclusão de que seus adversários, explorando a fundo as consequências negativas que se tinham registrado tanto no país como no exterior, em termos da influência do Partido Comunista da União Soviética, tinham atuado rapidamente para capitalizar ao máximo a situação de crise.

Os remanescentes stalinistas eram numerosos e mesmo aqueles não comprometidos diretamente com o regime de Stalin temiam por suas posições e privilégios. Malenkov, Kaganovich e Molotov, veteranos experientes em todas as fases da luta pelo poder, tinham arregimentado rapidamente partidários entre os descontentes, os que temiam por seus postos, os conservadores aos quais Kruschev parecia ser um perigoso inovador. Tinham uma boa argumentação — os efeitos negativos do discurso secreto no XX Congresso, as insurreições nacionais na Polónia e na Hungria, a cisão que a essa altura já era mais que evidente entre a União Soviética, antiga líder incontestável do movimento internacional comunista, e a China, que começava a reivindicar tal liderança.

Recorrendo a tal argumentação, não foi difícil aos adversários de Kruschev reunir o número suficiente de votos para derrotá-lo na sessão do Praesidium da Comissão Central, convocada para 18 de julho.

Compreendendo que se defrontava com uma inevitável derrota, que lhe custaria o posto — e talvez mais que isso, tudo dependendo da magnanimidade da facção vitoriosa —, Kruschev alegou que a sessão seria da mais alta importância, uma vez que temas cruciais nela deveriam ser debatidos e, portanto, seria mais conveniente convocar não apenas uma reunião do Politburo, mas uma sessão plenária da Comissão Central.

A manobra desenvolveu-se com precisão militar. Enquanto Jukov, como integrante do Politburo e ministro da Defesa, providenciava o transporte por via aérea de todos os integrantes do organismo que se encontravam fora de Moscou, Kruschev desenvolvia uma intensa ação de proselitismo, visando conquistar o apoio da maioria dos membros da Comissão Central, órgão que reunia mais delegados do que o Politburo.

A manobra dirigida por Kruschev e cuidadosamente . coordenada por Jukov atingiu plenamente todos os seus objetivos.

Graças aos aparelhos da Força Aérea soviética, mais de trezentos integrantes da Comissão Central do PCUS compareceram à sessão, garantindo uma substancial maioria para Kruschev. Em vão, Malenkov, Molotov e Kaganovich reiteraram suas acusações contra ele. Previamente trabalhada por Kruschev e Jukov, a Comissão Central não tinha ouvidos para eles. O próprio Kruschev, em longa intervenção pessoal, assegurou ao organismo que as Forças Armadas da União Soviética "não tolerariam a fomentação artificial da luta pelo poder" — e essa intervenção do marechal pode ter sido decisiva para a vitória de Kruschev e o afastamento definitivo e irreversível de Malenkov, Molotov e Kaganovich da cúpula do PCUS e do centro de decisões de Moscou.

Kruschev não esqueceria o papel desempenhado por Jukov. Se devia ao marechal a preservação de sua liderança, sabia também que ele passara a representar uma poderosíssima influência. E foi o risco representado por essa influência decisiva que determinou a derrota de Jukov na crucial e última batalha política que a partir de então se travou e que seria fulminante, uma vez que se desenvolveria em menos de três meses.

O marechal jamais enfeixara tão altos poderes, tanto no plano militar quanto no político e ninguém, àquela altura, duvidava de que sua carreira continuaria a desenvolver-se talvez a caminho da liderança suprema da URSS.

Mas isso era justamente o que Kruschev temia — e tomava medidas práticas para prevenir.

Perdendo a batalha política[editar | editar código-fonte]

Comprovada na prática sua utilidade ao sistema, Jukov, com sua posição consolidada — ou tão consolidada como pode ser a de um dirigente soviético, sujeito à permanente instabilidade consequente da luta pelo poder — voltou à política, desta vez abertamente.

Valendo-se da ausência temporária de Kruschev e Bulganin, que se encontravam em visita à Checoslováquia, o marechal, deixando de lado a cautela que sempre o caracterizara, empreendeu uma manobra de grande âmbito, jogando com todas as facilidades de que desfrutava como ministro e capitalizando a genuína popularidade de que desfrutava junto à oficialidade jovem, veteranos de guerra e a população civil, que o identificavam como um dos salvadores da pátria e o maior soldado soviético.

Tão logo Kruschev e Bulganin voltaram as costas, Jukov iniciou sua grande e ambiciosa manobra, que nada tinha de militar e era essencialmente política.

De fato, na sua primeira incursão direta e em pronunciamento qualificado pelo Pradva de "grande discurso", Jukov dirigiu-se não aos companheiros de armas, mas aos operários das grandes usinas Bolshevik, em Leningrado.

Embora o discurso não tenha sido transcrito integralmente pelo órgão oficial do Partido Comunista da URSS, o que dele veio à luz era um indício seguro de que o marechal apresentara sua própria versão do "relatório secreto apresentado por Kruschev ao XX Congresso do PCUS.

Jukov, entretanto, foi muito mais longe do que fora Kruschev, desfechando um violentíssimo ataque à velha guarda stalinista, aos burocratas do partido e aos responsáveis diretos pela repressão que antecedera à guerra.

De acordo com a versão publicada pelo Pradva, Jukov mencionou diretamente em seu discurso os integrantes do "grupo antipartido" — Molotov, Kaganovich, Ma-lenkov e Shepilov. Com isso, foi muito além do que fora Kruschev, que se limitara a atribuir a Malenkov a responsabilidade pelo sangrento expurgo de Leningrado, que se registrou entre 1949 e 1951, ainda sob o regime de Stalin. Kruschev também evitara qualquer menção a Kaganovich, instrumento direto de Stalin no decorrer de todos os expurgos e liquidações, e a Molotov que, como primeiro-ministro, devia arcar com a responsabilidade última pela execução dos milhares de condenados no grande expurgo da década dos 30, entre os quais estavam alguns dos mais prestigiosos e antigos dirigentes bolchevistas, como Rykov, Bukarin, Kamenev e Zinoviev.

Tal prudência, por parte de Kruschev, era mais que compreensível, uma vez que ele próprio fora um dos prepostos principais de Stalin no decorrer dos expurgos na Ucrânia e, se acusasse Molotov e Kaganovich, por exemplo, estaria apenas condenando terceiros por algo que ele mesmo fizera. Além disso, a pormenorização das denúncias inevitavelmente atingira também Voroshilov, que era em 1957 o chefe de Estado da URSS. Seria fácil a seus adversários, empenhados na luta pelo poder, lembrar que seu amigo e aliado temporário, Voroshilov, presidira a corte marcial que tinha condenado à morte, em 1937, Tukachevsky e dezenas de oficiais-generais do Exército Vermelho atingidos pelo expurgo. Assim, tanto o primeiro-secretário do Partido Comunista como o presidente do Praesidium do Soviet Supremo não tinham o menor interesse em levar às últimas consequências a formulação das responsabilidades dos verdadeiros autores do grande expurgo, ao qual ambos estavam inextricavelmente ligados.

Jukov, por outro lado, como deixou bastante claro no seu surpreendente pronunciamento político aos operários das indústrias Bolshevik, não se deixava deter por tais considerações. Com sua atitude, discriminando os que julgava realmente responsáveis pelo grande terror, confirmava as versões segundo as quais não tomou parte ativa na repressão à velha guarda, beneficiando-se apenas, em sua carreira militar, das facilidades de promoção oferecidas pêlos grandes claros abertos nos quadros de oficiais-generais do Exército Vermelho.

Não tendo os antecedentes de Kruschev e Voroshilov, pelo menos no que se refere ao período em questão, o marechal tinha liberdade de manobra e podia fundamentar sua estratégia, ao incursionar pelo campo político, numa base bastante sólida: "a defesa pública e aberta do legalismo, como única maneira de evitar a repetição de erros do passado".

Sua tese, anunciada não aos líderes do PCUS mas aos trabalhadores de Leningrado — tática que inevitavelmente deve ter chocado os estrategistas do partido — era de uma simplicidade cristalina: toda a história do terror stalinista devia ser imediata e publicamente trazida à luz do dia e revelada, para conhecimento geral e responsabilização dos culpados.

Para lançar sua tese, como lançava suas forças em operações militares, Jukov desfechou uma barragem de artilharia retórica, sustentando, entre outras coisas, que Malenkov, Molotov e Kaganovich se opunham resolutamente à denúncia das ilegalidades e crimes cometidos sob o stalinismo porque "temiam sua própria responsabilização pela transgressão de suas prerrogativas, pela prática de ações ilegais e pêlos esforços que desenvolviam para salvaguardar privilégios obtidos há mais de trinta anos". Nesse mesmo discurso em Leningrado, Jukov citou escificamente os casos em que Malenkov, Molotov e Kaganovich, abusando de seus poderes, tinham violado as leis.

Com sua longa experiência na luta pelo poder e conscientes de que poderiam arcar com as consequências de represálias do aparelho burocrático do sistema, os editores do Pradva, prudentemente, engavetaram as acusações diretas feitas pelo marechal.

Ainda assim, mesmo com a reprodução das acusações específicas, a transcrição feita pelo Pradva do discurso de Jukov no comício de Leningrado teve o efeito de uma verdadeira bomba de retardamento nos altos escalões do Partido Comunista da União Soviética.

Formulando sua acusação em público e não numa Jukov, entretanto, foi muito mais longe do que fora Kruschev, desfechando um violentíssimo ataque à velha guarda stalinista, aos burocratas do partido e aos responsáveis diretos pela repressão que antecedera à guerra.

De acordo com a versão publicada pelo Pradva, Jukov mencionou diretamente em seu discurso os integrantes do "grupo antipartido" — Molotov, Kaganovich, Ma-lenkov e Shepilov. Com isso, foi muito além do que fora Kruschev, que se limitara a atribuir a Malenkov a responsabilidade pelo sangrento expurgo de Leningrado, que se registrou entre 1949 e 1951, ainda sob o regime de Stalin. Kruschev também evitara qualquer menção a Kaganovich, instrumento direto de Stalin no decorrer de todos os expurgos e liquidações, e a Molotov que, como primeiro-ministro, devia arcar com a responsabilidade última pela execução dos milhares de condenados no grande expurgo da década dos 30, entre os quais estavam alguns dos mais prestigiosos e antigos dirigentes bolchevistas, como Rykov, Bukarin, Kamenev e Zinoviev.

Tal prudência, por parte de Kruschev, era mais que compreensível, uma vez que ele próprio fora um dos prepostos principais de Stalin no decorrer dos expurgos na Ucrânia e, se acusasse Molotov e Kaganovich, por exemplo, estaria apenas condenando terceiros por algo que ele mesmo fizera. Além disso, a pormenorização das denúncias inevitavelmente atingira também Voroshilov, que era em 1957 o chefe de Estado da URSS. Seria fácil a seus adversários, empenhados na luta pelo poder, lembrar que seu amigo e aliado temporário, Voroshilov, presidira a corte marcial que tinha condenado à morte, em 1937, Tukachevsky e dezenas de oficiais-generais do Exército Vermelho atingidos pelo expurgo. Assim, tanto o primeiro-secretário do Partido Comunista como o presidente do Praesidium do Soviet Supremo não tinham o menor interesse em levar às últimas consequências a formulação das responsabilidades dos verdadeiros autores do grande expurgo, ao qual ambos estavam inextricavelmente ligados.

Jukov, por outro lado, como deixou bastante claro no seu surpreendente pronunciamento político aos operários das indústrias Bolshevik, não se deixava deter por tais considerações. Com sua atitude, discriminando os que julgava realmente responsáveis pelo grande terror, confirmava as versões segundo as quais não tomou parte ativa na repressão à velha guarda, beneficiando-se apenas, em sua carreira militar, das facilidades de promoção oferecidas pêlos grandes claros abertos nos quadros de oficiais-generais do Exército Vermelho.

Não tendo os antecedentes de Kruschev e Voroshilov, pelo menos no que se refere ao período em questão, o marechal tinha liberdade de manobra e podia fundamentar sua estratégia, ao incursionar pelo campo político, numa base bastante sólida: "a defesa pública e aberta do legalismo, como única maneira de evitar a repetição de erros do passado".

Mas o que preconizava, de fato, o Jukov político?

Sua tese, anunciada não aos líderes do PCUS mas aos trabalhadores de Leningrado — tática que inevitavelmente deve ter chocado os estrategistas do partido — era de uma simplicidade cristalina: toda a história do terror stalinista devia ser imediata e publicamente trazida à luz do dia e revelada, para conhecimento geral e responsabilização dos culpados.

Para lançar sua tese, como lançava suas forças em operações militares, Jukov desfechou uma barragem de artilharia retórica, sustentando, entre outras coisas, que Malenkov, Molotov e Kaganovich se opunham resolutamente à denúncia das ilegalidades e crimes cometidos sob o stalinismo porque "temiam sua própria responsabilização pela transgressão de suas prerrogativas, pela prática de ações ilegais e pêlos esforços que desenvolviam para salvaguardar privilégios obtidos há mais de trinta anos". Nesse mesmo discurso em Leningrado, Jukov citou escificamente os casos em que Malenkov, Molotov e Kaganovich, abusando de seus poderes, tinham violado as leis.

Com sua longa experiência na luta pelo poder e conscientes de que poderiam arcar com as consequências de represálias do aparelho burocrático do sistema, os editores do Pradva, prudentemente, engavetaram as acusações diretas feitas pelo marechal.

Ainda assim, mesmo com a reprodução das acusações específicas, a transcrição feita pelo Pradva do discurso de Jukov no comício de Leningrado teve o efeito de uma verdadeira bomba de retardamento nos altos escalões do Partido Comunista da União Soviética.

Formulando sua acusação em público e não numa reunião secreta da cúpula do sistema, o marechal estava, evidentemente, tentando compelir Kruschev a promover rapidamente e sem qualquer consideração, o julgamento dos responsáveis pêlos assassínios cometidos na era de Stalin.

Até onde, entretanto — deviam perguntar-se Kruschev e os demais dirigentes do PCUS — pretendia de fato chegar o marechal em sua ofensiva política?

Tão logo teve conhecimento do pronunciamento do marechal em Leningrado, Kruschev entrou em contato direto com a cúpula do partido, igualmente surpreendida pela inopinada ofensiva de Jukov.

Kruschev e seus companheiros tentaram estabelecer rapidamente o alcance dessa ofensiva. O objetivo imediato e declarado era a responsabilização dos autores dos crimes stalinistas — e mesmo esse objetivo limitado já lhes infundia pavor, uma vez que Kruschev, Voroshilov e outros integrantes da cúpula do PCUS e da administração estatal tinham consciência de que estavam inex-tricavelmente ligados, como executores, a esses mesmos crimes. Nesse sentido, a longo prazo — que poderia não ser tão longo, de acordo com as circunstâncias — o marechal fazia pender sobre suas cabeças a espada da retribuição. E todos eles sabiam perfeitamente que Jukov, uma vez determinado a agir, era implacável e não se deixava afastar por coisa alguma dos objetivos a que visava.

Como a velada ameaça pessoal do discurso de Leningrado não bastasse, os ideólogos do partido vislumbraram outra, mais grave ainda, na medida em que transcendia a tática para abranger a estratégia formulada por Jukov.

Denunciando o stalinismo e clamando publicamente pela condenação dos responsáveis pêlos crimes cometidos por Stalin e seus prepostos, o marechal estaria também fazendo o que Kruschev já tinha feito no XX Congresso, isto é, beneficiando-se, em termos de propaganda, da condenação do stalinismo.

A diferença, entretanto, entre o que Kruschev fizera e Jukov começava a fazer, era imensa. Enquanto o primeiro denunciara o stalinismo, em termos vagos, numa reunião secreta da cúpula partidária, permitindo depois que uma versão cuidadosamente filtrada de suas palavras fosse divulgada, o marechal dirigia-se não a um pequeno grupo fechado, mas a homens comuns, trabalhadores de Leningrado, numa atitude diametralmente contrária à ortodoxia do sistema soviético.

Para agravar ainda mais a situação, Kruschev e seus associados também foram informados de que Jukov havia sido aclamado como um herói pela população de Leningrado, que não esquecera o papel desempenhado pelo marechal na defesa da cidade durante a guerra. De fato, a aclamação em que os operários de Leningrado irromperam ao fim do comício de Jukov foi muito maior do que os modestos aplausos com que haviam acolhido o próprio líder do PCUS, alguns dias antes da visita do marechal.

Tudo isso, naturalmente, pesa muito na URSS, desempenhando um importantíssimo papel na permanente luta pelo poder.

Os verdadeiros propósitos de Jukov jamais chegaram a ser conhecidos, mas suas ações alarmaram extraordinariamente os detentores do poder soviético, uma vez que Jukov não se limitou a falar aos operários de Leningrado.

A popularidade do soldado Jukov era imensa e o político Jukov a capitalizava plenamente. Seus retratos começavam a surgir com frequência e em número cada vez maior nas publicações soviéticas. O marechal ganhara de fato a posição de homem do dia e seu prestígio, junto ao povo e mesmo nos escalões inferiores e intermediários do PCUS era tão grande que transcendia a própria legenda de seus feitos militares, projetando-o no domínio político.

Perfeitamente a par de tais fatos e dos riscos que isso representaria para sua posição, os integrantes da cúpula partidária não perderam tempo em organizar a vasta máquina burocrática do sistema, montando uma contra-ofensiva para eliminar a ameaça que entreviam.

Para Kruschev, o trabalho de convencer os integrantes da cúpula do PCUS de que as suas posições estavam seriamente ameaçadas pela perspectiva de ascensão de Jukov não foi difícil, uma vez que os detentores de postos de mando na URSS têm uma sensibilidade agudíssima em relação a qualquer ameaça, por mais remota que seja, às suas prerrogativas. Como esgrimistas que se mantêm permanentemente em forma, eles estão habituados a reagir instantaneamente a todo e qualquer desafio na luta contínua pelo poder, do desfecho da. qual depende sua sobrevivência política.

Convencer os integrantes dos escalões inferiores e intermediários do PCUS de que Kruschev tinha razão e de que era preciso afastar urgentemente Jukov não seria tão fácil. Entretanto, essa não se tratava de tareia tão urgente: as explicações e justificativas seriam apresentadas posteriormente, quando os fatos estivessem consumados, de acordo com a ortodoxia do sistema. Desse lado não haveria problema algum para Kruschev e seus camaradas preocupados em afastar o soldado convertido em político, no qual viam um rival perigoso.

Na verdade, os problemas maiores pareciam residir no setor militar, cujo prestígio e influência jamais fora tão grande na URSS, especialmente a partir do momento em que Jukov, como ministro da Defesa, passara a fazer parte do Praesidium, o mais alto posto político jamais conferido a um militar profissional na cúpula do Partido Comunista da União Soviética.

Como reagiriam ao afastamento de Jukov seus velhos camaradas de armas, marechais e generais que tinham feito carreira ao seu lado? Que atitude tomariam os jovens oficiais que o admiravam? Como se comportariam os próprios soldados, que nele viam o maior herói da União Soviética?

A reação do establishment militar soviético não podia deixar de ser considerada. Mas os burocratas da cúpula partidária, habituados a esse tipo de conflito interno, logo apresentaram a Kruschev uma solução: a ação di-reta de Jukov só poderia ser contida por meio de uma reação direta, a ser desenvolvida simultaneamente.

Para justificar a deposição de Jukov e seu afastamento do serviço ativo, a máquina de propaganda do partido seria acionada, acusando-o, entre outras coisas, de ter "violado princípios leninistas" ao tentar reduzir o valor das organizações do PCUS no quadro das Forças Armadas e — mais grave ainda — de tentar eliminar a liderança e o controle do partido sobre o Exercito.

Noutras palavras, as acusações formuladas secretamente contra Jukov por Kruschev e seus associados, não eram muito diferentes das acusações de "bonapartismo' formuladas por Stalin contra Tukachevsky, Blucher e os demais líderes militares do Exército Vermelho eliminados no sangrento expurgo da década dos 30.

Acertada a formalização das acusações, restava ainda um problema de ordem prática: como obter a colaboração e a indispensável boa vontade dos chefes militares para o êxito da operação política? Isso também não foi difícil para os especialistas da luta pelo poder, sempre dispostos a recorrer a todos os meios para atingir os seus próprios fins.

No caso de Jukov, eles jogaram com sentimentos e emoções humanos. A despeito — ou talvez em consequência — de seu imenso prestígio, o marechal era considerado com rancor por muitos de seus antigos camaradas. Koniev, por exemplo, jamais lhe perdoara o fato de ter entrado em Berlim em primeiro lugar, roubando-lhe a glória que ambicionava. Assim, não foi difícil ao Cremlin aliciar a colaboração de Koniev. E a Koniev aliaram-se os antigos camaradas do marechal, como Yeremenko, Rokossovsky, Timoshenko, Sokolovsky. Os organizadores da contra-ofensiva secretamente montada contra Jukov jogaram habilmente para explorar as frustrações, ambições e rivalidades dos chefes militares, particularmente dos que não escondiam seu desejo de glória e grandeza, como era o caso de Koniev.

Alguns dos marechais, evidentemente, eram amigos íntimos de Jukov, como Rokossovsky e Sokolovsky. Estes, entretanto, foram compelidos a aceitar a decisão de Kruschev, uma vez que suas próprias carreiras seriam ameaçadas se hesitassem por um momento em apoiar integralmente a linha política adotada naquele momento pela cúpula do PCUS.

Tudo indica que uma cuidadosa contagem de cabeças e posições foi efetuada pêlos próprios marechais e generais comandantes das grandes unidades. Ao fim da contagem, a sorte de Jukov estava selada.

Ainda assim, Kruschev atuou com a maior cautela e astúcia, cercando-se das maiores garantias antes de desfechar o golpe final contra o homem que garantira a sua própria sobrevivência política.

Para assegurar-se do desenvolvimento eficiente e pacífico de sua ação contra o ministro da Defesa, Kruschev enviou Jukov à Jugoslávia em outubro de 1957. Oficialmente, a visita de Jukov tinha o caráter de missão soviética de boa vontade e se destinava a ratificar o restabelecimento de relações partidárias fraternais com o herege condenado por Stalin e recentemente reabilitado, Tito.

Assim que Jukov deixou Moscou, rumo a Belgrado, as últimas providências político-administrativas para sua deposição foram acertadas e antes do fim da visita o marechal foi surpreendido por uma mensagem urgente de Kruschev, que reclamava seu imediato regresso a Moscou.

O pretexto alegado por Kruschev para chamar de volta seu ministro da Defesa era quase infantil: Jukov devia supervisionar os preparativos para a grande parada militar com que se comemoraria em Moscou o 40º aniversário da Revolução.

O marechal de nada suspeitava e só deve ter começado a compreender que algo de errado acontecera durante sua ausência quando, ao desembarcar no aeroporto de Vnukovo, encontrou à sua espera um grupo de marechais e generais — mas nenhum dos integrantes da cúpula do PCUS.

Horas depois do seu regresso a Moscou, a agência Tass, num lacónico comunicado, anunciava ao mundo que o marechal Malinovsky tinha substituído Jukov como ministro de Defesa da União Soviética.

No próprio aeroporto, ao. desembarcar, o surpreendido Jukov devia ter percebido que os marechais e outros oficiais-generais que o aguardavam não tinham vindo para prestar-lhe as honras de estilo, mas para custodiá-lo e acompanhá-lo até sua residência. Nesta, dias depois, por meio de uma comunicação telefônica informal, o marechal foi informado de que deixara de fazer parte da Comissão Central e do Praesidium.

A partir daí, destituído de todos os seus poderes por Kruschev, passaria a ser um simples militar reformado, sem qualquer influência na ordem das coisas e confortado apenas pelas glórias de sua carreira de soldado.

Mesmo assim, Kruschev, que já se preparava para a etapa seguinte da luta pelo poder — o afastamento de Voroshilov e seu grupo — queria certificar-se de que o marechal tinha sido neutralizado para sempre e eliminado como um rival perigoso no confronto pela liderança. A 3 de novembro de 1957, Jukov foi formalmente acusado de ter pretendido sobrepor o Exército às organizações partidárias. Simultaneamente, a imprensa soviética, devidamente programada, desfechava contra o marechal toda sorte de acusações, sustentando que ele perdera a "modéstia partidária", que incentivara o próprio culto à sua personalidade e que procurava apresentar-se como herói individual, "relegando a segundo plano o heroísmo do povo soviético e das Forças Armadas sob a liderança esclarecida do Partido Comunista da União Soviética".

Koniev, embora frustrado pelo fato de ter recaído sobre Malinovsky e não sobre ele a missão de substituir Jukov como ministro de Defesa, não perdeu a oportunidade para extravasar impunemente seu ressentimento e mágoa, vingando-se do homem que, no seu entender, usurpara-lhe a glória da conquista de Berlim.

Não se limitando a criticar tecnicamente a atuação de Jukov durante a guerra e responsabilizando-o parcialmente pelo despreparo da URSS, por ocasião da agressão alemã, Koniev acusou-o de ser "arrogante, imperioso, ditatorial, disposto a valer-se das Forças Armadas para atingir seus próprios propósitos e não aqueles visados pela nação, sob a liderança do PCUS".

Alguns observadores, entre os quais Preston Chaney, atribuem o destampatório de Koniev, homem geralmente reservado, que sabia controlar perfeitamente suas paixões e emoções, à frustração que sentiu ao não ser designado substituto de Jukov no posto supremo da hierarquia militar. Kruschev, entretanto, a essa altura não queria substituir um marechal politicamente ambicioso por outro, preferindo optar por Malinovsky, profissional de competência comprovada, mas de personalidade praticamente nula.

Como não poderia deixar de acontecer, os próprios formuladores das acusações contra Jukov sabiam perfeitamente que as denúncias apresentadas contra ele tinham sido mero pretexto empregado para afastar dos postos de mando e poder um rival temido. Isso, entretanto, não preocupava Kruschev e seus associados.

Uma vasta campanha publicitária — artigos pela imprensa, "comícios de esclarecimento" organizados em fábricas, escritórios e repartições, afastamento de oficiais mal-pensantes das Forças Armadas — desenvolveu-se rapidamente com o objetivo de denegrir Jukov e afastar seus partidários. E, como acontece nesses casos, as enciclopédias, obras históricas e textos de livros didáticos foram rapidamente revistos, para reduzir a proporções ínfimas o papel e a participação de Jukov na Guerra Civil, no período de entre-guerras e na Segunda Guerra Mundial.

Estigmatizado como "bonapartista", o marechal tinha sido colocado por Kruschev, definitivamente, à margem dos acontecimentos e jamais voltaria a ser detentor de qualquer parcela de poder.

Um único consolo restaria ao soldado bruscamente privado de todas as suas posições e poderes — o fato de sua degradação ter ocorrido em 1957, sob o regime de Kruschev, e não antes de 1953. Sob Stalin, não lhe teria sido permitido, como foi, recolher-se tranquilamente à inatividade, sem prejuízo de sua patente, de sua integridade física e de seus proventos de marechal da União Soviética. Tivesse sua deposição ocorrido antes de 1953, dificilmente Jukov teria escapado ao destino de Tukachevsky, Blucher e tantos outros de seus camaradas de Exército Vermelho, como ele acusados de "bonapartismo" e sumariamente condenados não à aposentadoria, mas ao fuzilamento sumário.

Jukov parece ter compreendido perfeitamente tais circunstâncias, resignando-se não apenas à privação dos poderes que detinha mas também aceitando sem contestação as acusações que lhe foram feitas na ocasião e que seriam renovadas regularmente, de acordo com a técnica empregada pelo Cremlin com o propósito de mante-lo inerme e silencioso, à margem dos acontecimentos.

No Fim, a reabilitação[editar | editar código-fonte]

Assim, como produto do golpe desfechado em outubro de 1957 por Kruschev e seus companheiros da cúpula partidária, foram cortadas as carreiras paralelas e indesligáveis do soldado Jukov e do Jukov político.

Um prolongado período de obscuridade se seguiu à destituição do marechal e pouco se sabe de sua vida nesse intervalo, com exceção dos relatos de alguns velhos camaradas de armas que, enfrentando a animosidade do sistema, continuaram a visitá-lo e a frequentar sua casa.

É por meio deles que se sabe que o marechal sempre teve o apoio e contou com a compreensão de sua segunda mulher, Galina. Esta, em sua qualidade de médica, viria ainda a assisti-lo em circunstâncias penosas, nos últimos anos de sua vida.

É também por meio de velhos amigos que se sabe que Jukov, como velho cavalariano, costumava cavalgar regularmente e que era acompanhado às vezes, nesses passeios, pelo marechal Budieny, já muito idoso, mas que também jamais perdeu o hábito de cavalgar nem o amor que dedicava aos cavalos.

Sempre segundo os velhos amigos que o visitavam, o marechal jamais abriu a boca para fazer comentários sobre as circunstâncias de sua destituição. Quando lhe lembravam o papel desempenhado na trama para derrubá-lo por velhos camaradas — como era o caso de Rokossovsky — preferia mudar rapidamente de assunto, procurando disfarçar a visível amargura que o acometia.

Também evitava qualquer comentário sobre as críticas que lhe eram dirigidas pela imprensa e outros órgãos de propaganda do partido e do governo. Na conversação, dava preferência a temas simples e destituídos de qualquer conotação política: condições gerais de vida, projetos e planos pessoais, recordação de episódios vividos, particularmente das muitas campanhas militares de que participara.

Os amigos sabiam, porém, que Jukov dedicava regularmente várias horas por dia à redação de suas memórias. Delas, não falava a ninguém, nem mesmo a Galina, sua mulher. Quando era interrogado a respeito pelos que desejavam saber se pretendia eventualmente publicá-las, replicava com evasivas.

E como o marechal também se recusava a fazer referências ao papel cada vez mais grandioso que era atribuído pela imprensa soviética à atuação de Kruschev durante a guerra — o primeiro-ministro e líder do PCUS chegou a ser em certa oportunidade apresentado como o principal responsável pela vitória de Stalingrado —, os íntimos de Jukov estavam convencidos de que em seu diário o marechal tinha o propósito de desmistificar as versões oficiais da história soviética, reduzindo às suas verdadeiras proporções não somente o papel de Kruschev mas o do próprio Stalin.

Os grossos cadernos em que Jukov registrava a mão os episódios principais de sua vida e de sua carreira deveriam permanecer durante muito tempo trancados a sete chaves.

Nos anos que se seguiram, ainda sob o regime de Kruschev, Jukov teve pelo menos duas oportunidades de voltar ao serviço ativo e reconquistar o posto de que fora destituído pela cúpula do PCUS.

Essas oportunidades ocorreram no verão de 1961, no inverno de 62-63 e, finalmente, em outubro de 1964.

Em 1961, a tensão que tinha em Berlim o seu foco agravou-se extraordinariamente, levando a União Soviética e os Estados Unidos a reforçarem seus dispositivos militares na Alemanha Oriental e na República Federal. E quando as autoridades alemãs orientais, com o beneplácito dos ocupantes russos, ergueram o muro de Berlim, institucionalizando a divisão entre os dois setores da ex-capital alemã, chegou-se a temer que os soviéticos estivessem planejando restabelecer o bloqueio de Berlim Ocidental, repetindo o que tinham feito em 1957.

A intensidade da tensão refletiu-se no Cremlin, e no verão de 1961, quando a situação se tornou explosiva, Kruschev, simulando esquecer o que ocorrera quatro anos antes — e provavelmente pensando em apaziguar os ocidentais, jogando com o prestígio e a popularidade de uma personalidade soviética que lhes era familiar — despachou um dos seus assessores para a residência do marechal, com uma proposta concreta: concordaria Jukov em retornar ao serviço ativo? Aceitaria o posto de ministro de Defesa ou o comando das forças soviéticas acantonadas na Alemanha Oriental? Mas se Kruschev, o pragmatista mais interessado em manter-se no poder do que em ideologia ou preservação da linha ortodoxa, já esquecera o que havia ocorrido há quatro anos, Jukov não esquecera e, mais ainda, aprendera bem a lição. Sem qualquer vacilação, o marechal degradado e posto à sombra rejeitou o convite.

Deveria receber outro, de ocupar o Ministério da Defesa — e desta vez com plenos poderes — no fim do ano seguinte quando Malinovsky, que não se revelara tão dócil como seria de esperar, reuniu uma maioria substancial no Praesidium para aprovação de um oneroso programa militar. Este só poderia ser aplicado com o emprego de verbas que Kruschev — reeditando o plano de Malenkov — pretendia destinar aos seus ambiciosos projetos de desenvolvimento da indústria leve e da agricultura. Não seria fácil dobrar Malinovsky. Nessa altura, somente alguém que gozasse um prestígio semelhante ao de Jukov poderia repor as coisas nos eixos, como queria Kruschev. Este voltou a dirigir novo convite a Jukov, tornando a oferecer-lhe a Pasta da Defesa. Mais uma vez o velho soldado rejeitou a oferta que lhe era feita pelo homem que o derrubara.

Uma terceira oferta — relatada por observadores japoneses — teria sido feita a Jukov e novamente rejeitada no início de 1964, quando a posição de Kruschev já se debilitara muito em consequência do agravamento do conflito sino-soviético e da humilhação imposta à União Soviética em 1962, quando o presidente Kennedy forçou os russos a retirar precipitadamente os foguetes armados com ogivas nucleares que haviam sido instalados secretamente em Cuba.

E o velho marechal deve ter-se sentido parcialmente vingado em outubro de 1964, quando a imprensa soviética anunciou, na manhã do dia 18, que o primeiro-secretário do Partido Comunista da União Soviética, Nikita Sergeie-X vich Kruschev, tinha sido "relevado de suas responsabi-lidades, em consequência de sua avançada idade e agravamento de seu estado de saúde".

Antes mesmo que a máquina de propaganda da URSS fosse mobilizada por Brezhnev e Kossingin, os herdeiros de Kruschev e responsáveis diretos por sua deposição, o veterano Jukov, com sua larga experiência em ler nas entrelinhas as marchas e contramarchas da luta pelo poder que se desenvolve incessantemente no Cremlin, já sabia que o homem que o derrubara tinha sido, por sua vez, derrubado.

Fossem outras as circunstâncias, a deposição de Kruschev teria sido seguida de um desfecho trágico. Os tempos, entretanto, eram outros. Não se vivia mais sob o regime de Stalin — tanto assim que a Kruschev, como acontecera ao próprio Jukov, após sua brusca demissão, foi permitido viver em paz e até mesmo com certo conforto, como aposentado.

E em vista dessas circunstâncias especiais, não seria demais, por parte de Jukov, contar com uma reabilitação e pleno reconhecimento dos serviços que prestara à nação e ao partido, no decorrer de toda uma existência.

De fato, a reabilitação ocorreu, ainda que em ritmo lento e em âmbito apenas parcial.

O primeiro indício de que o marechal seria reabilitado foi entrevisto pêlos observadores que acompanham o desenrolar dos acontecimentos na União Soviética alguns meses após a deposição de Kruschev, em fevereiro de 1965.

Esse indício de reabilitação era indireto, porém seguro segundo os que acompanham o estranho processo adotado pela imprensa soviética para noticiar determinadas decisões: após um longo silêncio, o nome de Jukov, precedido pela citação de sua patente de marechal da União Soviética, voltou a ser publicado pelo Pravda e Izvestia, no contexto do comunicado oficial em que era anunciada a morte de um oficial de alta patente.

Isso era sinal seguro de que Jukov podia contar com uma reabilitação pelo menos parcial e que terminara seu período de queda em desgraça.

Essas previsões e indicações foram confirmadas logo depois, quando se a ti varam os preparativos para a comemoração do 509 aniversário da Revolução. Os retratos de Jukov, há muito ausentes, voltaram a reaparecer nas publicações soviéticas que dedicavam artigos à comemoração do aniversário e ao papel das Forças Armadas na Guerra Civil, na consolidação do Estado soviético e na Segunda Guerra Mundial, das quais Jukov participara.

O marechal voltou a ser visto não apenas nas ruas de Moscou, onde era saudado por velhos camaradas e amigos, mas também em documentários exibidos nos cinemas e transmitidos pela televisão.

E se algumas dúvidas persistiam quanto à reabilitação do velho soldado, elas foram totalmente dissipadas quando a agência Tass divulgou para o mundo, em seu serviço noticioso externo, declarações do marechal Ko-niev, exaltando os feitos militares de seu arqui-rival, ainda que com algumas reservas à sua atuação. Era evidente que Koniev jamais teria feito tais declarações espontaneamente. E se chegou a fazê-las isso aconteceu apenas porque foi compelido a curvar-se aos interesses superiores da máquina de propaganda do sistema, empenhada na reabilitação de um herói militar nacional às vésperas da comemoração do 509 aniversário da tomada do poder pêlos bolchevistas.

É até possível que a ironia da situação não tenha escapado ao próprio Jukov — há dez anos, sob o pretexto de encarregá-lo de organizar as comemorações militares do 409 aniversário da Revolução, Kruschev tinha ordenado que regressasse da Jugoslávia, para de fato destituí-lo. Agora, dez anos depois, o marechal era beneficiado pela reabilitação, enquanto o próprio Kruschev amargava a aposentadoria compulsória e a "morte civil" a que fora relegado após sua abrupta deposição do poder.

O marechal voltou a apresentar-se uniformizado e chegou a receber em sua residência alguns correspondentes ocidentais, confirmando-lhes que realmente estava empenhado na redação de suas memórias. Contudo, recusou-se a fazer qualquer revelação sobre o conteúdo da obra, aguardada com grande curiosidade não somente pêlos especialistas em questões soviéticas, mas pelo homem comum, interessado na estranha carreira político-militar de Jukov.

Simultaneamente, nova revisão — em sentido inverso à que se desenvolvera a partir de 1957 — era efetuada pêlos editores soviéticos, que voltaram a publicar nas enciclopédias e textos oficiais longos e laudatórios verbetes referentes ao marechal, acompanhados por seus retratos e ilustrações fotográficas de suas principais campanhas, mapas militares e relações de suas dezenas de condecorações nacionais e estrangeiras.

Quando se efetuou o imenso desfile, com horas de duração, que marcou o ponto alto das comemorações do 509 aniversário da Revolução, Jukov ocupava novamente um lugar de honra, nas tribunas especiais reservadas aos altos dignitários do partido e do governo, sobre o mausoléu de Lenin, na Praça Vermelha.

Nessa mesma oportunidade, a televisão e os cinemas soviéticos exibiram um longo documentário sobre as principais campanhas militares da União Soviética, com destaque especial para a participação de Jukov nas batalhas de Moscou, Leningrado, Kursk e Berlim. O mesmo documentário apresentava rapidamente cenas em que aparecia Stalin — mas não continha uma única imagem ou indicação que tratasse de Kruschev, que continuava sendo totalmente ignorado. Isso tudo significava, para o idoso marechal, não somente a reabilitação, mas também uma razão de compensação pessoal: enquanto voltava a ser alvo de todas as honras, o homem que o depusera era mantido à sombra, como se jamais tivesse existido.

Em dezembro de 1966, por ocasião do 259 aniversário da batalha de Moscou o Praesidium do Soviet Supremo conferiu ao marechal a mais alta das condecorações nacionais soviéticas, a Ordem de Lenin. A citação que acompanhava a condecoração esclarecia que esta era atribuída em consideração aos valiosos serviços prestados pelo marechal às Forças Armadas e pela passagem de seu sep-tuagésimo aniversário. Nesse mesmo mês de dezembro e no mesmo quadro de comemorações do aniversário da crucial batalha de Moscou, em solene cerimónia à qual compareceram os líderes do partido e do governo, foi lida publicamente uma relação dos nomes dos líderes militares que mais tinham contribuído para a vitória sobre as forças alemãs que ameaçavam a capital soviética. O primeiro nome da lista era o de Jukov — e o locutor que lia a relação foi interrompido por ensurdecedores aplausos ao pronunciar o nome do marechal.

Ao fim da cerimónia, Jukov foi cercado por veteranos de guerra, de marechais e velhos soldados que tinham combatido sob suas ordens em várias campanhas e que desejavam cumprimentá-lo e manifestar-lhe sua amizade e admiração.

Mesmo Koniev, que se mantivera afastado e cabisbaixo durante a cerimónia, sentiu-se obrigado a estenderlhe a mão, que Jukov apertou sem qualquer vacilação, dando-se o luxo de manifestar generosidade para com o rival que o tinha denegrido.

Encerrados os festejos comemorativos da Revolução de Outubro e novamente recolhido à sua confortável casa de campo, nos arredores de Moscou, Jukov iniciou a publicação seriada de suas memórias em uma revista mensal soviética. Posteriormente, os extratos foram reunidas num grosso tomo, com suas observações, recordações, análises das batalhas de Moscou, Kursk, Stalingra-do e Berlim. O interesse suscitado por tais obras não transcendeu os círculos de especialistas em questões soviéticas e de historiadores militares, uma vez que o relato era essencialmente técnico e pouco acessível aos leigos.

Esperava-se muito mais de suas Recordações e Reflexões, compiladas e editadas em volume publicado em 1969. Entre outras coisas, eram aguardadas com interesse as revelações que o marechal estava em condições de fazer sobre episódios obscuros da história soviética — afirmava-se que ele teria dedicado mais de um capítulo ao papel de Trotsky, como organizador do Exército Vermelho, supunha-se que tratasse das circunstâncias da morte de Frunze, ainda hoje um mistério, e que esclarecesse devidamente as razões da inação de Stalin, nas 48 horas que se seguiram à agressão alemã, em junho de 1941.

O maior interesse e expectativa, contudo, reinava em torno das revelações que Jukov poderia fazer a respeito de um assunto que conhecia de primeira mão, isto é, o grande expurgo de que foram vítimas tantos de seus companheiros de armas, quando Stalin privou o Exército Vermelho da nata de sua oficialidade.

Quem melhor do que Jukov poderia revelar as verdadeiras circunstâncias da condenação e da execução sumária de milhares de oficiais soviéticos altamente qualificados?

Mas as memórias do marechal constituíram uma decepção para os que as tinham aguardado com ansiedade durante anos, contando antecipadamente com grandes revelações.

Logo às primeiras páginas a obra demonstrava que tinha sido produzida e editada de acordo com um critério de mútuas concessões. Se Zhúkov foi autorizado pelo sistema a dizer alguma coisa do que pretendia, o preço que teve de pagar por essa relativa liberalidade foi pesadíssimo e a mão do censor encarregado de expurgar a obra é mais que percebida, ao longo de toda a narrativa de Recordações e Reflexões.

Com exceção de experiências pessoais, em vários setores e circunstâncias, Zhúkov pouco acrescentou ao que se sabia sobre a Guerra Civil e os primeiros anos do Estado soviético. Quem esperava uma análise do papel de Trotsky, como comissário da Guerra e forjador do Exército Vermelho também deve ter ficado desapontado. Omissão maior ainda — ou indício seguro de que a censura extorquiu do marechal um alto preço para permitir-lhe que publicasse uma parte das suas recordações — é a insignificante alusão ao grande expurgo, tratado apenas de passagem, em dois brevíssimos parágrafos.

A diminuta referência constitui prova de que os censores soviéticos não vacilaram em cortar longas passagens de Recordações e Reflexões, uma vez que o próprio autor já manifestara várias vezes no passado, particularmente no seu famoso discurso de Leningrado, seu firme propósito de denunciar os responsáveis pêlos crimes e ilegalidades cometidos sob o stalinismo.

A supressão mais que provável dessa e de outras passagens da obra contribuiu para que a história paralela do Zhúkov político e do Zhúkov soldado permaneça obscura, talvez para sempre. Afirma-se, contudo, que Galina Zhúkov preservou uma cópia dos originais de todas as obras do marechal. Se isso é verdade e se os escritos de fato foram censurados em seus trechos essenciais, a eventual publicação dos originais, na íntegra, poderá esclarecer vários aspectos virtualmente ignorados da história da URSS.

Tudo isso, entretanto, continua sendo mera suposição.

De fato, com exceção de aspectos estratégicos e técnicos das muitas campanhas de que participou, Zhúkov não fez qualquer revelação sensacional em suas memórias, limitando-se a descrever pormenorizadamente fatos já conhecidos em suas linhas gerais, tal como a bem sucedida rebelião que empreendeu contra a autoridade absoluta dos comissários-políticos.

Por outro lado, embora sem o afirmar taxativamente, Zhúkov — como acontece geralmente com todos os generais memorialistas — não vacila em destacar seu próprio papel e a importância de sua contribuição à causa da vitória soviética na Segunda Guerra Mundial. E como o marechal sempre fora tido por modesto, essa auto-exaltação surpreendeu alguns dos seus antigos camaradas, que bem o conheciam.

Um deles, interrogado a respeito por um correspondente ocidental, apresentou uma explicação lógica para o fato de o memorialista ter ressaltado os seus próprios feitos: "Depois de ter sido mantido à sombra, durante tantos anos, é natural que nas memórias fale mais do que costuma falar de si normalmente".

Seja como for, os especialistas e o público em geral continuaram aguardando com curiosidade a publicação da parte final das memórias de Zhúkov, pois se na primeira parte passara como gato sobre brasas ao tratar de episódios cruciais, como o grande expurgo dos quadros de oficiais do Exército Vermelho, esperava-se que tratasse, na parte final, dos acontecimentos que se seguiram à morte de Stalin. Suas recordações seriam importantes, uma vez que participou nesse período de uma série de episódios ainda bastante obscuros, como a eliminação de Beria e redução dos poderes e influência da polícia política; a luta contra o chamado "grupo antipartido", no quadro geral da luta pelo poder, e a supressão do levante nacional húngaro.

Nova decepção, contudo, aguardava os que contavam com revelações de Zhúkov, pois a parte crucial e mais interessante de suas memórias jamais chegou a ser publicada. Como todos os documentos pessoais do marechal, esses escritos continuam em mãos de sua segunda mulher.

Em consequência, as recordações de Zhúkov transformadas em letra de forma terminam em 1946, quando Stalin ainda era vivo e o marechal era o comandante e representante das forças de ocupação soviéticas acantonadas na Alemanha Oriental.

Uma única oportunidade para ouvir o marechal, em busca de esclarecimentos sobre sua carreira e sua vida, bem como de episódios da história soviética de que tinha conhecimento, foi entrevista pêlos jornalistas do Ocidente em 1969.

Eisenhower tinha morrido em março daquele ano e chegou a ser anunciado que o marechal Jukov seria enviado a Washington, como representante especial do governo soviético aos funerais do ex-presidente e comandante supremo das forças ocidentais na Segunda Guerra Mundial.

Uma das grandes cadeias de televisão norte-americanas chegou a preparar um documentário especial que se chamaria "Jukov Depões Para a História" e que devia ser gravado durante a permanência do marechal em Washington.

Todavia, pondo fim a essas especulações, o governo soviético anunciou que dias antes da morte de Eisenhower o marechal Jukov tinha sofrido um derrame cerebral. Quando a notícia foi divulgada, o marechal já havia deixado o Hospital do Cremlin, onde recebera assistência e ficara internado. Voltara à sua residência nas proximidades de Moscou, mas ainda não estava em condições de viajar. O comunicado, finalmente, dava a entender que o velho soldado provavelmente jamais se recuperaria de todas as consequências do mal que o acometera.

O derrame deixou Jukov parcialmente paralisado. Caminhava com dificuldade e mal conseguia mover o braço esquerdo. Ainda assim, demonstrando a mesma força de vontade e energia que o tinham caracterizado durante toda a vida, o marechal continuou a participar de atos públicos e, pelo menos uma vez por mês, comparecia ao "jantar dos veteranos", reunião regular dos oficiais-generais veteranos da Segunda Guerra Mundial. Seus amigos sustentam que apesar do derrame que o deixara semiparalisado, Jukov continuava perfeitamente lúcido, tanto assim que frequentemente os camaradas apelavam à sua prodigiosa memória para confirmar datas, nomes e circunstâncias esquecidos.

Além do respeito e consideração geral que o cercaram nos últimos anos de sua vida, Jukov também continuou sendo alvo de frequentes homenagens, não somente no próprio país como no exterior, onde era considerado o mais ilustre militar soviético.

Como único detentor de quatro Estrelas de Ouro da União Soviética, Jukov tornou-se também o primeiro militar estrangeiro condecorado pelo governo de Ulan-Bator com a Estrela de Ouro dos Heróis da República Popular da Mongólia. Essa condecoração foi-lhe atribuída justamente a 14 de agosto de 1969, por ocasião do 309 aniversário da vitória de Kalkin-Gol, que pôs fim aos sonhos japoneses de conquista da Sibéria.

O próprio Kruschev, em suas revelações, publicadas no Ocidente deixou de lado as infantis acusações de "bonapartismo" que formulara contra seu ministro de Defesa para afastá-lo do posto em 1957, prestando-lhe um grande tributo e ressaltando sua intervenção decisiva nas batalhas de Moscou, Stalingrado e Kursk, assim como na defesa de Leningrado.

Tal atitude não foi esquecida por Jukov, uma das raras altas personalidades da União Soviética que se atreveram a desafiar o sistema comparecendo pessoalmente à residência do ex-primeiro-ministro, para apresentar suas condolências a Nina Kruschev, por ocasião do falecimento de seu marido.

Aparentemente, o marechal não guardou rancor do homem que cortara sua carreira, afastando-o abruptamente do establishment militar e das altas esferas políticas. Nem mesmo de seu maior rival e adversário, Koniev, Jukov guardou rancor, como o confirma o elogio fúnebre que redigiu em maio de 1973, por ocasião da morte do marechal que não vacilara em denegri-lo após sua queda. Esse foi apenas um dos elogios fúnebres da longa lista de necrológios de velhos camaradas firmados nos últimos anos por Jukov — Malinovsky, Zeterin, Ro-kossovsky, entre outros —, certificando o desaparecimento de homens que viveram ao seu lado episódios cruciais, no longo e movimentado período histórico que foi da Revolução de 1917 à transformação da União Soviética em superpotência.

Com o correr do tempo, mesmo a imensa força de vontade e grande energia de Jukov começaram a refletir a debilitação de seu estado geral. Com exceção do jantar mensal dos velhos camaradas de armas, deixou de comparecer a solenidades e raramente saía de sua casa de campo. Há muito deixara de cavalgar — seu habitual companheiro, o idoso marechal Budieny, tinha morrido— e quando passeava a pé nas proximidades de sua residência era sempre amparado por velhos amigos, com os quais ainda apreciava trocar recordações e reminiscências.

Em fins de 1973, Jukov sofreu um novo derrame, agravado por problemas circulatórios. Seu estado, ao ser mais uma vez internado no Hospital do Cremlin, era tão grave que seu elogio fúnebre, já preparado pelo Pravda e pelo Izvestia, foi composto naquela noite. Pela última vez, entretanto, o velho soldado venceu a crise, recuperando-se parcialmente e regressando à sua residência.

A precariedade de seu estado, porém, era conhecida e foi com pesar, porém sem surpresa, que a imprensa soviética anunciou a morte do marechal, no dia 22 de junho de 1974.

Os jornais soviéticos dedicaram-lhe os maiores elogios e os líderes do Estado e do PCUS compareceram aos seus funerais de herói nacional, o que era natural, já que Jukov transcendera a dupla condição de soldado e político para assumir as dimensões de instituição nacional.

O marechal levou seus segredos consigo.

Aparentemente, ainda que o desejasse, sua viúva, Galina, dificilmente será autorizada a publicar os originais do marido, que ainda conserva e que poderiam lançar alguma luz sobre tantos mistérios e circunstâncias desconhecidas da história soviética. Somente em condições especialíssimas — criadas pela permanente luta pelo poder que se trava na URSS — a publicação de alguns segmentos desses originais virá a ser autorizada.

Enquanto tais documentos permanecerem secretos— como tudo indica que permanecerão — a imagem que o mundo preservará de Giorgi Konstantinovich Jukov, será a de político amador não tão bem sucedido e, simultaneamente, a do grande soldado profissional, que tão bem soube servir as causas que lhe foram confiadas, dedicando ao totalitarismo soviético a mesma lealdade e abnegação que devotara, no início de sua vida e de sua carreira, ao absolutismo imperial do regime czarista.

O que disseram e escreveram sobre Jukov[editar | editar código-fonte]

Ermbora Jukov, até o fim de sua vida fosse uma personalidade praticamente desconhecida no Ocidente — que só conhecia os seus feitos militares de soldado — e na própria URSS, são inúmeras as referências a ele feitas no decorrer de sua longa carreira.

Entre o que se disse dele há exageros gritantes, como o de Eisenhower que, referindo-se ao companheiro de armas, logo após a vitória sobre a Alemanha, declarou aos jornalistas: "Na luta contra o Eixo, as nações aliadas não têm dívida maior para com um homem do que a contraída com o marechal Jukov".

O mesmo Eisenhower, um ano depois — antes do início da guerra-fria, sustentaria também: "Um dia, haverá outro tipo de ordem militar na União Soviética. Será a Ordem de Jukov e certamente ela será altamente apreciada por todas as pessoas que nutrem admiração pela bravura, visão, energia e determinação militares.

Nem tudo o que se disse de Jukov, porém, é tão elogioso. Para N. Z. Karbel, colaborador do Repórter, durante a brevíssima "Primavera de Praga", "o marechal Jukov foi o carniceiro da Hungria e, certamente, não teria vacilado um segundo se lhe fosse confiada a tarefa de restabelecer a ferro e fogo, em 1968, o domínio soviético sobre a Checoslováquia. Mais que um soldado, foi um simples aplicador da política soviética".

James V. Marshall, de Horizon, é mais lacónico: "O marechal Jukov foi o homem que fazia o que lhe era ordenado. Mais não se pode pedir e mais não se pode esperar de um soldado e disciplinador".

Anthony Éden durante a guerra também se deixou impressionar pelo marechal: "A União Soviética deve ter grande disponibilidade de oficiais de Estado-maior, para limitar a energia, o dinamismo e a capacidade de Jukov ao comando de operações".

Para Stalin, após a batalha de Kursk, Jukov podia ser definido em quatro palavras: "O homem que faz".

Hanson W. Baldwin dele disse: "Sua mais corajosa luta foi contra o controle absoluto dos comissários-políticos, que venceu durante a guerra, garantindo aos comandantes a flexibilidade de ações e decisões que é indispensável".

O mais reputado dos especialistas em questões soviéticas que já escreveu no Ocidente, Isaac Deutscher, disse de Jukov: "Com exceção da figura institucionalizada de Lenin, Jukov provavelmente foi o primeiro líder a emergir na União Soviética aureolado pela reputação de herói popular e genuinamente soviético".

Seus adversários na Segunda Guerra Mundial, os generais alemães, de Rundstedt a Manteufel, estão entre os que reconheceram as qualidades de comandante de Jukov. Em depoimento a Liddell Hart, Guderian, o maior especialista alemão em forças blindadas, declarou: "Jukov é um dos raros soldados capacitados a considerar várias alternativas antes de uma batalha decisiva — e a dedicar-se, com os maiores recursos e a maior disposição, à alternativa correta'.

Shaposhnikov, entretanto, é quem parece ter definido melhor a personalidade de seu camarada: "Duríssimo no serviço, exigindo de todos o que exigia de si mesmo, determinado e intolerante para com quem errava, fora de serviço é o melhor amigo e companheiro que se pode desejar".

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Babel, Isaac. Collected Stories & Red Cavalary, Ed. Penguin.
  • Blumentritt, Guenther. Total War, citado por P. Calvacoressi & G. Wint, Ed. Bantam.
  • Branco, Frederico. Zhukov. Rio de Janeiro: Editora Três, 1974.
  • Chaney Jr., Otto Preston. Zhukov: Marechal da União Soviética. Rio de Janeiro: Renes, 1974.
  • Keegan, John. Barbarossa: a invasão da Rússia. Rio de Janeiro: Renes, 1973.
  • Os Generais Aliados, Editora Três, 1974 "Biografia Os Grande nomes de nossa época"