História dos animes

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A história do anime, o gênero de animação de origem japonesa, começa na segunda década do século XX, com uma série de curta metragens similares aos achados em outros países, influenciados pelas obras da Disney em grande parte.

Algum tempo depois da Segunda Guerra Mundial, começaram a surgir grandes companhias dedicadas tanto às séries televisivas como aos longas-metragens, entre as que destaca Toei Animation.

Mesmo que muitas seguiram em ativo nas últimas década do século XX, e seguem no início do século XXI, uma série de diretores e criadores de histórias alcançaram renome próprio neste gênero, bem por obras de grande fama, como Katsuhiro Otomo com Akira ou Akira Toriyama com Dragon Ball, como por seus compridas e premiadas trajetórias, como Hayao Miyazaki.

Primeiros trabalhos[editar | editar código-fonte]

Pioneiros[editar | editar código-fonte]

A batalha do macaco e do caranguejo: feito por Seitaro Kitayama em 1917

Em 1906 aparece o primeiro filme de animação, "Humorous Phases of funny face", do produtor americano James Stuart Blackton. Em 1907 se fez a primeira produção de animação japonesa: Katsudō Shashin, em onde sai um menino marinheiro. Em 1908 aparece na França "Fantasmagorie", do desenhista Emile Cohl e produzida por Gaumont. Este tipo de filmes de animação chega nos cinemas japoneses para 1910. Entre 1914 e 1917 se exibiram aproximadamente 93 filmes de animação estrangeiros, sendo as americanas as de maior popularidade. Ante tal fenômeno, os produtores japoneses começaram a se dedicar a realização de cinema de animação nacional.

A companhia Tennenshoku Katsudo Shashin (Tenkatsu) é quem reage primeiro, encarregando em 1916 ao desenhista de mangá Oten Shimokawa um filme do gênero. Naquela época não existia documentação no Japão sobre as técnicas de animação, por isso a tarefa de Shimokawa não foi fácil. Não obstante, conseguiu realizar o primeiro filme de animação japonesa, Imokawa Mukuzō Genkanban no Maki estreada em janeiro de 1917. Por sua vez, o pintor de estilo ocidental Seitaro Kitayama, interessado pelos filmes estrangeiros de animação que via, apresenta um projeto de realização própria à companhia Nippon Katsudo Shashin (Nikkatsu), que esta aceita encargarle. Kitayama também não era um experto na animação, mas a base de provas e erros, conseguiu terminar Saru Kani gassen (A batalha do macaco e o caranguejo), baseada em um conto popular japonês, que foi estreada em maio de 1917. Shimokawa e Kitayama começaram a realização de seus filmes em 1916, coincidindo com a implementação do desenhista de mangá de corte político Sumikazu Kouchi, que por encargo agora da companhia Kobayashi Shokai, estrearia em junho de 1917 Hanawa Hekonai, Shinto no maki, com um samurai como protagonista.

A história do cinema de animação japonês começa efetivamente em 1917 graças aos trabalhos destes três pioneiros, mas não se conserva cópia de nenhuma destes filmes por isso se desconhecem outros dados. A de Kouchi foi a mais elogiada delas pelas críticas da época, sendo além disso a primeira a rodar-se, mesmo que se estreasse depois dos outros dois. Em Março de 2008, foi encontrado em uma loja de antiguidades dos curtas de animação pioneiros: Namakura Gatana de 1917 e Urashima Tarō de 1918.[1] Shimokawa chegou em realizar cinco filmes de animação, mas devido à sobreexposición ao reflexo luminoso que comportava o processo, seus olhos experimentavam grande cansaço, por isso decidiu abandonar este trabalho e voltar a desenhar mangá. Kouchi também se apartou do cinema de animação após realizar quatro filmes, mas depois voltaria temporariamente a este campo devido a que personalidades da esfera política lhe encarregaram curtos de propaganda. Pelo contrário, Kitayama, se dedicou plenamente à realização de filmes de animação. Começou empregando como ajudantes a jovens aspirantes a pintores, aos que ensinava as técnicas do desenho animado. Kitayama, que em 1917 chegou em realizar até dez filmes, apresenta esse mesmo ano um filme baseada no personagem infantil Momotaro, que consegue exportar à França, convertendo-se no primeiro produto de animação japonesa que chega em ocidente. Kitayama cria seus próprios estudos de cinema em 1921 mas o Grande terremoto de Kanto de 1923 destruirá suas instalações de Tokyo, por isso decide mudar-se para Osaka.

Ali se aparta dos desenhos animados para dedicar-se a rodar documentários informativos para uma empresa de notícias local. Não obstante, a grande importância do trabalho de Kitayama residirá em haver ensinado as técnicas da animação a uma série de jovens que prosseguirão o trabalho que ele começou.

Um destes foi Sanae Yamamoto, (cujo nome original era Zenjiro Yamamoto). Era um aspirante a pintor que acudiu a trabalhar aos estudos de Kitayama, onde ficou fascinado pelo mundo do desenho animado. Ao ir-se seu professor de Tokyo, Yamamoto decide independentizar-se e formar seus próprios estudos de animação. Em 1925 realiza Ubasute yama (A montanha onde se abandona aos velhos), que tem como tema o respeito e cuidado dos idosos. Consegue o patrocínio da Secretaria de Educação para uma série de filmes de animação de corte educativo, e entre suas obras mais representativas se encontram Usagi to Kame (1924) e Nippon ichi no Momotaro (1928).

Também desta época é Shiobara Tasuke, dirigida por Hakuzan Kimura. Este trabalhava pintando murais de anúncio para as salas cinematográficas, mas muda sua profissão para dedicar-se aos desenhos animados, destacando em breve pelas suas histórias de samuráis. Em 1932 roda o primeiro filme erótica da animação japonesa, Suzumi-Bune (O passeio noturno em navio), que lhe custa ser detido pela polícia, que além disso confisca o filme. Kimura, indivíduo do qual se desconhecem muitas coisas, entre elas as datas de nascimento e morte, se retirará depois deste incidente. Existem rumores que uma cópia foi vendida ilegalmente ao estrangeiro, mas em qualquer caso Suzumi-Bune se transformou em um filme fantasma, impossível de ver. Aparentemente se tratava de uma transferência à tela do mundo erótico criado pelos artistas do Ukiyo-e do período Edo.

Outro discípulo dos pioneiros (neste caso de Sumikazu Kouchi) foi Noburo Ofuji, que começou a produção de desenhos animados graças à ajuda econômica de sua irmã maior, Yae, sendo seu primeiro filme Baguda-jo no tozoku (1926). Como material de trabalho utilizava o tradicional papel Chiyo, popular desde o período Edo, mas suas cores não puderam ser recolhidos pela fotografia em branco e preto da época. Ofuchi também realizou vários filmes de animação com silhuetas, como foi o caso de Kujira (1927), cujas imagens fez acompanhar com a música da ópera Guillermo Tell de Rossini. Ofuchi dedicou muito tempo a estudar a possibilidade do cinema sonoro e em cor, e graças à ajuda de sua irmã, conseguiu realizar quase todos seus filmes praticamente só.

Em 1923, ano do Grande terremoto de Kanto, Yasuji Murata ingressa na recém formada Yokohama Cinema Shokai, em princípio dedicada à importação de filmes estrangeiros. Murata começa a trabalhar ali pintando esporadicamente murais de filmes para os cinemas, mas o presidente da companhia lhe contrata como empregado fixo ao ver seu talento para o desenho. Murata também escrevia os rótulos para os filmes estrangeiros da companhia, mas, impressionado pelos filmes de animação de John Randolph Bray que aquela importava, propõe a seu presidente a produção própria de fitas similares. Autodidata da matéria, Murata escolhe uma popular história infantil para sua primeira realização, Saru Kani gassen (1927). Desde então até que deixa a companhia em 1937, Murata roda cerca de 30 filmes de desenhos animados, a maioria de corte educativo.

Primeiros avanços técnicos[editar | editar código-fonte]

Normalmente o trabalho de animação era muito laborioso. A empresa Yokohama Cinema Shokai se antecipou a seus competidores ao comprar uma nova câmara de motor automático que não requeria movimentar uma manivela, o qual permitia acelerar o trabalho. O primeiro filme rodada com esta câmara será Kaeru wa kaeru (Uma rã é uma rã, 1929), encarregada novamente a Yasuji Murata.

Para o cinema de animação, o celulóide é um material indispensável, mas no Japão não se fabricava. O celulóide começou a distribuirse com profusão nos Estados Unidos no final de 1914 com os trabalhos de Earl Hurd, quem além disso o patenteou. Como produto de importação, o celulóide era muito caro no Japão, por isso no seu lugar se empregava uma espécie de cartolina sobre a qual se desenhavam as personagens, que depois se recortavam e fotografavam (sistema chamado cut out).[2] Murata era um professor desta técnica e não tinha nada que invejar a seus competidores que usavam celuloide. Como título mais representativo de animação por cut out destaca seu Tsuki no miya no Ojo sama (A rainha do Castelo da Lua, 1934).[3]

Chikara to Onna no Yo no Naka de Kenzo Masaoka feito em 1932

O primeiro a utilizar no Japão o tão prezado celulóide para o cinema de animação foi Kenzo Masaoka, nascido em uma família endinheirada de Osaka. Após estudar desenho em uma Escola de Artes, inicialmente entra no mundo do cinema como ator, abandonando logo depois em favor da realização de desenhos animados. Seu primeiro filme foi Nansensu monogatari Sarugashima (A absurda história da ilha dos macacos, 1930), sobre um rapaz criado por um macaco. Masaoka realizou também o primeiro filme de animação sonora, Chikara to onna no yo no naka (As mulheres e a força movimentam o mundo, 1932), onde utiliza parcialmente o ainda caro celulóide. Masaoka não poupou despesas para aumentar a qualidade de seus filmes, e assim a partir de Chagama ondo (O ritmo da chaleira, 1934) empregará o celulóide para o total de suas obras. Outro de seus títulos, Mori no yosei (A fada da floresta, 1935), recebeu elogios de seus colegas no mundo da animação e foi comparado aos curtas Silly Symphonies de Walt Disney.

Enquanto que a maioria dos cineastas contemporâneos se dedicavam a fazer filmes de propaganda bélica para o exército nacional, Masaoka realizará durante a guerra uma obra de grande poesia que fará esquecer as penúrias da época e que ficará para a posteridade do gênero, Kumo to churippu (A tulipa e a aranha, 1944). De suas fitas de pós-guerra, a mais representativa será Sute neko Tora-chan (Tora, o gato abandonado, 1947), sobre uma gata que decide criar a um gatito que foi abandonado. Masaoka, por haver sido o primeiro a introduzir o celulóide nos desenhos animados e o primeiro também em realizar um filme sonora desta modalidade, foi chamado o pai da animação japonesa e é respeitado como tal.

Segunda Guerra Mundial[editar | editar código-fonte]

Momotarō: Umi no Shinpei, o primeiro longa metragem de anime com áudio feito em 1945

Em 1933, Mitsuyo Catedral é contratado pelos estudos de Kenzo Masaoka. Catedral era um desenhista que destacou em breve pela grande rapidez com que realizava seu trabalho, que foi decisiva na anteriormente citada Chikara to onna no yo no naka. Catedral, que aprendeu a técnica de sonorização de Masaoka, em breve se independizó. Seu primeiro filme foi Osaru Sankichi. Bokusen (Sankichi o macaco. Defesa antiaérea, 1933), que recebeu muito boas críticas.

No dia 7 de dezembro de 1941 o Japão ataca a base norte-americana de Pearl Harbour, começando sua participação na II Guerra Mundial. Então, a Armada Imperial encarrega a Catedral um filme de propaganda que realce os sucessos militares do Japão de cara aos mais jovens. Assim, com uma equipe de cinco pessoas, Catedral realiza o filme de desenhos animados Momotaro no umiwashi (1942), de 37 minutos de duração, que apesar de seu descarado caráter propagandístico, teve grande sucesso entre o público infantil. Foi protagonizada pelo personagem dos contos infantis Momotaro, que aqui é o capitão de um porta-aviões, enquanto cachorros, macacos e perdizes serão os pilotos de aviação. A frota inimiga vem dirigida por um personagem de grande parecido com Brutus, antagonista de Popeye, que aqui corre de um lado para outro fugindo dos ataques japoneses.

Catedral começa a fazer parte da Shochiku Doga Kenkyusho, onde também se encontrava Kenzo Masaoka, e ali volta a receber um encargo da Armada. Em janeiro de 1942, o Corpo de Pára-quedistas da Armada tinha descido sobre a ilha de Sulawesi (Indonésia), conquistando a base americana, por tanto se decidiu arejar também este primeiro sucesso do corpo ante as crianças japoneses com outro filme de desenhos. Desta maneira se façanha a realização de Momotarō: Umi no Shinpei (1945), com uma equipe de 70 pessoas (o maior até então na história da animação) e um tempo total de elaboração de 14 meses. Finalmente se conseguiu toda uma superprodução de 74 minutos de duração, mesmo que a equipe se tinha reduzido a 25 pessoas por haver sido chamado a filas parte do pessoal masculino e às fábricas de armamento o feminino. Terminada a guerra, Catedral realizou em 1947 Osama no shippo (A fila do rei), vagamente inspirada no famoso conto de Hans Christian Andersen O traje novo do imperador, mas o filme não se chegou em estrear. Depois disto, Catedral deixa o cinema e se dedica a desenhar para as revistas de crianças, ou a desenhar personagens para adornar a roupa infantil.

Em 1933 se estreia Ugoku-e Kori no tatehiki (O duelo do raposo e o tejón em desenhos animados), que contava uma história protagonizada por uns tejones que vivem em um templo budista. Um raposo que adotou a forma de samurái chega ao templo, sucediéndose um duelo de transformações entre os tejones e o raposo que termina com a derrota deste último. Entre os gags que aparecem no filme, está o do raposo-samurái disparando uma metralhadora. O diretor foi Ikuo Oishi, quem após filmar um anúncio em desenhos animados para uma fábrica de chocolate, decidiu dedicar-se à realização de cinema de animação. Sua obra mais representativa foi Futatsu no Taiyo (Os dois sóis, 1929), mas com o estalo da guerra se dedicou a realizar filmes de instrução para a Armada. Durante um destes trabalhos, o navio no qual voltava de rodar umas tomadas no estrangeiro é afundado por um submarino norte-americano, falecendo.

Em 1940 se estreia uma adaptação em desenhos animados da famosa ópera de Puccini Madame Butterfly, Ou-Cho fujin no genso (Fantasia sobre a Dama Borboleta), realizada pelo sistema de animação com silhuetas e assinada por Kazugoro Arai e seu amigo Tobiishi Nakaya. Arai, que da mesma forma que Tobiishi na verdade exercia como dentista, decidiu dedicar-se à animação por sombras após ficar fortemente impressionado pela visão da alemã Prinzen Achmed(1926) de Lotte Reiniger. Nos momentos livres que lhes deixava sua profissão, ambos se dedicaram a estudar o mundo da animação, chegando em converter-se em profissionais. Em 1942 Tobiishi morreu como conseqüência da guerra, mas Arai continuou seu trabalho sozinho. De suas obras mais representativas destacam Ogon no tsuribari (O anzol de ouro, 1939), Jack to mame no ki (Jack e a mata de habichuelas, 1941) e Kaguya hime (A princesa resplandecente, 1942).

Pós-guerra[editar | editar código-fonte]

Com a derrota do Japão em agosto de 1945 termina a II Guerra Mundial, constituyéndose em outubro do mesmo ano a Shin Nihon Dogasha, dedicada à produção de filmes de desenhos animados, com Sanae Yamamoto e Kenzo Masaoka como figuras principais. Centrada em Tokyo, chegou em reunir até 100 pessoas para dedicar-se ao mundo da animação, mas a falta de trabalho obrigou a dissolver a recém-nascida companhia. Em 1947, contando então com a colaboração de Yasuji Murata, se forma no seu lugar a Nihon Manga Eigasha, onde Masaoka conclui Sakura (A cerejeira), obra que descreve as belezas de Quioto ao longo das quatro estações mas que, no entanto, você não chega em estrear-se. Após isso, em 1948 Yamamoto e Masaoka decidem independentizar-se de Nihon Manga Eigasha para formar a Nihon Doga Company.

Em setembro de 1950, com grande atraso, se estreia no Japão o filme de Disney Blancanieves e os sete anõezinhos (1937), que segundo se diz, o diretor de animação Osamu Tezuka viu aproximadamente 50 vezes. Em 1952 Noburo Ofuji roda um remake de seu filme de 1927 Kujira (A baleia). À idéia primitiva de animação por sombras, Ofuji acrescenta a inspiração das vitrinas ocidentais para utilizar celofane colorido. No Festival de Cannes de 1953 competiu na seção de curtos, mas finalmente o prêmio se o levou Crina Blanc (Albert Lamourisse, 1953), ficando sua obra em segundo posto. Se diz que Pablo Picasso viu então este trabalho de Ofuji, pelo que ficou fortemente impressionado. Logo depois, o filme de animação por silhuetas Yurei-sen (O navio fantasma, 1956) consegue um prêmio especial em Veneza, com o que o nome de Ofuchi passa a ser reconhecido no estrangeiro.

Em janeiro de 1950, o desenhista Ryuichi Yokoyama, conhecido pelo mangá Fuku-chan, decide dedicar-se ao mundo da animação após haver visto o curto de Disney The Skeleton Dance (1929), que se tinha estreado no Japão em 1930. Para isso, compra uma câmara de 16 mm e transforma sua casa em estudo de cinema, que chamará Otogi Productions, começando o trabalho em março do mesmo ano com uma equipe de seis pessoas. Seu primeiro filme será o mediometraje Onbu ou-bake (O duende a ombros), da qual fará uma projeção em sala privada em dezembro de 1955, com assistência de várias personalidades da esfera cultural, entre elas Yukio Mishima. Seu segundo filme será Fukusuke, estreada em salas comerciais em outubro de 1957. Ao ano seguinte utilizará o amplo terreno do jardim de sua casa para construir uns estudos maiores, aumentando sua equipe a 23 pessoas. Após isso realiza seu terceiro filme, Hyotan Suzume (1959), que conta a luta contra umas rãs malvadas que hão quebrado a paz de uma aldeia de pacíficas congêneres. A seguir estreia Otogi no sekai ryoko (Viagem ao redor do mundo, 1962), composta por cinco partes, a terceira dos quais, Tatsumaki nem sukareta akai shatsu (A camisa vermelha que se levou o ciclone), tem o interesse adicional de referir-se ao estilo do ukiyo-e.

Otogi Productions necessitou consideráveis empréstimos de dinheiro para poder realizar longas-metragens, mas não conseguiu recuperar o investimento realizada, por isso terminou em quebra em 1972. Yokoyama termina assim seu trabalho mas contribuiu à formação de novos técnicos do gênero. Um deles, Shinichi Suzuki, chegou em realizar pela sua conta um curtametragem de ciência-ficção titulado Purasu 50.000 nen (50.000 anos depois, 1961), que recebeu boas críticas na França por causa de sua projeção no Festival Internacional de Curtametragens.

Hakujaden (A Lenda da Serpente Branca) estreou em 22 de outubro de 1958, primeira produção lançada em circuito comercial da Toei Animation, divisão de animação da Toei Company e Manga Calendar, foi o primeiro animê especialmente feito para televisão, veiculado pela emissora TBS com produção do estúdio Otogi em 25 de junho de 1962, que teve duração de dois anos.

Logo em seguida, em 1 de janeiro de 1963, foi lançado Astro Boy, baseado no mangá de Osamu Tezuka, já com a estética de personagens de olhos grandes e cabelos espetados vinda da versão impressa. Astro Boy foi a primeira série animada da TV japonesa com história contínua e personagens recorrentes[4]. Por isso, acabou tornando-se o propulsor da maior indústria de animação do mundo, conquistando também o público dos Estados Unidos. Tezuka era um ídolo no Japão e sua popularidade lhe proporcionou recursos para investir em sua própria produtora, a Mushi Productions. Outras produtoras investiram nesse novo setor e nasceram clássicos do anime como Oitavo Homem (Eight Man), Super Dínamo (Paa Man), mas ainda com precariedade e contando com poucos recursos, diferente das animações americanas.

Bunraku[editar | editar código-fonte]

No Japão existe um teatro tradicional de bonecos chamado Bunraku, que ainda se representa de vez em quando. No cinema de animação existe também a variante de filmes de marionetes, cujo mais conhecido expoente está na cinematografia tcheca. Tadahito Mochinaga (1919-1999) foi o primeiro a produzir animação baseada no bunraku, e ensinou esta técnica para o cinema de animação aos produtores chineses. Mochinaga, discípulo de Mitsuyo Catedral, tinha sido encarregado de realizar filmes na China durante a guerra, permanecendo ali até 1955. Ao retornar a o Japão forma a Ningyo Eiga Seisakusha, dedicada ao cinema de marionetes e que oferece nove títulos, dos quais destacam Uriko Hime to amanojaku (A princesa Uriko e o diabo raivoso, 1956) e Chibikuro Sambo no tora taiji (O negrito Sambo vence o tigre, 1956). Este último conseguiu o prêmio ao melhor filme infantil no Festival de Cinema de Vancouver.

Como discípulos mais avantajados de Tadahito Mochinaga no cinema de marionetes destacam Kihachiro Kawamoto (1924) e Tadanari Okamoto (1932-1990). Kawamoto, após uma etapa trabalhando com Mochinaga, viaja para Tchecoslováquia em 1963 para conhecer a seu admirado Jirí Trnka (1912-1969), graças ao qual aperfeiçoa a técnica de animação de marionetes. De volta a o Japão realizará com produção própria títulos desta modalidade como Hanaori (A flor arrancada, 1968), Oni (O demônio, 1972), Dojoji (O templo de Dojo, 1976) e Kataku (1979), na sua maior parte baseados em peças tradicionais do teatro Não ou o Kyogen.

Kawamoto conseguiu vários prêmios em festivos internacionais, dando assim seu nome a conhecer no estrangeiro. Tadanari Okamoto, que aprendeu também a técnica de Mochinaga, se independizará para formar a Eko xá, dedicada ao público infantil. Seus trabalhos mais representativos foram Fushigi na kusuri (Um medicamento estranho, 1965), Home my home (1970), Chiko tão (1971) e Okon joruri (1982).

A indústria de animação[editar | editar código-fonte]

Toei Doga[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Toei Doga

Em agosto de 1958 nasceu a maior produtora de cinema de animação do Japão, Toei. Hiroshi Okawa, presidente da produtora, se fixa nas suas viagens ao estrangeiro no cinema de desenhos animados norte-americano, e decide colocar os meios necessários para o crescimento em qualidade do gênero no Japão até fazê-lo exportável e competitivo. Até então, os produtores de japoneses de cinema de animação contavam com instalações muito pobres e equipes reduzidos, por isso não era possível realizar longas-metragens tão notáveis como os ocidentais, nem alcançar-lhes também não em longitude ou volume. Okawa, após estudar a situação do gênero no Japão, decide comprar a companhia Nichido Eiga de Sanae Yamamoto, passando este e seus 23 empregados a fazer parte de Toei, que cria a subdivisão Toei Doga.

Okawa, ao som de seu lema favorito, temos que converter-nos na Disney de Oriente, construiu uns estudos de três plantas com todas as facilidades modernas, e pôs Yamamoto à frente destes como principal responsável. Seu primeiro trabalho será Hakujaden (A legenda da serpente blanca, 1958), superprodução de 78 minutos na qual trabalharam 109 pessoas e que se transforma no primeiro longa-metragem em cor do cinema de animação japonês.

Graças ao sucesso desta primeira produção, Okawa se marcou o objetivo de estrear um longa-metragem de animação por ano. Um dos que receberam maior aceitação de crítica e público foi Oji no orochi taiji (O valente príncipe derrota à serpente gigante, 1963), dirigida por Jugo Serikawa (1931-2000), que procedia do cinema de imagem real (era ajudante de direção de Nobuo Nakagawa e Kyotaro Namiki em Shintoho). Entre os ajudantes de Serikawa neste filme estava o ainda desconhecido Isao Takahata, assim como Yasuo Otsuka (1931), que era um funcionário dedicado à luta anti-você droga que deixou seu trabalho para dedicar-se à animação.

Takahata realizaria outra das obras-primas do cinema de animação de Toei Doga, Taiyo no Oji. Horusu no daiboken (As aventuras de Horus, Príncipe do Sol, estreada na Espanha como A princesa encantada, 1968), baseada em uma mistura da saga Yukara com legendas escandinavas e que contava a luta do valente príncipe Horus contra o país dos gelos e a neve, dominado por um ser malvado e sua irmã menor Hilda, obrigada a seu pesar a obedecê-lo. Hilda, que possui uma formosa voz, é incapaz de resistir-se às ordens de seu irmão e tentará destruir a aldeia onde vive Horus. Este tipo de tormento psicológico pela luta entre o bem e o mal de um personagem, além disso feminino, não se tinha visto nunca no cinema de animação, por isso foi muito comentado. O responsável principal deste retrato psicológico foi Yasuji Mori (1925-1992), enquanto que o jovem desconhecido que se encarregou do design das paisagens da aldeia foi Hayao Miyazaki (1941), que ganhou prestígio entre a profissão graças a isso. O tema da princesa encantada era o de unir-se para fazer frente às dificuldades, mas isto foi também a história que rodeou a sua filmagem: uma equipe com vontade de trabalhar frente a uma produtora que não parava de colocar colas ante a contínua escalada do orçamento e o prolongamento do trabalho. De fato, esteve a ponto de paralisar-se a produção do filme, mas graças à insistência com que Takahata e sua equipe defenderam sua causa ante seus chefes, pôde terminar-se. Apesar das boas críticas que colheu, o filme, que tinha custado uma fortuna, sofreu um duro fracasso comercial, do qual Takahata foi obrigado a fazer-se responsável com uma redução de categoria e salário mais que notável. Ante isso, Takahata e Miyazaki decidem abandonar Toei logo depois e buscar a forma de continuar realizando livremente filmes de desenhos animados. Outros títulos representativos de Toei Doga foram Wan Wan Chushingura (Rock o valente, 1963, Daisaku Shirakawa), Nagagutsu wo haita neko (1969, Kimio Yabuki), Dobutsu Takarajima (A ilha do tesouro, 1971, Hiroshi Ikeda e Yasuji Mori) e Tatsu no ko, Taro (Taro, o filho do dragão, 1979, Kirio Urayama).

Toei Doga (que em 1998 mudará seu nome pelo de Toei Animation), se antecipou a seus competidores ao começar em 1993 a digitalização do processo de animação, que substituiu aos longos processos tradicionais e que hoje dia é empregada na quase totalidade do gênero produzido no Japão. Por isso, a Okawa lhe corresponde não só o mérito de ter apostado pela animação japonesa conseguindo levá-la até um nível que permitisse sua exportação a todo o mundo, mas também o de ter produzido sua digitalização, criando com ambas decisões as bases para seu crescimento e difusão.

Osamu Tezuka[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Osamu Tezuka

Osamu Tezuka (1928-1989) foi também uma figura código. Era um estudante de medicina que se viu obrigado a trabalhar nas fábricas durante a guerra. Em abril de 1945, um dia que descansava da fábrica, vê o filme de Mitsuyo, Momotarō: Umi no Shinpei (1945) que, segundo o que anotou no seu diário, lhe deixou impressionado até o ponto de prometerse realizar algum dia seu próprio filme de animação. Com objeto de concretizar este sonho, em 1961 formaria sua própria companhia, Mushi Production.

Sua primeira obra, de caráter experimental, é Aru machikado no monogatari (1962). Com um fundo antimilitarista, os protagonistas são as paredes de uma cidade, testemunhas de uma apaixonada história de amor entre o pôster de um violinista e o pôster de uma pianista, romance que será interrompido continuamente pelos posters de um ditador. Com uma duração de 39 minutos e um tom poético, Tezuka coordena a montagem e a direção, contando neste último afastado com a ajuda de Eiichi Yamamoto (1936), procedente de Otogi Productions, e Yusaku Sakamoto, que vinha de Toei Doga.

Séries para televisão[editar | editar código-fonte]

A seguinte realização de Mushi Production foi uma série para a pequena tela. A televisão começou suas emissões no Japão em 1953, e as primeiras amostras de animação que se televisionaram procediam dos Estados Unidos, com grande popularidade entre o público infantil. Toei Doga também se colocou a possibilidade de criar séries de desenhos para a televisão, mas uma entrega por semana supunha um trabalho muito pesado para ser rentável, por isso abandonou a idéia. Por outro lado, Tezuka, ao frente de Mushi Production, decidiu enfrentar o desafio que isso supunha, nascendo assim a primeira série da animação japonesa, com entregas semanais de 30 minutos.

O tema eleito foi a personagem de mangá que o próprio Tezuka tinha criado para aparecer periodicamente em uma revista shonen, o robô Tetsuwan Atomu. O laborioso trabalho que supunha fazer quatro entregas mensais aconteceu pelo sistema de animação limitada, que empregava a menor quantidade possível de celuloide. Em janeiro de 1963 se começa a emitir a série, que se ganhou em seguida a aceitação infantil, chegando até um terço da audiência. Após isso, Toei Doga decide aproveitar o fenômeno e em novembro do mesmo ano emite seu Okami shonen Ken (Sadao Tsukioka), segundo uma história original que de certo modo se aproximava à Do livro da selva de Rudyard Kipling.

Janguru Taitei (O império da selva, 1966) é outra das obras mais conhecidas de Tezuka, e a primeira do meio que utiliza a cor. No entanto, naquela época a televisão em cor era um luxo que poucos podiam permitir-se, por isso a maioria das crianças teve que vê-la em branco e preto.

Estas obras de Mushi Production para televisão conseguiram vender-se aos Estados Unidos, onde Tetsuwan Atomu foi rebatizada como Astroboy e Janguru Taitei como Kimba, O Leão Branco, nomes com que mais demore saltariam à Europa.

Os robôs gigantes (mecha)[editar | editar código-fonte]

Graças ao sucesso das séries de televisão de Mushi Production e Toei Doga, em breve surgiu a concorrência por parte de outras produtoras. Qualquer gênero era suscetível de ser usado: esportes, fantasia, você aventura, séries para garotos e para garotas,… Da mesma forma que Astroboy, muitas destas séries se emitiram no estrangeiro. Já na década dos 60 com o anime em branco e preto de Tetsujin 28-go, da produtora TCJ e baseada no mangá homônimo de Mitsuteru Yokoyama (considerado o criador do gênero) começou o tema dos robôs gigantes, série que também se vendeu aos Estados Unidos onde a titularam Gigantor, mesmo que não foi até princípios dos anos 70 quando começou o auge das séries de robôs gigantes com a Mazinger Z, baseada nos personagens criados por Go Nagai, à qual seguiiriam várias imitações.

Parte destas séries se exportaram, mas algumas delas resultaram problemáticas em países como a França ou as Filipinas. Também houve séries de caráter educativo baseadas na literatura ocidental, algumas tão mundialmente famosas como Heidi, (1974), O cachorro de Flandres, (1975) ou Marco, dos Apeninos aos Você ande, (1976). Destas, Heidi foi dirigida principalmente por Isao Takahata, enquanto o design e paisagens das cenas correu a cargo de Hayao Miyazaki. Inclusive viajaram à Suíça para buscar paisagens reais que depois pudessem utilizar. A série se emitiu na Itália em 1976, mas muitos pensaram que se tratava de uma série italiana e não japonesa. Graças à série Uchu Senkan Yamato (Space Battleship Yamato, também traduzida como Star Blazers, 1974), a animação japonesa chegou em ser reconhecida.

Na sua primeira retransmissão não conseguiu uma repercussão destacada, mas sim no seu segundo passe, e a partir que se efetuasse um remontaje para sua exibição em salas cinematográficas, que provocou que os jovens fizessem fila ante os cinemas desde a noite anterior à estréia, feito com que foi recolhido por todos os periódicos do momento como fenômeno sociológico. O criador dos personagens desta série foi Reiji Matsumoto, e graças ao sucesso de Yamato, outras de suas obras foram adaptadas à tela. Destas, a mais popular foi Galaxy Express 999 cujas adaptações para o cinema, realizadas por Rintaro começaram a estrear-se em 1979.

O motor das histórias arrancava de uma máquina de trem a vapor que, no futuro, empreendia uma viagem a inclinação de diversos planetas, seguindo a idéia do poeta e autor de contos infantis japonês Kenji Miyazawa (1896-1933) em seu Ginga Tetsudo no yoru (Trem noturno da via láctea). A imagem da locomotora sulcando o espaço era o laço de união entre as histórias.

Em 1979 se emitiu a série de robôs gigantes Mobile Suit Gundam de Yoshiyuki Tomino (1941), mas não conseguiu grande audiência. Não obstante, a alcançou na sua segunda emissão, chegando também a montar-se edições especiais para sua estréia em salas de cinemas (7 filmes entre o ano 1981 e o 2002). Da saga Gundam se emitiram até seis séries diferentes. Se venderam perfeitamente todo tipo de brinquedos e reproduções de robôs inspirados em Gundam.

O formato OVA[editar | editar código-fonte]

O formato OVA (Original Vídeo Animation) teve seu ponto culminante no começo da década dos 80. Se tratava de produções lançadas diretamente ao âmbito doméstico, sem haver sido emitida previamente pela televisão ou estreada em cinemas. A maior qualidade juntamente com a situação econômica do Japão fez com que este formato competisse com as séries televisivas que os admiradores se davam o luxo de comprar.

O primeiro ova foi o de Dallos, realizado em dezembro de 1983. Era um anime de ciência ficção que foi fruto do pioneiro esforço do estudo Pierrot, que se aventurou neste novo e desconhecido feira livre.

Final do século XX[editar | editar código-fonte]

As décadas de 80 e 90 trouxeram em grande escala os animes para o Ocidente, entre cujas principais obras são: Dragon Ball (de Akira Toriyama), Os Cavaleiros do Zodíaco (de Masami Kurumada), Yu Yu Hakusho (de Yoshihiro Togashi), Rurouni Kenshin (ou Samurai X, de Nobuhiro Watsuki), Slayers (de Hajime Kanzaka), Neon Genesis Evangelion (do diretor Hideaki Anno), Marmalade Boy (ou Kimagure Orange Road, de Wataru Yoshizumi), Inuyasha (de Rumiko Takahashi) e Yu-Gi-Oh! (de Kazuki Takahashi), assim como também a massificação das cicas mágicas como Sailor Moon (de Naoko Takeuchi) e Magic Knight Rayearth (do grupo CLAMP). Muitos países abriram o caminho para a cultura otaku.

Início do século XXI[editar | editar código-fonte]

Uma parte considerável dos mangás de sucesso no Japão acabam na atualidade com sua versão em anime. Exemplos claros disso são One Piece, Naruto, Pokémon, Fairy Tail, Death Note, High School Of Dead, Another, Bleach, Sword Art Online e a franquia mais vista do Japão Pretty Cure e Detective Conan (De Gosho Aoyama), além de várias outras. Começam a ser menos freqüentes as séries de anime originais (no sentido de não estar baseadas em mangá) além de dar-se muito menos o caso de mangá criado a partir de um anime.

Além disso, o terreno preparado no ocidente pelas séries das décadas anteriores permitiu que grande parte do anime criado seja traduzido e distribuído nos mercados de todo o mundo. Nos últimos anos surge além disso em ocidente, da mão das culturas da década dos noventa, grande quantidade de grupos e fansub que se encarregam de distribuir ilegalmente por internet muitas séries de anime (e mediante escaneos também os mangás mais conhecidos).

História dos animes no Brasil[editar | editar código-fonte]

Início[editar | editar código-fonte]

No Brasil, os animes chegaram nos anos 60 e é difícil precisar qual foi o primeiro a ser exibido. Na leva inicial vieram Homem de Aço, Oitavo Homem, Ás do Espaço, Zoran, O Garoto do Espaço, e outros.[4] Porém, o marco inicial, segundo estudiosos, é a exibição de National Kid em 1964. Logo depois, vieram: A Princesa e o Cavaleiro, Speed Racer, Super Dínamo, Sawamu, o demolidor, Zillion, O Menino Biônico, Capitão Harlock e a Nave Arcádia, Honey Honey e As Aventuras do Pequeno Príncipe. Contudo, eles ainda mantinham um público muito restrito e sem grande impacto. Segundo o site G1, desde então "talvez nenhum outro país tenha exibido mais produções japonesas do que o Brasil."[5] Conforme a revista Animax Magazine, parece que estas produções chegaram aqui por acaso, pois foram oferecidas a baixo custo, tiveram uma dublagem razoável e colocadas como simples complemento da programação infantil de várias emissoras. Mas para surpresa de todos, tiveram grande audiência e foram sendo exibidas e reexibidas várias vezes, até que o então Ministro da Justiça da Ditadura Militar, Alfredo Buzaid, censurou todas as séries que tinham super-heróis voadores, através do decreto-lei 1077 de 26 de janeiro de 1970.[6]

Na década de 80, a extinta TV Manchete foi a primeira emissora de televisão aberta do país a realmente investir pesado na exibição de desenhos animados no Brasil. Dos animes, ela levou ao ar Patrulha Estelar e O Pirata do Espaço, dentro do Clube da Criança.[7]

É nesta época que acontece o primeiro grande evento para fãs de animes e mangás no Brasil totalmente organizado por brasileiros. O Animecon aconteceu de 02 a 31 de julho de 1988, no SESC Pompéia-SP, feito para comemorar a fundação da a ORCADE – ORganização Cultural de Animação e Desenho. Neste primeiro evento para fãs (na época, a palavra “otaku” ainda não era conhecida no país), aconteceram dezenas de exibições de anime e séries live-actions japonesas, com destaque para National Kid.[8]

Da metade para o fim dos anos 80, as emissoras investiram mais em séries live action, como Jaspion, Jiraya e companhia. Neste período, que se estendeu até 1994, a animação japonesa se tornou escassa e pouco notada por aqui. Os animes que se destacaram nesta época foram As Aventuras de Peter Pan, Guzula, Honey Honey, Robotech, Transformers, o Filme, Akira, e Zillion, sendo estes 2 últimos os únicos grandes destaques da animação japonesa até o início de 1994. O anime Doraemon, grande sucesso no Japão, foi exibido na TV Manchete em 1992, com o nome de Doraemon: O Super Gato. Mas sem grande repercussão, ao contrário de seu país de origem.

Segundo o site Observatório da Imprensa, pode-se dizer que este tipo de produção sofreu total descaso das emissoras do país nesta época porque foram incapazes de compatibilizar seu formato (de histórias longas, quase como novelas). Por isso, os canais exibiam episódios fora de ordem e muitas vezes nem sequer mostravam o final.[9]

O primeiro "boom" dos animes no país[editar | editar código-fonte]

O primeiro grande "boom" dos animes no país começou em 1994, com Os Cavaleiros do Zodíaco. O acordo de exibição era simples: a empresa forneceria 52 episódios de um desenho japonês que havia feito sucesso no Japão no meio da década de 1980 e estava ganhando fãs na Europa. Em troca, a Rede Manchete ofereceria espaços publicitários para a exibição de propagandas dos brinquedos relacionados à série. Porém, tão logo estreou, o sucesso foi tão grande que a emissora foi obrigada a comprar os direitos da obra. Os Cavaleiros do Zodíaco foi responsável não só por elevar a audiência da emissora, como foram também os responsáveis por outro meio midiático que conquistou crianças, adolescentes, jovens e alguns adultos, as revistas voltadas para a divulgação de animês, cinema, HQ, mangás entre outros produtos direcionados ao mundo dos heróis. Durante os dois primeiros anos de exibição manteve uma audiência média na casa dos 8 pontos, garantindo o segundo lugar isolado de audiência nas suas duas exibições diárias, sendo, assim, o responsável pela repopularização da grade da emissora.[10]

Com isso, a série virou referência, foi reprisada muitas vezes, rendeu muito merchandising e fez outras emissoras apostar em animes.[4] Milhares de bonecos, máscaras, roupas, CDs, publicações, fitas de vídeo, importações e até produtos pirata dos Cavaleiros foram vendidos. Além disso, aproveitando esta febre, houve um aumento espantoso do número de animes produzidos para cinema e vídeo exibidos no país. Em julho de 1995, por exemplo, o mais longo dentre os quatro filmes da série, A Batalha de Abel, foi exibido em mais de 200 salas em todo o país.

Porém, "traumatizados" com a violência do anime, um grupo de pais e psicólogos ameaçaram acionar o Ministério da Justiça para boicotar a exibição do seriado no Brasil.[11] Foi criada uma portaria que exigia que as emissoras cortassem cenas muito violentas e sensuais dos animes, além de terem que colocar a "classificação indicativa". Por conta disso, animes e filmes assim só poderiam passar na íntegra, após 8 ou 9 da noite.

Mesmo com este imbróglio, de 1995 até 1999, a TV Manchete exibiu Super Campeões, Shurato, Sailor Moon, Samurai Warriors e Yu Yu Hakusho.[12] Destes, apenas o último conseguiu manter a audiência. Apesar de ser um sucesso de audiência, figurando entre os 5 programas mais assistidos da TV Manchete, o anime fracassou na área comercial. E isso acabaria ajudando na falência do canal.

As outras emissoras abertas do país também buscaram a sua fatia nesse mercado das produções japonesas. A Rede Bandeirantes exibiu diversos títulos importantes ao longo da década de 1990, especialmente no campo dos tokusatsus. Sobre os animes, obteve destaque para a exibição do filme Akira. O canal SBT também foi responsável por alguns títulos importantes, dentre os quais destacam-se Guerreiras Mágicas de Rayearth, Street Fighter II V, Fly o Pequeno Guerreiro, Dragon Ball e Astro Boy.

O fracasso comercial de Yu Yu Hakusho no Brasil - apesar das boas audiências - marcou o fim do primeiro boom de animes no Brasil. A partir de então investimentos em animes passaram a ser muito bem planejados pra não amargar prejuízos do mesmo porte. A partir de então, a Rede Manchete, para reduzir custos passou a comprar apenas OVAs de animes, que passariam a integrar o bloco U.S. Manga. Entre os títulos mais destacados estavam Art of Fighting, Detonator Orgun, Gall Force e Iczer 3. Em 1999, o fim da Rede Manchete tendeu a se agravar ainda mais o mercado de animes no país. Porém, no final de 1999 um novo fôlego seria dado ao mercado de animes no Brasil graças a dois novos fenômenos comerciais: Pokémon e Dragon Ball Z.[11]

O segundo "boom" dos animes no país[editar | editar código-fonte]

Em 1999, Pokémon chegou nas telas brasileiras através da Rede Record, inaugurando todo um gênero e uma gama de imitadores e derivados. Sucesso de vendas, com dezenas de produtos licenciados, a série animada fez tanto sucesso que a então grande concorrente da Record, a Rede Globo, se viu forçada a buscar uma obra que pudesse competir com o sucesso de Pokémon. Chegava ao Brasil, assim, Digimon, anunciado pela própria Globo como uma obra similar a Pokémon. Além de Digimon, a Globo exibiu dentro da extinta TV Globinho, Yu-Gi-Oh!, Beyblade e Dragon Ball Z.

No dia 14 de agosto de 2000 a Bandeirantes colocou no ar o programa Band Kids, que exibia Dragon Ball Z, Bucky, Tenchi Muyo e El-Hazard (além de Cadillacs e Dinossauros, Os Seis Biônicos, Dragões Alados e O Mago, desenhos americanos que completavam a programação). Por cerca de 4 anos, ele foi o principal programa de animes na TV aberta, sendo assistido por milhares de assinantes de TV paga devido a sua qualidade e reexibição da saga de Freeza, considerada por muitos como a melhor de Dragon Ball Z.[13] O programa fez sucesso pois ele trazia e retirava da grade aquilo que os fãs gostavam ou deixavam de gostar.

Inicio do século XXI e a decadência na TV aberta[editar | editar código-fonte]

No início de 2001, os animes, assim como a programação infanto-juvenil em geral, começaram a perder força e audiência no Brasil. Os principais motivos para isso foram o fato de os animes serem muitos censurados e passados sem a cronologia correta e completa (a "classificação indicativa" restringiu o número de animações que são viáveis a TV sem que as emissoras precisem mexer em seu conteúdo), além do avanço da internet, que facilitou para assisti-los em qualquer horário e lugar.

Por conta disso, na TV aberta, poucos animes nesses últimos 14 anos fizeram algum sucesso. Entre os que fizeram, incluem Hamtaro, Bucky, Tenchi Muyo, Yu-Gi-Oh, Hunter × Hunter, Fullmetal Alchemist, Zatch Bell!, Naruto, One Piece e Super Onze.

O público de classe média passa então a assisti-los via canais pagos, como Locomotion, Nickelodeon, Cartoon Network e Fox Kids, ou até pela internet. Desde então, os animes movimentam e sustentam um circuito informal de produção, circulação e consumo, engendrado pelos próprios fãs na internet.[14]

Com a "decadência" dos animes, outros mercados emergiram. Em 2001, houve o estouro dos mangás no país, com o lançamento de Dragon Ball e Os Cavaleiros do Zodíaco (que passou a ser re-exibido desde 2004 em TV aberta no país, com nova dublagem, pela Band, e já era o programa mais visto da emissora)[15] - dois sucessos na televisão, mas, até então, inéditos nas bancas. Atualmente, as principais editoras de mangás no país lançam juntas, em média, 25 títulos regulares por mês.[5] Em 2004, mangás criados por autores brasileiros começaram a ser comercializados, com destaque para Mangá Tropical.[16]

Em 2003, a PlayArte introduziu um novo mercado no Brasil. A de comercialização de DVDs de animes no Brasil, investindo inicialmente em Os Cavaleiros do Zodíaco. E o sucesso foi instantâneo, tanto que terminou o ano como a quinta caixa mais vendida no site Submarino.[17]

Foi em 2003 também que ocorreu a primeira edição daquele que se tornaria o maior evento de anime da América Latina, o Anime Friends. O Prêmio Yamato, também foi criado no mesmo ano.

Exemplos de Animes por Década[editar | editar código-fonte]


Referências

  1. "Two Nine-Decade-Old Anime Films Discovered (Updated)". Anime News Network.
  2. Sharp, Jasper (2009). "The First Frames of Anime." The Roots of Japanese Anime, official booklet, DVD.
  3. Sharp, Jasper (September 23, 2004). «Pioneers of Japanese Animation (Part 1)». Midnight Eye. Consultado em 10 December 2009. 
  4. a b c mundoestranho.abril.com.br/ Quando surgiram os primeiros mangás e animês?
  5. a b g1.globo.com/ "Dragon Ball" escancarou as portas para invasão dos mangás
  6. animaxmagazine.com/ Os Primeiros Animes e live-actions Japoneses no Brasil!
  7. Francfort, Elmo (2008). Rede Manchete. Aconteceu Virou História (São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo). p. 424. ISBN 9788570605894. 
  8. animaxmagazine.com/ Os Primeiros Eventos para fãs de Anime/Mangá no Brasil
  9. observatoriodaimprensa.com.br/ "Febre oriental"
  10. [1] Revista Veja
  11. a b jbox.com.br/ Yu Yu Hakusho - As Aventuras do Fantasma Brincalhão
  12. odia.ig.com.br/ Dublagem: Vozes famosas tornam profissionais íntimos para as crianças
  13. exorbeo.com/ Band Kids e o ápice dos animes na TV aberta
  14. De fã para fã: a re-produção informal de animês na cibercultura, por Krystal Cortez Luz Urbano
  15. cavzodiaco.com.br/ Os Cavaleiros do Zodíaco são líderes de audiência na BAND
  16. educacional.com.br/ O mangá invade o Brasil
  17. nerdcida.com.br/ O mercado de animes em Home video no Brasil