História de Marrocos

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Brasão de Marrocos.
Carta de Marrocos moderno com o território reivindicado do Saara ocidental.

Marrocos é um país do Norte da África cujo nome é derivado de Marraquexe (vila imperial e capital de 1062 a 1269, e depois de 1524 a 1659). Habitado desde a Pré-história por populações berberes, o país conheceu povoamentos de fenícios, cartagineses, romanos, vândalos, bizantinos antes de ser islamizado pelos árabes. Foi em 788 que Idris I, fugindo as perseguições do Califado Abássida, e exilado nesta região, deu origem ao nascimento dum estado neste Maghreb el-Aqça (Magrebe extremo ou extremo poente).[1] Marrocos guardou sempre, a não ser uma independência absoluta, pelos menos uma muito grande autonomia.[2]

Segundo o historiador Bernard Lugan, são, entre outras, as riquezas provenientes do comércio do sul (o Saara e a África subsariana) com o norte (a Europa) que vão atrair vários tribos, com Marraquexe (a porta do deserto) por cidade chave, que, naturalmente, se tornou a capital de várias dinastias, especialmente das que têm origem no sul: (Almorávidas, almóadas, Saadianas); é a razão pela qual toda a história de Marrocos (dos Idríssidas aos Alauitas) foi marcada por este comércio.[3]

Os primeiros vestígios de povoamento[editar | editar código-fonte]

povoamento Ibero-Maurisiano.

O homem deixou muitos vestígios durante todo o período pré-histórico, marca de um povoamento muito antigo, provavelmente facilitado por um clima mais favorável do que o de hoje.[4] [5]

Durante o Acheuliano (Paleolítico Inferior), índices que datam pelo menos de há 700 000 anos mostram uma primeira atividade humana. Esses homens viviam principalmente da colecta e da caça. A ferramenta dessa época é constituída de seixos talhados, de bifaces, de rachadores, encontrados particularmente nas áreas de Casablanca e Salé. O Musteriense (Paleolítico Médio) entre 120 000 e 40 000 a.C., é caracterizado pelo desenvolvimento das ferramentas. Este período tem rendido rodos e raspadores, particularmente na indústria da pedra de Jbel Irhoud. O período Ateriano é conhecido apenas no Norte de África. Este período é caracterizado pelo controlo da produção de ferramenta com pedúnculos para facilitar a montagem. Este período também conheceu uma mudança climática, uma vez que a fauna e a flora tornaram-se escassas, deixando o deserto do Saara.

O Paleolítico Superior é marcado pela chegada do Homo sapiens, que trazia a indústria Ibero-Maurisiana. Em Taforalt (Oujda), as ferramentas encontradas datam de 30-20 000 a.C. Ritos funerários são identificados: os mortos têm o corpo em decúbito lateral e ossos pintados. Essas populações mantêm-se até cerca de 9 000 a.C., sendo a partir daí eliminadas ou absorvidas pela chegada dos primeiros antepassados das populações berberes actuais: os capsianos (nome derivado da antiga cidade de Capsa, hoje Gafsa na Tunísia ) chegam do oriente (como demonstram estudos linguísticos, que classificam na mesma família as línguas egípcias e berberes). Sítios neolíticos mostrando o surgimento de uma sedentarização e o nascimento da agricultura são encontrados perto de Skhirat (Necrópole de Rouazi-Skhirat) e de Tetuão (grutas de Kaf Taht el Ghar e de Ghar Kahal).

Antiguidade[editar | editar código-fonte]

Mauritânia Tingitana ao oeste, Mauritânia Cesariana no centro-oeste, Numídia ao centro-este e África no este.

Os fenícios, comerciantes empreendedores, originários da terra de Canaã, instalam seus primeiros estabelecimentos na costa de Marrocos a partir do século XI a.C. e criam feitorias como Tingi (Tânger) ou Lixus (perto de Larache). A partir da fundação de Cartago (na Tunísia), a região começa a ser verdadeiramente explorada.

A influência da civilização púnica será sentida quase mil anos em Marrocos: com efeito, a partir do século VI, os cartagineses, em busca de metais preciosos (extraídos do Atlas e do Vale do Drá), de púrpura (a partir de um molusco, o murex, encontrado em Mogadouro por exemplo, que dá o corante do mesmo nome), vão comerciar com a população local e introduzir elementos culturais próprios à sociedade fenícia.

É a partir do século IV a.C. que aparece no norte de Marrocos a primeira organização política do país: o reino da Mauritânia, resultado da federação de diferentes tribos berberes impregnadas dos valores fenício-púnicos de estado unitário.[6] A Mauritânia tinha uma organização centralizada em torno do rei, que detinha todo o poder. As cidades eram administradas por magistrados chamados sufetes, inspirados do modelo cartaginês. Os chefes das tribos conservavam alguma autonomia, mas eram obrigados a contribuir com guerreiros para as tropas. O púnico é a língua oficial utilizada nos documentos administrativos, nas relações diplomáticas e nos cultos de Baal e Tanit.

Busto de Ptolomeu da Mauritânia, v. 30–40 depois de J.-C., Museu do Louvre.

Quando os romanos chegaram por volta do século II a.C., após a destruição de Cartago, aliam-se com Boco, rei da Mauritânia. Esta estratégia permite-lhes vencer o seu inimigo, o chefe númida Jugurta, genro de Boco. Este ganha o título de Amigo do povo dado pela República Romana, e a estima de Caio Mário. A Mauritânia tornou-se então um reino vassalo, um "estado-cliente" que, apesar de depender muito de Roma e participar em todas as lutas internas do Império, continua a ser de facto independente. O rei Juba II (25 a.C.) distingue-se pela sua abertura a todas as culturas da bacia do Mediterrâneo. Criado na cultura grega clássica, casou com Cleópatra Selene, filha de Marco António e de Cleópatra. Uma civilização mauritana constitui-se assim, principalmente urbana, sintetizando com originalidade as influências púnicas, helênicas e egípcias.

Em 40, o reino perde seu último monarca, Ptolomeu da Mauritânia. Calígula, que o fez assassinar, enfrenta a guerra de Aedemon: quatro anos se passaram até que vença a revolta, e em 46, o imperador Cláudio anexou o reino, que se tornou a província da Mauritânia Tingitana, tendo como capital a cidade de Tingis. O domínio romano limitou-se às planícies do norte (até a região de Volubilis perto de Meknès) e o Império não pretende controlar a região brutalmente.

Mas Roma tem que lutar constantemente contra os berberes das montanhas do Atlas e os das planícies do Atlântico, como os famosos getulios. A Mauritânia Tingitana é uma província militar diretamente sob o governo imperial, administrada por um Promagistrado da ordem equestre romana. O Promagistrado era assistido por cortes de auxiliares contratados, em Espanha, Gália, Grã-Bretanha, Ilíria e na Síria. Estas unidades eram distribuídas principalmente no triângulo Volubilis-Salé-Tingis, dispositivo apoiado por importantes campos militares como Oppidum Novum (Alcácer Quibir), Thamusida (perto de Kenitra) e estruturas da região de Sidi Kacem. Da mesma forma, as tropas dos mouros são recrutadas pelos romanos, mas para defender as fronteiras do Império no Reno, Danúbio e Eufrates.

A cavalaria moura atacando os Dácios sob as ordens de Lúsio Quieto, detalhe da Coluna de Trajano em Roma.
mosaico romano da biga de Anfitrião em Volubilis.
vestígios do capitólio de Volubilis.

As cidades de Tingitana adotam o esquema urbanístico romano clássico, com suas avenidas em linha reta, um fórum, arco triunfal, basílica e capitólio, o templo dedicado ao culto da Tríade Capitolina (Júpiter, Juno e Minerva). As áreas residenciais para as classes sociais abastadas também são construídas perto dos monumentos oficiais. A cidade de Volubilis, a mais conhecida da Mauritânia Tingitana, atinge no seu apogeu até 10 000 habitantes, incluindo uma elevada proporção de mouros romanizados, mas também romanos originários da Itália e da Hispânia, gregos, judeus e árabes da Arábia Pétrea. Algumas famílias da aristocracia local alcançam grandes carreiras, ao ponto de enviar seus membros para servir no Senado romano. As zonas rurais são valorizadas por grandes proprietários que também provêm desse Patriciado provincial. A principal riqueza agrícola da Tingitana é o azeite, amplamente exportado para o resto do Império. As planícies também produzem trigo e frutas, e as florestas são exploradas para o cedro e Thuja. Tudo isso é transportado para os portos como Tingi e Salé, que conhecem então uma muito forte atividade comercial.[7]

Assim como o resto do Norte de África, a Mauritânia Tingitana vai conhecer a cristianização. Dezenas de dioceses vão cobrir a região, dirigindo-se aos romanos e depois às populações romanizadas. Foi em 298, em Tânger, quando reinava Diocleciano, que São Marcelo, o centurião romano, foi decapitado.[8] Foram identificados dois bispados na Tingitana (em Tânger e em Lixus), mas é possível que tenha havido quatro. Mas a difusão do Cristianismo fica muito baixa em comparação com as outras províncias africanas. A pequena comunidade cristã da Tingitana parece fiel ao catolicismo romano e fica de fora das discussões sobre o donatismo, que agita as províncias vizinhas.

No século III, o império recua. É também o caso no Norte da África e especialmente em Marrocos: a Mauritânia Tingitana encontra-se reduzida à única cidade de Tingi e à costa do norte. Aliás está administrativamente ligada à Hispânia. As cidades do sul são abandonadas, inclusive Volubilis. No sul, apenas o porto de Salé é conservado pelo Império. As razões para este declínio não são claras: pressões dos berberes da montanha e do Sul? Grave crise econômica na região? Fragilização devida a conflitos internos do Império com o episódio dos dois Gordianos[9] ?

Aproveitando o enfraquecimento do Império Romano do Ocidente, uma coalizão de bárbaros em maioria Germanos, formada por suevos, vândalos e alanos, atravessa o Reno em 406. Os vândalos descem até à Hispânia e depois passam para África em 429. Chegam a Hipona (Argélia) em 430. O governo de Constantinopla apela em vão por uma expedição naval contra a invasão. Os vândalos instalam-se no norte da África Ocidental durante mais de um século. É preciso esperar até 533-534 para que se faça a campanha de África decidida pelo imperador Justiniano e dirigida pelo general trácio Belisário. A força expedicionária bizantina destrói o Reino Vândalo e deporta suas elites para a Ásia Menor. A pacificação do território conquistado é mais trabalhosa e colide com a combatividade dos mouros, especialmente com os do oeste da África do norte.[10]

A Mauritânia Tingitana não é inicialmente afetada pela conquista e dominação dos vândalos. Os germanos apenas irão controlar alguns pontos da costa mediterrânea do Rif. A região passa sob controle bizantino em 534, mas os mouros, acostumados a uma independência real durante mais de um século, resistem ferozmente com o príncipe Garmel e perseguem as legiões de Belisário.[6] Os bizantinos edificam o extremo norte de Marrocos, em torno de Tânger, Ceuta e Lixus na província da Mauritânia Segunda, administrada por um exarca e um conde, com extensão para o sul de Espanha, que conquistam aos visigodos. A Mauritânia Segunda conhece então alguma renovação econômica e demográfica. Mas esta presença bizantina frágil, ameaçada tanto pelos godos como pelos berberes, subsiste até a conquista árabo-muçulmana.

Conquista árabo-muçulmana[editar | editar código-fonte]

Em 638 os árabes tomam Alexandria. Em 649, chegam ao Magrebe. Mas só com a quinta campanha (681) é que entram em Marrocos. Enfrentam então uma feroz resistência berbere, seguindo certos erros diplomáticos. Os berberes, quer da montanha ou das planícies marroquinas e argelinas de hoje, permitirão que o Império Bizantino permaneça até 698 (veja Batalha de Cartago (698)). A presença bizantina é então vencida e resta apenas a resistência berbere. Esta resistência dura mais quinze anos. Em 708, a antiga Mauritânia é maciçamente convertida ao Islão. Esta conversão, que afectava as populações que nunca haviam sido cristianizadas, em nenhum momento foi contestada pelos berberes. A região conheceu depois revoltas anti-árabes, mas nunca antimuçulmanas.[11] Rapidamente, os muçulmanos usam as capacidades guerreiras dos novos convertidos: a Espanha visigótica é conquistada em três anos, as tropas árabes e berberes chegam a Navarra em 715. Serão derrotadas em Poitiers em 732.

O litoral do Marrocos está inteiramente sob o domínio do Califado Omíada. Na região do Rif estabelece-se um pequeno emirado berbere independente, o Emirado de Nekor ou Nokour.[12]

Em 740 chega a primeira revolta berbere contra o poder árabe: de nenhuma maneira um desafio para o Islão, o Carijismo serve como pretexto para desafiar o Califado do Oriente. É, para seus seguidores, o desejo de escolher "o melhor" para governar, e não necessariamente um descendente do Profeta (o que quer o xiismo), ou um candidato escolhido pelos sábios (o que quer o Sunismo). O Carijismo é o argumento mais apreciado pelos povos berberes, que têm sentimentos relativamente democráticos: o líder deve ser escolhido por todos, e não imposto.[13] O Califado Omíada não pode aceitá-lo, e surge o conflito. Em 750, em Damasco, os omíadas são derrubados pelo abássidas. O Maghreb al-Aqsa encontra-se então num estado de quase anarquia.

Fundação de Marrocos[editar | editar código-fonte]

Moeda Idríssida, ano 840, marca da criação de um Estado independente.

A fundação de Marrocos, país considerando-se árabo-berbere, africano e muçulmano, faz-se com os Idríssidas, que ganharam à sua causa várias tribos que controlavam pequenos reinos e territórios independentes de todo governo central.[14] À medida que as alianças desenvolviam-se, os idríssidas vão estender a sua influência territorial com os povos indígenas e estabelecer as bases para a organização de um Estado constituído, recuperado pelas dinastias seguintes. Se os Idríssidas vão começar a desenhar as bases do estado e das fronteiras de Marrocos, serão os Almorávidas que, ao criarem a sua capital, Marraquexe, darão ao país o seu nome (o nome de Marrocos é devido à deformação de Marrakech pela língua portuguesa); eles vão consolidar e expandir o trabalho incipiente e frágil dos idríssidas; as dinastias posteriores vão herdar da experiência do estado anterior.

Embora outras civilizações do Mediterrâneo (Roma, Cartago, etc.) tenham enriquecido a história do país e mesmo se as populações do actual Marrocos vão participar na ascensão dessas civilizações, os historiadores de Marrocos consideram que o impacto dessas civilizações limitava-se ao extremo norte de Marrocos e a alguns postos comerciais.

A propósito de Marrocos, a termo Império é por vezes utilizado porque, por definição, um império é um conjunto de estados ou reinos (ver os diversos mapas de Marrocos). Isso explica o termo "cidades imperiais" ainda hoje usado para descrever as cidades de Fez Marraquexe Méknes e Rabat.[15]

Enquanto Marrocos se está formando, o resto do Magrebe é fragmentado em reinos ou territórios independentes, às vezes, concorrentes ou em guerra, sem autoridade central, ou seja, não organizados como estados dirigidos pelos povos indígenas. A organização em Estado estruturado permitiu aos Saadianos e aos Alauitas oporem-se à expansão do Império Otomano, que parou às margens do rio Rio Muluya e que se estendia por grande parte dos outros países árabes de hoje.

Discordâncias surgiram no início do século XX no seio da família Alauita e no Makhzen mais geralmente devido a problemas de gestão do país, criando um período de instabilidade de que irão aproveitar várias potências coloniais (Alemanha Inglaterra, Espanha, França) para tentar apreender o país, por entre outras características, ter interessante posição geoestratégica. Depois de muitas tempestuosas e secretas negociações, que quase que fizeram disparar, desde 1911, a Primeira Guerra Mundial (golpe de Agadir), Marrocos é compartilhado entre a França e a Espanha.

As dinastias marroquinas[editar | editar código-fonte]

Papel das tribos na história de Marrocos[editar | editar código-fonte]

Mapa político de Marrocos entre os séculos VIII e XI
  Califado Idríssida (789-985)
  Tamesna (Barghawata ou Berghouata; 744-1058)
  Emirado de Nekor dos Banu Salih (710-1019)
  Emirado de Sijilmassa dos midraridas ou uassulitas ou Banu Midrar (758-1055)
Mesquita Al Qaraouiyyine de Fez, que envolve uma universidade fundada no Século IX pelos Idríssidas.

Durante a sua conquista do poder e para expandir e assegurar a sua influência geográfica por períodos mais ou menos longos, as dinastias marroquinas terão que formar alianças (interessadas, religiosas, civis, forçadas, pacíficas ou negociadas) com as diferentes tribos, muçulmanas e judias do país. O Islão sunita será então a principal ligação entre as várias tribos que compõem o reino. No entanto, o facto de algumas dinastias se mostrarem claramente como xerifianas não garante a permanência de seu poder sobre o país.

Durante o século XX, o aspeto tribal de Marrocos perde em importância, principalmente após o êxodo das populações rurais para as cidades. No entanto, este aspeto é ainda atual e de grande importância nas aldeias. O Marrocos permanece um país fortemente tribal, mas isso não significa a ausência de uma autoridade central organizadora: ainda hoje, representantes de diferentes tribos do país continuam a renovar a sua fidelidade (bay'a) o rei durante o Dia do Trono.

Dinastia Idríssida (789-985), fundadora de Marrocos[editar | editar código-fonte]

A história dos Idríssidas começa quando Idris um príncipe árabe xiita da família de `Ali (quarto califa do Islão) e seu escravo, que tinha libertado Rashid Ben Morched El Koreichi, refugiam-se no Atlas Médio. Fugindo a ameaça dos abássidas (que tinham massacrado alides e seus apoiantes xiitas na Batalha de Fakh perto da Meca), instalam-se no Egito antes de ir para Walilah (Volubilis), sob a proteção da tribo berbere dos Aurabas. Conseguindo reunir as tribos para a sua causa, Idris é investido Imam e funda a cidade de Fez, em 789 sob o nome de Idris I. Este é o início da dinastia de Idríssidas.

Idris I é assassinado por um emissário do califa de Bagdade Harun al-Rashid, um certo Sulayman al Zindhi. Não pensando que a esposa de Idris I (Kenza) estava grávida, Haroun al-Rashid acha que a ameaça está vencida. Mas, alguns meses mais tarde, nasce Idris II. A sua educação é confiada ao escravo liberto de seu pai, Rashid.

Onze anos depois, é proclamado Imam. Ao longo dos anos, a sua sabedoria e seu sentido político afirmam-se, consegue unir mais tribos, o número de seus fieis cresce, e o poder da sua armada (em que entram árabes kaisitas) desenvolve-se. O reino Idríssida inclui qualquer parte do território que se estende de Tlemcen no este, até Sus no sul. Parece que a dinastia Idríssida, pelo menos ao princípio, professou o xiismo e, mais especificamente o Zaidismo, considerado o rito xiita mais moderado.[16]

Sentindo-se constrangido em Walilah, Idriss II parte da antiga cidade romana para Fez, onde funda o bairro dos Cairuaneses na margem esquerda (Idris I tinha-se estabelecido na margem direita, o bairro dos andaluzes). Os cairuaneses vêm de poderosas famílias árabes e árabo-persas (do Coração) instaladas em Ifriqiya desde a época abássida. Elas são expulsas de Cairuão por causa das perseguições políticas infligidas pelos Aglábidas. Os andaluzes que se instalam em Fez são quanto a eles adversários do Califado de Córdova, originários da periferia de Córdoba (incluindo o subúrbio de Rabad, daí o nome Rabadi atribuído aos elementos da primeira onda de imigração de Al-Andalus).[17] O Reino idríssida conhece então de maneira geral uma grande fase de urbanização, ilustrada pela criação de cidades novas como Salé, Wazzequr e Basra, inspirada pela Baçorá iraquiana. Essas cidades eram centros de disseminação da cultura árabe e vetores de islamização. Ao mesmo tempo, Vikings do chefe Hastings assinalam-se por seus ataques devastadores sobre a costa norte de Marrocos (especialmente nas áreas de Arzila e Nador).   Em 985, os idríssidas perdem todo poder político em Marrocos e encontram-se exilados maciçamente em Al-Andalus. Instalados em Málaga, gradualmente recuperam sua força ao ponto de criar uma dinastia durante a Época das Taifas, os hamúdidas. Estes últimos vão mesmo até pretender ao Califado de Córdova, em vez dos omíadas em 1016[18]

Reino de Sijilmassa (758-1055)[editar | editar código-fonte]

Ruinas de Sijilmassa.

Um emirado fundado por Zenetas surge na região de Tafilalet a partir de 758. Dirigido pela dinastia dos Midraridas (cujo fundador foi Semgou Ibn Ouassoul), ele tem por capital a cidade de Sijilmasa. Esse reino oficialmente professa o Carijismo de rito sufrita, mas acaba por reconhecer a partir de 883 a supremacia religiosa do califado sunita dos abássidas. Os Midraridas dedicaram-se, no entanto, a manter uma aliança com os outros estados carijitas, como o reino dos Rustámidas de Tiaret, e a estabelecer um frutuoso comércio de caravanas do ouro com o Império Gana, que na época controlava os maiores depósitos de ouro da África Ocidental. O emirado de Sijilmasa atinge assim o seu auge no século IX graças ao seu papel como um centro de tráfico de metais preciosos, e sua fama se estende para o Mediterrâneo e para o Oriente Médio. É justamente essa posição de desembocadura do ouro africano que excita a cobiça dos omíadas e dos fatímidas, que competem para apoderar-se dele. Mas são finalmente os Almorávidas que apoderam-se do reino midrarida em 1055. Posteriormente, a fundação de Marrakech eclipsa definitivamente o prestígio de Sijilmasa.

Reino de Barghawata (entre os século VIII e XI)[editar | editar código-fonte]

Reino dos Barghawatas

Os Barghawatas (ou Barghwatas ou Berghouatas) formam um emirado berbere pertencente à etnia Masmuda. Depois dos carijitas falharem em sua rebelião em Marrocos contra os califas de Damasco, eles estabelecem (744 - 1058) um reino na região de Tamesna nas margens do Atlântico entre Safim e Salé, sob a direção de Tarife al-Matghari. A particularidade deste estado é criar uma religião puramente berbere, baseada em um livro sagrado inspirado do Alcorão, e conduzida por um governo teocrático, que fixa os rituais de um culto novo misturando Islão, Judaísmo e antigas crenças. O Barghawata mantém sua supremacia na região das planícies do Atlântico por quatro séculos, e mantém relações diplomáticas e comerciais com o califado omíada de Córdoba, que provavelmente os vêem como aliados potenciais contra os fatímidas e os seus aliados Zenetas. Parece que das 29 tribos que formavam o reino, doze adoptaram realmente a religiãoo barghawata, as outras dezassete ficando leais ao Carijismo.[19] [20]

Suserania dos omíadas de Córdoba[editar | editar código-fonte]

A partir de 985, data da destruição do último núcleo do Estado idríssida, Marrocos é controlada pelos Meknassa e os Maghrawa, vassalos do Califado de Córdova e que exercem, em alternativa, o comando de Fez do ano da hégira 313 (925-926) até o ano 462 (1069-1070).[21] A região de Tlemcen, durante o mesmo período, está sob o controlo dos Banu Ifran,[22] que competem com os Maghrawa e os Meknassa para o controlo de Fez e do resto de Marrocos.[23]

Estas três dinastias compartilham o poder até meados do século XI; elas serão destruídas pelos Almorávidas.

Os Meknassa e os Maghrawa[editar | editar código-fonte]

O poder meknassiano apoia-se sobre o seu Arrábita de Taza. Deve a sua força quase lendária a Moussa Ben Abi Elafia Ben Abi Bassil, que consegue conquistar Fez, Taza, Tânger e Larache, em 924, antes de assumir o controlo posteriormente de uma parte significativa das regiões marroquinas, fazendo saírem os idríssidas das suas posições. Estes últimos refugiam-se na fortaleza de Hisn Hajar Annasr[24]  · .[25]

Em 932, eles apoderam-se de Tlemcen, e depois de Tekkour (Alta Muluya) e sua região. Aliam-se ao califa omíada de Córdoba Abderramão III, mas são derrotados pelo Califado Fatímida. Em consequência, retiram-se para Guercif, Tekkour e Taza.

Atribui-se aos meknassianos a construção das fortalezas de Taza e de Méknes, e da cidade de Tsoul (mais tarde destruída pelos Almorávidas).

Aproximadamente em 954, segundo Ibn Khaldun, os Zenetas apreendem diversas cidades do Magrebe el Aqsa, como Fez, Oujda, Salé e Sijilmasa, aproveitando o eclipse político dos Idríssidas.

Durante a conquista, os Maghrawa, os Banu Ifran e os Meknassa têm diferentes pontos de vista, o que provoca instabilidade na região.

Os fatímidas, que já se tinham instalado no Cairo, tiram vantagem dessas divisões entre as três tribos Zenetas e enviam os Ziridas de Ifriqiya para conquistar o Maghreb el Aqsa. O Zirida Ziri ibn Manad consegue conquistar uma parte do actual Marrocos. Em 971, o seu filho Bologhine ibn Ziri afirma sua soberania sobre a maioria das grandes cidades. Durante este período, os Barghawatas (confederação de tribos Sanhadja e Masmouda que praticam uma religião distinta do Islão) são atacados pelos Ziridas.

Os Maghrawa, por conseguinte, solicitam a ajuda dos omíadas. Bologhine ibn Ziri é forçado a recuar diante do exército omíada vindo de Andaluzia por mar, e que desembarca em Ceuta.[26]

Posteriormente, Ziri Ibn Attia entra em conflito com os chefes dos Banu Ifran e dos Meknasa. Uma luta feroz pelo poder irrompe entre as frações Zenetas. Os Banuifran atacam os Barghawatas e tomam várias vezes Fez aos Maghrawas. Estes últimos restabelecem o equilíbrio do Magrebe el Aqsa.[26] Estes períodos de instabilidade não permitem a nenhuma destas três tribos de estabelecer uma dinastia duradoura.

Os Ifrenidas[editar | editar código-fonte]

Reinando sobre a região de Tlemcen desde o século X, os Ifrenidas ou Banu Ifran ocupam quase todo o actual Marrocos ao lado dos Maghrawas, vassalos do Califado de Córdova, até a chegada dos Banu Hilal e dos Almorávidas.

No século XI, os Banu Ifran conquistam o território dos Barghawatas.[27] Ficam mestres das áreas que conquistaram e das cidades que fundaram e regularmente exercerão o poder em Fez.[28]

Derrotados pelos Almorávidas desde 1057, eles perdem todo o poder durante o reinado destes últimos. É só a partir da queda dos Almorávidas que os Ifrenidas recuperam o controle da região de Tlemcen, mas são mais uma vez derrotados, desta vez pelos almóadas, e o território deles conquistado por estes.

Em 1437 aproximadamente, os Banu Ifran expulsarão os Merínidas do Magrebe central e estabelecerão de novo o seu poder em Tlemcen.[29]

Os almorávidas (1059-1147)[editar | editar código-fonte]

Império Almorávida.
Vista interior ida cúpula almorávida de Qubbat Barudiyin (1120) em Marraquexe.

Os Almorávidas vêm das tribos berberes Sanhajas dos Lamtunas e dos Guzzalas que eram nômadas do deserto Saara entre o Adrar mauritaniano e a região de Sijilmasa ao suleste de Marrocos.[30] Estas tribos guerreiras estão estruturadas em um poderoso movimento religioso, liderado pelo pregador Abd-Allah-Ibn-Yâsin. O objetivo deles era introduzir o Islão sunita de rito Maliki ao longo de todo o Ocidente muçulmano (Al-Andalus e África do Norte). De aí vem o nome deles de al-Murabitun, ou seja combatentes do ribat, uma fortaleza erguida na guerra santa contra os animistas seus inimigos. Os Almorávidas são victoriosos em sua guerra contra os reinos negros de Tekrur e Gana. Apoderam-se do Gana, e da sua capital, Aoudaghost, com todo o ouro produzido por este país e conseguem subir pelas rotas das caravanas para o norte até Tafilalet nos anos 1050, onde eles metem um fim à existência do reino de Sijilmasa. Seus chefes são sucessivamente Abu Bakr ibn Omar al Lamtouni e Yusuf ben Tasufin.

A guerra irrompe entre os Almorávidas e os Zenetas. As duas dinastias Zenetas dos Banu Ifran e Maghrawas desaparecem após a vitória final dos Almorávidas. É Yusuf ben Tasufin que funda Marraquexe em 1062, a partir dum simples acampamento nômada, que era destinado a se tornar a capital de um império. Os Almorávidas fazem desaparecer nas áreas que controlam todas as doutrinas, suspeitas de heresia. É assim que põem fim à presença do Xiismo no Sus e que destroem o reino de Barghawata, que florescia no planalto central de Tamesna. Em toda a parte os Almorávidas impõem o mais estrito Sunismo Maliki, como ensinado pelas escolas teológicas de Medina e de Cairuão. Esta unificação religiosa é acompanhada de uma unificação política. Os Almorávidas alargam as suas conquistas para o Magreb central, até às fronteiras do reino Hamadita.

Em 1086 Yusuf ben Tasufin, chamado pelos reis das taifas do al-Andalus, atravessa o estreito de Gibraltar à frente das suas forças Saarianas e consegue quebrar a ofensiva do rei de Castela Afonso VI em Sagrajas (Batalha de Zalaca). Os Almorávidas põem fim ao reinado dos pequenos reis, exilam os emires de Sevilha (Al-Mu'tamid) e de Granada em Agmat (Marrocos) e unificam Al-Andalus, que é incorporada ao seu império a partir de 1090. No entanto, eles não conseguem recuperar Toledo às mãos dos castelhanos desde 1085. Yusuf ben Tasufin, que tomou o título de Emir dos muçulmanos (mas não o de Califa, considerando isso como o privilégio dos abássidas), reina sobre uma entidade geopolítica que se estende do Senegal até as proximidades dos Pirenéus e da costa atlântica até Argel.

Essa dominação manifesta-se pela simbiose das identidades andaluzas, magrebinas orientais, e saarianas, pavimentando o caminho para o surgimento de uma civilização hispano-árabe. Os edifícios remanescentes em Marrakech, Tlemcen e Argel mostram uma forte influência da escola de arte andaluza (Legado dos omíadas e das Taifas) adaptada aos berberes. Na esfera econômica, o Estado Almorávida distingue-se pela sua mestria dos fluxos do ouro, controlando as suas áreas de produção e rotas de abastecimento, do Gana para a bacia do Mediterrâneo. O dinar de ouro Almorávida chamado marabotim, circula em todos os principais mercados comerciais como moeda de referência.

Após a morte de Yusuf ben Tasufin em 1106, seu filho Ali sucede-lhe, mas a dinastia é já contestada tanto na Espanha como na África. A família reinante gosta de saborear os prazeres e as delícias da vida na corte. Ao mesmo tempo, as pessoas sofrem a ditadura rigorosa dos cadis Maliki e os abusos dos chefes miltares de origem subsariana Sanhadja que exercem o seu comando a partir das cidades Marroquinas e Andaluzas. Tal situação estimula um descontentamento generalizado em todo o grande reino almorávida.

Califado Almóada (1147-1248)[editar | editar código-fonte]

Califado Almóada entre 1147 et 1269.
Bandeira Almóada.
"História de Bayâd e Ryâd", manuscrito magrebino da época almóada.

Os almóadas (al Muwahiddines) são originalmente um movimento religioso fundado pelo místico Ibn Tumart (que se proclamou Imame e Mahdi impecável). Ibn Tumart era um berbere que tinha vivido muito tempo no Oriente Médio, em Meca e Bagdade. Tinha encontrado pessoalmente durante essa viagem o famoso teólogo persa Al-Ghazali cujos textos tinham sido condenados pelos Almorávidas. De volta à sua região de origem (o Alto Atlas) em 1125, Ibn Tumart impõe uma doutrina intransigente que tem como objetivo "purificar a moral". Aponta para a dinastia almorávida, julgada por ele como herege. O movimento almóada cresce e Ibn Tumart fica a controlar a montanha inteira a partir de Tinmel. O melhor discípulo de Ibn Tumart é um zeneta de Nedroma chamado Abd al-Mu'min. Aceite pelos Masmudas do Alto Atlas, lidera o movimento à morte do seu mestre e torna-se o primeiro verdadeiro soberano almóada. Almorávidas e almóadas envolvem-se em batalhas intermináveis, os Almorávidas usando uma milícia de mercenários cristãos liderados pelo cavaleiro catalão Reverter (Reverter Guislaber de la Guardia). Os almóadas têm à sua disposição um exército tribal solidamente organizado por uma disciplina de ferro . Mas o emirado Almorávida atravessa um período de crise, e o Magrebe cai facilmente nas mãos dos almóadas. Marraquexe é tomada em 1147 e quase todos os monumentos Almorávidas são arrasados , por uma questão de "purificação".

Abd al-Mu'min toma o título de califa, rompendo dessa maneira com os abássidas e impõe a ideia de um califado berbere independente. Abd al-Mu'min inaugura um sistema de governo piramidal e hierarquizado, liderado pelo califa nomeado como sendo o melhor discípulo do Imame. O califa dirige um Conselho de dez outros discípulos, e este Conselho dos Dez, finalmente, envia suas ordens à Assembleia dos cinquenta xeques almóadas mais influentes. Esta estrutura teocrática colegial será mais tarde sofisticada e espalhada em grande escala através da disponibilização do sistema administrativo de origem árabe-andaluz.

O primeiro califa almóada e seus sucessores, fruto de sua união com uma Masmuda, Abu Ya'qub Yusuf e Abu Yusuf Ya'qub al-Mansur ampliam o império com a conquista do Magrebe Oriental (até a Tripolitânia) e do Al-Andalus. Dada a sua dimensão, o império é dividido em vice-reinados, incluindo o de Al-Andalus e o da fronteira oriental (a Ifriqiya, com a família dos Háfsidas que mais tarde viria a tornar-se independente). O estado almóada torna-se uma grande potência no mundo mediterrâneo, com base em uma capacidade militar considerável (algumas estimativas, apontam para aproximadamente 500 000 homens,divididos em unidades berberes propriamente almóadas e tribos aliadas, em contingentes árabes de origem beduína Hilaliana, em guarda negra Sudanesa e até mesmo num corpo de mercenários cristãos e de arqueiros Turcomenos).[31] paradoxalmente, os almóadas, que se prevalecem de uma fé intransigente concordam em contratar mercenários cristãos, coisa de que precisamente tinham acusado os Almorávidas. Parece que a dinastia tenha assim, voltado as costas aos dogmas intransigentes promulgados pelo Imam fundador dos almóadas, e se tenha aproximado das ideias de tolerância do humanismo andaluz e dos princípios mais racionais e pragmáticos do Sunismo Maliki. Esta tendência irá acentuando-se no início do século XIII, com o abandono oficial da doutrina almóada pelos últimos califas de Marraquexe voltando para o Sunismo, mas no mesmo momento em que o Império se desloca por toda a parte.

As três capitais almóadas: Marraquexe Rabat[32] e Sevilha, conhecem o apogeu cultural e artístico da civilização Hispano-mouresca, e planos de grandes construções urbanas, audaciosos para a época. O comércio, a produção agrícola e de artesanato estão florescendo, e os portos entretêm relações com as cidades comerciais da Itália, Provença e Catalunha que fundam feitorias em Sousse Tunes Bizerta, Bugia Orão Ceuta salé e Azamor. Este cume de glória é seguido por um declínio lento, mas irreversível. Em 1212, o califa Maomé I é derrotado pela gigantesca coligação de cruzados em Navas de Tolosa. O apelo do Papa Inocêncio III à cruzada espanhola contra os almóadas envolve não só Castela, Aragão e Portugal, mas também França, Inglaterra e Sacro Império Romano-Germânico. O Califado almóada desintegra-se, deixando finalmente seu lugar às quatro novas entidades políticas do ocidente muçulmano : os reinos de Fez (Merínidas), Tlemcen (Abdalwadidas), Granada (Nasridas) e Tunes (Háfsidas).

Marrocos, durante as Cruzadas[editar | editar código-fonte]

O Califado Almóada durante o reinado de Abu Yusuf Ya'qub al-Mansur, estabelece uma parceria estratégica com o Egipto do sultão Saladino. O culminar desta relação é a embaixada de Abu al Harith Abderrahman Ibn Moukid enviada por Saladino à corte de Marraquexe. Esta missão concretiza-se através da participação da frota marroquina nas operações contra os cruzados (na costa do próximo oriente e no mar vermelho).[33] Após a captura de Jerusalém por Saladino em 1187, muitas famílias originárias de Marrocos participam ao repovoamento da Cidade Santa. Assim criaram em 1193 um bairro que traz até nossos dias o nome de «Bairro dos marroquinos»,[34] . Muitos palestinianos são descendentes desses marroquinos instalados na Terra Santa.

Merínidas (1215-1465)[editar | editar código-fonte]

Império merínida à sua máxima extensão, em 1347-1348.

Os Merínidas (مرينيون [marīnīyūn]) ou Banû Marin ou Bénî Marin (بنو مرين [banū marīn]) são uma dinastia berbere do grupo de Zenetas, nômadas originários da bacia do Moulouya superior, à margem do Saara. Os Merínidas dominam, entre 1215 e 1465, várias regiões do actual Marrocos e impõem temporariamente o seu poder em todo o Magrebe. O centro de seu império encontra-se entre Taza e Fez. Os seus limites, que mudam ao longo do tempo são o Atlântico a oeste, o Mediterrâneo ao norte, a área dos Abdalwadidas no leste e o Saara no sul. Os soberanos mais importantes desta dinastia são Abu Said Uthman Abu al-Hasan ben Uthman (apelidado de Sultão Preto) e Abu Inan Faris. Sob seus reinados o império Merínida atingiu sua máxima extensão, até Tunes a leste, e impõe sua tutela ao reino nasrida de Granada. Sobre o plano cultural, o apogeu incarna-se em realizações de arquitectura (madraçais de Fez Salé Meknès, o palácio da cidade de Mansourah fundada perto de Tlemcen, aquedutos de Salé, hospitais de Fez e Taza) e no desenvolvimento intelectual simbolizado por Ibn Khaldun Ibn al-Khatib e Ibn Battuta.

Entre 1275 e 1340, os Merínidas apoiam activamente o reino de Granada contra os ataques cristãos, mas sua derrota na Batalha do Salado perante a coligação luso-castelhana marca o fim definitivo de suas atividades na Península Ibérica.

Em 1358, a morte de Abu Inan Faris, morto por um de seus vizires marca o início do declínio da dinastia, que não consegue opor-se aos Portugueses e Espanhóis, permitindo-lhes, com seus sucessores os Wattássidas, de se estabelecer na costa. A resistência se organizará em torno de irmandades e de marabus a partir dos quais nasce a dinastia Saadiana.

Oatácidas (1465-1555)[editar | editar código-fonte]

Marrocos ao princípio do século XVI : em vermelho, o domínio dos Wattássidas.
Antiga fortaleza portuguesa de Mazagão.

Os Oatácidas, ou Wattássidas, Ouattasidas ou Banû Watâs são uma tribo de berberes Zenetas como os Merínidas.

Esta tribo, que seria inicialmente proveniente da actual Líbia, estava estabelecida no Rif, na margem do Mediterrâneo. De sua fortaleza de Tazouta, entre Melilla e a Moulouya, os Beni Wattas expandiram gradualmente seu poder à custa da família reinante Merínida.

Estas duas famílias sendo aparentadas, os Merínidas recrutaram vários vizires na tribo Wattássida. Os vizires Wattássidas impõem-se pouco a pouco no poder. O último sultão Merínida foi destronado em 1465. Segue-se um período de confusão que dura até 1472. Marrocos é cortado em dois, com ao sul uma dinastia árabe emergente, os Saadianos, e no norte um sultanato Wattássida declinante .

Em 1472, os sultãos de Fez perderam todos os seus territórios estratégicos e já não têm o controle do Estreito de Gibraltar. Os Portugueses apoderam-se de Tânger, em 1471, que quase dois séculos mais tarde ( 1661) cedem a Inglaterra como dote da rainha Catarina de Bragança a seu marido Carlos II de Inglaterra.

Durante o governo Português (1471-1661), Tânger é a capital do Algarve, em África, porque existem dois Algarves, a da Europa e a de África, tanto um como outro considerados territórios pessoais da Dinastia de Avis e depois da dinastia de Bragança (o rei de Portugal também tinha o título de Rei dos Algarves). Sob os reinados sucessivos de Afonso V, João II e D. Manuel I (período que marca o apogeu da expansão Portuguesa) o Algarve africano abrange quase toda a costa atlântica de Marrocos , com a excepção de Rabat e Salé. Os Portugueses controlam a parte costeira que se estende desde Ceuta até Agadir (Fortaleza de Santa Cruz do Cabo de Gué), tendo como marcos as praças fortes de Alcácer-Ceguer, Tânger, Arzila, Azamor, Mazagão e Safim e do Castelo Real de Mogador. Estas possessões formam as fronteiras, e são usadas como paradas na rota do Brasil e do Estado Português da Índia. No entanto, a maioria do Marrocos português é conquistada pelos Saadianos em 1541. A última fronteira é a de Mazagão, recuperada pelos marroquinos em 1769. Os espanhóis, quanto a eles dominam parte da costa do Mediterrâneo com os presídios de Melilla e o Ilhote de Vélez de la Gomera, assim como a região de Tarfaya em frente das ilhas Canárias. Também conservam o controlo de Ceuta após a Restauração da Independência de Portugal em (1640). Os Wattássidas enfraquecidos, finalmente, cedem o poder a uma dinastia que reivindicava uma origem árabe Xerifiana, os Saadianos) em 1554.[35]

A chegada dos andaluzes e dos Mouriscos[editar | editar código-fonte]

Desde o princípio da Reconquista, muçulmanos andaluzes começaram a retirar-se para Marrocos, no século XII; mas a maioria deles foram forçados a deixar a Espanha, principalmente em duas fases: com a queda de Granada em 1492, e em 1609 com a Expulsão dos Mouriscos.

É preciso lembrar que antes de 1492, a proximidade geográfica de Marrocos com a Espanha Andaluza naturalmente induz trocas constantes entre esses dois países.

A proximidade de Marrocos e a vontade de voltar para Espanha vai resultar na presença de uma grande concentração de andaluzes na costa norte de Marrocos. Os reis católicos de Espanha vendo um perigo nesta concentração, localizado a apenas 14 Km da sua costa, atacaram a costa norte de Marrocos e do Magrebe e tomaram as cidades de Melilla e Beles para evitar qualquer tentativa de retorno.

A chegada maciça desses andaluzes, que Marrocos vai ter que integrar no tecido económico e social, marcará um novo ponto de viragem na cultura, filosofia, artes e política. Muitos intelectuais e artistas andaluzes vão juntar-se as cortes reais, movimento iniciado pelo famoso Averróis de Córdova (falecido em Marraquexe) e pelo último poeta árabe clássico da Espanha muçulmana, Ibn al-Khatib de Granada, que terminou sua vida em Fez.

Os Mouriscos instalados em Rabat (chamada a Nova-Salé) e Salé (Salé Antiga) formam um estado Corsário a partir de 1627, a República de Salé, também chamada República de Bu Regreg, ou República das duas ribas. Esta entidade política, é comparável a outras regências berberescas do Magrebe. A ousadia dos capitães de Salé é afamada, e alguns deles realizam ataques ousados ​​até a Islândia ou até a América do Norte (Terra Nova, Baltimore). Após um período de independência no início do século XVII, o sultão Alauita Muley Rachid acaba com a República de Salé, anexando-a ao Império de Marrocos.

Em Marrocos, esse tipo de guerra (de corsários) declina no final do século XVIII]], e acaba definitivamente em 1829, na sequência dos ataques de retaliação por parte da frota de austríaca contra a cidade de Arzila (que seguia à captura de um navio desta nação por corsários marroquinos[36] ). A maioria dos capitães de Salé eram de origem árabe, mas também existiam renegados (o mais famoso sendo o holandês Jan Janszoon com o nome de Murad Raïs), marroquinos nativos e marinheiros turcos ou turquisados originários de Argel e da Regência de Trípoli.

Saadianos (1509-1659)[editar | editar código-fonte]

Império saadiano (1554 - 1659).
O sultão Ahmed al-Mansur Saadi, cujo reino marcou o apogeu da dinastia saadiana.

Os Saadianos, às vezes chamados Zaydanides [15], constituem uma dinastia árabe Xerifiana originária do vale do Draâ que chega ao poder em 1511 com o sultão Muhammad al-Mahdi al-Qaim bi-Amr Allah e escolhe Marraquexe por capital definitiva, depois de Tarudante. A partir de 1554, ela controla Marrocos inteiro, enquanto o Magrebe central e oriental está sob o domínio otomano. Mohammed ech-Cheikh é um acérrimo opositor do sultão otomano Solimão, o Magnífico. Para evitar a ameaça representada pelos governadores turcos de Argel, o Sultão saadiano não hesita em procurar a aliança dos espanhóis que ocupam Orão, e permite-lhes apoderarem-se de Tlemcen. Apesar de um ataque devastador contra Fez as tropas otomanas não penetram realmente no território de Marrocos, e os Saadianos podem estender a sua ocupação na Argélia do noroeste. A diplomacia de Mohammed ech-Cheikh, ganha-lhe a inimizade tenaz da Sublime Porta. De facto, em 1557 assassinos pagos pelo paxá de Argel Hasan Corso (Pietro Paolo Tavera, de origem corsa), decapitam o Sultão de Marrocos e enviam sua cabeça como um troféu para Istambul, onde Solimão pode contemplar o seu implacável inimigo do oeste.[37] Este assassinato, no entanto, não tem impacto militar e até reforça as fundações da dinastia Saadiana.

Apesar de sua oposição à Sublime Porta, os Saadianos organizam o seu exército no modelo Otomano. A administração adopta os títulos de Paxá e Bey, e os sultões equipam-se com uma guarda de elite composta por Peik e Solaks, inspirados na disciplina e na vestimenta dos Janízaros turcos. Um Khalifa (Xeque) do Sultão exerce o poder de vice-rei a partir de Fez, sobre as províncias do norte e do leste. Muitos paxás e caïds ou cabildos (chefes) são Renegados e andaluzes responsáveis pela coleta dos impostos e pela repressão das revoltas contra o Makhzen (governo central).

A influência turca[38] explica-se pelo banimento dos príncipes Abu Marwan Abd al-Malik I Saadi e Ahmed (o futuro Ahmed al-Mansur Saadi) em Argel e Istambul durante o reinado do meio-irmão deles Mulei Abdallah el-Ghalib, que queria eliminá-los para ser o único representante da dinastia. O apoio do sultão otomano Murad III às reivindicações dos dois príncipes Saadianos pode parecer paradoxal, dada a natureza conflituosa das relações Turco-marroquinas, mas Abd al-Malik e depois seu irmão sabem usar deste apoio para obter o trono e eliminar o seu sobrinho Mohammed el-Mottouakil (filho de al-Ghalib), que por sua vez alia-se com Portugal.

Designados pelas irmandades místicas, incluindo a Chadilya e Jazoulya, os Saadianos têm a difícil tarefa de reunificar o Marrocos e lutar contra o jovem rei D. Sebastião de Portugal que pretende exercer a sua cruzada pessoal em África, aproveitando-se dos litígios dinásticos. Em 1578 em Alcácer-Quibir, na batalha designada dos Três Reis, o Exército Português composto de mercenários de toda a Europa Ocidental (cavaleiros Portugueses, milicianos espanhóis, lanceiros alemães e alabardeiros Papais), é destruído pelas forças Saadianas. Depois desta batalha, a dinastia focaliza-se no nordeste de Marrocos, a fim de proteger o reino contra o Império Otomano. A morte de Murad III, em 1595 põe fim ao apetite hegemônico da Sublime Porta e assim reforça a independência de Marrocos.[39]

Se turcos encontravam-se principalmente no Estado-Maior e na artilharia, a maioria da armada saadiana é composta de renegados europeus e de tribos militares árabes, bem como contingentes do Suz (os Ehl el-Souss constituindo a espinha dorsal militar da dinastia). Esta força considerável, estimada em 40 000 homens pelo historiador Henri Terrasse, faz do sultão Ahmed al-Mansur o líder político mais poderoso desta parte da África. Ele parece prová-lo em lançar um dos seus melhores oficiais, o general Yuder Paxá, à conquista do Império Songhai do Mali que se torna, após a Batalha de Tondibi o paxalico marroquino de Tombuctu e do Sudão Ocidental. No plano religioso, a primazia do califado saadiano é reconhecida até ao Chade por Idris Alaoma III, soberano do Império de Kanem-Bornu.[40]

A dinastia Askia do Mali deitada abaixo, o ouro do vale do rio Níger toma o caminho dos oásis de Marrocos, e em seguida, de Marraquexe pelo circuito das caravanas, com uma forte escolta. Com este ouro do Mali, o Sultão lança-se numa política de prestígio, completa o seu imenso Palácio El Badi, e mesmo a rainha de França Catarina de Médici tenta recorrer a um empréstimo de 20.000 ducados do rico al-Mansur.[41] Por seu lado a rainha Isabel de Inglaterra quer forjar uma aliança estratégica contra a Espanha, com o califado saadiano, para combater as ambições de Filipe II. Esta política é encarnada pelo ataque conjunto anglo-marroquino contra Cádiz (1596) e a troca de embaixadores entre as cortes de Londres e de Marraquexe em 1600. Mas esta página brilhante termina com a morte de Ahmed em Fez em 1603. A partir de 1612, os paxás de Tombuctu comportam-se como príncipes independentes e o ouro do Mali não chega mais a Marrakech. A dinastia apaga-se em 1659 com a morte do sultão Ahmed el-Abbas, o que põe fim a uma longa guerra dinástica entre os vários herdeiros da família Saadiana.[42]

Na véspera do fim da dinastia Saadiana, Marrocos fraciona-se em vários poderes locais, alguns dos quais pretendem ganhar um nível nacional. Entre esses poderes, destacam-se a Zaouia de Dila, com base no Médio-Atlas, cuja força reside na tribos berberes das montanhas, incluindo os Sanhajas ; e a Zaouia de Illigh, que funda o reino de Tazeroualt no Suz e controla importantes rotas de caravanas do Sahara. Paralelamente a estes estados teocráticos Sufis, o chefe de guerra el-Ayyashi, campeão do jihad nas províncias atlânticas, apodera-se de uma região importante no Gharb. As cidades costeiras dominadas pelos andaluzes também se transformam em entidades políticas independentes, como a República de Salé e o principado dos Naqsides em Tetuão. Finalmente, em Marraquexe e no Haouz emerge o senhorio dos antigos chefes do palácio saadiano. Mas de todos esses protagonistas envolvidos, são os Alauitas, emires do Tafilalet, que se impõem com uma conquista metódica e progressiva de Marrocos, aproveitando as fraquezas internas e as divisões dos adversários. A dinastia alauita chega assim ao poder, na metade do século XVII.

Os Sultões Alauitas (de 1664 até o presente) e a consagração do Estado Xerifiano marroquino[editar | editar código-fonte]

Porta de Bab Mansour na cidade imperial de Meknès, concluída em 1732.

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Um dos mais famosos Alauitas, é o sultão Mulei Ismael, segundo soberano da dinastia, a quem os cronistas e testemunhas contemporâneas concordam em dar 26 anos quando sucedeu a seu meio-irmão Mulei Rachid, morto acidentalmente em Marraquexe, em 1672. Reina até 1727. O Sultão impõe a sua autoridade em todo o Império Xerifiano, com sua armada composta de milícias de soldados-escravos negros originários do Senegal , do Mali e da Guiné (os chamados Abid al-Bukhari, verdadeiros Janízaros africanos dedicados exclusivamente à pessoa do sultão), e das tribos árabes guich (Oudayas, Cherrardas, Cheraga). No sistema guich, as tribos beneficiam de isenções fiscais e de terras agrícolas em troca de seus serviços, mas isso leva à formação de uma casta militar todo-poderosa no seio da qual o "Makhzen" recruta também grande parte dos seus funcionários. O Estado Ismailita é uma formidável máquina administrativa que controla o país desde Meknès, nova capital imperial no lugar de Fez e de Marraquexe. Durante o reinado de Ismail Meknes dota-se de verdadeira cidade proibida à maneira de Marrocos, com seus conjuntos de Palácios, tanques, mesquitas, jardins e fortalezas.

Ismail mantém uma correspondência regular com o Luís XIV de França, a quem pede em casamento a sua filha, Maria Ana de Bourbon. O pedido não tem resultado. O embaixador de Marrocos em França em 1699, o almirante dos "mares marroquinos" Abdallah Ben Aicha, é o autor do primeiro ensaio em árabe que descreve Versalhes e os esplendores da corte real francesa. Seguia de alguns anos (1693) o Barão François Pidou de Saint-Olon, embaixador da França em Meknès, autor de uma "relação" do "reino de Fez e de Marrocos". A relações entre os dois países conhecem uma fase de declínio, devido ao fracasso do resgate dos cativos cristãos por missões religiosas, e também por causa da vida difícil dos condenados muçulmanos às galeras retidos em França. A amizade franco-marroquina tinha sido motivada pela oposição de ambos os países com a Espanha de Carlos II, mas a ascensão ao trono espanhol de Filipe V (Filipe de França, conde de Anjou), neto de Luís XIV, mete fim a esse acordo. Portanto os laços diplomáticos oficiais são cortados entre Meknès de um lado, e Paris e Madrid do outro, em 1718. Apenas serão restabelecidos em 1767. Ismael considera que a monarquia hispano-francesa dos Bourbon como agora inteiramente hostil aos interesses de Marrocos. A França é, portanto, suplantada no Império Xerifiano pela Inglaterra, o que ilustra a brilhante Embaixada Britânica do Comodoro Stewart e de John Windus em Meknès, em 1721.[43]

Ismail conduz uma guerra contínua contra as tribos rebeldes do Atlas (que acabam por se submeter), mas também contra os inimigos externos: os espanhóis, os ingleses ( pelo menos, antes da sua evacuação de Tânger em 1684) e os otomanos da regência vizinha de Argel que cobiçam a região de Oujda. O Sultão estende a autoridade xerifiana sobre a Mauritânia até ao Rio Senegal, com a ajuda dos Emires mouros do Adrar, de Trarza e Brakna, reafirmando a soberania do "Makhzen" sobre o país de Chinguetti. No leste, os oásis de Tuat são submetidos. Nos anos 1700, Ismail também faz campanhas militares contra alguns de seu próprios filhos desejosos de criarem principados no Suz, em Marraquexe e no Marrocos Oriental.

Mohammed Temim, embaixador de Marrocos assistindo a uma representação, no teatro italiano de París (1682).

De 1727 a 1757 Marrocos enfrenta uma grave crise dinástica, durante a qual os Abid al-Bukhari (em árabe : عبيد البخيري‎ - os escravos de Bukhari - armada des escravos negros fundada pelo sultão Mulei Ismael) fazem e desfazem os sultãos, enquanto as tribos guich revoltam-se e Raziam as cidades imperiais. As outras tribos aproveitam-se da anarquia para entrar em dissidência (Siba que significa anarquia). Nestes tempos conturbados, assinala-se a figura de Mulei Abdallah de Marrocos, demitido e restabelecido por diversas vezes entre 1729 e 1745. Sofre as secessões dos seus meio-irmãos que fundam verdadeiros reinos em cada província, com o apoio de tal ou tal facção dos Abid ou dos guich. Da mesma forma, os moradores de Salé e Rabat reconectam com uma autonomia corsária, e no norte marroquino os paxás da família Rifi estabelecem uma verdadeira dinastia que controla Tânger e Tetuão. As poderosas confederações tais como os Aït Idrassen e os Guerrouane, entram em dissidência e apoderam-se do comércio de caravanas ligando os centros comerciais do Império Xerifiano às oásis do Saarianas e ao Sudão Ocidental.

A ordem é restabelecida por Mohammed III de Marrocos (1757-1790), que restabelece a unidade do sultanato e a autoridade do Makhzen oficial. A política de Mohammed III é caracterizada pela abertura diplomática e comercial de Marrocos. Tratados são celebrados com as principais potências europeias que mantêm consulados e casas de negócio nos novos portos marroquinos do Atlântico, fundados por Mohammed III. Os portos de Anfa (Casablanca), Mogador (Essaouira), e Fédala (Mohammedia) também são organizados e simbolizam o desenvolvimento econômico do litoral atlântico, livre da ocupação estrangeira, após a evacuação de Mazagão pelos Portugueses e o fim definitivo do Marrocos Português em 1769. Mohammed III também foi o primeiro chefe de estado a reconhecer a independência da jovem república americana dos Estados Unidos em 1777. O rei marroquino estabelece uma amizade epistolar com George Washington.[44]

No plano interior, o reinado é marcado por mutinarias provocadas pelo corpo dos Abid (em Meknés, em 1778), e por uma seca severa que dura seis anos (1776-1782) que gera conseqüências econômicas e demográficas catastróficas. Esta situação negativa vai acentuando-se durante o reinado de Al-Yazid de Marrocos (1790-1792), famoso por sua crueldade e por sua guerra inacabada contra a Espanha. Seu desaparecimento levou ao regresso de guerras dinásticas e de anarquia tribal. O Império é dividido em duas Makhzen rivais, um em Fez (com Mulei Sulayman de Marrocos), o outro em Marraquexe com (Mulei Hisham de Marrocos). Sulayman sai vencedor e reunifica o sultanato em 1797.

Carta de George Washington dirigida a Mohammed III na ocasião do tratado de paz e amizade Marroco-americano assinado em Marraquexe em 1787.

Mulei Sulayman (1792-1822) conduz uma política de isolacionismo. O sultão fecha o país ao comércio exterior, incluindo Europeu, e elimina postos de aduana criados por seu pai. No plano interior, os seus dahirs (decretos) abertamente de inspiração Salafista causam rebeliões tribais e urbanas, ligadas à sua decisão de proibir Moussem (festas anuais associando celebração religiosa e actividades comerciais) e marabutismo. Os berberes do Atlas Médio, como os Aït Oumalou, agrupam-se sob a liderança do caudilho Boubker Amhaouch e formam uma grande coligação tribal, à qual mesmo os Rifianos se juntam. Durante os anos 1810, o exército Makhzen sofre várias, que vão até a queda de Fez, e a retirada do sultão nas cidades costeiras que permanecem sob a sua autoridade. A cidade de Fez e as tribos rebeldes vão até tentar impor o próprio filho de Sulayman, Mulei Saïd, na chefia do Estado, mas acabam por não conseguir.

No plano exterior, o sultão consegue evitar as tentativas de influências diplomáticas e militares exercidas pelo imperador Napoleão I, próximo vizinho de Marrocos desde a ocupação da Espanha pelas tropas francesas em 1808. Mulei Sulayman volta-se para Saud bin Abdul Aziz, Emir de Néjede e do Primeiro Estado Saudiano, mostrando um forte interesse pelo salafismo Wahhabi [16]. Esta aliança estratégica é devida às afinidades anti-otomanas que caracterizam o rei de Marrocos como o Emir Saudiano, assim como as crenças religiosas de Sulayman . Tirando partido da sua campanha militar contra a Regência de Argel, o Sultão consegue expulsar definitivamente as tropas turcas a partir do Bey de Mascara, que ocupavam as províncias orientais de Oujda e de Berkane desde 1792, e restaurar a autoridade xerifiana sobre o Touat e outras oásis no Sahara central.

O sultão de Marrocos Mulei Abd ar-Rahman, segundo Eugène Delacroix (1845).
A morte de Hassan I de Marrocos em 1894, no Journal illustré.

No entanto, o sultão acaba por abdicar em 1822 em favor de seu sobrinho Abd-el-Rhaman, após a pesada derrota infligida ao exército Makhzen pela zaouia Cherradia perto de Marraquexe. MuleiAbd ar-Rahman (1822-1859) tenta fazer sair o Império Xerifiano do seu isolamento, mas seus desejos são frustrados pelas primeiras agressões do colonialismo europeu moderno. O reinado deste Sultão corresponde de fato à conquista francesa da Argélia, em que Marrocos está envolvido, apoiando o emir Abd El-Kader, que acaba derrotado na Batalha de Isly, e à guerra hispano-marroquina, que termina com a ocupação espanhola de Tetuão em 1860.

Após este conflito catastrófico para o Makhzen, que deve pagar a Espanha, uma "indemnidade" de guerra de duzentos milhões d'ouros[45] (emprestados por bancos britânicos), Mohammed IV de Marrocos (1859-1873), sucessor de Mulei Abd al-Rahman começa uma política de modernização do Império Xerifiano. O exército é o primeiro no campo das reformas estruturais. O sistema das tribos guich é abolido e substituída por um recrutamento no seio de todas as tribos "nouaïbs" (sujeitas ao imposto regular), que devem fornecer tabors (unidades) regulares de Askares (soldados). A formação destas tropas é confiada a conselheiros militares europeus, como o escocês Harry Aubrey de Maclean (que recebe o título de Caïd para a organização de um regimento de elite formado sobre o modelo britânico), e o armamento é adquirido em empresas estrangeiras como a firma alemã Krupp.[46]

Em paralelo a esta modernização do exército, são criadas indústrias (fábricas de munições, de açúcar, de papel), os avanços tecnológicos são registrados como a instalação da primeira impressa árabe de Marrocos em Fez em 1865. Mas essa política implica despesas consideráveis que exigem um financiamento substancial. O Makhzen é obrigado a cobrar impostos adicionais que não estão em conformidade com a Lei islâmica, que se tornam rapidamente impopulares e reprovados pelos ulemás. As tensões relacionadas a esta decisão estouram após a morte de Mohammed IV, sucedido por Hassan I em 1873. Nas cidades elas tomam forma de tumultos sociais violentamente reprimidos, cuja revolta dos curtidores de Fez é um exemplo ilustrativo.[47]

O reinado de Hassan I corresponde à vontade do sultão de conciliar as exigências de uma modernização do Estado à complexidade social e política de Marrocos. Essa reinado se encaixa também na perspectiva das rivalidades imperialistas europeias que se tornam ainda mais prementes após a Conferência de Madrid de 1880, que prefigura a futura partilha do Império Xerifiano no xadrez internacional. Como a Turquia, o Irão ou a China da época, Marrocos torna-se um "homem doente", segundo a expressão consagrada nos círculos colonialistas. por meio de concessões econômicas e do sistema de empréstimos bancários, cada uma das potências interessadas europeias, incluindo a França, a Espanha, o Reino Unido e a Alemanha, esperam preparar o caminho para a conquista total do país. A habilidade do Makhzen é de saber manter à distância as cobiças combinadas do imperialismo europeu e de jogar com as rivalidades entre as potências. Mas a morte de Hassan I, ocorrida durante uma expedição ao Tadla em 1894, deixa o poder ao muito jovem Abd al-Aziz (com apenas quatorze anos de idade), filho de uma favorita do Harem Imperial originária de Circássia, uma certa Lalla Reqiya.[48]

Uma regência é então exercida até 1900 pelo grão-vizir Ahmed Ben Moussa, que vem da antiga corporação dos Abid al-Bukhari do palácio. O grão-vizir continua inteligentemente a política pragmática de Hassan I, mas a sua morte provoca um agravamento da anarquia e das pressões estrangeiras, como também uma rivalidade entre Mulei Abd al-Aziz e seu irmão Mulei Abd al-Hafid, que acaba por transformar-se numa guerra de competição pelo poder.

Após a vitória de Abd al-Hafid, jovens intelectuais e reformadores progressistas influenciados pela revolução dos Jovens Turcos em Istambul, tentam de lhe apresentar um projecto de Constituição Xerifiana em 11 de outubro de 1908 [17]. No entanto, a profunda crise institucional do sultanato e o aumento da pressão europeia impedem o projecto. A fraqueza do Makhzen permite também que um aventureiro chamado Jilali Ben Driss, mais conhecido como o Rogui Bou Hmara, consiga fingir ser um filho de Hassan I, e ser reconhecido como Sultão em Taza e em todo o Marrocos do nordeste durante vários anos antes de ser finalmente capturado em 1909.

A pressão colonial[editar | editar código-fonte]

Potências presentes[editar | editar código-fonte]

Mapa da Barbária em 1843 (parte norte do Magrebe) de acordo com o geógrafo Alexandre Vuillemin.

Durante o Século XIX, as potências coloniais europeias procuram estabelecer a sua influência no Norte da África.

Quando conquistou a Argélia, a França, tinha recebido de Marrocos uma promessa de neutralidade (1832). Mas em 1839, o sultão Abd-el-Rhaman apoia a acção do sultão da Argélia Abd el-Kader, e o conflito argelino estende-se para as províncias marroquinas. O exército marroquino é derrotado pelas tropas francesas do marechal Bugeaud no Isly em 17 de agosto de 1844. O Tratado de Tânger, de 10 de setembro de 1844, mete fora da lei o sultão Abd el-Kader e define a fronteira entre os dois países.

O Reino Unido procura aumentar o seu poder económico e assina, em 1856, um tratado comercial, muito a seu favor. A Espanha empreende uma reconquista : respondendo ao sucesso das colonizações realizadas pela França, ela toma posse das Ilhas Chafarinas, ilhotes do Mediterrâneo, em Maio de 1848, e começa e ganha a guerra de Tetuão em 1859-1860. Esta derrota com pesadas perdas humanas, impõe a Marrocos uma importante indemnização de guerra, o que agrava a já ruim situação econômica.

A França quanto a ela, ansiosa por constituir em África do Norte um território homogêneo assina, em 1863, uma covenção franco-marroquino. As vantagens concedidas para a França e o Reino Unido são estendidas a todos os países europeus na Conferência de Madrid (1880).

O Sultão Mulei Hassan, que dirige o país durante este período (1873 - 1894) tenta modernizá-lo e joga com as rivalidades Europeias para manter a sua independência. Mas á sua morte, e ainda mais á morte do Grande vizir regente Ahmed Ben Moussa, ou Ba Ahmad, em 1900, as manobras coloniais retomam novamente no Marrocos. A França em particular, ocupa e integra os territórios do Leste marroquino a seus departamentos da Argélia entre 1902 e 1904.

Efectivamente, desde que ocupa e coloniza a Argélia, a França está preocupada com a segurança das fronteiras entre a Argélia e Marrocos. Os seus comerciantes e empresários mostram-se bastante activos, principalnmente em Casablanca, um porto de criação recente. É dessa maneira que Lalla Maghnia e o Sahara central tocando a fronteira do Mali, o Tuat, Tidikelt, o Saoura, Béchar Jorf Torba , Abbadia, Métarfa, Hassi Regel, N'khaila, El Hamira, Kenadsa, e Timimoun, passam sob o controlo francês.

A crise de Tânger[editar | editar código-fonte]

Em 1904, na Conferência de Algeciras, o Reino Unido concedeu à França o domínio de Marrocos, cujo sultão tinha contraído uma grande dívida com aquele país da Europa (em troca, a França concordou que o Reino Unido governasse o Egipto). A seguir à Segunda Guerra Mundial, de acordo com a “Carta do Atlântico” (assinada entre Churchill e Roosevelt, em 1941), as forças vivas de Marrocos exigiram o regresso do sultão Mohammed V e em 1955, a França, que já se encontrava a braços com insurreição na Argélia, concordou com a independência da sua colónia, que foi celebrada a 2 de Março de 1956.

Fontes[editar | editar código-fonte]

Notas e referências

  1. B. Lugan, Histoire du Maroc p.15
  2. Durante o período francês, Marrocos tinha o estatuto de protetorado e por conseguinte apresentava-se como estado soberano. Répertoire de la jurisprudence de la cour internationale de justice (1947-1992)
  3. Encyclopædia Universalis : Mouvement almoravide
  4. resumo no site du ministério marroquino da Cultura
  5. B. Lugan, Histoire du Maroc p.19
  6. a b Y. Le Bohec « La Maurétanie Tingitane : le Maroc des Romains » no site clio
  7. Le Maroc antique de J. Carcopino
  8. Anne Bernet,Les chrétientés d'Afrique, éditions de Paris, 2006, p 174-176
  9. B. Lugan, Histoire du Maroc, p. 33
  10. Arnold Joseph Toynbee, La Grande Aventure de l'humanité, chap. 42 - 43
  11. B. Lugan, Histoire du Maroc p48-50
  12. H. Terrasse Histoire du Maroc, 1949, T1, p. 104
  13. B. Lugan, Histoire du Maroc p. 52
  14. livro em consulta gratuita na net sobre a estrutura política de Marrocos na História
  15. Maroc: les Cités impériales Par Samuel Pickens, Françoise Peuriot, Philippe Ploquin
  16. [1]
  17. [2]
  18. Idrissides
  19. [3]
  20. Barghawata Enciclopédia Britanica em inglês
  21. Louis Piesse, Itinéraire historique et descriptif de l'Algérie comprenant le Tell et le Sahara, Introduction p.CXLVI (Hachette 1862)[4]
  22. Louis Piesse, Itinéraire historique et descriptif de l'Algérie:comprenant le Tell et le Sahara, p.237 (Hachette 1862)[5]
  23. Ibn Khaldoun, Histoire des Berbères et des dynasties musulmanes de l'Afrique septentrionales, tradusido (em francês) por William Mac- Guckin De Slane, Édition Berti, Alger 2003
  24. Histoire des Berbères et des dynasties musulmanes de l'Afrique Septentrionale De Ibn Khaldūn, William MacGuckin
  25. Al Anis al Motrib w Rawd al Qirtas Fi Akhbar al maghrib wa molouki Fès li Ibn Abi Zarâ
  26. a b Ibn Khaldoun, Histoire des Berbères
  27. Encyclopedia Britannica
  28. Kitāb el-istiqça li akhbār doual el-Maghrib el-Aqça: Histoire du Maroc, Aḥmad ibn Khālid al-Salāwī, Publicado por Librairie orientaliste Paul Geuthner, 1923. Notass sob o artigo: v.30-31, pp. 156 [6]
  29. L'Univers histoire et description de tous les peuples, Rozet et Carette Version du livre en ligne
  30. P. Buresi, Vie et mort des Empires berbères, em : L'HISTOIRE n.336, 11/2008, p.70-75 (ISSN : 0182-2411)
  31. Histoire de l'Afrique du Nord de Ch. André Julien
  32. Le Moyen Âge, XIe- XVe siècle, por Michel Kaplan & Patrick Boucheron. p.213, Ed. Breal 1994 (ISBN 2 85394 732 7)[7]
  33. in Memorial du Maroc, volume 2 p. 194
  34. Quand Al-Qods parlait marocain, Maroc Hebdo, n°860
  35. Wattassides
  36. "".
  37. [8]
  38. [9]
  39. Mémorial du Maroc volume 3
  40. pp45
  41. [in Jean Orieux "Catherine de Médicis ou la Reine noire"]
  42. Saâdiens
  43. Younes Nekrouf "Moulay Ismail et Louis XIV, une amitié corageuse"
  44. [10]
  45. [11]
  46. [12]
  47. [13]
  48. [14]

Ver também[editar | editar código-fonte]


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