Monoteísmo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
(Redirecionado de Monoteismo)
Ir para: navegação, pesquisa

O monoteísmo (do grego: μόν£ος, transl. mónos, "único", e θεός, transl. théos, "deus": único deus) é a crença na existência de apenas um deus.[1] Diferencia-se do henoteísmo por ser este a crença preferencial em um deus reconhecido entre muitos.

A divindade, nas religiões monoteístas, é onipotente, onisciente e onipresente.

Exemplos de religiões monoteístas incluem a fé bahá'í, o islamismo, o judaísmo e o zoroastrismo.

Definição e variedades[editar | editar código-fonte]

Para mais informações, veja: Religião comparadaConcepções de Deus, e Teísmo

Monoteísmo é a crença em um deus singular, em contraste com o politeísmo, a crença em várias divindades. Politeísmo é, no entanto, conciliável com o monoteísmo inclusivo ou outras formas de monismo; a distinção entre monoteísmo e politeísmo não é clara nem objetiva.

O henoteísmo envolve a devoção a um deus único, ao mesmo tempo em que aceita a existência de outros deuses. Embora semelhantes, ele contrasta drasticamente com o monoteísmo, a adoração a uma divindade única independente dos litígios ontológicos referentes à divindade.

O monoteísmo é frequentemente contrastado com o dualismo teísta (diteísmo). No entanto, nas teologias dualistas, como o Gnosticismo, as duas divindades não são de igual valor, e o papel do demiurgo gnóstico é mais parecido com o de Satanás na teologia cristã do que uma diarquia em condições de igualdade com Deus (que é representado em uma forma panteísta, como a Pleroma).

O monoteísmo pode envolver uma grande variedade de concepções de Deus:

  • O deísmo postula a existência de um único deus, o criador de tudo na natureza. Alguns deístas acreditam em um deus impessoal que não intervém no mundo, enquanto outros deístas acreditam na intervenção através da Providência.
  • O monismo é o tipo de monoteísmo encontrado no Hinduísmo, englobando o panteísmo e o panenteísmo, e ao mesmo tempo, o conceito de um Deus pessoal.
  • O panteísmo sustenta que o Universo em si é Deus. A existência de um ser transcendente estranho à natureza é negado.
  • O panenteísmo é uma forma de monoteísmo monista, que sustenta que Deus é todo da existência, que contém, mas não é idêntico ao, Universo. O único deus é onipotente e onipresente, o universo é parte de Deus, e Deus é tanto imanente quanto transcendente.
  • O monoteísmo substancial, encontrado em algumas religiões indígenas africanas, sustenta que os inúmeros deuses são formas diferentes de uma única substância subjacente.

Origem e desenvolvimento[editar | editar código-fonte]

A palavra monoteísmo é derivado do grego μόνος (monos)[2] que significa "único" e θεός (theos)[3] que significa "divindade".[4]

Alguns autores como Karen Armstrong acreditam que o conceito de monoteísmo obteve um desenvolvimento gradual das noções de henoteísmo (adorar um deus único, aceitando a existência, ou possível existência, de outras divindades) e monolatria (o reconhecimento da existência de muitos deuses, mas com a adoração consistente de uma única divindade). No entanto, a incidência histórica do monoteísmo é tão rara, que é difícil apoiar qualquer teoria da evolução natural das religiões do politeísmo ao henoteísmo e monoteísmo.

Dois exemplos de monolatria desenvolvidos a partir do politeísmo são o culto a Aton no reinado do faraó egípcio Aquenáton, bem como a ascensão de Marduque da Babilônia à reivindicação da supremacia universal.

No Irã, no zoroastrismo, Ahura Mazda aparece como uma divindade suprema e transcendental. Dependendo da data de Zaratustra (normalmente por volta do início da Idade do Ferro), este pode ser um dos primeiros casos documentados de surgimento de uma religião protoindo-europeia monista.

No Antigo Oriente, cada cidade tinha uma divindade padroeira local, tais como Shamash em Larsa ou Nanna em Ur. As primeiras alegações da supremacia global de um deus específico data da Idade do Bronze, com o Grande Hino a Aton de Aquenáton (Sigmund Freud, em Moisés e o Monoteísmo, especula que esteja ligado ao judaísmo). No entanto, a data do Êxodo é contestada, e não é definitivo se o evento do Êxodo bíblico ocorre antes ou depois do reinado de Aquenáton. Além disso, não está claro até que ponto o atonismo de Aquenáton foi monoteísta ou henoteísta, com o próprio Aquenáton se identificando com o deus Aton.

Correntes do monismo e monoteísmo surgiram na Índia védica mais cedo. O Rig Veda apresenta noções de monismo, em particular no décimo livro, também datado da Idade do Ferro, na Nasadiya sukta.

O monoteísmo filosófico e o conceito associado de bem e mal absolutos emergiram no Zoroastrismo e judaísmo, mais tarde culminando nas doutrinas da cristologia no cristianismo primitivo e mais tarde (por volta do século VII) na tawhid do Islã. Na teologia islâmica, uma pessoa que espontaneamente "descobre" o monoteísmo é chamado de hanif, sendo que o Hanif original foi Abraão.

O antropólogo e padre austríaco Wilhelm Schmidt, em 1910, postulou a teoria do Urmonotheismus, "monoteísmo primitivo" ou "original", onde a humanidade primitiva teria sido originalmente monoteísta. O missionário e escritor Don Richardson o apoiou e, a partir da ideia de Schimidt, desenvolveu uma nova ideia, que afirmava que todas as religiões tribais originais apresentam (ou apresentavam) noções de um Deus único há muito esquecido e substituído por ídolos (politeísmo), que correspondia às afirmações bíblicas de que Deus "permitiu que todas as nações andassem segundo seus próprios caminhos. No entanto, Deus não ficou sem dar testemunho sobre sua própria pessoa" (Atos 14.17), e, portanto, as divindades supremas de cada povo seriam, na verdade, um único deus (apresentado na Bíblia) e que se reconciliaria com eles por meio de Jesus Cristo. Ele apresentou esta ideia em seu livro Fator Melquisedeque.

Religiões abraâmicas[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Religiões abraâmicas

A principal fonte do monoteísmo no mundo ocidental moderno é a narrativa da Bíblia Hebraica, a escritura de judaísmo.[5] Abraão é o primeiro dos Patriarcas bíblicos e fundador do monoteísmo dos hebreus.[6] As origens do judaísmo relaciona-se com a história dos reinos de Judá e de Israel da Idade do Ferro, 1.000-586 a.C. Ambos os reinos tinham Jeová como sua divindade (ou seja, o deus da corte real e do reino), ao mesmo tempo em que adoravam muitos outros deuses. No século VIII, a propaganda real dos assírios defendia o domínio universal (o que significa o domínio sobre todos os outros deuses) do deus assírio Ashur. Em reação a isso, certos grupos em Israel enfatizaram o poder único de Javé como um sinal da independência nacional. Quando Israel foi destruída pela Assíria (721 a.C.), refugiados trouxeram a ideologia do Jeová único para Judá, onde se tornou a ideologia do Estado durante os reinados de pelo menos dois reis. Nesta fase (final do século VII), o culto a deus de Judá não era estritamente monoteísta, mas Jeová foi reconhecido como supremo sobre todos os outros deuses.

A próxima etapa começou com a queda de Judá para a Babilônia, em 586 a.C., quando um pequeno grupo de sacerdotes e escribas reunidos em torno da corte real exilada desenvolveu a primeira ideia de Javé como único deus do mundo. A tendência em direção ao monoteísmo foi acelerada pela queda da Babilônia para os persas em 538, o que permitiu aos exilados assumir o controle da nova província persa de Judá.

O cristianismo surgiu dentro do judaísmo como uma pequena seita religiosa durante os primeiros séculos da Era Cristã, baseada na crença de que o Messias Prometido de Israel seria Jesus. Divulgado inicialmente pelos discípulos de Jesus, ganhou certa expansão de fiéis desde a Palestina até Roma e, a partir de então passou a ser uma religião com um número bastante de convertidos. Os judeus, em sua grande maioria, não aceitaram Jesus como o Messias Prometido continuando a esperar pela vinda deste personagem da fé judaica. Apesar de o cristianismo primitivo, como seita judaica, ter sido uma religião monoteísta, ao longo de seu desenvolvimento teológico transformou-se em uma religião politeísta. Isso deve-se ao fato de que, ao longo da evolução das crenças cristãs, adotou-se o Espírito Santo (antes apenas uma manifestação de seu deus único) e Jesus (anteriormente sendo apenas seu messias) como deuses do bem, unidos ao que antes era seu deus único, formando assim um só deus unificado (semelhante ao panteísmo). Também há um quarto deus, este, no entanto, um deus do mal: o Diabo, ou Satanás. Este provém da unificação do conceito de "HaSatan" (de acordo com a visão judaica, um anjo encarregado de testar a fidelidade do homem às regras estabelecidas pelo deus único) e de alguns "demônios" antagônicos e falsos deuses da Bíblia Hebraica, como Ba'al e Leviatan. Dessa forma, o cristianismo não pode ser classificado como monoteísmo, por ter vários deuses (politeísmo) e por ter uma divisão entre deus do bem (Deus, Jesus e o Espírito Santo) e deus do mal (Diabo/Satanás), que é denominada de dualismo.

O Islã surgiu no século VII d.C. como uma reação ao cristianismo e ao judaísmo, com base em ambos, mas com uma versão do monoteísmo baseado no judaísmo. Considera Jesus como messias ("Isa al-Masih" em árabe, "Jesus, o Messias"), mas diferentemente do cristianismo, não o considera como deus, e portanto segue pertencendo à lista de crenças monoteístas.

Visão Bahá'í[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Fé Bahá'í

Os Bahá'ís acreditam em um único Deus, o criador de todas as coisas, que incluem todas as criaturas e forças do universo. A existência de Deus é conceituada como eterna, não tendo começo ou fim. Embora inacessível e incognoscível, Deus é tido como consciente de Sua criação, com vontade e propósito. Os Bahá'ís acreditam que Deus expressa Sua vontade de várias maneiras, incluindo uma série de mensageiros divinos referidos como Manifestantes de Deus ou algumas vezes como educadores divinos. Essas manifestações que estabelecem religiões no mundo, são uma forma de Deus educar a humanidade.

Os ensinamentos Bahá'ís declaram que Deus compreende tudo, por isso não pode ser compreendido. Na religião Bahá'í Deus é frequentemente referido por títulos, como "Todo-Poderoso" ou "Suprema Sabedoria", e há quantidade considerável de ênfase no monoteísmo.

A Fé Bahá'í conceitua como caráter monoteísta as maiores religiões independentes, determinando um padrão de revelação continuada entre todas elas.

Visão judaica[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Judaísmo

Nos treze fundamentos da fé judaica, segundo Maimônides, os quatro primeiros demonstram os pilares do monoteísmo conforme a fé judaica. O primeiro fundamento declara a existência de Deus, o segundo, que Deus é único e que não existe unicidade como a dele. No terceiro a incorporabilidade de Deus, isentando-o de qualquer propriedade antropomórfica e no quarto fundamento a eternidade de Deus.[7]

Maimônides, em seu livro "os 613 mandamentos" ensina com relação aos 1º e 2º mandamento, que os judeus são ordenados a crer em Deus, ou seja, que há um agente supremo que é criador de tudo e crer na unicidade de Deus, ou seja, que este criador de todas as coisas é uno.[8]

Shemá Israel é o nome da seção da Torá que constitui a profissão de fé central do monoteísmo judaico (Devarim/Deuteronómio 6:4-9) no qual se diz: שמע ישראל ה" אלוהינו ה" אחד (Shemá Yisrael Hashem Elohêinu Hashem Echad - Escuta ó Israel, o Eterno nosso Deus, o Eterno é Um).

A visão judaica é compartilhada por judeus e noahides (bnei Noah, ou filhos de Noé). Estes correspondem às pessoas que vivem um monoteísmo em concordância com as 7 Leis Universais (mais conhecidas como Sete Leis de Noé) que a Bíblia Hebraica expõe até Noé (capítulos 1-9 de Bereshit/Gênesis). Desta forma, Judeus e Noahides praticam a mesma fé, distinguindo-se nos pactos em que os dois grupos estão inseridos (Mais informações: Sanhedrim).

Visão cristã[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Cristianismo e o artigo Críticas à doutrina da Trindade

Na Bíblia, o livro sagrado dos cristãos, encontra-se considerável número de referências ao monoteísmo. É usualmente atribuído a Deus qualidades como Onipotência, Onipresença e Onisciência. Apesar disso, há também referência, no Novo Testamento cristão, à divindade de Jesus e do Espírito Santo, especialmente nas Cartas Paulinas, o que vem a ser chamado de Trinitarismo, ou Doutrina da Trindade. Apesar de os cristãos considerarem o cristianismo como religião monoteísta, isso não é aceito por muitas outras crenças monoteístas, como o judaísmo e o islã, sendo que muitas seitas cristãs também não aceitam a Doutrina da Trindade.

Visão islâmica[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Islamismo

Deus (Alá) é considerado único e sem igual. Cada capítulo do Alcorão, exceto dois, começa "Em nome de Deus, o beneficente, o misericordioso". Uma das passagens do Alcorão que é frequentemente usada para demonstrar atributos de Deus diz:

"Ele é Deus e não há outro deus senão Ele, Que conhece o invisível e o visível. Ele é o Clemente, o Misericordioso!

Ele é Deus e não há outro deus senão ele. Ele é o Soberano, o Santo, a Paz, o Fiel, o Vigilante, o Poderoso, o Forte, o Grande! Que Deus seja louvado acima dos que os homens Lhe associam!

Ele é Deus, o Criador, o Inovador, o Formador! Para ele os epítetos mais belos" (59, 22-24).

Visão zoroástrica[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Zoroastrismo

O zoroastrismo é monoteísta, foi fundada na antiga Pérsia pelo profeta Zaratustra. Muitos estudiosos[carece de fontes?] consideram a religião como a primeira manifestação de um monoteísmo ético; acreditando que, da mesma forma, algumas concepções como paraíso, ressurreição e juízo final influenciaram o judaísmo, cristianismo, islamismo e outras religiões.

Religiões dármicas[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Darma

Hinduísmo[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: hinduísmo

Os Vedas são os livros mais sagrados do hinduísmo. O mais antigo deles, o Rigveda, remonta a mais de 3000 anos atrás, e contém evidências da emergência de um pensamento monoteísta, com conotações panteístas[9]. Alguns ramos do hinduísmo, como o Arya Samaj[10] e o Brahmo Samaj[11] são estritamente monoteístas.

Sikhismo[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Sikhismo

O sikhismo é essencialmente monoteísta, fundada em fins do século XV na região atualmente dividida entre o Paquistão e a Índia. Os sikhs acreditam em um Deus, Onisciente, Onipresente, Supremo Criador.

Referências

  1. “Monotheism”, Encyclopaedia Britannica, 15ª ed. (1986), 8:266.
  2. Monos, Henry George Liddell, Robert Scott, A Greek-English Lexicon, at Perseus
  3. Theos, Henry George Liddell, Robert Scott, A Greek-English Lexicon, at Perseus
  4. O composto μονοθεισμός é encontrado atualmente somente no grego moderno. Há uma única ocorrência de μονόθεον no hino bizantino (Canones Junii 20.6.43; A. Acconcia Longo and G. Schirò, Analecta hymnica graeca, vol. 11 e codicibus eruta Italiae inferioris. Rome: Istituto di Studi Bizantini e Neoellenici. Università di Roma, 1978)
  5. Douglas, J.D. (editor) (1980). The new Bible Dictionary 3 (Leicester, England: Inter-Varsity Press). p. 5. ISBN 0-85110-627-7. 
  6. Unterman, Alan (1992). Dicionário Judaico de Lendas e Tradições (Rio de Janeiro: Jorge Zahar). p. 11-12. ISBN 85-7110-243-0. 
  7. Ben Maimon, Moshé (1992). Os Oito Capítulos (São Paulo: Maayanot). p. 79-86. ISBN 85-85512-02-4. 
  8. Ben Maimon, Moshé (autor) Nahaïssi, Giuseppe (tradutor) (1990). Os 613 Mandamentos 2ª ed. (São Paulo: Nova Stella). p. 86. CDD 296.092. 
  9. Rig Veda 1.164.46
  10. Lajpat Rai, The Arya Samaj: An Account of its Aims, Doctrine and Activities, with a Biographical Sketch of the Founder, D.A.V. College Managing Committee, New Delhi (1915)
  11. "Brahmo Samaj and the making of modern India, David Kopf, publ. 1979 Princeton University Press (USA)."

Ver também[editar | editar código-fonte]