Carlos XIV João da Suécia

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Carlos XIV & III João
Rei da Suécia e Noruega
Reinado 5 de fevereiro de 1818
a 8 de março de 1844
Coroações 11 de maio de 1818 (Suécia)
7 de setembro de 1818 (Noruega)
Predecessor Carlos XIII & II
Sucessor Óscar I
Esposa Desidéria Clary
Descendência
Óscar I da Suécia
Nome completo
João Batista Júlio Bernadotte
Casa Bernadotte
Pai Jean Henri Bernadotte
Mãe Jeanne de St. Vincent
Nascimento 26 de janeiro de 1763
Pau, Béarn, França
Morte 8 de março de 1844 (81 anos)
Estocolmo, Suécia
Enterro Igreja de Riddarholmen, Estocolmo, Suécia
Religião Luteranismo
(anteriormente catolicismo)
Brasão

Carlos XIV & III João (Pau, 26 de janeiro de 1763Estocolmo, 8 de março de 1844) foi um soldado francês que acabou se tornando o Rei da Suécia como Carlos XIV João e Rei da Noruega como Carlos III João de 1818 até sua morte, também servindo como regente do rei Carlos XIII & II de 1810 até sua ascensão.

Nascido como João Batista Bernadotte, se alistou em 1780 no Exército Terrestre Francês como soldado raso. Ele avançou rapidamente durante a Revolução Francesa depois de um longo período como oficial não-comissionado, alcançando em 1794 a patente de general. Bernadotte distinguiu-se em várias batalhas e campanhas, servindo também como Ministro da Defesa por um breve período. Ele passou vários anos em aposição a Napoleão Bonaparte, porém se reconciliou com ele em 1804 e acabou nomeado um Marechal da França, a mais alta patente militar do país.

Bernadotte foi escolhido em 1810 pelo Parlamento da Suécia como o herdeiro do rei Carlos XIII, que era velho, doente e não tinha filhos, assumindo o nome de Carlos João e o papel de regente do reino. Ele foi escolhido com o objetivo de melhorar as relações entre Suécia e a França e recuperar o território da Finlândia. Entretanto, o novo Príncipe Herdeiro levou a política externa de seu novo país para outra direção, fazendo alianças com a Rússia e o Reino Unido contra a França. A Sexta Coligação havia oferecido a Noruega (que na época estava em união pessoal com a Dinamarca) em troca do apoio sueco contra Napoleão, com Carlos João liderando o Exército do Norte. Depois de sua vitória na Batalha de Leipzig contra os franceses, ele forçou a Dinamarca a ceder a Noruega através do Tratado de Kiel. Os noruegueses se rebelaram em 1814 contra o domínio sueco, porém Carlos João liderou uma campanha contra a Noruega e forçou o país a assinar Convenção de Moss e entrar em união pessoal com a Suécia.

Ele ascendeu aos tronos sueco e norueguês em fevereiro de 1818 depois da morte de Carlos XIII & II. Como o novo rei, Carlos João trabalhou para melhorar a economia de seus países, equilibrando o orçamento interno com o pagamento da dívida externa e também realizando grandes projetos de infraestrutura como o Canal de Göta. O rei tentou aproximar a Noruega da Suécia através de uma política de amalgamação, porém suas ordens eram frequentemente ignoradas pelo parlamento norueguês. As políticas externas de Carlos João permitiram controle sobre as taxas alfandegárias e deixaram o país em estado de paz interna e neutralidade externa. Ele era uma pessoa bastante teimosa, característica que se intensificou durante a década de 1830, fazendo com que fosse duramente criticado pela oposição liberal. O rei acabou cedendo para algumas demandas da oposição em seus últimos anos de vida. Ele morreu aos 81 anos em março de 1844 e foi sucedido por seu filho Óscar I.

Início de vida[editar | editar código-fonte]

Casa da família Bernadotte em Pau, hoje um museu.

João Batista Bernadotte (em francês: Jean Baptiste Bernadotte) nasceu no dia 26 de janeiro de 1763 na cidade de Pau, província de Béarn, no sudoeste da França. Era o filho mais novo de um total de cinco de Jean Henri Bernadotte e sua esposa Jeanne de St. Vincent.[1] [2] Ele nasceu prematuramente e foi levado no dia seguinte por seus pais para ser batizado. Originalmente foi chamado apenas de João Bernadotte, porém também recebeu o nome do meio Batista em homenagem a São João Batista.[1] Bernadotte foi enviado para os cuidados de uma enfermeira há alguns quilômetros de Pau pouco depois de seu nascimento, voltando para casa apenas um ano depois. Ele provavelmente não tinha uma boa relação com sua mãe, já que visitou sua casa durante apenas uma ocasião depois de ter se juntado ao exército.[3]

Seu pai era um procurador de acusações[2] em um dos tribunais da província de Béarn. Era tão mal pago que se deu ao luxo de se casar apenas quando tinha 43 anos de idade,[4] morrendo pouco depois de seu último filho completar dezessete anos.[5]

Bernadotte provavelmente começou seus estudos em um mosteiro beneditino local,[5] más parte de sua educação pode também ter ocorrido particularmente em casa, o que não era incomum na época.[3] Ele começou a trabalhar aos quinze anos de idade como aprendiz de Jean Pierre de Batsalle, um respeitado advogado de Pau.[6]

Carreira militar[editar | editar código-fonte]

Soldado e sargento[editar | editar código-fonte]

Bernadotte por Louis Félix Amiel.

Seu pai morreu em 31 de março de 1780, deixando a família em uma difícil situação financeira.[7] Bernadotte se alistou em 3 de setembro do mesmo ano como soldado raso no regimento Royal–La Marine do exército francês.[3] [7] [8] A força era particularmente usada na defesa das colônias e portos.[9] Ele estudou em Collioure,[8] província de Rossilhão, sendo enviado para o serviço ativo aos dezoito anos na ilha de Córsega.[10] Bernadotte voltou para casa entre o outono de 1782 e a primavera de 1784 por motivos de saúde,[11] se recuperando e acompanhando o regimento na guarnição de várias cidades, incluindo Besançon, Grenoble, Vienne, Marselha e Charente-Maritime.[11] [12]

Bernadotte foi promovido em 16 de junho de 1785 de granadeiro para cabo, chegando no mesmo ano na patente de sargento. O regimento havia recebido no ano anterior um novo coronel e comandante, que observaram Bernadotte e passaram a lhe designar várias tarefas. Ele ficou responsável pela procura de novos recrutas, fornecimento de uniformes e aulas de esgrima. O coronel Louis de Merle era um maçom, provavelmente tendo sido a pessoa que convidou Napoleão Bonaparte para a ordem em 1786, assinando uma carta para seu irmão utilizando o sinal maçom que os franceses utilizavam.[12]

Seu regimento foi designado para a cidade de Grenoble em 1788. Bernadotte comandou em 7 de junho as forças usadas na repressão dos protestos da Jornada das Telhas. Ele tinha sido promovido a sargento-major e foi a primeira vez que liderou as tropas. Os protestos e motins de 1788 foram mais tarde classificados como algumas das "faíscas" que levariam a Revolução Francesa. Seu regimento foi enviado na primavera de 1789 para Avinhão e no verão para Marselha, a terceira maior cidade do país e que na época já estava marcada por sentimentos revolucionários.[13]

Bernadotte foi nomeado em 7 de fevereiro de 1790 como suboficial, então a mais alta patente de um oficial não-comissionado no exército francês.[14] Pouco tempo depois ele foi comissionado, porém manteve sua patente.[12] Seu avanço pelo exército parou depois desse ponto, sendo capitão o mais alto posto que poderia chegar pertencendo ao Terceiro Estado; Bernadotte apenas voltaria a ser promovido com o avanço da Revolução Francesa.[15]

Ele em diferentes casos demonstrou iniciativa durante seu tempo como oficial comissionado. Depois de ser designado para Marselha em 1790, Bernadotte apoiou seu coronel Louis de Merle, Marquês d'Ambert, em um conflito contra as autoridades locais e possivelmente salvou seu superior de uma multidão enraivecida.[16] Em outro caso, enquanto estava na pequena vila de Lambesc perto de Marselha, Bernadotte conseguiu impedir um motim de seus colegas soldados através de sua eloquência. O incidente supostamente ocorreu dentro de uma igreja abandonada onde alguns homens estavam alojados; Bernadotte aparentemente subiu em um púlpito e deu um sermão que logo em seguida impediu a tentativa de motim.[17] [18] O episódio é até hoje obscuro e controverso, mas parece que durante esse período o regimento estava bem menos propenso a deserção do que outras unidades semelhantes.[17]

Revolução Francesa[editar | editar código-fonte]

"Eu gritei para eles, os amaldiçoei, implorei, ordenei ... Milhares de tiros foram ouvidos, dos quais uma parte eram meus porque me afastei e emiti um sinal sonoro com meu sabre. Meu cavalo tropeçou, mas manteve-se firme na sela ... 'Soldados, se reúnam aqui. Puxem e não voltem mais ... As suas baionetas e sua coragem, o que mais vocês defendem. Se a morte vier para nós, vamos morrer com o grito de "Viva a República! Viva a Nação!" em seus lábios. Se avançarmos juntos contra esses mercenários, não será fácil para eles nos derrotarem' ... Eu os coloquei na batalha. Parei o pânico que poderia ter se espalhado para seis batalhões ... Todos os oficiais elogiaram meu senso de dever e me parabenizaram pelo meu triunfo. Os soldados falam de mim com orgulho."

Bernadotte em carta para seu irmão mais velho, 1793[19]

A Revolução Francesa havia estourado em 1789. O regimento de Bernadotte fora transferido no outono de 1790 para a Ilha de Oléron perto da cidade de Rochefort. Suas tropas em seguida foram enviadas em abril de 1791 para a Ilha de Ré pouco mais ao norte, onde atuaram durante um ano.[20] Bernadotte foi nomeado tenente em março de 1792 depois de doze anos de serviço, sendo colocado no comando do 36º Regimento em Saint-Servan na Bretanha.[17] Pouco depois seu regimento recebeu ordens para marchar rumo a leste. A revolução entrou em uma nova fase enquanto seguiam seu caminho e comissários políticos foram nomeados para controlar o exército. As tropas de Bernadotte foram enviadas para a cidade germânica de Bingen am Rhein depois da vitória francesa na Batalha de Valmy, permanecendo lá durante o inverno.[21] As forças do Reino da Prússia cruzaram o Reno na primavera de 1793 e começaram a pressionar as tropas francesas. Quando a Espanha também se aliou contra a França, Bernadotte tentou em vão ser transferido para o exército francês nos Pirenéus Atlânticos com a ajuda de seu irmão. Em uma carta ele descreve como impediu que o pânico tomasse conta de soldados voluntários durante um ataque do Sacro Império Romano-Germânico em maio de 1793 ao sul da cidade de Speyer.[19]

Essa foi a primeira situação de outras semelhantes em que Bernadotte conseguiu conter o pânico e incitar as tropas.[22] Ele se destacou em sua posição e subiu rapidamente através das fileiras do exército.[nota 1] Ele foi nomeado capitão em julho de 1793 depois de confrontos em Speyer e Mainz,[24] sendo promovido novamente três semanas depois já em agosto para o posto de tenente-coronel. As promoções foram oficialmente confirmadas pelo Ministério da Guerra no ano seguinte e Bernadotte foi nomeado em 8 de fevereiro de 1794 para comandante de batalhão.[24] [25] A promoção ocorreu enquanto o seu 36º Regimento estava marchando do Reno para a costa dos Países Baixos do Sul, onde lutaram contra forças britânicas em Wervik e Menen em uma tentativa de alcançar a cidade de Oostende.[24]

Bernadotte foi promovido em 4 de abril de 1794 para coronel, sendo colocado no comando da 71ª Meia-Brigada (uma brigada composta por uma metade de soldados profissionais e outra metade de soldados voluntários), resultado das reformas realizadas pelo ministro Lazare Carnot. Sua força foi transferida para os rios Sambre e Mosa. Os primeiros ataques saíram mal e Bernadotte novamente teve que conter o pânico e a dispersão de suas tropas para que não fugissem diante do inimigo.[24]

A Batalha de Fleurus por Jean-Baptiste Mauzaisse.

Suas forças se destacaram na Batalha de Fleurus em 26 de junho de 1794 contra a Primeira Coligação, com o general Jean Baptiste Kléber iniciando uma petição para nomear Bernadotte como general de brigada "por sua bravura e realizações de destaque".[26] Ele acabou sendo promovido em 22 de outubro de 1794 a major-general[27] depois do cerco da cidade de Maastricht e a Batalha de Aldenhoven.[28] Essa era a maior patente permanente no exército revolucionário francês. Ao contrário da maioria dos outros comandantes, Bernadotte demonstrava grande respeito e consideração pela população civil. Ele manteve uma rigorosa disciplina com suas tropas para evitar saques.[29]

A correspondência de Bernadotte mostra que ele era muito dedicado e esforçado para garantir o fornecimento de suprimentos para seus subordinados, especialmente de alimentos, que ocasionalmente eram um grande problema, além também dos cuidados dos doentes e feridos. Ele costumava enviar instruções detalhadas para hospitais sobre como eles deviam operar, o tipo de tratamento que os pacientes deveriam receber e assim por diante – algo extremamente incomum para generais da época.[nota 2]

Ele participou em 1795 de outras operações militares nos rios Sambre e Mosa. Em dezembro suas forças foram para Bad Kreuznach. Alguns de seus soldados tentaram roubar e saquear cidadãos locais, porém Bernadotte manteve um rígido senso de justiça, punindo os culpados e fazendo com que as famílias saqueadas fossem indenizadas.[31]

Suas tropas passaram o inverno na cidade de Boppard, atravessando o Reno na cidade de Neuwied em 11 de junho de 1796.[32] As forças francesas encontraram resistência austríaca que os forçaram a recuar de Darmstadt e Nurembergue às ordens de Jean-Baptiste Jourdan em Ratisbona. As forças localizadas em Deining, Neumarkt e no Alto Palatinado foram atacadas em agosto por exércitos superiores e forçadas a recuar.[31] A retirada contra as forças austríacas com números quatro vezes maiores foi um dos primeiros grandes desafios estratégicos que Bernadotte enfrentou, algo que ele resolveu com perdas insignificantes.[33] As forças do general Jourdan tentaram de forma mal-sucedida pressionar as forças austríacas em Wurtzburgo. Bernadotte acabou ficando doente em setembro.[31] [34]

Península Itálica[editar | editar código-fonte]

A retirada da Baviera encerrou as operações francesas ao oeste do Reno. Bernadotte foi nomeado no outono de 1796 como governador de Coblença, sendo logo em seguida acusado por um jornal francês de ter permitido saques durante a campanha em Nurembergue. Ele ficou furioso já que tinha orgulho de sua disciplina rígida, pedindo permissão para ser liberado e viajar até Paris para desmentir as acusações. Carnot não queria um general em Paris enquanto mais forças francesas eram necessárias nas campanhas da Península Itálica. Assim o ministro acabou enviando Bernadotte no início de 1797 para liderar um exército em Lombardia e apoiar Napoleão Bonaparte contra os austríacos.[31]

Bernadotte marchou com duas divisões, totalizando vinte mil homens, para o Maciço do Monte Cenis, passando no caminho por Dijon, Lyon e Chambéry; em seguida passando por Susa e Piemonte até chegar em Turim.[35] [36] A grande marcha através dos Alpes foi concluída no inverno em meio a uma tempestade de neve, algo que foi considerado um feito notável.[36] As divisões chegaram em Milão no dia 22 de fevereiro de 1797, sendo recebidos com frieza.[35] [37] Bernadotte ficou tão indignado com o coronel Dominique Dupuy, o comandante militar da cidade, que o prendeu por insolência e insubordinação.[37] Infelizmente para o general, Depuy era um amigo próximo de Louis-Alexandre Berthier, chefe de gabinete de Napoleão.[36] [37]

Napoleão decidiu ignorar as ações de Bernadotte por ter ficado impressionado com ele e suas tropas durante a longa marcha pelos alpes. Ele deu a Bernadotte o comando da 4ª Divisão do exército, ficando responsável por parar o avanço austríaco pelo flanco direito.[37] Seu primeiro desafio era atravessar o rio Tagliamento, onde ele usou um estratagema que surpreendeu seus inimigos e o ajudaden de Napoleão que os acompanhava.[38] A próxima vitória foi a conquista do Principado de Gorizia e Gradisca, porém ela custou caro para Bernadotte, que perdeu quinhentos homens em um ataque frontal contra Gradisca d'Isonzo. Foram perdas que Napoleão considerou desnecessárias, enquanto Bernadotte achou que as ordens não foram muito claras.[38] [39]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Depois das campanhas vitoriosas de Theiningen e de Tagliamento, ocupou em 1798 o cargo de embaixador francês em Viena – um cargo de que se viu obrigado a abdicar quando, inflamado pelo fervor patriótico, resolveu hastear a polêmica bandeira tricolor da Revolução Francesa no topo do edifício da embaixada.

Foi também em 1798 que Bernadotte se casou com Desidéria Clary, a filha de um comerciante de sedas de Marselha. Desidéria era, contudo, uma mulher com passado perigoso: não só era a antiga noiva de Napoleão Bonaparte, como era também a irmã da esposa de José Bonaparte, irmão de Napoleão e futuro rei de Espanha.

Apesar de ter uma relação atribulada com Napoleão, o Diretório nomeou-o ministro da guerra, cargo que exerceu durante pouco mais de três meses. Datam dessa altura as suas divergências pessoais para com Napoleão: Bernadotte não apoiou sequer o golpe de estado bonapartista do 18 de Brumário, algo que não o impediu, no entanto, de ser nomeado comandante do exército da Vendeia até 1801.

Com a constituição do Império Francês, Jean Bernadotte tornou-se um dos 18 marechais de França, ocupando o cargo de governador de Hanover em 1804 e 1805 – é nesta altura que a sua conduta protetora para com alguns nobres suecos, prisioneiros da guerra com a Dinamarca, se faz notar, naquilo que seria um acto com grandes repercussões tanto para o seu futuro como para o da Europa.

Em dezembro de 1805, participou com glória na batalha de Austerlitz – foi agraciado com o título de "Príncipe de Pontecorvo" – combateu ao lado de Napoleão durante a campanha da Polônia em 1807, dando-lhe a vitória em Eylau mas sofrendo a desonra nas campanhas da Prússia: falha com a participação do seu exército na batalha de Jena, sendo até desautorizado pelo imperador. Cada vez mais agastado com o imperador, regressou então a Paris onde recebeu ordens para defender a Holanda dos ingleses.

Entretanto mais ao norte, a Suécia perdia em 1809 metade do seu território – toda a província oriental do reino, no que é hoje a Finlândia. O grande responsável por esta perda, o rei sueco Gustavo IV Adolfo da Suécia foi então deposto por um golpe de estado, sendo substituído pelo seu tio, que passou a reinar sob o nome de Carlos XIII da Suécia.

Carlos XIII não tinha descendentes: urgia, pois, encontrar um sucessor. A dieta sueca procurou então um pretendente que fosse, simultaneamente alguém popular e versado nas artes marciais, alguém que, no fundo, conseguisse unir o povo contra o inimigo russo que batia às portas de Estocolmo.

Foi então que o barão Karl Mörner, um emissário sueco em França, propôs a Bernadotte, por sua própria iniciativa, a aceitação do trono sueco – uma proposta que causou tanto espanto a Napoleão que este pensou tratar-se de uma proposta provinda da mente fantasiosa de um lunático. E não foi só Napoleão a pensar que Mörner enlouquecera: a dieta sueca pensou o mesmo e tratou de fazer prender o barão assim que este entrou na Suécia. No entanto, a carruagem estava já em andamento: a candidatura de Bernadotte caiu no gosto dos suecos e o marechal acabou por ser eleito "príncipe da coroa sueca" a 21 de Agosto de 1810.

A partir daí, tudo foi muito rápido: Bernadotte entrou na Suécia a 2 de novembro e a 5 de novembro recebeu a vassalagem do Riksdag dos estados, sendo adoptado pelo rei Carlos XIII sob o nome de Carlos João. Aproveitando a doença do rei e as dissensões comuns dos estados suecos, Bernadotte renegou o catolicismo e converteu-se ao luteranismo, iniciando então uma série de hábeis manobras diplomáticas e políticas: anexou a Noruega e declarou guerra à Inglaterra. Mais tarde, pensou melhor e acabou por se aliar com esta e com a Prússia numa coligação contra o próprio país em que nasceu.

Aproveitando ao máximo o conhecimento que adquirira a serviço de Napoleão, o antigo marechal de França bateu sucessivamente dois dos seus antigos camaradas de armas do exército napoleónico: o marechal Oudinot, em Gross-Beeren, em agosto de 1813 e o marechal Ney, no mês seguinte, em Dennewitz. Em 1814, Bernadotte invadiu a Holanda, a Bélgica e a França, seu país natal, à cabeça do exército do Norte.

Com a Europa pacificada e a França derrotada, Bernadotte só teve que esperar que Carlos XIII morresse, o que aconteceu em 1818. Da crisálida do antigo sargento, alcunhado "Belle Jambe" pelo militares do exército francês, surge então a borboleta real de Carlos João Júlio Batista Bernadotte – ou Carlos XIV João, rei da Suécia, ou ainda Carlos III, rei da Noruega. Dele, e através do seu filho, Oscar I da Suécia descende, em linha direta, a atual família real sueca, bem como muitos outros membros da realeza europeia, algo que é facilmente atestado por quem examinar atentamente as Armas Reais da Suécia: no centro, sumido mas destacado, está o escudo dos Bernadotte e nele, sob a insígnia dos Vasa, está a bandeira tricolor da Revolução Francesa.

Mas a tricolor não foi o único legado de Bernadotte à Suécia. Quando morreu, em 8 de Março de 1844, tornou-se finalmente público o teor da tatuagem que o rei dos suecos e dos noruegueses trazia gravada no peito desde os seus tempos de revolucionário jacobino: "Mort aux rois" (Morte aos reis, em francês).[40]

Títulos, estilos e brasões[editar | editar código-fonte]

Títulos e estilos[editar | editar código-fonte]

  • 18 de maio de 1804 – 26 de setembro de 1810: "João Bernadotte, Marechal da França"
    • 5 de junho de 1806 – 21 de agosto de 1810: "João Batista Júlio, Príncipe Soberano de Pontecorvo"
  • 26 de setembro de 1810 – 5 de novembro de 1810: "Sua Alteza Real, príncipe Johan Baptist Julius de Pontecorvo, Príncipe da Suécia"[41]
  • 5 de novembro de 1810 – 4 de novembro de 1814: "Sua Alteza Real, Carlos João, Príncipe Herdeiro da Suécia"[42]
  • 4 de novembro de 1814 – 5 de fevereiro de 1818: "Sua Alteza Real, Carlos João, Príncipe Herdeiro da Suécia e Noruega"[42]
  • 5 de fevereiro de 1818 – 8 de março de 1844: "Sua Majestade, o Rei da Suécia e Noruega".

Brasões[editar | editar código-fonte]

Coat of arms of Jean-Baptiste Bernadotte.svg
Armoiries du roi Karl XIV Johan, Riddarholmen1.svg
Serafimersköld Prince Karl Johan Riddarholmen.svg
Armoiries du Roi Karl Johan de Suède et de Norvège.svg
Brasão de João Bernadotte como Príncipe de Pontecorvo (1806–1810)
Brasão de Carlos João como Príncipe Herdeiro da Suécia (1810–1814)
Brasão de Carlos João como Príncipe Herdeiro da Suécia e Noruega
(1814–1818)
Brasão de Carlos XIV & III João como Rei da Suécia e Noruega (1818–1844)

Ancestrais[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. Os anos de 1793 e 1794 foram críticos para a Revolução Francesa, com vários oficiais experientes fugindo enquanto o país era atacado por outros países. Isso acabou criando boas oportunidades de progressão para aqueles que se distinguiam no campo de batalha, como foi o caso de Bernadotte.[23]
  2. "Particularmente interessante é a profundidade do cuidado e atenção que ele em várias vezes demonstrou com os feridos e doentes da Armée. Um exemplo já mencionado, mais o de maior destaque, nas instruções que ele emitiu ao deixar Liége no ano novo de 1795. Seus subordinados e seu sucessor foram pessoalmente convidados para irem a um leprosário garantir que medicamentos e alimentos eram abundantes e de boa qualidade, que as instalações e os lençóis fossem mantidos limpos e que as camas fossem equipadas com colchões e lençóis. O novo comandante em Liége devia garantir que um número suficiente de enfermeiros estivessem em casa sala e que ele deveria observá-los cuidadosamente, em particular a troca de camisas e lençóis do doente. O oficial comandante ou inspetor deveria visitar e falar calmamente com os doentes, incentivá-los e ouvir como se sentiam. Ele também deveria falar com a equipe do hospital e ser educado com aqueles, como este foi no interesse do doente".[30]

Referências

  1. a b Palmer 1992, p. 22
  2. a b Bjørnskau 1999, p. 26–29
  3. a b c Bjørnskau 1999, p. 31–34
  4. Höjer 1939, p. 3
  5. a b Palmer 1992, p. 24–25
  6. Höjer 1939, p. 5
  7. a b Höjer 1939, pp. 6–7
  8. a b Palmer 1992, p. 26
  9. Höjer 1939, p. 9
  10. Palmer 1992, p. 27
  11. a b Palmer 1992, p. 28
  12. a b c Palmer 1992, p. 29
  13. Palmer 1992, pp. 30–32
  14. Höjer 1939, p. 13
  15. Höjer 1939, p. 8
  16. Höjer 1939, p. 14; Palmer 1992, pp. 34–36
  17. a b c Palmer 1992, pp. 36–38
  18. Höjer 1939, p. 15
  19. a b Palmer 1992, pp. 42–43
  20. Höjer 1939, p. 16
  21. Palmer 1992, pp. 40–41
  22. Höjer 1939, p. 19
  23. Höjer 1939, p. 27
  24. a b c d Palmer 1992, pp. 44–45
  25. Höjer 1939, p. 22
  26. Palmer 1992, pp. 48–49
  27. Höjer 1939, p. 42
  28. Höjer 1939, p. 39
  29. Palmer 1992, pp. 50–51
  30. Höjer 1939, p. 59
  31. a b c d Palmer 1992, pp. 52–58
  32. Höjer 1939, p. 64
  33. Höjer 1939, p. 76
  34. Höjer 1939, p. 79
  35. a b Palmer 1962, pp. 62–63
  36. a b c Höjer 1939, pp. 95–96
  37. a b c d Palmer 1992, pp. 64–66
  38. a b Palmer 1992, pp. 97–98
  39. Höher 1939, pp. 98–100
  40. Cláudio de Moura Castro (25/10/2010). Resenha Eletrônica: Opinião - De reis e plebeus Ministério da Fazenda do Brasil & Revista Veja. Visitado em 24/06/2011.
  41. Suède – Succession au trône Digithèque MJP. Visitado em 27 de junho de 2015.
  42. a b Bain, Robert Nisbet (1911). "Charles XIV". Encyclopædia Britannica (11ª). Ed. Chisholm, Hugh. Cambridge University Press. pp. 931–932. 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Bjørnskau, Erik. Carl XIV Johan: En franskmann på Nordens trone. Oslo: Cappelen, 1999. ISBN 82-02-17638-7
  • Höjer, Torvald. Carl XIV Johan, Den franska tiden, Kronprinstiden og Konungatiden. Estocolmo: Nordstedts Förlag, 1939. vol. 1.
  • Palmer, Alan. Bernadotte: Napoléons marskalk, Sveriges kung. Estocolmo: Bonnier Alba, 1992. ISBN 91-34-51185-7
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Carlos XIV & III João
Casa de Bernadotte
26 de janeiro de 1763 – 8 de março de 1844
Novo título Coat of arms of Jean-Baptiste Bernadotte.svg
Príncipe de Pontecorvo
5 de junho de 1806 – 21 de agosto de 1810
Sucedido por
Luciano Murat
Precedido por
Carlos Augusto
Armoiries du roi Karl XIV Johan, Riddarholmen1.svg
Príncipe Herdeiro da Suécia
5 de novembro de 1810 – 5 de fevereiro de 1818
Sucedido por
Óscar I
Precedido por
Frederico VI
Serafimersköld Prince Karl Johan Riddarholmen.svg
Príncipe Herdeiro da Noruega
4 de novembro de 1814 – 5 de fevereiro de 1818
Precedido por
Carlos XIII & II
Armoiries du Roi Karl Johan de Suède et de Norvège.svg
Rei da Suécia e Noruega
5 de fevereiro de 1818 – 8 de março de 1844