Margaret Thatcher

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Baronesa Margaret Thatcher
Baronesa Margaret Thatcher
Primeiro-ministro Reino Unido
Mandato 4 de Maio de 197922 de Novembro de 1990
Antecessor(a) James Callaghan
Sucessor(a) John Major
Secretária do Departmento de Educação e Habilidades
Mandato 20 de Junho de 19704 de Março de 1974
Antecessor(a) Edward Short
Sucessor(a) Reg Prentice
Vida
Nascimento 13 de outubro de 1925
Grantham, Lincolnshire
Morte 8 de abril de 2013 (87 anos)
Londres
Dados pessoais
Cônjuge Denis Thatcher (1951-2003, sua morte)
Partido Partido Conservador
Profissão Advogada
Química
Assinatura Assinatura de Margaret Thatcher
linkWP:PPO#Subdivisão do Projeto WP:PP

Margaret Hilda Thatcher, Baronesa Thatcher LG, OM, PC, FRS (Grantham, 13 de outubro de 1925Londres, 8 de abril de 2013) foi uma política britânica, primeira-ministra do Reino Unido de 1979 a 1990.

Nascida Margaret Roberts na localidade de Grantham, condado de Lincolnshire, Inglaterra, Thatcher estudou ciências químicas na Universidade de Oxford antes de se qualificar como barrister. Nas eleições gerais de 1959 no Reino Unido ela foi eleita parlamentar pela região de Finchley. Edward Heath nomeou Thatcher secretária do Departamento de Educação e Habilidades em seu governo de 1970. Em 1975 ela foi eleita líder do Partido Conservador, sendo a primeira mulher a liderar um dos principais partidos do Reino Unido, e em 1979 ela se tornou a primeira mulher a ser primeira-ministra do Reino Unido.

Ao liderar o governo do Reino Unido, Thatcher estava determinada a reverter o que via como o declínio nacional de seu país.[1] Suas políticas econômicas foram centradas na desregulamentação do setor financeiro, na flexibilização do mercado de trabalho e na privatização das empresas estatais. Sua popularidade esteve baixa em meio à recessão econômica iniciada com a Crise do petróleo de 1979; no entanto, uma rápida recuperação econômica, além da vitória britânica na Guerra das Malvinas, fizeram ressurgir o apoio necessário para sua reeleição em 1983.

Devido ao fato de Thatcher ter sobrevivido a uma tentativa de assassinato em 1984, de sua dura oposição aos sindicatos e de sua forte crítica à União Soviética, foi alcunhada de "Dama de Ferro". Thatcher foi reeleita para um terceiro mandato em 1987, mas sua impopular visão crítica à criação da União Europeia lhe fez perder apoio em seu partido, renunciando aos cargos de primeira-ministra e líder do partido em 1990.

Thatcher tinha um título vitalício de pariato como Baronesa Thatcher de Kesteven, o que lhe garantia um assento na Câmara dos Lordes.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Infância e juventude[editar | editar código-fonte]

The corner of a terraced street in a suburban setting. The lower storey is a corner shop, advertising as a chiropractic clinic. The building is two storeys high, with some parts three storeys high.
Local do nascimento de Margaret Thatcher, em Grantham.
Placa comemorativa no prédio em que Thatcher nasceu.

Margaret Hilda Roberts nasceu em 13 de outubro de 1925 na localidade de Grantham, em Lincolnshire, Inglaterra. Seu pai era Alfred Roberts, original de Northamptonshire, e sua mãe Beatrice Ethel de Lincolnshire. [2] Passou sua infância em Grantham, onde seu pai era dono de duas mercearias.[3] Margaret e sua irmã mais velha, Muriel, cresceram ao lado de uma linha férrea.[3] O pai de Margaret era ativo na política local, chegando a ser vereador e pregador metodista; foi o responsável pela criação estritamente metodista de suas filhas[4] . Ele era oriundo de uma família liberal, mas se candidatava como político independente. Foi prefeito de Grantham em 1945-46 e perdeu sua posição como vereador em 1952 após o Partido Trabalhista ganhar sua primeira maioria no Conselho de Grantham em 1950.[5]

Margaret frequentava o colégio Huntingtower Road até ganhar uma bolsa para o colégio Kesteven and Grantham Girls'. [6] Seu currículo escolar era notório, chegando a ser representante estudantil[7] e entre suas atividades extracurriculares estavam o hockey, as aulas de piano, natação e recitais de poesia[8] [9] . Margaret conseguiu uma bolsa e ingressou na Universidade de Oxford em 1943, onde se formou em Química no ano de 1947. [10] [11] Especializou-se em seu último ano em Cristalografia de raios X sob a orientação de Dorothy Hodgkin.[12] [13]

Tornou-se presidente da Associação Conservadora da Universidade de Oxford em 1946.[14] [15] Foi influenciada na Universidade por trabalhos como O Caminho da Servidão de Friedrich Hayek, que condenam a intervenção econômica do governo como precursora de um estado autoritário.[16] [17]

Após a formatura se mudou para Colchester, em Essex, para trabalhar como pesquisadora química para a BX Plastics.[18] Juntou-se à Associação Conservadora local e participou da conferência partidária de Llandudno, em 1948, como representante da Associação Conservadora dos Diplomados em Universidade.[19] Um de seus amigos da Oxford era também amigo do presidente da Associação Conservadora de Dartford em Kent, que estava procurando por candidatos.[19] Funcionários da associação ficaram tão impressionados com ela que lhe pediram para se inscrever, apesar dela não estar na lista de aprovados do Partido Conservador: ela foi selecionada em janeiro de 1951 e adicionada à lista aprovada em momento posterior.[20] Em um jantar após sua aprovação formal como candidata conservadora para Dartford, em fevereiro de 1951, conheceu Denis Thatcher, um rico e bem sucedido homem de negócios divorciado, que a conduziu até seu trem rumo a Essex.[19] [20] Em preparação para a eleição, Margaret mudou-se para Dartford, onde se sustentava trabalhando como pesquisadora química para a J. Lyons e Co. em Hammersmith, parte de uma equipe que desenvolvia emulsificantes para sorvetes.[19] [21]

Iniciação política[editar | editar código-fonte]

Margaret Thatcher

Nas eleições gerais de 1950 e 1951 foi a candidata conservadora em Dartford, um distrito eleitoral considerado de fácil vitória trabalhista (conhecido como vaga segura para os trabalhistas), ocasiões em que ela atraiu a atenção da mídia como a mais nova e a única candidata mulher.[22] [23] Ela perdeu as duas vezes para Norman Dodds, mas reduziu a vantagem trabalhista para 6000 e depois para 1000.[22] (Por uma estranha coincidência, Edward Heath, futuro líder conservador, foi eleito pela primeira vez na circunscrição vizinha em 1950.) Durante as campanhas, ela foi sustentada por seus pais e por Denis Thatcher, com quem se casou em dezembro de 1951.[22] [24] Denis financiou os estudos de sua esposa para a advocacia;[25] ela qualificou-se como barrister em 1953 e especializou-se em tributação[26] Naquele mesmo ano nasceram seus filhos gêmeos, Carol e Mark.[27]

Parlamentar (1959-1970)[editar | editar código-fonte]

Thatcher não foi candidata nas eleições gerais de 1955 ocorridas, logo depois do nascimento de seus filhos. Mais tarde naquele ano, foi derrotada quando disputou a seleção como candidata para a eleição extraordinária de Orpington de 1955, ocorrida devido à morte do ocupante da cadeira parlamentar.[27] Depois, começou a procurar uma cadeira segura conservadora (ou seja, um distrito com eleitorado que historicamente elege um conservador), e foi escolhida como candidata para Finchley em abril de 1958 (vencendo por estreita margem a disputa interna com Ian Fraser Montagu). Foi eleita como membro do parlamento depois de uma dura campanha nas eleições de 1959.[28] Seu discurso inaugural foi em apoio ao seu projeto de lei, aprovado em 1960, exigindo que as autoridades locais realizem as suas reuniões de conselho em público. Em 1961, foi contra a posição oficial do Partido Conservador de votar para a restauração do castigo corporal com vara [29] Thatcher considerava os judeus residentes em Finchley como "seu povo" e tornou-se membro fundadora da Liga de Amizade Anglo-israelita de Finchley, bem como membro dos amigos conservadores de Israel. [30] Mas ela, no entanto, acreditava que Israel tinha que trocar terra por paz e mais tarde condenou o bombardeio de Osirak feito por Israel em 1981 como "uma grave violação do direito internacional". [30]

Em outubro de 1961 Thatcher ganhou visibilidade ao ocupar o cargo de Secretária de Estado do Ministério de Pensões e Seguro Social no governo de Harold Macmillan.[31] Após os conservadores perderam a eleição de 1964, tornou-se porta-voz sobre Terra e Habitação, posição na qual defendeu a política do seu partido de permitir que os inquilinos comprassem sua council house (moradia social).[32] Transferiu-se para a equipe do HM Treasury (responsável pelas finanças públicas) do gabinete paralelo em 1966, e, como porta-voz desse órgão opôs-se à política dos trabalhistas de preços obrigatórios e controles de renda, argumentando que isso iria produzir efeitos contrários aos previstos e distorcer a economia.[32]

Na Conferência do Partido Conservador de 1966, criticou as políticas de alta tributação do Governo Trabalhista como sendo medidas "não rumo ao socialismo, mas ao comunismo". [32] Argumentou que impostos mais baixos serviam como incentivo ao trabalho duro.[32] Thatcher ficou dentre os poucos deputados conservadores que apoiram o projeto de lei de Leo Abse para descriminalizar a homossexualidade masculina.[33] Votou a favor do projeto de lei de David Steel para legalizar o aborto,[34] [35] bem como para proibir a caça à lebre.[36] [37] Apoiou a manutenção da pena de morte[38] e votou contra a flexibilização das leis do divórcio.[39] [40]

Em 1967 foi selecionada pela Embaixada dos Estados Unidos em Londres para participar do Programa de Líderes Visitantes Internacionais (então chamado de Programa de Líderes Estrangeiros), um programa de intercâmbio profissional que lhe deu a oportunidade de passar cerca de seis semanas visitando várias cidades e figuras políticas dos Estados Unidos, bem como instituições como o Fundo Monetário Internacional.[41] Thatcher ingressou no gabinete paralelo no final daquele ano como porta-voz para Combustíveis. Pouco antes da eleição geral de 1970, foi promovida no gabinete paralelo a porta-voz dos Transportes e, posteriormente, da Educação.[42]

Ministra da Educação (1970-1974)[editar | editar código-fonte]

O Partido Conservador, sob Edward Heath, ganhou a eleição geral de 1970 e Thatcher foi então nomeada Ministra da Educação e Ciência. Durante seus primeiros meses no cargo atraiu a atenção do público como resultado das tentativas do governo para cortar gastos. Thatcher deu prioridade às necessidades acadêmicas nas escolas,[43] e impôs cortes de gastos públicos sobre o sistema estatal de ensino, resultando na eliminação do leite grátis para estudantes de 7 a 11 anos.[44] Considerava que poucas crianças sofreriam se as escolas cobrassem pelo leite, mas concordou em proporcionar às crianças mais novas um terço de um copo diariamente, para fins nutricionais.[44] Sua decisão provocou uma tempestade de protestos do Partido Trabalhista e da imprensa,[45] levando ao apelido de "Margaret Thatcher, Milk Snatcher" (algo como "Margaret Thatcher, Sequestradora de Leite").[44] Thatcher escreveu em sua autobiografia: "Aprendi uma lição valiosa [desta experiência]. Eu tinha incorrido no máximo de ódio político pelo mínimo de benefício político."[45] [46]

O período de Thatcher no ministério foi marcado por propostas de muitas autoridades locais de educação para fechar as grammar schools (escolas tradicionais focadas em ensino mais restrito) e adotar escolas abrangentes. Embora estivesse comprometida com um sistema de educação com camadas de grammar schools modernas, e determinada a preservar as grammar schools,[43] durante seu mandato como ministra da Educação ela recusou apenas 326 de 3.612 propostas para as escolas se tornarem abrangentes. A proporção de alunos frequentando as escolas abrangentes, consequentemente, aumentou de 32 para 62 por cento.[47]

Líder da Oposição (1975-1979)[editar | editar código-fonte]

Photograph
Margaret Thatcher, Líder da oposição, 18 de setembro de 1975

O governo Heath continuou a sentir dificuldades com embargos de petróleo e demandas sindicais para aumentos salariais em 1973, e perdeu as eleições gerais em fevereiro de 1974.[45] Os trabalhistas formaram um governo de minoria, e conseguiram ganhar uma maioria estreita nas eleições gerais em outubro de 1974. A liderança de Heath no Partido Conservador parecia cada vez mais em dúvida. Thatcher não era, inicialmente, a substituição óbvia, mas ela acabou se tornando a principal adversária, prometendo um novo começo.[48] Seu principal apoio veio do conservador Comitê 1922.[48] Ela derrotou Heath na primeira votação e ele renunciou a liderança.[49] No segundo escrutínio ela derrotou o sucessor preferido de Heath, William Whitelaw, e tornou-se a líder do partido em 11 de fevereiro de 1975.[50] Ela nomeou Whitelaw como seu vice. Heath permaneceu desencantado com Thatcher até o fim de sua vida, devido ao que ele e muitos de seus partidários perceberam como deslealdade dela na resistência a ele.[51]

Thatcher começou a frequentar almoços regularmente no Institute of Economic Affairs (Instituto de Assuntos Econômicos) (IEA), um think tank fundado pelo magnata do ramo de avicultura Antony Fisher, um discípulo de Friedrich von Hayek. Ela frequentava o IEA e lia suas publicações desde inicio da década de 1960. Lá, foi influenciada pelas ideias de Ralph Harris e Arthur Seldon, e se tornou a face do movimento ideológico de oposição à economia do Estado de bem-estar social keynesiano, que acreditavam que estava enfraquecendo a Grã-Bretanha. Os panfletos do instituto propunham menos governo, menos impostos e mais liberdade para as empresas e os consumidores.[52]

O crítico de televisão Clive James, escrevendo no The Observer durante a votação para a liderança, comparou sua voz de 1973 a um gato deslizando em um quadro negro[nb 1] Thatcher já tinha começado a trabalhar em sua apresentação seguindo o conselho de Gordon Reece, um antigo produtor de televisão. Por acaso Reece encontrou o ator Laurence Olivier, que organizou aulas com o preparador vocal do Royal National Theatre.[53] [54] [55] Thatcher conseguiu suprimir completamente seu dialeto de Lincolnshire, exceto quando sob estresse, particularmente após a provocação de Denis Healey na Câmara dos Comuns, em abril de 1983, quando ela acusou as lideranças trabalhistas de estarem fritos.[56] [nb 2]

Em 19 de janeiro de 1976 Thatcher fez um discurso na sede municipal de Kensington em que ela fez um duro ataque à União Soviética:

Os russos estão empenhados em dominar o mundo e estão rapidamente adquirindo os meios para se tornar a mais poderosa nação imperial que o mundo já viu. Os homens do Politburo soviético não têm que se preocupar com o fluxo e refluxo da opinião pública. Colocam as armas antes da manteiga, enquanto nós colocamos quase tudo antes das armas.[57]


Em resposta, o jornal do Ministério da Defesa soviético Krasnaya Zvezda (Estrela Vermelha) chamou-a de "Dama de Ferro",[57] um apelido que ela prontamente adotou.

Em meados de 1978, a economia começou a melhorar e as pesquisas de opinião mostravam os trabalhistas na liderança, com uma eleição geral sendo esperada para o final do ano e uma vitória dos trabalhistas era uma séria possibilidade. O primeiro-ministro James Callaghan surpreendeu a muitos ao anunciar em 7 de setembro que não haveria eleições gerais naquele ano e que esperaria até 1979 para ir às urnas. Thatcher reagiu a isto rotulando o governo trabalhista como "galinhas", e o líder do Partido Liberal, David Steel, acompanhou-a, criticando os trabalhistas por "correr de medo".[58]

O governo trabalhista então enfrentou novo mal-estar público sobre a direção do país e uma série de greves prejudiciais durante o inverno de 1978-79, apelidado de "Inverno do Descontentamento". Os conservadores atacaram o desemprego recorde do governo trabalhista, usando como publicidade o slogan Labour Isn't Working (os trabalhistas não estão trabalhando). Eleições gerais foram convocadas depois que o governo de James Callaghan perdeu uma moção de censura no início de 1979. Os conservadores ganharam uma maioria de 44 assentos na Câmara dos Comuns, e Margaret Thatcher tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra do Reino Unido.

Primeira-Ministra (1979–1990)[editar | editar código-fonte]

Thatcher é a única mulher em uma sala, onde uma dúzia de homens de ternos estão sentados em torno de uma mesa oval. Reagan e Thatcher sentam em frente um ao outro, no meio do eixo longo da mesa. A sala é decorada de branco, com cortinas, um lustre de ouro e um retrato de Lincoln.
Gabinete de Thatcher se reúne com o gabinete de Reagan na Casa Branca, 1981.

Thatcher se tornou primeira-ministra em 4 de maio de 1979. Chegando ao número 10 da Downing Street, disse, parafraseando a "Oração de São Francisco":

Onde houver discórdia, que possamos trazer harmonia. Onde houver erro, que possamos trazer a verdade. Onde houver dúvida, que possamos trazer fé. E onde houver desespero, que possamos trazer esperança.


Assuntos internos[editar | editar código-fonte]

Thatcher foi líder da oposição e primeira-ministra em uma época de crescente tensão racial no Reino Unido. Comentando sobre as eleições locais de maio de 1977, The Economist observou "A maré Tory inundou os partidos menores. Isso inclui especificamente a Frente Nacional, que sofreu um claro declínio desde o ano passado".[59] [60] Sua posição nas pesquisas subiu 11 por cento depois de uma entrevista em janeiro de 1978 para World in Action, em que ela disse que "o caráter britânico fez tanto para a democracia, para o direito e fez tanto em todo o mundo que, se há qualquer receio de que ele possa ser submergido, as pessoas vão reagir e ser bastante hostis a quem toma o poder" e "de muitas maneiras [as minorias] contribuem para a riqueza e variedade do país. No momento em que a minoria ameaça tornar-se muito grande, as pessoas ficam com medo".[61] [62] Na eleição geral de 1979, os conservadores atraíram eleitores da Frente Nacional, cujo apoio caiu quase sucumbiu.[63] [64] Em uma reunião em julho de 1979 com o Lord Carrington (Secretário dos Negócios Estrangeiros) e William Whitelaw (Secretário de Estado para os Assuntos Internos), ela contestou o número de imigrantes asiáticos,[65] no contexto de limitar o número de refugiados vietnamitas autorizados a instalar-se no Reino Unido para menos de 10.000.

Como primeira-ministra, Thatcher se reunia semanalmente com a Rainha Elizabeth II (Isabel II em português europeu) para discutir negócios do governo, e sua relação ficou sob intensa vigilância.[66] [67] Em julho de 1986, o Sunday Times relatou reclamações atribuídas aos conselheiros da rainha de um "racha" entre o Palácio de Buckingham e a Downing Street "sobre uma ampla gama de assuntos domésticos e internacionais".[68] [69] O Palácio emitiu um desmentido oficial, desviando a especulação sobre uma possível crise constitucional.[69] Após a aposentadoria de Thatcher, uma fonte sênior do Palácio novamente classificou como "bobagem" a "ideia estereotipada" de que ela não se dava bem com a rainha, ou que elas tinham se desentendido sobre as políticas thatcheristas.[70] Thatcher escreveu mais tarde: "Sempre achei a atitude da rainha em relação ao trabalho do Governo absolutamente correta... histórias de confrontos entre "duas mulheres poderosas" eram apenas boas demais para não serem feitas".[71]

Em agosto de 1989, Thatcher questionou a resposta de seu governo ao Relatório Taylor, escrevendo um comentário manuscrito em uma nota informativa da Downing Street: "O ímpeto geral é a crítica devastadora da polícia. Isso é bem-vindo para nós? Certamente recebemos de bom grado o rigor do relatório e suas recomendações? MT."[72]

Durante sua permanência no governo, Thatcher praticou grande frugalidade em sua residência oficial, inclusive insistindo em pagar por sua própria tábua de engomar.[73]

A Dama de Ferro[editar | editar código-fonte]

Margaret Thatcher revista as tropas militares do Reino Unido.

Durante o seu governo conseguiu reduzir a inflação e melhorar a cotação da libra esterlina, o que aumentou as importações, visto que o setor nacional (sem intervenções para depreciar o câmbio - tornando produtos estrangeiros artificialmente mais caros) perdera a falsa competitividade que aparentava ter devido ao protecionismo econômico. Disto resultou uma diminuição da produção industrial inglesa, com o consequente incremento do desemprego, triplicado desde a subida de Thatcher ao poder.[74] Proliferaram também as quebras de empresas e bancos. A economia britânica passou por um desagradável - mas importante - momento de reorganização: houve quebra de empreendimentos que mantinham-se devido a privilégios do governo - direta ( através de subsídios, tarifas de importação ou reservas de mercado ) ou indiretamente ( através de, por exemplo, depreciação cambial para agraciar os setores exportador e nacional ).

Elaborou um programa rigoroso para inverter a crise da economia britânica mediante a redução da intervenção estatal e a implementação de um programa de privatização. Os principais postulados foram o liberalismo e o monetarismo estritos. Também reduziu os serviços sociais e, reduzindo o poder dos Conselhos de Salários (Wage Councils), praticamente aboliu o salário mínimo - que seu governo via como um estorvo às prerrogativas de administração (Rubery & Edwards, 2003, pp. 457-460). [75] Em 1999, o salário mínimo foi restabelecido por Tony Blair.[76] Estudou a renegociação para a participação do Reino Unido na CEE e para a abolição do poder sindical.

Tudo isso deveu-se à austeridade que acompanhou a sua administração, dado que o objetivo de reduzir a inflação era prioritário. Não obstante, durante seu governo a inflação dobrou entre 1979 e 1980 (de 10 para cerca de 20% a.a.), e retornou aos dois dígitos no final de década de 1980. [77] Em meados de 1981 a economia do Reino Unido mergulhou numa profunda recessão. Quando o nível de desemprego atingiu o recorde de 3 milhões [74] (era menos de 1 milhão na posse Thatcher), as críticas às suas políticas econômicas se multiplicaram. Em 1981, numa famosa carta ao jornal Times, 365 economistas conclamaram o governo Thatcher a mudar as diretrizes de sua política econômica e a pôr um fim à recessão.[77]

Ronald Reagan, Margaret Thatcher, Nancy Reagan e Denis Thatcher, em recepção na Casa Branca, em 1988.

Em 1979, acusou a política soviética de Leonid Brejnev, se aproveitando da ocupação soviética no Afeganistão, argumentando que a política de distensão era um meio de esconder o modo como a União Soviética feria os direitos humanos. Thatcher foi rebatida e Brejnev acabou destacando as profundas medidas liberais tomadas por Thatcher em sua gestão e os países que ainda eram colônias britânicas, vistas pelo líder soviético como desumanas. Como consequência, a União Soviética jamais voltaria a tentar a aproximação com o Reino Unido, cujas relações com a Rússia ainda são instáveis, mesmo após a desintegração da URSS.

Em 1982, Thatcher interveio energicamente na Guerra das Malvinas, o que foi um pretexto de ataque para a oposição socialista e a União Soviética. A sua atitude foi muito bem vista pela opinião pública britânica, o que permitiu a Thatcher, nesse mesmo ano, obter a vitória eleitoral, apesar da recessão e do desemprego, desta vez com a maioria mais folgada conseguida por um candidato desde 1935.

Em 1982 elaborou um plano para o desmantelamento das instituições do Estado social no Reino Unido, nomeadamente o serviço nacional de saúde e a educação gratuita. Estas propostas foram discutidas numa reunião alargada do executivo a 9 de Setembro de 1982, na qual vários ministros se insurgiram contra o que descreveram como uma “agenda radical”. O “motim” levou Thatcher a engavetar o documento[78] .

Em 1984 enfrentou graves conflitos sociais, em especial a greve dos mineiros, que reprimiu com dureza. Em outubro desse mesmo ano, durante um congresso do seu partido que se celebrava no hotel Brighton, aconteceu um atentado a bomba, colocada por um grupo de republicanos irlandeses, – Thatcher apoiava a retenção do Ulster pelo Reino Unido – atentado do qual saiu ilesa. Como chefe de governo continuou a sua política liberal, a privatização de empresas estatais, da educação e meios de ajuda social, a luta contra o desemprego [74] e a limitação das greves. Com relação ao conflito do Ulster, propiciou a abertura de conversações com a República da Irlanda e reforçou a legislação antiterror. Em 1987 ganhou de novo as eleições, mas, nessa ocasião, por uma margem bem menor. Thatcher recusou a união social e política do Reino Unido com a Europa e criou um imposto regressivo[79] (impostos regressivos são concebidos de forma que os de renda mais baixa paguem proporcionalmente mais que os de renda mais alta), o poll tax, o qual sofreu uma violenta e vitoriosa resistência popular [80] e a levou a perder o apoio de seu próprio partido. Não lhe restou outra alternativa para além da demissão. Sucedeu-lhe John Major, que indicou Michael Heseltine como Secretário do Meio Ambiente, dando-lhe a incumbência de desmantelar o poll tax.[80]

Margaret Thatcher ainda foi considerada como "O homem forte do Reino Unido", por Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos, devido à sua postura bastante forte perante o poder.

Em 1992, Margaret Thatcher deixou a Câmara dos Comuns, ganhando lugar na Câmara dos Lordes como Baronesa Thatcher de Kesteven.

Por volta de 2000, ela começou a apresentar sinais de demência. Segundo sua filha, Carol, a ex-primeira ministra confundiu a Guerra das Malvinas com o conflito na Bósnia durante uma conversa. Em 2002, Thatcher foi aconselhada por seus médicos a não mais falar em público. Em seu livro, publicado em 4 de setembro de 2008, Carol conta que sua mãe sofria de importantes lapsos de memória desde 2001. [81] Além disso, Thatcher apresenta problemas cognitivos ligados a uma demência vascular instalada após vários acidentes vasculares cerebrais. Nos últimos anos, ela foi hospitalizada por várias vezes.[82] [83]

No seu 87º aniversário, em outubro de 2012, Thatcher fez uma rara aparição pública, almoçando em um restaurante de Londres, com seu filho Mark e a esposa. Meses depois, em 20 de dezembro de 2012, a ex-primeira-ministra foi novamente hospitalizada para a retirada de um tumor na bexiga.[84]

Ela morreu enquanto dormia em 8 de abril de 2013 na sequência de um acidente vascular cerebral.[85] [86] Em 28 de setembro, um serviço funerário foi realizado na Capela de Todos os Santos no Royal Hospital Chesea Margareth Thatcher Enfermaria, Londres no Reino Unido. Posteriormente as cinzas de Thatcher foram enterrados nos terrenos do hospital,[87] junto aos de seu marido. O funeral e o enterro foi um evento privado.

Títulos[editar | editar código-fonte]

Títulos de nobreza[editar | editar código-fonte]

  • Lady Thatcher, MO, MP (4 de Fevereiro de 1991 - 16 de Março de 1992).
  • Lady Thatcher, OM (16 de Março de 1992 - 26 de Junho de 1992)
  • A Baronesa Thatcher, MO, PC (26 de Junho de 1992 - 22 de Abril de 1995).
  • A Baronesa Thatcher, LG, MO, PC (22 de Abril de 1995 - 08 de abril de 2013).
  • Baronesa Thatcher de Kesteven, título nobiliárquico de Baronesa, que em 1992, foi-lhe concedido pela Rainha Elizabeth II dando-lhe um lugar na câmara dos Lordes.

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. "O obstáculo sempre foi a voz. Não tanto o timbre como, também, o tom - a lamentação condescendente explicativa que trata o aborrecido interlocutor como uma criança de oito anos de idade, com deficiências de personalidade. Foi fascinante, recentemente, vê-la se esforçando para eliminar isso. BBC2 News Extra na noite de terça-feira apresentou um clipe de maio 1973 demonstrando o escárnio de Thatcher em cheio. (Ela estava dizendo que não sonharia pela busca da liderança.) Ela soava como um gato deslizando em um quadro negro."James, Clive (09/02/1975). The Observer (London). Incluído em James 1977, pp. 119–120.
  2. Em meio a tumulto de ambos os lados da casa, a senhora Thatcher gritou: "Então, você está com medo de uma eleição você está? Medo, medo, medo. Assustado, frito - não poderia levá-la. Não aguentaria." "PM taunts Labour over early election", The Guardian, 20/04/1983.

Referências

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