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Dona Neuma

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Dona Neuma
OMC
Nome completoNeuma Gonçalves da Silva
Pseudônimo(s)Primeira Dama de Mangueira
Conhecido(a) por
Nascimento
Morte
17 de julho de 2000 (78 anos)

Rio de Janeiro, RJ
ResidênciaRua Visconde de Niterói, 952 - Mangueira
Nacionalidadebrasileira
EtniaNegra
ProgenitoresPai: Saturnino Gonçalves
Ocupaçãopersonalidade do carnaval carioca

Dona Neuma, apelido de Neuma Gonçalves da Silva OMC - (Ordem do Mérito Cultural) - (Rio de Janeiro, 8 de maio de 1922 – Rio de Janeiro, 17 de julho de 2000), foi uma personalidade do carnaval ligada à Estação Primeira de Mangueira.[1]

Biografia

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Dona Neuma nasceu no Rio de Janeiro em 1922, filha de Saturnino Gonçalves e de Dona Orestalina. Seu pai, figura destacada no núcleo fundador da Mangueira, integrou o Bloco dos Arengueiros[1], agrupamento que se consolidaria nas décadas seguintes como base da futura Estação Primeira de Mangueira. Tinha duas irmãs, Dalila e Cecéa[2]. Tornou-se viúva ainda muito jovem e, segundo a imprensa, nunca mais voltou a se casar nem manteve outro relacionamento afetivo[3].

Sua residência, situada na Rua Visconde de Niterói, tornou-se ponto de referência para sambistas, moradores e lideranças políticas. Reportagens de época registram que artistas, intelectuais e autoridades — como Pedro Ernesto, Ricardo Cravo Albin, Negrão de Lima, Noel Rosa, Heitor Villa-Lobos, Chico Buarque e Tom Jobim — frequentavam sua casa em Mangueira[1]. A imprensa descreveu o local como uma espécie de “ante-sala do morro”, onde moradores buscavam apoio cotidiano, orientação e ajuda nas emergências comunitárias.

Sua projeção ampliou-se também no campo institucional. Na década de 1970, integrou o Conselho Superior das Escolas de Samba, órgão criado por Amaury Jório na Associação das Escolas de Samba da Cidade do Rio de Janeiro[1]. A participação de Neuma nesse conselho é frequentemente citada como marco da presença feminina nas instâncias de decisão do carnaval carioca.

Teve cinco filhos: Eli Gonçalves da Silva, a Chininha[4], que se tornaria a primeira presidenta da Estação Primeira de Mangueira; Márcia Gonçalves da Silva Machado, a Guesinha; Euci da Silva Gomes, a Cici; e Edir Gonçalves da Silva, o Montinho, falecido aos dezenove anos. Para além da família biológica, criou e educou outros dezoito filhos adotivos[1].

Dona Neuma morreu em 17 de julho de 2000, vítima de acidente vascular cerebral, no Hospital Salgado Filho, após uma cirurgia de emergência para retirada de um coágulo cerebral[1]. Sua morte gerou grande comoção entre sambistas, autoridades culturais e moradores de Mangueira, consolidando sua imagem como uma das figuras mais influentes da história do samba brasileiro.

Atuação comunitária

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A residência de Dona Neuma, situada na Rua Visconde de Niterói, tornou-se um dos principais pontos de referência social do Bairro de Mangueira ao longo do século XX. Reportagens publicadas em jornais como O Globo e depoimentos reunidos pelo Museu da Imagem e do Som registram que sua casa funcionava como espécie de “ante-sala do morro”, espaço onde moradores buscavam auxílio cotidiano, realizavam telefonemas, pediam orientação, procuravam comida e recorriam em situações de emergência[1]. Sua atuação estendia-se do acolhimento de crianças enquanto os pais trabalhavam à mediação de conflitos internos da comunidade, sendo reconhecida como liderança moral e figura de confiança entre moradores, sambistas e dirigentes da escola.

Diversos intelectuais, artistas e autoridades visitavam sua casa como ponto de convivência e diálogo, entre eles Noel Rosa, Heitor Villa-Lobos, Chico Buarque, Tom Jobim e Ricardo Cravo Albin[1]. A imprensa de época destacava que Neuma articulava soluções para problemas locais, coordenava redes informais de apoio e exercia um papel de referência comunitária anterior à criação de políticas públicas formais de assistência social. Sua atuação cotidiana consolidou sua imagem como uma das principais lideranças femininas do Morro de Mangueira ao longo de décadas.

Prêmios e homenagens

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Ao longo de sua trajetória, Dona Neuma foi agraciada com importantes reconhecimentos no universo do samba e da cultura brasileira. Em 1974, recebeu o Prêmio Estandarte de Ouro, concedido pelo jornal O Globo, na categoria dedicada às personalidades do carnaval[5]. Em 1984, durante as comemorações dos 25 anos do prêmio, voltou a ser homenageada como uma das figuras mais influentes da história da Estação Primeira de Mangueira[6].

Em 2000, foi agraciada com a Ordem do Mérito Cultural, honraria concedida pelo Ministério da Cultura a personalidades de destaque na preservação e promoção da cultura nacional[7]. Diversos estudos, reportagens e depoimentos ressaltam que sua imagem passou a simbolizar a força das lideranças femininas nas escolas de samba e no carnaval carioca, consolidando-se como referência histórica e afetiva do samba do Rio de Janeiro[3].

Depoimentos audiovisuais

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Dona Neuma deixou um conjunto significativo de depoimentos registrados pela televisão pública brasileira, hoje preservados no acervo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Parte desses materiais foi produzida originalmente pela antiga TV Educativa do Rio de Janeiro (TVE-RJ) e integra programas de caráter documental sobre o samba e a história da Estação Primeira de Mangueira.

Entre as entrevistas mais conhecidas, destacam-se suas participações nos programas Sambistas do Amanhã (1989) e Memória do Samba (1994), ambos produzidos pela TVE-RJ e posteriormente incorporados ao acervo da TV Brasil[8]. Nesses registros, Neuma comenta episódios da história da Mangueira, sua relação com líderes como Cartola e Carlos Cachaça, e aspectos da vida comunitária do morro.

Trechos de suas entrevistas também foram utilizados pela TV Brasil no programa Samba na Gamboa, apresentado por Diogo Nogueira, em episódios especiais sobre a Mangueira exibidos a partir de 2010[9]. Em 2012, seus depoimentos foram novamente incorporados ao episódio “Cartola”, do programa De Lá Pra Cá, apresentado por Ancelmo Gois e Vera Barroso, que recuperou materiais históricos da TVE-RJ para abordar a formação do samba carioca[10].

As entrevistas de Dona Neuma também foram utilizadas em reportagens especiais exibidas pela TV Brasil em 2008, por ocasião do centenário de Cartola, consolidando sua imagem como uma das principais testemunhas da história da Estação Primeira de Mangueira e do samba no Rio de Janeiro[11].

O legado de Dona Neuma estende-se para além de sua própria atuação no carnaval e na vida comunitária, prolongando-se através da participação ativa de suas filhas na Estação Primeira de Mangueira e nas instituições sociais vinculadas à escola. A continuidade dessa presença feminina no comando e na organização da agremiação constitui um dos aspectos mais marcantes de sua herança histórica.

Sua filha mais velha, Eli Gonçalves da Silva, conhecida como Chininha, tornou-se uma das figuras femininas de maior projeção na história da Mangueira. Foi a primeira mulher a ocupar a função de diretora de Carnaval em uma escola de samba do Rio de Janeiro, marco frequentemente destacado pela imprensa especializada[12]. Em 1987 integrou a Junta Governativa da agremiação, participando de um dos períodos de reorganização política da escola. Posteriormente assumiu a vice-presidência, cargo que exerceu entre 2001 e 2007, e tornou-se a primeira mulher a presidir a Estação Primeira de Mangueira, consolidando a presença feminina no comando da escola em um espaço historicamente ocupado por homens. Chininha também esteve entre as fundadoras da Mangueira do Amanhã, iniciativa voltada à formação artística de crianças e jovens, que deu origem a um dos mais importantes programas socioeducativos do universo das escolas de samba[13].

Outra filha de Dona Neuma, Euci da Silva Gomes, conhecida como Cici, desempenhou igualmente papel relevante na continuidade desse trabalho comunitário. Cici presidiu a Mangueira do Amanhã por mais de uma década, período em que a instituição ampliou suas ações educativas, artísticas e sociais voltadas à juventude da comunidade, fortalecendo a proposta de formação cidadã idealizada na geração anterior[14]. Seu trabalho deu sequência aos princípios formulados por Chininha e pelas lideranças que fundaram o projeto, garantindo a manutenção de uma pedagogia social vinculada à tradição cultural da escola.

A atuação de Chininha e Cici, somada ao conjunto de atividades desenvolvidas por Dona Neuma ao longo de sua vida, consolidou uma linhagem feminina de liderança comunitária e carnavalesca no Morro de Mangueira. Essa presença multigeracional, reconhecida em diversas pesquisas históricas, depoimentos audiovisuais e reportagens da imprensa, reforça o entendimento de que o legado de Dona Neuma transcende sua atuação individual, traduzindo-se em um movimento contínuo de protagonismo feminino na manutenção da memória, da organização e da vida social da Estação Primeira de Mangueira.

A terceira filha de Dona Neuma a atuar de forma destacada na escola é Márcia Gonçalves da Silva Machado, conhecida como Guesinha, cuja trajetória reafirma o papel continuado da família na vida cultural e institucional da Mangueira. Guesinha integrou o Departamento Feminino da escola, espaço historicamente associado à organização interna das alas e à preservação de práticas tradicionais da Estação Primeira. Atuou como presidenta de ala em diferentes períodos, participando da coordenação de fantasias, da organização das componentes e da manutenção da memória das alas históricas da agremiação[15].

Reconhecida por sua atuação contínua e por sua ligação direta com as gerações anteriores de sambistas, tornou-se Baluarte da Estação Primeira de Mangueira, honraria concedida a personalidades de extensa contribuição artística e histórica para a escola. Além de sua atuação organizativa, Guesinha é também cantora da Velha Guarda Musical da Mangueira, participando de apresentações, gravações e atividades culturais que promovem a preservação do repertório tradicional da escola e a transmissão intergeracional de sua memória musical[16].

Sua presença na Velha Guarda reforça a continuidade do legado vocal e afetivo construído por Dona Neuma ao longo do século XX, consolidando a contribuição da família para a história musical da Mangueira. Assim como Chininha e Cici, Guesinha integra a linhagem feminina que deu forma à organização interna, à preservação cultural e à sustentação comunitária da escola, compondo um eixo contínuo de liderança que atravessa diferentes gerações.

Ver também

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Referências

  1. a b c d e f g h Dicionário Cravo Albin. «Dona Neuma». Consultado em 11 de setembro de 2018 
  2. Meirelles, Onésio (21 de maio de 2018). «Uma família a serviço da Estação Primeira de Mangueira». Jornal Empoderado. Consultado em 13 de novembro de 2025  line feed character character in |titulo= at position 4 (ajuda)
  3. a b Estadão. «Dona Neuma: matriarca do samba carioca». Consultado em 11 de setembro de 2018  line feed character character in |titulo= at position 5 (ajuda)
  4. Gonçalves da Silva, Eli (9 de abril de 2025). «Depoimento de Chininha». Acervo Virtual de Mangueira. Consultado em 8 de novembro de 2025  line feed character character in |titulo= at position 11 (ajuda)
  5. «Estandarte de Ouro 1974». O Globo. Rio de Janeiro. Fevereiro de 1974 
  6. «Os 25 anos do Estandarte». O Globo. Rio de Janeiro. 1984 
  7. «Ordem do Mérito Cultural». Ministério da Cultura. Consultado em 13 de novembro de 2025  line feed character character in |titulo= at position 6 (ajuda)
  8. «Acervo EBC – TV Educativa / TV Brasil». EBC. Consultado em 13 de novembro de 2025 
  9. «Samba na Gamboa – TV Brasil». TV Brasil. Consultado em 13 de novembro de 2025 
  10. «De Lá Pra Cá – TV Brasil». TV Brasil. Consultado em 13 de novembro de 2025 
  11. «Cartola: 100 anos». O Globo. Rio de Janeiro. 2008 
  12. «Depoimento de Chininha». Acervo Virtual de Mangueira. Consultado em 8 de novembro de 2025  line feed character character in |titulo= at position 11 (ajuda)
  13. «Mangueira do Amanhã – História». Consultado em 13 de novembro de 2025  line feed character character in |titulo= at position 10 (ajuda)
  14. «Acervo Virtual de Mangueira». Consultado em 13 de novembro de 2025  line feed character character in |titulo= at position 7 (ajuda)
  15. «Acervo Virtual de Mangueira». Consultado em 13 de novembro de 2025  line feed character character in |titulo= at position 7 (ajuda)
  16. «Acervo Virtual de Mangueira». Consultado em 13 de novembro de 2025  line feed character character in |titulo= at position 7 (ajuda)
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