História dos bascos

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A história do povo basco é coberta de mistério; qual quer que sejam suas origens, acredita-se amplamente que os bascos tenham ocupado uma única região da Europa há muito mais tempo que qualquer outro grupo étnico identificável.

As fontes básicas para a história antiga dos bascos são os escritores clássicos, especialmente Estrabão, que no século I registrou que o norte de onde hoje se localiza Navarra e Aragão (região imediatamente a leste da atual comunidade autônoma do País Basco) era habitada por um povo conhecido como vascones. Embora a palavra vascones seja claramente relacionada à moderna palavra "basco", não se sabe com certeza se os vascones eram os ancestrais dos bascos modernos.

Mesmo assumindo que os vascones eram os bascos, a pré-história desse povo antes daquela época (século I) é necessariamente conjetural. As principais teorias em disputa são:

  • Os bascos chegaram como parte das migrações indo-europeias para a Europa em cerca de 2000 a.C.
  • Os bascos chegaram muito antes, quando a migração Cro-Magnon desalojou ou assimilou a população Neandertal local.

Origens[editar | editar código-fonte]

Primeiras referencias históricas[editar | editar código-fonte]

No século I, Estrabão escreveu que o norte do que hoje são Navarra (Nafarroa em basco) e Aragão era habitado pelos Vascones.

Domínio romano[editar | editar código-fonte]

O noroeste da Espanha, incluindo as regiões bascas, foram alcançadas pela primeira vez pelos romanos sob Pompeu no século I a.C., mas o domínio não foi consolidado até a época do imperador Augusto. A negligência dos romanos deixou os bascos à vontade, e eles mantiveram suas leis tradicionais e lideranças. Essa pobre região foi pouco desenvolvida pelos romanos e não há muita evidência de romanização; isso certamente contribuiu para a sobrevivência da língua basca.

Uma enorme presença romana estava localizada na guarnição militar de Pompaelo (Pamplona), cidade fundada por Pompeu na margem sul dos Pirenéus. A região ao norte foi conquistada após uma feroz campanha na qual os romanos lutaram contra os cantábrios. Há resquícios arqueológicos desse período de guarnições militares posicionadas todas ao longo do Ebro para proteger as rotas comerciais e ao longo da estrada romana entre Asturica (atual Astorga, na Espanha) e Burdigala (atual Bordéus, na França). Os bascos eram usados pelos romanos para proteger as fronteiras do seu império (como fizeram com outros povos). Por exemplo, uma unidade de Vardulli ficava estacionada na Muralha de Adriano no norte da Bretanha por muitos anos, e às vezes recebiam o título fida ("confiável", "fiel") por alguns serviços agora esquecidos prestados ao imperador. Mesmo hoje, nacionalistas bascos veem a época do Império Romano como uma época ideal, reivindicando que mesmo não havendo independência basca, os bascos tinham quase total controle interno. Adicional à falta de guarnições romanas, a sobrevivência da cultura basca era auxiliada pelo fato de que o País Basco era uma região pobre. A região não possuía terras férteis ainda não utilizadas que poderiam ser usadas para assentar colonos romanos e possuíam poucas mercadorias que interessariam aos romanos. Apenas um pequeno número de comerciantes teria chegado até lá. Esse isolamento sem dúvida permitiu à língua basca sobreviver e não ser sobrepujada pelo latim ou por outras línguas.

Idade Média[editar | editar código-fonte]

A história do País Basco torna-se obscura, no entanto, com a chegada dos povos germânicos e com o colapso do Império Romano. Estando em uma área isolada no centro de um vasto império, os bascos estavam localizados na fronteira entre os reinos guerreiros visigodo e franco. O País Basco se tornou um território estrategicamente importante e desejado por ambos os lados.

Nessa mesma época os bascos perderam seu estilo de vida, que era dependente do comércio com o Império Romano. Estas duas mudanças transformaram os bascos de um dos mais dóceis povos da Europa num grupo de eficientes guerreiros empenhados em sobreviver. Um importante rei basco de aproximadamente esta época era Iñigo Arista (c. 781-852), primeiro rei de Pamplona. Há registros dispersos de presumidos bandoleiros (latim bagaudae) bascos na Aquitânia e na Espanha roubando tudo aquilo que eles consideravam capaz de comercializar. A maior parte dos confrontos com os bascos eram, no entanto, instigados por estrangeiros. Tanto francos quanto visigodos enviavam exércitos através do País Basco repetidamente.

Da Renascença ao século XIX[editar | editar código-fonte]

O carvalho Guernica é um símbolo das liberdades bascas.

No final da Idade Média, os terras bascas estavam divididas entre França e Espanha. A maior parte da população basca acabou na Espanha, situação que persiste até a atualidade. Os navarros e bascos de Guipúzcoa, Vizcaya e Álava possuíam um alto grau de autonomia em suas províncias na Espanha e França, funcionando praticamente como estados-nações separados: os fueros deram a cada província basca em separado leis locais, impostos e justiça. Os bascos, servindo sob bandeira espanhola, eram afamados marinheiros, e no final do século XVI, ensinaram aos marinheiros como usar o arpão na caça às baleias. Navios espanhóis com muitos marinheiros bascos estavam entre os primeiros navios europeus a alcançar a América do Norte, e muitos dos primeiros colonos europeus no Canadá e nos Estados Unidos eram de origem basca.

A Reforma Protestante produziu algumas invasões, apoiadas por Joana d'Albret, rainha da Baixa Navarra. No século XVI, nas proximidades de Baiona (França), uma burguesia basco-falante estimulou a impressão de livros na língua basca, a maioria com temas cristãos. O protestantismo era contudo perseguido pela Inquisição espanhola e, no nordeste, o rei protestante navarro se converteu ao Catolicismo Romano e se tornou Henrique IV de França.

O governo autônomo das províncias bascas setentrionais teve fim com a Revolução Francesa, que centralizou o governo e aboliu todos os vários privilégios locais garantidos pelo Antigo Regime. Alguns bascos assumiram posições contra-revolucionárias com alguns participando ativamente, tendo até mesmo um projeto constitucional basco sido escrito pelo revolucionário basco Garat. Na Espanha, os bascos lutaram para manter seu governos autônomos no século XIX nas guerras carlistas ao lado das forças tradicionalistas e nominalmente absolutistas. Com as forças constitucionais saindo-se vitoriosas nessas guerras, os bascos perderam a maioria (mas não todas) de suas liberdades tradicionais. Então, as mesmas guerras que trouxeram uma relativa liberdade à maior parte da Espanha também aboliram quase todas as liberdades bascas. De qualquer forma, as províncias bascas espanholas mantiveram a mais ampla autonomia dentro da Espanha peninsular, contudo bem menor do que haviam experimentado no passado.

O avanço dos costumes espanhóis a partir das fronteiras bascas até a fronteira francesa formou um novo mercado protegido na Espanha para a incipiente indústria basca.

História moderna[editar | editar código-fonte]

Mural nacionalista irlandês em Belfast, mostrando solidariedade com o nacionalismo basco. Pode apreciar-se no mesmo um mapa de Euskal Herria.

Os novos mercados encorajaram a substituição das antigas forjarias por modernos alto-fornos, que processavam o minério de ferro local ao invés de exportá-lo para a Grã-Bretanha. A mineração e a indústria siderúrgica solicitou trabalhadores, primeiro entre os camponeses bascos, depois das vizinhas Navarra, Castela, La Rioja e até das mais afastadas Galiza e Andaluzia. As terríveis condições de trabalho desses trabalhadores (Biscaia tinha uma das mais altas taxas de mortalidade da Europa) estimulou a difusão de ideologias esquerdistas.

O fim do século XIX testemunhou o aparecimento do novo nacionalismo basco com a fundação do Partido Nacionalista Basco (Eusko Alderdi Jeltzalea), no qual ideias democratas-cristãs foram mescladas ao racismo contra trabalhadores imigrantes espanhóis que eram vistos como deturpadores da pureza da mítica raça basca. O partido reivindicava independência ou ao menos autonomia.

Em 1931 a Espanha se tornou uma república e em pouco tempo a Catalunha (a mais etnicamente distinta região dentro da Espanha depois do País Basco, também com um forte movimento independentista) foi concedido o governo autônomo. Contudo, os bascos tiveram que esperar até a Guerra Civil Espanhola para garantir os mesmos direitos.

Os bascos lutaram de ambos os lados da guerra, com os nacionalistas bascos e esquerdistas de Biscaia e Guipúzcoa ao lado da Segunda República Espanhola, e os carlistas navarros ao lado das forças revoltosas do General Francisco Franco (conhecidas no resto da Espanha como Nacionales - Nacionais). Hoje, alguns nacionalistas bascos declaram que a Guerra Civil Espanhola foi uma guerra da Espanha contra os bascos, apesar de os bascos terem lutado de ambos os lados. Não há dúvida, de qualquer forma, de que uma das maiores atrocidades dessa guerra foi o bombardeio de Guernica, a tradicional capital de Biscaia, por aviões alemães. A maior parte da cidade foi destruída e uma grande parte da história basca foi apagada.

Em 1937, aproximadamente na metade da guerra, as tropas do Governo Autônomo Basco se renderam em Santoña às tropas italianas aliadas do General Franco na condição de que a indústria pesada e a economia bascas não fossem atingidas, iniciando um dos mais severos períodos da história basca na Espanha. Para muitos esquerdistas na Espanha esse evento é conhecido como a Traição de Santoña, sendo muitos soldados bascos perdoados para se unir ao exército franquista no resto das batalhas no front norte.

Basque country map.png

Após a guerra, Franco iniciou um dedicado esforço para consolidar a Espanha como um estado-nação unificado. O regime de Franco introduziu várias leis contra todas as minorias espanholas, inclusive aos bascos, empenhando-se em suprimir suas culturas e línguas. Considerando Biscaia e Guipúzcoa províncias traidoras, ele aboliu o que restava de autonomia, mas Navarra e Álava mantiveram pequenas forças policiais locais e alguma autonomia.

A oposição a essas ações criou um violento movimento separatista basco. O grupo armado responsável pela maioria dos ataques é conhecido como Euskadi Ta Askatasuna (ETA), que significa Terra Basca e Liberdade. A morte de Franco e o fim de seu regime viu o fim da repressão e a criação de uma região autônoma basca na Espanha, mas não o fim da violência separatista, que até 2005 tinha resultado em cerca de 1000 mortes no intervalo de 30 anos. Entre 1979 e 1983, o País Basco e as regiões vizinhas haviam conseguido grande autonomia do governo espanhol. Essa autonomia inclui um parlamento eleito, força policial, sistema educacional, sistema de coleta de impostos, etc.

A Navarra foi oferecida a oportunidade de se unir ao País Basco autônomo, mas escolheu o status de região autônoma em separado.

Fontes[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]