Língua iuhupde

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A língua iuhupde, ou língua iuhup, é falada por um povo indígena minoritário, chamado macu-iuhupde, habitante do noroeste da Amazônia brasileira, com algumas poucas comunidades também na Colômbia. Trata-se de uma língua totalmente preservada, apesar de serem bilíngües com o tucano e, boa parte, comunicar-se também em português, ainda que com limitação. Pertence à família linguística conhecida popularmente como “macu”, formada pelas línguas iuhupde, hup, dâw, nadëb, kakua e nukak, também chamada família puinave, macu-puinave, uaupés-japurás, nadahup, macu-oriental e, mais recentemente, de guaviare-japurá.

Tipicamente isolante, tonal e com uma grande incidência de glotalização e laringalização, a língua ihupde é fascinante e desafiadora. Fascinante por sua riqueza e desafiadora por sua complexidade. Apesar de totalmente preservada por seu povo, é uma língua carente de especial atenção por ser falada por uma etnia minoritária, com cerca de mil pessoas, classificada assim como língua ameaçada.

Os primeiros estudos da língua Yuhup foram feitos pelo casal de missionários americanos Daniel e Cheryl Jore, em 1975, produzindo como resultado da pesquisa inicial a Análise Preliminar da Língua Yahup (1980). Em 1986, o linguista colombiano Leonardo Reina, escreveu o primeiro trabalho acadêmico sobre esta língua, sua dissertação de mestrado "Análisis fonológico, lengua Yujupde-Makú, Amazonas", seguido pela brasileira Dalva Del Vigna que conclui seu mestrado com sua dissertação Segmentos Complexos da Língua Yuhup (1991). Aurise Brandão Lopes, que há mais de vinte anos vive na aldeia do Apapóris, tornando-se uma verdadeira benfeitora daquela aldeia, obtve seu mestrado em lingüística com a dissertação Fonologia Yuhup – Uma Análise Não-Linear em 1995. No mesmo ano, a colombiana Ana Maria Ospina Bozzi concluia seu mestrado com a dissertação "Morfología del verbo en la lengua Macú-Yujup" (1995), tendo pesquisado o grupo do território colombiano, onde também fez seu doutorado com a tese Les Strutures Élémentaires du Yuhup Makú – Langue de l'Amazonie Colombienne: Morphologie et Syntaxe (2002). Valteir Martins abordou a mesma língua em sua tese de doutorado Reconstrução Fonológica do Protomaku Oriental (2005) e, por fim, Cácio Silva e Elisângela Silva produziram a Análise Fonológica da Língua Yuhup (2007), "Fonologia e ortografia Yuhup" (2008) e o dicionário "A Língua dos Yuhupdeh", com mais de 3.200 entradas e quase 600 páginas, pela da Associação Pró-Amazônia, com base na ortografia desenvolvida a partir de 2007, usada desde então na produção de materiais didáticos e alfabetização na língua materna dos Yuhupdeh da região do Rio Tiquié, Alto Rio Negro.

A língua iuhupde possui vinte e três fonemas consoantes, distribuídos em cinco pontos e igualmente cinco modos de articulação. Quanto à sonoridade, são nove fonemas surdos e quatorze sonoros. Nove fonemas sonoros se opõem pelo traço de glotalização, por apresentarem uma articulação glotálica adicional. Os segmentos vocálicos são em número de quinze, sendo nove orais e seis nasais.

Possui quatro tons, sendo dois de contorno (ascendente e descendente) e dois pontuais (alto e baixo). O tom baixo é mais fonético, enquanto o alto é gramatical. O tom ascendente é fonológico e o descendente é tanto fonológico como gramatical. Nos exemplos abaixo, o acento agudo indica tom descendente, enquanto a ausência de acento indica tom ascendente:

  • nuh – “cabeça”
  • núh – “tapioca”
  • hoh – “moquear (defumar)”
  • hóh – “canoa”

A parada glotal é muito produtiva na língua Yuhup, ocorrendo em diferentes ambientes. Mas pode ser mais facilmente notada no final de palavras, onde gera um grande número de pares mínimos. Nos exemplos abaixo a mesma é indicada pelo apóstrofo:

  • yo – “cabana”
  • yo’ – “vespa”
  • tu – “embaixo, no chão”
  • tu’ – “esteio”

A laringalização é resultante da glotalização de vogais ou consoantes, gerando uma articulação sussurrada em função da constrição das cordas vocais. É também muito produtiva, gerando pares mínimos em alguns ambientes. Nos exemplos abaixo é indicada pela inserção de duas vogais nos núcleos silábicos:

  • yam – “aldeia”
  • yaam – “onça”
  • sák – “massa (de mandioca)”
  • saák – “buriti (fruta)”

As vogais orais e nasais também geram uma grande quantidade de pares mínimos, como se pode observar nos exemplos abaixo, onde a nasalidade é indicada pelo til.

  • oh – “avó”
  • õh – “dormir”
  • taw – “tipo de mel”
  • tãw – “bater”

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • DEL VIGNA, Dalva. Segmentos Complexos da Língua Yuhup. Brasília: UnB, 1991 (dissertação de mestrado).
  • JORE, Daniel & JORE, Cheryl. Análise Preliminar da Língua Yahup. Brasília: SIL, 1980.
  • LOPES, Aurise Brandão. Fonologia Yuhup – Uma Análise Não-Linear. Santa Catarina: UFSC, 1995 (dissertação de mestrado).
  • MARTINS, Valteir. Reconstrução Fonológica do Protomaku Oriental. Amsterdam: Vrije Universiteit, 2005 (tese de doutorado).
  • OSPINA BOZZI, Ana Maria. Morfología del verbo en la lengua Macú-Yujup. Bogotá: Universidad de los Andes, 1995 (dissertação de mestrado).
  • ______. Les Strutures Élémentaires du Yuhup Makú – Langue de l'Amazonie Colombienne: Morphologie et Syntaxe. Paris: Université de Paris 7, 2002 (tese de doutorado).
  • REINA GUTIERREZ, Leonardo. Análisis fonológico, lengua Yujupde-Makú, Amazonas. Bogotá: Universidad de los Andes, 1986 (dissertação de mestrado).
  • RODRIGUES, Aryon Dall’Igna. Línguas Brasileiras – Para o Conhecimento das Línguas Indígenas. São Paulo: Edições Loyola, 1986.
  • SILVA, Cácio & SILVA, Elisângela. A Língua dos Yuhupdeh: Introdução etnolinguística, dicionário Yuhup-Português e glossário semântico-gramatical. São Gabriel da Cachoeira: Pró-Amazônia, 2012.
  • ______. Fonologia e ortografia Yuhup. Manaus: Pró-Amazônia, 2008.
  • ______. Análise Fonológica da Língua Yuhup. Manaus: Pró-Amazônia, 2007a.
  • ______. (orgs.). Yuhupdeh Diíd – A Língua dos Yuhupdeh. Caderno de Alfabetização e Proposta Ortográfica da Língua Yuhup. Manaus: Pró-Amazônia/APIARN, Julho de 2007b.
  • ______. A Escrita dos Yuhupdeh - O Registro Ortográfico de Uma Língua Indígena do Alto Rio Negro. Revista Antropos. Vl.1, Ano 1, Novembro de 2007c.