Imigração no Brasil

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Monumento Nacional ao Imigrante, em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul.

Imigração no Brasil refere-se ao conjunto de povos que imigraram para o Brasil ao longo de sua história. Ela deixou fortes marcas na demografia, na cultura e na economia do país. Um dos primeiros povos a ocupar o território que hoje forma o Brasil foram os índios, que são geneticamente de origem asiática.[1] Segundo a tese mais aceita, a sua chegada ao continente americano deu-se através do estreito de Bering, em data ainda controversa, mas durante a Idade do Gelo.[2] As estimativas quanto ao número de indígenas que existiam no Brasil à época do descobrimento do país por Portugal variam de 1,8 milhão a 6 milhões de indígenas.[3] John Hemming estimou o número de indígenas no Brasil, à época do descobrimento, em 3,2 milhões.[4] Em 1500, desembarcaram, no atual litoral brasileiro, os primeiros portugueses. Estima-se que, até o fim do período de dominação portuguesa, em 1822, entre 500 e 700 mil lusitanos se deslocaram para o Brasil.[5][6]

Em decorrência do tráfico negreiro, entre meados do século XVI até a sua extinção, em 1850, entre 4 e 5 milhões de africanos foram trazidos ao Brasil na condição de escravos,[7][8] o que torna o Brasil o país que mais recebeu africanos em toda a História.[9]

No século XIX, teve início a imigração de outros povos europeus para o Brasil, em particular da Itália, rivalizando numericamente com os portugueses, seguidos por fluxos de espanhóis e de alemães. No início do século XX, intensificou-se o fluxo migratório oriundo da Ásia, particularmente de japoneses e de sírio-libaneses.[10][11] A maior parte desses imigrantes foi destinada a plantações de café no estado de São Paulo,[12] embora muitos tenham tido, como destino, os centros urbanos, em particular São Paulo e Rio de Janeiro,[13] bem como colônias rurais no Brasil meridional.[14] Entre 1884 e 1959, entraram, no Brasil, 4 734 494 imigrantes, sendo 1 507 695 italianos e 1 391 898 portugueses,[3][15] entre 1820 e 1975 o Brasil recebeu 5.674.569.[16]

Na década de 1960, o Brasil deixou de ser um grande receptor de imigrantes, passando a ser um país expulsor de trabalhadores, a partir da década de 1980, sobretudo para os Estados Unidos, o Paraguai, a Europa e o Japão.[17] Essa tendência manteve-se constante até recentemente, uma vez que vem sendo observado o crescimento da imigração para o Brasil, em particular de países como a Venezuela, Portugal,[18] a Bolívia e o Haiti.[19]

Ocupação pré-cabralina

Índia guajajara e seu filho.

A tese mais aceita é que os povos indígenas das Américas são descendentes de caçadores asiáticos que cruzaram o Estreito de Bering passando da Sibéria para a América do Norte. Os mais antigos povoadores do atual território brasileiro chegaram há aproximadamente 12 mil anos. Contudo, foi encontrado, em Lagoa Santa (Minas Gerais), o crânio de uma mulher de traços negroides, batizada de Luzia, que viveu há 11 500 anos. Deste modo, alguns pesquisadores consideram provável que populações negroides também tenham vivido nas Américas, e que estas foram exterminadas ou assimiladas pelos povos mongoloides muitos séculos antes da chegada dos europeus.[20]

Estima-se que, no início da colonização portuguesa, cerca de quatro milhões de ameríndios viviam no atual território brasileiro.[21] Encontravam-se divididos em diversos grupos étnico-linguísticos: tupis-guaranis (região do litoral), macro-jê ou tapuias (região do Planalto Central do Brasil), aruaques (Amazônia) e caraíbas (Amazônia).[22]

Imigração no Brasil Colônia

O território nacional não foi imediatamente ocupado pelos europeus a partir do Descobrimento do Brasil em 1500. A colonização começou somente a partir de 1532. Antes disso, havia apenas feitorias nas quais o pau-brasil era armazenado esperando os navios que vinham da Metrópole. Apenas alguns degredados, desertores e náufragos haviam se estabelecido em definitivo no Brasil, vivendo e se miscigenando com as tribos indígenas.

Estimativa da imigração portuguesa para o Brasil-Colônia[23]
Período 1500-1700 1701-1760 1808-1817
Quantidade 100 000 600 000 24 000

A maior parte dos colonos que vieram para o Brasil não foram os degredados. Quem de fato promoveu a colonização inicial foram as famílias ricas de Portugal. Todavia, não havia uma hegemonia socioeconômica entre os colonos. Ao mesmo tempo em que houve um predomínio de 90% de famílias de classe alta nas zonas mais ricas, como Pernambuco e Bahia, nas regiões periféricas, como o Maranhão, a esmagadora maioria dos portugueses era pobre.[24]

Para efetuar a colonização, o rei de Portugal dividiu a colônia em capitanias hereditárias que foram entregues a nobres portugueses, denominados donatários. As tentativas de exploração dos ameríndios como escravos nas plantações e engenhos de cana-de-açúcar levaram a vários conflitos.[25] de modo que apenas duas capitanias hereditárias prosperaram: Pernambuco e São Vicente. Apesar disto, a presença portuguesa se consolidou no século XVI com a criação do Governo Geral do Brasil. Embora em número bastante reduzido, os colonos portugueses conseguiram ocupar o litoral e os ameríndios, perseguidos ou assolados por epidemias, foram migrando para o Sertão e a Amazônia. Aqueles que restaram foram escravizados, aculturados e se misturaram aos portugueses, formando uma população híbrida, mestiça, de mamelucos.[26]

No século XVI, desembarcaram, no Brasil, em torno de 50 mil portugueses e 50 mil africanos.[27]

O desenvolvimento da cultura de cana-de-açúcar faz crescer o número de escravos africanos desembarcados nas colônias portuguesas das Américas, vindos sobretudo de Angola e da Costa da Mina para o litoral do atual nordeste brasileiro. A imigração portuguesa continuou reduzida, tendo em vista que o Reino de Portugal não tinha população suficiente para mandar grande número de colonos para ocupar suas possessões nas Américas. A população se concentrou nas regiões litorâneas que formam as atuais regiões nordeste e sudeste do Brasil. O restante das possessões portuguesas nas Américas segue sem ocupação europeia, abrigando povos indígenas estabelecidos e também aqueles refugiados das regiões litorâneas.

Escravos em um porão de embarcação. Johann Moritz Rugendas, ca. 1810.

No século XVII, desembarcaram 550 mil africanos e 50 mil portugueses.

O desenvolvimento da mineração trouxe para o Brasil centenas de milhares de africanos, que foram escravizados na extração de ouro. Um fato novo foi, pela primeira vez na História da colônia, a vinda de um enorme contingente de colonos portugueses. Tal surto migratório deve-se a alguns fatores: Portugal e, em particular, a região do Minho, teve uma alta taxa de crescimento populacional e, em consequência, superpopulação. As notícias de que na colônia sul-americana estava ocorrendo a exploração da mineração serviu como esperança para milhares de portugueses que resolveram cruzar o Oceano Atlântico e se aventurar nas Minas Gerais.[28] A imigração de casais açorianos para o litoral do Sul do Brasil foi de fundamental importância para a demografia da região.[29]

No século XVIII, desembarcaram um milhão e 600 mil africanos e 600 mil portugueses no Brasil. O Brasil passou a possuir a maior população africana fora da África e a maior população lusitana fora de Portugal.

Entrada de escravos africanos no Brasil[30]
Período 1500-1700 1701-1760 1761-1829 1830-1855
Quantidade 510 000 958 000 1 720 000 618 000

O tráfico internacional de escravos da África subsaariana para o Brasil foi um movimento migratório, embora forçado. Seu início ocorreu na segunda metade do século XVI, e desenvolveu-se no século XVIII, atingiu seu ápice por volta de 1845 até ser bruscamente extinto em 1850.

O tráfico negreiro foi uma atividade altamente lucrativa e contou, até 1850, com amparo legal. Iniciou oficialmente em 1559, quando a metrópole portuguesa decidiu permitir o ingresso de escravos vindos da África no Brasil. Antes disso, porém, transações envolvendo escravos africanos já ocorriam no Brasil, sendo a escassez de mão de obra um dos principais argumentos dos colonos.

Imigração após a Independência

A vinda de mão de obra livre para o Brasil cresceu bastante, sobretudo na segunda metade do século XIX. Parte dessa imigração foi estimulada pelo governo brasileiro, e parte foi espontânea. A imigração estimulada envolvia o subsídio da passagem de navio dos imigrantes, que era pago pelo governo brasileiro. O subsídio às passagens foi criado em 1871, ainda no período imperial.[31][32][33] Com o advento da República, a oligarquia paulista, valendo-se de sua proximidade do poder, se apoderou da máquina pública federal, dando origem à política do café com leite, durante a qual intensificou-se a imigração estimulada.[34][35] Entre 1889 e 1930 (Primeira República Brasileira), ingressaram no país mais de 3,5 milhões de estrangeiros.[35] O subsídio à imigração internacional foi abolido em 1927.[31]

A maior parte da imigração subvencionada envolveu imigrantes que foram levados para as fazendas de café, sobretudo do estado de São Paulo, para substituírem a mão de obra escrava nas plantações dos cafeicultores. Esses imigrantes eram predominantemente italianos, espanhóis, portugueses e japoneses. A segunda modalidade de imigração subvencionada, menos numerosa, foi direcionada para a Região Sul, com predominância de italianos e alemães, que foram convertidos em pequenos proprietários rurais. Por sua vez, a imigração espontânea envolveu imigrantes que vieram para o Brasil sem terem sua passagem paga pelo governo brasileiro, como foi o caso da maioria dos portugueses e dos sírios-libaneses, e estes preferiam fixar-se nos grandes centros urbanos, como as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo.[36][31]

Os primeiros grupos de imigrantes não lusos e não africanos chegaram ao Brasil, de forma organizada, somente depois da abertura dos portos de 1808.

Excetuando os portugueses e alguns poucos estrangeiros que se tornaram súditos de Portugal, os primeiros imigrantes voluntários a vir para o Brasil após a abertura dos portos foram os chineses de Macau que chegaram ao Rio de Janeiro em 1808.[37][38] Cerca de 300 chineses de Macau foram trazidos pelo governo do príncipe regente (futuro rei D. João VI) com o objetivo de introduzir o cultivo de chá no Brasil. Eles tiveram importante participação na aclimatação de plantas feitas pelo recém-criado Jardim Botânico do Rio de Janeiro[37][38]

Entretanto, a mão de obra livre de imigrantes estrangeiros ainda era considerada dispensável pelos grandes fazendeiros. Na primeira metade do século XIX ainda desembarcaram no Brasil cerca de um milhão e 300 mil africanos subsaarianos, certamente o maior grupo de imigrantes recebido neste período.

Nova Friburgo durante sua colonização (1820-1830).
Ver artigo principal: Imigração suíça no Brasil

O primeiro movimento organizado, contratado pelo governo brasileiro, de imigrantes europeus foi a imigração suíça para a região serrana do Rio de Janeiro.[39] Em 16 de maio de 1818, o príncipe regente baixou um decreto autorizando o agente do Cantão de Friburgo, Sebastião Nicolau Gachet, a estabelecer uma colônia de cem famílias de imigrantes suíços. Entre 1819 e 1820, chegaram ao Brasil 261 famílias de colonos suíços, 161 a mais do que havia sido combinado nos contratos, totalizando 1 686 imigrantes. A sua maioria era composta de suíços de cultura e língua francesa. Os imigrantes estabeleceram-se na fazenda do Morro Queimado, situada na então vila de Cantagalo. A região era conhecida pelo seu clima ameno e relevo acidentado, o mais semelhante que poderia haver no Rio de Janeiro com a Suíça. Muitos dos imigrantes suíços logo abandonaram seus lotes e se dispersaram por toda a região serrana e centro-norte do estado do Rio de Janeiro, em busca de terras férteis e mais acessíveis.

O segundo movimento organizado foi de imigrantes alemães que também se estabeleceram na mesma região em 3 maio de 1824. A colônia de suíços e alemães originou a atual cidade de Nova Friburgo no Rio de Janeiro.

Carta do Banco Mauá a Inácio da Cunha Galvão comunicando a chegada de 35 italianos ao porto do Rio de Janeiro, em conformidade com o contrato estabelecido pelo governo imperial em 1874. O vapor Rivadavia foi o primeiro a transportar imigrantes subsidiados. Arquivo Nacional.

Desde a Independência do Brasil, diversas leis proibiram o tráfico internacional de escravos para o Brasil, mas foi somente com pressão militar e política da Grã-Bretanha e a atuação do ministro Eusébio de Queiroz a partir de 1850 que terminou o tráfico negreiro. O Brasil começou então a pensar em atrair imigrantes não portugueses. Nas fazendas, começou a se utilizar o colonato, uma forma de trabalho semiassalariado. O imigrante e sua família recebiam o salário misto, entre dinheiro e um pedaço de terra para plantar seu próprio sustento. As jornadas de trabalho exaustivas e a exploração por parte dos fazendeiros faziam os primeiros imigrantes deixarem as plantações de café e partirem para os centros urbanos, onde se dedicaram ao comércio e à indústria.

A dificuldade destes imigrantes europeus se adaptarem ao sertão do Oeste do Estado de São Paulo foi assim explicado pelo governador de São Paulo, Washington Luís, em sua mensagem ao Congresso do Estado de São Paulo (atual Assembleia Legislativa), em 1922:

Povoamento imigrante no sul

Após a independência, a imigração passou a fazer parte da política Imperial, pois o Sul do Brasil continuava sem a presença de aglomerados urbanos europeus que garantissem a soberania do Império do Brasil, mantendo o povoamento pelos diversos Povos indígenas do Brasil. Nesse contexto, o Império brasileiro passou a incentivar a implantação de núcleo de colonos imigrantes no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O incentivo governamental brasileiro à imigração européia ocorreu a despeito da disponibilidade de população negra no Brasil.[40]

Imigração alemã no sul

Ver artigo principal: Imigração alemã no Brasil
Oratório do Bosque Alemão, em Curitiba.

O Imperador do Brasil passou a se dedicar a ocupação das terras vazias do Sul do Brasil. Para cumprir essa tarefa, o governo brasileiro optou pela vinda de imigrantes. O Brasil acabara de se tornar independente de Portugal, portanto, os portugueses não podiam ser. A imperatriz do Brasil, Dona Leopoldina, era austríaca e, por essa razão, o Brasil optou por trazer imigrantes germânicos para o país. Os alemães tornaram-se os terceiros imigrantes europeus a se estabelecerem no Brasil, após os portugueses e os suíços que fundaram Nova Friburgo. Cidade esta, que também recebeu a primeira leva de imigrantes alemães em 3 de maio de 1824.

Outro grupo de colonos alemães aportou no Brasil em 1824. Foram recrutados pelo major Jorge Antônio Schäffer e encaminhados para o atual município de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Os colonos tiveram que construir suas próprias casas, receberam sementes para a plantação e gado para o sustento. De início, São Leopoldo não se desenvolveu. Porém, com a chegada de novos imigrantes, a colônia cresceu. A partir de São Leopoldo, os alemães desbravaram a região, seguindo o caminho dos rios. Em alguns anos, toda a região do Vale do Rio dos Sinos estava sendo ocupada pelos colonos germânicos. Em 1826, surgiu o primeiro curtume na região do vale. A seguir, foram construídos moinhos de trigo, uma fábrica de sabão, ferrarias, oficinas de lapidação de pedras, além de um número enorme de sapatarias (ainda hoje um dos maiores pólos da indústria calçadista do Brasil).

A colonização continuou a medida que os alemães, em sua maioria partindo de São Leopoldo, buscavam novas terras em lugares mais distantes. Essas colônias já não eram patrocinadas pelo governo, mas colônias privadas. Colônias antigas, como Novo Hamburgo, estabelecida pouco tempo depois de São Leopoldo, serviu de apoio para a criação de colônias mais novas, como São José do Hortêncio (1826),Estrela (1853), Lajeado (1853) e Teutônia (1868). Outras colônias, só foram criadas tempos depois, como Ijuí (1890), Sobradinho (1901) e Erechim(1908). Essas últimas colônias já não eram exclusivamente alemãs, pois agregavam imigrantes de outras nacionalidades. A imigração alemã no Rio Grande do Sul foi contínua. Entre 1824 e 1830 entraram no Rio Grande 5.350 alemães. Depois de 1830 até 1844 a imigração foi interrompida. Entre 1844 e 50 foram introduzidos mais dez mil, e entre 1860 e 1889 outros dez mil. Entre 1890 e 1914 chegaram mais 17 mil. Os protestantes formaram a maioria dessa corrente imigratória e igrejas luteranas foram estabelecidas nas colônias para atender aos fiéis. Porém, o número de católicos também era grande. Com o passar do tempo, a maior parte dos alemães e descendentes passaram a ser católicos.

Joinville, Santa Catarina
Arquitetura de origem germânica em Blumenau, SC

Em Santa Catarina, os primeiros colonos alemães aportaram em 1829, na atual cidade de São Pedro de Alcântara. Essa colônia fracassou. A grande colonização germânica no estado só ocorreu um pouco mais tarde, a partir de 1850. A colônia de Blumenau, no vale do Rio Itajaí-Açu, foi criada por Hermann Blumenau em 1850. Acompanhado por outros 17 alemães, Hermann achou um clima da região agradável, cortada pelo rio, propícia para a fundação de uma colônia. Em 1860, ele vende a colônia para o governo imperial e em 1880, Blumenau torna-se município, contando com 15.000 habitantes, em sua maioria alemães. Em 1851, inicia-se a colonização de outra região de Santa Catarina, a partir da fundação da Colônia Dona Francisca, atualmente Joinville. Entre 1850 e 1888, chegaram à região 17.000 colonos alemães, em sua maioria protestantes, agricultores sem recursos, comerciantes e artesãos. A partir dessa colônia, os alemães se expandiram e colonizaram todo o norte de Santa Catarina.

No Paraná, os alemães também marcaram forte presença em todas as regiões do estado. A primeira colônia foi fundada em 1829 em Rio Negro. Em 1855 alemães originários da Prússia fundam as Colônias de Terra Nova e Santa Leopoldina em Castro. Entre 1877 e 1879, chegou número apreciável de alemães vindos da Rússia (os alemães do Rio Volga, ver artigo: Alemães-Bessarábios).

A maior parte dos imigrantes chegou no início do século XX, vindos diretamente da Alemanha, e se estabeleceram sobretudo nas regiões leste e sul (em cidades como Curitiba, Ponta Grossa, Palmeira, Rio Negro, Ivaí, Irati, Cruz Machado, entre outras). Em meados dos anos 1950, pessoas oriundas de colônias alemãs em Santa Catarina e Rio Grande do Sul também migraram para a Região Oeste e Sudoeste do estado. Nesta mesma época Suábios da região do Rio Danúbio criaram Entre Rios, em Guarapuava, e imigrantes oriundos de Danzig ocuparam a região de Cambé e Rolândia, no Norte do estado.

Em Curitiba, os imigrantes alemães começaram a chegar, em maior número, a partir de 1833, e influenciaram fortemente a cultura e a economia local. Muitos casarões, alguns ainda existentes nos bairros São Francisco, Hauer, Pilarzinho, Lamenha Pequena e Vista Alegre, foram construídos por alemães. Para preservar a cultura germânica, os imigrantes organizaram-se em sociedades teuto-brasileiras, como o Clube Concórdia, Clube Rio Branco, Duque de Caxias, Clube Thalia, Graciosa Country Club e o Coritiba FC.

Hoje, a maior colônia de alemães Paranaenses está no município de Marechal Cândido Rondon, que guarda na fachada das casas, na culinária e no rosto de seus habitantes a marca da colonização.

Imigração alemã para o Brasil (1824-1969)[23]
Período 1824-47 1848-72 1872-79 1880-89 1890-99 1900-09 1910-19 1920-29 1930-39 1940-49 1950-59 1960-69
Quantidade 8 176 19 553 14 325 18 901 17 084 13 848 25 902 75 801 27 497 6 807 16 643 5 659

Imigração italiana para o sul

Ver artigo principal: Imigração italiana no Brasil
Casa de pedra em Nova Veneza: marco da colonização italiana.
Rio Grande do Sul

As primeiras colônias italianas do Sul do Brasil nasceram na Serra Gaúcha, entre os vales dos rios Caí e das Antas, limitando-se ao norte com os campos de Cima da Serra, e ao sul com as colônias alemãs do vale dos rios das Antas e Caí.

Os italianos foram atraídos para o Sul do Brasil com o intuito de substituir a colonização alemã, pois, na Alemanha, criara-se mecanismos para impedir a imigração para o Brasil, pois muitas denúncias contra essa imigração eram feitas, tendo em vista que muitos passavam privações no país. Os colonos alemães, assim que chegavam ao Rio Grande do Sul, rumavam para as colônias já estabelecidas, apartando-se de se aventurar nas matas fechadas das serras. Para ocupar as matas fechadas, optou-se pela vinda de imigrantes italianos.

No ano de 1875, foram criadas as colônias Conde D'Eu e Dona Isabel, atuais Bento Gonçalves e Garibaldi. No mesmo ano, criou-se a colônia Caxias (atualmente Caxias do Sul) e em 1877 Silveira Martins. A partir dessas quatro colônias, os italianos passaram a se expandir pelas região serrana.

Caxias do Sul tornou-se a colônia mais próspera da região, servindo de base para o surgimentos de diversas outras, como Mariana Pimentel (1888), Barão do Triunfo (1888), Vila Nova de Santo Antonio (1888), Jaguari (1889), Ernesto Alves (1890) e Marquês do Erval (1891). Ali plantavam produtos de subsistência, como o milho e o trigo. Mas o cultivo que marcou sua presença no Rio Grande do Sul foi a videira.

A maior parte desses imigrantes eram camponeses vindos do Norte da Itália, e se tornavam pequenos cultivadores no Brasil. Estima-se que do total de imigrantes que veio para o estado, 54% era de vênetos, 33% de lombardos, 7% de trentinos, 4,5% de friulanos e as outras regiões forneceram os restantes 1,5%. Calcula-se que, entre 1875 e 1914, entraram no estado entre 80 e 100 mil italianos.

Santa Catarina

Em Santa Catarina, imigrantes italianos vindos da Sardenha já habitavam a região de Nova Itália (hoje, São João Batista) desde 1836. Porém, a imigração só começaria de fato em 1875. Foram criadas as colônias de Rio dos Cedros, Rodeio, Ascurra e Apiúna, em torno da colônia alemã de Blumenau; Porto Franco (atual Botuverá) e Nova Trento, em torno da colônia Brusque. A colonização italiana se deu em maior expressividade no sul do estado, no vale do rio Tubarão, as colônias de Azambuja, Pedras Grandes e Treze de Maio: no vale do Urussanga, os núcleos de Urussanga, Acioli de Vasconcelos (atual Cocal) e Criciúma. Outras colônias foram criadas e ocupadas por italianos vindos do Rio Grande do Urussanga, Sul.

Paraná

No Paraná, os primeiros colonos italianos chegaram em 1878 e se fixaram no litoral, porém pouco tempo depois partiram para a região de Curitiba, fixando-se em diversas cidades. Neste estado, os italianos vieram principalmente trabalhar na produção do café.

Bosque do Papa, em Curitiba (PR). Reconstituição de residência dos primeiros imigrantes poloneses do estado.

Imigração eslava no sul

Arquitetura ucraniana no Parque Tingui, em Curitiba.

Os povos eslavos, em sua maioria poloneses, formaram a maior corrente imigratória no estado do Paraná.

Entre 1869 e 1920, estima-se que 60 000 poloneses entraram no Brasil, dos quais 95% estabeleceram-se no Paraná, nas colônias de Mallet, Cruz Machado, São Mateus do Sul, Irati e União da Vitória e na região de Curitiba. Em menor quantidade, rumaram para o interior dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Os ucranianos também rumaram em sua maioria para o Paraná e colonizaram a região de Prudentópolis.

Imigrantes russos também vieram, mas em pouca quantidade.[41][42]

Os imigrantes eslavos se dedicaram principalmente à agricultura com plantações de milho, feijão, repolho, batata etc. Difundiram o uso do arado e de outras técnicas agrícolas no Paraná. Trouxeram consigo um modelo de carroça tipicamente eslava, utilizada até hoje no Paraná para o transporte de materiais e de produção agrícola.

Substituição da mão de obra escrava em São Paulo

Capa da revista "O Imigrante", 1908.
Porto de Santos, porta de entrada de milhões de imigrantes que foram para as plantações de café.

O momento mais importante da história da imigração no Brasil iniciou-se no fim do século XIX. Este processo imigratório, incentivado pelo governo e pelos senhores do café, objetivava utilizar trabalhadores europeus nas plantações de café. O estado de São Paulo foi a principal região de atração de imigrantes no Brasil (57% do total dos estrangeiros entrados no país).[36]

Entre 1820 e 1903, desembarcaram no Brasil cerca de um milhão e 140 mil italianos, 549 mil portugueses, 212 mil espanhóis e 89 mil alemães.[43] Em números menores, pessoas de todos os cantos da Europa.

A imigração continuou alta durante o início do século XX diminuindo após a década de 1930.

Entraram nesse período diversos grupos de imigrantes no Brasil, dos mais numerosos, entre 1904 e 1972, desembarcaram um milhão e 240 mil portugueses, 505 mil espanhóis, 484 mil italianos, 248 mil japoneses e 171 mil alemães.[43] Em números menores, pessoas de todos os cantos da Europa. Os imigrantes passam a compor a maior parte dos operários nas fábricas e primeiras indústrias brasileiras.[44]

Por que não a mão de obra brasileira?

Durante a segunda metade do século XIX, a grande maioria da população brasileira era composta por pessoas livres. A porcentagem de escravizados oscilou de 21,66% da população, em 1854, a 5,23%, em 1887, conforme a tabela abaixo:

População Livre e Escrava no Brasil[31]
Ano Livres Percentagem Escravos Percentagem
1854 6.016.842 78,34% 1.663.110 21,66%
1872 8.419.672 84,79% 1.510.806 15,21%
1887 13.121.226 94,77% 723.418 5,23%

Muito embora os escravos fossem uma minoria da população, a sua mão de obra estava muito concentrada nas produções agrícolas mais lucrativas para a economia brasileira da época: o açúcar no Nordeste e o café no Sudeste. Segundo o censo de 1872, 81% da população da província de São Paulo era livre,[31] mas apenas 7,5% da força de trabalho na atividade cafeeira também o era, na década de 1860.[45]

A entrada de escravos africanos no Brasil foi extinta bruscamente em 1850, com a Lei Eusébio de Queirós. Porém, naquela altura, a produção de açúcar no Nordeste estava em declínio, enquanto as fazendas de café estavam em franca expansão no Sudeste. Em consequência, milhares de escravos foram transferidos do Nordeste para as fazendas de café do Sudeste, nas décadas seguintes.[31]

Mesmo com a abolição do tráfico negreiro em 1850, o uso da mão de obra escrava nas fazendas de café do Sudeste continuava tecnologicamente satisfatório e lucrativo (a taxa de retorno com o investimento na compra de escravos pouco oscilou entre 1870 e 1881). Em 1881, os preços dos escravos (que refletiam a expectativa sobre o fim da escravatura) indicavam que a escravidão duraria no Brasil até 1910, porém seu fim ocorreu em 1888, o que demonstra que as pressões políticas do abolicionismo foram determinantes para o seu fim, e não uma ineficiência econômica dos escravos.[46]

Com o avanço do movimento abolicionista, os cafeicultores perceberam que a escravidão seria abolida antes do que eles esperavam. Em 1878, dez anos antes da Abolição da Escravatura, o Congresso Agrícola realizado no Rio de Janeiro reuniu cafeicultores para discutir a questão da mão de obra. Optou-se por pressionar o governo a fim de facilitar a vinda de imigrantes europeus.[47]

A classe dominante paulista passou a incentivar a entrada maciça de imigrantes europeus sob o argumento de que havia escassez de mão de obra com o fim da escravidão. Por muito tempo, a historiografia brasileira, de um modo geral, aceitou esse argumento sem fazer maiores questionamentos.[12] Contudo, segundo o historiador Petrônio Domingues, não havia escassez de mão de obra na São Paulo de finais do século XIX. Domingues calculou que havia no Brasil, naquela época, cerca de 4 milhões de brasileiros ociosos, entre negros e não negros. Entre 1851 e 1900, entraram, no Brasil, 2 milhões de imigrantes, ou seja, metade do total de nacionais fora do mercado de trabalho. Não existiria, portanto, uma real necessidade de atrair esse contingente de imigrantes para o país, pois os próprios brasileiros poderiam ter suprido a demanda.[12] Ele argumenta que, pautado somente pelo critério custo/benefício, teria sido mais vantajoso aos fazendeiros paulistas ter contratado trabalhadores vindos do Nordeste do Brasil que, quando requisitados, migraram em massa para trabalhar nos seringais da Amazônia, entre 1876 e 1914.[12]

De fato, os dados de 1887, um ano antes da abolição da escravatura, mostram que havia abundância de mão de obra livre no Brasil, com 13.121.226 pessoas livres (94,77% da população) e 723.418 escravizados (5,23%).[31] Todavia, diferentes autores explicam que muitos brasileiros, sejam livres, sejam ex-escravos, simplesmente não queriam ser empregados nas fazendas de café, pois consideravam ser "trabalho de escravo". Segundo Jorge Balán, "os trabalhadores livres ou os escravos libertos se recusavam a trabalhar como assalariados ao lado de escravos, preferindo a miséria à desqualificação social que isso implicava".[48] De acordo com Emília Viotti da Costa, o trabalhador brasileiro "tinha acesso à terra, de onde retirava o necessário à sua subsistência e recusava-se a trabalhar regularmente nas fazendas. Só o faria se a isso fosse forçado".[49] O antropólogo Darcy Ribeiro também explicou que, mesmo havendo no Brasil milhões de pessoas desocupadas, havia um estigma em trabalhar nas fazendas de café: "Mesmo depois de abolida a escravidão (1888), permanece esse critério valorativo, que considera humilhante o trabalho com horário marcado por toque de sino e dirigido por um capanga autoritário".[5]

Por que a mão de obra europeia?

Entre os anos de 1847 e 1857, foram feitas tentativas de introduzir a mão de obra livre nas fazendas de café, quando o senador Nicolau de Campos Vergueiro trouxe centenas de famílias de imigrantes europeus para trabalharem nas suas propriedades, no interior de São Paulo. Porém, o projeto não deu certo, pois os imigrantes revoltaram-se em 1856, em resposta às péssimas condições de trabalho nas fazendas, no episódio conhecido como Revolta de Ibicaba.[50] Em consequência, o projeto foi abandonado e a mão de obra escrava predominou nas fazendas de café nas décadas seguintes.[45]

Na década de 1880, com o avanço do movimento abolicionista, os cafeicultores perceberam que a abolição da escravatura ocorreria nos próximos anos. A partir de 1881, cresceu o pessimismo dos proprietários sobre o futuro do escravismo e o preço dos escravos despencou no mercado.[46] Ao mesmo tempo, pululavam os debates públicos sobre como substituir a mão de obra escrava nas fazendas de café,[51] produto este que representava mais de 60% da pauta de exportações brasileiras, na década de 1880.[46]

A população livre brasileira, incluindo os ex-escravos, estava dispersa no extenso território nacional, muitas vezes sobrevivendo de forma precária da agricultura de subsistência. Mesmo assim, muitos brasileiros se negavam a trabalhar nas fazendas de café, pois esse ofício era estigmatizado como "trabalho de escravo".[48][5][49] Ao mesmo tempo, as fazendas de café expandiam-se rapidamente pela região Sudeste, necessitando de um número cada vez maior de trabalhadores, tornando-se urgente encontrar uma solução para a crise na mão de obra.[45] Assim, pareceu mais viável estimular a vinda de trabalhadores estrangeiros do que criar uma rede de migrações internas de brasileiros para os cafezais.[36] No final do século XIX, milhões de europeus estavam dispostos a emigrar para outros países para fugir dos problemas socioeconômicos que afligiam a Europa, o que estimulou uma maciça imigração europeia não apenas para o Brasil, mas para diversos outros países. [52]

Dada essa conjuntura, optou-se pela atração de mão de obra estrangeira, sobretudo europeia, por meio de uma imigração significativamente subsidiada pelo governo federal e pelo estado de São Paulo, que pagavam a passagem de navio dos imigrantes.[31][53] A imigração subsidiada foi essencial para a manutenção da economia cafeeira na primeira década após a abolição da escravatura. Muitos dos imigrantes que vinham por conta própria para o Brasil não iam trabalhar nas fazendas de café, pois eram artesãos ou trabalhadores industriais que se estabeleciam nos centros urbanos.[54] Por sua vez, os imigrantes subsidiados já vinham recrutados para trabalhar com o café. A seleção era rigorosa: apenas famílias tinham direito ao subsídio, somente adultos recebiam a passagem integral e dava-se preferência a pessoas em idade de trabalhar. Ao chegarem pelo porto de Santos, quase todos os imigrantes subsidiados eram levados até a Hospedaria de Imigrantes, construída em 1886, onde ficavam alojados e recebiam a visita de fazendeiros vindos de todo o interior paulista. A Hospedaria funcionava como uma espécie de "prisão", de onde os imigrantes só tinham autorização para sair após terem assinado um contrato de colonato com algum fazendeiro. A Hospedaria tinha capacidade para abrigar quatro mil pessoas, mas chegou a receber dez mil de uma só vez, e os imigrantes eram muitas vezes "tratados como gado".[53][54]

Do ponto de vista econômico, a imigração subsidiada foi vantajosa para São Paulo, porquanto os gastos estaduais com transporte de imigrantes foram muito pequenos em relação às receitas obtidas com as exportações de café. Entre 1892 e 1930, as receitas obtidas pelo estado com as exportações de café foram quase dez vezes maiores que suas despesas com transporte de imigrantes (ressaltando-se, contudo, que os gastos com a vinda desses imigrantes foram majoritariamente federais). Desse modo, os cafeicultores paulistas acabavam se tornando seus próprios avalistas em nível estadual, conforme se depreende da tabela abaixo:[54]

Receitas dos impostos do estado de São Paulo

comparadas às receitas dos impostos de exportação sobre o café e às despesas com a imigração (valores em contos de réis) [55]

Período Receita total dos impostos Receita dos impostos sobre

a exportação de café

Participação das receitas do café na receita total Despesas do

estado com programas de imigração

Proporção das despesas com imigração na receita total
1892-1930 3.304.988 1.650.151 50% 172.442 5,2%

A imigração subsidiada predominou em São Paulo até meados da década de 1900, quando a maioria dos que chegaram passou a ser de imigrantes espontâneos:

Imigrantes subsidiados entrados em São Paulo[56]
Anos Imigrantes entrados Subsidiados Percentagem de subsidiados
1890-1899 735.076 596.004 81%
1900-1909 388.708 164.384 42%
1910-1919 480.509 186.383 39%
1920-1930 752.080 181.732 24%

O fomento imigracionista surgia não apenas como solução para resolver a escassez de mão de obra na agricultura, mas também para proporcionar o branqueamento da população brasileira com a entrada maciça de brancos europeus no país. Para justificar a importação em massa da força de trabalho europeia, a classe dominante difundia a ideia de que os europeus eram culturalmente superiores aos brasileiros.[12] A imagem fabricada de um imigrante europeu culto, exímio profissional, qualificado para exercer qualquer serviço na agricultura ou na indústria, ao lado da imagem do brasileiro e, sobretudo, do negro, como um imprestável responsável pelo atraso do país, servia para legitimar a atração do branco europeu.[12]

Contudo, o projeto do branqueamento foi um elemento secundário da política imigratória brasileira. O objetivo principal da imigração era garantir que as fazendas de café não fossem prejudicadas pela escassez de mão de obra, haja vista que a saúde financeira do Estado brasileiro dependia significativamente das exportações de café, além do fato de que os cafeicultores detinham grande poder econômico e político na época.[36][31][57][58] De fato, muitos produtores de café pouco importavam com a procedência nacional dos seus trabalhadores e a obsessão com imigrantes brancos nunca foi uma unanimidade no Brasil. Na década de 1890, chegou-se a ensaiar a vinda de imigrantes chineses para o Brasil, mas o projeto foi abandonado por dificuldades nas relações diplomáticas entre o Brasil e a China e o rompimento da guerra contra o Japão. Também havia grupos que defendiam a vinda de coolies e imigrantes indianos.[59][57][60] Apesar do preconceito com os asiáticos existente no país, isso não impediu que imigrantes japoneses começassem a vir para o Brasil, a partir de 1908.[31] Contudo, cerca de 80% da imigração para o Brasil nesse período foi oriunda da Europa mediterrânea, sobretudo italianos (35% do total), portugueses (28%) e espanhóis (14%), seguidos dos alemães (4%) e dos japoneses (3,5%). De qualquer maneira, a predominância de imigrantes europeus de fato aliava-se ao projeto de "branqueamento" da sociedade brasileira.[36]

Não eram somente considerações de caráter étnico que estiveram por trás do estímulo à imigração europeia: a população brasileira era no geral muito pequena, para um território muito grande.[61] Ademais, a vinda de mão de obra assalariada, assim se esperava, proporcionaria desenvolvimento às cidades e ao comércio, a geração de serviços de infraestrutura, com desenvolvimento para o país.[61]

Nos anos antecedentes à abolição da escravatura (1888) até 1902, a imigração para o Brasil foi dominada pelos italianos. Isso não ocorreu porque os italianos eram os preferidos dos cafeicultores, mas sim pela junção de diferentes fatores econômicos. Entre 1880 e 1896, a Itália passou pela maior crise econômica da sua história, com um declínio das atividades agrícolas e industriais, e milhares de italianos passaram a migrar para outros países. No início da década de 1890, a Argentina e os Estados Unidos, países que recebiam muitos imigrantes italianos, entraram em recessão econômica, ao passo que a economia cafeeira se expandia no Brasil. O sofrimento dos italianos representou a "sorte" dos cafeicultores brasileiros, que encontraram na Itália a sua maior fonte de mão de obra. Contudo, em 1902, em resposta às péssimas condições de trabalho nas fazendas de café, o governo italiano editou o Decreto Prinetti, que proibiu a imigração subsidiada de italianos para o Brasil. Os cafeicultores brasileiros estavam acostumados a lidar com escravos, e não com trabalhadores livres, o que gerava diversas reclamações e denúncias por parte dos imigrantes. A partir de então, o Brasil teve de procurar novas fontes de trabalhadores em Portugal e na Espanha.[53][31][62][63]

Nacionalidade dos imigrantes entrados no Brasil[53]
Anos Italianos Portugueses Espanhóis Outros
1884-1893 57,8% 19,3% 11,7% 11,2%
1894-1903 62,4% 18,2% 11,8% 7,6%
1904-1913 19,5% 38,2% 22,3% 20%

A substituição da mão de obra escrava na lavoura pela imigrante, estimulada e subsidiada pelo governo brasileiro, foi um fenômeno eminentemente paulista e, em particular, do Oeste Paulista. Nas outras regiões brasileiras que receberam significativo número de imigrantes, a imigração não estava diretamente relacionada com a substituição de trabalhadores escravos, com exceção de Minas Gerais, mas ali a imigração foi pouco volumosa. Na segunda região que mais recebeu imigrantes no Brasil, que foi o Rio de Janeiro, a imigração foi predominantemente espontânea, urbana e portuguesa, sem incentivos do governo brasileiro. Já a imigração para o Sul foi voltada para ocupação de terras com pequenos proprietários estrangeiros, também sem uma vinculação direta com a substituição da mão de obra escrava.[57][64][14][36][65]

Muito embora tenha sido significativo o número de imigrantes entrados no Brasil (mais de 4 milhões de imigrantes entre 1872 e 1929), as taxas de retorno para os países de origem também eram grandes. Assim, os estrangeiros nunca formaram uma grande parcela da população do Brasil, pois nunca ultrapassaram os 6% da população total, conforme tabela abaixo:[31]

População do Brasil total e estrangeira.[64]
Ano População total Estrangeiros Percentagem de estrangeiros
1872 10.112.061 383.459 3,84%
1890 14.333.915 351.545 2,45%
1900 17.433.434 1.074.511 6,16%
1920 30.635.605 1.565.961 5,11%
1940 41.169.321 1.406.342 3,42%

Razões e consequências da imigração estrangeira

Para Lúcio Kowarick, o incentivo à imigração europeia deu-se por razões estritamente econômicas. O excesso na oferta de trabalhadores permitiu aos empregadores manter os salários em níveis baixos, favorecendo a dominação da classe subalterna pela elite e ainda minando a organização política dos trabalhadores.[66]

Mapa de 1886 usado para promover a imigração no estado de São Paulo

Michael M. Hall dá a mesma explicação. Os cafeicultores paulistas estimularam a imigração estrangeira para aumentar seus lucros. Um fluxo contínuo de trabalhadores europeus conseguiu manter o salário baixo. Entre 1880 e 1896, foram registrados altos preços do café e elevada lucratividade para os cafeicultores, mas a recíproca não foi a mesma, pois a renda real dos imigrantes declinou de 1884 a 1914.[45]

A imigração estrangeira também teve papel fundamental para o desenvolvimento econômico do Brasil, não apenas no meio rural, como no urbano, com destaque para a industrialização. De acordo com o censo de 1920, cerca de 68% das indústrias em São Paulo pertenciam a imigrantes italianos, por exemplo.[57]

Nenhum estado colocou em prática o projeto de imigração com tanta veemência como São Paulo. No ano de 1900, 44,5% dos 1.074.511 imigrantes que viviam no Brasil moravam nesse estado.[67] Segundo estudos, a chegada de tantos imigrantes empurrou sobretudo negros e mulatos para os empregos subalternos em São Paulo,[68] fato que também ocorreu, em menor escala, no Rio de Janeiro.

A mão de obra predominantemente estrangeira se concentrou sobretudo no Oeste Paulista. Nas regiões cafeeiras de Minas Gerais e do Rio de Janeiro, a maioria dos trabalhadores eram brasileiros. É comum afirmar-se erroneamente que a abolição da escravidão em 1888 desencadeou a falta de mão de obra nas lavouras pois os escravos libertos saíram das fazendas para procurar trabalho nas cidades. Isto aconteceu em pequena escala e somente no vale do Paraíba do Sul, onde a lavoura cafeeira estava em rápida decadência de produção. Vários fazendeiros perceberam que o fim da escravidão era inevitável e fizeram acordos com os escravos, nos quais estes eram alforriados, mas se comprometiam a ficar trabalhando na mesma fazenda, com direito a pequenos salários ou em regime de colonato.[69]


Mão de Obra Italiana

Italianos no porto a espera da chance de entrar no navio.
Ver artigo principal: Imigração italiana no Brasil

A mão de obra italiana foi a mais usada durante o ciclo do café no Brasil. Os italianos passaram a imigrar em larga escala pois, a maioria sendo camponesa, não tinham acesso às terras na Itália. Com a esperança de se tornarem proprietários de terras, imigravam para o Brasil. Mas chegando aqui, apenas aqueles que eram encaminhados para o Sul do país tornaram-se proprietários, enquanto a massa que foi mandada para as fazendas de café iam trabalhar nas plantações de terceiros.

Com o fim da escravidão, iniciou-se a entrada de centenas de milhares de italianos no Brasil. Entre 1870 e 1920, momento áureo do largo período denominado como da "grande imigração", os italianos corresponderam a 42 por cento do total dos imigrantes entrados no Brasil, ou seja, em 3,3 milhões de pessoas, os italianos eram cerca de 1,4 milhão.

Mão de Obra Espanhola

Ver artigo principal: Imigração espanhola no Brasil

Embora a colheita do café tenha sido marcada pelo largo uso da mão de obra de imigrantes italianos, os espanhóis tornaram-se o segundo maior grupo a trabalhar nos cafezais. A imigração espanhola no Brasil iniciou-se na década de 1880. No início do século XX, a imigração de italianos para o Brasil passou a arrefecer, então o governo brasileiro passou a atrair maior contingente de espanhóis, mandando-os para trabalhar nas colheitas de café. Mais de 750 mil espanhóis desembarcaram no Brasil entre 1880 e 1950, a maior parte rumou para os cafezais paulistas.

Mão de Obra Japonesa

Cartaz japonês promovendo a imigração ao Brasil.
Ver artigo principal: Imigração japonesa no Brasil

Em 1902, o governo da Itália proibiu a imigração subsidiada de italianos para São Paulo. As fazendas de café passaram a sentir a falta de trabalhadores com a diminuição drástica da chegada de imigrantes italianos. Apesar do nítido preconceito contra imigrantes asiáticos, a partir de 1908, o governo brasileiro passou a aceitar a entrada de imigrantes japoneses.

Nos primeiros sete anos, vieram mais 3.434 famílias (14.983 pessoas). Com o começo da I Guerra Mundial (1914), explodiu a imigração: entre 1917 e 1940, vieram 164 mil japoneses para o Brasil. 75% foram para São Paulo, visto que o estado concentrava a maior parte dos cafezais.

Imigração urbana

Grande parte dos imigrantes que chegaram ao Brasil na virada do século XX rumaram para as cidades. Alguns grupos de imigrantes tinham predileção pelos centros urbanos, em particular os portugueses. Essa leva de imigração trouxe para o Brasil gente pobre proveniente das regiões do norte e nordeste de Portugal, em particular do Minho, do Douro e de Trás-os-Montes. Enquanto os italianos concentraram-se sobretudo na lavoura cafeeira, os portugueses concentravam-se nas atividades do pequeno comércio ou ingressavam nas fileiras de operários que se formavam no Rio de Janeiro e em São Paulo.[13]

Imigrantes italianos numa fábrica de São Paulo.

Na mesma altura em que chegavam ao Rio de Janeiro as massas de portugueses, a cidade também recebia grande número de ex-escravos recém-saídos do cativeiro, bem como de migrantes nordestinos fugindo dos flagelos da seca. Assim, coexistiam no tecido urbano do Rio de Janeiro esses três grupos (libertos, nordestinos e estrangeiros), ajudando a criar os conflitos urbanos que marcaram a cidade no início do século XX. Longe de corresponder ao imaginário de "branco superior" idealizado pela elite brasileira, os imigrantes europeus tinham precária qualificação profissional, laços familiares enfraquecidos e desconheciam os códigos urbanos. Assim, eles vieram engrossar a população pobre que se concentrava no Rio de Janeiro ou em São Paulo.[13]

Os estrangeiros que se fixaram nos centros urbanos encontraram um ambiente bem mais hostil do que aqueles que rumaram para as zonas rurais. Enquanto as regiões agrícolas eram enormes e era fácil encontrar emprego, nos centros urbanos a competição no mercado de trabalho se mostrava mais acirrada. Em consequência, os imigrantes eram vistos pelos brasileiros como competidores no mercado de trabalho e eram frequentemente vítimas de agressividade e xenofobia por parte dos brasileiros, como foi o caso dos portugueses no Rio de Janeiro e dos italianos em São Paulo.[70] Contudo, à medida que os imigrantes percebiam que nas fazendas a exploração do trabalho e os pequenos salários não eram interessantes, cada vez mais pessoas rumavam para os centros urbanos.[14]

Chegando em um momento em que havia a transição do trabalho escravo para o assalariado, os imigrantes conseguiram monopolizar amplos setores produtivos no tecido urbano de São Paulo, do Rio de Janeiro e de outras capitais menores. Muitos começavam como mascates e, reunindo algum pecúlio, abriam sua própria loja. A presença de imigrantes entre o proletariado era maciça nos dois principais centros urbanos brasileiros. O Brasil começou um processo de industrialização na década de 1890 e muitos imigrantes, em grande parte mulheres e crianças, foram empregados nas fábricas nascentes.[71]

Em 1901, 90% dos operários em São Paulo eram estrangeiros e, em 1906, eles eram 44% no Rio de Janeiro. A situação de miséria vivida por esses estrangeiros era evidente nos bairros populares do Brás, Barra Funda e Bela Vista, na capital paulista, onde se concentravam os italianos. Em 1904, cerca de 30% da população de São Paulo morava em cortiços, onde viviam amontoadas uma média de seis a dez pessoas, uma vez que os operários não tinham condições de arcar com os custos de outras moradias melhores. Nos bairros habitados por europeus em São Paulo, as ruas estavam sempre cobertas de lama, o esgoto corria a céu aberto, a água consumida era frequentemente contaminada, a higiene não existia e o mau cheiro tornava o ar irrespirável.[14]

A competição pelo lucro nas fábricas era feita por meio da redução dos custos de produção, com grande exploração da força de trabalho, o que fomentou a união e a luta dos trabalhadores em busca dos seus direitos trabalhistas. O Brasil, outrora uma sociedade escravagista de difícil mobilidade social, transformava-se numa sociedade de classe moderna, baseada no trabalho assalariado. Os principais grupos de imigrantes (italianos, portugueses e espanhóis) já tinham na Europa um contato muito próximo com os movimentos socialistas, anarquistas e sindicalistas. Muitos dos imigrantes eram ligados a círculos anarquistas em suas cidades natais e trouxeram para o Brasil suas ideias. Com o passar do tempo, essa mentalidade foi se espalhando pelas fábricas e contando com o apoio dos demais operários estrangeiros e brasileiros, que promoviam greves em busca de melhores condições de trabalho. Não por acaso, a maioria dos grandes líderes sindicais do Brasil do começo do século XX eram de nacionalidade italiana.[72]

A miséria inicial dos imigrantes no Brasil também refletia-se no envolvimento regular de europeus no mundo do crime no tecido urbano brasileiro. Esses homens e mulheres, emigrando em situação de pobreza, em muitos casos permaneceram pobres, quando não miseráveis. A passagem de um ambiente rural para o urbano, conduzindo à quebra dos vínculos familiares e à precariedade do trabalho, levavam muitos estrangeiros a terminarem seus dias na mendicância e vadiagem ou a abraçarem a criminalidade como forma de vida. Com o decreto nº 1 641 de 7 de janeiro de 1907, que regulamentava a entrada e expulsão de estrangeiros, observou-se o crescente número de expulsões de estrangeiros do país em decorrência de práticas criminosas.[73]

Se é bem verdade que a maioria dos imigrantes, especialmente os recém-chegados, eram absorvidos nos níveis mais baixos da estrutura ocupacional urbana brasileira, por meio de sucessivas mudanças ocupacionais e em decorrência da preferência dos empregadores, eles experimentaram uma rápida e ascendente mudança social.[74] Essa ascensão social não foi acompanhada pelo resto da população brasileira, em particular os negros e mulatos que, embora inicialmente no mesmo nível social dos imigrantes, tenderem a continuar pobres.[68]

Sírios, libaneses e armênios

Sírio-Libanês: um dos hospitais mais importantes do Brasil
Ver artigo principal: Imigração árabe no Brasil

Os imigrantes árabes começaram a desembarcar no Brasil em fins do século XIX. No início do século XX, esse fluxo imigratório cresceu e passou a se tornar importante desembarcando no Brasil cerca de 70 mil árabes. Em sua maioria, eram comerciantes sírios e libaneses que se tornaram mascates no Brasil, percorrendo as grandes cidades e as fazendas do interior para vender seus produtos. Com o passar do tempo, passaram a fundar pequenas lojas de comércio (armarinhos) nos centros urbanos e prosperaram. Ficaram conhecidos como "turcos", pois, no início da imigração, sírio-libaneses eram cidadãos (árabes) do Império Turco-Otomano.

Esse grupo se destacou, uma vez que, dotados de um espírito empresarial, esses imigrantes logo prosperaram, se tornando atacadistas e grandes industriais, especialmente do ramo varejista. É notável a presença de descendentes de libaneses e sírios na medicina e na política.

O fluxo de imigrantes sírio-libaneses também foi acompanhado por armênios que viviam em regiões próximas.

Chineses e coreanos

Templo budista Zu Lai, em Cotia (SP)

A medida que cessava do fluxo de imigrantes japoneses, aumentou o fluxo de imigrantes oriundos de territórios que tinham pertencido ao Japão como chineses de Taiwan e coreanos. É interessante notar que estes imigrantes que chegavam no Brasil nas décadas de 1960 e 1970 eram pessoas que tinham aprendido a falar fluentemente japonês nas escolas durante o período de ocupação japonesa.

Chineses e coreanos geralmente dedicaram-se ao pequeno comércio das grandes cidades, especialmente São Paulo.

Imigrações recentes

Na década de 1960, o Brasil deixou de receber grandes levas de imigrantes. Os portugueses, que eram os únicos que ainda imigravam em massa para o Brasil, passaram a deslocar-se preferencialmente para outros países da Europa.[75] Na década de 1970, houve algum fluxo de imigrantes entrando no Brasil, vindo principalmente da Coreia do Sul, China, Bolívia, Peru, Paraguai e de países africanos. Esses imigrantes, porém, já não tinham o impacto demográfico que tiveram as outras imigrações mais antigas no Brasil.[76]

Pessoas autorizadas a trabalhar no Brasil oriundas de países sul-americanos em 2009.
  555 a 399 pessoas.
  398 a 237 pessoas.
  236 a 102 pessoas.
  101 a 2 pessoas.

Na década de 1980, considerada a década perdida na América Latina, com desemprego em alta e inflação galopante,[77] o Brasil tornou-se um país de emigração, no qual mais saíam pessoas do que entravam.[78]

Nos últimos anos, contudo, o número de imigrantes no Brasil tem crescido de forma robusta. Segundo dados da Polícia Federal, 1 847 274 estrangeiros residiam no Brasil em março de 2015. Desses, 1 189 947 eram "permanentes"; 595 800 "temporários"; 45 404 "provisórios"; 11 230 "fronteiriços"; 4 842 "refugiados" e 51 "asilados". Três fatores explicam o aumento da imigração para o Brasil: o declínio da taxa de crescimento populacional brasileira, que abre espaço no mercado de trabalho para os estrangeiros; as barreiras impostas nos países desenvolvidos à entrada de imigrantes, o que desloca a migração Sul-Norte para um padrão Sul-Sul e a ampliação da presença de empresas brasileiras no exterior, fazendo com que estrangeiros passem a ver o Brasil como um país de oportunidades.[79]

Festejos de carnaval da comunidade boliviana de São Paulo
Imigrantes do Haiti em alojamento improvisado em Brasileia, no Acre.

O aumento no número de estrangeiros no Brasil vem sendo acompanhado por certa oposição de parcela da sociedade e da mídia. A despeito disso, segundo a socióloga Patricia Tavares, os imigrantes estão chegando e sendo contratados e "trazendo ao país um conhecimento que o brasileiro muitas vezes ainda não possui".[79] Segundo o ex-ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Marcelo Neri, o Brasil precisaria absorver pelo menos seis milhões de profissionais estrangeiros para suprir a carência de mão de obra qualificada que existe no país, carência essa que compromete seriamente o desenvolvimento da economia brasileira. Os imigrantes compõem apenas 0,9% da população brasileira, quando a média mundial é de 3%,[80] sendo maior em países como Alemanha (9%),[81] Estados Unidos (13,6%) ou Austrália (25%).[82]

A legislação imigratória brasileira é considerada a segunda mais rígida e burocrática do mundo, depois da China. Isso dificulta a entrada de uma mão de obra mais qualificada no país. No primeiro semestre de 2011, 50 mil portugueses iniciaram trâmites para adquirir um visto de residência no Brasil,[83] porém somente 1.564 imigrou de fato para o país.[84] Segundo uma pesquisa da Secretaria de Assuntos Estratégicos, 73,7% dos brasileiros são a favor da chegada de estrangeiros com elevada qualificação profissional, ao passo que 74,3% são contrários a imigrantes sem documentação.[85]

Dentre os fluxos migratórios recentes no Brasil, destacam-se os imigrantes bolivianos, que são empregados nas pequenas indústrias de roupas de São Paulo, em geral propriedade de imigrantes coreanos.[86] Muitos bolivianos vivem no Brasil sem documentação e são explorados e submetidos a jornadas exaustivas de trabalho. O embaixador Jerjes Justiniano estimou que pode haver entre 50 e 100 mil bolivianos trabalhando em situação análoga à de escravo no Brasil.[87] Imigrantes colombianos também cruzam a fronteira aos milhares, fugindo do conflito armado na Colômbia.[88]

A presença brasileira na Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti, a partir de 2004, ampliou as relações entre os dois países e uma das consequências foi o aumento da imigração haitiana no Brasil. A rota aberta pelos haitianos no Acre é muito usada desde 2008 por imigrantes do Senegal, que se deslocam em especial para o Rio Grande do Sul.[89]

Devido à diáspora bolivariana, em 2017 mais de 40 000 novos refugiados venezuelanos procuraram abrigo somente em Boa Vista, no estado de Roraima, no norte do país, causando assim uma crise de refugiados venezuelanos no Brasil.[90]

Em junho de 2019, relatório da ONU aponta que o Brasil é o sexto maior receptor de pedidos de refugio atrás apenas de Estados Unidos, Peru, Alemanha, França e Turquia, contando com mais de cento e cinquenta mil pedidos de refugio de imigrantes vindos principalmente da Venezuela, Haiti e Síria, com participação também expressiva de países como Cuba, Angola e Colômbia.[91]

Pessoas autorizadas a trabalhar no Brasil oriundas de países norte-americanos em 2009.
  4040 pessoas.
  684 pessoas.
  368 pessoas.
Pessoas autorizadas a trabalhar no Brasil oriundas de países europeus em 2009.
  2 528 a 648 pessoas.
  523 a 184 pessoas.
  177 a 50 pessoas.
Países europeus e levantinos de onde houve imigração significativa para o Brasil, início da metade do século XX.
  1º
  2º
  3º
  4º
Total de estrangeiros autorizados a trabalhar no Brasil por estado em 2009.
Pessoas autorizadas a trabalhar no Brasil por origem em 2009. Organizadas por maior ascendência.
  Estadunidense
  Italiano
  Português
  Chinês
  Espanhol
  Cubano
  Inglês
  Alemão
  Francês
  Japonês

Imigrantes atuais no Brasil por país de origem

Colocação País Total
1 BolíviaBolívia 38 826 (censo de 2010);[75] 50 240[18] 350 000[92] - 550 000[93] (outras estimativas)
2 PortugalPortugal 137 973[84] 277 727[18]
3 Estados UnidosEstados Unidos 70 000[94]
4 HaitiHaiti 50 000[95]
5 JapãoJapão 49 038[75] 91 042[96]
6 VenezuelaVenezuela 30 000 a 60 000 (estimativas de 2018)[97]
7 ParaguaiParaguai 39 222[75]
8 ItáliaItália 37 146[75] 73 126[18]
9 EspanhaEspanha 30 723[75] 59 985[18]
10 ArgentinaArgentina 29 075[98] 42 202[18]
11 ChileChile 28 371[99]
12 UruguaiUruguai 24 031[75]
13 PolóniaPolônia 22 467
14 PeruPeru 20 000
15 AlemanhaAlemanha 16 227[75]
16 CubaCuba 14 462[100]
17 UcrâniaUcrânia 10 234
18 ChinaChina 9 227
19 AngolaAngola 5 000
20 LíbanoLíbano 4 974
21 ColômbiaColômbia 4 159[101]

Solicitantes de refúgio no Brasil em 2018

Os dados são dentre os meses de janeiro a abril do mesmo ano.[102]

Colocação País Total
1 VenezuelaVenezuela 14 449
2 HaitiHaiti 1 428
3 CubaCuba 733
4 ChinaChina 461
5 BangladeshBangladesh 326

Grupos étnicos imigrantes

Imigrantes portugueses

Ver artigo principal: Imigração portuguesa no Brasil
Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, fundado por um grupo de imigrantes portugueses. É a maior biblioteca de autores portugueses fora de Portugal.[103]

Os portugueses representam o maior contingente de imigrantes entrados no Brasil. O censo de 2010 encontrou 137 973 portugueses no Brasil,[75] concentrados nos grandes centros urbanos, com destaque especial para o Rio de Janeiro e São Paulo.

O fluxo imigratório português teve início ainda no século XVI, durante o Ciclo do Açúcar, e se acelerou a partir do Ciclo do Ouro (século XVIII), mantendo-se relativamente elevado até a década de 1950. A partir daí, os portugueses passaram a emigrar para a França, Alemanha e outros países europeus, graças à recuperação econômica do continente. Na década de 1970, devido ao processo de descolonização, o Brasil recebeu uma onda de imigrantes portugueses provenientes, principalmente, das ex-colônias portuguesas na África (Angola e Moçambique).

Imigrantes italianos

Ver artigo principal: Imigração italiana no Brasil

A imigração italiana no Brasil foi intensa, tendo como ápice a faixa de tempo entre os anos de 1880 e 1930. A maior parte do Imigrantes Italianos foram para São Paulo, Minas Gerais e para estados da região sul do Brasil: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

São Paulo tornou-se o maior pólo receptor de italianos, que inicialmente se encaminharam para as zonas cafeicultoras do interior. Em pouco tempo, entretanto, acabaram por migrar para a capital, vindo a se constituir uma importante mão de obra para a indústria que então se iniciava na cidade.

Os italianos influenciaram muito na cultura, arquitetura, música e até na forma do paulistano falar. Durante muito tempo, na maioria dos bairros da cidade de São Paulo, se falava mais italiano e dialetos mediterrâneos (Língua vêneta, Língua napolitana etc) do que o próprio português. Com o tempo e com o nascimento dos filhos oriundis, isso acabou influenciando a criarem uma espécie de dialeto que usa expressões e palavras em italiano e dialetos, misturado a palavras em português, criando um "Paulistanês" ainda hoje muito falado em bairros tradicionais de imigrantes italianos principalmente pelos Mooquenses (Moradores do bairro da Mooca).

Nos bairros de maior concentração de imigrantes e descendentes, como Brás, Bixiga e Mooca foram, fortemente mantidas, as tradições culturais e principalmente religiosas dos colonos, que mantinham sua fé e cultura através de reuniões nos clubes e festas de rua, com muita comida, bebida e música típica italiana.

No Brás, é feita uma das mais tradicionais festas de imigrantes italianos de São Paulo, A Festa de Nossa Senhora de Casaluce, organizada desde de 1900 pelos italianos e descendentes da região de Napoli. Também no bairro do Brás é feita a festa de San Vito Mártir, o padroeiro da cidade de Polignano a Mare, da região da Puglia, que foi trazida para cidade de São Paulo por imigrantes vindos do sul da Italia.

Na Mooca, a festa tradicional e de extrema devoção católica é para "San Gennaro", Santo padroeiro de Nápoles e de boa parte da Campânia, que é a terra de muitos dos imigrantes que se instalaram na Mooca. Além de ser o santo padroeiro do bairro, San Gennaro é padroeiro de Little Italy (Manhattan), bairro dos imigrantes italianos de Nova York; da Società Sportiva Calcio Napoli; e do Clube Atlético Juventus da Mooca.

No Bixiga, a festa dos italianos é a festa de Nossa Senhora Achiropita, realizada todos os anos durante os fins de semana de agosto e comemorada desde 1926 por imigrantes e descendentes de italianos da região da Calábria, no sul da Itália.

Os italianos deixaram suas marcas em todos os lugares que passaram, influenciando hábitos alimentares e linguísticos em todas as regiões onde se estabeleceram.

Imigrantes espanhóis

Ver artigo principal: Imigração espanhola no Brasil

Depois dos portugueses e italianos, é o terceiro maior contingente imigratório do Brasil. Fixando-se principalmente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, iniciaram suas atividades em fazendas, mas acabaram por migrar para as cidades. Atualmente, tal como os portugueses, os espanhóis têm migrado para países europeus, sendo restrita sua participação entre os imigrantes que chegaram após 1970.[104]

Imigrantes alemães

Ver artigo principal: Imigração alemã no Brasil
Gramado, uma cidade marcada pelos traços alemães.

As primeiras levas de imigrantes alemães chegaram em 1824 e, desde então, deram preferência à região Sul do Brasil, onde fundaram a colônia de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. A partir de 1850, foram se instalando em Santa Catarina, sobretudo no vale do Itajaí, onde surgiram Brusque, Joinville e Blumenau, cidades de marcantes características alemãs. Atualmente, a cidade de São Paulo, sobretudo o bairro de Santo Amaro,[105] e os três estados sulinos abrigam quase a totalidade dos imigrantes alemães e seus descendentes brasileiros.[105]

Imigrantes japoneses

Ver artigo principal: Imigração japonesa no Brasil

A imigração japonesa teve início em 1908, quando aportou no Brasil o navio Kasato Maru, com 165 famílias a bordo. Estabeleceram-se inicialmente no estado de São Paulo e depois no Pará, onde se desenvolve importante núcleo produtor de pimenta-do-reino (Tomé-Açu). Fixaram-se principalmente em colônias rurais, onde introduziram importantes inovações na indústria de hortifrutigranjeiros. Na cidade de São Paulo, foram se concentrando num bairro — a Liberdade —, que adquirindo características de sua cultura, perceptíveis principalmente nas ruas e cartazes. Além disso, instalados no cinturão verde em torno da cidade, são responsáveis pela maior parte do estabelecimento de frutas, legumes, verduras, aves e ovos para a população da metrópole paulista.

Atualmente, estima-se em mais de 1 milhão e 200 mil os japoneses e seus descendentes até a quarta geração vivendo no Brasil.[106]

Outros grupos imigrantes

Entre os do leste europeu, o maior destaque numérico cabe aos poloneses e ucranianos, que se fixaram, em sua maioria, no Paraná, dedicando-se à agricultura e pecuária.

Os sírio-libaneses (árabes) distribuem-se por todo o território nacional, dedicando-se a atividades predominantemente urbanas, como o comércio e a indústria. Vieram principalmente na segunda metade do século XIX e na primeira década do século XXI, mais precisamente em 2006, devido à segunda guerra do Líbano.

Os judeus, sobretudo de origem alemã e eslava, vieram para o Brasil principalmente às vésperas e durante a Segunda Guerra Mundial dirigindo-se para o Sul e o Sudeste. Passaram a dedicar-se, como os árabes, a atividades urbanas (especialmente comércio e indústria).

Os Brasil passou a receber, durante os anos 1970, um expressivo número de sul-americanos, principalmente paraguaios, bolivianos, uruguaios, argentinos e chilenos. Nos anos 1980, o fluxo maior passou a ser de coreanos e chineses, sobretudo de Formosa, mas estes, como os latino-americanos, vivem em boa parte clandestinamente, uma vez que sua presença é impossibilitada por leis que estabelecem cotas máximas de imigrantes por nacionalidade[carece de fontes?].[107] Dados da prefeitura de São Paulo indicam que há cerca de 100 mil coreanos e descendentes vivendo no Brasil, grande parte deles na cidade de São Paulo.[108]

Já os russos se estabeleceram em Ponta Grossa, Paraná,[109][110] e os austríacos, em Treze Tílias, Santa Catarina.[111][112]

Dentre as regiões brasileiras, as que mais receberam imigrantes foram a Sul e a Sudeste, e principalmente o estado de São Paulo, que recebeu quase a metade dos imigrantes entrados no Brasil. Apenas na capital paulista, há imigrantes de mais de cem nacionalidades diferentes.

Atualmente, o ciclo migratório têm-se invertido, e o Brasil, que sempre recebeu imigrantes, passou a partir da década de 1980 do século XX por uma fase de surto emigratório. As diversas crises sócio-econômicas do país têm levado parcelas da população a procurarem saídas no exterior, especialmente nos Estados Unidos e na Europa. A melhoria econômica recente no Brasil com a moeda forte, aliada a outros fatores como a xenofobia crescente em diversos países, contribuem para um processo de retorno de levas de emigrados brasileiros (especialmente dos Estados Unidos, que passam por uma crise econômica) e a redução do fluxo emigratório observado até 2003.

Políticas de imigração do Brasil

Política de branqueamento do país

Ver artigo principal: Branqueamento racial

No final do século XIX, houve a disseminação no Brasil de conceitos de superioridade racial que tinham se desenvolvido e adquirido grande prestígio no exterior. O pensamento científico brasileiro da época, que era fortemente marcado pelo positivismo, adotou "teses científicas" de darwinismo social e eugenia racial para defender o branqueamento da população como fator necessário para o desenvolvimento do Brasil. A elite social e política brasileira, que era majoritariamente branca, passou a considerar como certo que o país não se desenvolvia porque sua população era, em sua grande maioria, composta por negros e mestiços. A imigração não era considerada somente um meio de suprir a mão de obra necessária na lavoura, ou de colonizar o território nacional coberto por matas virgens, mas também com meio de "melhorar" a população brasileira pelo aumento da quantidade de europeus.[113]

Refletindo o ideal de branqueamento, João Batista de Lacerda, diretor do Museu Nacional, e único sul-americano a apresentar um relatório no I Congresso Universal de Raças, em Londres, no ano de 1911, afirmou que: "no Brasil já se viram filhos de métis apresentarem, na terceira geração, todos os caracteres físicos da raça branca[...]. Alguns retêm uns poucos traços da sua ascendência negra por influência dos atavismo(…) mas a influência da seleção sexual (…) tende a neutralizar a do atavismo, e remover dos descendentes dos métis todos os traços da raça negra(…) Em virtude desse processo de redução étnica, é lógico esperar que no curso de mais um século os métis tenham desaparecido do Brasil. Isso coincidirá com a extinção paralela da raça negra em nosso meio".

A proposta de "branqueamento" da população brasileira com imigrantes europeus sempre foi apresentada como se fosse ciência comprovada. Entre seus defensores destacaram-se principalmente os médicos como Sílvio Romero em Pernambuco, Nina Rodrigues na Bahia e João Francisco Lacerda no Rio de Janeiro,[114] além do sociólogo Francisco José de Oliveira Viana, autor do livro clássico "Populações Meridionais do Brasil", publicado em 1918.[115] Nina Rodrigues, considerado o criador da Medicina Legal brasileira, escreveu nesta época: "a civilização ariana está representada no Brasil por uma fraca minoria da raça branca a quem ficou o encargo de defende-la (…) (dos) atos anti-sociais das raças inferiores…".

As políticas de imigração brasileira foram fortemente influenciadas pelas propostas de branqueamento que impregnaram o imaginário social e político brasileiro durante a primeira metade do século XX.[114] Deve-se ressaltar que esta política de imigração não foi típica do Brasil, mas comum em quase todos países das Américas, Oceania e, até, da Africa colonizados com população de origem europeia. Em geral, estes países, como por exemplo os Estados Unidos, restringiram até a entrada de imigrantes do sul da Europa (sul-italianos, espanhóis, portugueses, gregos, etc) enquanto beneficiavam a entrada de imigrantes do norte da Europa (ingleses, escoceses, alemães, suecos, noruegueses, etc).

Apesar disto, houve quem sugerisse a vinda de imigrantes da África ou da China para suprir a falta de mão de obra no Brasil. Chegou até a haver uma incipiente imigração de chineses, porém não houve continuidade, pois apenas europeus eram considerados civilizados o suficiente para imigrarem para o Brasil.[116]

Como consequência da política de branqueamento, hoje a maior parte dos brasileiros possui um número maior de ascendentes europeus do que africanos ou ameríndios. Além disto, entre os grupos brancos há um número maior de ascendentes negros do que em outros países.[117]

Primeiras leis de imigração da República

Em 1890, o presidente Deodoro da Fonseca e o ministro da Agricultura Francisco Glicério assinaram o decreto no 528 que determinava que a entrada de imigrantes da África e da Ásia dependeria da autorização do Congresso Nacional. O mesmo decreto não restringia, até incentivava, a imigração de europeus. O decreto teve que ser revogado em 1907 para permitir a entrada de imigrantes japoneses.[38]

Em 1902, o governo da Itália emitiu o decreto Prinetti que proibiu a imigração subsidiada de italianos para o Brasil. As fazendas de café sentiram a falta de trabalhadores com a diminuição da chegada de imigrantes e, então, o governo brasileiro passou a aceitar o recebimento de imigrantes japoneses, que se iniciou em 1908.

Lei de Cotas

Durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1933, a ideia de "branqueamento" da população brasileira com imigrantes europeus foi defendida pelos médicos e deputados Miguel Couto (eleito pelo então Distrito Federal), Artur Neiva da Bahia e Antonio Xavier de Oliveira do Ceará. Juntos, eles pediam, principalmente, o fim da imigração dos degenerados "aborígenes nipões" (japoneses).[115]

O resultado foi a aprovação por larga maioria de uma lei que estabelecia cotas de imigração sem fazer menção a raça ou nacionalidade, e proibia a concentração populacional de imigrantes. Segundo o texto constitucional, o Brasil só poderia receber, por ano, no máximo 2% do total de imigrantes da cada nacionalidade que tinha imigrado nos últimos 50 anos. Apenas os portugueses foram excluídos dessa lei. Esta lei pouco afetou a imigração de europeus, como italianos e espanhóis, que já tinham entrado em grande quantidade no Brasil e cujo fluxo migratório era descendente. Entretanto, o regime de cotas, que irá vigorar até a década de 1980, restringiu a imigração de japoneses, assim como, futuramente, a de coreanos e chineses.

Com isso, a imigração foi gradativamente decaindo. Com as crises econômicas, o Brasil deixou de ser um país atrativo para os imigrantes.

Proposta de fim de imigração de japoneses

A Assembleia Nacional Constituinte de 1946 votou uma emenda no 3165 proposta pelo deputado carioca Miguel Couto Filho que dizia apenas: "É proibida a entrada no país de imigrantes japoneses de qualquer idade e de qualquer procedência". Na votação final, houve um empate com 99 votos contra e 99 a favor. O senador Fernando de Melo Viana, que presidia a sessão constituinte, exerceu então o voto de Minerva recusando a emenda. Por apenas um voto, a imigração de japoneses não foi proibida pela Constituição de 1946.[115]

Brasil: incentivo à imigração de mão de obra qualificada

Em 26 de julho de 2012, a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, por meio da portaria Nº 50, de 25 de julho de 2012, publicada no Diário Oficial da União, institui um Grupo de Trabalho para desenvolver estudos sobre a questão da imigração no Brasil. Está sendo feita uma análise do potencial do fluxo migratório, sua importância para o desenvolvimento do País e as formas de estimulá-lo. Com isso, pretende-se reunir subsídios para a formulação de propostas que possam aprimorar a política nacional de imigração existente e os projetos em tramitação sobre o tema.

Em uma breve análise histórica, estudo mostra o país chegou a ter 7,3% de sua população composta por imigrantes. Hoje tem apenas 0,3%. A população brasileira atual é 10 vezes maior que a população do início do século XX, mas o número de imigrantes no Brasil equivale à metade do existente em 1900.

Dentre as razões da ampliação de mão de obra estrangeira, em especial a qualificada, está o de se evitar o aumento dos custos de produção, facilitar a incorporação de novas tecnologias e inovação e favorecer o ambiente plural e meritocrático.

Impacto da imigração

A população brasileira foi formada pela união de seus habitantes indígenas aos milhões de imigrantes que chegaram ao longo de quinhentos anos. A diversidade étnica e cultural do Brasil deve-se em grande parte às diversas nacionalidades que escolheram ou foram obrigadas (no caso dos africanos subsaarianos) a emigrar. A miscigenação de diferentes raças compõe, assim, o rico mosaico étnico-cultural brasileiro.

Imigração para o Brasil, por nacionalidade e períodos[23]
Nacionalidade Período Total
1884-1893 1894-1903 1904-1913 1914-1923 1924-1933 1934-1944 1945-1949 1950-1954 1955-1959
Alemães 22 778 6 698 33 859 29 339 61 723 N/D 5 188 12 204 4 633 176 422
Espanhóis 113 116 102 142 224 672 94 779 52 405 N/D 4 092 53 357 38 819 683 382
Italianos 510 533 537 784 196 521 86 320 70 177 N/D 15 312 59 785 31 263 1 507 695
Japoneses - - 11 868 20 398 110 191 N/D 12 5 447 28 819 188 723
Portugueses 170 621 155 542 384 672 201 252 233 650 N/D 26 268 123 082 96 811 1 391 898
Sírios e Libaneses 96 7 124 45 803 20 400 20 400 N/D N/A N/A N/A 189 727
Outros 66 524 42 820 109 222 51 493 164 586 N/D 29 552 84 851 47.599 596.647
Total 979 572 852 11 1 006 617 503 981 713 132 N/D 92 412 338 726 247 944 4 734 494

Imigração para o Brasil de 1820 a 1975:

Data Imigrantes
1820 a 1829 7251
1830 a 1839 1507
1840 a 1849 2877
1850 a 1859 108045
1860 a 1869 108098
1870 a 1879 180800
1880 a 1883 105507
1884-1893 979572
1894-1903 852011
1904-1913 1006617
1914-1923 503981
1924-1933 713132
1934-1944 199089
1945-1949 92412
1950-1954 338726
1955-1959 247944
1960-1975 227000
Total 5.674.569[118]
População estrangeira, não naturalizada, nos censos de 1900 e 1920.[119]
Estado Período
População estrangeira (1900) Porcentagem da população População estrangeira (1920) Porcentagem da população
São Paulo 476 778 20,89% 820 567 17,87%
Distrito Federal 195 894 24,14% 235 300 20,32%
Rio Grande do Sul 129 329 11,26% 136 076 6,23%
Minas Gerais 90 319 2,51% 80 061 1,36%
Rio de Janeiro 49 823 5,38% 48 401 3,10%
Paraná 39 457 12,06% 59 119 8,52%
Santa Catarina 21 179 6,61% 23 274 3,48%
Espírito Santo 20 124 9,59% 16 976 3,71%
Mato Grosso 95 0,08% 25 086 10,17%
Pará 2.201 0,5% 22 089 2,2%
Resto do Brasil 49 312 menos de 1% 46 208 menos de 1%
Total 1 074 511 6,2% 1 513 635 4,94%

No tocante ao período da "grande imigração", ocorrido entre 1880 e 1920, os censos de 1900 e 1920 mostram que cerca de 80% da população estrangeira no Brasil se concentrava nos estados da região Sudeste, zona mais rica do Brasil, onde estavam as melhores ofertas de trabalho. Os estados de São Paulo e a então capital, o Rio de Janeiro, eram os maiores receptores de imigrantes, sendo que os estrangeiros chegaram a compor 24,14% da população do Rio de Janeiro e 20,89% de São Paulo no ano de 1900. Os outros dois estados do Sudeste, Minas Gerais e Espírito Santo, também contavam com significativa presença estrangeira. Os outros 20% dos estrangeiros residentes se concentravam sobretudo nos estados do Sul, especialmente no Rio Grande do Sul. No resto do Brasil, a presença de estrangeiros era bastante reduzida, correspondendo a menos de 1% da população local.[119] A única exceção foi o estado do Pará, no extremo Norte, que recebeu significativo número de comerciantes portugueses nos primeiros anos do século XX.[120]

Em relação à nacionalidade, em praticamente todos os estados a maioria absoluta dos estrangeiros era proveniente da Europa. A única exceção era o estado do Mato Grosso, no qual a nacionalidade estrangeira mais numerosa em 1920 era a paraguaia. Na maioria dos estados, os italianos eram o grupo estrangeiro mais numeroso, com exceção da cidade do Rio de Janeiro e do estado homônimo, bem como do Pará, nos quais os portugueses eram os mais numerosos. As nacionalidades estrangeiras mais numerosas no Brasil eram a italiana, portuguesa, espanhola e alemã. Além dos europeus, havia uma presença notável de pessoas oriundas do Oriente Médio (da Síria e do Líbano), bem como do Japão. No Rio Grande do Sul, a comunidade uruguaia também era notável.[119]

Demógrafos brasileiros há muito tempo analisam o impacto demográfico que teve a onda de imigração para o Brasil nos séculos XIX e XX. De acordo com Judicael Clevelário,[121] a maioria dos estudos sobre o impacto da imigração têm seguido as conclusões de Giorgio Mortara das décadas de 1940 e 1950. Mortara concluiu que apenas cerca de 15% do crescimento demográfico do Brasil, de 1840 e 1940, deveu-se à imigração, e que a população de origem imigrante (imigrantes e descendentes) era de 16% da população total do Brasil.[122]

No entanto, de acordo com Clevelário, Mortara não levou devidamente em conta o crescimento endógeno total da população de origem imigrante,[123] devido à fixação predominantemente rural dos imigrantes (regiões rurais tendem a ter taxas superiores de natalidade que cidades). Clevelário, pois, além de ampliar os cálculos até 1980, os refez, chegando a conclusões um pouco diferentes.

Um dos problemas no cálculo do impacto da imigração é que as taxas de retorno dos imigrantes são desconhecidas. Clevelário fixou quatro diferentes hipóteses sobre as taxas de retorno. A primeira, que ele considera alta demais, é que 50% dos imigrantes voltaram a seus países de origem. A segunda é baseada na obra de Arthur Neiva, que supõe que a taxa de retorno do Brasil foi maior do que a dos Estados Unidos (30%), mas menor do que a da Argentina (47%). A terceira hipótese é de Mortara, que postula uma taxa de 20% para o século XIX, 35% para as duas primeiras décadas do século XX, e 25% para 1920. Embora o próprio Mortara considerava esta hipótese subestimada, Clevelário pensa que é mais próximo da realidade. A última hipótese, também sendo irrealista, coloca uma taxa de retorno de 0%.[124]

As conclusões de Clevelário são as seguintes: considerando a hipótese 1 (irrealisticamente baixa), a população de origem imigrante em 1980 seria de 14.730.710 pessoas, ou 12,38% da população total. Considerando a hipótese 2 (com base em Neiva), seria de 17.609.052 de pessoas, ou 14,60% do total da população. Considerando a hipótese 3 (com base em Mortara e considerada mais realista), seria de 22.088.829 de pessoas, ou 18,56% do total da população. Considerando a hipótese 4 (sem retorno nenhum), a população de origem imigrante seria de 29.348.423 pessoas, ou 24,66% do total.[125] Clevelário acredita que o número mais provável é de cerca de 18%, superior à estimativa anterior de Mortara de 1947.[126]

Segundo pesquisa de 2016 publicada pelo IPEA, em um universo de 46.801.772 nomes de brasileiros analisados, 18% deles tinham ao menos um sobrenome de origem não ibérica (germânico, italiano, leste europeu ou japonês).[127]

Línguas alóctones no Brasil

Ver artigo principal: Línguas do Brasil

Os estados de Santa Catarina[128][129][130] e Rio Grande do Sul possuem o Talian como patrimônio linguístico aprovado oficialmente no estado.[131] Além do Talian, o Rio Grande do Sul também possui o Riograndenser Hunsrückisch como patrimônio estadual,[132][133] enquanto o Espírito Santo possui as línguas pomerana, junto com a língua alemã, como patrimônios culturais estaduais.[134][135][136]

Há no Brasil estações de rádio em língua pomerana[137] e talian.[138] Em 2013 foi lançada no Brasil a revista Brasil Talian, que busca divulgar a língua talian.[139][140]

Também está em fase de produção o vídeo-documentário Brasil Talian,[141] com direção e roteiro de André Costantin e a produção executiva do historiador Fernando Roveda.[142] O pré-lançamento ocorreu em 18 de novembro de 2011, data que marcou o início da produção do documentário.[143][144]

Em Holambra (São Paulo) o holandês também é ensinado nas escolas, embora não seja co-oficial no município.[145][146] Há também diversos bairros étnicos no país, especialmente no Sul e no Sudeste: Alguns exemplos são Colônia, bairro alemão que surgiu através da Colônia Paulista, no distrito de Parelheiros;[147][148] Liberdade, reduto de imigrantes japoneses,[149][150] e Bixiga, reduto de imigrantes italianos,[151][152] ambos na cidade de São Paulo, enquanto no município de Piracicaba, os bairros Santa Olímpia e Santana, redutos de tiroleses, formam a Colônia Tirolesa de Piracicaba.[153][154] Já em Minas Gerais, há uma colônia pomerana no distrito de Vila Neitzel, em Itueta.[155][156][157]

Estados brasileiros que possuem patrimônios linguísticos aprovados oficialmente em âmbito estadual

Municípios brasileiros que possuem língua co-oficial talian (ou dialeto vêneto)

Rio Grande do Sul

Municípios em que a língua pomerana é co-oficial no Espírito Santo.
Municípios brasileiros que possuem língua co-oficial pomerana (ou Pommersch)
Espírito Santo
Santa Catarina
Rondônia
Municípios que oficializaram o ensino da língua pomerana (ou Pommersch)
Rio Grande do Sul
Municípios brasileiros que possuem língua co-oficial hunsriqueana (ou Hunsrückish)
Santa Catarina
Rio Grande do Sul
Municípios brasileiros que oficializaram o ensino da língua alemã
Rio Grande do Sul
Santa Catarina
Municípios brasileiros que oficializaram o ensino da língua italiana
Espírito Santo
Paraná
Rio Grande do Sul
Santa Catarina
São Paulo

Enclaves étnicos brasileiros sem uma legislação específica para a proteção da língua

Ainda há reconhecidas no Brasil diversas colônias formadas por imigrantes, que vieram a formar município, distritos ou bairros étnicos. Tais enclaves formam regiões, que embora ainda não tenham uma legislação específica para a proteção da língua alóctone, continuam sendo um reduto cultural de diferentes etnias. Algumas regiões são:

Amazonas
Tabatinga
  • os colombianos são a nacionalidade mais representativa do município, que guarda laços estreitos com o país vizinho.
Espírito Santo
Minas Gerais
Mato Grosso do Sul
Ponta Porã
  • município que faz fronteira seca com a cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero, tendo na nacionalidade paraguaia a maioria dos seus imigrantes e sendo influenciando grandemente pelo país vizinho em diversos aspectos culturais, como na culinária, na música e sobretudo no hábito do tereré [214]
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